A indústria brasileira vai fazer em dois anos o que poderia, e deveria, ter feito em um. Apenas entre o fim deste ano e o início de 2013 que a produção industrial vai atingir o patamar onde deveria estar neste momento. Esta é a avaliação do economista David Kupfer, professor da UFRJ e um dos principais especialistas em indústria do país. Além de sua posição de destaque no debate sobre o tema, no Brasil, Kupfer também assumiu, este mês, a função de assessor econômico do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Já está trabalhando na sede do banco, no Rio de Janeiro, de onde falou, pela primeira vez depois de assumir o cargo, ao Blog.
“Já que assistimos a uma parada, um tranco, em 2011, vamos aproveitar 2012 para arrumar a casa, e, assim, dar condições para um crescimento forte em 2013. É fundamental que aproveitemos essa chance de reduzir o custo do capital, por meio dos cortes nas taxas de juros, e que a taxa de câmbio permaneça em patamares mais desvalorizados, como está hoje”, afirma Kupfer, para quem o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano ficará próximo a 3,5%, resultado principalmente do consumo das famílias. “O consumo das famílias é o polo dinâmico da economia brasileira. É o que ocorre conosco, de maneira firme e sustentável, desde 2007, e será ainda mais verdade em 2012”, diz.
Segundo Kupfer, o saldo comercial não precisa mais ser tão elevado. “Macroeconomicamente não precisamos de um saldo de US$ 30 bilhões”, diz o economista, em referência ao saldo comercial de US$ 29,8 bilhões registrado em 2011. “Podemos ter saldos de US$ 5 bilhões a US$ 8 bilhões por ano sem nenhum custo. Podemos ter uma balança comercial mais equilibrada, para irmos às compras de mais tecnologia e de mais empresas no exterior”, afirma o especialista. Os principais trechos da entrevista:
Blog: Qual é o caminho da economia brasileira em 2012?
David Kupfer: O consumo das famílias é o polo dinâmico da economia brasileira. É o que ocorre conosco, de maneira firme e sustentável, desde 2007, e será ainda mais verdade em 2012. O consumo puxou o forte ciclo de investimentos na economia, que foi cortado com a crise mundial, no fim de 2008. O ano de 2010 foi um espasmo, e 2011 foi o lado contrário deste movimento, o anti-espasmo. Mas isso pelo lado dos investimentos, porque o consumo das famílias continuou e continua forte, rigorosamente segurando a economia. A missão da indústria e dos investimentos, em 2012, será diferente daquela que terá o consumo, impulsionado pelo crédito, crescente, e pelo salário mínimo.
Blog: Que missão será esta?
Kupfer: Já que assistimos a uma parada, um tranco, em 2011, vamos aproveitar 2012 para arrumar a casa, e, assim, dar condições para um crescimento forte em 2013. É fundamental que aproveitemos essa chance de reduzir o custo do capital, por meio dos cortes nas taxas de juros, e que a taxa de câmbio permaneça em patamares mais desvalorizados, como está hoje. Isso dará condições para investimentos cruciais para 2012, que devem ser concentrados em infraestrutura. O que vai carregar 2012, em uma visão realista, é o investimento em portos, energia, petróleo e construção residencial. Se isso, que chamo de lição de casa, funcionar bem, com melhora mês a mês dos investimentos, que passarão a crescer acima do PIB, daremos um excelente sinal para 2013.
Blog: A indústria brasileira passou todo o ano de 2011 no centro da política econômica, com o programa Brasil Maior, as medidas protecionistas na indústria automobilísticas e os incentivos aos fabricantes de eletrodomésticos. A produção, ainda assim, foi menos de 1% maior que em 2010. O que ocorre?
Kupfer: A produção da indústria de transformação deve ter sido 0,7% ou 0,8% maior que em 2010. É muito pouco. A fraqueza da indústria vai continuar neste primeiro semestre, melhorando apenas a partir de junho ou julho. Vamos fazer em dois anos o que deveríamos fazer em um. O ano de 2011 não foi apenas ruim, mas foi o ano de reversão das expectativas, o que causa impacto também em 2012. A economia brasileira e a indústria em especial começou o ano passado se preparando para um PIB de 5%, e isso era o que efetivamente estava ocorrendo no primeiro trimestre. Tanto é que o governo continuou apertando as medidas macroprudenciais em abril, e a elevação dos juros foi até julho. Depois, tudo estourou.
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Acima, parte da entrevista que fiz, por telefone, com David Kupfer, um dos maiores especialistas em indústria do Brasil, como pontuei no texto. Kupfer acaba de assumir um posto de honra para qualquer economista, que é a assessoria econômica do BNDES, e falou comigo de sua nova sala, na sede do BNDES no Rio de Janeiro. O blogueiro, é claro, estava em Brasília.
A íntegra da entrevista pode ser lida no Valor, clicando aqui.
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