segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os cortes do governo -- (O Blog está de volta)

Os ministérios da Fazenda e do Planejamento anunciaram, hoje pela manhã, o corte de R$ 50 bilhões do Orçamento de 2011. O objetivo é um só: acalmar o mercado financeiro, que está, desde o ano passado, elevando os juros futuros por conta dos gastos elevados do governo; sinalizando que o governo está lutando contra a inflação. A estratégia foi correta: o anúncio veio no dia que antecede a reunião dos diretores do Banco Central, que deve aumentar a taxa básica de juros mais uma vez.

Agora, a grande pergunta: esses cortes, se de fato implementados, foram bem definidos?

Vamos por partes.

Antes de mais nada, o leitor cá do Blog pode ver, ele mesmo, a planilha interna do Ministério do Planejamento, onde os cortes estão delimitados. O que farei aqui não é contar os cortes -- porque isso o governo já fez -- mas analisar o que foi feito.

O governo federal tem duas grandes contas a pagar todos os anos: os gastos com salários, pensões e benefícios aos servidores e às pessoas em geral, e os gastos com programas dos ministérios. Ao primeiro, é dado o nome de despesas obrigatórias, porque respondem à Constituição, que define que aposentadoria, acesso ao sistema de saúde e escolas são de graça para todos. Às segundas, dos ministérios e programas federais, é dado o nome de despesa discricionária, uma vez que refletem uma posição política do Executivo.

As obrigatórias independem de PT, PSDB, PMDB, DEM, PSB, e até do PSTU. Quem quer que seja o ocupante da Presidência da República, todo ano esse sujeito precisará pagar salários do funcionalismo, pensões para a turma do INSS, seguro-desemprego aos desempregados, despesas com o SUS e com o ensino público.

Já as discricionárias respondem justamente à política. Então, se um tresloucado do PSTU assumir o Executivo e decidir nacionalizar toda a economia, os gastos discricionários vão aumentar muito, porque tudo será estatizado. Já se um doidão do DEM (se ele ainda existir, é claro) ganhar as eleições, ele poderá extinguir a banda larga e a infraestrutura pública, reduzindo muito os gastos discricionários.

O certo, é claro, passa por definir os limites do que é obrigatório -- como, por exemplo, a contratação infinita de funcionários públicos e a concessão de reajustes hiperbondosos aos já elevadíssimos salários da turma do Legislativo e do Judiciário -- e saber trabalhar com as despesas discricionárias, ou seja, não passa nem pelo Estado abraçar a economia, nem pelo Estado fugir de suas responsabilidades.

Essa sintonia fina foi encontrada? Vamos ver.

Na página 7 da apresentação do Planejamento estão delimitados os cortes nos gastos obrigatórios. Vejam a rubrica "Pessoal e Encargos Sociais".

O Orçamento, antes dos cortes, definia gastos de R$ 5 bilhões para novas contratações de funcionários públicos. Isso é muito. Falamos de uma injeção de adrenalina na veia de toda a indústria de cursos para concursos públicos, que atraem multidões do centro do Rio aos rincões do país. Hoje, o governo anunciou corte de R$ 3,5 bilhões nisso. Isto é, dos R$ 5 bilhões, o governo só terá disponível R$ 1,5 bilhões.

Esses cortes são importantes por indicar que um contigente maior de pessoas terá de procurar vagas no setor privado -- onde, aliás, está sobrando vagas, que não estão sendo fechadas porque falta qualificação. Para se ter uma ideia, as empresas de ônibus metropolitanos de Curitiba estão treinando os cobradores, depois do expediente, para torná-los motoristas, de forma a ocupar as vagas que não estão sendo preenchidas. Empresas de construção civil estão treinamento milhares de trabalhadores na própria obra e 90% do pessoal que se forma no Senac já sai empregado.

Não estou dizendo que emprego privado é melhor que público. Ele não é pior nem melhor. Mas há uma diferença aí: o país está crescendo, há oferta generalizada de emprego com carteira assinada, os salários estão subindo (porque há demanda maior que oferta) e, mais que tudo, o cara do setor privado não tem, como o funcionário público, uma folha salarial e uma aposentadoria que será custeada por todos até o fim da sua vida.

