sexta-feira, 29 de abril de 2011

Porque sempre conseguimos nos superar na inutilidade

Esqueçam a falta de qualificação dos trabalhadores brasileiros, a crise do PSDB, o acordo entre Fatah e Hamas na Palestina ocupada por Israel, os conflitos na Síria e a carnificina na Líbia, as resoluções depois da vitória popular no Iêmen, a crise econômica em Portugal ou a disputa eleitoral que se avizinha nos Estados Unidos.

Hoje é dia de casamento do filho do príncipe da Inglaterra.

Isso sim é muito importante, né?

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Um comentário sobre a Síria

Sabe o efeito dominó?

Então, depois da primeira peça, a Tunísia, tremer e sua queda atingir o Egito, que depois tocou o Iêmen, agora é a vez da Síria -- já que, no meio do caminho desse jogo, a peça Líbia, de Muammar Gaddaffi, está uma dureza para mexer.

Pois depois de chacinas promovidas pelo presidente Bashar al-Assad e uma quase guerra civil estourar no país -- algo que deve acontecer até o fim da semana -- o "estado de emergência" que vigorava a 48 anos no país foi suspenso. Mais impressionante que o fato de a Síria viver 48 anos (!) sob "estado de emergéncia" é o fato de Assad suspendê-lo justamente no momento em que se instala emergência lá.

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Avanço na questão palestina

Ótima notícia: os grupos palestinos Fatah e Hamas acabaram de firmar um acordo, no Egito, para atuarem juntos na criação de um Estado palestino. Os grupos tinham rompido todo o diálogo em janeiro de 2006, depois que o Hamas ganhou as eleições legítimas realizadas na Faixa de Gaza e o Fatah, entrando na onda ocidental, declarou o pleito como ilegal -- algo que comissões internacionais e olheiros imparciais negaram peremptoriamente. Fatah deixou Gaza e, de lá para cá, cada um passou a chefiar uma parte dos palestinos: o Hamas em Gaza, e o Fatah na Cisjordânia.

O Fatah, tido como moderado, avalia que a saída para os palestinos é a recriação da Palestina. O Hamas não leva a sério a história de um Estado constitucional, mas prioriza o caráter religioso. Ao longo dos anos, tanto o Fatah começou a ver que sua defesa da negociação incondicional não é um caminho lógico (simplesmente porque Israel barra toda e qualquer negociação, ou descumpre algo que seja acordado), como o Hamas passou a aceitar que um Estado Palestino, tal qual existia até 1948, seja uma saída inteligente para um povo sem pátria.

A união entre os dois é o caminho mais rápido para o fim de um conflito sangrento no Oriente Médio: o da Palestina ocupada por Israel.

A leniência com a qualificação dos trabalhadores

Para cada R$ 100 gastos com o seguro-desemprego, o governo federal usa apenas R$ 1 em programas de qualificação de mão de obra. No Estados Unidos, para cada US$ 100 gastos com os benefícios aos desempregados, o governo de Barack Obama investiu US$ 11,25 em qualificação no ano passado. O descompasso entre as duas despesas no Brasil preocupa desde técnicos do governo até empresários, que já apontam a falta de qualificação dos trabalhadores como um dos principais entraves para o crescimento econômico. Sete em cada dez empresários sofrem com a falta de qualificação profissional, de acordo com pesquisa realizada pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) com 1,6 mil empresas.

No governo federal, o gasto com qualificação de trabalhadores aumentou 32% entre 2009 e 2010, mas os R$ 227,9 milhões aplicados no ano passado foram muito inferiores aos R$ 961,1 milhões empregados em 2001, pico dos últimos 15 anos. No governo do Estado de São Paulo, onde não há utilização de recursos federais para cursos de qualificação desde 2006, as despesas ficaram em torno de R$ 90 milhões nos últimos dois anos.

Para saber mais detalhes, veja a matéria especial que escrevi sobre o tema, publicada no Valor, ontem.

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Aqui, a bela arte que a Renata Gonçalves fez para acompanhar a matéria:



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E, agora, uma rápida lição de como funciona a relação entre mídia e política.

A matéria foi publicada ontem, na página Especial do Valor, com chamada na primeira página, ao lado da manchete. O jornal é publicado pela manhã.

Pouco depois do almoço, os deputados federais Roberto Santiago (PV) e Rubens Bueno (PPS), protocolaram um pedido de audiência pública junto à Comissão do Trabalho, na Câmara dos Deputados. Sugeriram trazer ao Congresso para falar sobre o descompasso entre os gastos com seguro-desemprego e com qualificação profissional justamente as fontes de minha matéria: Ana Paula Silva, diretora do Departamento de Qualificação do Ministério do Trabalho; Davi Zaia, secretário do Trabalho e do Desenvolvimento de São Paulo; João Sabóia, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro; e Luige Nese, presidente do Codefat – Conselho Deliberativo do FAT.

Além disso, teve repercussão no Twitter de um ex-candidato à Presidência da República.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Gaddaffi e os acadêmicos americanos


Artigo genial do Dani Rodrik, professor de Economia Política em Harvard.

"Saif Kaddafi e eu".

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Mais uma lição árabe


O presidente do Iêmen, Ali Abdullah Saleh, aceitou, ontem, deixar o poder do país em um prazo de trinta dias. Isso quer dizer que, até 24 de maio, Saleh estará fora do trono -- onde está há 32 anos.

Sim, 32 anos.

Ou seja, Saleh assumiu o poder no Iêmen no mesmo momento em que Glauber Rocha lançava "Idade da Terra", Hélio Oiticica voltava ao Brasil, Elis Regina dividia as paradas de sucesso com Tim Maia, o Irã passava por sua Revolução Islâmica, a União Soviética rivalizava com os Estados Unidos pelos corações e mentes das pessoas, o Queen entrava na seara pop com seu cantor Freddie Mercury adotando o famoso visual com bigode, os jogadores de futebol brasileiro atuavam todos no Brasil, não havia AIDS, ou a ideia de que os enormes computadores poderiam ser compartimentados em telefones, enquanto tudo isso acontecia, no Brasil e no mundo, Saleh começava seu reinado no Iêmen.

O que deu sustentação à Saleh? O mesmo nome, com duas palavras, que também sustentação a Saddam Hussein (antes de persegui-lo e matá-lo), Muammar Gaddaffi (antes de persegui-lo), Ben Ali, e Mubarak.

Os Estados Unidos.

