quarta-feira, 29 de junho de 2011

Porque globalização é uma balela


Você, caro leitor, que viveu aquele período entre o fim dos anos 1980 e o início da década de 2000, cansou de ser bombardeado por tevê, rádio, jornais e, quando se expandiu, internet, defendendo que a saída dos problemas dos países passavam pela globalização. Isto é, a ampliação das relações comerciais e políticas entre os países geraria uma zona de conforto global que permitiria a todos uma vitória. Ou seja, aqueles países fortes em agricultura serviriam aqueles com indústria madura, que devolveria produtos manufaturados, utilizando os serviços de outra nação, com as embarcações e aviões de outro, assim por diante.

A globalização, ou grande escambo global, seria a saída.

Pode até ser, mas, tal qual o comunismo no século XX, o liberalismo, meus amigos, não está com nada.

Como todos sabemos, os principais defensores destas ideias de globalização -- Estados Unidos e União Europeria -- continuaram com uma prática diferente da teoria. Na teoria, os líderes e intelectuais das nações ricas defendiam a globalização. Na prática, os EUA continuaram subsidiando pesadamente sua indústria e os produtores de milho, e países como França mantinham seus mercados praticamente fechados para importações não-europeias.

Bonito, né?

Pois bem. Veio a crise econômica mundial de 2008 e todo mundo aprendeu o que exatamente significa globalização.

Os EUA quebraram e, com eles, graças às inúmeras ramificações do braço mais musculoso da globalização -- o sistema financeiro -- levaram junto Japão, Reino Unido, União Europeia e até os países emergentes. Vale lembrar que mesmo o Brasil, que, comparado aos países ricos, passou bem pela crise, viu sua economia despencar do crescimento de 5,1% registrado em 2008 para uma recessão de -0,6% em 2009.

Tão logo estourou a crise, os líderes globais tentaram aplicar a globalização como saída. Acabaram com a elite rica do G-7 (os sete países mais ricos do mundo) e instituíram o G-20 como fórum por excelência para debates econômicos e políticos. Os americanos já contavam com um presidente muito mais cosmopolita (Barack Obama) e a União Europeia parecia disposta, por meio do Fundo Monetário Internacional (FMI), controlado por um europeu -- o francês Dominique Strauss-Kahn --, a auxiliar uma saída coordenada da crise.

O que aconteceu?

Nada.

Os EUA continuam com uma taxa de desemprego altíssima, que preocupa o presidente Obama para a reeleição, em 2012. A Grécia está (literalmente) em chamas, porque o país faliu e está a beira de um calote -- que atingirá em cheio justamente os bancos privados dos países europeus, que emprestaram loucamente ao governo grego no passado -- e outras nações, como Irlanda e Portugal, estão de joelhos. Além deles, a Espanha lida com uma taxa de desemprego obscena (de 23%), e os países "líderes", como Inglaterra, França e Alemanha, não fazem absolutamente nada para sair do lugar -- sequer tem forças para tanto. O Brasil e o mundo inteiro sofre para competir com os produtos chineses que invadem todos os mercados e que são baratíssimos porque a China manipula sua taxa de câmbio (ou seja, está pouquíssimo preocupada com o mundo, mas apenas com si mesma). Dominique Strauss-Kahn pediu afastamento do FMI depois de escândalo sexual e os países árabes do norte da África e do Oriente Médio, cada um a sua maneira e por motivos estritamente nacionais, promoveram revoluções.

Em seu belíssimo livro "World 3.0", o professor pela IESE Business School, na Espanha, Pankaj Ghemawat, levantou bons números: algo como 80% do investimento global que é feito em ações seguem empresas do país de origem do investidor. As exportações representam apenas um quarto da economia mundial. Apenas 2% dos estudantes estão em universidades fora de seu país. Menos de 20% do tráfego de internet ultrapassa as fronteiras nacionais (as pessoas visitam os sites e blogs de seu país).

Onde está a globalização?

Não é mistério para os leitores deste Blog que a saída mais realista para uma crise é o nacionalismo. Não aquele nacionalismo doentio, afinal, as nações são criações modernas, como os clubes de futebol e as marcas de roupas. Até 1870 não havia Alemanha, e até 1871 não existia Itália. Os caras não precisaram de muitos anos de história para, na última grande crise (a desencadeada em 1929 pelos EUA), saírem com governos ultranacionalistas de direita, como os fascitas de Benito Mussolini (no poder desde 1922, mas cuja represssão pesada e discurso xenófobo engrossou a partir de 1931) e os nazistas de Adolf Hitler.

Nacionalismo, quando apela para extremismo burro, é claro, é pior que globalização.

Mas o nacionalismo econômico, que preza pelo desenvolvimento do país naquilo que ele dispõe de melhor (em termos econômicos, mas também, e principalmente, culturais), e o nacionalismo político, que eleva as tradições e os costumes de um território, são só resolvem os problemas internos como, e aí é que está, tornam o mundo menos hipócrita (como é na globalização) e menos perigoso (como é no nacionalismo extremo).

Hoje, diversos países da Europa estão elegendo governos de nacionalistas mais radicais. O caso mais recente é o de Portugal. O pensamento é óbvio: como a esquerda, que, em sua maior parte, ocupava o poder durante ou em seguida à crise econômica, não conseguiu resolver os problemas mais sérios -- como o desemprego -- vamos, então, votar naqueles que defendem nosso país. E, aí, o pêndulo vai para a direita.

Não se trata, aqui, de dizer o que é melhor ou pior. Foi a direita quem criou o discurso da globalização, ainda no fim dos anos 1970, com Margareth Thatcher na Inglaterra (1979) e Ronald Reagan nos EUA (1981), com os intelectuais liberais, que Joseph Nye cunhou, em 1977, de "neoliberais". Mas foi sob a esquerda que todo esse discurso ganhou peso e se legitimou -- basta ver que as principais reformas neoliberais foram feitas por governos de esquerda nos países ricos, como François Miterrand na França, Bill Clinton nos EUA e Tony Blair na Inglaterra.

Esta é uma lição, aliás: em barco furado, todo mundo tem culpa. Um porque furou, outro porque não viu. Não existe ingênuo em navio.

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Arte de Décio Pignatari, 1957, "Cloaca", que ilustra o post.

terça-feira, 28 de junho de 2011

A arte de ser Botafogo

Torcer para o Botafogo é uma arte.

Não é qualquer um que pode torcer para o Botafogo. Não falamos aqui de um time fácil, como o Flamengo ou o São Paulo, que sempre ganham campeonatos, ou do Santos, mais recentemente, ou do Corinthians, que conta com a maior torcida (e é sempre bom fazer parte de uma maioria, né?). Ou ter um time em um Estado onde só tem dois, como Porto Alegre, Belo Horizonte ou Salvador.

No Rio de Janeiro, a cidade mais linda do mundo, temos quatro times: o Flamengo, que é o time da imprensa (os dois colunistas esportivos do maior jornal, O Globo -- Renato Maurício Prado e Fernando Calazans -- são flamenguistas) e da massa; o Fluminense, que é o time dos atores da Rede Globo e sempre ajudado pela cartolagem; o Vasco, que rivaliza com o Flamengo em torcida nos bairros da Zona Norte e no resto do Estado; e o Botafogo.

Querem me fazer crer que é difícil torcer para o Botafogo porque, mais que qualquer coisa, o alvi-negro é o time com menos títulos entre os quatro.