Porque enquanto a direita não compreende que para melhorar os serviços públicos é preciso oferecer salários melhores, a esquerda não percebe que essa premissa não pode se tornar carta branca para uma contratação a roda de servidores. É preciso lembrar que tanto um analista financeiro de banco em São Paulo, que recebe R$ 25 mil por mês, quanto a empregada doméstica em São Luís, Maranhão, que recebe R$ 600 por mês, estão pagando, por meio de impostos (sobre renda e sobre consumo) os 13 salários seguros por ano, além da aposentadoria polpuda, do servidor. O que, é claro, não quer dizer que eu concorde com isso aqui.

Agora que percebemos que a questão do setor público é mais complexa que os extremistas imaginam, vamos prosseguir.

A principal rubrica da parte obrigatória a receber cortes foi "Subsídios". O governo anunciou corte de quase R$ 9 bilhões aí. A explicação oficial é que programas como o PSI, do BNDES, terão suas taxas de juros reajustados. Trata-se de uma ótima medida. O PSI é um dos programas mais importantes do governo, porque concede empréstimos a um dos setores chaves da economia -- os fabricantes de máquinas e equipamentos -- a uma taxa de juros bem baixa, de 5,5% ao ano. O programa foi criado em julho de 2009, e foi uma das melhores armas de combate à crise mundial. Ele está previsto para acabar agora no fim de março. O PSI, na realidade, será estendido, mas suas taxas de juros aumentarão. Como a inflação, em 12 meses, já está em 6,5%, as taxas de 5,5% perdem muito o sentido, uma vez que estão abaixo da inflação. Se corrigidas para 6,5% ou 7%, continuarão baixíssimas e atraentes para o setor privado, e ao mesmo tempo não serão onerosas para o BNDES, o que também é muito importante.

Vamos, agora, aos gastos discricionários, páginas 10 e 11 da apresentação do Planejamento.

O corte mais inteligente ocorreu no Ministério do Turismo. A pasta, como o leitor deve saber, foi uma das que entrou no esquema ridículo de distribuição de cargos, a que os agentes dão o criativo nome de "governabilidade". O Turismo ficou com o PMDB da ala Sarney, e o ministério foi entregue a Pedro Novais, que, aos 80 anos, sabe gastar muito bem seu cartão corporativo.

Dos R$ 3,6 bilhões previamente orçados, o governo cortou R$ 3 bilhões. Quer dizer, Novais terá apenas R$ 573 milhões para gastar, em 2011.

Não, não é inteligente cortar tanto assim o orçamento do Turismo há três anos da Copa do Mundo, com o país precisando tanto de investimentos na área. Mas se entendermos de onde surgiram aqueles R$ 3,6 bilhões poderemos sacar que o corte serve mais como aviso, que como política pública -- o Ministério do Turismo foi o que mais recebeu emendas parlamentares. Sem querer ser chato com os parlamentares, mas todos sabemos muito que um pente fino nas emendas ajudaria muito mais o país que qualquer corte no Orçamento. Mas isso é outra história.

Há, no entanto, casos alarmantes. Ministérios importantíssimos para o período que viveremos a partir de 2011 -- de Copa das Confederações (2013), Copa do Mundo (2014) e Jogos Olímpicos (2016) -- como o Ministério das Cidades e o Ministério dos Esportes, tiveram cortes pesados na carne.

Enquanto Cidades viu seu orçamento cair de R$ 21,1 bilhões para apenas R$ 12,5 bilhões, Esporte teve um corte menor, mas proporcionalmente terrível: dos R$ 2,3 bilhões inicialmente orçados, a pasta terá apenas R$ 853 milhões para gastar em 2011.

Além destes, o Minha Casa, Minha Vida teve seu orçamento cortado em 40%.

Esses cortes não são inteligentes.

A ideia do governo reduzir seus enormes gastos, depois de 2010 -- um ano em que, de fato, o governo federal pesou a mão nos gastos -- é boa. Primeiro porque a situação do país é outra, agora, e segundo porque ajuda, sem dúvida alguma, a frear um pouco a alta de preços (que, garanto, é 60% importada).