Foi o governo americano que, a partir de 1979, entrou de cabeça e alma no Oriente Médio, no norte da África e onde mais vivessem árabes -- a exceção da Turquia, mas esta já passara por sua ocidentalização no pós-Primeira Guerra Mundial. O segundo choque do petróleo, gerado pela já institucionalização Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), e, no mesmo ano, a realização da Revolução Iraniana -- que depôs, justamente, um ditador mantido pelos EUA (o Xá Reza Pahlevi) -- fizeram o governo americano abrir os olhos para a questão árabe.

Passou, então, a sustentar monstros de plantão -- como Saddam e Gaddaffi -- e, mais que isso, colocar bonecos nos países que gostaria de manipular: casos de Saleh, no Iêmen, de Mubarak, no Egito, e de Ben Ali, na Tunísia.

Não à toa, com toda a propaganda que emanava dos EUA (e, como sempre, transbordou da Europa), o Egito passou a ser encarado como a "voz neutra" para o complexo conflito entre Israel e Palestina, a Tunísia passou a vestir a roupa de "principal destino turístico do mundo árabe" e o Iêmen passou a ser um dos voos mais baratos realizados pelas companhias americanos.

Um dos episódios do famoso seriado "Friends", americano, mostra o personagem Chandler fugindo da namorada comprando uma passagem de Nova York, onde morava, para o Iêmen.

Ben Ali caiu. Mubarak caiu. Agora, Saleh caiu.



Todos caíram pelas mãos do povo, sem interferência internacional, sem líderes ou partidos, e contando com uma defesa surda da diplomacia americana e europeia em torno de seus governantes. Mubarak, por exemplo, passou de grande aliado do governo norte-americano para pária internacional em questão de dias.

Barack Obama, o presidente americano, não conseguiu surfar essa onda. Demonstra que sua persona eleitoral fora, como percebemos hoje, nada mais que uma persona. Mas, ainda que tenha boa vontade -- algo que me parece indiscutível --, todo o aparato institucional construído em Washington desde os eventos de 1979 torna qualquer atuação ou discurso mais decisivo, sobre os árabes, uma verdadeira batalha campal.

A guerra continua na Líbia, onde Gaddaffi, que até bem pouco tempo atrás contratava ilustres acadêmicos americanos para aconselhá-lo na política econômica, e distribuia prêmios a políticos -- como o premiê turco Recip Erdogan, que recebeu anos atrás o ridículo prêmio "Pelos Direitos Humanos Muammar Gaddaffi --, se segura no poder por meio de chacinas a civis, jornalistas e rebeldes.

Curioso que Gaddaffi mantém a ditadura mais longa -- desde 1969 -- e também a única a receber os holofotes internacionais. Onde estava a Otan no Egito? Onde estavam os caças franceses no Iêmen? Sim, nenhum desses regimes praticou o que Gaddaffi, alucinado, pratica na Líbia. Mas, não soa estranho que seja Gaddaffi, e não Saleh, Ben Ali ou Mubarak quem chame tanta atenção internacional?

Será que é porque a Líbia, entre todos os outros países que passaram pelo furacão das revoluções árabes de 2011, é a que conta com a maior reserva de petróleo?

O Iraque, invadido em 2003 pelo governo norte-americano, sem uma razão específica também conta com enormes reservas de óleo.

Mas isso deve ser coincidência.

Agora, mais que a Líbia, sabem onde essa encruzilhada árabe vai chegar, caso, tal qual no xadrez, reste apenas uma peça em jogo?

Em Israel, o maior aliado dos Estados Unidos na região.

***

Imagens, respectivamente: fotógrafo Khaled Abdullah, da Reuters, de ativistas anti-Saleh, no Iêmen, durante manifestação no sábado; da Associated Press (AP), tirada ontem em Saana, no Iêmen, durante as manifestações finais pela saída de Saleh.

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Todas as amnifestações, na Tunísia, no Egito e, agora, no Iêmen, começaram, explodiram e terminaram sem que partidos, sindicatos, religião ou organizações sociais institucionais estivessem por detrás. Trata-se de um fenômeno novo na história moderna humana. Foram massas munidas por irritações econômicas -- como escreveu Sigmund Freud, a principal motivação humana é econômica -- e sociais. Tudo isso foi impulsionado pelo diálogo desenfreado permitido pelas novas mídias (na internet e pelos celulares), no começo, e depois por assembleias e organizações momentâneas, feitas na hora, no calor do momento, em meio a tumultos e conflitos com as forças governamentais.

Guardadas todas e devidas proporções, mas o que nós brasileiros vimos, no fim de março, nas grandes obras das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia? Os milhares de trabalhadores amotinados lá em condições subhumanas e salários medíocres se rebelaram, tocaram fogo em seus alojamentos e cruzaram os braços, chamando atenção da turma de São Paulo, Rio e do resto do país "intelectual".

Esses trabalhadores não foram dirigidos por sindicatos, partidos ou motivações religiosas, mas por questões econômicas e sociais.

Este é um novo mundo que nasce. Espero que os intelectuais acordem para ele e arranjem uma nova explicação para a aglutinação humana e participação política. Porque eu estou ocupado demais com um livro sobre o fim da era americana para entrar em uma nova teoria.

Fica, portanto, o aviso: vivemos um novo mundo.

domingo, 24 de abril de 2011

Domingo

Eu te amo tanto,
que eu seria capaz de
me enterrar vivo junto de você
quando você morresse.
Comigo,
levaria só um pequeno
pedaço de papel, e
um lápis.

Foi o que fiz.


JV.

sexta-feira, 22 de abril de 2011

Fim de expediente

Com Zé Kéti, "Mascarada", composição dele e de Elton Medeiros.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

O que acontece com o PSDB?


Numa semana, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso escreve longo artigo para debater o futuro da oposição ao governo do PT e, no meio de sua análise -- que, aliás, é muito boa -- diz que "o povão não deve ser mais disputado pela oposição", que, acredita FHC, deve se concentrar na classe média.

A Folha fez dessa afirmação uma manchete e instaurou no país um debate sobre o elitismo da oposição. Sim, o que FHC diz é que batalha pelo povão está perdida. Não porque o povão é tudo petista -- porque definitivamente não é --, mas porque o PT e alguns partidos da esquerda, como PDT e PSB, lidam de maneira muito clara com a plataforma social, algo que PSDB, DEM e outros menos votados (menos votados que o DEM? Bom, vocês entenderam o que eu quis dizer) fazem de maneira muito mais complexa.

