Futebol, naquela época, se resumia a um conjunto de três palavras: Rio de Janeiro.
Não é que o futebol paulista não existisse, mas São Paulo em si não existia. Vai lá que o Estado era a potência cafeeira num mundo que demandava café em proporções enormes, e, no campo político, dividia com Minas Gerais a definição do presidente da República.
Era a República Velha, pré-Vargas, pré-indústria, pré-Brasil. O país, na realidade, se resumia a duas capitais: Salvador e Rio, com Recife correndo por fora. Os engenhos recifenses, que geraram a obra de Gilberto Freyre, então um funcionário público destacado por seu conhecimento da escrita, ainda estavam a todo o vapor. Mas o negócio era o Rio de Janeiro mesmo.
São Paulo tinha Friedenreich, o primeiro grande craque, no Paulistano, provavelmente o clube mais elitista que ainda está de pé daqueles tempos. E a história de Friedenreich vale um belo livro, mas eu tenho ideias demais para pensar muito nisso. Um dia eu conto algumas das histórias que já ouvi, de gente confiável, e outras tantas que já levantei. Podem me cobrar.
Hoje, o negócio está no Rio de Janeiro da fase de ouro: os anos 1920 a 1940. Sim, o auge do futebol carioca, do Flamengo de Zico, o Botafogo de Garrincha, o Vasco de Roberto e o Fluminense de Caju é dos anos 60, 70 e 80. Aquela era de prata do Rio, que começou na passagem dos anos 40 para os 50, quando a profissionalização imposta pelo fracasso da Copa de 1950 começou a mudar a cara do futebol brasileiro, que passou, também, a virar coisa de celebridade. Uma celebridade gostosa, é verdade, com nenhum patrocinio, quase nenhuma briga de torcida, e muita história para contar.
Mas o futebol carioca dos anos 1920 a 1940 era coisa de outro mundo. Os registros são poucos, praticamente não temos imagens em movimento, apenas fotos e dados desencontrados. O espaço é amplo para romances e causos -- e é isso, meus amigos, o que temos aqui.
O futebol, na República Velha, não era bonito. Havia uma explicação para aquilo: era o esporte secundário, disputado pelos remadores dos "clubes" e, um detalhe importante, os negros eram proibidos.
Falamos de um tempo em que muitos ex-escravos estavam vivos, ainda, e o 90% dos serviços pesados eram feitos por negros e imigrantes. Daí que os marinheiros, que sofriam as agruras dos grandes navios e encouraços, eram negros, e os cozinheiros das cozinhas infernalmente quentes e sujas eram imigrantes. O futebol, como o críquete e o remo, era coisa de brancos, filhos e herdeiros de políticos, barões do café e do leite, e "homens de negócios".
Os mulatos, a depender de sua coloração, podiam jogar. Alguns times eram mais contrários aos negros que outros, como o Fluminense, que já era o time mais elitistas entre os elitistas, cujos fãs jogavam pó de arroz -- sinal da decadente nobreza da belle epoque carioca -- no campo da Álvaro Chaves, onde o Fluminense se apresentava na época. Outros, como Botafogo e Flamengo, potências do remo, não faziam muita regra, aceitando, eventualmente, mulatos.
Até que o Vasco da Gama, time da colônia de portugueses, resolveu aceitar um negro em seu time.
A posição do Vasco, na passagem dos modernistas anos 1920 para os turbulentos anos 1930, foi o primeiro grande carnaval nascido no futebol. Em outras palavras, a decisão do Vasco colocou o futebol no mapa do Brasil. Os negros, despreparados pela falta de uma política pública de inclusão pós-abolição, e marginalizados por uma sociedade que era um milhão de anos mais hipócrita que a que temos hoje, dominavam o futebol, praticado, então, nos guettos formados por ex-combatentes de Canudos, que se alocaram na capital federal nas favelas. Ouviam o samba na Estácio e na Vila Isabel -- onde um branco, Noel Rosa, reinava --, trabalhavam como chofer, garçom, ascensorista no centro e na nascente zona sul, e jogavam bola na porta de suas casas.
Nada mais natural que toda aquela ginga, o jogo de corpo e a malandragem fossem incorporados em um esporte que até então era disputado por grão-finos durões que tinham medo de cair no gramado remelento e barrento.
Depois do Vasco, o Flamengo, que já começava a despontar como time de maior torcida, e o Botafogo, time de Olavo Bilac e dos diplomatas, seguiram. O Fluminense ainda demoraria a ceder -- mas o faria, cedo ou tarde.
O grande craque, então, passou a ser Leônidas da Silva.
O futebol, com Leônidas, passou a ser isso que conhecemos hoje. Passou a ser futebol. Leônidas gingava, Leônidas driblava, Leônidas sorria como jogador de futebol há de sorrir. Era, evidentemente, jogador do Flamengo. Tenho comigo que a passagem de Leônidas da Silva no Flamengo ajudou o time da Gávea a se tornar o clube mais famoso do Brasil -- e um dos mais famosos do mundo. Leônidas ganhou o apelido de Diamente Negro, que depois virou chocolate. Leônidas também jogou pelo Botafogo, mas era muito novo, e só foi virar craque no Flamengo, de onde saiu para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo de 1938, na França, a última antes do início da Segunda Guerra Mundial.
Foi a ida de Leônidas para o São Paulo F. C., em 1942, que colocou o Estado de São Paulo no mapa. Naquele mesmo ano o Palestra Itália mudou de nome, forçado pela má vontade com os italianos, que estavam com Mussolini aliado à Hitler no auge da guerra. Mudou para Palmeiras e, no primeiro jogo com novo nome, bateu o São Paulo de Leônidas na final do Campeonato Paulista.
Mas voltemos ao Rio.
Até Leônidas despontar no Flamengo, em 1936, o futebol carioca tinha um grande craque: Carvalho Leite, a "Maravilha da Serra", oriundo de Petrópolis, que viria a ser um dos mais destacados médicos do Rio depois que parou de jogar, em 1941, aos 29 anos. Com Carvalho Leite o Botafogo foi campeão carioca em 1930 e depois em 32-33-34 e 35, sagrando-se, então, o único time carioca tetra campeão consecutivo. Nos dois últimos anos, Carvalho Leite jogou ao lado de Leônidas.
Os jogos com Carvalho Leite são, até hoje, lembrados como os de maior nobreza no Rio. Jogador leal, elegante, Carvalho Leite corria o jogo inteiro sem suar, sem fazer faltas, sem entrar em discussões com os outros jogadores, rivais. Se alguém caia machucado, era o primeiro a correr para ajudar. "Não é nada, homem, a dor é imediata, logo passa", dizia, calmamente, ao colega que gritava ao chão, com a mão nos joelhos ou nos pés.
A história da era de ouro do futebol carioca, no entanto, não condecora Leônidas com todo o peso porque ele foi para São Paulo. E não carrega as tintas para Carvalho Leite porque na década de 1940 surgiu Heleno de Freitas.
Qualquer fã de futebol que se preze já ouviu alguma história de Heleno de Freitas. Todas elas são verdadeiras, acreditem.
Foi Heleno, mais que Carvalho Leite, quem deu a cara que o Botafogo carrega até hoje, 70 anos depois. Foi Heleno, mais que qualquer outro, que deu ao período entre 1920 e 1950 a alcunha de Era de Ouro do Rio de Janeiro.
Heleno era galã, namorava as atrizes mais bonitas, era viciado em ópio, elegante, jogava mais que todos os outros jogadores brasileiros em atividade juntos (talvez à exceção de Leônidas), e popularizou os estádios. As pessoas queriam ir aos jogos do Botafogo para ver Heleno jogar. Para xingar Heleno e vê-lo responder com gestos. Para gritar "Heleno" e vê-lo fazer uma pose em resposta. As esposas passaram a ir aos estádios "acompanhar" os maridos, ao mesmo tempo que as filhas queriam ver o que magnetizava os irmãos e os namorados. A rivalidade nasceu ali, quando os outros times queriam ter Heleno.
E aquilo chegou ao turbilhão em 1946.
A Segunda Guerra acabara um ano antes, bem como o extenso governo-ditadura de Getulio Vargas, e o governo de Dutra, o segundo homem mais despreparado a ocupar a Presidência do Brasil (a primeira colocação é de Jânio Quadros) acabara de começar. O ano de 1946 foi um ano atípico na história do país: acabávamos de sair da ditadura do Estado Novo, que, no entanto, nos legara um país rico, o Partido Comunista gozava de um inédito período de legalidade institucional (que Dutra logo iria rever, em 47) e o mundo ainda não começava a loucura da Guerra Fria.
O espaço, então, estava aberto para Heleno.
O Botafogo não arrasava os rivais, ele tripudiava. Ganhava os jogos de 4 x 1, 5 x 1, com atuações soberbas de Heleno, que piscava para as meninas torcedoras do rival, e entortava os jogadores. Mas, na hora h, o Botafogo sempre deixava o título escapar por entre os dedos. Foi o que acontecera em 1946, quando os dois melhores times -- Botafogo e Fluminense -- se enfrentaram quatro vezes. Nas duas primeiras, vitórias acachapantes do time de Heleno: 3 x 2 em General Severiano, casa do Botafogo, e 4 x 2 em Álvaro Chaves, reduto do Fluminense. Depois, na chave final, que a turma chamava de "Super-campeonato", enfrentariam-se Botafogo, Fluminense, América e Flamengo.
A decisão, claro, ficou para os dois primeiros. As apostas eram todas de que, finalmente, o Botafogo de Heleno sairia campeão. As duas partidas foram disputadas, então, em São Januário, campo do Vasco, para passar um ar de neutralidade. E o Fluminense venceu as duas, com belíssima atuação de Pedro Amorim, craque tricolor: 3 x 1 e o nervoso 1 x 0, com gol de Ademir Menezes, tristíssimo para os alvinegros.