Mas cortar gastos é uma coisa, cortar despesas fundamentais para o país é outra.

Enquanto o mercado, que é interessado nesse tipo de coisa, festeja todo e qualquer corte, e economistas ortodoxos avaliam até que os cortes foram "pequenos", é preciso entender que o Estado tem importância crucial nesses segmentos. Ao orientar o crescimento para obras de infraestrutura e setores de base, como polos petroquímicos e hidrelétricas, por exemplo, o Estado está, ao mesmo tempo, gastando em setores que o setor privado não gasta e, naqueles que são tocados efetivamente por empresas privadas, o Estado delimita regras e mostra o caminho.

Cortar o Orçamento nestes setores é um tiro no pé.

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O mundo viverá, em 2011, um ano de profundos cortes nos orçamentos públicos. Há desde casos inevitáveis, como na Grécia e outros países europeus (como Espanha, Portugal, Itália etc.), à casos em que a ideologia supera, de longe, a real necessidade.

É o que ocorre nos Estados Unidos.

Enquanto o governo Obama cede à pressão geral -- dos mercados globais, numa perspectiva cosmopolita, e dos republicanos, numa pespectiva interna -- de cortar o Orçamento e apresenta uma proposta ao Congresso bem modesta, os republicanos querem ainda mais: corte de US$ 100 bilhões (algo como R$ 170 bilhões, ou 3,4 vezes o que fez o governo brasileiro hoje).

Como mostra este editorial do New York Times, trata-se de um suicídio coletivo, que, nos EUA pior que no Brasil, atinge programas ainda mais prioritários que aqui.

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Com a análise, o Blog está de volta. Ainda nesta semana vou contar a vocês o que andei fazendo nas férias, o que me levou aos Estados Unidos e o que tem sugado minhas energias desde então.

Vou ficar completamente louco: além do Valor e do Blog, o projeto novo entra na fase final.

O melhor do Oscar

Charles Ferguson, ao receber a estatueta de Melhor Documentário:

"Antes de agradecer, preciso dizer uma coisa: depois de dois anos da crise financeira mundial, nenhum dos banqueiros que causaram a crise foram ou estão na cadeia"

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Ver Kirk Douglas, do alto de seus 91 anos, foi genial. Kirk sempre será, para o blogueiro, Charles Tatum, o protagonista de "Ace in the Hole" (1951), clássico de Billy Wilder.


Por Diego Viana:
O Ferguson poderia ter tido a dignidade de Sartre: recusar um prêmio financiado pelos mesmos pilantras que ele quer ver na cadeia. Em vez disso, passou recibo.


Eu colocaria a coisa da segunte maneira: assim como a cruz de San Conrado "belongs in a museum", o prêmio moral de documentário "belongs to Banksy".

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Fim de expediente


O inesquecível quarteto do pianista Dave Brubeck interpreta "Take Five", composição do saxofonista Paul Desmond, em 1961.

Para fechar fevereiro e começar março com tudo.

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O Blog volta com tudo na semana que vem. Teremos novidades por aqui.

Um pensamento...

.... as revoluções árabes atingem a Líbia e o Bahrein, dois grandes produtores de petróleo, e logo os preços começam a disparar.

Antes da crise econômica, em 2008, o barril de petróleo chegou a bater em US$ 160. Só se falava em etanol, em desenvolver carros impulsionados por hidrogênio, ou mesmo luz solar. Veio a crise, os preços despencaram no mundo inteiro e o assunto morreu.

Agora que o barril passou, em apenas duas semanas, de US$ 80 para US$ 111, o governo americano já começa a ficar preocupado: os gastos com gasolina vão aumentar, e diminuir o dinheiro disponível para as famílias consumirem, ou seja, reduzindo a possibilidade de crescer.

Logo logo, podem apostar, as ideias de "desenvolver uma fonte alternativa de energia" voltarão a circular.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O que pode surgir das revoluções árabes?



