Com Thelonious Monk, "Round Around Midnight"
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
sexta-feira, 30 de setembro de 2011
quinta-feira, 29 de setembro de 2011
Os rumos da economia
O Banco Central (BC) divulgou hoje cedo o Relatório de Inflação. Trata-se do mais importante instrumento de comunicação da política econômica do governo. Divulgado a cada três meses, o relatório traz as projeções oficiais do BC para os rumos da economia brasileira.
Li todas as 200 páginas do relatório hoje cedo. Um parágrafo, em especial, pescado do emaranhado de páginas e gráficos, explicita bem o pensamento dos técnicos da equipe econômica do governo Dilma Rousseff. Este aqui:
" ...o processo de moderação em que se encontra a economia – decorrência das ações de política implementadas desde o final do ano passado – tende a ser potencializado pela fragilidade da economia global. "
Ou seja, o PIB vai crescer muito menos neste ano -- 3,5%, contra os 7,5% registrados em 2010 -- devido principalmente às políticas de aperto fiscal e monetário conduzidas pelo governo desde dezembro do ano passado, e, mais à frente, chegarão os freios da economia mundial, em grave crise.
Trata-se de uma aposta, como já dissemos aqui, que está ditando essa mudança na política econômica.
Vamos ver se vai dar certo.
***
Para lembrar, o post em que explico o que está por detrás da cabeça do Ministério da Fazenda, do Banco Central e, claro, da Presidência da República --> O Brasil e a crise.
Li todas as 200 páginas do relatório hoje cedo. Um parágrafo, em especial, pescado do emaranhado de páginas e gráficos, explicita bem o pensamento dos técnicos da equipe econômica do governo Dilma Rousseff. Este aqui:
" ...o processo de moderação em que se encontra a economia – decorrência das ações de política implementadas desde o final do ano passado – tende a ser potencializado pela fragilidade da economia global. "
Ou seja, o PIB vai crescer muito menos neste ano -- 3,5%, contra os 7,5% registrados em 2010 -- devido principalmente às políticas de aperto fiscal e monetário conduzidas pelo governo desde dezembro do ano passado, e, mais à frente, chegarão os freios da economia mundial, em grave crise.
Trata-se de uma aposta, como já dissemos aqui, que está ditando essa mudança na política econômica.
Vamos ver se vai dar certo.
***
Para lembrar, o post em que explico o que está por detrás da cabeça do Ministério da Fazenda, do Banco Central e, claro, da Presidência da República --> O Brasil e a crise.
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quarta-feira, 28 de setembro de 2011
Interlúdio
Brasília amanheceu hoje com 500 vassouras empunhadas em frente ao Congresso Nacional, no fim da Esplanada dos Ministérios.
***
Queridos leitores, como vocês devem saber, a vida anda uma correria alucinante. Além do expediente no Valor -- fico dias sem passar na redação, acreditem -- tenho o Blog e ando com muitas participações na TV (em 30 dias fui à Globo News, à TV Brasil e à Rede Vida, para falar de assuntos mil).
E, claro, tenho uma vida, né? Quase todos os dias tenho jantado fora, e o jantar tem evoluído, também com muita frequência, para outras e outras coisas...
Durmo cada vez menos.
Tenho lido, no entanto, todos os comentários colocados aqui no Blog e todos os e-mails que recebo de vocês. Leio tudo, mas quase nunca consigo responder rápido. Mas respondo.
Peço uma colher de chá pela demora.
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terça-feira, 27 de setembro de 2011
No Observatório de imprensa
Estarei hoje, das 22h às 23h, ao vivo, no programa Observatório de Imprensa, conduzido pelo mito Alberto Dines.
Mais que conversar sobre mídia, terei o prazer de trabalhar com Dines, uma lenda do jornalismo.
O programa é ao vivo na TV Brasil.
Mais que conversar sobre mídia, terei o prazer de trabalhar com Dines, uma lenda do jornalismo.
O programa é ao vivo na TV Brasil.
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segunda-feira, 26 de setembro de 2011
Chove em Brasília
Depois de 108 dias sem chuva, Brasília amanheceu hoje com uma garoa fina. Ainda não deu para lavar a cidade, com aquela chuva de dar gosto. Mas quem já tinha esquecido que dos céus também poderia vir água -- e não apenas um sol infernal -- hoje está uma maravilha.
Será uma semana quente por aqui. O Banco Central divulga seu Relatório de Inflação, que contará com as estimativas de PIB e inflação atualizadas, que servirão de norte para o governo até o fim do ano. Além disso, teremos reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) e um fuzuê na Fazenda, já que o ministro Guido Mantega foi incubido por Dilma a encontrar alternativas para uma desvalorização excessiva do real frente ao dólar.
Com chuva, no entanto, tudo fica mais fácil.
Será uma semana quente por aqui. O Banco Central divulga seu Relatório de Inflação, que contará com as estimativas de PIB e inflação atualizadas, que servirão de norte para o governo até o fim do ano. Além disso, teremos reunião do Conselho Monetário Nacional (CMN) e um fuzuê na Fazenda, já que o ministro Guido Mantega foi incubido por Dilma a encontrar alternativas para uma desvalorização excessiva do real frente ao dólar.
Com chuva, no entanto, tudo fica mais fácil.
domingo, 25 de setembro de 2011
Domingo
Acho que a vida é uma ideia muito ruim. Se essa ideia partiu de Deus, eu o culpo por tê-la largado no meio do caminho, sem levá-la à sua conclusão lógica. Imagine uma criança que ganha um trem de brinquedo e o põe para funcionar; ele corre nos trilhos uma dezena de vezes, a criança se diverte, e então perde o interesse. O que acontece com o trem depois que a criança o larga? Isso, para mim, é a vida: se Deus a criou -- e eu não acredito Nele, mas vamos supor que exista --, Ele logo a largou, correndo por aí, sem um pensamento para o fato de que criou seres que sabem que cada passo deles na Terra causa o sofrimento de uma planta, um animal ou um outro homem, e que têm de enfrentar a consciência de que sua existência é finita. Isso é nascer sob uma sentença de morte. Se eu fosse um bicho, sem noção de que vou morrer e de que posso magoar os outros o tempo todo, sem culpa de espécie alguma e ocupado apenas em comer, excretar e me reproduzir, então a vida poderia ser tolerável. Mas não da maneira como ela é para os homens. Não é justo. Se antes de eu nascer me consultassem sobre se eu quero existir neste mundo, eu diria não -- absolutamente não.
Lars Von Trier, dinamarquês, diretor de cinema, em entrevista a Isabela Boscov, publicada em Veja de 07 de setembro de 2011.
Lars Von Trier, dinamarquês, diretor de cinema, em entrevista a Isabela Boscov, publicada em Veja de 07 de setembro de 2011.
sábado, 24 de setembro de 2011
sexta-feira, 23 de setembro de 2011
Fim de expediente
Com Nilo Amaro e seus Cantores de Ébano, grupo maravilhoso que, como outros bambas, me foi apresentado por um dos maiores contadores de histórias do Brasil: meu pai.
quinta-feira, 22 de setembro de 2011
Para onde vai o câmbio?
Ontem, o dólar fechou cotado a R$ 1,86. Em agosto, o dólar valia R$ 1,54. Por que subiu tanto, em tão pouco tempo? E onde isso vai parar?
Já explico.
Antes, é bom entendermos que esse salto no câmbio não é de todo ruim. Nossa taxa estava excessivamente valorizada, o que é péssimo para as exportações e, consequentemente, para nosso balanço de pagamentos. Como o câmbio valorizado retira margens do produto que é exportado, o empresário embolsa menos reais com as vendas externas, o que, no limite, faz com que ele deixe de exportar, para não ter prejuízo. Ao mesmo tempo, o câmbio valorizado barateia o importado, o que acaba, também no limite, roubando mercado do produtor nacional no próprio país.
Baratear importado é ruim? Claro que não. Esse movimento gera concorrência interna, e ajuda a derrubar os preços no Brasil e também monopólios nacionais. Isso é ótimo. O problema é quando a valorização do câmbio é excessiva, ao ponto de baratear os importados de maneira artificial. Ou seja, não é que o importado tem preço para competir com o produto nacional, mas ele acaba sendo favorecido pelo real valorizado.
É difícil mensurar o que é valorização excessiva e o que é uma taxa de câmbio competitiva.
Eu não tenho os conhecimentos necessários para construir um modelo econométrico que tenha uma explicação razoável para as duas respostas. Os economistas também não têm. O câmbio é o mais complexo dos preços da macroeconomia e ninguém sabe ao certo o que está falando.
Um câmbio competitivo definitivamente não é R$ 2,50. Mas, ao mesmo tempo, o câmbio a R$ 1,50 definitivamente não é razoável.
Esta taxa, entre R$ 1,85 e R$ 1,95, melhora muito a vida do produtor nacional de manufaturados, especialmente aqueles que fabricam bens de alto conteúdo tecnológico. Ainda é possível importar insumos de forma bem barata, e ao mesmo tempo protege um pouco o sujeito que gera empregos e paga salários no Brasil.
Que é o que interessa, não?
Agora, a primeira pergunta: por que o câmbio subiu tanto, em tão pouco tempo?
Não foi devido a políticas praticadas pelo governo brasileiro. O que ocorreu e continua rolando é que o estresse no mercado financeiro é gigantesco: todo mundo está duvidando que a Grécia se salvará, e, com isso, levará a União Europeia junto. Como, ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sem sair do lugar, e o Japão continua na mesma crise que entrou em 1991, o mercado financeiro está estressadíssimo.
Retira, então, recursos dos países emergentes, num processo que os economistas chamam de "aversão a risco". Ou seja, o cara prefere sacar as aplicações que tem nos países emergentes e deixar no seu país de origem. Este movimento é humano: todos ficamos estressados e, quando isso acontece, pegamos o telefone e ligamos para um porto seguro (que pode ser a mãe, a namorada, o melhor amigo, que seja). Passado o estresse, voltamos a nos jogar de cabeça no desconhecido.
Ainda que alguns de nós sejam conservadores, a maior parte adora tomar riscos. É o que torna a vida a delícia que ela é.
Em pouco tempo, uns 15 dias no máximo, a situação voltará, aos poucos, a ser como era. Ou seja, de câmbio em valorização.
Podem me cobrar.
Já explico.
Antes, é bom entendermos que esse salto no câmbio não é de todo ruim. Nossa taxa estava excessivamente valorizada, o que é péssimo para as exportações e, consequentemente, para nosso balanço de pagamentos. Como o câmbio valorizado retira margens do produto que é exportado, o empresário embolsa menos reais com as vendas externas, o que, no limite, faz com que ele deixe de exportar, para não ter prejuízo. Ao mesmo tempo, o câmbio valorizado barateia o importado, o que acaba, também no limite, roubando mercado do produtor nacional no próprio país.