Em 1947, então, era hora da revanche. Estava criada a primeira grande rivalidade do futebol: o Fluminse de Pedro Amorim deixaria o Botafogo de Heleno de Freitas ganha um título?
O jogo do tira-teima, antes da final, seria disputado no campo do Fluminense. Na foto acima, vemos Pedro Amorim e Heleno de Freitas nos cumprimentos antes da partida. O estádio, como sói acontecer naqueles tempos, estava cheio. A torcida tricolor ficava próximo à entrada social do clube, enquanto a do Botafogo, ainda que misturada, sentava do lado oposto. O Botafogo venceu, como sempre fazia na primeira fase, mas a história que ficou não foi essa. Quem narra, agora, é Roberto Porto, jornalista e botafoguense:
"O detalhe curioso ocorreu após a partida. Vibrando com a vitória, a torcida alvinegra invadiu o gramado e carregou Heleno em triunfo em direção às sociais do Fluminense. Quando se viu perto da pista de atletismo do estadinho, Heleno, para gozar os adversários, fez gestos de que colocava pó-de-arroz no rosto. Os tricolores presentes, ficaram irritados e vaiaram o grande ídolo botafoguense. Foi então que Heleno, que fazia poucas graças, dado a seu temperamento irascível, fez um gesto obsceno, bem conhecido, colocando a mão entre as coxas. Por pouco, muito pouco, não houve um tumulto generalizado. Os torcedores tricolores só faltaram arrancar as calças pela cabeça de tanta raiva."
O Botafogo, mais uma vez, iria a final. E, de novo, perderia o título. O Botafogo só sairia campeão do carioca em 1948, mas já sem Heleno, que deixaria o Brasil para jogar no Boca Juniors, da Argentina. Sua saída marcou o início do fim da Era de Ouro, que teria o fim trágico na Copa de 1950, quando a seleção brasileira perdeu a decisão para o Uruguai, no Maracanã recém-construído, lotado com 220 mil cariocas. A história de Heleno vai virar filme, com Rodrigo Santoro no papel principal. E o futebol começou a entrar na história.
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
segunda-feira, 31 de janeiro de 2011
domingo, 30 de janeiro de 2011
Domingo
E pela porta de trás,
da casa vazia,
eu ingressaria
e te veria
confusa por me ver,
chegando assim,
mil dias antes de te conhecer.
Chico Buarque e Edu Lobo, 1988, "Valsa brasileira".
***
Esta "Valsa Brasileira", lindíssima, de Chico e Edu Lobo, inaugurou a fase não-política de Chico, que começava a entrar na fase romântica, abandonando sua (fantástica) veia política, incorporada de 1966 a 1987.
da casa vazia,
eu ingressaria
e te veria
confusa por me ver,
chegando assim,
mil dias antes de te conhecer.
Chico Buarque e Edu Lobo, 1988, "Valsa brasileira".
***
Esta "Valsa Brasileira", lindíssima, de Chico e Edu Lobo, inaugurou a fase não-política de Chico, que começava a entrar na fase romântica, abandonando sua (fantástica) veia política, incorporada de 1966 a 1987.
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sábado, 29 de janeiro de 2011
Sobre a ebulição revolucionária na Tunísia, Egito, Iêmen, Argélia...
... não deixem de ler o que o Hugo Albuquerque, de O Descurvo, escreveu sobre o assunto.
***
Outra coisa: o Blog está feliz com os desdobramentos da Revolução Tunisiana -- de fato, não se constituiu em um golpe militar, como temia o blogueiro, mas em uma revolução, com "r" maiúsculo mesmo.
Há razões, meus amigos e amigas, para ser otimista.
***
Última coisa: agora todo mundo acredita no potencial do WikiLeaks?
***
Atualização de domingo, às 11:32
Se tem uma coisa que o blogueiro faz, quando o assunto é Oriente Médio e, especialmente, ebulição nos países árabes, é consultar o que Robert Fisk está escrevendo no The Independent. Não só trata-se de um dos melhores textos da imprensa internacional, como Fisk é um dos poucos caras que escreve de lá. Vive em Beirute (Líbano, país que ele ama e o fez largar a Inglaterra), mas viaja por todos os países da região.
O texto de Fisk sobre as revoltas democráticas no Egito está um primor.
***
Outra coisa: o Blog está feliz com os desdobramentos da Revolução Tunisiana -- de fato, não se constituiu em um golpe militar, como temia o blogueiro, mas em uma revolução, com "r" maiúsculo mesmo.
Há razões, meus amigos e amigas, para ser otimista.
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Última coisa: agora todo mundo acredita no potencial do WikiLeaks?
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Atualização de domingo, às 11:32
Se tem uma coisa que o blogueiro faz, quando o assunto é Oriente Médio e, especialmente, ebulição nos países árabes, é consultar o que Robert Fisk está escrevendo no The Independent. Não só trata-se de um dos melhores textos da imprensa internacional, como Fisk é um dos poucos caras que escreve de lá. Vive em Beirute (Líbano, país que ele ama e o fez largar a Inglaterra), mas viaja por todos os países da região.
O texto de Fisk sobre as revoltas democráticas no Egito está um primor.
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sexta-feira, 28 de janeiro de 2011
Assim caminha a humanidade
Por Carlos Heitor Cony, na Folha de S. Paulo de hoje
Semana passada, a capa da "Ilustrada" trouxe em tamanho bem grande um dos ícones das histórias em quadrinhos -como se dizia então e ainda se diz. Era a de um dos casais mais famosos do gênero, obra prima do cartunista Alex Raymond: nada menos que Flash Gordon e Dale Arden. A série fora criada pela King Features Syndicate em 1933 e estreou na imprensa no ano seguinte, como concorrente de Buck Rogers, herói de um sindicato rival.
O sucesso foi imediato e estrondoso. No Brasil, foi lançado em 1935, como suplemento de "A Nação", mas logo se transformou em veículo próprio no "Suplemento Juvenil", que durou anos e foi, senão o primeiro, o mais importante contato da infância e juventude não apenas com as histórias em quadrinhos e a ficção científica, mas obra de referência que marcou toda uma geração e as seguintes.
Como não podia deixar de ser, logo passou para o cinema, em várias versões, inclusive uma com alguns lances pornográficos, inspirados de certa forma no exuberante erotismo do traço original de Alex Raymond. A primeira série, "Flash Gordon no Planeta Mongo", com Buster Grabbe no papel principal, era a peça de resistência para as matinês daquela época.
O ponto de partida para a aventura do herói não chegava a ser muito original, era quase o mesmo de outro herói, o Super-Homem, um extraterrestre que veio do espaço para viver na Terra com poderes sobre-humanos, uma vez que seu planeta de origem estava em vésperas de destruição.
Disfarçado de jornalista careta, de chapéu e óculos, ele se envolvia com bandidos daqui mesmo, ao contrário de Flash, que enfrentava inimigos terríveis, homens com imensas asas e um imperador cruel que dominava um planeta sustentado por feixes de luz.
Não há sobrevivente daquela época que não tenha pago tributo a Dale Arden. Foi o primeiro símbolo sexual para jovens de todo o mundo, inclusive para os meninos da minha rua. Era difícil namorar as meninas de então, as aproximações eram evitadas em nome da pureza infantil, um dos meus vizinhos foi impedido de fazer a primeira comunhão porque confessou ao frei André Mattioli que colecionava o "Suplemento Juvenil".
E tem mais. Não podendo se intrometer com as meninas, os meninos buscavam as alternativas à mão, desde as bananeiras dos quintais até os complicados casos de garotos complacentes, dos quais o de maior evidência era um tal de Rubinho, que mais tarde entrou para a Marinha e terminou a carreira como capitão de mar-e-guerra.
Embora vivêssemos na ditadura do Estado Novo, éramos democratas por gosto ou necessidade. Votávamos tudo, no melhor goleiro, na melhor pipa, no melhor doce da Confeitaria Indiana, no melhor ônibus da Viação Popular que servia ao bairro.
Nada demais que votássemos no Rubinho, que logo adquiriu outro nome: Dale Arden. Ao contrário da personagem de Alex Raymond, cuja fidelidade era feroz a Flash Gordon, a nossa Dale Arden era compassiva, compreendia as coisas e dava a impressão de que gostava daquela unanimidade e, sobretudo, do nome que lhe haviam dado.
Antes de entrar para a Marinha, Rubinho fez um estágio entre os escoteiros do mar. Naquele tempo havia muitos escoteiros de terra, sempre alertas por sinal. E logo criaram os escoteiros do mar, que eram a mesma coisa em cenário marinho.
Reinou desolação em toda a rua Cabuçu e imediações. À falta de Rubinho, as edições do "Suplemento Juvenil" se esgotavam na manhã do dia do novo lançamento, os exemplares eram disputados a bofetão. Os mais felizes alugavam o seu, mas, geralmente, o exemplar alugado vinha mutilado, sem as páginas em que Dale Arden aparecia.
Carlos Drummond de Andrade, de uma geração anterior à minha, confessou em várias crônicas que era amarrado no "Tico-Tico", creio que uma pioneira nos quadrinhos para a infância. Era uma revistinha light, seus heróis eram assexuados: Reco-Reco, Bolão e Azeitona, Zé Macaco e outros. Veio depois o "Suplemento Juvenil", com Dale Arden em nossa iniciação sexual. Em geração posterior, surgiram os livrinhos de Carlos Zéfiro, sacanagem pura, 99% dos quadrinhos eram do chamado sexo explícito. Assim caminhava a humanidade.
***
O negócio foi piorando. Se a internet é incrível por proporcionar revoluções como a que estão ocorrendo nas ditaduras árabes (Tunísia, Egito e Iêmen), ela também tem um fulcro bem ruim, que é o de exibir, para qualquer rapaizinho nos seus 11, 12 anos, uma quantidade inacreditável de sexo explícito de graça.
O nível é tal que a melancolia de Cony com os quadrinhos de Zéfiro se transformaria em enfarte se pensarmos o que a internet pode entregar aos rapazes de hoje...