Como FHC e seu partido, o PSDB, já tem fama de serem elitistas, a manchete da Folha não ajudou em nada os planos da oposição.

No fim de semana, o principal nome do PSDB para o futuro, o senador Aécio Neves, foi parado em uma blitz policial no Leblon, o bairro mais chique da região mais chique (Zona Sul) do Rio de Janeiro, às 3 da madrugada. Aécio não só negou o exame do bafômetro, que poderia medir o nível de álcool no sangue, como também estava com sua carteira de motorista vencida.

Sinceramente, nem acho isso a coisa mais grave do universo sideral. Eu mesmo fiquei uns três meses com carteira vencida, sem sequer saber (seria ótimo se o Detran enviasse um SMS automático quando sua carteira vencesse, ninguém fica olhando para ela ou decora a data de validade daquilo). Mas falando sério, isso não é correto -- nem para mim, nem para o Aécio, nem para ninguém --, mesmo não sendo grave, do ponto de vista social, mas pode ser do ponto de vista político.

Por que?

Porque se a oposição quer falar aos conservadores, não é tendo esse tipo de atitude adolescente que Aécio vai conquistar os frequentadores do clube Paulistano em São Paulo ou mesmo os endinheirados das grandes capitais. Essa turma, que pode ser minoria, mas tem muito dinheiro, dá muito peso à moral e bons costumes. Basta ver o quanto aquele discurso tacanho de aborto e religião ganhou força numa parcela da sociedade nas eleições do ano passado. Ou seja, pode até ser uma coisa pequena, mas é ilegal -- tanto que o próprio Aécio reconheceu seu erro (de dirigir com carteira de motorista vencida).

E, para a turma conservadora, isso é algo que pode até definir voto (parece bisonho, mas não é).

Finalmente, nesta semana, 7 dos 13 vereadores do PSDB em São Paulo deixaram o partido. Uns vão ao PSD, o partido que o prefeito Gilberto Kassab (ex-DEM) criou, outros simplesmente saíram porque queriam mais espaço. Muita gente diz estar descontente com Julio Semeguini, que é secretário de Gestão Pública do governo Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo, e acabou de assumir a presidência municipal do partido.

O jogo que se desenha hoje é ruim para o PSDB. Alckmin trabalha para construir hegemonia em São Paulo, de forma a sustentar seu governo e também sua campanha pela reeleição em 2014. Aécio, que é o nome para a presidencial de 2014, pode nem sair, uma vez que seu mandato para senador vence apenas em 2018, quando, pensando estrategicamente, deve acabar o governo do PT (julgando que a Copa impulsione a reeleição da atual presidente Dilma Rousseff). Ao mesmo tempo, o principal aliado das últimas décadas, o DEM (ex-PFL), está se esvaziando, e pode chegar morto em 2014 -- dando espaço para um PSD que, embora seja conservador, é menos ideológico que o DEM, podendo ficar neutro numa nova disputa PT x PSDB em 2014.

Como hoje cabeças do lado keynesiano, como o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, fundador do partido, também anunciou (ao Valor, duas semanas atrás) sua desfiliação, o PSDB deve, urgentemente, renovar sua cúpula.

Podem falar o que for, mas é da cúpula que parte a estratégia. Se a cúpula não tiver cabeça boa e antenada, não há partido que resista. Vejam como está o DEM, na direita, e o PDT, na esquerda.

Cúpula é importante, gente, e se o PSDB continuar perdendo a sua, não colocará nenhum desafio ao governo.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Os mercados financeiros são racionais?

Respondo essa pergunta numa resenha que escrevi para o Amálgama.

Para ler, clique aqui.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Anotações

Quando o irmão cineasta comenta no Blog do irmão jornalista num post sobre conservadorismo, é melhor ouvir. E os comentários já estavam em altíssimo nível. Veja em O PSD e o conservadorismo no Brasil.

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Na semana passada, Miriam Leitão comentou na rádio CBN minha matéria sobre o imposto sindical repartido às centrais.

Ontem, no Estadão, foi a vez de Alberto Tamer, que escreve a coluna mais antiga ainda em atividade do jornalismo econômico citar este repórter. Tudo bem, houve um erro no sobrenome (Valverde, ao invés de Villaverde), mas vindo do mestre Tamer, não há problema.

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Alguém aqui já voou de Azul? Vou dizer que a companhia está virando mestre em cancelar voos e fazer os passageiros embarcarem em outras companhias -- ou até mesmo viajar de ônibus.

Para alguém que viaja bastante, como este blogueiro, não se trata de uma companhia muito atrativa.

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Assistir com Carolina, ontem, a orquestra Jazz Sinfônica, acompanhada da bela voz de Fabiana Cozza, interpretar Edith Piaf e Henri Salvador, de graça, no Auditório Ibirapuera (projetado por Oscar Niemeyer) foi algo inesquecível.

Me fez lembrar, com carinho, da primeira vez que ouvi Edith Piaf.

Estava ganhando uma carona do Nikolas, o primeiro dos meus amigos a dirigir. Ele estava com o carro do pai -- que, diga-se, não tinha sido consultado --, dirigindo um tanto rápido pelas ruas da Bela Vista, tradicional bairro de São Paulo (dos contos de Lima Barreto). Era sábado e procurávamos algo que pudesse entreter os hormônios, e acabamos parando em uma espécie de boteco-lanchonete, que não deve existir mais.

A aparência era a pior possível, e a vizinhanã não fazia cara de quem estava muito disposta a receber aqueles dois rapazes. A espelunca tocava, por meio de uma jukebox, músicas estrangeiras de rádios populares, ou seja, soul e folk norte-americano. Em um determinado momento, resolvi criar coragem, andar até a máquina e escolher eu uma música.

Não conhecia, é claro, nenhum daqueles artistas.

Quando já estava começando a me preocupar com a perspectiva de escolher uma música ruim, ou ter de retornar ao banco onde estava sentado ao lado de Nikolas sem ter escolhido música alguma, uma moça, com cara de 28 anos, calça jeans branca e uma jaqueta que cobria seus ombros descobertos por uma blusa que deveria ser nova, mas fazia jeito de usada, colocou as mãos nos meus ombros.

"Se eu fosse você, colocaria Edith Piaf, ali na ficha A, número 28, e depois me convidava para uma cerveja".

Depois de titubear um instante -- que parecia, então, durar toda uma partida de futebol, com disputa de pênaltis ao final e volta olímpica -- escolhi Piaf, e fiz o convite.