Baratear importado é ruim? Claro que não. Esse movimento gera concorrência interna, e ajuda a derrubar os preços no Brasil e também monopólios nacionais. Isso é ótimo. O problema é quando a valorização do câmbio é excessiva, ao ponto de baratear os importados de maneira artificial. Ou seja, não é que o importado tem preço para competir com o produto nacional, mas ele acaba sendo favorecido pelo real valorizado.
É difícil mensurar o que é valorização excessiva e o que é uma taxa de câmbio competitiva.
Eu não tenho os conhecimentos necessários para construir um modelo econométrico que tenha uma explicação razoável para as duas respostas. Os economistas também não têm. O câmbio é o mais complexo dos preços da macroeconomia e ninguém sabe ao certo o que está falando.
Um câmbio competitivo definitivamente não é R$ 2,50. Mas, ao mesmo tempo, o câmbio a R$ 1,50 definitivamente não é razoável.
Esta taxa, entre R$ 1,85 e R$ 1,95, melhora muito a vida do produtor nacional de manufaturados, especialmente aqueles que fabricam bens de alto conteúdo tecnológico. Ainda é possível importar insumos de forma bem barata, e ao mesmo tempo protege um pouco o sujeito que gera empregos e paga salários no Brasil.
Que é o que interessa, não?
Agora, a primeira pergunta: por que o câmbio subiu tanto, em tão pouco tempo?
Não foi devido a políticas praticadas pelo governo brasileiro. O que ocorreu e continua rolando é que o estresse no mercado financeiro é gigantesco: todo mundo está duvidando que a Grécia se salvará, e, com isso, levará a União Europeia junto. Como, ao mesmo tempo, os Estados Unidos continuam sem sair do lugar, e o Japão continua na mesma crise que entrou em 1991, o mercado financeiro está estressadíssimo.
Retira, então, recursos dos países emergentes, num processo que os economistas chamam de "aversão a risco". Ou seja, o cara prefere sacar as aplicações que tem nos países emergentes e deixar no seu país de origem. Este movimento é humano: todos ficamos estressados e, quando isso acontece, pegamos o telefone e ligamos para um porto seguro (que pode ser a mãe, a namorada, o melhor amigo, que seja). Passado o estresse, voltamos a nos jogar de cabeça no desconhecido.
Ainda que alguns de nós sejam conservadores, a maior parte adora tomar riscos. É o que torna a vida a delícia que ela é.
Em pouco tempo, uns 15 dias no máximo, a situação voltará, aos poucos, a ser como era. Ou seja, de câmbio em valorização.
Podem me cobrar.
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quarta-feira, 21 de setembro de 2011
Interlúdio
Mais uma troca ministerial: sai Pedro Novais (PMDB-MA) e entra Gastão Vieira (PMDB-MA) no comando do Ministério do Turismo.
O tema mais quente em Brasília é a reforma política. O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), garante que o principal projeto, do deputado Henrique Fontana (PT-RS), que prevê o financiamento público de campanha e o voto proporcional misto, será votado em novembro.
A política econômica brasileira não desliga. Depois de agosto cheio de medidas, setembro já começou com forte elevação do IPI para automóveis importados.
Tudo isso foi discutido no programa "Fatos e Versões", da Globo News, comandado por Cristiana Lôbo, que recebeu Natuza Nery, da Folha da S. Paulo, e este blogueiro, repórter do Valor Econômico.
Para assistir, clique aqui.
O tema mais quente em Brasília é a reforma política. O presidente da Câmara dos Deputados, Marco Maia (PT-RS), garante que o principal projeto, do deputado Henrique Fontana (PT-RS), que prevê o financiamento público de campanha e o voto proporcional misto, será votado em novembro.
A política econômica brasileira não desliga. Depois de agosto cheio de medidas, setembro já começou com forte elevação do IPI para automóveis importados.
Tudo isso foi discutido no programa "Fatos e Versões", da Globo News, comandado por Cristiana Lôbo, que recebeu Natuza Nery, da Folha da S. Paulo, e este blogueiro, repórter do Valor Econômico.
Para assistir, clique aqui.
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terça-feira, 20 de setembro de 2011
Yes, we can
Em setembro de 2008, a Turquia tinha a maior taxa de juros do mundo -- 16,75% ao ano. A crise econômica mundial explodiu, gerando recessões pelo planeta, ao longo de 2009. Em 2010, com a recuperação dos emergentes, muito capital especulativo começou a fluir do mundo rico para o mundo pobre em crescimento. Já neste ano, a crise voltou com força, diante dos apertos fiscais promovidos (erroneamente) pelos governos dos países ricos, jogando o mundo de novo em um cenário de crescimento baixo ou até recessivo.
O que a Turquia fez nestes três anos entre setembro de 2008 e setembro de 2011?
Reduziu fortemente as taxas de juros.
Hoje, a taxa de juros da Turquia é de 5,75% ao ano. Sim, eles cortaram os juros em 11 pontos percentuais ao longo de três anos.
Corta.
O Brasil tinha, em setembro de 2008, a segunda maior taxa de juros do mundo -- 13,75% ao ano.
Ao longo de 2009, o governo brasileiro reduziu a nossa taxa de juros (a Selic) até o patamar de 8,75% ao ano, que esteve vigente até abril de 2010. Daí, o Banco Central (BC) voltou a elevar os juros, como forma de combater os mesmos problemas vividos pela Turquia e qualquer outro país emergente em crescimento num mundo em crise: o acelerado ingresso de capitais (especulativos e para investimentos). Esse capital ampliou o risco inflacionário, e colocou aos governos emergentes a tarefa de reduzir a alta nos preços.
Hoje, nossa taxa de juros é de 12% ao ano, depois que o BC reduziu o juro, pela primeira vez desde abril de 2010, em 0,5 ponto percentual, na reunião de 31 de agosto.
O Brasil tem hoje a maior taxa de juros do mundo, de 12% ao ano. E a Turquia tem a segunda maior, de 5,75% ao ano.
Ou seja, o segundo colocado está 6,25 pontos atrás do Brasil, numa competição que definitivamente não é bacana de ganhar.
Se podemos reduzir mais os juros? A Turquia fez, não fez?
Yes, we can.
O que a Turquia fez nestes três anos entre setembro de 2008 e setembro de 2011?
Reduziu fortemente as taxas de juros.
Hoje, a taxa de juros da Turquia é de 5,75% ao ano. Sim, eles cortaram os juros em 11 pontos percentuais ao longo de três anos.
Corta.
O Brasil tinha, em setembro de 2008, a segunda maior taxa de juros do mundo -- 13,75% ao ano.
Ao longo de 2009, o governo brasileiro reduziu a nossa taxa de juros (a Selic) até o patamar de 8,75% ao ano, que esteve vigente até abril de 2010. Daí, o Banco Central (BC) voltou a elevar os juros, como forma de combater os mesmos problemas vividos pela Turquia e qualquer outro país emergente em crescimento num mundo em crise: o acelerado ingresso de capitais (especulativos e para investimentos). Esse capital ampliou o risco inflacionário, e colocou aos governos emergentes a tarefa de reduzir a alta nos preços.
Hoje, nossa taxa de juros é de 12% ao ano, depois que o BC reduziu o juro, pela primeira vez desde abril de 2010, em 0,5 ponto percentual, na reunião de 31 de agosto.
O Brasil tem hoje a maior taxa de juros do mundo, de 12% ao ano. E a Turquia tem a segunda maior, de 5,75% ao ano.
Ou seja, o segundo colocado está 6,25 pontos atrás do Brasil, numa competição que definitivamente não é bacana de ganhar.
Se podemos reduzir mais os juros? A Turquia fez, não fez?
Yes, we can.
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segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Brasilia, 101 dias
Hoje, Brasília, a capital federal do país, completa 101 dias sem chuva. A temperatura na rua (de onde escrevo este post, pelo celular) é a de sempre: entre 28º e 33º graus, com sol forte e nenhuma nuvem. Estou morando (e trabalhando como um condenado a morte cuja única saída à forca é o trabalho em cargas astronômicas) em Brasília há 97 dias. Isso quer dizer que, quando eu cheguei, tinha apenas quatro dias da última chuva.
Hoje, a última chuva ocorreu há 101 dias.
A previsão? Pelo menos mais uns dez dias na mesma situação.
Para dormir, uma toalha molhada ao lado da cama, junto de garrafas d'água (acordo na madrugada com sede -- sim, eu durmo durante algumas horas). Durante o dia, de terno e gravata, sempre uns trocados a mão, para um chá gelado ou uma água. Ou, quando estou no Congresso, uma esticada ao cafézinho da Câmara ou do Senado, para um café. Nos gabinetes dos ministros e secretários na Esplanada dos Ministérios, enxugo copos e mais copos d'água.
Completo 101 dias em Brasília na sexta-feira, um dia antes do meu aniversário.
Não quero presentes. Quero chuva...
Hoje, a última chuva ocorreu há 101 dias.
A previsão? Pelo menos mais uns dez dias na mesma situação.
Para dormir, uma toalha molhada ao lado da cama, junto de garrafas d'água (acordo na madrugada com sede -- sim, eu durmo durante algumas horas). Durante o dia, de terno e gravata, sempre uns trocados a mão, para um chá gelado ou uma água. Ou, quando estou no Congresso, uma esticada ao cafézinho da Câmara ou do Senado, para um café. Nos gabinetes dos ministros e secretários na Esplanada dos Ministérios, enxugo copos e mais copos d'água.
Completo 101 dias em Brasília na sexta-feira, um dia antes do meu aniversário.
Não quero presentes. Quero chuva...
domingo, 18 de setembro de 2011
Domingo
O Brasil se interessa pouco pelo seu próprio passado. Essa atitude saudável exprime a vontade de escapar a uma maldição do atraso e miséria que o brasileiro evita lembrar. Contudo, é este o país que o brasileiro deve amar com a fé e a esperança porque este é o seu país tão precisado desse amor.
Paulo Emílio Salles Gomes, cineasta e crítico brasileiro.
Paulo Emílio Salles Gomes, cineasta e crítico brasileiro.
sexta-feira, 16 de setembro de 2011
Na Globonews
Gravo agora a tarde o "Fatos e Versões", programa da Cristiana Lôbo na Globonews. Estarei com a Natuza Nery, grande repórter da Folha.
O papo entre jornalistas, tocado pela Cristiana, será focado na demissão do ministro do Turismo, Pedro Novais, e nas medidas de ontem na área econômica -- a forte elevação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a indústria automobilística.