***
Por Paulodaluzmoreira
É, mas Drummond e Clarice Lispector eram colecionadores de revistas de sacanagem e trocavam figurinhas sobre o assunto...
E isso não é sacanagem [minha]!
quarta-feira, 26 de janeiro de 2011
A frase de janeiro
A crise econômica e as hesitações de Obama e dos democratas lançaram os desempregados, os semiempregados, os desesperados e desesperançosos de todo gênero nos braços dos apoiadores de Sarah Palin, cuja retorica é, sim, digna de Goebbels se, por acaso, ele tivesse sido vitimado por uma atrofia mental.
De Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo sobre o culto à individualidade dos norte-americanos.
***
Um alento, no entanto.
De Luiz Gonzaga Belluzzo, em artigo sobre o culto à individualidade dos norte-americanos.
***
Um alento, no entanto.
terça-feira, 25 de janeiro de 2011
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Das diferenças entre Lula e Dilma
Quem fala é o deputado federal Marco Maia (PT-RS), que é o principal candidato à presidir a Câmara dos Deputados a partir de 1º de fevereiro -- o terceiro cargo mais importante na hierarquia política brasileira.
O que muda na relação do Congresso com o Palácio?
Marco Maia: Óbvio que Lula e Dilma não têm a mesma forma de auscultar e dialogar com a política. Lula é mais espontâneo, talvez mais vinculado ao mundo da política. Dilma é mais técnica, mais executora do que propriamente articulada com o mundo da política.
O ano, para o Executivo, começou a todo o vapor. Mas o Legislativo só começa mesmo em quinze dias. Teremos, em fevereiro, um balão de ensaio de como será a relação entre o Executivo, agora chefiado por Dilma, e o Legislativo, que terá à sua frente Marco Maia, na Câmara, e um Senado com cara de PMDB.
O carnaval, no início de março, servirá de Ano Novo em Brasília. A partir dali, 2011 efetivamente começa.
***
Atualizado na quarta-feira, à 00:53
Por Hugo Albuquerque
Maia é um nome ligado à estrutura da CUT e sua escolha se deu no momento em que Vacarezza, na corrida interna pela indicação de seu nome à Presidente da Câmara, foi mais realista do que o rei e apareceu nas páginas amarelas da Veja, olhe só que coisa, falando coisas que deixou as centrais sindicais de orelha em pé. Seu nome passou porque a pressão foi grande e, além do mais, ele era um sujeito que serviu bem a Temer e a Lula na mesa da Câmara nesta legislatura que ainda está por terminar. É também um homem da CNB (a atual corrente hegemônica do PT, a antiga Articulação), oriundo de um estado onde ela não controla o Diretório Estadual. Sua indicação é sintomática de certas pretensões da direção nacional em relação ao Sul e, também, de que as Centrais Sindicais não andam a reboque do Planalto.
Meu comentário:
Na mosca.
O que muda na relação do Congresso com o Palácio?
Marco Maia: Óbvio que Lula e Dilma não têm a mesma forma de auscultar e dialogar com a política. Lula é mais espontâneo, talvez mais vinculado ao mundo da política. Dilma é mais técnica, mais executora do que propriamente articulada com o mundo da política.
O ano, para o Executivo, começou a todo o vapor. Mas o Legislativo só começa mesmo em quinze dias. Teremos, em fevereiro, um balão de ensaio de como será a relação entre o Executivo, agora chefiado por Dilma, e o Legislativo, que terá à sua frente Marco Maia, na Câmara, e um Senado com cara de PMDB.
O carnaval, no início de março, servirá de Ano Novo em Brasília. A partir dali, 2011 efetivamente começa.
***
Atualizado na quarta-feira, à 00:53
Por Hugo Albuquerque
Maia é um nome ligado à estrutura da CUT e sua escolha se deu no momento em que Vacarezza, na corrida interna pela indicação de seu nome à Presidente da Câmara, foi mais realista do que o rei e apareceu nas páginas amarelas da Veja, olhe só que coisa, falando coisas que deixou as centrais sindicais de orelha em pé. Seu nome passou porque a pressão foi grande e, além do mais, ele era um sujeito que serviu bem a Temer e a Lula na mesa da Câmara nesta legislatura que ainda está por terminar. É também um homem da CNB (a atual corrente hegemônica do PT, a antiga Articulação), oriundo de um estado onde ela não controla o Diretório Estadual. Sua indicação é sintomática de certas pretensões da direção nacional em relação ao Sul e, também, de que as Centrais Sindicais não andam a reboque do Planalto.
Meu comentário:
Na mosca.
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domingo, 23 de janeiro de 2011
Domingo
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser
Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.
Lupicínio Rodrigues, compositor brasileiro, em samba "Nervos de aço", que tem interpretação magistral de Paulinho da Viola.
***
Uma pequena curiosidade para os leitores: Lupicínio tem esse nome -- incomum nos tempos de hoje e mesmo quando nasceu, a 16 de setembro de 1914, em Ilhotas (RS) -- porque seu pai queria homenagear o soldado "Lupiscínio", um dos primeiros heróis da Primeira Guerra Mundial, que acabara de começar. O nome foi gravado errado no cartório, e perdeu o "s", ficando, portanto Lupicínio.
Ter loucura por uma mulher
E depois encontrar esse amor, meu senhor
Nos braços de um tipo qualquer
Você sabe o que é ter um amor, meu senhor
E por ele quase morrer
E depois encontrá-lo em um braço
Que nem um pedaço do seu pode ser
Há pessoas de nervos de aço
Sem sangue nas veias e sem coração
Mas não sei se passando o que eu passo
Talvez não lhes venha qualquer reação
Eu não sei se o que trago no peito
É ciúme, despeito, amizade ou horror
Eu só sei é que quando a vejo
Me dá um desejo de morte ou de dor.
Lupicínio Rodrigues, compositor brasileiro, em samba "Nervos de aço", que tem interpretação magistral de Paulinho da Viola.
***
Uma pequena curiosidade para os leitores: Lupicínio tem esse nome -- incomum nos tempos de hoje e mesmo quando nasceu, a 16 de setembro de 1914, em Ilhotas (RS) -- porque seu pai queria homenagear o soldado "Lupiscínio", um dos primeiros heróis da Primeira Guerra Mundial, que acabara de começar. O nome foi gravado errado no cartório, e perdeu o "s", ficando, portanto Lupicínio.
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Domingo
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
WikiLeaks nos livros de história
A figura mais importante de 2010, a julgar pelo noticiário das banalidades universais, é Mark Zuckerberg, o homem que redesenhou o Orkut, deu o nome de Facebook, e encheu os bolsos de dólares com uma abertura de capital.
No Facebook, as pessoas criam uma página pessoal, como no Orkut, colocam suas fotos mais bonitas e com mais amigos para mostrar que é popular, como no Orkut, deixam seus perfis intelectuais e engraçados, como no Orkut, mandam recados para seus amigos e recebe-os de volta, como no Orkut, e bisbilhota o que os outros colocam em suas páginas, como o Orkut. Mas, como sempre no capitalismo, o Orkut é "velho" e o Facebook é "novo". Logo, Facebook é legal. Mark Zuckerberg agradece.
A figura de 2010, os leitores aqui do Blog bem sabem, é Julian Assange, o líder do WikiLeaks.
Nos livros de história que os filhos de nossa geração vão ler, o capítulo sobre o início do século XXI vai contar os ataques terroristas de setembro de 2001, a guerra contra Afeganistão e Iraque movida por EUA e Inglaterra, os anos George W. Bush, a ascenção da China e da Índia, o surgimento do euro, Hugo Chávez na Venezuela, a crise econômica mundial e o papel do WikiLeaks na revelação de documentos que comprovavam a tortura de inocentes árabes por parte dos soldados americanos e os registros diplomáticos dos EUA, que culminaram, logo em janeiro de 2011, com a revolução tunisiana.
Ou alguém acha que vai estudar sobre Facebook e Amy Winehouse?
Give me a break, ladies and gentlemen.
No Facebook, as pessoas criam uma página pessoal, como no Orkut, colocam suas fotos mais bonitas e com mais amigos para mostrar que é popular, como no Orkut, deixam seus perfis intelectuais e engraçados, como no Orkut, mandam recados para seus amigos e recebe-os de volta, como no Orkut, e bisbilhota o que os outros colocam em suas páginas, como o Orkut. Mas, como sempre no capitalismo, o Orkut é "velho" e o Facebook é "novo". Logo, Facebook é legal. Mark Zuckerberg agradece.
A figura de 2010, os leitores aqui do Blog bem sabem, é Julian Assange, o líder do WikiLeaks.
Nos livros de história que os filhos de nossa geração vão ler, o capítulo sobre o início do século XXI vai contar os ataques terroristas de setembro de 2001, a guerra contra Afeganistão e Iraque movida por EUA e Inglaterra, os anos George W. Bush, a ascenção da China e da Índia, o surgimento do euro, Hugo Chávez na Venezuela, a crise econômica mundial e o papel do WikiLeaks na revelação de documentos que comprovavam a tortura de inocentes árabes por parte dos soldados americanos e os registros diplomáticos dos EUA, que culminaram, logo em janeiro de 2011, com a revolução tunisiana.
Ou alguém acha que vai estudar sobre Facebook e Amy Winehouse?
Give me a break, ladies and gentlemen.
Do Noteu*.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
O gargalo na qualificação
O Ministério do Desenvolvimento Social, que administra o Bolsa Família, encomendou ao Ipea -- órgão de excelência no pensamento e pesquisa econômica e social do país -- um estudo sobre a participação dos beneficiários do Bolsa Família no mercado de trabalho.
A ideia era simples: uma vez que o programa existe desde o fim de 2003, já é possível hoje, oito anos mais tarde, fazer um levantamento histórico sobre como essas pessoas se resolveram, no que trabalharam, se deu certo ou não, e o que é possível fazer melhor.