Ela sentou conosco, que conversou por pouco mais de dez minutos. Quase não falamos. Disse que terminara seu casamento, que os homens não são fáceis, e que mesmo os mais feios (palavras dela) não podem ser confiados. "O coração de uma mulher", disse, "é a coisa mais preciosa que alguém pode ganhar".

Edith cantava "A quoi ça sert l'amour?".

domingo, 17 de abril de 2011

Domingo

Emigrava-se às vezes por nada, com simples e vagas esperanças de outras perspectivas. Todo mundo imaginava sempre que havia um ponto qualquer em que se estaria melhor do que no presente.


Caio Prado Júnior, intelectual (foi economista, geógrafo, historiador, militante político) brasileiro.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Fim de expediente

Com Paulinho da Viola, "Sinal Fechado".

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O PSD e o conservadorismo no Brasil

Na semana passada, um texto cá no Blog sobre o PSD, o partido que Gilberto Kassab fundou, gerou um ótimo debate com os leitores na caixa de comentários.

Pois, de lá para cá, o PSD ganhou Índio da Costa, candidato a vice-presidente da chapa de José Serra nas eleições do ano passado, e Kátia Abreu, senadora e presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Ambos egressos do DEM, partido ao qual os principais nomes do PSD pertenciam: Guilherme Afif Domingos, Claudio Lembo e  o próprio Kassab.

No fim de semana, Antônio Carlos Magalhães (ACM) Neto, deputado federal pelo DEM baiano, defendeu a expulsão de Kassab do DEM, partido ao qual o prefeito de São Paulo continua filiado até que a fundação do PSD seja referendada na justiça eleitoral. ACM Neto é um dos poucos nomes com alguma relevância eleitoral que continuam no DEM.

Fato é que, menos por Índio da Costa, um nome que joga contra o novo partido, e mais por Kátia Abreu, cuja ascendência no noticiário e entre os eleitores conservadores é forte, o PSD começa a, de fato, enfraquecer o DEM e se fixar como partido. (Algo que deixa previsões apressadas do passado recente soando como... bom, deixa para lá).

As palavras de Kassab ao Estadão, tempos atrás, de que o PSD não é "de esquerda, de direita ou de centro" ainda ecoam na cabeça do blogueiro. Afinal, o que defende o PSD, então?

O DEM pode ser acusado de tudo -- e deve, basta ver o escândalo de José Roberto Arruda no Distrito Federal, o único governador cassado em exercício na história do Brasil -- mas não pode ser acusado de não ter cara. Trata-se de um partido conservador, que critica o Estado e os gastos sociais. O DEM é o partido que sempre criticou os gastos públicos, e a "algazarra" promovida por movimentos sociais (sejam eles sindicatos ou o MST). No ano passado, um candidato a deputado estadual do DEM em São Paulo chegou a lançar sua candidatura sob o slogan "Chega de PT", quer dizer, não havia platitude alguma, apenas a "não-ideia", isto é, a campanha construída na negação ao outro.

Foi eleito, é claro.

O discurso do DEM, de renegar o discurso da esquerda, encontra eco na parcela conservadora da sociedade, e não há nada de errado nisso. Não importa o que aconteça com a humanidade, sempre haverá uma parcela bem relevante de nós que elenca como pontos mais importantes da vida a moral, a ordem e os bons costumes. Aqueles que, diante de uma manifestação de rua (na Avenida Paulista, por exemplo), reclamam do trânsito, ao invés de se preocuparem em entender por que tem gente reclamando -- e do quê. Aqueles que, ao invés de olhar para frente, preferem bordões como "na minha época não era assim...".

Como vivemos em uma democracia, estes têm o direito de votar em candidatos que defendam plataformas importantes a eles.

Ainda que não conte com a destreza da antiga UDN (que cometia até mais excessos que o DEM), o DEM ocupava, até o ano passado, um papel importante no quadro partidário brasileiro. Nascido da frente liberal do PDS, o partido da ditadura militar, o DEM veio do PFL, que teve candidato a presidente em 1989 (Aureliano Chaves), um vice-presidente da República por oito anos (Marco Maciel) e nomes fortes na política brasileira -- ACM, Afif e Cesar Maia (e toda a família Maia, com Rodrigo e José Agripino).

Perdeu muito espaço de 2005 para cá porque, diferente do PSDB (que também perdeu espaço, diga-se) continuou e expandiu, de certa forma, um discurso retrógrado, que ao invés de olhar para frente, prefere olhar para trás. A campanha do ano passado selou o esfacelamento do partido: no mesmo ano, o DEM recebeu péssimas votações para o Legislativo, teve seu único governador cassado (Arruda), e, ainda que tenha feito dois governadores, perdeu Kassab, prefeito da maior cidade do país, e quadros como Afif e Kátia Abreu.

Uma coisa é ser conservador, outra é ser reacionário. Uma coisa é ler Edmund Burke, o filósofo irlandês que foi contra a Revolução Francesa por entender que o movimento era muito radical, outra é seguir alucinados como Friedrich Hayek, que acreditava, a sério, que comunismo e nazismo era a mesma coisa, e que tudo que envolvesse coletividade e Estado era satanás.

Quando muitos pensam como Burke, paciência, viveremos tempos conservadores, mas inteligentes. Quando a turma segue Hayek, no entanto, é, como já escreveu Celso Furtado, porque a sociedade vive tempos pouco inteligentes.

O PSD, diferente do diz Kassab, nasce como um partido conservador. Se vai substituir o espaço hoje ocupado pelo DEM, eu não sei, e ninguém hoje, 14 de abril de 2011, sabe também. Mas nomes como Afif, Kátia Abreu, Lembo, Índio da Costa e o próprio Kassab não são de esquerda -- muito pelo contrário. Índio ficou famoso por dizer que o governo federal se relaciona com as Farc (??) enquanto Kátia Abreu é a inimiga número um de movimentos como MST e sindicatos. Não quero dizer, também, que o PSD não seja moderno: ele simplesmente é conservador.

Dizem que, nas eleições do ano que vem, Kassab vai liderar uma fusão ou um apoio entre PSD e o PSB (Partido Socialista Brasileiro), presidido por Eduardo Campos, governador de Pernambuco, e o político com melhor avaliação popular depois de Lula. Relacionar-se com um partido que leva "socialista" no nome não indica que o PSD será "de centro", ou ainda de centro-esquerda, como se auto-caracterizou Kassab em entrevista recente às páginas amarelas de Veja. O PSB tem nos seus quadros nada menos que Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Não é novidade que, no Brasil, lógica partidária é lógica de exposição.

