terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A perda de hegemonia americana

O que acontece quando a maior potência militar do mundo reduz seu orçamento bélico pela primeira vez?
O fim de uma hegemonia.

O Pentágono (órgão militar dos Estados Unidos) vai cortar US$ 487 bilhões de seu orçamento entre 2013 e 2023. Como? Vai reduzir as tropas de solo em cerca de 100 mil homens e as compras de submarinos, navios e caças F-35.

O secretário de Defesa do governo Barack Obama, Leon Panetta, afirmou na semana passada que vai sugerir um orçamento de US$ 525 bilhões para o ano que vem, contra US$ 531 bilhões em 2012.

Os republicanos, é claro, reclamara da decisão.

Eles, quem diria, estão certos -- em parte, na realidade.

Uma potência militar não pode abrir mão de estar na vanguarda tecnológica no assunto, porque abre espaço para novos concorrentes (notadamente, a China). É claro que os gastos americanos em armamentos e inteligência militar são exagerados e, por vezes, irracionais (especialmente nas mãos de presidentes republicanos). Mas os cortes são sempre um sinal de troca de hegemonia.

Os Estados Unidos não têm mais, hoje, a hegemonia no campo das ideais, da cultura, aquela capaz de influenciar corações e mentes no mundo todo, seja por meio da música, do cinema, da política, da literatura, da culinária, dos pontos turísticos ou o que for.

O império americano foi hegemônico neste campo de 1913 até 2008.

Com a explosão da crise mundial, os Estados Unidos se viram recriminados, drasticamente, pelo resto do mundo. Foram eles, afinal, quem desencadearam esta crise mundial que abala a todos. O Japão começava a deixar uma longa letargia (1991-2007), a União Europeia consolidava lentamente seu projeto de integração, os latino-americanos cresciam e aprofundavam suas democracias, e os asiáticos disparavam.

Depois de quatro anos em crise, a União Europeia assistiu quatro de seus integrantes falirem, o Japão enfrenta grave depressão e pela primeira vez em 31 anos registra déficit comercial, a América Latina perde força e a Ásia, o motor do mundo, desacelera.

Pancadas como o WikiLeaks, que escancararam para o mundo os acordos espúrios feitos pelas embaixadas norte-americanas no mundo todo, também não ajudaram.

Restava, então, o poder dominante -- a supremacia militar, capaz de esmagar qualquer país do mundo, ou vários ao mesmo tempo.

O Império Romano, antes de ruir em 1453, ainda resistiu por muitos anos justamente devido a seu poder militar. Da mesma forma, no oriente, o Império Otomano, que ruiu em 1923.

Antes de ruírem, os impérios sobrevivem apenas por seu poder militar.

Ao anunciar o início de um processo de enfraquecimento militar, a partir de 2013, os Estados Unidos dão um forte sinal de que sua hegemonia total está para acabar.

O século americano pode ter durado, portanto, de 1913 a 2013.

O livro que escrevo conta exatamente isso.

Preparem-se.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

domingo, 29 de janeiro de 2012

Domingo

Não, não sou eu, é alguém mais que sofre.
Eu não teria podido. Panos negros de lã cubrem
O que se passou,
E levem embora os lampiões...
Noite.


Anna Akhmátova, poeta russa.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fim de expediente

Mestre Horace Silver ao piano, no festival Newport, em 1959.

Seu quinteto interpreta a maravilhosa "Señor Blues". Silver estava no ápice.

Você, caro leitor, não encontrará Jazz melhor.


quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Locaute na indústria paulista

Os trabalhadores da indústria paulista vão cruzar os braços por um dia logo após o Carnaval, na última semana de fevereiro, em protesto contra a forte entrada de manufaturados importados. Os industriais não devem se incomodar – pelo contrário, a greve geral deve contar com a boa vontade dos empresários. O comércio varejista pode acompanhar. O arranjo dessa manifestação será fechada hoje, em São Paulo, em duas reuniões entre empresários e sindicalistas.


Na primeira reunião, hoje cedo, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, discute os planos da greve geral com os presidentes de cinco centrais sindicais, capitaneadas pela Força Sindical, e pelo maior sindicato da capital, o Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo. Em seguida, os sindicalistas, desta vez liderados pelo Sindicato dos Comerciários de São Paulo, filiado à União Geral dos Trabalhadores (UGT), serão recebidos pelo empresário Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (Fecomercio).

Os encontros vão envolver empresários e os líderes das centrais Força Sindical, UGT, CTB, NCST e CGTB. Os sindicalistas representam na capital os 420 mil metalúrgicos, 480 mil comerciários, 35 mil prestadores de serviços em software e processamento de dados, os 80 mil motoristas de ônibus, além dos trabalhadores na indústria têxtil e de confecções, entre outros. Segundo apurou o Valor, os industriais estão “inclinados” a apoiar a greve geral dos sindicalistas, segundo uma fonte ligada à Fiesp. “Os importados estão reduzindo nosso ímpeto de contratações, e mesmo reduzindo produção e, portanto, também resultando em demissões”, disse o industrial.

O protesto será concentrado na Avenida Paulista, onde os sindicalistas esperam concentrar os trabalhadores com cartazes anti-importações. “O salário mínimo sobe forte, e impulsiona os salários no mercado de trabalho como um todo, mas este gás no consumo tem sido crescentemente convertido no consumo de importados”, afirma Miguel Torres, o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Paulo e Mogi das Cruzes. “A indústria está em uma encruzilhada”, diz Torres, “especialmente em São Paulo”.

Em novembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) registrou queda de 0,1% sobre o mês anterior no emprego industrial. O pior resultado foi apurado em São Paulo, que registrou forte queda de 3,7% entre outubro e novembro – 15 dos 18 setores pesquisados pelo IBGE registraram corte de pessoal. No acumulado entre janeiro e novembro, a indústria brasileira aumentou a produção em apenas 0,4%, de acordo com o IBGE.

***

Preparem-se para um mês quente.

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Interlúdio

"Amoureux de vence", de Marc Chagall.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O novo ministro de Ciência e Tecnologia

É o físico Marco Antônio Raupp.



Trata-se de um golaço do governo Dilma Rousseff, um gol tão importante quanto a decisão de Dilma, ainda na transição, em dezembro de 2010, de elencar o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) como um dos pilares da equipe econômica.

Pouca gente nos jornais, e, principalmente, na sociedade, entende a importância que o ministério têm e deveria ter num país como o nosso. Estamos perdendo rapidamente a indústria, o que é péssimo, ao mesmo tempo em que ascendemos, também de maneira muito veloz, ao mundo desenvolvido.

Uma área de coordenação para ciência, tecnologia e inovação, no governo federal, é central para os dois casos. Para sobreviver em um cenário de China e real valorizado, a principal perna de sustentação da indústria nacional deve ser a inovação tecnológica. Ao mesmo tempo, se queremos mesmo ascender ao mundo desenvolvido, a pesquisa em áreas de exatas e biológicas é crucial.