Mas não é isso o que torna a torcida pelo Botafogo uma arte. Fosse assim, torcer para o Palmeiras, que em São Paulo não ganha nada, seria também uma arte. Não é isso. O Botafogo não é o time de uma colônia, como é o Palmeiras com os italianos ou o Vasco com os portugueses, sendo este menos que aquele.

O Botafogo é o time do charme. É o time fundado por Olavo Bilac, e que teve em suas fileiras outros grandes poetas, como Augusto Frederico Schmidt e Vinícius de Moraes. É o time que teve o melhor jornalista esportivo do mundo, João Saldanha, e também o mais gozador, Sandro Moreira. É o time de Garrincha, que em 1965 ganhou filme do mestre Joaquim Pedro de Andrade, em pleno Cinema Novo brasileiro, chamado "Garrincha, a Alegria do Povo". É o time que mais cedeu jogadores à Seleção Brasileira de Futebol, e que foi base para os esquadrões que ganharam a Copa do Mundo em 1958, 1962 e 1970. É o time que teve Heleno de Freitas, o primeiro galanteador e o primeiro polemista do esporte. É o time que, em tempos de Santos do Pelé, era capaz não só de jogar de igual para igual, mas de ganhar.

E, é claro, o Botafogo é o time da minha família.



Sou botafoguense mesmo antes de saber quem sou. Da barriga de minha mãe, meu pai, que é o maior exemplo do que é ser botafoguense, já cantava o hino. Tendo crescido em uma família de classe média baixa, que ascendeu no primeiro grande salto social de grandes proporções no país, depois do Plano Real, ainda me espanta hoje que eu não saiba rezar o Pai Nosso, mas saiba o hino do Botafogo de cor desde.... desde sempre. Nunca soube rezar, sou fraco em religiões (não sei bem distinguir uma das outras), mas sei o hino do Botafogo como se aquilo fosse, porque sempre foi, a religião de minha família.

Meu pai engraxa sapatos sempre que o jogo complica para o Botafogo. E o jogo sempre complica para o Botafogo.

Falamos de um time que era o imbatível do Brasil, entre 1934 e 1974, que passou a ser, desde então, o time da superstição. Passamos 21 anos sem títulos, entre a Taça Brasil conquistada em 1968 com uma verdadeira seleção (Cao, Moreira, Zé Carlos, Leônidas, Waltenci, Carlos Roberto, Gérson, Rogério, Jairzinho, Roberto e Paulo César Cajú, com técnico Zagallo), e o inesquecível Campeonato Carioca de 1989. Aquele Carioca, o de 1989, foi o primeiro título que vivi. Era um Botafogo fraco, mas com uma garra impressionante, que batera o Flamengo (que, à época, era, em si, uma seleção) num gol místico para o Botafogo: feito aos 12 (21 invertido) minutos do segundo tempo, num passe do camisa 14 para o camisa 7 (7 +14 = 21), com o placar do Maracaná lotado registrando temperatura de 21ºC, depois de 21 anos sem títulos.

Torcer para o Botafogo é uma arte.

Quando criança, criado em São Paulo, eu era o único botafoguense da minha sala na escola. Não só isso: eu era o único botafoguense da escola inteira. E no meu bairro, só dava eu de botafoguense. Antes da tevê a cabo, os jogos do Botafogo nunca passavam, e, como internet ainda não era acessível, não era possível ouvir os jogos do Botafogo pelo rádio. Não só eu era o único botafoguense, como também não conhecia uma criança sequer que torcesse para o Flamengo, ou para o Vasco, nem mesmo para o Fluminense. Então, não tinha ninguém para tirar sarro comigo (o que só aumenta a paixão, vocês sabem) ou para que eu pudesse tirar sarro.

Fui, como criança, levado a escolher um time, para poder ir aos estádios torcer, como faziam meus amigos, e poder brincar com todos. Escolhi o São Paulo Futebol Clube, por alguma razão que até hoje eu desconheço. Fui são-paulino durante a pré-adolescência e adolescência. Fui incontáveis vezes ao Morumbi e mesmo acompanhar partidas em outras cidades do Estado -- cheguei a ir, com meu pai botafoguense, assistir à final da Libertadores de 2006, entre São Paulo e Internacional, no Beira-Rio, em Porto Alegre.

Mas, com o tempo, a religião acabou falando mais forte. Não deixei de ter enorme simpatia com o São Paulo, mas, como gostam de brincar os amigos botafoguenses, atingi o "estágio da razão".

O primeiro time que eu vi jogar, minha primeira lembrança futebolística, é o Botafogo da era Túlio, entre 1994 e 1995. Foi o Botafogo campeão Brasileiro de 1995, que eu acompanhei do começo ao fim, o primeiro time que vi jogar, que sabia os nomes dos jogadores, e que vi ser campeão. Depois, vi o Botafogo ser campeão do Carioca de 1997 (inesquecível, em final alucinante contra o Vasco, que naquele ano seria campeão da Libertadores), e em seguida campeão do Torneio Rio-São Paulo (em uma final justamente contra o São Paulo F.C.). Fui ver o Botafogo jogar a segunda divisão do Campeonato Brasileiro, em 2003.

Aos poucos, vi que nasci para ser botafoguense.



Para torcer para o Botafogo é preciso de amor. Veja que, entre os nomes que citei lá em cima, três eram poetas que lidavam com o amor (Bilac, Schmidt e Vinícius) e outro era a ternura em pessoa (João Saldanha). Falamos de um amor incondicional. Não pelo Botafogo, mas por tudo. E, ao lado do amor, é preciso ter charme.

Como escreveu certa vez o ensaísta americano Joseph Epstein, ninguém nasce charmoso:

Os dons vêm de Deus, e os presentes, dos humanos. Grandes talentos são, em geral, dons divinos. O charme é um presente que os homens conferem a si próprios. Ninguém nasce charmoso, embora o charme venha razoavelmente fácil para alguns e seja aparentemente impossível para outros. O charme tem a ver com agradar delicadamente, às vezes a ponto de causar fascínio. Quando se diz que uma pessoa "usa o seu charme", queremos dizer que ela lança um feitiço, por mais fugaz que seja. O encantamento temporário é um estado provocado em nós por alguém charmoso. O charme é uma espécie de atuação, é um virtuosismo da personalidade. É autoconfiante, mas nunca artificial, está sempre à vontade no mundo. Ele não força a barra; tem um fino senso de proporção e medida, nunca vai longe demais, nunca permanece por mais tempo do que deveria. O charme é Noël Coward entrando em uma festa com um terno comum, descobrindo que todos os outros homens estão de fraque e anunciando alegremente: "Por favor, não quero que ninguém peça desculpas por estar chique demais"

O botafoguense você reconhece de longe.

Assim que completei minha primeira semana na sucursal do Valor aqui em Brasília, meu amigo Cristiano Romero, que é colunista e editor-executivo do Valor, olhou para mim e disse: "ô, Villaverde, fiquei prestando atenção em um negócio. Você torce para o Botafogo?"

Sem que eu tivesse manifestado qualquer opinião, usado a camisa ou coisa do tipo. E o Cristiano tampouco visitou este Blog, onde apareço com a camiseta do Botafogo no perfil.

Mas você sente.

Como escreveu Nelson Rodrigues, depois de assistir da arquibancada do Maracanã um jogo entre Botafogo e Vasco, em 1956:

"Todos os torcedores de futebol se parecem entre si como soldadinhos de chumbo. Têm o mesmo comportamento e xingam, com a mesma exuberância e os mesmos nomes feios, o juiz, os bandeirinhas, os adversários e os jogadores do próprio time. Há, porém, um torcedor, entre tantos, entre todos, que não se parece com ninguém e que apresenta uma forte, crespa e irresistível personalidade. Ponham uma barba postiça num torcedor do Botafogo, dêem-lhe óculos escuros, raspem-lhe as impressões digitais e, ainda assim, ele será inconfundível."



