terça-feira, 30 de agosto de 2011

O Brasil e a crise

O governo anunciou ontem a ampliação do superávit primário deste ano em R$ 10 bilhões, como forma de reagir ao agravamento da crise econômica mundial.
O que isso quer dizer?

O superávit primário é formado pelos recursos que o governo retém do orçamento para direcionar ao pagamento dos juros que incidem sobre a dívida pública. Ou seja, quanto maior o primário (como é chamado), mais juros o governo paga, menor a dívida. Ao mesmo tempo, menos recursos tem o governo disponíveis para usar em outras fontes, como gastos com salários de funcionalismo, investimentos e emendas parlamentares. Quanto maior o superávit primário, portanto, menos impulso público à demanda agregada, ou seja, maior o esfriamento da economia e maior o colchão do governo.

A meta para 2011 era poupar R$ 117,9 bilhões. Só o governo central (que conta Tesouro, Banco Central e Previdência) precisava poupar R$ 81,8 bilhões.

Apenas nos primeiros sete meses do ano, entre janeiro e julho, o governo central já poupara R$ 66,9 bilhões dos R$ 81,8 bilhões que precisava para o ano inteiro. Por que? Por duas razões: 1) porque as receitas oriundas dos impostos aumentaram muito; e 2) porque o governo está gastando menos mesmo.

O que pensaram a presidente Dilma Rousseff e o ministro da Fazenda, Guido Mantega?

"Vamos ampliar o primário, de forma a preparar o governo para a eventualidade de uma recessão mundial pior do que se imagina para 2012", disse Mantega aos parlamentares da base aliada, na reunião que o governo realizou com o Conselho Político ontem às 10h no Palácio do Planalto. Uma hora antes, na reunião que o governo realizou com os líderes das seis maiores centrais sindicais, Dilma avisou: "Vamos ampliar o primário baseado no excesso de arrecadação, não vamos cortar nenhuma despesa".

A lógica da política econômica mudou radicalmente.

Quando a crise mundial estourou, no fim de 2008, a reação imediata do governo foi fiscal. O governo Luiz Inácio Lula da Silva lançou mão de desonerações fiscais à indústria automobilística, de materiais de construção e de eletrodomésticos da linha branca (todos com redução do IPI), autorizou o repasse de R$ 100 bilhões do Tesouro ao BNDES em 2009 para ampliar o crédito às empresas, trocou o presidente do Banco do Brasil (BB) e forçou os bancos públicos, BB à frente, a reduzirem as taxas de juros para o crédito ao consumo, e ampliou as despesas públicas, com a criação do Minha Casa, Minha Vida, a ampliação do salário mínimo, a contratação de grande contingente de funcionários públicos e o aumento salarial dos servidores. Ainda no primeiro semestre de 2010, essa política fiscal agressiva continuou.

A política monetária também foi usada, mas foi muito menos agressiva. O BC reduziu os compulsórios, deixando mais recursos livres aos bancos privados, que poderiam canalizar ao crédito. Estes, no entanto, levaram tudo para as operações compromissadas do próprio BC, o que fez com que a parcela do crédito a pessoa física dos bancos públicos aumentasse enormemente. Ao mesmo tempo, o BC demorou a iniciar o corte na Selic, a taxa de juros básica da economia. A crise estourou em setembro de 2008, mas o BC só começou a cortar os juros em janeiro de 2009.

Como se sabe, há enorme defasagem nos efeitos da política monetária, enquanto que a política fiscal é na veia. Os juros, tanto em alta quanto em baixa, costumam se fazer sentir na economia num espaço de seis a oito meses. Ou seja, o efeito cheio dos cortes da Selic só fizeram efeito mesmo entre o fim de 2009 e início de 2010, justamente quando a economia bombou.

Bombou tanto que mesmo produzindo o excelente PIB de 2010 -- alta de 7,5%, a maior desde 1986 com o Plano Cruzado -- também piorou as contas públicas, fazendo a dívida/PIB aumentar, e também a volta de uma aceleração um tanto perigosa. Nem tanto pelas contas públicas, que, francamente, não pioraram tanto assim como muitos economistas querem fazer crer, mas mais pela inflação (este sim um PROBLEMA MAIÚSCULO), o governo sacou que era preciso botar a mão no freio.

O freio começou tão logo acabou a eleição. Já em dezembro de 2010, último mês de Lula, o BC lançou mão das medidas macroprudenciais de aperto na concessão do crédito para compra de automóvel e também do crédito geral a pessoa física. Da mesma forma, os primeiros efeitos da elevação da Selic (que começou em abril de 2010) começaram a aparecer.

Em fevereiro de 2011, já sob Dilma, o governo fechou duas políticas de aperto: venceu a batalha contra as centrais sindicais (notadamente a Força Sindical) do reajuste do salário mínimo só pela inflação (ao mesmo tempo em que, diga-se, permitiu o forte reajuste para 2012) e anunciou corte de R$ 50 bilhões no Orçamento de 2011. Enquanto isso, os juros continuaram subindo.

A economia começou a frear mesmo a partir de abril. Ali, com o câmbio no chão, todo o entusiasmo de 2010 finalmente dissipado, e com juros nas alturas, além dos cortes nas despesas públicas e a inflação bem mais salgada reduzindo o ímpeto dos reajustes salariais, a economia começou a perder força.

Com a piora no cenário externo, primeiro na União Europeia, a partir de junho, e depois nos Estados Unidos, a partir de julho, o governo sacou que não era hora de pisar tanto assim no freio. Dilma mandou que os ministros que tocavam a modelagem da política industrial a banho-maria acelerassem, e também passou a discutir mais de perto com Mantega outras formas de incentivar a base da pirâmide, de forma a esquentar a economia sem, no entanto, deixar a inflação escapar.

O mês de agosto, então, foi o mês do lançamento de programas.