Raupp tem o melhor perfil possível para assumir a pasta.

Ele é presidente licenciado da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e já foi o diretor-geral do Parque Tecnológico de São José dos Campos (SP), um dos principais parques de inovação tecnológica na indústria brasileira. Basta dizer que São José dos Campos, no interior de São Paulo, é a cidade onde estão as plantas da Embraer e da Honda.

Além disso, Raupp já tinha impressionado Dilma em 2010, quando se conheceram. A presidente escolheu o físico para assumir a complexa tarefa de reorganizar totalmente o Programa Espacial Brasileiro. No Palácio do Planalto ouvi que a atuação de Raupp à frente do programa foi excelente.

Raupp terá uma missão ainda mais complexa que todas as outras somadas.

A atuação de Aloizio Mercadante à frente do ministério, de janeiro de 2011 até amanhã, foi surpreendentemente boa. A própria Dilma se surpreendeu com o "enorme comprometimento" de Mercadante com a causa. Derrotado nas eleições para o governo de São Paulo em 2010, e chamuscado junto a petistas por sua atuação titubeante como senador, especialmente em 2009, Mercadante elevou a pasta para o primeiro escalão da Esplanada.

Como repórter em Brasília desde maio de 2011 posso dar meu testemunho pessoal: foi exatamente isso.

Mercadante participou ativamente das principais discussões da equipe econômica em 2011, como a formulação do programa Brasil Maior e o debate sobre um novo regime automotivo, que deve incentivar o carro elétrico (temas que acompanhamos de perto cá no Blog no ano passado). Mercadante se aproximou dos centros tecnológicos e de pesquisa, de especialistas na área e bolou algumas ideias, que vão começar a sair neste ano. Além das bolsas do Ciência Sem Fronteiras, a principal ideia (e a que mais anima este blogueiro) é a Embrapii, a "Embrapa da indústria". Fui o primeiro jornalista a tratar do tema, numa matéria enorme que o Valor publicou no início de setembro, anunciando os planos da Embrapii, numa matéria que recebeu grande destaque no jornal.

A atuação de Mercadante foi tão forte que ele, um tanto escanteado por Dilma na definição da Esplanada, em dezembro de 2010, virou o principal nome para a substituição de Fernando Haddad no Ministério da Educação. A troca ocorrerá amanhã: Mercadante assume Educação e passa Ciência e Tecnologia para Raupp.

Raupp terá, agora, de elevar o perfil técnico da Pasta, sem deixar a política de lado -- muito do sucesso de Mercadante veio de seu jogo de cintura político.

***

Justiça seja feita: em O Globo de quarta-feira da semana passada, 18 de janeiro, os repórteres Roberto Maltchik e Gerson Camarotti anteciparam a informação que Raupp seria o substituto de Mercadante.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

E como antecipou o Blog...

...Maria das Graças Foster foi oficializada hoje como nova presidente da Petrobras, a maior empresa do Brasil. Foster será referendada como presidente na próxima reunião do Conselho de Administração da companhia, no dia 13 de fevereiro, mas hoje, Guido Mantega, o presidente do conselho e também ministro da Fazenda, teve de antecipar sua nomeação, graças às matérias na imprensa (entenda-se: Cristiana Lôbo, na Globonews, e o blogueiro com Fernando Exman, no Valor).

Também, como antecipou o Valor, Gabrielli irá para o governo Jacques Wagner (PT), na Bahia, provavelmente para ocupar a Secretaria de Planejamento.

E la nave va...

79 meses depois, Gabrielli deixa a presidência da Petrobras

Presidente mais longevo da Petrobras, José Sérgio Gabrielli deve deixar o comando da estatal no próximo dia 12. Em seu lugar, deve assumir a atual diretora da Área de Negócios de Gás e Energia, Maria das Graças Foster, uma escolha pessoal da presidente Dilma Rousseff.

No fim de semana, Gabrielli foi convidado a comandar, a partir de março, uma secretaria do governo de Jacques Wagner (PT) na Bahia. A ideia é que ele atue no Estado, uma vez que sua ambição é disputar, pelo PT, a eleição de 2014 para tentar suceder Wagner.

As mudanças na Petrobras foram decididas pela presidente Dilma e acertadas, há duas semanas, com o governador da Bahia. O Conselho de Administração da estatal deve se reunir nos próximos dias 12 e 13 para oficializar a substituição. Gabrielli preside a estatal, a quarta maior empresa de energia do mundo, desde julho de 2005.

Com as mudanças, o governador Wagner vai ter em sua equipe os dois principais pré-candidatos petistas à sua sucessão: além de Gabrielli, o atual secretário da Casa Civil, Rui Costa, é nome forte no PT da Bahia, um “petista querido por Wagner”, como definiu uma fonte do PT nacional.

“Ele [Gabrielli] precisa deixar de ser um nome nacional, que vive no Rio de Janeiro [sede da Petrobras] e em Brasília, para viver e trabalhar na Bahia”, disse Wagner a aliados petistas. O candidato petista para as eleições na capital do Estado, Salvador, neste ano, é Nelson Pellegrino, também aliado do trio Wagner, Gabrielli e Costa.

***

Matéria que o blogueiro e Fernando Exman assinam no Valor de hoje.

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O furo de que Gabrielli deixaria a Petrobras foi de Cristiana Lôbo, no sábado à noite. A informação de que ele vai para o governo da Bahia, já em março, é do blogueiro.

E, assim, o jornalismo avança :-)

domingo, 22 de janeiro de 2012

Domingo

A gramática, a mesma árida gramática, transforma-se em algo parecido a uma feitiçaria evocatória; as palavras ressuscitam revestidas de carne e osso, o substantivo, em sua majestade substancial, o adjectivo, roupa transparente que o veste e dá cor como um verniz, e o verbo, anjo do movimento que dá impulso á frase.


Charles Baudelaire, poeta e flanêur francês do século XIX.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A taxa de juros no Brasil...

...ainda é a maior do planeta Terra.

Dizem, a sério, que em Plutão pratica-se uma taxa ligeiramente superior à Selic, nossa taxa básica de juros, mas isso porque o Banco Central (BC) ontem reduziu em mais 0,5 ponto percentual a taxa.

Hoje, a Selic é de 10,5% ao ano.

Em março, o BC deve voltar a cortar a Selic em 0,5 ponto, levando a taxa brasileira a 10% ao ano. A partir deste momento, o governo, aqui em Brasília, não sabe o que vai acontecer. O mercado lê os sinais dados pelo BC e entende que a taxa vai chegar a 9,5% ou no máximo 9% ao ano. Uma parte relevante do governo Dilma Rousseff vê condições para que a Selic caia ainda mais, enquanto outra entende que uma taxa de 9% ao ano, dada a inflação ainda pressionada em 2012, como uma taxa razoável.