O resultado da ampla pesquisa realizada pelos técnicos do Ipea junto aos empregadores de beneficiários do Bolsa Família escancara um problema que o Brasil está enfrentando hoje, início de 2011, e que será a tônica da década que abrimos. Vejam o que disse Alexandre Leichsenring, doutor em estatística e consultor do Ministério do Desenvolvimento Social, que trabalhou junto ao Ipea na pesquisa, divulgada nesta semana:
"A inserção dos beneficiários do Bolsa Família no mercado formal, quando existe, é bastante precária. Menos de um ano depois da contratação, metade dos beneficiários é desligada, 30% perderão seus empregos em menos de seis meses. Fora do mercado de trabalho, menos de 25% são recontratados nos quatro anos seguintes."
O estudo escancara que o Bolsa Família deu o primeiro passo, na década passada, isto é, o de dar um colchão mínimo para as 13 milhões de famílias que estavam abaixo da linha da pobreza no Brasil. O programa foi bem sucedido em sua missão, mas o segundo passo, de uma vez conquistada a sobrevida dessas pessoas, introduzi-las na vida regular de uma economia capitalista -- arranjar um emprego, abrir um negócio, andar com as próprias pernas -- está longe de ser dado.
O problema que enfrentamos hoje é o da falta de qualificação da mão de obra na quantidade demandada pelas empresas. Converso muito com uma série de empresários e sindicalistas e, ao longo de 2010, foi ficando claro que o problema do Brasil não era mais recuperar-se da crise mundial ou resgatar famílias da pobreza (ainda que essa seja uma missão incompleta), mas capacitar as pessoas para poderem trabalhar numa economia média, com demandas do século XXI -- indústria de base, sofisticada, serviços tecnológicos, trabalho intelectual e comércio online.
Aí entra a escola pública, que nunca foi efetivamente implantada no país e, quando começava, nos anos 50 e 60, foi destruída pelas reformas de Jarbas Passarinho, ministro do regime militar, em 1971 -- isso é conversa para outro post, mas fica anotado aqui.
Onde está a maior parte dos futuros trabalhadores brasileiros hoje? Na escola pública.
Para fechar o ciclo de combate à pobreza -- e, mais que isso, à obscena desigualdade -- precisamos manter e ampliar o Bolsa Família, uma vez que ainda há famílias abaixo da linha da pobreza que não recebem o programa, como sempre destaca Lena Lavinas, das maiores especialistas em pobreza no Brasil. Mas precisamos, junto ao Bolsa Família, capacitar professores e funcionários, aumentar salários, investir em infraestrutura física das escolas, apoiar iniciativas criativas de municípios e comunidades ribeirinhas e interioranas, isoladas dos centros urbanos, e criar um plano nacional, que torna a escola pública um centro de excelência da criança, algo como os Cieps do mestre Darcy Ribeiro, que davam à criança um estudo em tempo integral, com uniforme, comida e recreação.
Assim, aliado à intensivos programas e cursos de qualificação da mão de obra que está agora no mercado de trabalho, conseguiremos, de alguma forma forma, evitar que o Brasil pare não por falta de recursos na balança de pagamentos (nosso karma histórico) ou por crises cambiais, mas, como já ouvi de um dirigente sindical de grande categoria, "no gargalo da mão de obra".
***
O Valor publicou ontem grande material sobre emprego: além de uma matéria especial onde levantei o ganho acumulado na década 2000-20101 por quatro categorias tradicionais (petroleiros, químicos, metalúrgicos e bancários), também contou com uma entrevista que fiz com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, onde tento travar com ele algumas dessas ideias sobre qualificação.
Segundo Lupi, o equivalente a 1 milhão de empregos com carteira assinada deixaram de ser criados, em 2010, porque os candidatos não tinham a qualificação necessária. É disso que estamos falando.
A ideia era simples: uma vez que o programa existe desde o fim de 2003, já é possível hoje, oito anos mais tarde, fazer um levantamento histórico sobre como essas pessoas se resolveram, no que trabalharam, se deu certo ou não, e o que é possível fazer melhor.
O resultado da ampla pesquisa realizada pelos técnicos do Ipea junto aos empregadores de beneficiários do Bolsa Família escancara um problema que o Brasil está enfrentando hoje, início de 2011, e que será a tônica da década que abrimos. Vejam o que disse Alexandre Leichsenring, doutor em estatística e consultor do Ministério do Desenvolvimento Social, que trabalhou junto ao Ipea na pesquisa, divulgada nesta semana:
"A inserção dos beneficiários do Bolsa Família no mercado formal, quando existe, é bastante precária. Menos de um ano depois da contratação, metade dos beneficiários é desligada, 30% perderão seus empregos em menos de seis meses. Fora do mercado de trabalho, menos de 25% são recontratados nos quatro anos seguintes."
O estudo escancara que o Bolsa Família deu o primeiro passo, na década passada, isto é, o de dar um colchão mínimo para as 13 milhões de famílias que estavam abaixo da linha da pobreza no Brasil. O programa foi bem sucedido em sua missão, mas o segundo passo, de uma vez conquistada a sobrevida dessas pessoas, introduzi-las na vida regular de uma economia capitalista -- arranjar um emprego, abrir um negócio, andar com as próprias pernas -- está longe de ser dado.
O problema que enfrentamos hoje é o da falta de qualificação da mão de obra na quantidade demandada pelas empresas. Converso muito com uma série de empresários e sindicalistas e, ao longo de 2010, foi ficando claro que o problema do Brasil não era mais recuperar-se da crise mundial ou resgatar famílias da pobreza (ainda que essa seja uma missão incompleta), mas capacitar as pessoas para poderem trabalhar numa economia média, com demandas do século XXI -- indústria de base, sofisticada, serviços tecnológicos, trabalho intelectual e comércio online.
Aí entra a escola pública, que nunca foi efetivamente implantada no país e, quando começava, nos anos 50 e 60, foi destruída pelas reformas de Jarbas Passarinho, ministro do regime militar, em 1971 -- isso é conversa para outro post, mas fica anotado aqui.
Onde está a maior parte dos futuros trabalhadores brasileiros hoje? Na escola pública.
Para fechar o ciclo de combate à pobreza -- e, mais que isso, à obscena desigualdade -- precisamos manter e ampliar o Bolsa Família, uma vez que ainda há famílias abaixo da linha da pobreza que não recebem o programa, como sempre destaca Lena Lavinas, das maiores especialistas em pobreza no Brasil. Mas precisamos, junto ao Bolsa Família, capacitar professores e funcionários, aumentar salários, investir em infraestrutura física das escolas, apoiar iniciativas criativas de municípios e comunidades ribeirinhas e interioranas, isoladas dos centros urbanos, e criar um plano nacional, que torna a escola pública um centro de excelência da criança, algo como os Cieps do mestre Darcy Ribeiro, que davam à criança um estudo em tempo integral, com uniforme, comida e recreação.
Assim, aliado à intensivos programas e cursos de qualificação da mão de obra que está agora no mercado de trabalho, conseguiremos, de alguma forma forma, evitar que o Brasil pare não por falta de recursos na balança de pagamentos (nosso karma histórico) ou por crises cambiais, mas, como já ouvi de um dirigente sindical de grande categoria, "no gargalo da mão de obra".
***
O Valor publicou ontem grande material sobre emprego: além de uma matéria especial onde levantei o ganho acumulado na década 2000-20101 por quatro categorias tradicionais (petroleiros, químicos, metalúrgicos e bancários), também contou com uma entrevista que fiz com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, onde tento travar com ele algumas dessas ideias sobre qualificação.
Segundo Lupi, o equivalente a 1 milhão de empregos com carteira assinada deixaram de ser criados, em 2010, porque os candidatos não tinham a qualificação necessária. É disso que estamos falando.
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quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Interlúdio
Da série "Grandes momentos de 2010"
O grande tema levantado nas eleições presidenciais de 2010 foi a questão do aborto. Entre o primeiro e o segundo turno, o debate ficou cravado de padres, bispos, imagens de santos e santas e muito bla bla bla religioso -- totalmente abandonado tão logo terminou a campanha.
O oportunismo, no entanto, trouxe para o primeiro plano uma série de figuras que, em tempos normais, não têm voz. Uma delas era Dom Raymundo Damasceno, o arcebispo da Basílica de Aparecida (SP), indicado pelo papa Bento XVI para ser o novo cardeal brasileiro. Quando voltou do Vaticano, no meio de outubro, pleno segundo turno eleitoral, Dom Raymundo disse considerar o tema do aborto e da religião como "fundamental" na hora de escolher o futuro(a) presidente.
Então, no domingo do segundo turno, 31 de outubro de 2010, lá foi o repórter aqui acompanhar a missa das 7h da manhã em Aparecida, acompanhado dos amigos Daniel Wainstein, fotógrafo, e Seu Paulo, motorista do jornal. Saímos de SP às quatro da matina, paramos para um café na estrada e chegamos em Aparecida às 6h. Falei com 22 pessoas, acompanhei a missa e voltamos para São Paulo, de onde escrevi a matéria publicada no dia seguinte, 01/11, quando o debate voltava ao normal -- sem religião, bem entendido.
A foto, tirada pelo Daniel, capta o blogueiro e Seu Paulo, em frente à Basílica, quando estávamos para deixar a basílica, com cara de missão cumprida, com o bloquinho do repórter saltando à calça.
E o Daniel, que não é bobo nem nada, falou que o grande mérito da foto não está nos rapazes...
O grande tema levantado nas eleições presidenciais de 2010 foi a questão do aborto. Entre o primeiro e o segundo turno, o debate ficou cravado de padres, bispos, imagens de santos e santas e muito bla bla bla religioso -- totalmente abandonado tão logo terminou a campanha.