Já no dia 04, dois dias depois do quase calote americano, o governo lançou a nova política industrial, o Brasil Maior, tendo como principal medida a desoneração da folha de pagamento para quatro setores: têxteis, calçados, móveis e software. Estes não mais recolherão os 20% ao INSS que incidem sobre a folha de pagamento, mas sim uma alíquota de 1,5% sobre o faturamento bruto (2,5% para software).
Depois, o governo lançou a ampliação do regime tributário especial Simples e do Micro Empreendedor Individual (MEI), que, juntos, representam uma desoneração de R$ 4,8 bilhões. Na semana passada, anunciou a ampliação do microcrédito, tendo quatro bancos públicos à frente. Finalmente, ao mesmo tempo que deu estímulos, o governo terminou anunciando ontem a ampliação do superávit primário.

Ufa. Terminei o parágrafo mais longo da minha vida.

Voltando, o que temos evidente?

O enfoque da política econômica mudou, e isso fica claro nas declarações de Dilma aos parlamentares e dirigentes sindicais, e de Mantega na coletiva em que anunciou a ampliação do primário. Se antes a resposta à crise foi fiscal, desta vez, antevendo uma piora, o governo quer melhorar o fiscal, reduzindo a dívida como proporção do PIB para, assim, poder gastar em caso de quebradeira lá fora.

Pressão no Banco Central.

Estava sentado ao lado de Mantega, no gabinete dele, ontem à tarde, quando ele gravou uma mensagem ao prêmio Valor 1000, que o Valor promove anualmente. Ele foi explícito na mensagem: "estamos abrindo espaço fiscal para a redução dos juros, que ainda são muito altos no Brasil". Ou seja, a saída, agora, será monetária, via redução dos juros.

Passei o dia ontem recolhendo os relatos de dirigente sindicais e também na Fazenda. Assim montei este quebra-cabeça, que indica uma mudança radical na política econômica brasileira.

Vai dar certo?

É pagar para ver. O fato de reagir rápido foi um trunfo em 2008 que está por detrás desta reação preventiva de 2011. Curioso é notar que a linha de frente daquele fim de 2008 ao início de 2010 -- Mantega, Luciano Coutinho, do BNDES, e Dilma, na Casa Civil -- são os mesmos de agora, com discursos diferentes. É salutar ver que as autoridades não tem pensamento fixo, uma vez que, como todos os leitores cá do Blog bem sabem, o que vivemos em 2011 é totalmente distinto de 2008.

Nossos erros são, no fundo, uma virtude. Enquanto EUA, União Europeia e Japão estão com juro zero, nós temos a maior taxa de juros do mundo -- hoje em 12,5% ao ano -- ou seja, temos folga para cortar e estimular a economia interna, se for preciso. Os países ricos aumentaram enormemente seu endividamento público entre 2008 e 2011 justamente para salvar os bancos de uma quebradeira que seria fatal para o mundo, enquanto por aqui o quadro é outro. Nos EUA, a dívida bruta representa 100% do PIB. Na Inglaterra é 96% do PIB. Em Portugal é 94%. Na Itália é 119% do PIB. Na Grécia é 140% do PIB. No Japão, que ontem viu seu sexto premiê em cinco anos deixar o cargo, a dívida bruta representa 223% do PIB.

No Brasil, a dívida bruta representa 55,5% do PIB. Se levado em conta os critérios internacionais de contabilidade, é um pouco maior, algo como 63% do PIB.

É alta, não adianta os pró-governo dizerem que não. Claro que comparando aos patamares estrangeiros parece algo sensacional. Mas, se fosse, o governo não estaria aumentando o superávit primário justamente para reduzir o peso da dívida.

O caminho parece correto. A conferir.

Seja como for, o blogueiro só espera que agosto se vá. Este foi um dos meses mais corridos da história da humanidade.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Crise mundial: e o Brasil com isso?

A crise nos países ricos piorou muito neste mês de agosto. Hoje, há mais economista apontando para uma nova recessão que aqueles que avaliam que o mundo ficará com crescimento fraco.

O Brasil ainda cresce. Por quanto tempo? O que pode e deve o governo brasileiro fazer?

Conversei com seis economistas, de diferentes tendências, sobre o assunto.

O resultado está no post que o Amálgama acaba de publicar.

domingo, 28 de agosto de 2011

Domingo

Este é um Domingo de Formula 1 como há 25 anos não temos.
Poucos carros na história da Formula 1 foram tão lindos quando a Lotus patrocinada pelos cigarros John Player Special, entre 1972 e 1986. Aos brasileiros, foi um carro especial. Foi nele que Emerson Fittipaldi venceu seu primeiro título mundial, em 1972, e nele que Ayrton Senna venceu seu primeiro Grand Prix, em abril de 1985, em Portugal.

Aquela imagem da Lotus negra e dourada, com o capacete amarelo com duas faixas em azul e verde, de Senna ficou na memória de todos os brasileiros. Foram grandes momentos vividos em duas temporadas, em 1985 e 1986, mas dois ficaram marcados para sempre.


A primeira vitória, em 1985, ocorreu justamente no domingo em que o país acordou com a notícia que seu presidente eleito indiretamente em janeiro, Tancredo Neves, acabara de morrer, depois de 45 dias internado em hospital. A vitória de Senna, numa pista molhada, algo que passaria a ser característico a partir dali, serviu como consolo.

Depois, em 1986, Senna venceu o GP de Detroit (EUA) no dia seguinte à dolorosa eliminação da seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo do México, nos pênaltis, contra a França. Senna, quando venceu, encostou na arquibancada e pediu a bandeira do Brasil que um fã carregava. Com ela empunhada, Senna deu a volta da vitória, num gesto que foi transmitido e repetido mundialmente, e virou marca registrada de seu nacionalismo.

Vinte e cinco anos depois, não deixa de dar orgulho ver seu sobrinho, Bruno Senna, dirigir a mesma Lotus negra e dourada do tio, em Spa Francoschamps, na Bélgica, onde Ayrton venceu cinco vezes (em 1985, 88, 89, 90 e 91). Detalhe: com chuva, bem ao gosto de Ayrton.



A corrida ocorrerá em uma hora. Bruno larga em sétimo, uma ótima posição para uma Lotus que não é, nem de longe, aquela Lotus de Emerson e Ayrton dos anos 1970 e 1980. Mas, até aí, a Formula 1 há tempos não é o mesmo esporte charmoso que foi dos tempos de Jim Clark, Jackie Stewart, Nicki Lauda, Keke Rosberg, Ronnie Peterson, John Hunt, Gilles Villeneuve, Alain Prost, Nelson Piquet, Nigel Mansell e Ayrton Senna.
Por isso, justamente, ver Bruno e a Lotus dá aquela saudade do domingo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Fim de expediente

A maravilha de Lynyrd Skynyrd, "Free Bird", para fechar minha semana mais pesada desde que cheguei a Brasília, no fim de maio.