Ser político, no século XXI, o século da não-ideia, não é defender uma ideia, mas surfar as oportunidades que surgem. Quer dizer, dá exposição ser do PFL em 1998? Então filia-se ao PFL. Dá exposição ser do PSB em 2011? Filia-se, então, ao PSB. Não importa que um seja oriundo da ditadura militar e outro tenha inscrito em seu nome o termo "socialista", que fez tantos militares torturarem e assassinarem homens e mulheres por encamparem essa ideia.

Tanto faz. Essa é a lógica.

É claro que isso não se trata apenas de terras brasilis, mas um fenômeno mundial (da política sem ideologia, de mundo pós-moderno e juventude sem bandeiras partidárias, ainda que, ufa!, os jovens árabes do norte da África deem algum alento), que, no Brasil, encontra um eco e tanto.

O Brasil que se abre em 2011 é um país cujo tradicional partido conservador, o DEM, está no precipício, enquanto o novo -- o PSD -- nasce para herdar o discurso, mas diz que não quer.

Quando alguém largar o partidarismo e analisar o que o governo petista fez, em âmbito federal, ao aglutinar no mesmo balaio direita, esquerda, sindicalistas, MST, ruralistas, industriais, povão, classe média, Casas Bahia e Vale, Corinthians e Palmeiras, acelerou, no Brasil, um processo que é mundial: fazer discurso de esquerda, como PSOL e PSTU, ou de direita, como DEM, não dá voto, mas atrai má vontade. Como são poucos que estão de fora do balaio, criticar fica chato.

Mas isso, é claro, ninguém vai perceber hoje. Quem quer valer que na caixa de comentários vá surgir alguém dizendo que o post é "de esquerda", ou "de direita", ou isso e aquilo?

Quando a própria blogosfera fica fechada em partidarismo, discutir ideias não é das coisas mais fáceis do mundo. Daí que o mundo vai ficando cheio de PSD's, que não é "de direita, de esquerda, de centro".....Zzzz....

Quando todo mundo começa a ficar parecido, é porque tem alguma coisa errada. Especialmente em tempos que jovens de 25 anos ficam se lamuriando no Twitter que "a faxineira está atrasada", ou apoiando, ainda que de maneira surda, homens como Jair Bolsonaro, que veio a público atacar homossexuais.

Sinto, sinceramente, que estamos vivendo um período de transição para algo que, no campo da política e das artes, não será bonito.

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"O problema daqueles que não gostam de política é que eles são governados por aqueles que gostam muito".

Bertold Brecht.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Eleições no Peru

No domingo, o primeiro turno das eleições no Peru definiram Ollanta Humala e Keiko Fujimori como candidatos que disputarão o segundo turno -- que será definido na primeira semana de junho. Até lá, preparem-se para uma campanha fratricida.



O Peru de 2011 vive o Brasil de 1989. Com uma diferença: Collor, em 89, não era o Collor de 92, quer dizer, poucos poderiam imaginar que ele fosse aproveitar a Presidência da República para ganhos financeiros pessoais (no famoso esquema montado por PC Farias).

Com todo respeito a Keiko, a quem não conheço -- nem pessoalmente, nem seu passado político. Sei de duas coisas: sua plataforma de franco direita (mais a direita que o atual presidente, Alan Garcia), ou seja, não uma direita moderna, mas uma direita que apela ao conservadorismo atrasado. E outra coisa, que, para mim, define tudo: ela é filha de Alberto Fujimori, o homem que governou o Peru entre 1990 e novembro de 2000, foi expulso do poder e se exilou.

Fujimori foi condenado pelo Supremo Tribunal peruano a 25 anos de prisão, em 2009, por crimes contra os direitos humanos quando era presidente do país. Foragido, Fujimori está gozando a vida.

E sua filha está aqui, disputando as eleições.

Por isso, minhas amigas e amigos, não tenho dúvidas em afirmar: este Blog está com Ollanta Humala.

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Fotos de Ollanta Humala e Keiko Fujimori, tiradas por, respectivamente, Pilar Olivares e Mariana Bazo, da Reuters.

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Depois que um dos melhores blogs, o Tabloide Verde, também declarou voto no Humala, este Blog perde o medo: está mesmo na direção correta.

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Na caixa de comentários, o leitor Manuca Ferreira corrigiu uma informação importante do post: "li uma notícia de que ele estaria preso em uma base policial e uma das promessas de Keiko é anistiá-lo de suas acusações."

É verdade.

terça-feira, 12 de abril de 2011

A situação dos Estados Unidos está melhorando

Sim.

Mas com essa situação de desemprego, dá para comemorar alguma coisa?



O gráfico acima, retirado do blog do Paul Krugman, mostra a taxa de empregados nos Estados Unidos. Vejam que há sim uma melhora na ponta, o que é bom, mas ainda há muito menos gente trabalhando do que havia nos anos 1990. A economia americana está muito longe do patamar em que estava nos anos 1990, antes da trágica aprovação, no governo Clinton, da Lei Gramm–Leach–Bliley (1999), do péssimo governo George W. Bush, e, principalmente, da gravíssima crise econômica de 2008.

Na PUC

E quem disse que consigo ficar longe da PUC? Hoje estarei lá, das 10h ao 12h, para falar a turma de 1º ano do Jornalismo para falar de jornalismo econômico.

Quem estiver passando por Perdizes, um dos bairros mais gostosos de São Paulo, está mais que convidado a aparecer -- uma das coisas que mais me orgulham da PUC é o fato de ter portões abertos, e não ser aquela coisa horrenda de confundir faculdade com clubes de elite, quer dizer, só entra associado milionário.

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Um dia, com mais tempo, divido aqui algumas boas histórias dos tempos de PUC. Podem me cobrar.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

O verdadeiro "custo Brasil"

A gigantesca calçadista Vulcabras/Azaleia (que produz, entre outras marcas, a Havaiana), controlada por Pedro Grendene, estuda a abertura de uma fábrica na Índia. A informação é de Felipe Patury, na coluna "Radar", de Veja.

Estudar é diferente de realizar, mas, o simples fato de uma gigante em um setor onde o diferencial brasileiro é supremo -- os calçados -- cogitar abrir fábrica em outro país é um indicador muito claro de que a indústria está sofrendo no país.