Com uma inflação na casa dos 5,5%, que é quanto se espera do IPCA neste ano, uma taxa de juros nominal de 9% representa juros reais de 4,5%. Ainda um juro muito alto, mas mais próximo da realidade mundial.

O problema, no Brasil, é que a inflação roda em patamares muito elevados. Um IPCA de 5,9% em 2010, 6,5% em 2011 e digamos 5,5% em 2012 é muita coisa para um país que não está em ritmo tão acelerado assim.

Se a inflação fosse de 3,5% a 4% e a Selic de 6% a 6,5%, as condições para a indústria nacional -- que está desaparecendo -- seriam muito melhores.

Ainda temos tempo para evitar uma grave crise no fim desta década.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

A injustiça da Previdência

O Ministério da Previdência acaba de divulgar, aqui em Brasília, os dados finais da previdência brasileira em 2011.

Os 28 milhões de aposentados e pensionistas pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) representaram um déficit de R$ 36,5 bilhões.

Os 953 mil aposentados e pensionistas do setor público federal renderam um déficit de R$ 56 bilhões.

Este é um dos maiores absurdos do Brasil.

Como menos de 1 milhão de servidores federais aposentados consomem um déficit de R$ 56 bilhões enquanto 28 milhões de aposentados pelo setor privado representaram um déficit R$ 19,5 bilhões menor?

Sem comentários.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Vespeiro na saúde pública

O debate sobre a Saúde anda tão quente nesses dias de janeiro que até o senador Aécio Neves (PSDB-MG), que estava desaparecido desde novembro de 2010, voltou.

Ontem, em artigo para a Folha de S. Paulo, Aécio defendeu a posição do economista Edmar Bacha, um dos pais intelectuais do PSDB, que criticou a decisão do governo Dilma Rousseff de conceder um ágio de até 25% nos preços dos produtos de saúde produzidos no Brasil, medida que será anunciada ainda neste primeiro trimestre e foi antecipada por este blogueiro na edição de 02 de janeiro do Valor.

Hoje, como antecipei aqui no Blog, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, responde Bacha em artigo publicado no Valor, assinado junto a Carlos Gadelha, secretário de Ciência e Tecnologia do Ministério da Saúde.

Abaixo, o leitor do Blog encontra os artigos de Aécio e Padilha.

E o debate sobre a saúde no Brasil ganha mais gasolina...

***

Incoerência

Por Aécio Neves

Ninguém questiona a importância de o país adotar incentivos à produção nacional frente à grave ameaça de desindustrialização em curso. Alcançar esse objetivo exigirá de nós, no entanto, muito mais do que um esboço de política industrial que ignora a agenda da competitividade.

Chamam a atenção os remendos dos socorros pontuais a alguns poucos privilegiados. A mais recente iniciativa nesse sentido foi o anúncio de que o Ministério da Saúde planeja pagar até 25% a mais por máquinas e equipamentos médicos e hospitalares e produtos farmacêuticos produzidos no Brasil.

Causa perplexidade um ministério tão essencial como o da Saúde dispor-se a desembolsar a mais em suas compras sob o pretexto de corrigir o crescente descompasso entre a importação e a produção brasileira no setor.

Como destacou recentemente em artigo o economista Edmar Bacha, o governo promove, contra si mesmo, neste caso, o encarecimento do custo de uma área central, deslocando formidável volume de recursos de onde há permanente carência de investimentos e problemas intermináveis.

Outras medidas podem apoiar o setor de saúde, tornando-o mais competitivo, como a correta utilização dos recursos existentes para pesquisa e inovação.

Vejam o paradoxo: no ano passado, os fundos setoriais de fomento à inovação tiveram arrecadação de R$ 3,2 bilhões e apenas R$ 1,2 bilhão (37,5%) se transformaram em ações efetivas nessa área. O Fundo Setorial da Saúde -para capacitação e estímulo de novas tecnologias nas áreas de interesse do SUS- liberou somente cerca de R$ 19 milhões!

Políticas de compras governamentais devem servir para reduzir custos e não para aumentá-los! O próprio Ministério da Saúde tem uma experiência positiva, ao concentrar em um lote único a compra de medicamentos para alguns Estados e municípios, alcançando redução de preços e economia de recursos.

Da mesma forma, por vários anos, lançou mão do seu poder de compra para negociar com multinacionais a transferência de tecnologia para a produção de vacinas no Brasil. O incentivo não era pagar mais, e sim fornecer medicamentos para um ministério que compra bilhões todos os anos e tem enorme capacidade de negociação.

O próprio tamanho do nosso mercado e as perspectivas de crescimento são importantes incentivos naturais. É saudável que o Brasil tome providências que apoiem nossa indústria, mas, se adotada, essa medida será a mais nova das incoerências na administração federal.

Aécio Neves é senador da República.

***

Saúde na agenda industrial e do desenvolvimento

Por Alexandre Padilha e Carlos Gadelha

A saúde constitui uma área que alia, a um só tempo, a dimensão social e da cidadania com a econômica e da inovação. Mobiliza um amplo sistema produtivo que responde por 8,4% do Produto Interno Bruto (PIB), por 10% do emprego formal qualificado e uma atividade científica que participa com cerca de 25% das publicações nacionais. Esse sistema produtivo se move de acordo com os objetivos da sociedade para promover, prevenir e dar atenção à sua população.


A saúde não se tornou uma prioridade da política de desenvolvimento por comprar produtos de baixo valor ou "bugigangas". Ela constituiu uma prioridade por aliar alto potencial de inovação e por fazer parte de um projeto de sociedade que prioriza a construção de um sistema universal à população. Participa de todas as áreas que vão determinar o futuro de um país, como a biotecnologia, a nanotecnologia, a química fina avançada, a microeletrônica de precisão e os novos materiais, além do conhecimento utilizado nos serviços, desde células-tronco até a telemedicina. Essas áreas representam 22% do esforço mundial de inovação e quem ficar fora será dependente, frágil e subserviente. No Brasil, já representa cerca de 30% do espaço de inovação.

A saúde foi escolhida na política industrial e de inovação porque não se pode ter uma tecnologia totalmente importada para os ricos e uma rudimentar para os pobres, numa sociedade que tem um projeto que prioriza a dimensão social e a inovação como um meio para viabilizar o desenvolvimento. O déficit comercial do complexo da saúde de US$ 11 bilhões é desafio para um sistema que ampliou o atendimento, mas precisa ter a contrapartida da inovação. A vacinação rotineira, o maior número de transplantes do mundo, o programa contra Aids, entre outros, mostram que avançamos. O déficit, no entanto, revela que precisamos desenvolver a produção inovadora para garantir a sustentabilidade do acesso.

Nesse contexto, o uso do poder de compra do Estado é um instrumento poderoso para induzir o que é estratégico, pois o horizonte para o mercado é o principal fator que induz as empresas públicas e privadas a assumirem o risco de produção, seja ofertando um novo produto, verticalizando a produção ou ainda realizando atividades de pesquisa e desenvolvimento, até recentemente inexistentes no complexo da saúde brasileiro.