Foi também, por uma série de razões, a melhor.


Versão estupenda, gravada ao vivo em 1975, dois anos depois que "Free Bird" foi composta. O início, com o dueto entre piano e guitarras dobradas, enquanto o baixo faz o grave caminhar no sentido inverso da voz de Von Zant, é matador. E, ao final, a sucessão de solos de guitarra é de chorar.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Esquenta o debate sobre a previdência dos servidores

O governo conseguiu aprovar, ontem, na Comissão do Trabalho na Câmara, o fundo único de previdência complementar do servidor público. O Projeto de Lei (PL) 1.992/07 foi aprovado mesmo com forte oposição de parlamentares da base aliada, como PT, o próprio partido da presidente Dilma Rousseff, além do PCdoB e do PDT.
Em apenas dois dias, o governo montou uma força-tarefa que envolveu o corpo técnico de cinco ministérios, além de reuniões entre deputados e dois ministros. O xeque-mate do governo foi dado na noite anterior à votação, por meio da neutralização de parte do PCdoB.

Principal nome do PCdoB na comissão, a deputada Manuela D'Ávila (RS), não foi à sessão ontem. Manuela, que também é vice-líder do governo no Congresso, foi uma das poucas parlamentares contrárias ao projeto convidadas para um café com Ideli Salvatti, ministra de Relações Institucionais, no Palácio do Planalto, na noite de terça-feira. Sua ausência foi criticada ontem por Alice Portugal (PCdoB-BA), de maneira indireta. "É um absurdo votar pela aprovação deste projeto, mas é um absurdo ainda maior se abster", afirmou.

Ainda que divididos, os parlamentares do PCdoB contaram ontem com a presença de sindicalistas da Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), braço sindical do partido. "Esse projeto vai desincentivar o jovem a se tornar funcionário público federal, uma vez que o governo entregará a previdência do servidor ao sistema financeiro", afirmou, antes da votação, o deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA).

A aprovação do parecer, por 13 votos a sete, foi capitaneada pelo PTB, cujo presidente da comissão, Silvio Costa (PE), também é o relator do projeto. Em tramitação na Comissão de Trabalho desde setembro de 2007, o projeto que cria a Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp) foi deixado de lado pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e contou com tímido apoio da presidente Dilma Rousseff nos primeiros meses do ano. Apenas há três semanas, quando Costa foi convidado ao Planalto para se reunir com técnicos do Ministério das Relações Institucionais é que o apoio começou.

Resultado da convicção do governo com o aperto fiscal, o apoio à criação do Funpresp, antes tímido, passou a ser explícito na força-tarefa montada nesta semana. Na segunda-feira, técnicos dos ministérios da Fazenda, Relações Institucionais, Previdência, Planejamento e Casa Civil reuniram-se com deputados e sindicalistas que representam categorias de servidores federais, no Planalto, para explicar o projeto. Na reunião, os sindicalistas explicitaram aos técnicos que as críticas estavam localizadas quanto a gestão do Funpresp, que pode, temem os sindicalistas, ser vendida a uma instituição financeira como uma carteira de crédito.

O governo admitiu que deve fazer mudanças pontuais no texto, mas condicionou as mudanças à aprovação do mérito na Comissão de Trabalho. Por ter caráter terminativo, o PL 1.992/07 não precisa passar pelo plenário da Câmara, indo diretamente ao Senado após a aprovação nas demais comissões. O governo avalia ainda se aguarda a tramitação pelas comissões restantes ou se a presidente dá caráter de urgência ao projeto, o que levaria o texto ao plenário. A expectativa do governo é que o Funpresp chegue ao Senado até o fim de setembro.

Os servidores que ingressarem no setor público federal a partir da criação do Funpresp terão suas aposentadorias limitadas pelo teto do Instituto Nacional de Seguro Social - hoje em R$ 3,6 mil -, tal qual ocorre com aqueles que se aposentam pelo Regime Geral de Previdência Social (RGPS). Para receber além do teto do INSS, o servidor terá de optar por aplicar parte de sua remuneração no Funpresp, que contará com aportes do Tesouro até o limite de 7,5% do total aplicado pelo servidor.

***

Esta é minha matéria de hoje no Valor. Ando acompanhando de perto as negociações envolvendo o Funpresp.

A deputada Manuela D'Ávila (PC do B-RS) veio me procurar no Twitter, hoje cedo. Esclareceu que não participou do café com Ideli -- no mesmo horário estava na Fazenda, reunindo-se com Nelson Barbosa, o secretário-executivo da Fazenda. Afirmou ainda que não deixou de ir à comissão, uma vez que não é titular lá, apenas suplente. A indireta de Alice Portugal, sua correligionária.

A informação que tive, ontem, veio do Planalto. Procurei Manuela em seu gabinete por duas vezes, no início da noite ontem, mas não obtive resposta da secretária. Na conversa que tive com ela, hoje, anotei os telefones diretos.

***

Estou acompanhando essas negociações desde que cheguei em Brasília, no fim de maio.

Só agora os jornais estão acordando para o tema -- sua importância e, principalmente, a importância que o governo Dilma está dando. Se o governo acha importante, a mídia tem que correr atrás. Demoraram, e eu fiquei sozinho no assunto até agora.

Hoje cedo estive no Ministério da Previdência, para a coletiva mensal que o ministro Garibaldi Alves concede com os resultados da Previdência. Na coletiva, os jornalistas, que antes ignoravam o tema, bombardearam o ministro de perguntas.

Agora, enfim, o tema está esquentando em Brasília. Fiquem de olho.

***

Aqui a matéria que escrevi há pouco para o site do Valor, sobre as declarações de Garibaldi.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Sobre o Acta

Alguém tem alguma notícia do Acta?
Trata-se daquele conjunto de medidas que o governo americano combinava secretamente junto a suas embaixadas mundialmente para fechar uma norma geral de patentes. As negociações foram expostas pelo WikiLeaks no começo de 2010 e depois acabaram meladas.