O programa vai ao ar amanhã, às 19h30min, na Globonews.
O papo entre jornalistas, tocado pela Cristiana, será focado na demissão do ministro do Turismo, Pedro Novais, e nas medidas de ontem na área econômica -- a forte elevação do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a indústria automobilística.
O programa vai ao ar amanhã, às 19h30min, na Globonews.
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quinta-feira, 15 de setembro de 2011
O PSD está nascendo
O Partido Social Democrata (PSD) nasce com um importante trunfo no movimento sindical: Ricardo Patah, o presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT), a terceira maior central sindical do país, anunciou na terça-feira sua filiação ao partido. Responsável por um orçamento que deve atingir R$ 30 milhões neste ano, e representante de pouco mais de mil sindicatos, a UGT foi a única das seis maiores centrais que permaneceu neutra nas eleições presidenciais do ano passado — as outras cinco declararam apoio à candidatura da presidente Dilma Rousseff (PT). Depois de filiar presidentes de associações comerciais em vários Estados do País, o partido agora fecha com a central sindical melhor representada entre os comerciários.
A união entre o presidente do PSD e o líder da UGT gerou um outro resultado simbólico. O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais da Bahia, Edson Pimenta, anuncia hoje a troca partidária e sindical. Pimenta, que desde o início do ano cumpre mandato em Brasília como deputado federal pelo PCdoB, preencherá a ficha de filiação ao PSD ao mesmo tempo que transfere sua federação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) para a UGT.
A filiação de Patah encerra um longo período de negociações entre o líder sindical e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que será o presidente do PSD.
As sondagens de Kassab começaram em dezembro do ano passado, mas o primeiro convite foi feito em abril deste ano, quando os dois se encontraram na prefeitura. A reunião foi intermediada por Luiz Antônio de Medeiros, que acabara de assumir o cargo de secretário-adjunto de Trabalho no município. Medeiros foi fundador da Força Sindical, em 1991, central em que Patah servia de tesoureiro até o início de 2007, quando saiu para fundar a UGT.
Kassab venceu uma disputa que envolveu também o PTB e o PMDB. Amigo de Michel Temer, presidente de honra do PMDB, Patah manteve reuniões com o atual vice-presidente da República ao longo do primeiro semestre. O sindicalista também recebeu convite de Campos Machado, presidente do PTB em São Paulo, em reunião que ocorreu na UGT no início de junho.
A ideia de “construir” um partido novo foi central para a decisão de Ricardo Patah. Foi essa a avaliação vendida por Kassab ao presidente da UGT na penúltima reunião que tiveram, há duas semanas, na sede da entidade em São Paulo.
“Somos radicais de centro”, disse Kassab naquela oportunidade, referindo-se ao perfil do PSD . O prefeito ofereceu a Patah um cargo na executiva nacional do partido e também deu a UGT a gestão do futuro instituto do partido. Quando Patah comentou do interesse da central em ver José Francisco, presidente da UGT no Pará e primeiro suplente a deputado estadual como titular na Assembleia Legislativa do Estado , Kassab não titubeou. Ligou ao governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), e passou a ligação a Patah. Na conversa, Jatene afirmou que “aquilo não era um problema”.
A decisão foi tomada em reunião realizada na quinta-feira da semana passada, na casa de Kassab em São Paulo. O prefeito estava acompanhado de Guilherme Afif Domingos, vice-governador do Estado, e de Alfredo Cotait, secretário de Relações Internacionais da prefeitura. Cotait também é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), interlocutora de Patah há anos — Patah é presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, entidade que representa 470 mil trabalhadores no Estado.
São os comerciários a principal categoria representada pela UGT. Além do sindicato em São Paulo, a UGT representa também a categoria na cidade do Rio de Janeiro (315 mil trabalhadores) e nos Estados do Paraná (505 mil comerciários) e da Bahia (300 mil trabalhadores). A central também representa o Sindicato dos Trabalhadores na Construção Pesada do Rio, que comanda a greve dos operários na reforma do Maracanã.
Entre abril de 2008, quando o repasse federal de recursos oriundos do imposto sindical começou, e o fim do ano passado, a UGT embolsou R$ 41 milhões — o terceiro maior orçamento, atrás apenas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical. Neste ano, a UGT deve receber cerca de R$ 21 milhões no reparte do imposto sindical. Os recursos representam cerca de 70% do orçamento total da entidade.
Em nota que será distribuída hoje entre os dirigentes da UGT, Patah afirma que a central “não pertence a nenhum partido político”, e que “a UGT continuará a manter amplas, respeitosas e solidárias relações com todas as organizações partidárias”. A entidade conta com três vice-presidentes ligados a partidos — Davi Zaia, secretário do Trabalho no Estado de São Paulo, é o presidente do PPS no Estado; Roberto Santiago é deputado federal pelo PV paulista; e Salim Reis, vice-prefeito de Carapicuíba (SP), é presidente do DEM na cidade.
***
Esta foi minha matéria publicada no Valor de terça-feira, que trago ao Blog para iniciar um debate sobre o PSD.
A união entre o presidente do PSD e o líder da UGT gerou um outro resultado simbólico. O presidente da Federação dos Trabalhadores Rurais da Bahia, Edson Pimenta, anuncia hoje a troca partidária e sindical. Pimenta, que desde o início do ano cumpre mandato em Brasília como deputado federal pelo PCdoB, preencherá a ficha de filiação ao PSD ao mesmo tempo que transfere sua federação da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB) para a UGT.
A filiação de Patah encerra um longo período de negociações entre o líder sindical e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, que será o presidente do PSD.
As sondagens de Kassab começaram em dezembro do ano passado, mas o primeiro convite foi feito em abril deste ano, quando os dois se encontraram na prefeitura. A reunião foi intermediada por Luiz Antônio de Medeiros, que acabara de assumir o cargo de secretário-adjunto de Trabalho no município. Medeiros foi fundador da Força Sindical, em 1991, central em que Patah servia de tesoureiro até o início de 2007, quando saiu para fundar a UGT.
Kassab venceu uma disputa que envolveu também o PTB e o PMDB. Amigo de Michel Temer, presidente de honra do PMDB, Patah manteve reuniões com o atual vice-presidente da República ao longo do primeiro semestre. O sindicalista também recebeu convite de Campos Machado, presidente do PTB em São Paulo, em reunião que ocorreu na UGT no início de junho.
A ideia de “construir” um partido novo foi central para a decisão de Ricardo Patah. Foi essa a avaliação vendida por Kassab ao presidente da UGT na penúltima reunião que tiveram, há duas semanas, na sede da entidade em São Paulo.
“Somos radicais de centro”, disse Kassab naquela oportunidade, referindo-se ao perfil do PSD . O prefeito ofereceu a Patah um cargo na executiva nacional do partido e também deu a UGT a gestão do futuro instituto do partido. Quando Patah comentou do interesse da central em ver José Francisco, presidente da UGT no Pará e primeiro suplente a deputado estadual como titular na Assembleia Legislativa do Estado , Kassab não titubeou. Ligou ao governador do Pará, Simão Jatene (PSDB), e passou a ligação a Patah. Na conversa, Jatene afirmou que “aquilo não era um problema”.
A decisão foi tomada em reunião realizada na quinta-feira da semana passada, na casa de Kassab em São Paulo. O prefeito estava acompanhado de Guilherme Afif Domingos, vice-governador do Estado, e de Alfredo Cotait, secretário de Relações Internacionais da prefeitura. Cotait também é vice-presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), interlocutora de Patah há anos — Patah é presidente do Sindicato dos Comerciários de São Paulo, entidade que representa 470 mil trabalhadores no Estado.
São os comerciários a principal categoria representada pela UGT. Além do sindicato em São Paulo, a UGT representa também a categoria na cidade do Rio de Janeiro (315 mil trabalhadores) e nos Estados do Paraná (505 mil comerciários) e da Bahia (300 mil trabalhadores). A central também representa o Sindicato dos Trabalhadores na Construção Pesada do Rio, que comanda a greve dos operários na reforma do Maracanã.
Entre abril de 2008, quando o repasse federal de recursos oriundos do imposto sindical começou, e o fim do ano passado, a UGT embolsou R$ 41 milhões — o terceiro maior orçamento, atrás apenas da Central Única dos Trabalhadores (CUT) e da Força Sindical. Neste ano, a UGT deve receber cerca de R$ 21 milhões no reparte do imposto sindical. Os recursos representam cerca de 70% do orçamento total da entidade.
Em nota que será distribuída hoje entre os dirigentes da UGT, Patah afirma que a central “não pertence a nenhum partido político”, e que “a UGT continuará a manter amplas, respeitosas e solidárias relações com todas as organizações partidárias”. A entidade conta com três vice-presidentes ligados a partidos — Davi Zaia, secretário do Trabalho no Estado de São Paulo, é o presidente do PPS no Estado; Roberto Santiago é deputado federal pelo PV paulista; e Salim Reis, vice-prefeito de Carapicuíba (SP), é presidente do DEM na cidade.
***
Esta foi minha matéria publicada no Valor de terça-feira, que trago ao Blog para iniciar um debate sobre o PSD.
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quarta-feira, 14 de setembro de 2011
Interlúdio
Tenho que aproveitar enquanto é tempo. A partir de julho do ano que vem, o único Villaverde que terá atenção será o Luis, e não o João.
O filme que meu irmão, Luis Villaverde, prepara desde o início do ano tem data de finalização prevista para julho de 2012. Li o roteiro no fim de semana. Não tem para mais ninguém.
O curta foi selecionado pelo Departamento de Cinema da Faap, em São Paulo, um dos principais centros de cinema da América Latina, para receber o financiamento da faculdade.
O melhor crítico de cinema da blogosfera, Rodrigo Cássio, já está de antemão convocado a se pronunciar. Fico só imaginando o filme do Luis passando no Cine Cascavel...
***
A foto acima, do Luis, foi tirada no começo do ano.
O filme que meu irmão, Luis Villaverde, prepara desde o início do ano tem data de finalização prevista para julho de 2012. Li o roteiro no fim de semana. Não tem para mais ninguém.
O curta foi selecionado pelo Departamento de Cinema da Faap, em São Paulo, um dos principais centros de cinema da América Latina, para receber o financiamento da faculdade.
O melhor crítico de cinema da blogosfera, Rodrigo Cássio, já está de antemão convocado a se pronunciar. Fico só imaginando o filme do Luis passando no Cine Cascavel...
***
A foto acima, do Luis, foi tirada no começo do ano.