Ser Botafogo é uma arte. E eu, que amo as Artes, amo o Botafogo.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Morre Gustavo Dahl

O cineasta Gustavo Dahl morreu hoje, em Salvador, de ataque cardíaco. Estava no cinema, assistindo um filme.

Foi o mais corporativista (no sentido literal do termo) da geração do Cinema Novo. Foi montador dos filmes de Cacá Diegues e Paulo César Saraceni, fez três longas-metragens (sendo o primeiro, O Bravo Guerreiro, de 1968, o melhor), e foi um dos principais confidentes de Glauber Rocha.


Mas a grande atuação de Dahl foi junto ao Estado. Ocupou cargo de chefia na Embrafilme, na década de 1970 (auge da Embrafilme), e estava no Ministério da Cultura desde 2002, trocando cargos. Era, até hoje, gerente do Centro Técnico Audiovisual (CTAV), subordinado à Cultura.

Sua relação com os cineastas italianos, no início dos anos 1960, foi crucial para estabelecer um canal direto de exposição dos filmes do Cinema Novo brasileiro, além de importar de lá técnicas e temas, que foram rapidamente incorporados à nossa linguagem cinematográfica.

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Quem está de pé da geração Cinema Novo?

De cabeça, acho que apenas Saraceni, Diegues, Jabor e Nelson Pereira dos Santos.

Mais estrangeiros ganham visto de trabalho no Brasil

A entrada de estrangeiros para trabalhar no Brasil bate recordes. Segundo dados do Conselho Nacional de Imigração, vinculado ao Ministério do Trabalho, o número de imigrantes que receberam visto de trabalho no país aumentou 13% no primeiro trimestre - foram 13 mil pessoas. Os Estados Unidos continuaram sendo a principal fonte de imigrantes, com 1,8 mil trabalhadores; mas o principal salto ocorreu entre os chineses. Foram 404 chineses autorizados a trabalhar no primeiro trimestre de 2010 (2,1 mil ao longo do ano), número que passou a 505 entre janeiro e março deste ano. Esse aumento, segundo o Conselho, continuou evidente no segundo trimestre, como reflexo da chegada de mais empresas chinesas ao país.


No entanto, caiu um pouco a proporção de trabalhadores com elevado nível de qualificação em relação ao ano passado. O mercado de trabalho aquecido explica por que o país está absorvendo mão de obra vinda do exterior.

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Minha matéria de hoje, no Valor, que pode ser lida aqui.

domingo, 26 de junho de 2011

Domingo

Amar é sofrer, amar é morrer.
Me faça sofrer, ah me faça morrer
Mas me faça morrer de amar.


Vinícius de Moraes e Baden Powell, nosso poetinha e o maior violeiro do Brasil, respectivamente.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Fim de expediente

Com AC/DC, "Big Balls", de 1976.

Trata-se da música mais adolescente escrita por uma banda de rock até que os rapazes do Ultraje A Rigor começassem a fazer música. Em "Big Balls", os australianos do AC/DC versam sobre o tamanho do, bom, do saco escrotal de cada um. E de como é importante ter bolas grandes.

Para uma sexta entre um feriado e um sábado de feijoada.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

O direito ao passado

Maravilha de coluna do Luis Fernando Veríssimo, hoje, no Estadão. Assino embaixo.

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Ó Dilma!

Veríssimo

Deixa ver se eu entendi. Querem liberar a maconha e proibir a pesquisa histórica, mesmo para fins terapêuticos. É isso? Nacionalizar a maconha e privatizar o passado? Uma coisa não teria nada a ver com a outra se a atitude comum do brasileiro em relação à sua história não se parecesse com a letargia e a despreocupação que – dizem, eu nunca provei – caracteriza o barato da maconha. Agora mesmo, pode-se imaginar que muita gente marchará pelo direito de fumar maconha sem culpa, no que estará com toda a razão, mas não se prevê nenhuma grande manifestação popular contra a proposta de proibir para sempre o acesso a certos documentos históricos, com faixas dizendo “Queremos saber tudo sobre a guerra do Paraguai”. E no entanto o direito de conhecer o passado sem restrição deveria ser tão natural quanto o direito a um baseado descriminalizado. Não bastasse os militares sentados em cima dos dados e das dúvidas sobre o período da repressão vem essa ideia do segredo eterno para sonegar ainda mais à nação sua própria biografia. O objetivo é concluir que o passado não existiu e não se fala mais nisso. A presidente, dizem, aceitou a ideia do Sarney e do Collor, logo do Sarney e do Collor, contrariando o que deveria ser o seu instinto. Ó Dilma!

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O direito de um povo à seu passado é sagrado. Todos devemos saber de onde viemos: quem são nossos pais, como eles se uniram, porque se uniram, quem foram os pais deles, como viveram, o que fizeram ou deixaram de fazer, como o mundo influiu na vida de cada um.

Ainda temos, como brasileiros, uma série de nuvens em nosso passado. Não sabemos o que ocorreu nos porões da ditadura -- não fosse pelo relato dos sobreviventes, nada saberíamos. Não sabemos como foram as negociações que levaram o Brasil a declarar guerra ao Paraguai, no fim do século XIX.

Precisamos saber tudo. Em tempos de internet e redes sociais, esconder alguma coisa fica cada vez mais retrógrado. Para o bem, no caso de documentos sigilosos do Estado e jogatinas empresariais, e para o mal, no caso das pessoas que se soltam além da conta.

O que Veríssimo diz é muito sério: precisamos, todos, lutar para que nosso passado seja revelado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

A tropicália gourmet

Sou um apaixonado por restaurantes.

Como qualquer ser humano, sinto fome. E, como muitos, adoro comer bem. Como poucos, no entanto, gasto muito tempo pensando no que vou comer -- quando tenho esse privilégio. Durante a semana, com a correria que as pessoas apelidam, nos tempos modernos, de "jornalismo", fica impossível pensar muito. Mas sempre dou um jeito. Se é nos dias em que tudo o que resta é o cachorro-quente da barraca do Davydson, que fica estacionado em frente ao comitê de imprensa do Ministério da Fazenda, aqui em Brasília, não reclamo. Até porque o Davydson é ótimo papo e gosta de ouvir as histórias que minha mente custa em não esquecer.

Mas o que eu gosto mesmo é de comer fora. Como também gosto muito de conversar e trabalhar, almoçar e jantar fora já virou lei.

Quando estava em São Paulo, sempre tratava de marcar os almoços em lugares diferentes: fosse um bistrô nos Jardins, uma cantina na Bela Vista, um churrasco na Santa Cecília, num boteco na Vila Madalena. Em Brasília, não fujo da regra.

É assim, com almoços e jantares com fontes, durante a semana, e refeições com os amigos, no fim de semana, que tenho sido apresentado aos restaurantes de Brasília.

E, posso dizer sem medo, não deixa saudades de São Paulo.

Já tenho comigo que, tal qual São Paulo, Brasília tem também a chef coqueluche para meu paladar: Mara Alcamim, que toca dois restaurantes (sim, dois) -- o Universal Diner e o Zuu a.Z. d.Z. -- e um empório: o Quitinete.

Mara tem todas as características que fazem da Janaína Rueda e da Ana Luiza Trajano, chefs do Bar da Dona Onça e do Brasil à Gosto, respectivamente, as melhores chefs de São Paulo.