Mas, como já estamos em agosto de 2011 e muita areia correu de lá para cá, lembrei outro dia do Acta. Fiz uma pesquisa rápida e, mais uma vez, parece ter sumido dos holofotes.

Cheguei a dar uma entrevista a MTV comentando do assunto em maio do ano passado --> que pode ser vista aqui, no vídeo de baixo da página, no programa do Cazé.

Alguém tem alguma notícia do Acta?

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

30 anos sem Glauber Rocha

Autor do maior filme da história do cinema brasileiro: "Deus e o Diabo na Terra do Sol", idealizado em 1962, filmado e montado em 1963, e exibido em 13 de março de 1964.


domingo, 21 de agosto de 2011

Domingo

A noite toda, ladoa lado são amantes.
E no seu sono
viram-se de lado

como duas folhas
de um livro
que leem uma a outra
no escuro.

Uma sabe tudo
o que sabe a outra,
apreenderam-se de cor
da cabeça aos pés.


Elizabeth Bishop, poeta americana, que viveu no Brasil com sua grande paixão, a arquiteta carioca Lota Macedo Soares, que ajudou a desenhar o Parque do Flamengo, no Rio. Juntas, viveram um amor intenso entre 1951 e 1967, e chegaram a dividir uma das casas mais lindas que a arquitetura brasileira já fez: a casa de vidro projetada por Sérgio Bernardes para as duas, no meio da Mata Atlântica, no bairro Samambaia, em Petrópolis (RJ).

A poesia acima foi escrita em 1980, quando Elizabeth já deixara o Brasil e Lota.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Fim de expediente

Há uma semana morria Jani Lane, aos 47 anos, em um motel em Los Angeles (EUA). Lane morrer incógnito no Brasil é absolutamente compreensível. Mas morrer quase anônimo em Los Angeles, e da maneira melancólica que morreu (novo, gordo, largado, sozinho), é símbolo da sociedade americana.
Jani Lane foi um dos caras mais famosos dos EUA por três anos consecutivos: 1989, 1990 e 1991. Surgiu novo, aos 25 anos, como cantor do que parecia (e de fato era) mais um grupo do estilo musical da moda -- o Glam Rock. Cinco caras de feições femininas, com roupas de coro, e músicas com solos de guitarra e refrões que colavam na mente como chiclete nas solas do chinelo. Estouraram com uma música: "Cherry Pie", cujo vídeo-clipe explodiu em 1990 na MTV, e que lançou à cena pop americana a modelo Carmen Electra, que depois namoraria meio mundo, entre roqueiros e jogadores de basquete da NBA.

Tão logo foi alçado ao estrelato insuportável, Jani Lane foi jogado no lixo pela indústria a partir de 1992, quando a moda passou a ser outro estilo -- o Grunge, impulsionado por grupos como Nirvana, Alice in Chains e Pearl Jam. Assim, todos aqueles grupos da moda anterior, que surgiram a partir de 1985, foram sumindo aos poucos (como Poison, Cinderella, Winger, Guns 'n Roses, Warrant) e outros tiveram de mudar totalmente para continuarem relevantes (como Bon Jovi).

Não que Jani Lane fosse um gênio incompreendido, ou um D. W. Griffith da música, cem anos depois. Mas Lane era, até sexta-feira passada, um dos casos mais evidentes de como funciona a lógica da indústria cultural americana -- usa-se até o limite do possível, e, quando deixa de ser vendável, joga-se no lixo. Lane era dos caras mais requisitados pelas mulheres e revistas dos EUA aos 25 anos de idade, e um completo pária aos 28 anos.

Afundou no álcool e engordou quase vinte quilos. Desistiu da música umas três vezes. Voltava sempre que precisava de dinheiro para pagar suas contas e suas bebidas. Nos últimos anos sequer tinham interesse em assistir Lane e o Warrant em pequenos bares, e, se tinham, o pagamento era pequeno. Brigou com o Warrant, entrou na Justiça. Criou um grupo paralelo. Perdeu a casa e foi esquecido.

Morreu aos 47 anos, gordo e em um quarto de motel, onde vivia sozinho.

Ninguém percebeu.

***

Warrant, "Cherry Pie", 1990. O vocalista Jani Lane, então com 26 anos, divide o clipe com a modelo Carmen Electra, em seu primeiro trabalho profissional.


quinta-feira, 18 de agosto de 2011

As bolsas derretem

A crise na União Europeia não consegue caminhar para um consenso porque são 19 países -- 19 governos, 19 sociedades, 19 ministros de finanças, 19 culturas. Destes 19 países, nada menos que 4 estão quebrados e outros 2 em via de quebrar.

A crise nos Estados Unidos é um pouco mais louca. Ela não consegue caminhar para um consenso, mas falamos de 1 país, 1 governo, 1 Congresso, 1 sociedade, 1 língua.

Como nada caminha, as bolsas derretem.

Até onde isso vai?


Rótulo de uma cachaça das antigas, que fotografei com o iPhone durante exposição de rótulos que o Instituto Tomie Ohtake manteve em abril deste ano, em São Paulo.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Ministro da Agricultura fora... mais um

O ministro da Agricultura, Wagner Rossi (PMDB), pediu demissão do governo hoje às 19h22min.

Um grupo de líderes do PMDB e alguns integrantes do governo está reunido agora no Palácio do Jaburu, residência oficial do vice-presidente da República. Estão, é claro, com o morador de lá: Michel Temer.

Foi Temer o primeiro a ser avisado por Rossi. Foi Temer também a primeira pessoa para quem a presidente Dilma Rousseff ligou tão logo soube, via Rossi, que a Agricultura ficara sem ministro.

Será Temer quem escolherá o novo ministro da Agricultura.

Detalhe: não há ministro! O secretário-geral do Ministério, que é quem substitui oficialmente o ministro nesses casos, ainda não foi nomeado. Desde que o anterior, Milton Ortolan, pediu demissão na segunda-feira, o Diário Oficial da União não registrou nenhum substituto. Sabe-se que será Gerardo Fontelles, que foi por algum tempo assessor especial de Guido Mantega na Fazenda, mas ele ainda não foi nomeado.