Os impostos são altos? Sim, eles são. Mas, numa boa, converso com uma série de empresários e economistas quase que diariamente e, quando falamos de impostos, a maior reclamação que ouço não é que eles são altos, mas que a estrutura tributária é complexa e, pior, que a devolução de créditos tributários (aqueles impostos que a Receita retem na fonte e depois, na teoria, devolve às empresas) é morosa.

Há verdadeiras equipes de tributaristas nas médias, grandes e gigantes apenas para cuidar da montanha de impostos e contribuições que uma empresa tem de pagar para produzir. Há desde o insano ICMS, de caráter estadual, que varia de Estado para Estado, contem diferentes alíquotas a depender da especifidade de um produto (isso quer dizer que uma mesma empresa pode pagar ICMS diferente para cada produto que produz), à outros, como o IPI, que deveria ser melhor pensado -- numa boa, não é das coisas mais inteligentes do mundo alguém cobrar imposto pela industrialização de um bem, certo?

Seja como for, a carga e a estrutura de impostos não é o maior problema.

Hoje, o empresário industrial conta com duas dificuldades tremendas para trabalhar:

1) a falta de mão de obra qualificada.

2) o câmbio supervalorizado.

Sobre o câmbio, de entendimento mais complexo, é o seguinte: como o dólar é impulsionado pela política americana a se desvalorizar (para ajudar, justamente, a indústria dos EUA a reerguer a economia fuzilada pela crise) e, ao mesmo tempo, o Brasil é a cereja do bolo (temos projetos para Copa, Olímpiada, infraestrutura energética, além de juros altos atraentes para o investidor externo, e uma Bolsa de Valores em alta), muito dinheiro vêm para cá. Assim, o real se valoriza.

Isso é bom para a inflação, porque torna o importado mais barato, mas é péssimo para o exportador, porque corroi suas margens. Se o exportador vende um produto com preço alto, como a Vale com o minério de ferro, ou a Petrobras com o petróleo, ou mesmo os usineiros de cana de açúcar, os fazendeiros de soja e milho, a valorização do câmbio não é tão ruim.

Para a indústria, no entanto, a valorização do câmbio é muito ruim. Não se trata, é claro, do fim dos tempos porque, justamente por tornar todo produto importado mais barato em moeda nacional, o industrial encontra as máquinas importadas muito mais baratas. Então há casos de fabricantes de autopeças automobilísticas comprando suas primeiras prensas (muitas vezes usadas) da Inglaterra, à indústria de calçados no interior de São Paulo e do Rio Grande do Sul que compra máquinas de corte da Itália.

Mas, na hora de exportar, ou mesmo de competir com o industrializado chinês (que chega ainda mais barato pelo efeito do câmbio), a indústria sofre.

Antes fosse, no entanto, um problema só de câmbio: a mão de obra está dificílima de encontrar na quantidade desejada. E não é porque falta trabalhador ou gente disposta a trabalhar. Mas porque falta qualidade.

Por que?

Aí entramos no mais grave dos problemas brasileiros: a educação básica é medíocre.

Quem estuda nas caras escolas privadas de São Paulo, Rio, BH, Porto Alegre ou Recife pode até achar estranho, mas de onde vocês acham que saem as massas de trabalhadores que vão operar máquinas, cortar calçados, puxar vigas e gerenciar pessoal? Da escola pública.

Os anos de descaso com a escola pública sempre foram acobertados porque o Brasil não crescia. Sabe o crescimento de 7,5% do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010 que tanto se falou? Foi a primeira vez que o Brasil cresceu 7,5% em 24 anos, ou seja, desde 1986 não chegávamos à marca que estamos hoje. Detalhe: quem nasceu naquele mesmo 1986 já está hoje com seus 24 e 25 anos, formado na faculdade, já fez estágio e já está trabalhando.

Como o país cresce rápido e (assim espero) continuará crescendo, pela primeira vez as empresas, em todos os setores, estão buscando mão de obra. Isso ocorre apesar dos impostos altos e complexos e do câmbio valorizado. Ou seja, tudo pode ser um problema e nhenhenhé de empresário, mas na hora do vamos ver, todo mundo ultrapassa esses problemas. Mas não consegue ultrapassar a falta de mão de obra qualificada.

Há culpados para isso?

É claro que há. As reformas das maldades promovidas por Jarbas Passarinho quando ministro da Educação do governo Garrastazu Médici, em 1971, em meio às torturas e assassinatos de quem pensava diferente à ditadura, são as primeiras que surgem à minha cabeça. Há também, no caso de um Estado importante como o Rio de Janeiro, duas lástimas, que foram Chagas Freitas, o governador biônico que destruiu a educação pública fluminense entre 1978 e 1982, e depois Moreira Franco, que entre 1986 e 1990 tratou de acabar com uma das poucas ideias de bom senso que a educação pública brasileira teve em trinta anos -- os Cieps do mestre Darcy Ribeiro, instalados entre 1983 e 1985.

Mas, numa boa, não é hora de achar culpados e dizer quem está certo ou errado. Temos um país para construir e, se é muito complicado mexer no câmbio e alterar a estrutura de impostos, não é complicado levantar escolas, aprimorar o ensino do professor (que é o cara mais importante dessa história toda) e começar a pagar salários decentes para os docentes (que frase sonora, não?).

O piso do professor de escola pública no Rio Grande do Sul é R$ 709,00. Sério. Você pega um cara que estudou, fez faculdade e vai pagar para ele R$ 709,00 por mês para dar aula em escola pública, onde a infraestrutura é péssima e o estímulo é praticamente zero.

Ao mesmo tempo, porque o Brasil não pode fechar para balanço, precisamos colocar dinheiro em programas e cursos para qualificação da rapaziada que está aí no mercado, que já estudou e está em idade para trabalhar, mas não tem qualificação para pegar uma vaga.

Os salários estão subindo e isso é ótimo para a economia, e principalmente ótimo para a sociedade. Uma sociedade mais justa que aquela que ficamos acostumados a ver nos filmes do cineastas do Cinema Novo, ou mesmo mais recentemente em pérolas como "Central do Brasil" e "Mutum" (para ficar nos meus preferidos).

Isso soa clichê, eu sei. Mas se não começarmos, todos, a formar um consenso -- que é simples, ao menos na educação -- o Brasil vai acabar parando esse momento importantíssimo que estamos vivendo porque toda a indústria está indo produzir na China e na Índia.