Todas praticam a tropicália gourmet.

O que é a tropicália gourmet? É a sabedoria da comida brasileira -- a melhor que há, por saber combinar o doce e a pimenta em tudo quanto é receita -- à falta de vergonha em combinar com o que de melhor existe em outras culinárias. Daí que podemos comer o melhor bife à milanesa do mundo, e ao mesmo tempo experimentar as incríveis massas preparadas pelo marido de Janaína, Jefferson Rueda, no Dona Onça. Ou a comida paraense feita com todo o charme do Brasil à Gosto. Ou a maravilha que é o peito de pato ao molho de tangerina e pimenta-de-cheiro, com minimoranga recheada de purê de mandioquinha e queijo brie, do Universal Diner.

Os tropicalistas se foram com o AI-5 e a pornochanchada, mas reencarnam no trio Janaína, Mara e Ana Luiza.

***

Sinto sim saudade de São Paulo. Nada supera um jantar no Dona Onça, instalado no Edifício Copan, desenhado por Oscar Niemeyer no centro da cidade, com o atendimento especial do Will, que vi saltar de garçom à mètre, e do David, que é um prosador de mão cheia.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Brasília

Por Clarice Lispector

Brasília é construída na linha do horizonte. – Brasília é artificial.

Tão artificial como devia ter sido o mundo quando foi criado. Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades.

Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas a minha insônia não é bonita nem feia – minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto.

Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri,um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lucio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é de um passado esplendoroso que já não existe mais.

Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No século IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quanto mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casas em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite, noite veio, percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse, eu seria vista.

O que me apavora é: é vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília. Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete nos jornais.

Aqui eu tenho medo. 

Este grande silêncio visual que eu amo. Também a minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Mamãe, está bonito ver você de pé com esse capote branco voando (É que morri, meu filho).

Uma prisão ao ar livre.

De qualquer modo não haveria pra onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília.

Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre. – Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos. Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon... – Se tirasse meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte.

É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la.



***

Cá está o Blog -- vivendo em Brasília.

Recebi o convite do Valor para engrossar a sucursal do jornal na capital federal -- e aceitei.

A correria, por aqui, é de matar qualquer um. Mesmo. São hordas de jornalistas (de rádio, tevê, jornal, revista, online, broadcast, correspondentes internacionais) habitando o mesmo espaço, frequentando os mesmos locais, atrás das mesmas pessoas. Falamos de uma cidade lindíssima, cuja planificação de Lúcio Costa, o plano piloto (a cidade em formato de avião), é habitada por três espécies: políticos, jornalistas e lobistas.

É curiosa a combinação entre um projeto magnífico de urbanismo e artes plásticas convivendo com tanta correria. Mal dá para refletir sobre o que estamos vendo. Pior: com ritmo tão frenético, acaba se acostumando com projetos tão lindos quanto o Ministério da Justiça, a Praça dos Três Poderes, o Palácio Jaburu, a Catedral de Brasília, o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o Memorial e a ponte JK.

Vivendo da Esplanada ao Congresso e destes para a sucursal do Valor, e aprendendo a lidar com endereços como SRTVN (Setor de Rádio e Tevê Norte, onde fica a sede do Valor por aqui), não paro de lembrar a eterna piadinha que Paulo Totti sempre me conta: "Quando em Brasília, fui fumar um cigarro no setor de cigarros sul, mas, para isso, fui comprar um isqueiro no setor de isqueiros norte...".

Em Brasília, tudo é setorizado. Há até um "Setor de Diversões", pouco depois do Conjunto Nacional, no Eixo Monumental -- a larga avenida que representa o corpo do avião, que vai do Memorial JK ao Congresso Nacional, e é cortado pelo Eixão, que representa as asas do avião.

Uma cidade linda, com muito (muito!) trabalho, e ótimos restaurantes.

É daqui de Brasília que o Blog passa a escrever. Perdoem-me, de antemão, se o ritmo de postagem cair num primeiro momento: ainda preciso me familiarizar com tudo isso.

***

Aqui eu tenho medo, disse Clarice.

domingo, 19 de junho de 2011

Domingo

Mente, ainda é uma saida

É uma hipótese de vida
Mente, sai dizendo que me ama
Mente, espalha essa fama
me chama de meu amor constantemente
No meio de toda gente a sos entre nós dois
Mente.

Mente, para dar um novo inicio
Ninguêm liga a sacrifício
Quando ele é único meio
Pois na mentira meu amor
Crer eu não creio
Só pretendo que de tanto mentir
Repetir que me ama
Você mesmo acabe crendo.


Eduardo Gudin, compositor brasileiro.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Fim de expediente


Com Black Sabbath, "It's Alright", 1976, do disco Technical Ecstasy.

A banda já estava rachada, e o vocalista Ozzy Osbourne atravessava problemas sérios com drogas. O disco, que é o pior do Black Sabbath na fase Ozzy (1969-1978), é cheio de altos e baixos. Quando, em meio às gravações, os outros três integrantes vieram com a ideia de gravarem "It's Alright", Ozzy foi direto: "Não vou cantar essa música de viado".

Resultado: o baterista Bill Ward, um dos maiores corações do rock pesado, cantou em seu lugar e fez dessa uma das músicas mais lindas do grupo.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A sinuca da saúde nos EUA

No fim do mês, um dos programas mais importantes de combate à crise econômica nos Estados Unidos vai acabar. E ninguém parece muito preocupado com isso.

Em fevereiro de 2009, a primeira ação do governo Barack Obama, que assumira a presidência no mês anterior, foi ampliar o envio de recursos federais aos estados para manter e ampliar a cobertura do Medicaid, o programa de saúde pública para os mais pobres. A iniciativa de Obama valeria por dois anos fiscais, que nos EUA começam em junho. Assim, os recursos federais cobririam as despesas dos 47 estados com o Medicaid até junho de 2011.

O programa vai vencer e os estados vão perder o equivalente a US$ 90 bilhões por ano para o Medicaid.

O que vai acontecer, então, a partir de 1º de julho? Os estados vão estreitar ainda mais os critérios de pobreza que habilitam uma pessoa a receber tratamento pelo Medicaid, os médicos particulares vão pensar duas vezes antes de receber algum paciente pelo Medicaid (porque o contracheque público será menor) e os planos de saúde privados devem aumentar um pouco mais as taxas cobradas de seus clientes, de forma a compensar os gastos que terão com atendimentos especiais nos hospitais daqueles que até hoje tem cobertura do Medicaid.

Com menos assistência pelo Medicaid, os americanos terão de guardar uma fatia maior de seus orçamentos familiares para gastos com saúde. Assim, menos dinheiro sobrará para o consumo.

Em tempos de desemprego elevado -- a taxa está em 9,1% -- menos consumo significa menos produção, e menos produção significa menos trabalho.

Não me parece algo interessante o que está por vir. Mas o que me choca mais é que pouco está sendo dito -- por políticos e pela mídia -- americana sobre isso.

terça-feira, 14 de junho de 2011

A nota da Grécia

A agência de classificação de risco Standard & Poor's reduziu a nota da Grécia. As notas, que variam de AAA (para o melhor) a DDD (para o pior), indicam ao mercado financeiro as condições de solvência de cada país. Aqueles com notas maiores recebem mais investimentos, porque, segundo as agências, são mais seguros. Aqueles com notas menores recebem menos, porque o risco de calote é maior.

Para a Standard & Poor, a Grécia vale a nota CCC -- a menor do mundo.