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Atualização: o vídeo está com o som muito baixo. Alguns leitores reclamaram pelo Twitter e por e-mail -- e o César comentou cá no Blog. Uma amiga testou e disse que com fone de ouvido é possível ouvir bem, mas não pude fazer qualquer teste (apenas gravei e publiquei no Blog). Vou tentar melhorar no próximo. Basicamente, gravei o vídeo pelo iPhone e registrei no Youtube. Depois, trouxe para o Blog.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

A arte da retórica

Como pode um líder sujeitar seu próprio povo a ataques com metralhadoras, tanques e bombas? Como pode um líder bombardear seu próprio povo e depois dizer 'vou matar qualquer pessoa que disser qualquer coisa'?

De Mahmoud Ahmadinejad, presidente do Irã, hoje.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Este homem tem de sair


Há 41 anos no poder, o líder da Líbia, Muamar Al-Kadafi enfrenta onda de protestos populares há uma semana. Empolgados pelos jovens da Tunísia e do Egito, que foram as ruas e conseguiram que seus ditadores -- respectivamente, Ben Ali e Mubarak -- deixassem o governo após ditaduras de 20 e 30 anos, respectivamente.

Sim, Kadafi está há 41 anos à frente da Líbia.

Se os países árabes querem gerar empregos e crescer sem ditaduras, devem:

1) se afastar dos Estados Unidos, que mantinham até janeiro de 2011, 90% dos ditadores (Kadafi sendo o único ditador de um país árabe que é renegado pelos americanos)

2) definir, por referendo popular, qual deve ser o sistema de governo (se parlamentarista ou presidencialista) e o papel da religião no Estado (se supremo, como no Irã e na Arábia Saudita, ou não, como na Turquia).

3) incentivar o aporte de capitais para induzir a industrialização dos países -- algo que acabaria com a enorme dependência de importados que caracterizam a região.

4) Unirem-se, como fizeram os europeus sob a União Europeia, no front político -- nunca o econômico, respeitando as particularidades de cada um -- para desenvolver uma plataforma única para temas de interesses comuns, de forma a ganharem a atenção do mundo rico.

5) Ajudarem os palestinos -- o único povo árabe cujo Estado não está nas mãos de um ditador, mas de um outro país (Israel).

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Mas essas reformas vem depois. Agora o foco está em Kadafi, que, como Ben Ali e Mubarak, precisa sair.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Esquentando os motores...

... o Blog continua em recesso, para que o blogueiro possa se concentrar em seu novo projeto.

Peço paciência aos leitores, mas preciso me concentrar por mais uma última semana. Depois, volto ao Valor e ao Blog com tudo.

Obrigado.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

O salário mínimo de 2011

É sintomático que o deputado federal Vicentinho, do PT-SP, tenha sido o relator da emenda que prevê o salário mínimo de 2011 em R$ 545. E é simbólico que que ele tenha sido vaiado pelas centrais sindicais -- notadamente Força Sindical, CGTB e NCST -- no momento em que leu seu texto, ontem, na Câmara.

Como se sabe, ontem os deputados federais aprovaram a iniciativa do governo federal em reajustar o salário mínimo de R$ 510 para R$ 545. A votação foi uma barbada: a emenda de Vicentinho ganhou com 270 votos de diferença para a emenda do PSDB, de salário mínimo a R$ 600, e com diferença de 241 votos em relação à emenda do DEM, apoiada pelas centrais, de mínimo em R$ 560.

Sou favorável ao salário mínimo de R$ 545, mas acho a justificativa do governo péssima.

A regra fechada pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva com as centrais sindicais, no fim de 2006, previa que o salário mínimo, a partir de 2007, seria reajustado seguindo a inflação do ano anterior -- de 2006, naquele caso -- somado do PIB de dois anos antes -- de 2005, portanto. Foi assim em 2007, 2008, 2009 e 2010.

Por que mudar em 2011?

Regra assinada é regra cumprida. Além do mais, mantida esta mesma regra, sabem como será o reajuste de 2012? Ora, a inflação de 2011 -- que deve ficar em torno de 6% -- mais o PIB de dois anos antes, ou seja, de 2010 -- que foi quase 8%, o maior em 24 anos. Estamos falando, então, de um reajuste na casa dos 14% no ano que vem. Os R$ 545 de 2011 representam a manutenção de uma regra ganhadora: a inflação de 2010 (de 6,1%, segundo o INPC) mais o PIB de 2009 (que, por causa da crise, foi -0,6%).