O uso do poder de compra vai além das margens de preferência previstas na Lei n º12.349, de 2011, que prevê a possibilidade de pagamento de um preço adicional para estimular a inovação, produção e o emprego no país em relação aos produtos importados. Ele, de fato, já vem sendo utilizado, com a centralização seletiva dos gastos para racionalizar e reduzir os preços e pelo estabelecimento de parcerias entre as instituições públicas e as empresas privadas que se comprometem a trazer e desenvolver novas tecnologias estratégicas e de alta qualidade.

Já foram firmadas 30 Parcerias para o Desenvolvimento Produtivo (PDPs) que se distinguem das PPPs tradicionais, pois envolvem desenvolvimento tecnológico conjunto, produção do que não era produzido no país, intercâmbio de conhecimentos para a inovação, não sendo meras formas de viabilizar o investimento em troca de terceirização com pagamentos por serviços. Todas são voltadas para produtos essenciais para programas como o de imunização, saúde da mulher, mental, doenças crônicas, aids e tuberculose, garantindo o suprimento onde, no passado, houve problemas de oferta e qualidade dos produtos importados.

Em vez de aumentar preços, essas parcerias permitem negociar reduções significativas e progressivas de preços na medida em que a tecnologia é transferida e desenvolvida. Somados medicamentos, vacinas e centralização de aquisição, estima-se que, em 2012, serão economizados mais de R$ 2 bilhões, trazendo, ao mesmo tempo, inovação e produção para o país e deixando de importar, quanto todas estiverem em operação, em torno de US$ 1 bilhão.

Neste contexto, a utilização das margens de preferência de até 25% são um instrumento adicional para garantir a produção nacional do que é importante e estratégico para o país, sendo altamente seletiva, temporária e aplicada para situações específicas de concorrência desleal de países que utilizam fatores espúrios de competitividade, como câmbio artificialmente desvalorizado, condições salariais, de trabalho e ambientais inaceitáveis, entre outros procedimentos que geram risco para as estruturas montadas com grande custo para a sociedade brasileira. Em paralelo, na agenda da saúde, está a discussão sobre a tributação do setor.

O fato de o país ter preservado a capacidade produtiva em saúde também permite outros ganhos como a gratuidade do programa Farmácia Popular, onde se pode negociar com os produtores no Brasil que o pagamento antes feito pelo cidadão passasse a ser coberto com redução das margens de lucro, sem qualquer acréscimo do valor unitário pago pelo governo. Detalhe: o acesso da população aos medicamentos para hipertensão e diabetes aumentou 273%, no primeiro ano do Saúde Não Tem Preço.

O poder de compra na saúde vem sendo talvez a forma mais bem sucedida e inovadora de uma política de Estado que alia inovação com proteção social e que economiza recursos públicos a curto, médio e longo prazo, ao tornar a estrutura econômica mais competitiva e tecnologicamente avançada. Ao invés de tornar o sistema de saúde mais caro, tem o efeito de torná-lo sustentável.

Em síntese, a política industrial e de inovação fazem bem à saúde, aos cofres públicos e ao desenvolvimento nacional. Está na hora de superarmos o complexo de vira-latas e assumirmos que podemos produzir, inclusive atraindo empresas internacionais, com qualidade e inovar no país num campo de alta tecnologia e interesse social.

Alexandre Padilha é ministro da Saúde.

Carlos Gadelha é secretário de Ciência e Tecnologia e Insumos Estratégicos do Ministério da Saúde. 

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

A situação da indústria brasileira

A indústria brasileira vai fazer em dois anos o que poderia, e deveria, ter feito em um. Apenas entre o fim deste ano e o início de 2013 que a produção industrial vai atingir o patamar onde deveria estar neste momento. Esta é a avaliação do economista David Kupfer, professor da UFRJ e um dos principais especialistas em indústria do país. Além de sua posição de destaque no debate sobre o tema, no Brasil, Kupfer também assumiu, este mês, a função de assessor econômico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Já está trabalhando na sede do banco, no Rio de Janeiro, de onde falou, pela primeira vez depois de assumir o cargo, ao Blog.


“Já que assistimos a uma parada, um tranco, em 2011, vamos aproveitar 2012 para arrumar a casa, e, assim, dar condições para um crescimento forte em 2013. É fundamental que aproveitemos essa chance de reduzir o custo do capital, por meio dos cortes nas taxas de juros, e que a taxa de câmbio permaneça em patamares mais desvalorizados, como está hoje”, afirma Kupfer, para quem o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano ficará próximo a 3,5%, resultado principalmente do consumo das famílias. “O consumo das famílias é o polo dinâmico da economia brasileira. É o que ocorre conosco, de maneira firme e sustentável, desde 2007, e será ainda mais verdade em 2012”, diz.

Segundo Kupfer, o saldo comercial não precisa mais ser tão elevado. “Macroeconomicamente não precisamos de um saldo de US$ 30 bilhões”, diz o economista, em referência ao saldo comercial de US$ 29,8 bilhões registrado em 2011. “Podemos ter saldos de US$ 5 bilhões a US$ 8 bilhões por ano sem nenhum custo. Podemos ter uma balança comercial mais equilibrada, para irmos às compras de mais tecnologia e de mais empresas no exterior”, afirma o especialista. Os principais trechos da entrevista:
 
Blog: Qual é o caminho da economia brasileira em 2012?


David Kupfer: O consumo das famílias é o polo dinâmico da economia brasileira. É o que ocorre conosco, de maneira firme e sustentável, desde 2007, e será ainda mais verdade em 2012. O consumo puxou o forte ciclo de investimentos na economia, que foi cortado com a crise mundial, no fim de 2008. O ano de 2010 foi um espasmo, e 2011 foi o lado contrário deste movimento, o anti-espasmo. Mas isso pelo lado dos investimentos, porque o consumo das famílias continuou e continua forte, rigorosamente segurando a economia. A missão da indústria e dos investimentos, em 2012, será diferente daquela que terá o consumo, impulsionado pelo crédito, crescente, e pelo salário mínimo.

Blog: Que missão será esta?

Kupfer: Já que assistimos a uma parada, um tranco, em 2011, vamos aproveitar 2012 para arrumar a casa, e, assim, dar condições para um crescimento forte em 2013. É fundamental que aproveitemos essa chance de reduzir o custo do capital, por meio dos cortes nas taxas de juros, e que a taxa de câmbio permaneça em patamares mais desvalorizados, como está hoje. Isso dará condições para investimentos cruciais para 2012, que devem ser concentrados em infraestrutura. O que vai carregar 2012, em uma visão realista, é o investimento em portos, energia, petróleo e construção residencial. Se isso, que chamo de lição de casa, funcionar bem, com melhora mês a mês dos investimentos, que passarão a crescer acima do PIB, daremos um excelente sinal para 2013.