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Debatendo a reforma política
Hoje, às 22h15, o blogueiro participa como convidado do programa Tribuna Independente, da Rede Vida, numa mesa com o deputado Henrique Fontana (PT-RS), relator do projeto da reforma política.
Este é um debate quente cá em Brasília. O projeto de Fontana deve ser votado no plenário da Câmara em novembro.
Este é um debate quente cá em Brasília. O projeto de Fontana deve ser votado no plenário da Câmara em novembro.
Dos tempos da hiperinflação
Vejam que genial este comercial do antigo supermercado Real, que funcionava nas maiores cidades do Rio Grande do Sul entre os anos 1980 e os primeiros anos da década de 90. Ele fala das promoções do supermercado. Uma margarina custava apenas 42.900 cruzeiros reais. Isso mesmo, apenas quarenta e dois mil e novecentos cruzeiros reais! Uma barganha, né, não?
Pior que era.
E este aqui, hoje engraçadíssimo, da antiga loja Mesbla, que anuncia fraldas importadas, baratíssimas, por apenas 599.000. Isso mesmo: 599 mil cruzeiros reais. Mas era por pouco tempo, o consumidor tinha que correr!
O ano de 1993 terminou com inflação de 2.552%, medida pelo IPCA, o mesmo que hoje, em alta, bate em 7,23%, nos 12 meses terminados em agosto.
A inflação está em alta, rondando o teto da meta perseguida pelo Banco Central para este ano, que é 6,5%. Vai terminar dentro da meta, não se preocupem.
Mas vale a pena lembrar o terror que era esse país antes do Plano Real, de julho de 1994.
Pior que era.
E este aqui, hoje engraçadíssimo, da antiga loja Mesbla, que anuncia fraldas importadas, baratíssimas, por apenas 599.000. Isso mesmo: 599 mil cruzeiros reais. Mas era por pouco tempo, o consumidor tinha que correr!
O ano de 1993 terminou com inflação de 2.552%, medida pelo IPCA, o mesmo que hoje, em alta, bate em 7,23%, nos 12 meses terminados em agosto.
A inflação está em alta, rondando o teto da meta perseguida pelo Banco Central para este ano, que é 6,5%. Vai terminar dentro da meta, não se preocupem.
Mas vale a pena lembrar o terror que era esse país antes do Plano Real, de julho de 1994.
segunda-feira, 12 de setembro de 2011
O império em sua glória, pela última vez
Minha entrevista com o historiador Niall Ferguson.
Falamos do futuro dos EUA, da falência da União Europeia e do papel que China e Brasil podem desempenhar no século XXI.
Para ler, clique aqui.
Falamos do futuro dos EUA, da falência da União Europeia e do papel que China e Brasil podem desempenhar no século XXI.
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domingo, 11 de setembro de 2011
Domingo
Corre e não olhe para trás, João.
Corri muito, como nunca tinha corrido até então. Nunca mais corri tanto em toda a minha vida. E com essa maldita dor nas costas que sinto desde fevereiro, sinto que nunca voltarei a correr como corri naquele dia.
Arthur era, provavelmente, o rapaz mais insuportável que eu conhecia. Gordo que começava a esticar com o inicio da adolescência, o rapaz estava com aspecto forte, e voz que engrossara rápido. Era maior que eu, que, mirrado, só esticaria mesmo aos 15.
Tinha em mim a figura do que há de errado no mundo. Aos treze, eu já tinha perdido a virgindade que ele só iria perder aos 15, e, diferente do que a maioria, não tinha perdido pagando por aquilo. Como era falastrão, fiz com que as pessoas certas soubessem daquilo, de forma a atestar minha "larga experiência no assunto". Além disso, tinha uma banda, começava a deixar o cabelo crescer e os olhos claros causavam alvoroço nas festinhas do colégio.
Os garotos de 13 anos são divididos em dois: aqueles que são tímidos e aqueles que acham que são muito melhores que qualquer um. Este que vos fala, evidentemente, pertencia ao segundo grupo.
Mas Arthur era muito melhor que eu no futebol, e também muito mais esperto em se livrar da marcação dos professores mais rígidos. Também tinha uma turma enorme do lado dele, algo que eu nunca tive, porque flertava com meio mundo e, claro, fechava portas com a mesma facilidade que as abria com meu jeito extremamente seguro de si.
Arthur começara, então, um boato insuportável. Dissera que eu fazia coisas que eu não fazia. Como sempre ocorre quando temos 13 anos, aqueles boatos ganharam uma força insuportável.
Era bullying aquilo? Não faço a mínima ideia. Sei que Arthur costumava encher o saco de todos aqueles que não faziam parte de sua turma, algo que eu e meus amigos nos enquadrávamos perfeitamente.
Comigo, no entanto, a perseguição era mais acirrada porque eu me dava bem naquilo que ele tanto queria. E, óbvio, me irritava o fato de ele ser melhor que eu em outras coisas.
Foram meses insuportáveis aqueles. Não conseguia evitar que aquele maldito boato se espalhasse. E nem as férias foram capazes de cortar aquilo. Era preciso fazer alguma coisa.
Foi a única vez que briguei em minha vida.
De porte do apagador de giz que os professores usavam no quadro, caminhei pelos corredores atrás de Arthur, numa terça-feira paulistana de chuva fina. Entramos em uma das salas vazias dos enormes corredores do colégio.
Bati aquele apagador com uma força desproporcional em sua cabeça. Mas como o sujeito era grande, ele ainda desferiu um soco em cheio no meu abdome, antes dos dois se engalfinharem no chão daquela sala vazia. No meio da briga, Arthur sacodiu o corpo e levou a mão à cabeça. O golpe que tinha dado fizera efeito retardado, e o rapaz estava tremendo.
Parei, assustado. Foram dez segundos de tempo paralisado. Ele parou de tremer, mas continuava se contorcendo de dor. Nos olhamos. Foi provavelmente a primeira vez que nos olhamos.
Lá fora, os passos do bedel, a que chamávamos de vigia, anunciavam a figura do adulto que fatalmente nos conduziria à direção da escola e esta à expulsão.
Arthur, então, me dirigiu pela primeira vez a palavra, sem que aquilo que diria tivesse qualquer sentido de sacanagem comigo: Corre e não olhe para trás, João.
Corremos os dois como condenados em fuga à redentora liberdade.
Voltamos a nos ver uma semana depois. Eu com o corpo todo doendo e ele com um galo enorme na cabeça. Éramos estranhos um ao outro. Nunca mais nos falamos. O boato sumira na mesma velocidade que nossa rivalidade, que também não tinha nenhuma explicação lógica para existir. Erámos dois potes de hormônios que rivalizavam por uma questão irracional.
Corria o segundo semestre de 2001. E o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center em NY era a segunda coisa mais importante das nossas vidas.
Corri muito, como nunca tinha corrido até então. Nunca mais corri tanto em toda a minha vida. E com essa maldita dor nas costas que sinto desde fevereiro, sinto que nunca voltarei a correr como corri naquele dia.
Arthur era, provavelmente, o rapaz mais insuportável que eu conhecia. Gordo que começava a esticar com o inicio da adolescência, o rapaz estava com aspecto forte, e voz que engrossara rápido. Era maior que eu, que, mirrado, só esticaria mesmo aos 15.
Tinha em mim a figura do que há de errado no mundo. Aos treze, eu já tinha perdido a virgindade que ele só iria perder aos 15, e, diferente do que a maioria, não tinha perdido pagando por aquilo. Como era falastrão, fiz com que as pessoas certas soubessem daquilo, de forma a atestar minha "larga experiência no assunto". Além disso, tinha uma banda, começava a deixar o cabelo crescer e os olhos claros causavam alvoroço nas festinhas do colégio.
Os garotos de 13 anos são divididos em dois: aqueles que são tímidos e aqueles que acham que são muito melhores que qualquer um. Este que vos fala, evidentemente, pertencia ao segundo grupo.
Mas Arthur era muito melhor que eu no futebol, e também muito mais esperto em se livrar da marcação dos professores mais rígidos. Também tinha uma turma enorme do lado dele, algo que eu nunca tive, porque flertava com meio mundo e, claro, fechava portas com a mesma facilidade que as abria com meu jeito extremamente seguro de si.
Arthur começara, então, um boato insuportável. Dissera que eu fazia coisas que eu não fazia. Como sempre ocorre quando temos 13 anos, aqueles boatos ganharam uma força insuportável.
Era bullying aquilo? Não faço a mínima ideia. Sei que Arthur costumava encher o saco de todos aqueles que não faziam parte de sua turma, algo que eu e meus amigos nos enquadrávamos perfeitamente.
Comigo, no entanto, a perseguição era mais acirrada porque eu me dava bem naquilo que ele tanto queria. E, óbvio, me irritava o fato de ele ser melhor que eu em outras coisas.
Foram meses insuportáveis aqueles. Não conseguia evitar que aquele maldito boato se espalhasse. E nem as férias foram capazes de cortar aquilo. Era preciso fazer alguma coisa.
Foi a única vez que briguei em minha vida.
De porte do apagador de giz que os professores usavam no quadro, caminhei pelos corredores atrás de Arthur, numa terça-feira paulistana de chuva fina. Entramos em uma das salas vazias dos enormes corredores do colégio.
Bati aquele apagador com uma força desproporcional em sua cabeça. Mas como o sujeito era grande, ele ainda desferiu um soco em cheio no meu abdome, antes dos dois se engalfinharem no chão daquela sala vazia. No meio da briga, Arthur sacodiu o corpo e levou a mão à cabeça. O golpe que tinha dado fizera efeito retardado, e o rapaz estava tremendo.
Parei, assustado. Foram dez segundos de tempo paralisado. Ele parou de tremer, mas continuava se contorcendo de dor. Nos olhamos. Foi provavelmente a primeira vez que nos olhamos.
Lá fora, os passos do bedel, a que chamávamos de vigia, anunciavam a figura do adulto que fatalmente nos conduziria à direção da escola e esta à expulsão.
Arthur, então, me dirigiu pela primeira vez a palavra, sem que aquilo que diria tivesse qualquer sentido de sacanagem comigo: Corre e não olhe para trás, João.
Corremos os dois como condenados em fuga à redentora liberdade.
Voltamos a nos ver uma semana depois. Eu com o corpo todo doendo e ele com um galo enorme na cabeça. Éramos estranhos um ao outro. Nunca mais nos falamos. O boato sumira na mesma velocidade que nossa rivalidade, que também não tinha nenhuma explicação lógica para existir. Erámos dois potes de hormônios que rivalizavam por uma questão irracional.
Corria o segundo semestre de 2001. E o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center em NY era a segunda coisa mais importante das nossas vidas.