Vamos ter paciência, amigos, que regra é regra.

Agora dizer, como diz o governo, que a proposta do PSDB é inflacionária -- de mínimo em R$ 600 -- é falta de vergonha na cara. A proposta do PSDB é hipócrita, não inflacionária. Hipócrita porque foi sempre o PSDB (e seus satélites, como DEM e PPS) quem disse que reajustes elevados do mínimo são inflacionários.

O governo federal e o PT, de maneira geral, reclama que é comparado, muitas vezes, ao governo anterior. Com esse discurso, está ficando mesmo.

Seguinte, moçada, Dilma incluso: reajuste do salário mínimo não gera inflação. Reajustes salariais ao funcionalismo talvez, embora não seja algo fácil de ser mensurado, e mesmo reajustes desenfreados na economia também podemos discutir -- e eu sou favorável aos dois, diga-se -- mas reajuste no salário mínimo definitivamente não gera inflação.

Não me venham os economistas-chefes de bancos, com seus salários de R$ 40 mil e bônus de R$ 200 mil anuais me dizer que um pedreiro que ganhava R$ 510 e passa a ganhar R$ 545 vai consumir mais arroz e isso vai fazer os preços subirem.

O que está fazendo a inflação subir é o contágio externo dos preços dos alimentos em alta. Em 2010, para quem não sabe, a Rússia, que o maior exportador mundial de trigo, passou pela maior seca em 150 anos e, por isso, proibiu as exportações. Assim, os preços do trigo dispararam -- funcionando, aliás, como gatilho aos investidores de títulos ligados a commodities na Bolsa de Futuros de Chicago, onde são comercializados -- e um efeito em cascata foi gerado. Com a alta do trigo, o milho passou a ser usado em seu lugar. Assim, faltou milho na proporção desejada para combustível (no caso dos EUA) e para alimentar rebanho. Logo, os preços dos bovinos também começaram a subir.

É o que está rolando hoje, especialmente depois que o algodão atingiu, na semana passada, o maior preço da história. A própria Polo Ralph Lauren já admitiu que vai repassar a alta de preços para suas roupas, segundo matéria do The Wall Street Journal do fim de semana.

Como segurar isso?

Com aumento de juro, imaginam os ortodoxos. Pode ser, afinal, os juros servem para isso mesmo: destruir a capacidade financeira do Estado e derrubar a economia. Poderíamos fazer coisas mais sofisticadas intelectualmente, mas a sociedade -- mídia inclusa -- está tão acostumada com os juros como instrumento único que fica difícil falar outra coisa.

Para concluir, é sintomático que Vicentinho seja o cara escolhido para ser o relator desta medida. Oriundo do sindicalismo e um dos deputados mais fiéis ao PT, é o tipo de sujeito que cabe para esse tipo de coisa. Mas a vaia que recebeu do movimento sindical é simbólica: foi o mesmo Vicentinho que, em 1995, seu primeiro ano na Câmara, vindo da presidência do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, o mesmo de Lula, escreveu a emenda que reduz a jornada de trabalho dos brasileiros de 44 para 40 horas.

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Aliás, parabéns aos paulistas.

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O Blog está, aos poucos, voltando. Passei os últimos dias na Califórnia, acumulando trabalho e pesquisa para meu novo projeto. Espero dar mais informações oportunamente. Será algo grande, repito.

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Já volto

O blogueiro vai tirar o pé do acelerador nos próximos dez dias. As últimas férias foram em agosto de 2009, mas o blogueiro aproveitou o tempo livre para terminar o livro que estava escrevendo -- Versão Brasileira (2009). Desta vez não será diferente. Em férias do Valor, para onde volto em 24 de fevereiro, vou aproveitar o tempo livre também num projeto pessoal -- mais um.