O engraçado é que, para a mesma Standard & Poor's, dois anos atrás, a Grécia estava lá entre os AA- e o BB+. Ou seja, era um país com contas em ordem e seguro para investimentos.

Não custa perguntar: as agências de classificação de risco são instituições enormes, cujos técnicos recebem uma fortuna e têm acesso a dados privilegiados de todos os países, cuja função única é dizer onde é mais seguro investir. Por que raios, então, países como a Grécia tinham notas altas?

É muito fácil dar nota CCC para a Grécia hoje, junho de 2011. Eu não tenho acesso a dado algum da Grécia, não recebo uma fortuna e nem sou, em tese, habilitado a dizer nada sobre o assunto. Pois eu tenho total tranquilidade em dizer hoje, junho de 2011, que a Grécia é um país arriscado para se investir. Todo mundo pode dizer isso.

Olha, depois que agências como Standard & Poor's, Moody e Fitch Ratings, para ficar nas maiores, davam notas AAA para o Lehman Brothers há poucos meses antes do banco falir e desencadear a maior crise econômica global desde 1929, o mercado deveria ser mais cético com essas agências.

Mas quem sou eu, né?

A Standard & Poor's, sagaz que só ela, acha que a Grécia merece nota CCC. E embolsam uma fortuna para dizer isso.

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Para começar a semana com um gênio

Em 22 de agosto de 1981, há quase trinta anos, morria Glauber Rocha. Foi um dos três maiores cineastas da história do cinema mundial -- ao lado de Jean-Luc Godard e Pier Paolo Pasolini -- e um dos maiores artistas da história do Brasil.

Muito se falará de Glauber nos cadernos culturais dos jornalões e na blogosfera entre julho e agosto. Aliás, até Nelson Motta está com livro pronto para sair do forno (coincidência com o aniversário da morte de Glauber...?) sobre Glauber.

Baiano que tocou fogo em Salvador e no Rio de Janeiro, venceu prêmio de mehor diretor no mais prestigiado Festival de Cinema, o de Cannes, em 1969, se exilou em Moscou (URSS), Havana (Cuba), no Congo (África), em Hollywood (EUA), em Paris (França) e em tudo quanto é lugar. Voltou ao país pouco antes da Anistia, em 1977, e abriu uma cisão monstruosa na cultura e na política brasileira, ao defender a abertura desenhada por Goldbery do Couto e Silva (a cabeça por trás do governo Ernesto Geisel, então ditador de plantão no país). Entre 1979 e 1980 apresentou um programa justamente chamado de Abertura na TV Cultura, e a linguagem daquele programa influenciaria todos os programas ditos "criativos" da TV brasileira desde então -- do Ernesto Varella ao CQC.

Vejam o fervor de Glauber em um dos meus Abertura preferido, em 1979, em que o cineasta entrevista Brizola. Não o futuro governador do Rio de Janeiro, cuja campanha em 1982 o colocaria em evidência nacional por rachar com a Rede Globo, mas um rapaz de Botafogo, bairro da zona sul do Rio de Janeiro, chamado Brizola. O Brizola de Glauber não sabe o que é democracia ou ditadura, torce para o Flamengo e está preocupado em vencer o jogo do bicho.

Glauber filmava o povo brasileiro. Ninguém tinha feito aquilo antes, muito menos daquela forma, de camisa aberta, falando o linguajar popular, com cabelo mal penteado, barba por fazer.



A situação do povo e do Brasil melhorou muito de lá para cá. Não só retomamos a democracia, como aprendemos a lutar contra nossos grandes males (a hiperinflação, a pobreza extrema).

Mas perdemos muito, também. Não temos mais Glauber. Temos Fernando Meirelles. Que azar o nosso.

domingo, 12 de junho de 2011

Domingo

Uma singularidade do brasileiro é ser um povo naturalmente ecumênico. O brasileiro, em caso de morte, apela ao espiritismo; para batizados, a Igreja Católica; em caso de amor, ao candomblé... Ele sabe que todos vão para Deus. Essa tolerância mística é um dos traços mais belos da civilização brasileira, e poderia ser uma grande contribuição à globalização.


Leonardo Boff, teólogo.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

Imagens da semana


                                      Foto de André Duzek, da Agência Estado.

Antônio Palocci em seu último compromisso como ministro-chefe da Casa Civil, ao lado da presidente Dilma Rousseff, na terça-feira à tarde, em Brasília, durante lançamento do comitê organizador da Rio-20.

Horas depois, Palocci seria demitido.

***

Depois de quatro anos preso, Cesare Battisti recebeu, do Supremo Tribunal Federal (STF), a concessão de refúgio político.



***

As eleições no Peru tiveram um final feliz: Ollanta Humala venceu Keiko Fujimori, filha do sangrento ditador Alberto Fujimori.



***

Este Blog, que apoiou a candidatura de Humala, o refúgio de Battisti e sugeriu a saída de Palocci para destravar o governo federal, teve uma boa semana, né?

quinta-feira, 9 de junho de 2011

De Gleisi Hoffmann

Vejam o que a recém-empossada nova ministra-chefe da Casa Civil escreveu, em seu Twitter pessoal, dois dias antes de ser escolhida para o cargo, em substituição à Antonio Palocci:

Clique aqui.

Ela faz referência à entrevista que o Valor publicou na segunda-feira com o Secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, Márcio Holland.

O erro de 2010

Se você, caro leitor, só tiver um artigo para ler em junho, que seja "The Mistake of 2010", de Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia e colunista do The New York Times.

Subscrevo-o totalmente.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Cesare Battisti está livre

Decisão do Supremo Tribunal Federal (STF), por 6 votos a 3, foi favorável a sua liberação.

Depois de quatro anos preso, Battisti pode, finalmente, deixar a cadeia.

E Battisti...?

Em 2007, o ativista italiano Cesare Battisti foi preso pela Polícia Federal (PF), cumprindo pedido do governo da Itália. Battisti, que vivia no Brasil desde 2004, tinha deixado a França, onde vivera entre 1979 e 2004, sem ser incomodado. Na Itália, Battisti foi condenado à prisão perpétua à revelia em 1988 -- ou seja, não teve direito a se defender. Foi condenado e pronto.

Isso, sob qualquer ponto de vista, é errado. E os italianos, que forjaram uma das sociedades mais avançadas intelectualmente da história humana, cinco séculos atrás, deveriam saber disso.

Não sabem.

Em 2009 e 2010, nosso Supremo Tribunal Federal (STF) definiu, em longo julgamento, que Battisti deveria ser extratidado à Itália, mas todos os 11 ministros da corte concordaram que a decisão final para o caso, no entanto, era do presidente da República, por se tratar de caso político.

Em 31 de dezembro de 2010, o então presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, decidiu conceder refúgio.

Por que, então, o STF não acatou, se, meses antes, já definira que a decisão final era do presidente?

Eu não sei.

Só sei que hoje, os ministros do Supremo estão lá reunidos de novo para, enfim, definir se Battisti deve mesmo ser extraditado ou receber refúgio.

Este Blog, que já escreveu muito sobre esse caso, já está de saco cheio.

A Justiça, no Brasil, realmente, é muito veloz. Parabéns a todo mundo.

***

Em 13 de maio de 2009, fiz uma ampla leitura do caso Battisti.

Em 07 de setembro de 2009, acompanhamos o início do julgamento no STF.

Em 27 de abril de 2010, registramos que os melhores juristas do Brasil estavam com Battisti.

Finalmente, em 30 de dezembro de 2010, antecipamos que a decisão de Lula seria pelo refúgio.

Hoje, 08 de julho de 2011, o STF ainda não sabe o que é certo.