O oportunismo, no entanto, trouxe para o primeiro plano uma série de figuras que, em tempos normais, não têm voz. Uma delas era Dom Raymundo Damasceno, o arcebispo da Basílica de Aparecida (SP), indicado pelo papa Bento XVI para ser o novo cardeal brasileiro. Quando voltou do Vaticano, no meio de outubro, pleno segundo turno eleitoral, Dom Raymundo disse considerar o tema do aborto e da religião como "fundamental" na hora de escolher o futuro(a) presidente.
Então, no domingo do segundo turno, 31 de outubro de 2010, lá foi o repórter aqui acompanhar a missa das 7h da manhã em Aparecida, acompanhado dos amigos Daniel Wainstein, fotógrafo, e Seu Paulo, motorista do jornal. Saímos de SP às quatro da matina, paramos para um café na estrada e chegamos em Aparecida às 6h. Falei com 22 pessoas, acompanhei a missa e voltamos para São Paulo, de onde escrevi a matéria publicada no dia seguinte, 01/11, quando o debate voltava ao normal -- sem religião, bem entendido.
A foto, tirada pelo Daniel, capta o blogueiro e Seu Paulo, em frente à Basílica, quando estávamos para deixar a basílica, com cara de missão cumprida, com o bloquinho do repórter saltando à calça.
E o Daniel, que não é bobo nem nada, falou que o grande mérito da foto não está nos rapazes...
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Os europeus e o Brasil
A ótima repórter especial da Folha, Erica Fraga, fez um belo levantamento no fim da semana passada, que explora o tema tratado aqui no Blog na quinta. Comparou as taxas de juros que os países europeus estão pagando nas emissões de títulos com os juros pagos pelo Brasil -- sempre pegando títulos de dívida externa, claro. O levantamento explicita o que o Blog já dizia: a Europa passa hoje pelo cenário que nós, latino-americanos, passamos na década de 1980. Vejam só:
Alemanha paga juros de 2% nos títulos que emite.
Itália pagará juros de 3,67% aos compradores dos títulos emitidos ontem.
Espanha pagará juros de 4,54% aos compradores dos títulos emitidos na semana passada.
Portugal pagará juros de 6,1% aos detentores dos títulos que vendeu anteontem.
Já os títulos do Brasil, emitidos em euros (portanto comparáveis), com vencimento em 2017 (como os emitidos pelos europeus nesses dias), pagam juros de 3,32% aos compradores.
Isso quer dizer que pagamos um prêmio de risco de apenas 1,32% sobre os títulos alemães, considerados benchmark para comparações entre juros de títulos emitidos em euros.
***
Agora sabem o que mais me intriga nisso tudo? Que o principal comprador desses títulos, depois do Banco Central Europeu, é o governo chinês.
O mundo está mudando, meus amigos. Fiquem de olho porque estamos assistindo o movimento geopolítico mais sério em um século.
Alemanha paga juros de 2% nos títulos que emite.
Itália pagará juros de 3,67% aos compradores dos títulos emitidos ontem.
Espanha pagará juros de 4,54% aos compradores dos títulos emitidos na semana passada.
Portugal pagará juros de 6,1% aos detentores dos títulos que vendeu anteontem.
Já os títulos do Brasil, emitidos em euros (portanto comparáveis), com vencimento em 2017 (como os emitidos pelos europeus nesses dias), pagam juros de 3,32% aos compradores.
Isso quer dizer que pagamos um prêmio de risco de apenas 1,32% sobre os títulos alemães, considerados benchmark para comparações entre juros de títulos emitidos em euros.
***
Agora sabem o que mais me intriga nisso tudo? Que o principal comprador desses títulos, depois do Banco Central Europeu, é o governo chinês.
O mundo está mudando, meus amigos. Fiquem de olho porque estamos assistindo o movimento geopolítico mais sério em um século.
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Mais uma para deixar o blogueiro contente
Se o Alexandre Inagaki colocou este Blog entre os 10 melhores blogs de 2010 -- indicação que muito honrou o blogueiro -- agora foi a vez de outro blogueiro que gosto muito de ler, o André Egg, classificar este Blog entre os nove que ele leu em 2010 e continuará lendo em 2011.
Nem preciso repetir, mas vou: é uma grande honra.
E sim, continuo muito intrigado quanto ao fato de 500 leitores virem aqui todo santo dia.
Obrigado a todos.
Nem preciso repetir, mas vou: é uma grande honra.
E sim, continuo muito intrigado quanto ao fato de 500 leitores virem aqui todo santo dia.
Obrigado a todos.
segunda-feira, 17 de janeiro de 2011
Sobre a Tunísia
Quero, do fundo do coração, chamar, daqui alguns dias, o episódio tunisiano da semana passada de "revolução popular". Por enquanto, fico torcendo para que a participação das Forças Armadas na deposição do ditador Ben Ali, na sexta-feira, após 23 anos no poder, tenha sido casuística, e não de liderança -- caracterizando, desta forma, um golpe militar.
E isso faz alguma diferença?, pode perguntar o incauto.
Faz.
Por deter a hegemonia do poder de coerção, as Forças Armadas têm, nas mãos, a chance de depor qualquer governo. Mas o Exército não foi feito para governar um país, mas apenas constituir o braço armado do Estado, tocado por civis -- técnicos, intelectuais e políticos. Sabemos, todos os latino-americanos, o mal que as Forças Armadas no poder causam.
Se a retirada de Ben Ali do poder contou com a participação do exército, apenas, então o blogueiro pode inflar o peito e orgulhar-se do mundo: afinal, depois da lamentável situação em Honduras, quando, em 2009, assistimos um golpe militar depois de décadas, e do caos que é a Coreia do Norte, tocada por militares, assistimos à deposição de um ditador por meio popular, de passeatas e, bem ao modo do século XXI, com vídeos disparados no youtube -- que lá é proibido --, sites e blogs contando o que a mídia, vendida ao governo, escondia e, mais importante de tudo, um movimento descentralizado, que partiu de uma demanda comum dos tunisianos. O movimento, como é de esperar em uma sociedade complexa do mundo moderno, foi todo tocado na capital, Túnis.
Trata-se, de qualquer maneira, de um alento frente ao mundo pós-moderno, onde o mais bacana é ouvir música sozinho no seu iPod. Há inteligência para além do mundo online, e isso é o que de melhor podemos tirar dos jovens tunisianos de 2011.
***
Mas o que fazer com Ben Ali?
Um dos vários documentos vazados pela trupe de Julian Assange, do WikiLeaks, dá conta da participação dos Estados Unidos na manutenção do regime ditatorial de Ali, bem como a queixa perante a corrupção, que vaza em todos os órgãos e autarquias do governo.
Sabem a velha história do século XX, em que os braços "imperialistas" norte-americanos se embrenhavam em todo o mundo? Então, até o blogueio achou que isso tinha acabado em 1991, quando a falência da União Soviética decretou o fim da corrida pela hegemonia cultural e econômica, processo que impulsionava os americanos para além de suas fronteiras. Mas, pelo jeito, isso ainda não acabou.
(Aliás, viram que o WikiLeaks está produzindo movimentos muito mais sérios do que se imaginava? Como bem notou Clovis Rossi na Folha, sábado, trata-se da primeira "Wiki-revolução")
Mas o que fazer com Ben Ali?
Bom, falamos de um sujeito que fez do país seu quintal, tendo tudo a seu dispor enquanto o equivalente a 60% dos jovens estavam desempregados (!) e tunisianos deixavam o país para conseguir arranjar emprego em outros vizinhos. O que fazer com esse sujeito?
O blogueiro costuma ser muito pacifista -- como vocês todos sabem. Mas sempre há exceções. Pego emprestado de Jean-Marie Straub a expressão, que cabe como uma luva no destino que defendo para Ben Ali: Es hilft nur Gewalt wo Gewalt herrscht.
***
O mesmo vale para Baby Doc, dos mais carniceiros ditadores do século XX, que por 15 anos governou o Haiti -- um dos países mais pobres do mundo. Ele voltou, depois de 25 anos exilado na França, e está, agora, em Porto Príncipe (capital do Haiti).
***
Atualizado às 20h41min
Por Raphael Tsavkko Garcia:
João, dois bons textos sobre a revolução tuitada, ou via facebook ou como queiram chamar... Um deles do meu "chefe", o Ethan Zuckerman!=)
First twitter revolution e Tunisia Protests the Facebook Revolution
Meu comentário:
As duas dicas são muito boas, especialmente o texto na Foreign Policy.
***
Por Hugo Albuquerque:
Revoluções não excluem a participação das forças armadas, João - a Revolução dos Cravos que o diga - e nem trazem garantias que acabem bem - às vezes, muito pelo contrário. A diferença entre a Revolução e um Golpe é, no duro, participação popular. A Ordem posta não caiu porque tanques resolveram atacar o palácio presidencial depois de uma intriga palaciana, mas porque a multidão que tomou as ruas esvaziou o próprio significado daquele regime - diante de um quadro, acrescento, onde as engrenagens do sistema político travaram. Se isso vai criar um ambiente de liberdade, eu não sei, é uma construção difícil em relação a qual a "comunidade internacional" (aqui, EUA e UE) não tem interesse nisso. Americanos gostavam de Ben Ali porque ele fazia o jogo da Guerra ao Terror (e toda a encenação inerente) e os europeus o adoravam porque sua Tunísia fazia o jogo anti-imigração no Magreb - ainda que quase 1% da população francesa atual seja composta por tunisianos.
Meu comentário:
Com certeza, Hugo, o exemplo da Revolução dos Cravos é bom, mas convenhamos que casos como esse são exceções.
Mais que o aspecto popular, o que difere revolução de golpe é a situação contra a qual se insurgem os "revolucionários". A revolução russa, de outubro de 1917, não foi algo propriamente "popular", como seria a revolução chinesa de 1949.
Mas a Rússia dos tzares, tão bem documentada por, entre outros autores e textos, "Ressurreição" (1899) de Tolstoi, atingira o estágio da realeza francesa pré-1789.