Se Versão Brasileira, que tratava da modernização às avessas do Brasil iniciada pelo presidente Fernando Collor, em 1990, me levou à Maceió, nas "férias" de agosto de 2009, meu novo projeto, ainda mais ambicioso, me levou à Califórnia, de onde escrevo este post. Estou em São Francisco e, daqui, vou para Los Angeles.

Não posso dar mais detalhes, ainda. Mas já adianto que não é coisa pequena.

Preciso, nos próximos dias, entrar de cabeça no projeto, porque depois que o batente no Valor recomeçar, será mais difícil me concentrar. Por isso, passarei os próximos dez dias longe do Blog.

Fiquem ligados, no entanto, meus amigos e amigas. Voltarei com tudo, ainda no fim do mês.

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De uma amiga, ao saber, na semana passada, dos meus planos em plenas férias: "você ainda vai morrer de trabalhar".

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Domingo

A razão é sempre mesquinha perto do sentimento. Uma é naturalmente limitada, como tudo que é positivo, e o outro é infinito. Raciocinar onde é necessário sentir é próprio das almas sem alcance.


Honoré de Balzac, escritor francês, morto em 1850.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Interlúdio

Da série "Grandes momentos de 2010"



Em setembro, quando a crise na Europa começou a engrossar e, ao mesmo tempo, os capitais -- especulativos ou não -- não paravam de chegar no Brasil, me indaguei se aquilo não estava torto demais. Afinal, o Brasil sempre foi o alvo das crises, enquanto a Europa era o mar de tranquilidade.

Para não achar que eu estava ficando louco resolvi conversar com um dos maiores analistas econômicos do mundo: Martin Wolf, principal comentarista econômico do Financial Times.

A entrevista, uma das poucas concedidas por Wolf -- ele não é das figuras mais fáceis -- foi publicada, chamando atenção para uma sacada dele: "em dois anos, uma grande nação emergente será alvo central de uma grande crise econômica". Ao fim da conversa, Wolf falou que viria ao Brasil pela primeira vez, dali duas semanas -- e ninguém sabia daquilo.

Ele veio, palestrou no Instituto Fernando Henrique Cardoso (iFHC), e voltou.

A foto acima, do iFHC, pega o auditório assistindo sua palestra... e o repórter, em primeiro plano.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por que José Sarney é o presidente do Senado e porque eu não apoio o "Fora, Sarney"

Eis que José Sarney, 81 anos, é eleito presidente do Senado Federal pela quarta vez, ontem. Ele assume hoje a casa, trazendo consigo todo o poder acumulado em 46 anos de vida pública, além, é claro, de funcionar como chanceler máximo do PMDB -- que, bom lembrar, tem também a vice-presidência da República, por meio de Michel Temer.

Aí, o leitor abre um site de notícias, vai ao twitter, vê no Facebook e recebe um e-mail e lá se vê chamado a participar da famigerada campanha "Fora, Sarney" ou "Xô, Sarney".

E aí, você apoia ou não?

Eu não.

À exceção do desmoronamento de terras na região serrana do Rio de Janeiro, o maior mal para esse país ainda é José Sarney. O homem que era líder da Arena, o partido de sustentação do pior período dos 511 anos de história do Brasil -- a ditadura militar --, e que migrou, em cima da hora, para o PMDB, a tempo de preencher a vaga de vice de Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985.

Aliás, um parêntesis. Poucos sabem que Tancredo selou dois pactos com os militares e os conservadores: um, que previa a eleição indireta -- em plena mobilização social pelas Diretas-Já --, mas que o garantia como eleito, e outra, que recebia de braços abertos um egresso da Arena -- sim, nosso amigo José Sarney. Fim do parêntesis.

Assim, num período de dois anos, Sarney passou de líder do governo ditatorial para vice-presidente de um governo civil depois de 21 anos de regime de exceção. E, com a internação de Tancredo um dia antes de tomar posse, em 14 de março de 1985, Sarney acabou presidente da República.

Outro rápido parêntesis: como Tancredo não tomou posse, Sarney, em tese, não poderia se tornar presidente porque ele como vice também não tinha tomado posse. Nesse caso, como previa a Constituição então em vigor na época (e mesmo a aprovada em 1988), quem tomaria posse deveria ser o presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na hierarquia republicana, que, à época, era Ulysses Guimarães. Mas, como no Brasil sempre há um espaço para jeitinho... Fim do parêntesis.