***

À turma da República Morumbi-Leblon: é errado chamar Battisti de "terrorista". Alguém sabe se ele, efetivamente, assassinou as quatro pessoas que o governo italiano garante?

Eu não sei. Você certamente não sabe também. Ninguém sabe.

O governo italiano diz que sim. Battisti diz que não. Eu não sei, nunca saberei e não mudará nada na minha vida saber. Mas duas coisas eu sei: Battisti nunca teve a oportunidade de negar os crimes perante um tribunal. Nunca teve acesso à defesa jurídica. Isso é certo? Não.

Então, meus amigos, como podemos enviar a cadeia alguém que foi condenado à revelia?

STJ anula Operação Satiagraha

O leitor deve se lembrar da Operação Satiagraha, movida pela Polícia Federal (PF) entre 2006 e 2008, cujo desfecho, em 08 de julho de 2008, foi a prisão de Daniel Dantas, presidente do banco Opportunity, sua irmã Verônica e outros 9 dirigentes do banco.

Dantas ficou um dia na cadeia da PF, quando um habeas corpus, colocado diretamente no Supremo Tribunal Federal (STF), órgão máximo do Judiciário brasileiro, foi aceito por Gilmar Mendes, então presidente da casa. Dantas, no entanto, foi preso novamente em 10 de julho; e mais uma vez solto por Mendes, no dia seguinte.

Iniciou-se, então, um carnaval no Brasil. Nem a crise mundial, que estourou em 15 de setembro daquele ano, foi capaz de mudar o foco do debate político no país.

Pois ontem, três anos depois de tudo, o Superior Tribunal de Justiça (STJ), apenas inferior ao STF na estrutura do Judiciário brasileiro, anulou todas as provas levantadas pela Satiagraha.

***
Do Estadão:

STJ anula provas obtidas pela Operação Satiagraha

Por Mariângela Gallucci

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou nesta terça-feira as provas obtidas pela Operação Satiagraha, que resultou na condenação por corrupção do banqueiro Daniel Dantas, dono o grupo Opportunity, a 10 anos de prisão. Por 3 votos a 2, a 5.ª Turma do STJ concluiu que foi ilegal a participação de integrantes da Agência Nacional de Inteligência (Abin) nas investigações.

A maioria dos ministros aceitou um pedido de habeas corpus no qual os advogados do banqueiro solicitaram a anulação das provas obtidas na investigação e a extinção da ação penal na qual Dantas foi condenado por tentativa de suborno a policiais. Autor do voto de desempate, o presidente da 5.ª Turma, Jorge Mussi, afirmou que os agentes da Abin não poderiam ter atuado de forma clandestina nas apurações.

"Poderia a Abin, numa operação compartilhada, participar dessa investigação? Eu penso que sim, mas com autorização judicial", disse Mussi. "Poderia ela participar sem autorização judicial? Poderia, se fosse requisitada. Mas o que não pode é na clandestinidade, de forma oculta", respondeu. "Não é possível que esse arremedo de prova possa levar a uma condenação com esse tipo de prova. Essa volúpia desenfreada de se construir arremedo de prova acaba por ferir de morte a Constituição desse País. É preciso que se dê um basta, colocando freios inibitórios antes que seja tarde", afirmou Mussi.

O presidente da 5.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça (STJ) citou jurisprudência tradicional do Supremo Tribunal Federal (STF) que reconhece a teoria dos "frutos da árvore envenenada". De acordo com essa teoria, provas obtidas de forma irregular podem contaminar uma investigação. Entre essas provas estão escutas telefônicas, interceptações telemáticas de e-mails e ação controlada. "Não posso admitir que essa prova seja usada contra um cidadão do meu País para se buscar uma condenação", disse Mussi. "Toda prova decorrente de investigação ilícita não deve ser admitida", afirmou.

O advogado Andrei Zenkner Schmidt, que defendeu Dantas, disse que a decisão de hoje acarreta a nulidade de todas as provas amparadas na Operação Satiagraha e deverá levar à prejudicialidade das outras ações que tramitam na Justiça de 1.ª Instância, inclusive uma contra o banqueiro.

***

Não vou entrar nos méritos. Quem está no STJ certamente tem mais conhecimento jurídico do que eu. Mas, se pudesse colocar apenas dois centavos aí, diria o seguinte: PF e Abin fazem parte de um negócio amplo, o Sistema Brasileiro de Inteligência (Sisbin). Este é o guarda-chuva de todas as operações de inteligência e investigação do Estado. Se seus agentes trabalham juntos em uma operação, independentemente da forma como se dá essa interação, não estão cumprindo o que se espera do Sisbin?

Fica a dica.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Palocci cai

Do Twitter:

@jailmaoliveira: Ao mesmo tempo q leio o post de hj sobre Palocci no @joaovillaverde, o mesmo renuncia.

***

Batata: falamos hoje cedo cá no Blog que a saída de Antônio Palocci da Casa Civil seria o melhor para todas as partes. E agora, as 18h17min, Palocci acaba de divulgar nota com sua demissão.

E o Palácio do Planalto anuncia a senadora Gleisi Hoffmann (PT-PR) como sua sucessora.

***

A nova ministra-chefe da Casa Civil:

O caso Palocci

O governo federal lançou, na última quinta-feira, seu programa mais importante: o Brasil Sem Miséria. Foi ele que norteou a candidatura de Dilma Rousseff, no ano passado, e é ele que dará continuidade ao Bolsa Família, que sustentou, ao lado do salário mínimo, a ótima avaliação (87%) do governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo "Brasil Sem Miséria", o governo Dilma se compromete a tirar 16,2 milhões de brasileiros da condição de pobreza extrema até 2014. O lançamento, com toda a pompa, ocorreu no Palácio do Planalto.

E quase ninguém deu a mínima.

Por que?

Porque, ao lado de Dilma, estava Antônio Palocci, o ministro-chefe da Casa Civil. Há 22 dias, Palocci sangra e faz o governo sangrar depois de matéria na Folha de S. Paulo que mostrava a multiplicação por 20 de seu patrimônio nos quatro anos entre 2006, quando deixou o Ministério da Fazenda, e 2010, quando foi convidado por Dilma para assumir a Casa Civil.

Palocci, bom lembrar, deixou a Fazenda, em março de 2006, devido ao escândalo da quebra do sigilo bancário de Francenildo da Costa, o caseiro de sua residência em Ribeirão Preto (SP). O caso derrubou também Jorge Mattoso, presidente da Caixa Econômica Federal (CEF), de onde o sigilo foi quebrado. Palocci foi inocentado do caso pelo Supremo Tribunal Federal (STF) e cumpriu mandato como deputado federal entre 2006 e 2010.

O ótimo trânsito que Palocci tem com o mercado financeiro e com grandes empresários, no entanto, foi central em dois momentos decisivos: a coordenação da campanha de Lula em 2002, quando todos achavam que Lula, se ganhasse, iria nacionalizar toda a economia (!), e no ano passado, dando à Dilma, associada pelos setores conservadores à guerrilha contra o regime militar, uma cara mais pró-mercado.

Com anuência de Lula e com reconhecimento pelos serviços prestados ao PT, Palocci foi convidado por Dilma para assumir a Casa Civil.

De uma perspectiva fria, pensando apenas 2010, era uma escolha lógica: Palocci tem canais com a iniciativa privada e com parlamentares, e faria uma ótima ligação entre Executivo e Legislativo.

Mas em 2010, sempre bom lembrar, já tínhamos vivido 2006. Ou seja, já se sabia que Palocci era o sujeito que saiu do governo devido ao "escândalo do caseiro".