Blog: A indústria brasileira passou todo o ano de 2011 no centro da política econômica, com o programa Brasil Maior, as medidas protecionistas na indústria automobilísticas e os incentivos aos fabricantes de eletrodomésticos. A produção, ainda assim, foi menos de 1% maior que em 2010. O que ocorre?

Kupfer: A produção da indústria de transformação deve ter sido 0,7% ou 0,8% maior que em 2010. É muito pouco. A fraqueza da indústria vai continuar neste primeiro semestre, melhorando apenas a partir de junho ou julho. Vamos fazer em dois anos o que deveríamos fazer em um. O ano de 2011 não foi apenas ruim, mas foi o ano de reversão das expectativas, o que causa impacto também em 2012. A economia brasileira e a indústria em especial começou o ano passado se preparando para um PIB de 5%, e isso era o que efetivamente estava ocorrendo no primeiro trimestre. Tanto é que o governo continuou apertando as medidas macroprudenciais em abril, e a elevação dos juros foi até julho. Depois, tudo estourou.
 
***
 
Acima, parte da entrevista que fiz, por telefone, com David Kupfer, um dos maiores especialistas em indústria do Brasil, como pontuei no texto. Kupfer acaba de assumir um posto de honra para qualquer economista, que é a assessoria econômica do BNDES, e falou comigo de sua nova sala, na sede do BNDES no Rio de Janeiro. O blogueiro, é claro, estava em Brasília.
 
A íntegra da entrevista pode ser lida no Valor, clicando aqui.

domingo, 15 de janeiro de 2012

Domingo

E quando você se depara e percebe que, no fundo, nunca deveria ter dito o que disse da forma que disse. Ela nunca vai esquecer.


J.V.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

Fim de expediente

Com os quatro mágicos Freddie Mercury, Brian May, Roger Taylor e John Deacon -- Queen.

Assitimos abaixo a linda "Breakthru", de 1989, num dos clipes mais bacanas que a era dos videoclipes (1981-2004) criou. São os quatro integrantes do Queen em cima de um trem, feito exclusivamente para o grupo, em uma ferrovia fechada pelo governo inglês a serviço do Queen.

Freddie Mercury, o carismático e inesquecível vocalista do Queen, já sabia, desde a páscoa de 1987, que tinha HIV. Quando filmaram o clipe, em maio de 1989, o HIV ainda não havia evoluído para AIDS -- algo que, segundo seus mais próximos companheiros, só ocorreria no fim de 1989.

Nada disso, é claro, era público. Mesmo quando começou a definhar a olho nu, em 1991, Mercury não admitia a doença -- algo que ele só fez em 23 de novembro de 1991, um dia antes de morrer, já fortemente debilitado.


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O debate na Saúde esquenta...

Minha matéria de balanço da saúde no Brasil em 2011, publicada no Valor de 30 de dezembro (e no Blog ontem, com alterações de estilo) repercutiu muito no setor e no meio acadêmico.

Sabem quem entrou no debate?

Ninguém menos que Edmar Bacha.

Bacha é um dos maiores economistas brasileiros, o homem que nos anos 1970 criou o mais fantástico desenho sobre os erros sociais provocados pela ditadura (o famoso artigo da Belíndia, n'O Globo, em que Bacha faz uma metáfora do Brasil sendo uma Bélgica enfiada em uma enorme Índia), e que em 1994 participou do seleto "Grupo dos 4" -- os 4 economistas que criaram o Plano Real.

Já tive a honra de entrevistar Bacha, como sabe o leitor do Blog, em dezembro de 2010, na Casa das Garças, numa tarde chuvosa no Rio de Janeiro. Para ler a entrevista na íntegra, clique aqui. O grande Mansueto Almeida, economista do Ipea, também fez comentários à entrevista no blog dele, na época. Pouco depois, em 11 de janeiro de 2011, foi a vez de Antônio Delfim Netto também citar a entrevista que fiz com Bacha.

O artigo do Bacha, publicado ontem no Valor, faz muitas referências à minha matéria de 30 de dezembro e também (e em especial) à outra, que foi publicada na edição de 02 de janeiro. Soube, pelo Ministério da Saúde, que o ministro Alexandre Padilha leu o artigo logo pela manhã e que escreve uma resposta. O Valor já aceitou publicar, tão logo Padilha envie o artigo.

O debate está esquentando....

***

Saúde e protecionismo

Por Edmar Bacha

Em entrevista ao Valor em 30 de dezembro, o ministro da Saúde anunciou que, em breve, o governo pretende instituir uma margem de proteção de 25% para os produtores nacionais de bens e serviços adquiridos pelo Ministério da Saúde. Ou seja, o governo se dispõe a pagar 25% a mais por esses bens, desde que sejam produzidos em território nacional e não importados. O argumento que o ministro apresenta é que o déficit comercial do setor de saúde é grande e está crescendo, ou seja, importamos mais do que exportamos equipamentos hospitalares, medicamentos e outros itens relacionados.


A matéria no Valor também revela que quem articula o lobby da indústria da saúde é o ministro da Saúde do governo anterior. Teria sido ele quem concebeu a política de proteção aos produtores locais, mas não a teria conseguido implantar devido ao pouco entusiasmo do presidente Lula. Pelo que se depreende da notícia, essa falta de entusiasmo não contagia a atual presidente da República.

A confirmar essa notícia, ficaria caracterizada uma situação extraordinária na área da saúde pública. O governo reclama que não tem recursos para melhorar o atendimento da população, apesar de o orçamento do Ministério da Saúde ser, em 2012, 16,2% superior ao de 2011 - o maior salto entre os principais ministérios. Infelizmente, entretanto, o governo parece estar disposto a gastar mais desse dinheiro para a "criação de musculatura na indústria brasileira", segundo os técnicos do governo ouvidos pelo Valor. Ou seja, vai gastar dinheiro para obter a mesma coisa, ou coisa pior ainda, pois nada garante que os similares nacionais terão a mesma qualidade dos produtos importados.

O argumento do déficit setorial entre importações e exportações não é cabível. Não estamos mais na década de 1950, quando a escassez de dólares tornou imperativa a substituição de importações. Nem na década de 1970, quando os choques do petróleo ameaçaram inviabilizar a economia brasileira.


Hoje em dia, não há falta de dólares. Ao contrário de tempos passados, o governo hoje é um credor internacional, tem mais reservas que dívida externa. Além disso, em 2011, produzimos um superávit comercial expressivo e o Banco Central intervém regularmente no mercado cambial, para impedir que a avalanche de dólares produza uma valorização excessiva do real. Por que, nessas condições, o item "medicamentos", ou o item "equipamento hospitalar", teria que ter superávit comercial?

O apoio governamental à indústria tem, pois, que se basear em outros critérios que não os de economia de divisas. Dentre esses critérios, a modicidade de preços e a qualidade dos produtos precisam ser priorizados, especialmente no setor saúde, tão crítico para a população.