E, sinceramente, se alguém tem que produzir calçados esse alguém somos nós.

domingo, 10 de abril de 2011

Domingo

Os ricos são diferentes de eu e você: quando eles quebram a lei, são os procuradores e investigadores quem são levados à julgamento.


Paul Krugman, economista vencedor do Nobel de 2009, em coluna recente no NYT.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Trabalhando muito

Minhas amigas e amigos, ando trabalhando como um condenado. Achei que 2010 seria o máximo que um ser humano poderia chegar, mas consegui (por culpa minha) fazer deste 2011 uma coisa de louco. Além da rotina no Valor -- foram duas viagens nas últimas duas semanas -- e o Blog, estou escrevendo um livro, atualizando um Twitter e, como todos sabem, escrevendo para o Amálgama.

Tivemos ótimos comentários cá no Blog nos últimos dias que eu simplesmente não consegui colocar minha colher, só ler: no post sobre o PSD e na discussão sobre o câmbio que se valoriza (e assim continua).

Venho aqui para dizer que leio tudo (inclusive os e-mails que recebo) e ando priorizando, no Blog, os posts -- o que é uma pena para o debate. Mas estou de olho e, nas horas vagas (??) prometo que responderei a todos.

Finalmente, divido com vocês uma foto de segunda-feira, quando estava em mais uma viagem pelo Valor, desta vez acompanhado do fotógrafo Luis Ushirobira, que tirou a foto abaixo, entre uma entrevista e outra, com uma terceira sendo marcada no celular.



Como sempre faço aqui no Blog, não posso contar onde estava nas duas últimas viagens: como há uma turma da Folha e do Estadão por aqui, não posso falar o que estou fazendo enquanto as matérias especiais não são publicadas ;-)

Uma sugestão ao governo brasileiro

Rapaziada da equipe econômica: por que vocês não compram títulos públicos de Portugal?

Desde sempre, nossa política monetária é feita da seguinte forma: uma montanha de dólares entra no Brasil por uma série de razões (para investimentos, para participação acionária, para compra de terras, para aplicação em títulos públicos brasileiros e para especulação com derivativos de câmbio e juros). Para evitar muita valorização do real (o que ocorreu mesmo assim), o Banco Central adquire os dólares que entram emitindo reais. Para evitar que os reais emitidos acabem impulsionando a inflação, o Tesouro emite títulos públicos que o BC oferece aos compradores dos reais.

Com os dólares comprados pelo BC, o Tesouro aplica nos títulos públicos dos Estados Unidos, que são os mais seguros do mundo (porque denominados em dólar), mas pagam praticamente nada (entre zero e 1% ao ano). Já os títulos que o Tesouro emite para enxugar os reais emitidos na compra dos dólares, a taxa de juros oferecida é a Selic, nossa taxa básica de juros, atualmente em 11,75% ao ano.

Ou seja, nossas reservas internacionais rendem algo como 1% ao ano, enquanto, para carregá-las, nos endividamos muito, pagando juros de 12% ao ano.

É para parar de acumular reserva? Isso é um grande debate, e não quero falar disso agora.

A questão é outra: por que, ao invés de adquirir títulos americanos, que, ok, são seguros, mas não pagam praticamente nada, o Tesouro não adquire títulos de países como Portugal? Ontem, o governo português fez uma grande emissão de títulos no mercado, oferecendo papeis com vencimento de 12 meses que pagam juros de 5,9% ao ano.

Certamente o risco dos títulos portugueses é muito maior que os americanos. A chance de os americanos darem um calote é praticamente nula, porque os títulos são denominados em dólar, e os EUA são o único país do mundo que podem imprimir dólar, ou seja, na falta de moeda disponível para honrar seus títulos, os americanos podem simplesmente emitir mais moeda. Isso não ocorre com os portugueses, mas, numa boa, o euro não é a pior moeda do mundo (hello, yuan).

Portugal, diante de sua posição atual (vai receber forte injeção de recursos da União Europeia), não vai deixar de pagar seus títulos, e está topando pagar juros altos ao comprador. Gozamos, como brasileiros, de uma relação simbólica com Portugal que nenhum outro país europeu têm. Assim, podemos comprar parte desses títulos e ainda nos apoiarmos numa campanha positiva, de incremento nas nossas relações históricas.

Não digo que é para o Tesouro alocar todos os recursos em títulos portugueses. E também não acho correto entrarmos em títulos gregos, irlandeses ou de outros países enrascados economicamente. Portugal não só está em um patamar mais confortável ("menos grave" talvez seja mais apropriado), como tem passado com o Brasil. Se direcionarmos algo como 10% ou 15% dos recursos esterelizados no mercado para títulos como esse, que pagam muito mais que os títulos americanos, não só faríamos uma gestão mais inteligente da política econômica, como o péssimo impacto causado pelo diferencial de juros será reduzido.

O que acham?

quarta-feira, 6 de abril de 2011

O triste caso de Norma Bengell

Qualquer rapaz de 14 anos que tenha visto "Os Cafajestes", obra-prima de Ruy Guerra lançado em 1962, não conseguiu captar a beleza do filme: estava hipnotizado pela beleza de Norma Bengell. A cena em que a personagem de Norma corre nua pela praia é o primeiro nu frontal da história do cinema brasileiro.



Vivíamos o furor do Cinema Novo, da bossa nova, da seleção de futebol campeão das Copas, da arquitetura modernista, da criação de Brasília, do Maracanã lotado para ver Garrincha. Anos mais tarde, já sob a barbárie dos militares, o cinema estaria infestado de mulheres nuas, sob a pornochanchada.

Mas em 1962, o nu de Norma não só afrontou os desequilibrados da TFP (Tradição Família e Propriedade) e a turma conservadora do Mackenzie e do Clube Paulistano. Afrontou também políticos da UDN, que checaram a desestimular as pessoas de assistirem ao filme.

Que é um clássico, isso não se discute. Mas aqui falamos de Norma.

Ontem, O Globo publicou reportagem de André Miranda, que visitou a casa de Norma na Gávea, no Rio, onde a atriz, com 75 anos, está presa a uma cadeira de rodas, dívidas com plano de saúde (que será cancelado neste mês) e amigos, que mantem sua casa e uma ajudante. Norma fica, hoje, grudada a televisão e ao computador, engolindo dois maços de cigarros por dia, e esperando que ao menos o dinheiro que o Estado lhe deve por ter sido presa durante o regime militar comece a chegar neste mês.

