segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

O ano da loucura disseminada

Os europeus começaram 2012 com uma certeza: este será o pior ano de suas vidas. A não ser, é claro, que alguém tenha vivido as décadas de 1930 e 40.

Vejamos o que disseram seus líderes nestes primeiros dias de janeiro:

"O caminho para superar a crise será longo e não está isento de retrocessos", disse Angela Merkel, chanceler da Alemanha. "Este ano de 2012 será, sem dúvida, um ano mais difícil que 2011", afirmou, categórica, na semana passada. A crise da dívida "ainda deixa a Europa em suspense".

O presidente da França, Nikolas Sarkozy, adotou um tom ainda mais dramático, já de olho nas eleições que enfrentarão neste ano. Segundo ele, a crise "não chegou a deixar as lágrimas e sangue de Churchill, mas deixará uma marca".

Na Grécia, o primeiro-ministro Lucas Papademos também não foi nada otimista. Segundo ele, um ano "muito difícil" está começando.

Na Itália, o presidente Giorgio Napolitano mandou sua mensagem em um misto de drama e apelo ao apoio popular. "A situação continua grave", disse. "A confiança pode ser anulada por interrogantes angustiosos que podem induzir ao pessimismo", afirmou.

Na Espanha, o novo primeiro-ministro Mariano Rajoy descobriu que o déficit público espanhol será maior que os 6% do PIB projetados até então, mas sim de 8% do PIB. Assim, a meta (já ousada) de reduzir drasticamente esse déficit a 4,4% do PIB neste ano ficou ainda mais traumática. O governo espanhol já anunciou elevações de impostos (em meio a uma crise!!), redução de benefícios sociais (com a mais alta taxa de desemprego da Europa!!) e corte nos salários dos funcionários públicos. Mas, para trazer de 8% para 4,4% do PIB ainda neste ano, novas medidas terão de vir. E virão. Além disso, quase um terço dos espanhóis está desempregado, e ao praticar um aperto, e não um estímulo, o governo Rajoy não deve alterar em uma linha esse gravíssimo problema social.

Que belo ano, não?

***
Da última vez que os europeus apertaram os cintos, de maneira coordenada, como forma de reagir à crise fiscal, o resultado não foi bacana.

A última vez foi após a Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando os apertos coordenados acabaram levando a uma loucura disseminada, nos anos 1920.

Finalmente, a loucura disseminada, levada ao limite, acabou produzindo ao fanatismo extremo, nos anos 1930.

Tempos de Mussolini na Itália, Hitler na Alemanha, Franco na Espanha.

Ou os líderes europeus tratam de estimular o crescimento, e não a loucura disseminada, ou veremos os europeus fazerem aquilo que sabem fazer melhor: levar o mundo todo a uma desgraça total.

Um comentário:

Hugo Albuquerque disse...

O consenso parlamentar entre a centro-direita e a centro-esquerda, que resultou no projeto europeu foi à pique. Hoje a Europa não pode nem sonhar em se fragmentar, mas também não pode continuar a existir nesses termos. O grande problema é a Alemanha, embora a França e o Benelux possam também arroladas: se favorecem de um sistema parasitário e na hora da crise, foram torpes em corrigir assimetrias que eles próprios produziram - com, p.ex., a insustentabilidade dos seis periféricos, reconstruídos como colônias de consumo suas. Já atentava, há pelo menos três anos atrás, que não é porque o capitalismo americano estava em crise, que um modelo europeu iria ascender, até porque todos estavam imbicados. 2012 será complicado, por ora, olho na França e mais à leste, na estabilidade da Rússia.

P.S.: Um blog muito legal sobre a conjuntura europeia: Post on Politics

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