***

Este "Lamento de Brasília" que escrevi hoje cedo precisa ser atualizado. Vamos para o 69º dia sem chuva em Brasília, que nesse meio tempo perdeu 4 ministros: Antônio Palocci (ex-Casa Civil), Alfredo Nascimento (ex-Transportes), Nelson Jobim (ex-Defesa) e Wagner Rossi (ex-Agricultura).

E Pedro Novais (PMDB), ministro do Turismo? Será o próximo...?

***

Aos leitores: se decifrarem quem é aquele político brasileiro citado por Rossi na sua carta de demissão, entenderão uma parte bem relevante de nossa história política recente.

Lamento de Brasília

Hoje é o 68º dia em que Brasília amanhece sem chuva. Detalhe: não há previsão de chuva. A umidade do ar bateu ontem 10% -- a menor em sete anos. Abaixo de 13%, segundo os especialistas, representa umidade do ar semelhante a registrada em desertos.
Há quanto tempo que estou em Brasília?

62 dias.

Quando cheguei não tinha uma semana que havia chovido forte. O ministro-chefe da Casa Civil era Antônio Palocci, e Luiz Sérgio era o ministro de Relações Institucionais. Gleisi Hoffmann era uma senadora de pouca expressão no Senado, e o Ministério dos Transportes era o maior receptor de recursos das obras do PAC, tocado com entusiasmo pelo governo Dilma Rousseff, que acabava de lançar seu primeiro programa de governo -- o Brasil Sem Miséria.

De lá para cá, Palocci caiu e foi substituído por Gleisi. As Relações Institucionais passaram a Ideli Salvatti, que saiu do Ministério da Pesca, hoje ocupado por Luiz Sérgio. Toda a direção dos Transportes foi trocada -- do ministro, Alfredo Nascimento (PR), aos presidentes das principais empresas da Pasta, o Dnit e a Valec. Uma crise política se abriu no governo, depois que o PR, o partido da turma dos Transportes, ficou doida com a perda de poder após as denúncias.

Os holofotes passaram ao Ministério da Agricultura, quando o ministro Wagner Rossi (PMDB) resolveu comprar  briga com seu partido, ao demitir, depois de apenas um mês, Oscar Jucá da Conab. Oscar é irmão caçula de Romero Jucá, nome forte do PMDB e líder do governo no Senado.

Ao mesmo tempo, uma operação da Polícia Federal -- a Operação Voucher -- desbaratou um esquema pesado de corrupção envolvendo repasse de recursos do Ministério do Turismo a Estados e municípios. O esquema era principalmente tocado em Macapá, capital do Amapá, onde quatro integrantes do alto escalão do Turismo foram presos pela PF. Ontem, o senador Pedro Taques (PDT-MT) fez um dos poucos pronunciamentos lúcidos da Casa sobre o assunto -- todos os outros senadores, do PMDB ao PR, parecem mais preocupados com o jogo partidário.

Durante esse período, o governo Dilma lançou sua política social -- o Brasil Sem Miséria --, a nova política industrial -- o Brasil Maior --, ampliou o SuperSimples e agora prepara (minha matéria de hoje no Valor) novas medidas para a concessão de microcrédito, por parte dos bancos públicos (Banco do Brasil e Caixa Econômica Federal).

No meio do caminho, a valorização do real e o risco de a inflação fechar o ano acima do teto da meta do Banco Central (BC) -- de 6,5% -- deixaram de ser os principais problemas na economia: um novo agravamento da crise financeira mundial abalou fortemente os mercados. O real saiu de R$ 1,54 para R$ 1,63 em dois dias, e a Bolsa chegou a cair 9,7% em um dia. A política de juros do BC, antes totalmente focada na inflação, mudou: agora, no BC, já se fala em manter a Selic, nossa taxa de juros básica, fixa no atual patamar de 12,5% ao ano, ou até em cortá-la, até o fim do ano.

Dilma também mudou de opinião quanto a Previdência. Antes pouco preocupada em regulamentar o Projeto de Lei 1.992, que cria a Fundação de Previdência Complementar do Servidor Público Federal (Funpresp), ela aos poucos mudou sua visão. Agora, como escrevi no Valor ontem, o governo montou uma operação surda para, enfim, criar o Funpresp -- deslocou o ministro da Previdência, Garibaldi Alves (PMDB), para convencer as centrais sindicais, que são avessas ao projeto; e convidou ao Planalto o deputado Silvio Costa (PTB-PE), o presidente da Comissão de Trabalho da Câmara, que vota hoje o PL 1992, para apoiá-lo.

De lá para cá, o estádio em São Paulo para a Copa do Mundo de 2014 finalmente começou a ser tocado. Este Blog, no entanto, ainda está cético quanto a Copa. Não só pelo estado risível dos aeroportos -- a sério, falo como usuário frequento de voos pelo país --, mas a própria infraestrutura urbana para receber os jogos. Não estou sozinho: a própria presidente Dilma admitiu pela primeira vez, na entrevista que concedeu a Mino Carta e Luiz Gonzaga Belluzzo, na CartaCapital deste fim de semana, que a Copa pode ocorrer em menos de 12 cidades-sede.

Amy Winehouse morreu e o Santos de Neymar e Ganso venceu a Copa Libertadores da América.

Tudo isso em 62 dias.

Há 68 não chove em Brasília.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

O Brasil e o Tea Party

O Tea Party, um grupo de tresloucados de direita para quem é preciso cortar todos os impostos e retirar a participação do Estado da sociedade, tem abalado diretamente a política americana.

A ampliação do teto da dívida, que passou aos 45 minutos do segundo tempo no Congresso, foi o sintoma mais claro disso. Foram os republicanos radicais de direita, novos na Câmara (eleitos em 2010), que forçaram o sangramento do governo -- os EUA, pela primeira vez em sua história, quase deram um calote em suas obrigações financeiras.

Em janeiro deste ano, o presidente do Senado, Harry Reid, um democrata próximo ao presidente Barack Obama, chegou a preconizar que o Tea Party sumiria.

Não sumiu, e tem cada vez mais força.