Presidente da República a partir de 15 de março de 1985, Sarney se viu, então, no auge de sua vida política iniciada em 1965, quando venceu as eleições para o governo de seu Estado, o Maranhão. Sua posse, em março de 1966, foi filmada por ninguém menos que Glauber Rocha, que começava, naquele período, a preparar seu clássico maior -- Terra em Transe (1967).

Em março de 1986, o governo Sarney baixou o Plano Cruzado, formulado pela nata do pensamento econômico de então -- Edmar Bacha, Luiz Gonzaga Belluzzo, André Lara Resende, João Sayad. O plano instituiu o congelamento de preços na economia, como forma de debelar a inflação que o nefasto regime militar nos legou. A medida, que à época fazia sentido, acabou tendo problemas de largada com a remonetização, uma vez que na troca de moedas (do cruzeiro para o cruzado) foi concedido um reajuste de 8% real nos salários. A partir daí, os custos de produção e mesmo de importação subiam, como há de acontecer, mas não podiam ser repassados ao preço final, que era tabelado pelo governo e controlado pela população, que se vestiu de "fiscal do Sarney". A Polícia Federal, inclusive, foi destacada para agir em supermercados que aumentassem preços.

Ao mesmo tempo, os salários estavam inflados pelos 8% real concedidos na remonetização, o que fez as pessoas aumentarem seu poder de compra, enquanto os preços estavam fixos. Por quatro meses, o Brasil viveu uma maravilha. A aprovação de Sarney bateu níveis recordes, de 81%, suplantados somente no fim de 2010 por Lula.

Até que a famosa reunião de Carajás, no Pará, em julho de 1986, determinou não só o que viria a ser o fracasso do Cruzado, como o fracasso do governo Sarney e, mais fundo, o fracasso do projeto de construção de um país, iniciado na década de 1920 pelos modernistas. Na reunião, enquanto os economistas clamavam por reforma no plano, permitindo a negociação de preços e certo repasse de custos, integrantes do governo falavam em manter aquilo do jeito que estava até as eleições de outubro, quando seriam escolhidos os 27 governadores. Sarney ficou com a segunda opção, muitos economistas pediram demissão do governo e a situação ficou como ficou.

Em outubro de 1986, o PMDB elegeu 26 dos 27 governadores. Cinco dias depois, Sarney anunciou o fim do Cruzado -- que já estava nas últimas, com a falta de produtos básicos nos supermercados. Dilson Funaro, então ministro da Fazenda, foi demitido e substituído por Luiz Carlos Bresser-Pereira, que era presidente do conselho de gestão do Pão de Açúcar. O Brasil lançou o Cruzado II, depois o Plano Bresser, mas a hiperinflação só aumentava -- finalmente, o calote da dívida foi decretado, em fevereiro de 1987.

Sarney ficou muito impopular, mas não perdeu a pose. Mais que isso: não perdeu o poder.

Durante os trabalhos dos constituintes, entre o fim de 1987 e outubro de 1988, quando enfim foi aprovada a Constituição, Sarney colocou de lado todas as prioridades nacionais -- acabar com a hiperinflação, renegociar a dívida externa, combater a pobreza, ampliar os investimentos -- priorizando sua permanência no poder por mais um ano. O correto seria a realização de eleições em 1988, mas atuação de Sarney foi tão firme -- Darcy Ribeiro, num Roda Viva em 88, chegou a dizer que o governo pagou para os constituintes aprovarem sua permanência por cinco anos -- que ele ganhou um ano a mais.

Em 1989, ano de eleições, o governo Sarney ainda fez um último desserviço ao país, escolhendo Mailson da Nóbrega para a Fazenda -- de longe, o mais despreparado ministro a ocupar a Fazenda desde o governo Nilo Peçanha. A hiperinflação bateu nos 2.000%, o país quebrou, e as eleições foram definidas da pior maneira possível. Se o primeiro turno foi um primor de democracia -- com uma série de candidatos fortes, como Mário Covas, Leonel Brizola, Lula, Ulysses -- o segundo foi um terror, com Fernando Collor atacando de maneira tacanha seu adversário (e contando também, vale dizer, com apoio da mídia).