Assisti, com Carolina, uma atuação poderosa de Norma no ano passado. Ela fez poucas e incríveis atuações em "Dias Felizes", texto de Samuel Beckett, encenado no Sesc Ipiranga, aqui em São Paulo. Entre os devaneios de sua personagem -- a carismática Winnie, com todos os traços que as personagens femininas de Beckett sempre carregavam -- cenas de "O Homem de Sputnik" (seu primeiro filme, de 1959) e "Os Cafajestes" eram mostradas em um telão, ao fundo.

Norma sofre, até hoje, por uma das histórias mais estranhas do cinema brasileiro. Dirigia "O Guarani", em 1996, quando o filme foi bombardeado, nos jornais, por técnicos do Ministério da Cultura e produtores. Alegavam que a equipe chefiada por Norma captou recursos, públicos e privados, e não os utuilizou integralmente nas filmagens, isto é, uma parte ficou para interesse próprio. A história, à época, ficou com versões de cada lado e hoje está esquecida.

Fato é que à exceção de Dias Felizes, no ano passado, quando achei que sua carreira estaria voltando aos poucos, Norma foi totalmente deixada de lado pela indústria, desde os infortúnios de "O Guarani".

Seja como for, trata-se de uma história do cinema brasileiro que é tristemente deixada para trás.

***

O Rodrigo Cássio, um dos melhores críticos de cinema da blogosfera, fez uma ótima comparação no twitter: "Os Cafajestes", de Ruy Guerra, é a representação nacional de "Acossado" (1959), de Jean-Luc Godard. A mesma urgência em filmar, o impacto fulminante na realidade (naquele instante, no Brasil, o Cinema Novo estava se formando, da mesma forma que em 59 em Paris a Nouvelle Vague estava começando).

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Na CBN

Miriam Leitão comenta, na rádio CBN, minha matéria de hoje no Valor, sobre os repasses federais às centrais sindicais.

Aqui: Centrais receberam R$ 102,2 milhões oriundos dos repasses do imposto sindical feitos pelo governo em 2010.

***

Atualização da terça-feira, 21:27

Foi meu grande amigo Fabio Nozza quem me avisou do comentário da Miriam. Estava em viagem, pelo Valor, e só agora voltei a São Paulo. Fabio, que tem o jeito organizado e metódico que sua profissão lhe imputa -- ele é engenheiro -- em tudo difere do blogueiro, que é desorganizado e alucinado. Obrigado pelo toque, Fabio.

Sobre o PSD

Sabem o Partido Social Democrático (PSD), que o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (ex-DEM), está trabalhando como um doido para criar? Então, ele vai aglutinar nomes como Guilherme Afif Domingos, Claudio Lembo e Paulo Safady Simão.

Afif é mais famoso nacionalmente, já que foi candidato a presidente nas infladas eleições de 1989, e sempre foi ligado ao empresariado moderno paulista. Lembo foi governador de SP entre março e dezembro de 2006, ainda pelo PFL, depois que o titular Geraldo Alckmin (PSDB) se desincompatibilizou para concorrer à Presidência. Safady é empresário, presidente da Câmara Brasileira da Indústria da Construção. À exceção de Lembro, já entrevistei todos: Kassab, Afif e Safady.

Querem saber o que eu acho do PSD?

Eu subscrevo linha por linha do que anotou Maria Cristina Fernandes, editora de Política do Valor, na edição da última sexta-feira. Maria Cristina falava sobre os horrores a que estavam expostos os 22 mil operários na construção das hidrelétricas do Jirau e de Santo Antônio, em Rondônia, e que ninguém sabia -- até os amotinados explodirem em raiva contra as condições precárias.

Paulo Safady Simão, presidente da Câmara de Brasileira da Indústria da Construção Civil, que será o filiado número 1 do PSD em Minas Gerais, diz que as condições de trabalho são boas e que o problema são as disputas sindicais. Num momento em que se aproxima o dissídio, o acirramento das relações entre CUT e Força, que extrapola Jirau, pode ter contribuído ao desfecho. Mas a conclusão de que uma massa de trabalhadores é levada a se rebelar sem condições de vida que o justifiquem não revela apenas o partido que vem por aí mas a visão predominante do empresariado que sustenta e é sustentado pelo PAC.

***

Na mosca.

O que é, afinal, o PSD?

Este é meu maior medo. Ficar sem saber a resposta mesmo depois de ver o partido funcionando.

domingo, 3 de abril de 2011

Domingo

Quando a preguiça dobra o que é terreno,
exsurge, biombo de sombra, o gamo,
o lusardo desliza, alvo, do ramo,
e na onda o cordame como um remo.

Um temor faz tremer, um vulto, alguém --
talvez um rei, talvez uma raiz...
Algo de alga, azul delíquio anis,
mas o dia no dique se detém.

Tua trança de outono -- sombra, alfombra.
És parente das estrelas cadentes.


Nicolai Assiéiev, poeta russo.

Assiéiev escreveu o poema acima em 1916, fortemente influenciado pela vanguarda russa, que naquele momento solapava um país arrasado pela decisão suicida do czar de entrar na grande guerra (a Primeira Guerra Mundial). Assiéiev acabou ingressando nas tropas pouco antes da Revolução de 1917. Ferido, foi levado junto a um comboio à Sibéria, de onde ficou sabendo da revolução e da subsequente retirada russa da guerra. Foi entusiasta da Revolução e amigo próximo de Maiakóvski.

O poema acima foi traduzido por Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Dólar ladeira abaixo

O mercado de câmbio acabou de fechar, e o dólar fechou valendo R$ 1,61. Trata-se da menor cotação desde 21 de agosto de 2008 -- a menor cotação em muitos anos foi o R$ 1,56 registrado em 01 de agosto de 2008. Veio a crise, em 15 de setembro daquele ano, e o dólar disparou, refletindo a saída em massa de capital dos países emergentes para cobrir os rombos nos países ricos.

Isso quer dizer que se você, industrial, quiser exportar seu produto a US$ 100, você vai embolsar R$ 161. Se o dólar estivesse em, digamos, R$ 2,30, o mesmo produto que você vendesse por US$ 100 te valeria R$ 230. Daí, você poderia dar um desconto, vender por US$ 85 para aumentar sua fatia de mercado, e, ainda assim, embolsaria R$ 195 -- isto é, mesmo com um desconto de 15% no preço em dólar, você ainda ganharia 17,4% mais reais com um câmbio mais desvalorizado do que está hoje.

Mas qual é o sinal?

Ladeira abaixo, amigos.
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