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sexta-feira, 9 de setembro de 2011
Fim de expediente
Com mestre Luiz Gonzaga e seu clássico "Asa Branca", de 1947. Graças a essa maravilha que é o youtube, a música aparece em vídeo recortado de belíssimas imagens do sertão brasileiro, a força motriz, além da beleza feminina, por detrás da criatividade de Gonzagão e seus dois principais parceiros nas composições: Humberto Teixeira e Zé Dantas.
O melhor do xote brasileiro.
O melhor do xote brasileiro.
quinta-feira, 8 de setembro de 2011
Os limites do jornalismo
Queridos leitores, as entrevistas que dão orgulho são poucas. É de contar nos dedos aquelas entrevistas em que o jornalista sai orgulhoso, mais inteligente, e ciente de que prestou um serviço ao país ou mesmo ao mundo. São poucas as que há uma rara combinação entre faro do jornalista em saber perguntar a pergunta certa, na hora certa, e um entrevistado(a) que permite levar o assunto ao mais profundo ponto.
Foi o que consegui com Niall Ferguson, o mais influente historiador econômico e financeiro de nosso tempo. Ferguson é professor por Harvard e pela London School of Economics (LSE), além de ser pesquisador por Oxford e Stanford. Tem livros incríveis, como "Império", sobre o império britânico do século XIX, "A Ascensão do Dinheiro", em que conta a criação e a evolução do dinheiro entre os homens, "Colosso", sobre o império americano do século XX, e o mais recente, ainda sem tradução para o português, "Civilization", em que reconta a dominação do Ocidente no mundo entre o século XV e hoje.
Ferguson entende que vivemos hoje o fim da era de dominação do Ocidente.
Um período sem igual.
Os leitores mais antigos cá do Blog sabem que estou escrevendo um livro justamente sobre o fim da era dominada pelos Estados Unidos. Então, ao dizer que vivemos a era do fim não só da dominação dos EUA, mas do Ocidente como um todo, Ferguson entrou em uma seara que eu tenho muito o que dizer.
Foi uma conversa daquelas de tirar o ar, e foi isso o que tentei transmitir na entrevista que o Valor publica amanhã, no caderno cultural "Eu&FimdeSemana", publicado às sextas-feiras.
***
A entrevista de Niall Ferguson entra no seleto rol de entrevistas que tive que me dão orgulho até hoje. Ferguson está ao lado das conversas que tive com Joseph Nye (maio 2011), o homem que cunhou o termo "neoliberalismo"; Luiz Gonzaga Belluzzo (dezembro 2010), o patrono dos economistas heterodoxos e principal conselheiro de dois presidentes da República -- Lula e Dilma; Edmar Bacha (dezembro 2010), o mais brilhante dentre os quatro homens que criaram o Plano Real; Martin Wolf (setembro 2010), o mais influente pensador econômico do establishment dos últimos 25 anos; Paul Krugman (agosto 2010), o prêmio Nobel de Economia em 2009 e principal formulador de política econômica vivo; e Antônio Delfim Netto (maio 2010), o homem que foi ministro de 3 presidentes e está à frente dos rumos da economia brasileira desde 1966.
Ao todo, sete entrevistas. Todas, à exceção de Paul Krugman, foram sugestões minhas ao Valor, onde as conversas foram publicadas. Foram entrevistas que batalhei para conseguir, resultado de muita negociação e convencimento.
A de Delfim foi a primeira concedida depois de uma cirurgia delicada, que muito o debilitou. Curiosamente, o mesmo caso da conversa com Belluzzo, que fiz ao lado do grande amigo Sergio Lamucci.
A de Edmar Bacha ocorreu na Casa das Garças, o centro de estudos em Economia coordenado por Bacha no Rio de Janeiro. Um projeto lindo de Oscar Niemeyer com jardins de Roberto Burle Marx, numa tarde de chuva torrencial no Rio. Bacha, inclusive, tinha acabado de tomar a decisão de se aposentar, deixando de lado, portanto, o cargo no conselho do Itaú BBA, para se concentrar apenas à pesquisa econômica. Fora sua primeira entrevista nesta condição, ainda que tivesse vínculos formais com o Itaú BBA por mais alguns dias naquele momento.
A de Martin Wolf foi a primeira que concedeu ao Valor, e uma das poucas que ele concedeu a jornais no mundo todo, resultado de uma negociação que se prolongou por dois meses.
A de Nye também foi a primeira ao Valor, e chegou a ser cancelada quatro vezes até finalmente acontecer.
A de Ferguson, finalmente, também foi outra estreia para o Valor. Ferguson, inclusive, nunca havia falado com jornais brasileiros. Disse que nunca sequer viera ao Brasil. Confidenciou, inclusive, o desejo de conhecer o país no ano que vem e convidou para um café.
***
Não é só de furos e de matérias com bastidores que se vive no jornalismo econômico e político. É de grandes entrevistas, daquelas de fazer qualquer um pensar sobre os rumos do país e do mundo. São poucas as vezes, pouquíssimas mesmo, em que conseguimos isso.
É por isso que eu amo o Jornalismo.
Foi o que consegui com Niall Ferguson, o mais influente historiador econômico e financeiro de nosso tempo. Ferguson é professor por Harvard e pela London School of Economics (LSE), além de ser pesquisador por Oxford e Stanford. Tem livros incríveis, como "Império", sobre o império britânico do século XIX, "A Ascensão do Dinheiro", em que conta a criação e a evolução do dinheiro entre os homens, "Colosso", sobre o império americano do século XX, e o mais recente, ainda sem tradução para o português, "Civilization", em que reconta a dominação do Ocidente no mundo entre o século XV e hoje.
Ferguson entende que vivemos hoje o fim da era de dominação do Ocidente.
Um período sem igual.
Os leitores mais antigos cá do Blog sabem que estou escrevendo um livro justamente sobre o fim da era dominada pelos Estados Unidos. Então, ao dizer que vivemos a era do fim não só da dominação dos EUA, mas do Ocidente como um todo, Ferguson entrou em uma seara que eu tenho muito o que dizer.
Foi uma conversa daquelas de tirar o ar, e foi isso o que tentei transmitir na entrevista que o Valor publica amanhã, no caderno cultural "Eu&FimdeSemana", publicado às sextas-feiras.
***
A entrevista de Niall Ferguson entra no seleto rol de entrevistas que tive que me dão orgulho até hoje. Ferguson está ao lado das conversas que tive com Joseph Nye (maio 2011), o homem que cunhou o termo "neoliberalismo"; Luiz Gonzaga Belluzzo (dezembro 2010), o patrono dos economistas heterodoxos e principal conselheiro de dois presidentes da República -- Lula e Dilma; Edmar Bacha (dezembro 2010), o mais brilhante dentre os quatro homens que criaram o Plano Real; Martin Wolf (setembro 2010), o mais influente pensador econômico do establishment dos últimos 25 anos; Paul Krugman (agosto 2010), o prêmio Nobel de Economia em 2009 e principal formulador de política econômica vivo; e Antônio Delfim Netto (maio 2010), o homem que foi ministro de 3 presidentes e está à frente dos rumos da economia brasileira desde 1966.
Ao todo, sete entrevistas. Todas, à exceção de Paul Krugman, foram sugestões minhas ao Valor, onde as conversas foram publicadas. Foram entrevistas que batalhei para conseguir, resultado de muita negociação e convencimento.
A de Delfim foi a primeira concedida depois de uma cirurgia delicada, que muito o debilitou. Curiosamente, o mesmo caso da conversa com Belluzzo, que fiz ao lado do grande amigo Sergio Lamucci.
A de Edmar Bacha ocorreu na Casa das Garças, o centro de estudos em Economia coordenado por Bacha no Rio de Janeiro. Um projeto lindo de Oscar Niemeyer com jardins de Roberto Burle Marx, numa tarde de chuva torrencial no Rio. Bacha, inclusive, tinha acabado de tomar a decisão de se aposentar, deixando de lado, portanto, o cargo no conselho do Itaú BBA, para se concentrar apenas à pesquisa econômica. Fora sua primeira entrevista nesta condição, ainda que tivesse vínculos formais com o Itaú BBA por mais alguns dias naquele momento.
A de Martin Wolf foi a primeira que concedeu ao Valor, e uma das poucas que ele concedeu a jornais no mundo todo, resultado de uma negociação que se prolongou por dois meses.
A de Nye também foi a primeira ao Valor, e chegou a ser cancelada quatro vezes até finalmente acontecer.
A de Ferguson, finalmente, também foi outra estreia para o Valor. Ferguson, inclusive, nunca havia falado com jornais brasileiros. Disse que nunca sequer viera ao Brasil. Confidenciou, inclusive, o desejo de conhecer o país no ano que vem e convidou para um café.
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Não é só de furos e de matérias com bastidores que se vive no jornalismo econômico e político. É de grandes entrevistas, daquelas de fazer qualquer um pensar sobre os rumos do país e do mundo. São poucas as vezes, pouquíssimas mesmo, em que conseguimos isso.
É por isso que eu amo o Jornalismo.
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quarta-feira, 7 de setembro de 2011
Interlúdio
Hoje, o goleiro do São Paulo Futebol Clube, Rogério Ceni, completa 1000 partidas pelo clube. Completa também 21 anos de São Paulo. Increve-se numa lista muito seleta de jogadores que completaram mil jogos por um clube só. No Brasil, apenas dois jogadores fizeram mais de mil partidas por um mesmo time: Roberto Dinamite, pelo Vasco da Gama, com 1.065 jogos, e Pelé, pelo Santos, com 1.114 partidas.
Com 38 anos e mais um ano de contrato, Rogério Ceni deve ultrapassar Dinamite.
Independentemente de gostar ou não de Rogério Ceni, do São Paulo, de futebol ou o que for. Um atleta completar 21 anos na mesma casa, no principal esporte nacional, num momento em que jogadores são vendidos ao exterior com 17 anos de idade, é um feito enorme. Especialmente porque falamos de um goleiro que fez 104 gols.
Como botafoguense, time que teve em mestre Nilton Santos, o "homem de uma camisa só" -- fez 735 partidas na vida, todas pelo Botafogo -- permito-me reverenciar um dos poucos jogadores que nos fazem lembrar da fase áurea do futebol: aquela dos anos 40 a 70.
***
Mas o jogo mais importante hoje não é São Paulo x Atlético MG, no Morumbi lotado para ver o jogo mil de Rogério Ceni.
É claro que é Botafogo x Ceará, no Rio de Janeiro, com quase 30 mil botafoguenses.
Com 38 anos e mais um ano de contrato, Rogério Ceni deve ultrapassar Dinamite.
