segunda-feira, 11 de junho de 2012

O contágio da crise espanhola no Brasil

O principal contágio, no curto prazo, que a economia brasileira pode ter dos problemas envolvendo o sistema bancário espanhol será por meio do fluxo de capitais, avaliam técnicos da área econômica do governo Dilma Rousseff. O temor dos mercados quanto ao verdadeiro estado dos bancos espanhóis pode atingir o Brasil através de uma nova rodada de desvalorização do real, em decorrência de um ingresso menor de divisas internacionais, processo que é acelerado pela contínua redução das taxas de juros no país. O governo vai agir, se for preciso, para evitar grande volatilidade no câmbio.

O principal instrumento será a atuação do Banco Central no mercado à vista (comprando mais ou menos dólares) e no mercado futuro (por meio da venda de contratos de swap cambial, que equivalem ao compromisso de compra futura de dólar). A ideia é manter o câmbio numa “zona de conforto” para a economia, dizem técnicos do governo, que permite estimular as exportações, sem encarecer importados. Mais que a valorização do câmbio, os técnicos do Ministério da Fazenda entendem que a volatilidade da moeda pode causar mais transtornos à atividade econômico.

Na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, divulgada na sexta-feira, há uma menção explícita aos problemas enfrentados pela Espanha. Uma fonte no governo destacou que o parágrafo 69 da ata apresenta claramente a visão que os diretores do BC têm da situação espanhola. “com os sinais de fragilidade do sistema bancário na Espanha, o que elevou os prêmios de risco desse país, dificultando o acesso ao mercado de dívida soberana. Nesse cenário, o dólar avançou em relação ao euro e às moedas de países emergentes”, diz o Banco Central na ata.

Além do contágio no curto prazo, por meio da taxa de câmbio, o governo teme que, caso o empréstimo de até 100 bilhões dos integrantes da União Europeia à Espanha para solucionar os problemas de seus bancos não funcione, a crise espanhola se agrave. Neste cenário, de médio prazo, o Brasil pode ser afetado de forma mais estrutural.

Segundo o Ministério das Relações Exteriores, a Espanha é o segundo maior investidor estrangeiro no Brasil, com um estoque de capital de aproximadamente US$ 85 bilhões. Em 2011, o comércio bilateral somou US$ 7,97 bilhões, alta de 20% em relação ao ano anterior.

O ministro da Fazenda, Guido Mantega, pode conceder uma entrevista em Brasília, entre hoje e amanhã, para acalmar o mercado. A ideia, segundo interlocutores do ministro, é destacar que as reservas internacionais (de quase US$ 380 bilhões, mantidas pelo Banco Central) e a solidez fiscal, representada pelo forte superávit primário obtido nos primeiros meses deste ano, configuram um colchão de liquidez capaz de contrabalançar a crise externa.

No limite, os dólares das reservas podem ser disponibilizados pelo BC ao mercado para garantir a baixa volatilidade da taxa de câmbio, enquanto que a economia de recursos fiscais realizada no primeiro semestre pode ser reduzida, para reforçar as despesas e os investimentos públicos. Este, no entanto, não é o quadro esperado pelas autoridades econômicas do governo Dilma Rousseff, mas um cenário pessimista, que pode não se realizar.

Os desdobramentos da crise na Espanha foram um dos principais temas debatidos por Dilma e integrantes da equipe econômica na semana passada. No fim de semana, entretanto, Dilma não manteve encontros oficiais para discutir o assunto. A presidente recebeu no dia 4 comitiva de empresários e autoridades espanhóis, a qual foi liderada pelo rei espanhol, Juan Carlos I. Durante as conversas, os interlocutores espanhóis de Dilma pediram ajuda do Brasil para superar a crise. Em contrapartida, a presidente defendeu que as empresas do país ibérico mantivessem os investimentos no Brasil.

Técnicos do governo entendem que as dificuldades serão maiores a partir da semana que vem, a depender do resultado das eleições na Grécia, que serão realizadas no próximo domingo.

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