Os instrumentos para desenvolver uma indústria competitiva de saúde no país estão à disposição de quem a eles quiser se candidatar: isenções tributárias para a importação de bens de capital e a instalação de novas unidades em diversos estados da federação; financiamentos generosos do BNDES; mercado local amplo e em crescimento. Se o governo quiser dar mais incentivos, basta garantir que, em igualdade de condições de preços e qualidade, dará preferência à indústria nacional. Mas não é aceitável que o país gaste recursos da arrecadação de impostos para pagar mais caro pela saúde que já tem, quando há tantas deficiências na área.

Diz a matéria do Valor que o déficit comercial do complexo da saúde alcançou US$ 11 bilhões em 2011. Digamos que o governo queira eliminar esse déficit, estando para isso disposto a pagar 25% a mais para substituir as importações. Trata-se de um gasto de US$ 2,75 bilhões, os quais, ao câmbio atual, somam R$ 5 bilhões. Em lugar de gastar esse dinheiro com substituição de importações, o Ministério da Saúde poderia usá-lo mais produtivamente para expandir o programa da saúde da família, cuja cobertura está estagnada em torno de 60%, deixando ao desabrigo uma parcela importante da população que não tem planos de saúde. Alternativamente, poderia dedicar-se a reduzir a mortalidade infantil no país, que ainda se situa num patamar excessivamente alto, de 15 por mil nascidos vivos, enquanto que no Chile, por exemplo, essa taxa é de 8 por mil nascidos vivos. Ou então, dedicar-se a reduzir a taxa de mortalidade materna que, de acordo com os próprios dados do Ministério, estão estacionados em níveis elevados desde 2002. Ou seja, prioridades relevantes não faltam. O que parece faltar é vontade política de enfrentar os problemas.


Recentemente, o lobby da saúde montou uma ampla campanha para tentar ressuscitar a CPMF na regulamentação da Emenda 29, que destina recursos à saúde. O argumento era que, com os recursos atuais, o SUS não consegue cumprir seu mandato constitucional, de prover saúde de qualidade para toda a população brasileira. Isso é verdade. Na letra da Lei, o Brasil tem o sistema de saúde mais estatizado do mundo. Na prática, entretanto, nosso sistema de saúde é ainda mais privatizado do que os EUA. E, como fica claro nas pesquisas de opinião pública sobre o assunto, o que a população mais anseia é ter um bom plano de saúde, para se livrar das filas do SUS.

Não há dúvida, pois, que o país precisa melhorar muito a saúde pública. Felizmente, entretanto, o Congresso resistiu às pressões para ressuscitar a CPMF. Pois é melhor manter a rédea curta do que ampliar os recursos, quando o que aparenta querer o ministro da Saúde é aumentar os custos e não melhorar a saúde pública no país.

Edmar Bacha é diretor do Instituto de Estudos de Política Econômica da Casa das Garças. Organizou, com Simon Schwartzman, "Brasil: A Nova Agenda Social" (LTC Editora, 2011).

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

O balanço da Saúde sob Dilma

Um ministro querido pela presidente Dilma Rousseff e um setor nevrálgico para um país que se propõe assegurar acesso à saúde de graça para 146 milhões de pessoas. O balanço que se faz da saúde em 2011 não pode se dissociar da atuação do ministro da Saúde Alexandre Padilha, que fora coordenador de campanha do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (e também seu ministro de Relações Institucionais por dois anos), e hoje é um dos ministros mais prestigiados por Dilma. Nas mãos de Padilha está o Sistema Único de Saúde (SUS), cujo orçamento beira R$ 80 bilhões por ano, com 12 milhões de trabalhadores (entre médicos, enfermeiros, serviços gerais) e que neste ano fez mais de 23 mil transplantes de órgãos no Brasil – o número mais elevado de transplantes por ano do mundo.

Médico infectologista, Padilha manteve, em seus primeiros 12 meses à frente do Ministério da Saúde, atuação muito ativa no setor e nos meios de comunicação. O ministro dificilmente completa uma semana inteira em Brasília, e gosta de acompanhar pessoalmente as iniciativas da Pasta, seja um mutirão de conscientização sobre a dengue e vacinação contra a pólio, em um pequeno município do Norte, seja a ampliação tecnológica de um grande hospital da rede pública em uma capital do Sudeste.

Padilha foi o primeiro dos 38 ministros de Dilma a emplacar o lançamento de um programa no Palácio do Planalto – o Rede Cegonha, em janeiro. Ao longo do ano, a Pasta conseguiu superar a meta de incorporar 20% das 2,2 milhões de gestantes no programa de acompanhamento do pré-natal – foram, segundo Padilha, cerca de 600 mil gestantes inseridas. Nesta semana, Dilma editou a Medida Provisória (MP) 557, ampliando o Rede Cegonha.

Ainda no primeiro trimestre, Dilma e Padilha lançaram o programa “Saúde não tem Preço”, em fevereiro, e, no mês seguinte, a campanha de combate ao câncer de colo de útero e de mama. Há três semanas, Padilha esteve novamente no Planalto, dividindo com Dilma o púlpito durante o lançamento do programa “Crack, Nós Podemos Vencer”, de conscientização dos usuários de crack. “Não tenho do que reclamar da prioridade que a presidente Dilma dá à Saúde”, afirmou Padilha a este blogueiro.

Seja pela intensa participação em seminários e eventos do setor da área médica, seja por meio de seu Twitter pessoal (com 39,5 mil seguidores, e 13,8 mil mensagens digitadas) ou até pela ampla assessoria de imprensa do ministério (são 48 jornalistas, que cuidam desde a assessoria institucional da Pasta até revistas, web rádio, mídias sociais etc.), a atuação de Padilha sempre foi reverberada com intensidade nos meios de comunicação. O ministro não se furta de uma entrevista, algo incomum na Esplanada sob Dilma Rousseff.

Além do SUS, principal braço de política pública do Estado brasileiro na área da saúde, Padilha dá especial atenção ao programa “Saúde não tem Preço”, criado pelo governo dentro da política Farmácia Popular, que distribui gratuitamente 11 medicamentos de hipertensão e diabetes. Com o programa, Padilha credenciou seis mil farmácias populares neste ano (atingindo 21 mil farmácias em dezembro).

“Os ganhos de gestão estão aí, porque se optássemos pela construção das farmácias, gastaríamos R$ 28,8 bilhões em custeio e R$ 1,8 bilhão em investimentos”, afirma o ministro, para quem o programa é “um ótimo complemento ao SUS”.

Mas é justamente o SUS o grande nó não desatado por Padilha. Mesmo críticos ponderados do ministério, como o deputado Marcus Pestana (PSDB-MG), que fora secretário de saúde de Minas Gerais na primeira gestão do tucano Aécio Neves (2003-06), entendem que Padilha adotou uma estratégia política de “não-enfrentamento”. Este estratagema teria afastado Padilha dos temas quentes de 2011, como o debate, no Senado, em torno da Emenda Constitucional 29, que alterava as regras de contabilização pública dos investimentos em saúde, instituindo um patamar mínimo de gastos nas três esferas do setor público.