Golpe, como o entendo, é um movimento realizado por um grupo articulado e organizado, de intelectuais (no sentido gramsciano do termo), que não necessariamente contam com a chancela da maioria. Mais importante: golpe é quando o governante tirado do poder foi escolhido pela maioria por meio de voto. Revolução ocorre para tirar um grupo ou dirigente que está no poder por razões independentes da vontade da maioria.
E isso faz alguma diferença?, pode perguntar o incauto.
Faz.
Por deter a hegemonia do poder de coerção, as Forças Armadas têm, nas mãos, a chance de depor qualquer governo. Mas o Exército não foi feito para governar um país, mas apenas constituir o braço armado do Estado, tocado por civis -- técnicos, intelectuais e políticos. Sabemos, todos os latino-americanos, o mal que as Forças Armadas no poder causam.
Se a retirada de Ben Ali do poder contou com a participação do exército, apenas, então o blogueiro pode inflar o peito e orgulhar-se do mundo: afinal, depois da lamentável situação em Honduras, quando, em 2009, assistimos um golpe militar depois de décadas, e do caos que é a Coreia do Norte, tocada por militares, assistimos à deposição de um ditador por meio popular, de passeatas e, bem ao modo do século XXI, com vídeos disparados no youtube -- que lá é proibido --, sites e blogs contando o que a mídia, vendida ao governo, escondia e, mais importante de tudo, um movimento descentralizado, que partiu de uma demanda comum dos tunisianos. O movimento, como é de esperar em uma sociedade complexa do mundo moderno, foi todo tocado na capital, Túnis.
Trata-se, de qualquer maneira, de um alento frente ao mundo pós-moderno, onde o mais bacana é ouvir música sozinho no seu iPod. Há inteligência para além do mundo online, e isso é o que de melhor podemos tirar dos jovens tunisianos de 2011.
***
Mas o que fazer com Ben Ali?
Um dos vários documentos vazados pela trupe de Julian Assange, do WikiLeaks, dá conta da participação dos Estados Unidos na manutenção do regime ditatorial de Ali, bem como a queixa perante a corrupção, que vaza em todos os órgãos e autarquias do governo.
Sabem a velha história do século XX, em que os braços "imperialistas" norte-americanos se embrenhavam em todo o mundo? Então, até o blogueio achou que isso tinha acabado em 1991, quando a falência da União Soviética decretou o fim da corrida pela hegemonia cultural e econômica, processo que impulsionava os americanos para além de suas fronteiras. Mas, pelo jeito, isso ainda não acabou.
(Aliás, viram que o WikiLeaks está produzindo movimentos muito mais sérios do que se imaginava? Como bem notou Clovis Rossi na Folha, sábado, trata-se da primeira "Wiki-revolução")
Mas o que fazer com Ben Ali?
Bom, falamos de um sujeito que fez do país seu quintal, tendo tudo a seu dispor enquanto o equivalente a 60% dos jovens estavam desempregados (!) e tunisianos deixavam o país para conseguir arranjar emprego em outros vizinhos. O que fazer com esse sujeito?
O blogueiro costuma ser muito pacifista -- como vocês todos sabem. Mas sempre há exceções. Pego emprestado de Jean-Marie Straub a expressão, que cabe como uma luva no destino que defendo para Ben Ali: Es hilft nur Gewalt wo Gewalt herrscht.
***
O mesmo vale para Baby Doc, dos mais carniceiros ditadores do século XX, que por 15 anos governou o Haiti -- um dos países mais pobres do mundo. Ele voltou, depois de 25 anos exilado na França, e está, agora, em Porto Príncipe (capital do Haiti).
***
Atualizado às 20h41min
Por Raphael Tsavkko Garcia:
João, dois bons textos sobre a revolução tuitada, ou via facebook ou como queiram chamar... Um deles do meu "chefe", o Ethan Zuckerman!=)
First twitter revolution e Tunisia Protests the Facebook Revolution
Meu comentário:
As duas dicas são muito boas, especialmente o texto na Foreign Policy.
***
Por Hugo Albuquerque:
Revoluções não excluem a participação das forças armadas, João - a Revolução dos Cravos que o diga - e nem trazem garantias que acabem bem - às vezes, muito pelo contrário. A diferença entre a Revolução e um Golpe é, no duro, participação popular. A Ordem posta não caiu porque tanques resolveram atacar o palácio presidencial depois de uma intriga palaciana, mas porque a multidão que tomou as ruas esvaziou o próprio significado daquele regime - diante de um quadro, acrescento, onde as engrenagens do sistema político travaram. Se isso vai criar um ambiente de liberdade, eu não sei, é uma construção difícil em relação a qual a "comunidade internacional" (aqui, EUA e UE) não tem interesse nisso. Americanos gostavam de Ben Ali porque ele fazia o jogo da Guerra ao Terror (e toda a encenação inerente) e os europeus o adoravam porque sua Tunísia fazia o jogo anti-imigração no Magreb - ainda que quase 1% da população francesa atual seja composta por tunisianos.
Meu comentário:
Com certeza, Hugo, o exemplo da Revolução dos Cravos é bom, mas convenhamos que casos como esse são exceções.
Mais que o aspecto popular, o que difere revolução de golpe é a situação contra a qual se insurgem os "revolucionários". A revolução russa, de outubro de 1917, não foi algo propriamente "popular", como seria a revolução chinesa de 1949.
Mas a Rússia dos tzares, tão bem documentada por, entre outros autores e textos, "Ressurreição" (1899) de Tolstoi, atingira o estágio da realeza francesa pré-1789.
Golpe, como o entendo, é um movimento realizado por um grupo articulado e organizado, de intelectuais (no sentido gramsciano do termo), que não necessariamente contam com a chancela da maioria. Mais importante: golpe é quando o governante tirado do poder foi escolhido pela maioria por meio de voto. Revolução ocorre para tirar um grupo ou dirigente que está no poder por razões independentes da vontade da maioria.
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domingo, 16 de janeiro de 2011
Domingo
Nas escadas do Império fazia-se leilão como ainda hoje, divertindo-se muito o povo ali apinhado com as graçolas pesadas do pregoeiro. Estiveram aí algum tempo entretidos os nossos conhecidos, e foram depois procurar no meio do Campo um lugar onde pudessem fazer alto para cear e ver o fogo. Acharam-no, não sem alguma dificuldade, pois que muitas outras famílias se haviam adiantado e tomado as melhores posições. Grande parte do Campo já estava coberta daqueles ranchos sentados em esteiras, ceando, conversando, cantando modinhas ao som de guitarra e viola. Fazia gosto passear por entre eles, e ouvir aqui a anedota que contava um conviva de bom gosto, ali a modinha cantada naquele tom apaixonadamente poético que faz uma das nossas raras originalidades, apreciar aquele movimento e animação que geralmente reinavam. Era essa a parte (permitam-nos a expressão) verdadeiramente divertida do divertimento.
Manuel Antônio de Almeida, um dos maiores escritores da literatura brasileira, em trecho de "Memórias de um Sargento de Milícias".
***
Este é um dos três maiores da história do blogueiro. Ao lado de "Memórias de um Sargento de Milícias" estão "S. Bernardo", de Graciliano, e "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.
Esses livros explicam mais da personalidade do blogueiro do que vocês podem imaginar.
Manuel Antônio de Almeida, um dos maiores escritores da literatura brasileira, em trecho de "Memórias de um Sargento de Milícias".
***
Este é um dos três maiores da história do blogueiro. Ao lado de "Memórias de um Sargento de Milícias" estão "S. Bernardo", de Graciliano, e "O Triste Fim de Policarpo Quaresma", de Lima Barreto.
Esses livros explicam mais da personalidade do blogueiro do que vocês podem imaginar.
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sábado, 15 de janeiro de 2011
O triste Rio de Janeiro
A cidade mais linda do Brasil, que em dezembro viu tanques subirem favelas, vê agora mais de 600 pessoas sucumbirem a deslizamentos de terras provocados pelas chuvas mais fortes desde a terrível chuva de 1966.
Voltou a chover forte em Nova Friburgo agora à tarde.
Voltou a chover forte em Nova Friburgo agora à tarde.
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
No Belas Artes
Hoje, na primeira sessão da última mostra de cinema do Cine Belas Artes -- fundado em 1943, em SP, entre a Avenida Paulista e a Consolação -- assisto, com a Carolina, O Encouraçado Potemkin.
O cinema, que fecha as portas em 27 de janeiro depois de 68 anos na ativa, aposta em duas últimas mostras: a de filmes clássicos da história do cinema, e a de filmes clássicos da história do Belas Artes. As duas estreiam hoje. Como jornalista, não tenho como, nem querendo, acompanhar os clássicos do Belas Artes -- que são exibidos às 18h30min -- mas, com pedido especial, consigo assistir aos clássicos do cinema, que são exibidos mais tarde.
O Encouraçado Potemkin é, provavelmente, um dos filmes que o blogueiro mais assistiu. Filmado, montado e lançado por Sergei Eisenstein em 1925, na União Soviética, O Encouraçado Potemkin ultrapassa todos os ditames então presentes à época. Eisenstein trabalha com todos os conceitos criados pelo grande gênio do cinema da época, D. W. Griffith, mas vai além: até hoje, boa parte dos cineatas -- para não dizer 90% deles -- foi e é incapaz de igualar a capacidade de contar uma história complexa por meio de rolos de filme em preto e branco, sem som, com pouco dinheiro.
O filme estreiou em 24 de dezembro de 1925 em Moscou, lançando Eisenstein na linha de frente do que viria ser uma das maiores escolas de cinema: o cinema soviético. A partir dali viriam, só para ficar nos gênios, Vsevolod Pudovkin (O Fim de São Petesburgo, 1927) e Dziga Vertov (Um Homem com Uma Câmera, 1930) e outras pérolas do próprio Eisenstein, como Outubro (1928) e A Linha Geral (1930). Um cinema experimental, complexo, criativo e apoiado pela sociedade, mas que foi destroçado pelo stalinismo a partir de 1932 -- para se ter uma ideia, um dos poucos atores razoavelmente famosos de Potemkin, Konstantin Feldman, morreu num dos expurgos stalinistas dos anos 30.