O Brasil trocou, em março de 1990, o Estado imenso e patriarcal do PMDB de Sarney pelo czarismo alucinado de Collor, que logo no primeiro dia confiscou a poupança nacional.

Todos sabemos no que deu o governo Collor.

Enquanto isso, Sarney migrou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o recém-criado Estado do Amapá, e e por lá, em seu novo Estado, se elegeu senador nas eleições de outubro de 1990, no último ano em que as eleições legislativas e para governadores ocorreu em data distinta à de presidente, como em 85 e 86.

Cinco anos mais tarde, Sarney foi eleito, em fevereiro de 1995, presidente do Senado Federal no primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi ali, em 1995, que a história dos atos secretos do Senado começou a surgir, que o Estadão só desbarataria em 2009.

De lá para cá, Sarney foi presidente do Senado entre 1995 e 1997, entre 2003 e 2005 (o primeiro do governo Lula), entre 2009 e 2010, e agora, entre 2011 e 2013. Com isso, Sarney conseguiu a proeza de presidir o Senado nos primeiros anos dos últimos três presidentes: FHC, Lula e Dilma.

Mas por que, então, eu não apoio o "Fora, Sarney"?

Porque esse homem foi eleito senador pelo povo. Ele está no Senado não porque de golpe, mas porque ganhou eleições. Outra coisa: para presidir o Senado, o senador, qualquer senador, precisa ganhar o maior número de votos de seus colegas senadores. Foi o que aconteceu novamente. Sarney foi eleito com votos de 70 dos 81 senadores, sendo 3 abstenções, e oito votos em Randolfe Rodrigues (P-SOL). Sarney está lá, chefiando o Senado, porque o povo quis, num primeiro momento, e porque os senadores querem, num segundo momento.

Antes de sair gritando "Fora, Sarney" na Avenida Paulista ou andar com faixas bonitinhas na Lagoa Rodrigo de Freitas, é preciso entender que Sarney responde por uma das maiores parcelas de poder no país. Seus desvios, sejam eles quais forem, tem de ser investigados por pessoas muito mais capazes que eu, que sou apenas um jornalista tentando fazer meu trabalho de aumentar a conscientização nacional.

Cortando em miúdos: clamar pela saída de alguém que foi eleito pelo voto popular e pelo voto dos senadores, eleitos em seus respectivos Estados, é golpe. Diferente do impeachment de Collor, em outubro de 1992, não há nenhuma comprovação séria de envolvimento de Sarney em desvios de verba pública ou abuso de poder. Há sim investigações avançadas sobre os rolos de seu filho, Fernando Sarney, com mídia e licitações, mas nada contra José Sarney. Enquanto a situação ficar assim, nada mais justo que ele ocupe a presidência do Senado, mesmo sendo a quarta vez, mesmo sendo o homem que trabalhou durante a constituinte para ampliar seu mandato, o homem que mudou seu registro eleitoral do Maranhão para o Amapá, mesmo sendo o homem que esticou o Cruzado além do limites para levar as eleições de 86, mesmo sendo o homem que se tornou presidente da República sem ter sido empossado como vice, mesmo sendo o homem que migrou da Arena para o PMDB.

Mesmo assim, todos têm de engolir que José Sarney é o presidente do Senado Federal. Democracia é assim.

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Fora que Marcelo Tas apoia o "Fora, Sarney". Acho que isso, mais que tudo isso que escrevi acima, é mais relevante para alguém formar opinião.

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Sarney também é membro da Academia Brasileira de Letras. Dele só li A Duquesa Vale uma Missa, além das colunas semanais na Folha. Trata-se de um texto muito bom, e a história de A Duquesa é bem razoável. Mas, a julgar pelas críticas do passado, seu texto deve ter melhorado muito. Quando lançou Brejal dos Guajás, em 1987 (quando era presidente da República), Millôr Fernandes escreveu que o livro se tratava de "uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase".
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