Segundo Pestana, o ministro optou por evitar debates onde seria preciso tomar partido, e assim se indispor com segmentos partidários. De forma institucional, Padilha também resolveu concentrar as justificativas das falhas do SUS na gestão, evitando o “problema central”, entende Pestana – a eterna falta de recursos.

“Os custos na saúde são sempre crescentes, porque não há ganhos de escala nos equipamentos médicos, que logo ficam ultrapassados e precisam ser substituídos pelos hospitais e consultórios”, afirma Pestana. “Mas Padilha, que é um político muito habilidoso, não usou a falta de recursos como justificativa para os erros, nem surfou no debate sobre a Emenda 29”, diz.

O Congresso enfim aprovou a Emenda 29, mas ela não atingiu a União – apenas Estados e municípios. A aposta do meio político em Brasília é que Padilha atua para se cacifar junto ao PT para ser pré-candidato ao governo do Estado de São Paulo nas eleições de 2014 – em outra ala estaria o prefeito de São Bernardo do Campo (SP), Luiz Marinho, também ex-ministro de Lula. Petistas e aliados do governo no Congresso admitiram ao blogueiro que a atuação de Padilha, bem avaliada por sua “discrição” na Esplanada, diferente de seus antecessores, especialmente José Gomes Temporão (último ministro da Saúde de Lula), o coloca como “preferido de Dilma”, enquanto Marinho seria “preferido de Lula”.

Padilha, no entanto, renega qualquer estratégia política. “Como médico estou vivendo o sonho de minha vida, que é ser ministro da Saúde. Minha agenda de trabalho é enorme, e eu não tenho tempo para qualquer atuação partidária, algo que eu abri mão tão logo assumi o cargo”, diz. O ministro também aproveitou para passar um recado aos colegas: “O papel de um ministro de Estado, qualquer um, é fazer o máximo possível com o que tem disponível. Não preciso, nem devo, ficar esperando mais recursos. Com aprimoramento de gestão se consegue implementar um mundaréu de iniciativas”.

Do lado privado, a principal crítica dos hospitais e dos planos de saúde complementar é direcionada à política de ressarcimento das operações realizadas pelo SUS, aplicada pela Agência Nacional da Saúde (ANS). Na visão do setor privado, a atuação da ANS é necessária ao sistema, mas excessivamente pró-Ministério da Saúde.

Segundo dados recentes da ANS são 46,6 milhões de brasileiros com planos de saúde complementar – contingente 34,5% superior ao verificado em 2001. Os planos têm 6,8 mil hospitais, 27,8 mil clínicas especializadas de diagnósticos e 15,8 mil centros de diagnósticos. “O SUS não é nem o caos noticiado pela mídia, nem o caminho rumo à utopia dos sanitaristas do passado”, afirma Pestana. “Há enorme necessidade de recursos, que é inevitável, e por isso os planos privados são caros, mas, ainda assim, eles existem porque o SUS não têm como dar conta”, diz.

Segundo afirmou ao Blog um dirigente de um grande plano de saúde brasileiro, a ANS exige dos planos o ressarcimento do SUS de operações de emergências feitas em pacientes que têm planos de saúde privada. “Se o paciente tem um plano privado, sem problema, ressarcimos. Mas a ANS cobra do paciente que contratou um plano, mas utilizou o SUS durante o período de carência, que em média leva um ano e pode chegar a dois anos. Na carência, o custo é do SUS, mas o governo não entende e cobra mesmo assim”, diz o empresário.

Há um enorme passivo jurídico pendendo nas instâncias inferiores do Judiciário envolvendo essas disputas. Os dois lados da quebra de braço – governo e planos de saúde – aguardam uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), em 2012, quanto a um caso, o que levaria a formar uma jurisprudência.

“Imagine um indivíduo deficitário que fica emprestando dinheiro aos outros. É isso o que ocorre com o SUS, que necessita de recursos, mas mesmo assim repassa muito dinheiro aos planos de saúde privados”, afirma Alexandre Marinho, professor de Economia da Saúde da UERJ e pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Para ele, a questão do ressarcimento “é extremamente crucial para a agenda do setor”.

O ministro da Saúde já determinou aos técnicos da Pasta uma atuação mais incisiva na perseguição dos débitos a serem ressarcidos pelos planos. Já em seu primeiro ano de gestão, Padilha conseguiu resgatar ao SUS quase R$ 100 milhões em ressarcimento de operações – valor superior à soma de tudo o que foi obtido de 1998, quando a ANS foi criada, a 2010. “Nossa prioridade para 2012 é aprimorar e acelerar o ressarcimento ao SUS”, afirma.

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Este é o balanço da Saúde em 2011 que o Valor publicou, como parte de seu conjunto de matérias especiais sobre as principais áreas do país.

O blogueiro ficou com a Saúde, e o resultado está publicado acima. Fiz, evidentemente, a troca de "disse ao Valor" para "disse ao blogueiro", para facilitar a leitura de quem encontra o texto aqui no Blog. Além disso, a versão que se lê aqui é sensivelmente diferente daquela que escrevi e foi publicada no Valor, que pode ser lida aqui.

Conversei com o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o deputado federal Marcus Pestana (PSDB-MG), figura reconhecida pelo setor, um dirigente de um grande plano de saúde brasileiro, o especialista do Ipea, Alexandre Marinho, e muitos parlamentares no Congresso, para discutir a articulação do Ministério da Saúde com o Legislativo.

Na Saúde, 2012 será ainda mais quente.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O ano da loucura disseminada

Os europeus começaram 2012 com uma certeza: este será o pior ano de suas vidas. A não ser, é claro, que alguém tenha vivido as décadas de 1930 e 40.

Vejamos o que disseram seus líderes nestes primeiros dias de janeiro:

"O caminho para superar a crise será longo e não está isento de retrocessos", disse Angela Merkel, chanceler da Alemanha. "Este ano de 2012 será, sem dúvida, um ano mais difícil que 2011", afirmou, categórica, na semana passada. A crise da dívida "ainda deixa a Europa em suspense".

O presidente da França, Nikolas Sarkozy, adotou um tom ainda mais dramático, já de olho nas eleições que enfrentarão neste ano. Segundo ele, a crise "não chegou a deixar as lágrimas e sangue de Churchill, mas deixará uma marca".

Na Grécia, o primeiro-ministro Lucas Papademos também não foi nada otimista. Segundo ele, um ano "muito difícil" está começando.

Na Itália, o presidente Giorgio Napolitano mandou sua mensagem em um misto de drama e apelo ao apoio popular. "A situação continua grave", disse. "A confiança pode ser anulada por interrogantes angustiosos que podem induzir ao pessimismo", afirmou.