O Brasil não tem condições políticas, ainda, de gerar um Tea Party. Ainda vivemos um estágio de país que necessita de muito Estado -- a maior parte da população se beneficia fortemente do Estado, seja via Minha Casa, Minha Vida, seja Bolsa Família, seja PAC, escolas e hospitais públicos. Não quer dizer que esses serviços sejam bons, mas que eles são necessários e afetam a maior parte da população do país.

No futuro, conforme nos desenvolvemos, chegaremos em um estágio que permitirá (infelizmente) o surgimento de pequenos grupos xiitas anti-Estado. Não aos moldes do Tea Party, é claro, que é muito circunscrito à realidade americana.

No entanto, não é todo mundo que pensa assim.

Pior: tem intelectual achando que o Tea Party não só está correto em agir da forma irresponsável com que age nos EUA, como hoje, o Brasil precisa de um Tea Party.

O Marcos Matamoros, do ótimo blog Torre de Marfim, deu uma ótima resposta a um desses.

domingo, 14 de agosto de 2011

Domingo



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Foto da amiga Rebeca de Moraes, direto de Recife (PE).

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Fim de expediente

Com Thin Lizzy, "The boys are back in town".

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O salão oval de Brasília

Imagine, caro leitor, uma grande sala, no segundo andar do Palácio do Planalto, a edificação onde funciona a Presidência da República -- uma das três construções da Praça dos Três Poderes, todos desenhados por Oscar Niemeyer entre 1957 e 1959, e inaugurados em abril de 1960. O Palácio do Planalto, ou simplesmente Planalto, fica do outro lado da praça, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), com as duas cubas e as duas torres do Congresso Nacional a sua direita.

São quatro andares. No primeiro, o térreo, um amplo salão, com o comitê de imprensa à esquerda de quem entra. A famosa rampa, do lado de fora, leva ao terceiro andar, onde fica a Presidência e seu assessor-geral -- hoje, essas salas são ocupadas por Dilma Rousseff e Marco Aurélio Garcia. No segundo andar, fica a assessoria de imprensa e a sala de reuniões ministeriais. No quarto, temos a Casa Civil (hoje ocupada por Gleisi Hoffmann), Relações Institucionais (Ideli Salvatti) e Secretaria-Geral (Gilberto Carvalho).

Mas a grande sala que solicitei ao leitor imaginar fica no segundo andar -- a sala de reuniões ministeriais.

Imagine uma sala enorme, com uma mesa, que parece interminável, no centro. São 37 cadeiras, para os 37 ministros. Todas elas são desenhadas por Sergio Rodrigues. Os móveis são de Oscar Niemeyer, que também assina o projeto da sala -- que é, por si só, uma maravilha. Chama-se de "Reunião Suprema".

Em fevereiro de 1990, a um mês de assumir a Presidência, Fernando Collor fez uma viagem oficial aos Estados Unidos e Europa, para se apresentar aos líderes mundiais. Desembarcou no Brasil numa quarta-feira, 14 de fevereiro, com duas ideias na cabeça: a primeira referia-se a asneira de mudar a moeda e confiscar a poupança da população como forma de debelar a hiperinflação (o Plano Collor), a segunda, era copiar o Salão Oval, que visitou na Casa Branca, então ocupada por George H. Bush.

Implementou as duas. Mas, obviamente, as atenções ficaram concentradas no Plano Collor. Pois o presidente, enquanto assistia o país ruir em uma recessão crítica (graças a seu plano econômico louco, o PIB do Brasil despencou 4,5% em 1990), tratou de colocar a mão na massa, e mandou que fizesse da sala de reunião ministerial, no segundo andar do Planalto, uma espécie de Salão Oval.

Mas a sala, imagine caro leitor, não é oval. Além disso, a sala é de Niemeyer, e, como quase tudo em Brasília, é tombada. Ou seja, não poderia ser reformada em seu projeto arquitetônico. Mas o presidente queria porque queria fazer daquilo o Salão Oval tupiniquim.

Como?

Um designer, então, sugeriu ao presidente que adotasse uma cortina especial, que cobrisse as janelas, produzindo um efeito para aquele que entra na enorme sala próximo àquele que entra em uma sala oval. Collor ficou satisfeitíssimo. Todos os ministros que se reuniram com ele depois da instalação das cortinas, elogiaram a sacada do presidente.

Como a maior parte das coisas em Brasília, as cortinas estão lá até hoje.

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Entrei na sala hoje. Não há nenhum efeito oval ali.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Qual deve ser o papel do governo para a nova classe média?

O governo federal vive hoje uma transição entre o esgotamento do conjunto de políticas públicas que levaram o equivalente a 32 milhões de pessoas a classe média nos últimos nove anos e o desenvolvimento de novos instrumentos de apoio e aprimoramento das pessoas que ascenderam. Esta é a avaliação de Ricardo Paes de Barros, subsecretário da Secretaria de Assuntos Estratégicos (SAE) da Presidência e um dos maiores especialistas em políticas sociais do país.
Não à toa, programas coqueluches de transferência direta de renda, como o Bolsa Família, perdem força no noticiário na mesma proporção em que mais e mais famílias deixam a situação de pobreza extrema. “A questão deixou de ser simplesmente a salvação dos pobres, mas também a manutenção, ou crescente evolução financeira, daqueles que hoje estão na nova classe média”, diz o pesquisador.

Segundo Paes de Barros, o momento que os técnicos do governo começam a viver é de dupla inquietação. Em primeiro momento, tendo adquirido certo patamar de renda, e, portanto, acesso a bens de consumo  que antes não tinha, a nova classe média deixa de funcionar como ente homogêneo, em que o simples repasse de dinheiro bastava para uma ascensão rápida, e sim como classe “extremamente” heterogênea, em que a qualificação profissional ganha maior peso. Em seguida, o governo passará a lidar com uma classe “provavelmente mais conservadora que aquela que ascendeu”, porque ciosa do que conquistou.

“Os americanos que se beneficiaram do generoso programa New Deal [implementado pelo governo americano entre 1933 e 1941, para combater a depressão instaurada após o crash de 1929] ficaram, nas décadas seguintes, muito mais conservadores do que eram nos anos 30, justamente porque ascenderam e passaram a se preocupar muito mais com o direito adquirido”, argumentou Paes de Barros, que ontem coordenou o seminário que a SAE promoveu em Brasília sobre a nova classe média. “Os americanos que ascenderam nos anos 30 mudaram sua visão de país e também o que queriam do Estado”, disse, “e isso pode ocorrer no Brasil a partir de agora”.