Exibido em Paris (12 de novembro de 1926) e em Nova York (05 de dezembro de 26), Potemkin foi proibido pouco depois, tão logo Stálin começou a apertar o controle, nos anos 1930. Para se ter uma ideia, o filme nunca foi exibido no Brasil -- apenas em sessões secretas, na Cinemateca, e graças ao enorme esforço de Gustavo Dahl, Nelson Pereira e Glauber Rocha, que promoviam longos debates sobre o filme no Rio, SP e Salvador.
Uma das grandes realizações artísticas do homem.
Curiosidade: era o filme preferido de Charles Chaplin.
O cinema, que fecha as portas em 27 de janeiro depois de 68 anos na ativa, aposta em duas últimas mostras: a de filmes clássicos da história do cinema, e a de filmes clássicos da história do Belas Artes. As duas estreiam hoje. Como jornalista, não tenho como, nem querendo, acompanhar os clássicos do Belas Artes -- que são exibidos às 18h30min -- mas, com pedido especial, consigo assistir aos clássicos do cinema, que são exibidos mais tarde.
O Encouraçado Potemkin é, provavelmente, um dos filmes que o blogueiro mais assistiu. Filmado, montado e lançado por Sergei Eisenstein em 1925, na União Soviética, O Encouraçado Potemkin ultrapassa todos os ditames então presentes à época. Eisenstein trabalha com todos os conceitos criados pelo grande gênio do cinema da época, D. W. Griffith, mas vai além: até hoje, boa parte dos cineatas -- para não dizer 90% deles -- foi e é incapaz de igualar a capacidade de contar uma história complexa por meio de rolos de filme em preto e branco, sem som, com pouco dinheiro.
O filme estreiou em 24 de dezembro de 1925 em Moscou, lançando Eisenstein na linha de frente do que viria ser uma das maiores escolas de cinema: o cinema soviético. A partir dali viriam, só para ficar nos gênios, Vsevolod Pudovkin (O Fim de São Petesburgo, 1927) e Dziga Vertov (Um Homem com Uma Câmera, 1930) e outras pérolas do próprio Eisenstein, como Outubro (1928) e A Linha Geral (1930). Um cinema experimental, complexo, criativo e apoiado pela sociedade, mas que foi destroçado pelo stalinismo a partir de 1932 -- para se ter uma ideia, um dos poucos atores razoavelmente famosos de Potemkin, Konstantin Feldman, morreu num dos expurgos stalinistas dos anos 30.
Exibido em Paris (12 de novembro de 1926) e em Nova York (05 de dezembro de 26), Potemkin foi proibido pouco depois, tão logo Stálin começou a apertar o controle, nos anos 1930. Para se ter uma ideia, o filme nunca foi exibido no Brasil -- apenas em sessões secretas, na Cinemateca, e graças ao enorme esforço de Gustavo Dahl, Nelson Pereira e Glauber Rocha, que promoviam longos debates sobre o filme no Rio, SP e Salvador.
Uma das grandes realizações artísticas do homem.
Curiosidade: era o filme preferido de Charles Chaplin.
quinta-feira, 13 de janeiro de 2011
O efeito dominó
A crise europeia nasceu depois da crise americana. Quando o mercado imobiliário americano ruiu, em julho-agosto de 2007, o anúncio de que problemas no mercado financeiro foi feito. Em março de 2008, a quebra do Bear Stearns, o terceiro maior banco de investimentos americano, mostrou que a primeira peça do dominó, a imobiliária, havia tocado na segunda, a financeira. Em julho de 2008 foi a vez das estatais Fannie Mae e Freddie Mac pedirem socorro do governo.
Finalmente, em setembro de 2008, a falência do Lehman Brothers, seguida do socorro da AIG, a maior seguradora privada dos Estados Unidos, lançou a crise financeira mundial, que atingiu em cheio os países ricos, um a um. As peças do dominó, então, cresceram tanto que passaram a ter peso de derrubar peças de outros países.
Foi exatamente o que começou a acontecer a partir de outubro de 2008.
Foi exatamente o que começou a acontecer a partir de outubro de 2008.
A primeira peça fora dos EUA à tombar foi o Japão. Depois, rapidinho, a Inglaterra. Os dois, aliados de primeira hora do jogo geopolítico preconizado pelos EUA desde o fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945. Estava claro, já, que o mundo mudaria.
Com a Inglaterra em crise, foi um pulo para o resto da Europa. Já estávamos em 2009, quando surgiu o fenômeno Obama. Assim que ocupou a presidência americana, Barack Obama lançou um enorme programa de gastos públicos -- não, não era nada parecido com que era necessário, e o que sempre defendeu este blogueiro, mas um programa de gastos com o sistema financeiro.
O ano de 2009 ficou marcado pelos amplos programas de salvação do sistema financeiro colocados em prática por todo o mundo rico.
O que aconteceu, então? Os Estados, todos eles, estavam enormes. Mas não por participarem ativamente da economia, como era de se esperar, mas porque engoliram bancos comerciais, bancos de investimentos, instituições financeiras de modo geral, empresas de todo o tipo. Assim, o endividamento público saltou -- e muito -- em todos os países desenvolvidos.
A crise, então, entra na fase aguda.
O primeiro país a ruir foi a Grécia. No caso grego, diferentemente dos outros, houve crime -- o governo fraudou, com a ajuda de bancos de investimentos, seus balanços fiscais, em 1999, para poder entrar na União Europeia. Mas, de qualquer jeito, o motivo era claro: o Estado grego estava muito endividado e precisava pagar suas dívidas. A Grécia, então, recebeu a enorme cifra de 110 bilhões de euros, oriundos do fundo de estabilização financeira da zona do euro, criado no meio do turbilhão, com dinheiro de todos os sócios europeus -- com um intuito claro: salvar o sistema financeiro europeu, exposto às dívidas soberanas, e também tornar o país em crise mais bonitinho aos olhos do mercado.
Mas as peças não pararam de se mexer.
Depois de quebrada a Grécia, a peça do dominó grego balança tanto que atinge a Irlanda. Todos os holofotes, então, passam para as passeatas dos irlandeses, clamando por clemência do governo, que queria passar um programa de maldades fiscais -- cortes de gastos com seguro-desemprego e aposentadorias e aumento de impostos -- que, diga-se, o mercado estava sedento para ver.
A União Europeia, com a Alemanha à frente, se junta para aprovar um mega pacote que vai auxiliar gregos e irlandeses. Não os povos, mas o sistema financeiro, que fique claro. Aos irlandeses vai uma soma de 80 bilhões de euros.
Há um momento de calmaria, portanto, no fim de 2010. As peças do dominó parariam de se mover? Não veríamos mais crises e passeatas, aumento do desemprego e moral em queda?
Entramos em 2011, e as peças de dominó voltaram a se mover.
O alvo do mercado, agora, é Portugal. Para fechar suas contas em 2011, Portugal precisa levantar o equivalente a 20 bilhões de euros em títulos, mas o mercado não vai cobrar menos de 6% a 7% em juros por isso -- nessas condições, Portugal vai falir só pagando juros. Como seu endividamento público está absurdamente alto, entende o mercado, é hora de tirar o cavalinho do Estado da chuva e mandar bala em apertos, para, assim, pagar as dívidas sem precisar tomar dinheiro emprestado.
Isso seria razoavelmente fácil se o país crescesse, mas não é possível desvalorizar sua moeda -- porque estão todos amarrados no euro -- e o mercado não permite investimentos públicos elevados, prefere defender a austeridade. As práticas, que já tinham sido um fracasso total no mundo após a crise de 1929, estão sendo repetidos como se nada tivesse acontecido. Fica parecendo que, no fundo, nós, os humanos, somos umas antas. Não aprendemos nada, não é? O que move uma economia capitalista é o consumo. Se as famílias não tem emprego, como vão consumir? Com crédito. Se os bancos não emprestam, como vão consumir? Ao mesmo tempo, se não há consumo, as empresas não vão produzir. Se não produzem, não precisam de funcionários, então demitem.
É assim que está o jogo na Europa. É assim que os republicanos querem fazer nos EUA. É assim que as coisas ficam caso o Estado, goste-se dele ou não, fique relegado à cobrador de impostos e pagador de dívidas. Se não houver investimento público, contratação de funcionários públicos, cortes de impostos para empresas privadas, estímulos creditícios por meio de bancos públicos, a economia capitalista, em tempos de crise, para.
Os espanhóis estão desesperados. Se a peça dos irlandeses de fato tocar a peça de Portugal, como deve ocorrer em dez ou quinze dias, será preciso enviar aos portugueses a bagatela de 100 bilhões de euros, o equivalente a 45% do PIB do país -- seguindo a mesma regra dos aportes à gregos e irlandeses. Mas pior que isso: tocando Portugal, a próxima vítima da crise da dívida será a Espanha.
O inferno, então, estará instaurado, de uma vez por todas. Sabem os 110 bilhões de euros à Grécia, os 80 bilhões à Irlanda ou mesmo os possíveis 100 bilhões à Portugal? Então, só a Espanha precisará de 500 bilhões de euros.
Diferente de Grécia, Irlanda e mesmo Portugal, a Espanha é uma economia enorme, com implicações estruturais que se estendem por todo o mundo -- basta ver, aqui no Brasil, a participação de empresas como Santander, Telefonica e OHL Energia na economia.