Na Espanha, o novo primeiro-ministro Mariano Rajoy descobriu que o déficit público espanhol será maior que os 6% do PIB projetados até então, mas sim de 8% do PIB. Assim, a meta (já ousada) de reduzir drasticamente esse déficit a 4,4% do PIB neste ano ficou ainda mais traumática. O governo espanhol já anunciou elevações de impostos (em meio a uma crise!!), redução de benefícios sociais (com a mais alta taxa de desemprego da Europa!!) e corte nos salários dos funcionários públicos. Mas, para trazer de 8% para 4,4% do PIB ainda neste ano, novas medidas terão de vir. E virão. Além disso, quase um terço dos espanhóis está desempregado, e ao praticar um aperto, e não um estímulo, o governo Rajoy não deve alterar em uma linha esse gravíssimo problema social.

Que belo ano, não?

***
Da última vez que os europeus apertaram os cintos, de maneira coordenada, como forma de reagir à crise fiscal, o resultado não foi bacana.

A última vez foi após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os apertos coordenados acabaram levando a uma loucura disseminada, nos anos 1920.

Finalmente, a loucura disseminada, levada ao limite, acabou produzindo ao fanatismo extremo, nos anos 1930.

Tempos de Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha.

Ou os líderes europeus tratam de estimular o crescimento, e não a loucura disseminada, ou veremos os europeus fazerem aquilo que sabem fazer melhor: levar o mundo todo a uma desgraça total.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Domingo

As calhas colhem lágrimas do teto,
no braço do rio riscam um grafito;
nos lábios bambos do céu inquieto
cravaram-se mamilos de granito.

O céu -- agora calmo -- ficou claro:
lá, onde prateia o prato do mar, o
úmido condutor, a passo lento, leva
o camelo de duas corcovas do rio Neva.

Vladímir Maiakóvski, poeta russo, em "Algo em Petersburgo", de 1913.

***

Mestre dos poetas russos, Maiakóvski foi o maior dentre os grandes mestres da poesia russa que surgiram no período áureo entre 1870 e 1930 -- o período que vai da forte influência que Dostoiévsky e Tolstói causaram em todos até o momento em que Stálin começa a esmagar as artes.

Ali, entre 1870 e 1930, os homens criaram o que há de melhor na literatura, na poesia, na política, nas revoluções, nos usos e costumes, na música, no teatro e no cinema.

Infelizmente, no meio de tudo isso, a Rússia também criou Josef Stálin.

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Fim de expediente

Com o maravilhoso Trio Surdina, de vida curta (1952-1955), que tinha um dos mais brilhantes violeiros brasileiros: Garoto. Nesta "O Relógio da Vovó", de 1953, notem a batida do violão que Garoto faz -- é exatamente a mesma que tornaria João Gilberto mundialmente famoso, em 1957, com "Chega de Saudade", quando foi criada a Bossa Nova.

João sempre reconheceu em Garoto uma fonte inspiradora, bem como grandes conhecedores da Bossa Nova e da música brasileira, como Ruy Castro, Luis Nassif e José Ramos Tinhorão.

Garoto teve o azar de morrer em 1955, antes do auge, sem poder ao menos ser reverenciado em vida.




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Na redação do Valor aqui em Brasília, nesta semana, mestre Ribamar Oliveira, repórter especial e prêmio Esso de 1997, ficou estupefato com a técnica de Garoto. Conversávamos, Riba, eu, Sérgio Leo, Juliano Basile e Maíra Magro, sobre o surgimento da Bossa Nova, e alguém lembrou de Garoto.

"Precisamos reescrever a história!", bradou Riba, fascinado com o que descobrira.

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Repensando o desenvolvimento econômico

Fui convidado a participar do Latin American Advanced Programme on Rethinking Macro and Development Economics (Programa Avançado para Repensar o Desenvolvimento Macroeconômico na América Latina - Laporde) na Fundação Getulio Vargas (FGV), que ocorre na semana que vem.

Será a terceira edição do Laporde, que ocorre a cada dois anos na FGV-SP, e o Valor aceitou que o blogueiro passasse a semana inteira (de 09 a 13 de janeiro) em São Paulo, participando do Laporde 2012.

Trata-se de um orgulho enorme para mim.

Lá estarão pesos pesados da economia mundial, como o sul coreano Ha-Joon Chang, professor da Universidade de Cambridge, que enviou também o professor Gabriel de Palma. Além deles, José Antonio Ocampo, da Universidade de Columbia, e Jan Krengel, da Universidade de Missouri, também estarão.

Pela FGV teremos o diretor do Departamento de Economia, Yoshiaki Nakano, e o professor emérito Luiz Carlos Bresser-Pereira. Também estarão o especialista em administração pública Nelson Marconi e o pupilo de Bresser na macroeconomia, Paulo Gala.

Serão seminários diários, das 9h às 18h, de segunda à sexta-feira. Ao final, para amarrar, o Laporde 2012 receberá o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Nelson Barbosa, que vai apresentar o cenário do governo para a economia em 2012.

No meio de todos esses bambas estará o blogueiro.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Interlúdio

Brasília, 19h30min, anteontem, da janela da redação do Valor aqui na capital federal.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

O que estamos semeando...

O Brasil fechou 2011 com números impressionantes.

A dívida pública líquida é de 36,5% do PIB -- na Alemanha, o melhor dos europeus, é de 89%; nos EUA, de 101%.

O Banco Central (BC) brasileiro tem US$ 352 bilhões em reservas internacionais.

O saldo comercial foi de US$ 29,8 bilhões, o maior desde 2007, revertendo a tendência de queda iniciada em 2008. As exportações somaram US$ 256 bilhões, o maior já registrado na história.

Recebemos algo como US$ 65 bilhões em Investimento Estrangeiro Direto (IED), que serviram para financiar, com folga, nosso déficit nas transações correntes, de US$ 53 bilhões.

Foram criadas 1,5 milhão de vagas com carteira assinada no país, com salário médio de aquisição de R$ 939,00 por mês.

***

O país do futuro enfim chegou, como gosta de dizer o cientista Miguel Nicolelis?

Não.

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Aguardem, porque o Blog está reunindo informações para um post definitivo sobre as condições econômicas do país.

Não estamos em crise, ou próximos de uma. Nada vai nos abalar até 2017 ou 2018, fiquem tranquilos.

Mas estamos semeando uma crise séria.

Aguardem.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

A política econômica em um ano de crise

O blogueiro, ao lado de Sergio Leo e Denise Neumann, construiu uma linha do tempo da política econômica brasileira praticada entre janeiro e dezembro de 2011.

Para ler a cronologia da economia, clique aqui.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Domingo

Me tornarei veterano nesta luta angustiosa; encontrarei o caminho com minhas mãos, meus olhos e ouvidos ávidos, com meu ardente e fervente cérebro. Se não há país sem angústia, eu sozinho, dentro dos meus pensamentos, farei um mundo para mim, para meus irmãos.


Xul Solar, (1887-1963), artista argentino.

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Feliz 2012 aos leitores!
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