Para Marcio Pochmann, presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o Brasil está caminhando para uma tensão entre a nova classe média e aqueles de classes mais altas. Segundo Pochmann, que é doutor em economia pela Unicamp e especialista em mercado de trabalho, pouco mais de quatro milhões de postos de trabalhos formais com salários superiores a cinco salários mínimos (cerca de R$ 2,8 mil) foram “ceifados” nos últimos dez anos. Ao mesmo tempo, nove em cada dez vagas formais criadas no país no mesmo período pagavam até dois salários mínimos. “Reduzimos a pobreza ao mesmo tempo em que reduzimos a desigualdade, o que sempre aumenta a polarização entre as classes, uma vez que os mais abastados passam a se sentir pressionados”, avalia Pochmann.

Sem endossar a avaliação de Pochmann, o filósofo Eduardo Giannetti da Fonseca, professor do Insper, entende que os valores da nova classe média tendem a mudar tão logo a demanda reprimida por bens e serviço seja satisfeita, algo que, segundo ele, já começa a ocorrer para aqueles que ingressaram na classe média há mais tempo. Para Pochmann, a menor participação de integrantes da classe média em representações coletivas – o esvaziamento de partidos, sindicatos e igrejas – torna mais complexa a atuação do Estado, que precisa modelar políticas públicas mais específicas.

Segundo a SAE, a classe média consiste de famílias cujo rendimento per capita varia de R$ 250 a R$ 1 mil por mês, sendo a família média de quatro integrantes – assim, uma família de classe média é aquela que recebe entre R$ 1 mil e R$ 4 mil por mês.

Paes de Barros, que ajudou na formulação e implementação do Bolsa Família, no fim de 2003, afirmou que está preparando um projeto, que deve ser encaminhado à presidente Dilma Rousseff que “reformula e agiliza” o pagamento do abono salarial – contracheque do governo a todo trabalhador com carteira assinada que recebe até dois salários mínimos.

A ideia, que deve ser rebatizada de “imposto de renda negativo”, usa os mesmos princípios que nortearam a esquematização do Bolsa Família, diz Paes de Barros. “O Bolsa Família não foi a junção de uma série de mecanismos e políticas que já existiam? Então, o imposto de renda negativo será a mesma coisa, vamos tornar o abono mais simples de ser recebido e percebido pelo trabalhador”, afirmou.

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Esta é uma das minhas matérias que o Valor publicou ontem. Só hoje consegui me organizar para puxar para o Blog. Como os cerca de 600 leitores únicos diários deste Blog bem sabem, eu quase nunca coloco minhas matérias do Valor aqui -- faço apenas em casos muito específicos.

É o que fiz neste post. Acho que a discussão sobre uma nova política pública para a classe média vai esquentar em 2012, com a piora da economia global combinada a um crescimento ainda quente no Brasil, que estará ainda mais próximo da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos.

Fiquem de olho.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Crise, humor e estresse

Brasília, ontem, fim da tarde. A presidente Dilma Rousseff junta integrantes da área econômica do governo para debater a crise mundial, que se agravou de sexta-feira para cá, com o rebaixamento da nota de crédito dos EUA e a situação na União Europeia degringolando a cada minuto. A Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) acabara de fechar, registrando uma queda monstruosa de 8,08% (a maior desde novembro de 2008, no auge da crise mundial), o real sofrera desvalorização de 1,5% e os contratos de juros futuros da BM&F despencaram -- já que o mercado sacou que, com crise, o Banco Central não continuará elevando os juros.
Guido Mantega, o ministro da Fazenda, caminha até os jornalistas, depois do fim da reunião.

Chegando, com todos de microfone e gravadores em mãos, Mantega pergunta:

"E aí, tudo bem com vocês?"

Os jornalistas respondem que sim, alguns poucos sacodem a cabeça positivamente, uns poucos até arriscam um sorriso pela delicadeza em tempos de estresse nas redações à procura de um furo sobre o que pode fazer o governo brasileiro para evitar o contágio externo. No que Mantega rebate:

"Ah sim, é porque vocês não têm ações na Bolsa"

***

Hoje será um dia e tanto em Brasília.

Na entrevista que concedeu depois da piadinha, Mantega saltou que o governo tem medidas para contrabalançar qualquer contágio.

Que medidas?

Então. É isso o que os jornalistas -- aí incluso, como sempre, este blogueiro -- querem descobrir.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Esta semana será crucial

A economia mundial vai voltar a uma recessão?
Esta semana dirá.

Hoje, nos Estados Unidos, já existem mais economistas acreditando que o país voltará a uma recessão do que aqueles que acham que não. A expectativa de crescimento do PIB americano para 2011 era de 2,5% (uma taxa ótima, dada as circunstâncias) no primeiro trimestre. Mas... o emprego não cresceu, os salários estão em queda, o consumo anda de lado e a concessão de crédito não avança. Logo, não há como ser otimista. O governo americano trabalha agora com um avanço de 1,5% do PIB neste ano -- previsão que ainda pode ser revisada para baixo.

A situação da União Europeia é péssima.

Os dois únicos países que conseguiam segurar toda a zona do euro, que aglutina 17 Estados, eram Alemanha e França. Mas a atividade anda perdendo força no país de Bismarck, e a nação de Napoleão se segura apenas no grito, e na forte concessão de subsídios agrícolas. Os governos de ambos países, no entanto, estão de mãos atadas. Não podem incentivar seu crescimento interno porque 1) a União Europeia não permite manipulação da taxa de câmbio (já que é uma -- o euro -- para todos) e a política fiscal está esgotada; e 2) porque o pouco que resta está sendo transbordado para o resgate de Grécia, Portugal e, pelas notícias de ontem, também de Itália e Espanha.

Lembram-se quando falei do efeito dominó? Então, o jogo continua.

O que ocorrerá?