Problemas poderiam surgir, e muitos chamaram atenção para isso ainda na formulação dos quadros ministeriais.

Como se não bastasse, em cinco meses de governo, surge a denúncia de seu rápido e enorme enriquecimento pessoal em quatro anos. Palocci avisou Dilma? Eu não sei, mas, em Brasília, o que mais se ouve é que não. Ou seja, havia uma separação, na cabeça de Palocci, entre vida pública e vida particular.

De fato, existe essa separação. Um homem público é, com o perdão do clichê, mais público que qualquer outro homem. Mas, como todos, ainda tem uma vida particular. Como empreendedor, no entanto, ele não pode operar. Isso ele fez: terminou seus contratos entre novembro e dezembro de 2010, antes, portanto, de assumir cargo no Executivo.

Mas como ganhou tanto dinheiro em quatro anos? Qual tipo de serviço ele prestou às empresas?

Esse tipo de coisa tem forte interesse público e, diante das evidências, todos têm o direito de saber. O nome das empresas, numa boa, nem é tão importante assim saber. Mas, à sociedade, Palocci deveria ao menos explicar como embolsou tanto dinheiro em tão pouco tempo e como fez isso.

A longa entrevista (51 minutos) à Rede Globo, na última sexta-feira, foi fraca neste sentido.

Que a oposição iria reclamar não surpreende. Independentemente do que ele dissesse, a oposição reclamaria. O que chama a atenção, na realidade, é que nomes do alto escalão do governo e do PT estão incomodados. E muito.

Por que?

Justamente porque Dilma lança o "Brasil Sem Miséria" e tudo o que as pessoas conseguem falar é de Palocci.

O que deve ser feito?

Ontem, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, presidente da Força Sindical e deputado federal pelo PDT de São Paulo, sugeriu que Palocci agisse como Henrique Hargreaves.

Em 1993, início do governo Itamar Franco (vice de Fernando Collor, que sofrera impeachment em dezembro de 1992), Henrique Hargreaves, político de Juiz de Fora (MG), assumiu a Casa Civil. Era um grande ministro -- especialmente por tornar Itamar, um cara durão e afeito a frases duras, afável aos olhos do pais.

Em outubro, diante de uma série de denúncias de uso de verbas públicas, Hargreaves começou a, tal qual Palocci agora, travar o governo. O então ministro da Fazenda, Fernando Henrique Cardoso, já tinha consigo um grupo de economistas habilidosos, que trabalhavam num plano de combate à hiperinflação (que viria a ser o Real). Pedro Malan, o negociador da dívida externa brasileira nos EUA, começou a ter dificuldades.

A mídia, em pouco tempo, travara o Brasil no caso Hargreaves.

O que ele fez?

Deixou o governo, em 1º de novembro, com um belo discurso. Em resumo, disse que "uma vez comprovada minha inocência, voltarei".

Foi exatamente o que ocorreu. Hargreaves foi inocentado de tudo e, em 08 de fevereiro de 1994, voltou à Casa Civil.

Foi ele quem fez o trabalho complicadíssimo de "vender" as medidas gestadas pelo grupo do Real (Edmar Bacha, Pérsio Arida, André Lara Resende, Gustavo Franco e Winston Fristch) ao Congresso, enquanto Rubens Ricupero, que sucedeu FHC na Fazenda entre março e setembro, vendia à nação. Depois, com a saída de Ricupero (outro caso a lá Palocci, diga-se), Hargreaves era o canal da racionalidade entre governo e sociedade, num período de pacto pela remonetização.

Deixou o governo junto de Itamar, em 1º de janeiro de 1995.

Para Paulinho, Palocci deveria agir como Hargreaves.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Humala no Peru


Ollanta Humala venceu as eleições presidenciais no Peru. Acima, em foto da Associated Press, Humala discursa, hoje, em Lima, capital do Peru.

Este Blog, que demonstrara apoio a sua candidatura duas vezes (aqui e aqui), está, evidentemente, contente.

Menos por Humala em si, que, claro, já começa a gerar incertezas no previsível mercado financeiro. Mas porque Keiko Fujimori, filha do sangrento ditador Alberto Fujimori, perdeu.

Como sacou o genial escritor peruano Mario Vargas Llosa, os peruanos escolheram a modernidade.

Que os Fujimori, que mataram e censuraram os peruanos, aos poucos, sumam da história.

O estilo Dilma

Nos últimos anos, duas figuras eram centrais na política econômica do governo federal e atraim os holofotes da mídia quando o assunto era o futuro do país:

Luciano Coutinho, presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).

José Sérgio Gabrielli, presidente da Petrobras.

Onde eles estão?

Continuam em seus cargos. Coutinho mantém um dos mais ousados e agressivos financiamentos de investimentos produtivos do mundo emergente, e Gabrielli continua tocando o planejamento da estatal para extração do petróleo que está na camada do pré-sal.

Se continuam em seus cargos, e detém as decisões mais estratégicas do país, por que, então, não aparecem mais?

Eis o estilo Dilma Rousseff de governar o país.

Chame-o de mais sóbrio, chame-o de menos populista, chame-o do que for. Em Brasília, todos entendem isso como, simplesmente, o estilo Dilma.

E aí de quem falar demais.

domingo, 5 de junho de 2011

Domingo

Agora falando sério

Eu queria não cantar
A cantiga bonita
Que se acredita
Que o mal espanta
Dou um chute no lirismo
Um pega no cachorro
E um tiro no sabiá
Dou um fora no violino
Faço a mala e corro
Pra não ver a banda passar
Agora falando sério

Eu queria não mentir
Não queria enganar
Driblar, iludir
Tanto desencanto
E você que está me ouvindo
Quer saber o que está havendo
Com as flores do meu quintal?
O amor-perfeito, traindo
A sempre-viva, morrendo
E a rosa, cheirando mal
Agora falando sério
Preferia não falar
Nada que distraísse
O sono difícil
Como acalanto
Eu quero fazer silêncio
Um silêncio tão doente
Do vizinho reclamar
E chamar polícia e médico
E o síndico do meu tédio
Pedindo pra eu cantar
Agora falando sério
Eu queria não cantar
Falando sério


Chico Buarque, compositor e gênio brasileiro.

sábado, 4 de junho de 2011

Apoio a Humala, no Peru

Não é segredo que este Blog apoia, sempre, a defesa dos costumes nacionais. O que diferencia as nações, já sacara Otto Von Bismarck no fim do século XIX, são justamente aquelas coisas que só têm lá. Isso vale para as roupas, a língua, o modo de falar, os ritmos e melodias, a literatura, o esporte preferido, a natureza, a arquitetura.

Há, sem dúvida, uma linha tênue entre nacionalismo e radicalismo. Os militares que governaram o Brasil depois do golpe de 1964 eram nacionalistas e, em nome do nacionalismo, censuraram intelectuais, assassinaram inocentes, torturaram opositores. Da mesma forma, os franceses, sempre muito nacionalistas, estão sempre beirando a irracionalidade, seja proibindo o véu islâmico, seja proibindo a pronúncia de "Facebook" e "Twitter" na tevê nacional.

O nacionalismo sadio, que apela para as tradições do território, que alimenta as particularidades regionais, é algo lindo. Este Blog acha que o mundo estaria em mãos muito melhores se a maioria, em cada país, fosse constituída por esses nacionalistas -- não os radicais xenófobos ou os entreguistas globalizados.

As eleições do Peru, que ocorrem amanhã, colocam de frente justamente estes dois pólos.

