terça-feira, 31 de janeiro de 2012

A perda de hegemonia americana

O que acontece quando a maior potência militar do mundo reduz seu orçamento bélico pela primeira vez?
O fim de uma hegemonia.

O Pentágono (órgão militar dos Estados Unidos) vai cortar US$ 487 bilhões de seu orçamento entre 2013 e 2023. Como? Vai reduzir as tropas de solo em cerca de 100 mil homens e as compras de submarinos, navios e caças F-35.

O secretário de Defesa do governo Barack Obama, Leon Panetta, afirmou na semana passada que vai sugerir um orçamento de US$ 525 bilhões para o ano que vem, contra US$ 531 bilhões em 2012.

Os republicanos, é claro, reclamara da decisão.

Eles, quem diria, estão certos -- em parte, na realidade.

Uma potência militar não pode abrir mão de estar na vanguarda tecnológica no assunto, porque abre espaço para novos concorrentes (notadamente, a China). É claro que os gastos americanos em armamentos e inteligência militar são exagerados e, por vezes, irracionais (especialmente nas mãos de presidentes republicanos). Mas os cortes são sempre um sinal de troca de hegemonia.

Os Estados Unidos não têm mais, hoje, a hegemonia no campo das ideais, da cultura, aquela capaz de influenciar corações e mentes no mundo todo, seja por meio da música, do cinema, da política, da literatura, da culinária, dos pontos turísticos ou o que for.

O império americano foi hegemônico neste campo de 1913 até 2008.

Com a explosão da crise mundial, os Estados Unidos se viram recriminados, drasticamente, pelo resto do mundo. Foram eles, afinal, quem desencadearam esta crise mundial que abala a todos. O Japão começava a deixar uma longa letargia (1991-2007), a União Europeia consolidava lentamente seu projeto de integração, os latino-americanos cresciam e aprofundavam suas democracias, e os asiáticos disparavam.

Depois de quatro anos em crise, a União Europeia assistiu quatro de seus integrantes falirem, o Japão enfrenta grave depressão e pela primeira vez em 31 anos registra déficit comercial, a América Latina perde força e a Ásia, o motor do mundo, desacelera.

Pancadas como o WikiLeaks, que escancararam para o mundo os acordos espúrios feitos pelas embaixadas norte-americanas no mundo todo, também não ajudaram.

Restava, então, o poder dominante -- a supremacia militar, capaz de esmagar qualquer país do mundo, ou vários ao mesmo tempo.

O Império Romano, antes de ruir em 1453, ainda resistiu por muitos anos justamente devido a seu poder militar. Da mesma forma, no oriente, o Império Otomano, que ruiu em 1923.

Antes de ruírem, os impérios sobrevivem apenas por seu poder militar.

Ao anunciar o início de um processo de enfraquecimento militar, a partir de 2013, os Estados Unidos dão um forte sinal de que sua hegemonia total está para acabar.

O século americano pode ter durado, portanto, de 1913 a 2013.

O livro que escrevo conta exatamente isso.

Preparem-se.

2 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

João,

Os EUA foi o último dos impérios. Com a globalização e o fim da aplicabilidade do binarismo dentro-fora que marca a cultura ocidental - que afinal se expandiu por todo canto até tomar o globo - por impossibilidade: esticou tanto que chegou ao limite. As fronteiras se encontraram e não há planetas próximos habitáveis.

Dessa forma, é difícil comparar o fim da hegemonia americana com o de outros impérios, embora seja possível considerar que aquela organização política não tem, hoje, muito mais do que duas vias: ou aceita a decadência pragmaticamente ou irá implodir ou explodir (como quase ocorreu nesse suspiro final com Bush, que se fundamenta no estouro da bolha das pontocom, o fim da new economy, ainda em Clinton).

Obama precisa cortar gastos militares porque eles são parasitários. Hoje, são mais causa de insegurança e enfraquecimento dos EUA do que o contrário. E isso só vai ser sustentável se os EUA começarem a trabalhar em prol de um sistema internacional multilateral - coisa que Brasil, Rússia e China já perceberam -, coisa que eu esperava do atual mandatário americano logo de cara, mas que ele demorou longos anos para se tocar. E esse movimento de política externa precisa ser acompanhado por uma discussão do sistema de produção local, absolutamente insustentável.

abraços

Anônimo disse...

Duas perguntas, João:
por que 1913 como marco do início da hegemonia americana?
E vc. sabe me dizer em que ano o PIB americano se tornou o maior do mundo?

(Talvez a resposta à segunda pergunta responda também a primeira.)

Otto

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