Independentemente de gostar ou não de Rogério Ceni, do São Paulo, de futebol ou o que for. Um atleta completar 21 anos na mesma casa, no principal esporte nacional, num momento em que jogadores são vendidos ao exterior com 17 anos de idade, é um feito enorme. Especialmente porque falamos de um goleiro que fez 104 gols.
Como botafoguense, time que teve em mestre Nilton Santos, o "homem de uma camisa só" -- fez 735 partidas na vida, todas pelo Botafogo -- permito-me reverenciar um dos poucos jogadores que nos fazem lembrar da fase áurea do futebol: aquela dos anos 40 a 70.
***
Mas o jogo mais importante hoje não é São Paulo x Atlético MG, no Morumbi lotado para ver o jogo mil de Rogério Ceni.
É claro que é Botafogo x Ceará, no Rio de Janeiro, com quase 30 mil botafoguenses.
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terça-feira, 6 de setembro de 2011
Supremo olha para próprio umbigo
O Supremo Tribunal Federal (STF) tem ocupado uma posição de grande destaque no país nos últimos anos. Se pegarmos apenas o período de 2005 para cá, o STF julgou casos importantíssimos da vida de um país democrático, sempre com decisões que mesmo que contestadas por uma parcela (como em qualquer regime democrático) apontavam para uma evolução civilizatória crucial para o país.
Nos últimos anos, o STF permitiu a realização de pesquisas com células-tronco, a demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, a união civil de homossexuais, o fim do Fundo de Participação dos Estados (FPE) etc. Além disso, têm em suas mãos o processo do mensalão e da desaposentadoria, para ficar nos mais notórios.
Mas, hoje, o STF parece não se preocupar com nada disso. O Brasil e sua Constituição, a nação e a Carta que embasam as decisões e as vidas dos 11 ministros que fazem parte da Corte suprema do Judiciário brasileiro, não parecem prioridade.
Hoje, a grande preocupação do STF está em arrancar um reajuste de 14,79% em seus salários, a partir de janeiro de 2012, que serão seguidos de outros 4,8%, logo em seguida. Esta é a preocupação do STF e também do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, que considera ser justo o reajuste.
O salário de um ministro do Supremo é o que define o teto do funcionalismo. Hoje, os ministros do Supremo embolsam R$ 26,7 mil.
Não é pouco.
Ainda assim, não falamos de um salário extratosférico, bem verdade. Me explico: falamos de 11 pessoas que julgam os casos mais complexos do país, os únicos habilitados a falar pela Constituição e também a última instância do Judiciário brasileiro. Ou seja, legislam, num dia, sobre a união civil de homossexuais, e, no outro, sobre o caso de José da Silva, que roubou um par de sapatos no interior do Acre.
Até acho que o STF no Brasil deveria se preocupar apenas com a Constituição, tal qual ocorre com a Suprema Corte nos Estados Unidos, afinal, o STF é nossa corte constitucional. Mas isso é outra história.
É difícil falar em um salário "justo" para um ministro do STF. Mas é bom lembrar que falamos de pessoas que recebem R$ 26,7 mil por mês e contam com enormes equipes de assessores que os auxiliam para a tomada de decisões e checagem de artigos e parágrafos.
O presidente do STF, ministro César Peluso, faz do reajuste nos salários sua principal demanda junto ao Executivo. Quando o governo Dilma Rousseff, por meio da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, entregou ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), na quarta-feira, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2012, o chororô no STF foi liderado por Peluso. Tudo porque o governo Dilma não previra na PLOA os reajustes requeridos pelo STF nos salários.
Peluso conseguiu o que queria. Em mensagem ao Senado na quinta, Dilma pediu que o Congresso avaliasse o reajuste nos salários do STF para 2012, mas ponderou que "a inclusão de propostas grandes de reestruturação para o funcionalismo federal prejudicaria a efetiva implementação de políticas públicas essenciais como as da saúde, educação e redução da miséria".
Cabe ao Congresso aprovar a PLOA e fazer as emendas que julgar necessárias ao projeto, que depois é encaminhado à presidente da República para eventuais vetos e, por fim, à sanção. O Executivo pode se livrar de uma crise com o Judiciário se o Congresso (o Legislativo) não aprovar o reajuste no STF. Nas conversas que tive com líderes parlamentares na Câmara sobre o assunto, o clima geral é pela não aprovação.
Caso o reajuste de 14,79% seja aprovado, os ministros do STF passarão a receber R$ 30,6 mil por mês a partir de janeiro. Os outros 4,8% de reajuste pedidos, se também forem aprovados, elevarão esses rendimentos para R$ 32 mil por mês.
Vamos lembrar que hoje o salário mínimo é de R$ 545, e mesmo com o forte reajuste de 2012 não deve chegar a R$ 625,00 por mês.
Legal, né?
Não estou aqui me opondo a elevação nos salários dos 11 ministros, por mais sem tato seja isso num momento de crise mundial e aperto nas contas públicas, como aliás, reconhece Luiz Fux, um dos ministros da Corte. O problema é que pela legislação do Judiciário, não só os salários dos ministros do STF servem de teto ao funcionalismo, como os reajustes que os ministros recebem são reverberados em todo o Poder Judiciário -- sim, haverá um efeito em cascata enorme.
O impacto do primeiro reajuste -- dos 14,79% -- só no Judiciário seria de R$ 7,7 bilhões nos gastos do governo. Os outros 4,8% trariam mais R$ 151 milhões.
O efeito cascata não é de todo ruim, se pensarmos a situação de penúria a que muitos juízes estão expostos na primeira instância, onde se trabalha muito e há pouco retorno "de imagem" quanto no STF, ou mesmo no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Mas os 14,79% e depois os adicionais 4,8% chegariam também nos desembargadores da segunda instância, nos juízes e ministros dos Tribunais de Contas estaduais, da Advocacia Geral da União (AGU), nos Tribunais Estaduais e na Justiça do Trabalho. Ao todo, falamos de 91 tribunais e 16.804 magistrados, que consumiram em 2010 o equivalente a R$ 41 bilhões, a título de custeio. Em média, para cada 100 mil habitantes temos 8,7 juízes.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os 91 tribunais viram a tramitação de 83,4 milhões de processos no ano passado, sendo que um terço disso (27 milhões de processos) foram de execução fiscal. A taxa média de congestionamento foi de 70%. Isso quer dizer que apenas 30 de acada 100 processos foram resolvidos no Brasil ao longo de 2010. Na primeira instância, a taxa de execução dos processos foi de apenas 9% para os casos de execução fiscal. Ou seja, apenas 9 em 100 processos foram resolvidos.
Repito: não me oponho a elevação de salários de gente que trabalha, e muito.
Mas, e aqui repito outra ideia: essa turma já recebe um salário bem razoável, especialmente quando vemos que a maior parte dos 43 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil recebe em média R$ 1,1 mil por mês.
Por que não usarmos esse dinheiro que seria gasto no Orçamento do país com o reajuste -- os R$ 7,8 bilhões -- para ampliar a qualificação profissional, de forma a ampliar os salários da base dos trabalhadores?
O Supremo é um órgão crucial para o Brasil e todos reconhecemos os serviços prestados nos últimos anos. Ninguém mais lembra da atuação deplorável dos ministros que pertenceram ao STF durante a ditadura militar (1964-1985), quando o STF funcionava como uma jaula de atrocidades e delinquência jurídica.
Falemos o que for de Gilmar Mendes, como muito já falei cá no Blog, mas durante sua presidência no STF, entre abril de 2008 e abril de 2010, não assistimos a esse discurso corporativista que reina na Corte desde que César Peluso assumiu a direção. Um dos primeiros atos de Peluso foi justamente o Projeto de Lei (PL) 7.749, de 2010, que pede o reajuste de 14,79% nos salários.
O Supremo deveria olhar para a crise mundial, o salário mínimo de R$ 545,00, o Bolsa Família de R$ 95,00 (noventa e cinco reais por mês!!), e pensar mais no país e não no próprio umbigo.
Eu adoraria receber R$ 26,7 mil por mês.
Nos últimos anos, o STF permitiu a realização de pesquisas com células-tronco, a demarcação da reserva indígena Raposa/Serra do Sol, a união civil de homossexuais, o fim do Fundo de Participação dos Estados (FPE) etc. Além disso, têm em suas mãos o processo do mensalão e da desaposentadoria, para ficar nos mais notórios.
Mas, hoje, o STF parece não se preocupar com nada disso. O Brasil e sua Constituição, a nação e a Carta que embasam as decisões e as vidas dos 11 ministros que fazem parte da Corte suprema do Judiciário brasileiro, não parecem prioridade.
Hoje, a grande preocupação do STF está em arrancar um reajuste de 14,79% em seus salários, a partir de janeiro de 2012, que serão seguidos de outros 4,8%, logo em seguida. Esta é a preocupação do STF e também do Procurador-Geral da República, Roberto Gurgel, que considera ser justo o reajuste.
O salário de um ministro do Supremo é o que define o teto do funcionalismo. Hoje, os ministros do Supremo embolsam R$ 26,7 mil.
Não é pouco.
Ainda assim, não falamos de um salário extratosférico, bem verdade. Me explico: falamos de 11 pessoas que julgam os casos mais complexos do país, os únicos habilitados a falar pela Constituição e também a última instância do Judiciário brasileiro. Ou seja, legislam, num dia, sobre a união civil de homossexuais, e, no outro, sobre o caso de José da Silva, que roubou um par de sapatos no interior do Acre.
Até acho que o STF no Brasil deveria se preocupar apenas com a Constituição, tal qual ocorre com a Suprema Corte nos Estados Unidos, afinal, o STF é nossa corte constitucional. Mas isso é outra história.
É difícil falar em um salário "justo" para um ministro do STF. Mas é bom lembrar que falamos de pessoas que recebem R$ 26,7 mil por mês e contam com enormes equipes de assessores que os auxiliam para a tomada de decisões e checagem de artigos e parágrafos.
O presidente do STF, ministro César Peluso, faz do reajuste nos salários sua principal demanda junto ao Executivo. Quando o governo Dilma Rousseff, por meio da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, entregou ao presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), na quarta-feira, o Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) de 2012, o chororô no STF foi liderado por Peluso. Tudo porque o governo Dilma não previra na PLOA os reajustes requeridos pelo STF nos salários.
Peluso conseguiu o que queria. Em mensagem ao Senado na quinta, Dilma pediu que o Congresso avaliasse o reajuste nos salários do STF para 2012, mas ponderou que "a inclusão de propostas grandes de reestruturação para o funcionalismo federal prejudicaria a efetiva implementação de políticas públicas essenciais como as da saúde, educação e redução da miséria".