Se a crise sair dos mercados financeiros -- em pânico pelas notícias péssimas e também porque a Standard & Poor's rebaixou a nota de crédito dos EUA na sexta-feira à noite -- e chegar na economia real, viveremos uma crise em formato de W. Ou seja, caiu em 2008-2009, melhorou em 2010, e voltou a despencar em 2011-2012. Neste cenário, que avalio ter 60% de chances, o crescimento do mundo só voltará a ser vigoroso a partir do segundo semestre de 2013 -- e olha que estou sendo otimista. Falamos de Estados completamente endividados tendo de arcar com juros altíssimos em seus títulos e falta de disposição do mercado para aceitá-los.

Exatamente o que a América Latina viveu entre 1982, quando o México deu o primeiro calote na dívida externa, e 1994, quando o Brasil foi o último a terminar a renegociação de sua dívida externa.

Vivemos tempos curiosos e tenebrosos.

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A Standard & Poor's reduzir a classificação de risco da dívida americana é uma hipocrisia incrível. Todas as agências de rating (S&P, Fitch e Moody's) davam notas AAA (as maiores possíveis) para bancos como Bear Stearns e Lehman Brothers, que faliram, em 2008, levando o mundo junto. Também davam notas altíssimas (AA, se não me engano) à Grécia, que foi o primeiro país na história moderna a falir.

Alguém acha que esses caras entendem alguma coisa?

É claro que não.

Mas a maior parte dos hedge funds e dos grandes fundos de investimentos internacionais baliza seus investimentos nas notas dessas agências. Trata-se de um mecanismo automático, ou seja, um programa de computador, que aciona uma ordem de venda ou compra dependendo da oscilação das notas. Isso quer dizer que muitos hegde funds já começam  a se desligar de títulos americanos simplesmente porque os caras da Standard & Poor's rebaixaram a nota dos EUA de AAA para AA+.

A coisa é ainda pior porque a Standard & Poor's errou. O Tesouro americano mostrou que eles ignoraram o equivalente a US$ 2 trilhões em recursos que o governo terá em mãos no curto-médio prazo. Ou seja, deram a nota valendo-se de informações erradas. O Tesouro avisou e sabe o que eles fizeram?

Nada.

E agora todo mundo vai pagar o pato.

domingo, 7 de agosto de 2011

Domingo

Eu amei, 
amei demais. 
O que eu sofri por causa do amor...
Ninguém sofreu.
Eu chorei,
perdi a paz
Mas o que eu sei
é que ninguém nunca teve mais
do que eu.




Vinícius de Moraes e Baden Powell, 1965.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Fim de expediente

Anos atrás, no começo de 2009, se não me falha a memória, tive de sair cedo do Valor para um evento pessoal. A redação antiga ficava na saída da ponte Jaguaré, no fim da Avenida Marginal Pinheiros, quase na Marginal Tietê. E o evento seria na Ponte da Casa Verde. Quem conhece São Paulo sabe que a distância nem é tão grande, mas, o horário era péssimo: 17h. Fiquei inesquecíveis 2 horas e 47 minutos no carro.

Tinha um cd: Exile on Main Street, dos Rolling Stones, de 1972.

Sempre que ouço a primeira música do disco, "Rocks Off", lembro daquele dia.


quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Como os analistas veem a nova política industrial

A depender do analista, o programa Brasil Maior lançado pelo governo federal ontem pode ter como efeito um ganho de inovação na economia ou produzir um choque inflacionário. A mesma medida — desoneração da folha de pagamentos para quatro setores — é vista pelos especialistas consultados pelo Valor como “ótima saída” às dificuldades sofridas pela indústria brasileira e como “convite” a novas contratações em um mercado de trabalho já pressionado pela falta de mão de obra qualificada e salários em alta, servindo de gatilho para inflação.

Para Júlio Sérgio Gomes de Almeida, economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, o programa “combate a anemia pela qual a indústria brasileira está passando”, ao reduzir encargos que incidem sobre a folha de pagamentos de setores tradicionais do polo industrial brasileiro, como produtores de calçados, confecções e móveis. Além disso, diz Almeida, a participação direta do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) no financiamento à projetos de inovação — cujo modelo de financiamento ao pré-projeto foi desenhado com auxílio do Iedi — é “salutar” e “oportuna”.

Já para José Márcio Camargo, professor da PUC-RJ e economista da Opus Gestão de Recursos, ao desonerar a folha de pagamentos e elevar a 25% o ágio que o governo pagará ao produto nacional em suas licitações, a nova política industrial “tem forte conteúdo inflacionário”, porque, segundo ele, “reduz ainda mais a taxa de desemprego”.

Camargo diz-se impressionado com as medidas. “Estamos em um cenário de inflação pressionada, correndo risco de a meta do Banco Central ser descumprida não apenas neste ano, mas também em 2012, e o programa que o governo lança joga ainda mais lenha na fogueira”, afirma. Segundo ele, governo e industriais devem “esquecer” a ideia de que o país precisa ser autossuficiente em bens manufaturados. “Alguém já viu produtor de café reclamar e pedir programa setorial? Por que o agronegócio não recebe políticas de incentivo? Porque tem grande produtividade”, diz Camargo.
 
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Este é o início da minha matéria de hoje no Valor, em que debato com analistas o programa Brasil Maior, lançado ontem pelo governo federal.
 
Passo o dia hoje em evento, em São Paulo, da Confederação Nacional da Indústria (CNI) no hotel Sheraton, com participação de empresários e integrantes do governo para debater.... a nova política industrial.
 
Depois, de volta a Brasília.

segunda-feira, 1 de agosto de 2011

A elevação do teto de endividamento dos EUA


O governo americano atingiu hoje uma dívida de US$ 14,3 trilhões -- sim, quatorze trilhões e trezentos bilhões de dólares. Este é o teto de endividamento que o Congresso permite ao governo, e equivale ao tamanho total da economia dos EUA. A partir de amanhã, o governo não poderá mais se endividar. Isso quer dizer que, se o Congresso não elevar o teto -- algo que deve acontecer em cima da hora, entre a noite de hoje e a manhã de amanhã -- o governo americano dará um calote.

Mas o Congresso deve ampliar o teto de endividamento. E os americanos caminharão para uma dívida de US$ 15 trilhões.

Até onde isso vai?

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