De um lado, Ollanta Humalla, que apela ao nacionalismo sadio, que eleva os usos e costumes do peruano. Afinal, diferente do que querem os politicamente corretos e os cosmopolitas sem sal, sem gosto e sem cheiro, o gostoso da vida está nas particularidades regionais.

Do outro, Keiko Fujimori, filha de Alberto Fujimori, que liderou uma sangrenta ditadura no Peru. Fujimori, hoje expulso do país, assassinou opositores e subornou jornalistas (que calaram perante seus crimes) e artistas, que vendiam a ideia de que o Peru era maravilhoso. Aliás, a campanha de Keiko está montada em dois eixos, muito correlatos: o primeiro é lembrar o eleitorado que ela é filha do "grande" Fujimori; e o segundo é insistir que as "conquistas" do governo que acaba, do atual presidente Alan Garcia, serão mantidas apenas sob seu governo.

Como sabemos, o governo de Alan Garcia foi bom apenas para a elite da elite. E isso não é discurso barato. Vejam como escrevi: elite da elite. Nem a elite como um todo ganhou com o governo Garcia, apenas a cereja entre a turma da bufunfa. O PIB do Peru cresceu? Sim, mas desde quando isso é sinal de que a riqueza de um país está sendo passada à frente, em maior ou menor medida, com todos aqueles que dividem o mesmo território? O Brasil cresceu a taxas de 12% ao ano entre 1967 e 1974 e, ainda assim, carregava a massa humana mais miserável do planeta, rivalizando com os países da África Subsaariana.

Que tenham brasileiros cegos de seus carros de luxo, que do alto de restaurantes cuja conta termina em torno de R$ 500 (um salário mínimo) num almoço de domingo com a família e sintam saudades da ditadura militar, eu não me surpreendo. Quem tinha dinheiro e viveu os anos 60 e 70 em São Paulo ou no Rio de Janeiro se deu bem. Foram os outros 89,9 milhões de brasileiros miseráveis que se deram mal.

O mesmo ocorre no Peru, hoje.

Falamos de um país pobre, efetivamente de Terceiro Mundo (um conceito que, diga-se, não se aplica mais ao Brasil), que depende exclusivamente de exportações de produtos básicos e de um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos, assinado com Garcia.

Onde está o rico passado peruano? Certamente não está no terno e gravata de Alan Garcia, ou no sorriso de menina criada em mansões de Keiko.

Sinceramente, nem acho que Humala seja lá um candidato forte. Ele pode muito bem ganhar e ser um fracasso. O genial escritor peruano Mario Vargas Llosa, aliás, declarou apoio a Humala apenas para evitar Keiko Fujimori.

É isto o que este Blog faz aqui. O apoio deste espaço, que recebe 650 visitantes únicos dia, vai para Ollanta Humala.

***


Ah, é claro que empresários e banqueiros estão morrendo de medo de alguém que sequer parece o establishment vencer e começar a nacionalizar tudo. Até certo ponto, divido este medo. Já vimos, em casos como a Venezuela, que nacionalizar por ideologia é como privatizar por ideologia: o país fica à deriva. Há casos em que serviços são prestados de maneira mais eficiente pela iniciativa privada (o que justifica a privatização) e casos em que ocorre o contrário (o que justifica a nacionalização).

Se Humala vencer será preciso que ele e sua equipe olhem com calma para o que fez Hugo Chávez na Venezuela para não repetir a tragédia no Peru.

Repito: nacionalismo bom é aquele que não apela ao radicalismo.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Fim de expediente


Que maravilha era a voz de Elizeth Cardoso.

Aqui, Elizeth está acompanhada da orquestra de Radamés Gnatalli, interpretando "As Pastorinhas", composição de Noel e Braguinha.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Interlúdio


Um dos vestidos usados pelas mulheres próximas (rainhas ou filhas) ao líder do Império Otomano. Tirei a foto (com meu inseparável iPhone, admito) durante a visita ao Palácio Topkaki, nas redondezas de Istambul. O palácio era a antiga sede dos imperadores otomanos, que faziam de Istambul a capital do império.

Quando Mustafa Kemal Atatürk tomou o poder, entre 1919 e 1922, e criou a Turquia, foram duas grandes mudanças: uma de costumes -- abolindo a ideia de realeza e, principalmente, tornando o Estado laico e deixando o islamismo apenas como um dos credos permitidos no país, e não apenas o único -- e outra geográfica: passou a capital do país para Ankara.

Visitei, no ano passado, seis cidades turcas em sete dias. A maratona incluiu. é claro, Istambul e Ankara. De uma perspectiva brasileira, a mudança de capital -- totalmente compreensível sob a ótica política da coisa, de consolidação de uma nova hegemonia -- é quase um crime: Istambul é o Rio de Janeiro, uma maravilha de cidade, que já foi capital do país. Mas Ankara definitivamente não é Brasília -- sim, o governo todo está lá, mas não há (nem de longe!) a beleza urbanística desenvolvida por Lúcio Costa, nem o projeto arquitetônico de Oscar Niemeyer.

***

A Turquia, realiza, nos próximos dias, suas eleições nacionais. Este Blog, que normalmente ficaria com os nacionalistas, apoia o atual premiê, Recip Erdogan, do AK Party, que tem raízes islâmicas. Os nacionalistas estão, cada vez mais, caminhando para uma direita burra e o Exército, tão importante para a democracia turca, hoje mais parecem uma instituição velhaca.

De política e mídia

Apurei, junto a fontes do alto escalão do Ministério da Previdência, aqui em Brasília (de onde escrevo este post), que há uma preocupação enorme com o projeto de desonerar a folha de pagamentos, gestado no Ministério da Fazenda. A ideia da Fazenda é zerar os 20% da contribuição patronal ao INSS, feita sobre os salários de todo os trabalhadores com carteira assinada. Para não perder a arrecadação previdenciária, a Fazenda cogita criar um imposto sobre o faturamento das companhias.

Tudo ótimo, tudo legal, mas os técnicos da Previdência fizeram uma conta simples: como o INSS, neste cenário, vai depender do faturamento das empresas, e o faturamento depende da atividade econômica, o que vai acontecer quando o país crescer pouco? As empresas vão fazer menos negócios, portanto vão faturar menos e, consequentemente, contribuir menos ao INSS. Resultado: a Previdência vai ter de arcar com o buraco.

Essa história toda está, em detalhes, na minha matéria de ontem no Valor.

Pois bem, hoje, o editorial do Estadão vai na mesma onda. Chega a citar frases inteiras da matéria, mas não faz menção à ela...

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Tem alguma inconsistência por aqui...

A Grécia, cuja economia está quebrada, oferece títulos públicos com vencimento em dez anos pagando, em troca, uma taxa de juros de 15,5% ao ano. Trata-se da maior taxa nominal de juros do mundo. Tudo bem, afinal, quem quer um título de um país falido, né não?

Agora, só uma coisa.

O Brasil, que é a cereja do bolo mundial, cresceu 7,5% no ano passado (menos apenas que China e Índia) e faz até a candidata europeia à secretaria-geral do FMI, Christine Lagarde, vir ao Brasil iniciar sua campanha, não está longe.

O governo brasileiro oferece uma taxa de juros de 12,6% ao ano para quem se dispuser a comprar nossos títulos públicos de dez anos. Sim, o mesmo título oferecido pela Grécia.

***
E nossa taxa de juros continua subindo. Na semana que vem, o Banco Central (BC) deve elevar a Selic, a taxa de juros básica da economia, em mais 0,25 ponto percentual.
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