Cabe ao Congresso aprovar a PLOA e fazer as emendas que julgar necessárias ao projeto, que depois é encaminhado à presidente da República para eventuais vetos e, por fim, à sanção. O Executivo pode se livrar de uma crise com o Judiciário se o Congresso (o Legislativo) não aprovar o reajuste no STF. Nas conversas que tive com líderes parlamentares na Câmara sobre o assunto, o clima geral é pela não aprovação.
Caso o reajuste de 14,79% seja aprovado, os ministros do STF passarão a receber R$ 30,6 mil por mês a partir de janeiro. Os outros 4,8% de reajuste pedidos, se também forem aprovados, elevarão esses rendimentos para R$ 32 mil por mês.
Vamos lembrar que hoje o salário mínimo é de R$ 545, e mesmo com o forte reajuste de 2012 não deve chegar a R$ 625,00 por mês.
Legal, né?
Não estou aqui me opondo a elevação nos salários dos 11 ministros, por mais sem tato seja isso num momento de crise mundial e aperto nas contas públicas, como aliás, reconhece Luiz Fux, um dos ministros da Corte. O problema é que pela legislação do Judiciário, não só os salários dos ministros do STF servem de teto ao funcionalismo, como os reajustes que os ministros recebem são reverberados em todo o Poder Judiciário -- sim, haverá um efeito em cascata enorme.
O impacto do primeiro reajuste -- dos 14,79% -- só no Judiciário seria de R$ 7,7 bilhões nos gastos do governo. Os outros 4,8% trariam mais R$ 151 milhões.
O efeito cascata não é de todo ruim, se pensarmos a situação de penúria a que muitos juízes estão expostos na primeira instância, onde se trabalha muito e há pouco retorno "de imagem" quanto no STF, ou mesmo no Superior Tribunal de Justiça (STJ). Mas os 14,79% e depois os adicionais 4,8% chegariam também nos desembargadores da segunda instância, nos juízes e ministros dos Tribunais de Contas estaduais, da Advocacia Geral da União (AGU), nos Tribunais Estaduais e na Justiça do Trabalho. Ao todo, falamos de 91 tribunais e 16.804 magistrados, que consumiram em 2010 o equivalente a R$ 41 bilhões, a título de custeio. Em média, para cada 100 mil habitantes temos 8,7 juízes.
Segundo dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), os 91 tribunais viram a tramitação de 83,4 milhões de processos no ano passado, sendo que um terço disso (27 milhões de processos) foram de execução fiscal. A taxa média de congestionamento foi de 70%. Isso quer dizer que apenas 30 de acada 100 processos foram resolvidos no Brasil ao longo de 2010. Na primeira instância, a taxa de execução dos processos foi de apenas 9% para os casos de execução fiscal. Ou seja, apenas 9 em 100 processos foram resolvidos.
Repito: não me oponho a elevação de salários de gente que trabalha, e muito.
Mas, e aqui repito outra ideia: essa turma já recebe um salário bem razoável, especialmente quando vemos que a maior parte dos 43 milhões de trabalhadores com carteira assinada no Brasil recebe em média R$ 1,1 mil por mês.
Por que não usarmos esse dinheiro que seria gasto no Orçamento do país com o reajuste -- os R$ 7,8 bilhões -- para ampliar a qualificação profissional, de forma a ampliar os salários da base dos trabalhadores?
O Supremo é um órgão crucial para o Brasil e todos reconhecemos os serviços prestados nos últimos anos. Ninguém mais lembra da atuação deplorável dos ministros que pertenceram ao STF durante a ditadura militar (1964-1985), quando o STF funcionava como uma jaula de atrocidades e delinquência jurídica.
Falemos o que for de Gilmar Mendes, como muito já falei cá no Blog, mas durante sua presidência no STF, entre abril de 2008 e abril de 2010, não assistimos a esse discurso corporativista que reina na Corte desde que César Peluso assumiu a direção. Um dos primeiros atos de Peluso foi justamente o Projeto de Lei (PL) 7.749, de 2010, que pede o reajuste de 14,79% nos salários.
O Supremo deveria olhar para a crise mundial, o salário mínimo de R$ 545,00, o Bolsa Família de R$ 95,00 (noventa e cinco reais por mês!!), e pensar mais no país e não no próprio umbigo.
Eu adoraria receber R$ 26,7 mil por mês.
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
Anotações
O Valor está de site novo, e, por enquanto, totalmente aberto. Os leitores estão mais que convidados a visitar e deixar aqui -- ou lá -- as impressões. Estou sempre por lá, com os textos que vou escrevendo ao longo das jornadas corridas cá em Brasília.
***
Respondi, no fim de semana, os ótimos comentários nos posts "O Brasil e a crise" e "A mudança na política econômica".
Leio sempre todos os comentários colocados aqui no Blog ou enviados por e-mail e pelo Twitter. Mas nem sempre tenho tempo -- ou intelecto -- para responder a altura do que vocês merecem. Mas sempre leio, e, com alguma defasagem, respondo.
***
Numa conversa no fim de semana, lembrei de Marilyn Manson, aquele cantor que surgiu no início dos anos 1990 e que por uns dez anos ocupou a seção "bizarrices" do noticiário musical, que nos anos 80 pertencia a Ozzy Osborne e que hoje é ocupado por Lady Gaga.
Manson era o terror das famílias conservadoras do mundo ocidental. Em seus shows urinava na Bíblia, defecava e usava a bandeira dos Estados Unidos para sua higiene, e apregoava livremente o uso de drogas pesadas, por meio de suas letras e também nas entrevistas.
Era, no entanto, um artista ímpar. Além de produzir bons discos, tinha um faro para músicas de sucesso que era impressionante. Seus primeiros quatro discos são realmente muito bons, em especial o "Antichrist Superstar", de 1996. Os clipes eram também eram geniais, convenhamos.
Até por isso, me impressiona que desde, sei lá, 2004, não ouvimos mais nada dele.
Alguém sabe onde está Marilyn Manson?
***
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu um artigo primoroso no Estadão de ontem. Começou dizendo que preferia ser cronista a articulista, porque do alto de seus 80 anos, já acusa o cansaço de uma vida que passou do estudo do marxismo na América Latina dos anos 60, a oposição ao regime militar pelo MDB nos anos 70, a criação do PSDB nos anos 80, o fim da hiperinflação (Plano Real, 1994) e oito anos de Presidência da República (1995-2002), além de oito anos ativo na oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).
FHC cansou, ainda que mantenha uma rotina ativa intelectualmente, como ele mesmo descreve em seu artigo -- que depois evolui para uma rápida pincelada sobre a crise mundial e a "faxina" promovida por Dilma Rousseff na administração pública.
Não deixem de ler: "Crônica de um tempo difícil"
***
Depois da revista Piauí e da capa de IstoÉ há duas semanas, foi a vez da Folha procurar Cesare Battisti.
Fizeram um belo vídeo.
Pelas imagens de Caio Guatelli, da Folha, Battisti parece estar morando na linda cidade de Paraty (RJ), que já visitei em duas oportunidades. Uma em junho de 2009 e outra, a trabalho, em agosto de 2010, quando cobri a Festa Literária de Paraty (Flip).
Para quem escreveu tanto sobre o caso Battisti desde o início, em 2009, é muito bom assistir o vídeo e saber que a situação perdeu toda aquela tinta pesada que foi dada pelo governo Silvio Berlusconi, na Itália, e a direita brasileira.
Curioso que foi a Itália praticamente falir, como parte da crise mundial, que Battisti deixou de ser importante, né?
***
Sou pessimista: não acho que o Botafogo será campeão brasileiro. Mas quando até vascaínos e tricolores começam a bater nas suas costas e dizer que há grandes chances disso acontecer, devo dizer que estou ansioso.
Se eu fosse presidente do Botafogo tratava de tirar Túlio do Bonsucesso, time pequeno do Rio que acabou de contratar o atacante de 41 anos (ex-craque do Botafogo), e o colocava para as últimas partidas do Brasileirão. Nem sei, na realidade, se é possível pelas regras fazer esse tipo de coisa. Mas caso o time consiga chegar às rodadas decisivas no páreo, seria sensacional para o torcedor ver os dois últimos ídolos alvinegros -- Túlio e Loco Abreu -- jogando juntos no ataque.
***
O que vocês acham do PSD, o partido fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab?
Estou acompanhando as negociações em torno de sua fundação desde o início, e estou para escrever um post sobre o partido.
***
Respondi, no fim de semana, os ótimos comentários nos posts "O Brasil e a crise" e "A mudança na política econômica".
Leio sempre todos os comentários colocados aqui no Blog ou enviados por e-mail e pelo Twitter. Mas nem sempre tenho tempo -- ou intelecto -- para responder a altura do que vocês merecem. Mas sempre leio, e, com alguma defasagem, respondo.
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Numa conversa no fim de semana, lembrei de Marilyn Manson, aquele cantor que surgiu no início dos anos 1990 e que por uns dez anos ocupou a seção "bizarrices" do noticiário musical, que nos anos 80 pertencia a Ozzy Osborne e que hoje é ocupado por Lady Gaga.
Manson era o terror das famílias conservadoras do mundo ocidental. Em seus shows urinava na Bíblia, defecava e usava a bandeira dos Estados Unidos para sua higiene, e apregoava livremente o uso de drogas pesadas, por meio de suas letras e também nas entrevistas.
Era, no entanto, um artista ímpar. Além de produzir bons discos, tinha um faro para músicas de sucesso que era impressionante. Seus primeiros quatro discos são realmente muito bons, em especial o "Antichrist Superstar", de 1996. Os clipes eram também eram geniais, convenhamos.
Até por isso, me impressiona que desde, sei lá, 2004, não ouvimos mais nada dele.
Alguém sabe onde está Marilyn Manson?
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O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreveu um artigo primoroso no Estadão de ontem. Começou dizendo que preferia ser cronista a articulista, porque do alto de seus 80 anos, já acusa o cansaço de uma vida que passou do estudo do marxismo na América Latina dos anos 60, a oposição ao regime militar pelo MDB nos anos 70, a criação do PSDB nos anos 80, o fim da hiperinflação (Plano Real, 1994) e oito anos de Presidência da República (1995-2002), além de oito anos ativo na oposição ao governo Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010).
FHC cansou, ainda que mantenha uma rotina ativa intelectualmente, como ele mesmo descreve em seu artigo -- que depois evolui para uma rápida pincelada sobre a crise mundial e a "faxina" promovida por Dilma Rousseff na administração pública.
Não deixem de ler: "Crônica de um tempo difícil"
***
Depois da revista Piauí e da capa de IstoÉ há duas semanas, foi a vez da Folha procurar Cesare Battisti.
Fizeram um belo vídeo.
Pelas imagens de Caio Guatelli, da Folha, Battisti parece estar morando na linda cidade de Paraty (RJ), que já visitei em duas oportunidades. Uma em junho de 2009 e outra, a trabalho, em agosto de 2010, quando cobri a Festa Literária de Paraty (Flip).
Para quem escreveu tanto sobre o caso Battisti desde o início, em 2009, é muito bom assistir o vídeo e saber que a situação perdeu toda aquela tinta pesada que foi dada pelo governo Silvio Berlusconi, na Itália, e a direita brasileira.
Curioso que foi a Itália praticamente falir, como parte da crise mundial, que Battisti deixou de ser importante, né?
***
Sou pessimista: não acho que o Botafogo será campeão brasileiro. Mas quando até vascaínos e tricolores começam a bater nas suas costas e dizer que há grandes chances disso acontecer, devo dizer que estou ansioso.
Se eu fosse presidente do Botafogo tratava de tirar Túlio do Bonsucesso, time pequeno do Rio que acabou de contratar o atacante de 41 anos (ex-craque do Botafogo), e o colocava para as últimas partidas do Brasileirão. Nem sei, na realidade, se é possível pelas regras fazer esse tipo de coisa. Mas caso o time consiga chegar às rodadas decisivas no páreo, seria sensacional para o torcedor ver os dois últimos ídolos alvinegros -- Túlio e Loco Abreu -- jogando juntos no ataque.
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O que vocês acham do PSD, o partido fundado pelo prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab?
Estou acompanhando as negociações em torno de sua fundação desde o início, e estou para escrever um post sobre o partido.
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domingo, 4 de setembro de 2011
Domingo
-Parabéns. E quando será o dia feliz?
-Ainda não está claro. Há algumas questões complicadas para resolver, e o casamento não pode se realizar antes da próxima primavera, no mínimo.
-É uma pena ter de esperar tanto tempo.
-Não há outro jeito. Tecnicamente, ela ainda está casa com outra pessoa, e temos de esperar que a justiça cumpra a sua parte. Mas vale a pena esperar. Conheço essa mulher desde o tempo em que eu tinha sua idade, e ela é uma pessoa exemplar, a parceira que desejei toda a vida.
-Se gosta tanto dela assim, por que ficou com Margot durante os últimos dois anos?
-Porque eu não sabia que estava apaixonado por ela, até vê-la de novo em Paris.
Diálogo em "Invisível" (2009), de Paul Auster, escritor norte-americano, com tradução de Rubens Figueiredo.
-Ainda não está claro. Há algumas questões complicadas para resolver, e o casamento não pode se realizar antes da próxima primavera, no mínimo.
-É uma pena ter de esperar tanto tempo.
-Não há outro jeito. Tecnicamente, ela ainda está casa com outra pessoa, e temos de esperar que a justiça cumpra a sua parte. Mas vale a pena esperar. Conheço essa mulher desde o tempo em que eu tinha sua idade, e ela é uma pessoa exemplar, a parceira que desejei toda a vida.
-Se gosta tanto dela assim, por que ficou com Margot durante os últimos dois anos?
-Porque eu não sabia que estava apaixonado por ela, até vê-la de novo em Paris.
Diálogo em "Invisível" (2009), de Paul Auster, escritor norte-americano, com tradução de Rubens Figueiredo.
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sexta-feira, 2 de setembro de 2011
Fim de expediente botafoguense
O happy hour da sucursal do Valor costuma ser às quintas-feiras. Excepcionalmente nesta semana resolvemos fazer na quarta-feira. Foi uma semana pesada em Brasília.
Na segunda-feira, o governo anunciou a elevação do superávit primário em R$ 10 bilhões, na terça-feira corri atrás de uma história que só eu tinha sobre as movimentações do governo em torno do Projeto de Lei 1.992/07 que tramita na Câmara, na quarta-feira foi apresentado o Orçamento de 2012 e à noite o Banco Central anunciou o corte de 0,5 ponto na taxa de juros, que deixou todo mundo surpresa.
O happy hour tinha de ser na quarta.
Juntamos todos, então, no 153, bar que fica na porta do Valor e da Folha, onde invariavelmente topamos com outros colegas. Por ser quarta, os jogos do Campeonato Brasileiro estava a todo o vapor.
Estava lá o blogueiro, como sempre, pessimista. Como todo botafoguense, estava crente que perderíamos do Palmeiras, mesmo jogando na Cidade Maravilhosa e tendo uma equipe muito superior. O botafoguense sempre acha que vai perder.
Mas o Botafogo venceu, algo que está se tornando rotina em 2011.
O blogueiro não se aguentou. Na sucursal do Valor cá na capital federal, os botafoguenses são maioria: Maira Magro, repórter de Legislação & Tributos, Raymundo Costa, repórter-especial de Política, o faz tudo da redação Wellington e este que vos fala.
Maíra logo lançou a ideia de irmos com a camiseta do Botafogo no dia seguinte à redação.
Costumamos nos encontrar pouco na redação, porque fica cada um no lado. O blogueiro mesmo passa o dia na rua. Mas, como era dia primeiro do mês, e, além de tudo, quinta-feira, as coisas estavam mais paradas -- momento excelente para escrevermos matérias especiais.
Com todos devidamente instalados na redação, Maíra e eu sacamos as camisetas. Tirei o paletó apenas: foi por cima da camisa e da gravata mesmo.
O autor da foto, mestre Cristiano Romero, editor-executivo do Valor, ficou entusiasmado com toda a demonstração de carinho pelo Botafogo que deixou sua paixão tricolor de lado para uma foto com a camiseta mais bonita do futebol.
E claro que sobrou para o Plínio, o técnico de informática da sucursal, e dono do maior coração flamenguista que eu conheço. Convenci Plínio a tirar uma foto com a camiseta do Botafogo apenas de brincadeira, para mostrar à Maíra, que ainda não tinha chegado à redação. Ele topou.
Mas é claro que o blogueiro estava mentindo.
Se os leitores deste Blog tivessem o prazer de conhecer Plínio entenderiam que o faço aqui é sacrilégio que só a sexta-feira de uma semana caótica permite....
Um fim de semana de muita alegria alvinegra aos leitores.
Na segunda-feira, o governo anunciou a elevação do superávit primário em R$ 10 bilhões, na terça-feira corri atrás de uma história que só eu tinha sobre as movimentações do governo em torno do Projeto de Lei 1.992/07 que tramita na Câmara, na quarta-feira foi apresentado o Orçamento de 2012 e à noite o Banco Central anunciou o corte de 0,5 ponto na taxa de juros, que deixou todo mundo surpresa.
O happy hour tinha de ser na quarta.
Juntamos todos, então, no 153, bar que fica na porta do Valor e da Folha, onde invariavelmente topamos com outros colegas. Por ser quarta, os jogos do Campeonato Brasileiro estava a todo o vapor.
Estava lá o blogueiro, como sempre, pessimista. Como todo botafoguense, estava crente que perderíamos do Palmeiras, mesmo jogando na Cidade Maravilhosa e tendo uma equipe muito superior. O botafoguense sempre acha que vai perder.
Mas o Botafogo venceu, algo que está se tornando rotina em 2011.
O blogueiro não se aguentou. Na sucursal do Valor cá na capital federal, os botafoguenses são maioria: Maira Magro, repórter de Legislação & Tributos, Raymundo Costa, repórter-especial de Política, o faz tudo da redação Wellington e este que vos fala.
Maíra logo lançou a ideia de irmos com a camiseta do Botafogo no dia seguinte à redação.
Costumamos nos encontrar pouco na redação, porque fica cada um no lado. O blogueiro mesmo passa o dia na rua. Mas, como era dia primeiro do mês, e, além de tudo, quinta-feira, as coisas estavam mais paradas -- momento excelente para escrevermos matérias especiais.
Com todos devidamente instalados na redação, Maíra e eu sacamos as camisetas. Tirei o paletó apenas: foi por cima da camisa e da gravata mesmo.
O autor da foto, mestre Cristiano Romero, editor-executivo do Valor, ficou entusiasmado com toda a demonstração de carinho pelo Botafogo que deixou sua paixão tricolor de lado para uma foto com a camiseta mais bonita do futebol.
E claro que sobrou para o Plínio, o técnico de informática da sucursal, e dono do maior coração flamenguista que eu conheço. Convenci Plínio a tirar uma foto com a camiseta do Botafogo apenas de brincadeira, para mostrar à Maíra, que ainda não tinha chegado à redação. Ele topou.
Mas é claro que o blogueiro estava mentindo.
Se os leitores deste Blog tivessem o prazer de conhecer Plínio entenderiam que o faço aqui é sacrilégio que só a sexta-feira de uma semana caótica permite....
Um fim de semana de muita alegria alvinegra aos leitores.
quinta-feira, 1 de setembro de 2011
A mudança na política econômica
No post abaixo, "O Brasil e a crise", relatei que o governo mudara a lógica da política econômica. Antes calcada em política fiscal expansionista, com gastos públicos em alta e desoneração de impostos, agora o governo trabalha com uma nova linha: aperto fiscal, com elevação do superávit primário, para abrir espaço para a política monetária, via redução dos juros.
Foi exatamente o que aconteceu.
Ontem, numa medida surpreendente, o Banco Central (BC) anunciou o corte da Selic, a taxa básica de juros, em 0,5 ponto percentual. A partir de hoje, a Selic é de 12% ao ano.
É a primeira vez que o BC faz um movimento na Selic (para cima ou para baixo) sem avisar ao mercado com antecedência, por meio das atas de suas reuniões e do Relatório de Inflação, que o BC divulga trimestralmente. Nada. O BC simplesmente anunciou corte da Selic. E um corte forte -- aqueles mais otimistas no mercado até apostavam num corte, mas de 0,25 pontos percentuais.
Agora é ver se vai dar certo.
Foi exatamente o que aconteceu.
Ontem, numa medida surpreendente, o Banco Central (BC) anunciou o corte da Selic, a taxa básica de juros, em 0,5 ponto percentual. A partir de hoje, a Selic é de 12% ao ano.
É a primeira vez que o BC faz um movimento na Selic (para cima ou para baixo) sem avisar ao mercado com antecedência, por meio das atas de suas reuniões e do Relatório de Inflação, que o BC divulga trimestralmente. Nada. O BC simplesmente anunciou corte da Selic. E um corte forte -- aqueles mais otimistas no mercado até apostavam num corte, mas de 0,25 pontos percentuais.
Agora é ver se vai dar certo.
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