No meio do caminho entre as tradicionais peças de Portugal e Espanha, neste dominó europeu, está uma peça, também muito tradicional, mas que poucos estão vendo: a Bélgica. Caso Portugal seja atingido pela peça irlandesa, o baque será tão grande que o simples balançar da peça portuguesa já será suficiente para tocar a peça belga. Isso porque o endividamento português, de 85% do PIB, é menor que o belga. A economia belga corresponde a US$ 380 bilhões, mas o endividamento público é equivalente a US$ 365 bilhões -- sim, 96% do PIB. Para piorar, os portugueses estão quase indo às urnas escolher um novo primeiro-ministro (as eleições em Portugal ocorrerão no domingo 23 de janeiro) e os belgas estão há 212 dias com governo interino, sem capacidade de tomar decisões cruciais neste momento.
Os povos estão assistindo bestializados a essa catarse financeira. Vai lá que os irlandeses foram as ruas, e gregos e espanhois produziram levantes sociais terríveis, mas isso nada muda a história da crise, como vimos. O que está em jogo aqui é o sistema financeiro, não os povos. Os bancos do continente têm exposição de US$ 265 bilhões a Portugal, por exemplo. O que isso quer dizer? Isso significa que um eventual calote português em sua dívida soberana atingiria em cheio os bancos. Mas a situação é até calminha em Portugal, porque os mesmos bancos estão expostos a US$ 610 bilhões em relação à Bèlgica e essa exposição ultrapassa os US$ 1 trilhão em relação a Espanha.
Em outras palavras, a Europa vive hoje a catástrofe financeira que viveram os países da América Latina nos anos 1980. As dívidas dos Estados latino-americanos, contraídas nos anos 1970, foram reajustadas pelos juros exorbitantes que os EUA e ingleses passaram a cobrar a partir de 1979, o que empurrou o México ao calote -- o famoso episódio do "setembro negro de 1982". Do México, as peças do dominó foram batendo uma a uma as economias latinas, indo aterrisar na maior delas -- o Brasil -- em 1987, quando demos nosso primeiro calote na dívida externa. O que ocorria ali era rigorosamente a mesma situação de agora: o endividamento dos anos 70, em cima dos petrodólares que os bancos privados internacionais repassavam, precisava ser pago à Citibank e outros.
A diferença é que enquanto a América Latina é o segundo continente mais pobre do mundo, a Europa é o continente mais rico do planeta.
Não é difícil que a crise chegue na Espanha. As peças estão se movendo em direção à Portugal e Bélgica e a Espanha já entrou no radar dos mercados, ainda que com lentes de aumento. Quando chegar à Espanha, a crise da dívida já será o pior acontecimento econômico desde a Depressão dos anos 1930 -- que, nunca é demais lembrar, gerou gentes finas como Adolf Hitler, e impulsionou homicidas alucinados como Josef Stalin e Benito Mussolini, a abraçarem mais poder do que já tinham. Na ponta, a Depressão levou o mundo à Segunda Guerra Mundial e a China aos braços de Mao Tsé Tung.
Estamos vendo o mesmo acontecer agora? Acho que não, embora o discurso de alguns republicanos americanos e outros boçais do Tea Party me deixem antever um futuro negro.
Seja como for, o mercado está pensando à frente. O que fazer caso a crise de fato alcance a Espanha? Se os países mais fortes, como a Alemanha, que está levando nas costas os estilhaços da União Europeia, juntarem todas suas forças, podem até salvar a Espanha. Mas o dominó, infelizmente, não terá parado nos espanhois. Se ali chegar, mesmo, a próxima peça será a Itália -- e acreditem, se bater na Espanha, chega na Itália.
O caldeirão, se chegar nos italianos, será um verdadeiro carnaval internacional. A política italiana é das mais complexas do mundo rico, com máfia, Vaticano, esquerda e direita todos sentados na mesma mesa, tendo um tresloucado, Silvio Berlusconi, na cabeceira.
Será um Deus nos acuda, e 2011 será pior que foi 2008, 2009 ou mesmo 2010.
Isso vai acontecer? Eu não sei e nem tenho como apontar nada. Aconteceu com os EUA, em 2008, o Japão, em 2009, Grécia e Irlanda, em 2010, e parece que vai acontecer com Portugal e Bélgica. Ter certeza do que vai ocorrer, a partir daí, é algo impossível hoje. Já vimos que não dá para brincar com o mercado.
Depois que as peças do dominó começam a se mexer, todos viramos torcedores, esperando para que elas parem.
Depois que as peças do dominó começam a se mexer, todos viramos torcedores, esperando para que elas parem.
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quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
A crise europeia
A crise econômica na Europa foi o assunto de 2010 e será, acreditem, o assunto de 2011. Preparem-se, porque amanhã no Blog vou publicar um post explicando o que está acontecendo e porque isso deve piorar.
Mas só venha aqui quem tiver estômago. O negócio vai ser pauleira -- já estou avisando.
Mas só venha aqui quem tiver estômago. O negócio vai ser pauleira -- já estou avisando.
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As chuvas em São Paulo
O prefeito Gilberto Kassab (DEM), que aumentou IPTU e tarifas de ônibus em todos os anos de seu mandato, marcado pelas enormes inundações na capital. A charge faz parte do ótimo conjunto de charges do Jornal da Tarde sobre as enchentes em SP, que podem ser vistas aqui.
Parem tudo o que vocês estão fazendo
E leiam a entrevista que o filósofo Marcos Nobre deu ao Ivan Marsiglia, do Estadão, publicada no Aliás de domingo. Ela é central para entender os passos que serão dados pelo governo Dilma, ao menos nesse começo, em 2011 e 2012. Ele foi certeiro em sacar que um dos pontos que chamou a atenção de Lula em Dilma foi a forma de apoio com o PMDB que Dilma costurou quando ministra de Minas e Energia, quando fez o programa Luz para Todos.
Tenho comigo que a geração que vivemos só pode ser compreendida se lermos, com cuidado, o que escreveram André Singer sobre o lulismo e Marcos Nobre sobre o peemedebismo. Já escrevi sobre a tese de Singer, e espero, quando tiver tempo, escrever sobre a sacada de Nobre.
Enquanto isso, meus caros e queridas, não deixem de ler a entrevista, em "O cortejo do atraso".
***
Quando falei da tese do lulismo, desenvolvida por Singer, falei também da ótima interpretação dada por Antônio Delfim Netto. Parece coincidência, mas vou aproveitar a sugestão à ideia do peemedebismo, criada por Nobre, para também sugerir outro do Delfim: ontem, no Valor, uma bela análise sobre o processo de construção democrática que se consolida agora, em 2011. Veja aqui, em "A longa construção", onde Delfim também cita a entrevista que fiz com Edmar Bacha, no fim de 2010.
Tenho comigo que a geração que vivemos só pode ser compreendida se lermos, com cuidado, o que escreveram André Singer sobre o lulismo e Marcos Nobre sobre o peemedebismo. Já escrevi sobre a tese de Singer, e espero, quando tiver tempo, escrever sobre a sacada de Nobre.
Enquanto isso, meus caros e queridas, não deixem de ler a entrevista, em "O cortejo do atraso".
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Quando falei da tese do lulismo, desenvolvida por Singer, falei também da ótima interpretação dada por Antônio Delfim Netto. Parece coincidência, mas vou aproveitar a sugestão à ideia do peemedebismo, criada por Nobre, para também sugerir outro do Delfim: ontem, no Valor, uma bela análise sobre o processo de construção democrática que se consolida agora, em 2011. Veja aqui, em "A longa construção", onde Delfim também cita a entrevista que fiz com Edmar Bacha, no fim de 2010.
terça-feira, 11 de janeiro de 2011
Os melhores filmes de 2010
Brasileiro: Viajo porque preciso, volto porque te amo
Um dos filmes mais belos que já assisti, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes.
Internacional: Film Socialisme, de Jean Luc Godard
Sou apaixonado por cinema, como os leitores cá do Blog bem sabem. E não costumo ceder perante os gênios máximos da arte, categoria onde poucos se inscrevem: Godard é um deles. Não quer dizer que ele acerte em tudo. Claro que não. Mas acertou em cheio em Film Socialisme, e levou, para este blogueiro que viu, por baixo, uns 80 filmes no ano, a escolha de melhor estrangeiro. Aliás, analistas muito melhores que eu também concordam com isso.
Pior filme: Tetro, de Francis Ford Coppola.
Para um sujeito que fez, só para ficar nos mais famosos, O Poderoso Chefão 1 e 2 (1972 e 74) e Appocalypse Now (1976), Tetro é não só um filme abaixo das expectativas -- infladas, por se tratar de um grande cineasta -- mas um filme ruim mesmo. Não há inovação na linguagem cinematográfica, algo que, ok, Coppola nunca teve, mas pior que isso: fracassa no grande diferencial do diretor, que é a capacidade de contar boas histórias.
O enredo de Tetro não passaria nem como trabalho de primeiro semestre do curso de cinema da Faap. E acreditem: há muito trabalho ruim por lá.
Um dos filmes mais belos que já assisti, de Karim Ainouz e Marcelo Gomes.
Internacional: Film Socialisme, de Jean Luc Godard
Sou apaixonado por cinema, como os leitores cá do Blog bem sabem. E não costumo ceder perante os gênios máximos da arte, categoria onde poucos se inscrevem: Godard é um deles. Não quer dizer que ele acerte em tudo. Claro que não. Mas acertou em cheio em Film Socialisme, e levou, para este blogueiro que viu, por baixo, uns 80 filmes no ano, a escolha de melhor estrangeiro. Aliás, analistas muito melhores que eu também concordam com isso.
Filme que mais me fez pensar: Tio Boonmee, de Apichatpong Weerasethakul.
Assiti na mostra de cinema deste ano, e, ao sair da sala, estava um tanto transtornado. Tinha gostado e, ao mesmo tempo, não achei nada sensacional. Aos poucos, no entanto, o filme foi crescendo. Isso é claramente um clichê, mas o blogueiro não tem como fugir disso.
Pior filme: Tetro, de Francis Ford Coppola.
Para um sujeito que fez, só para ficar nos mais famosos, O Poderoso Chefão 1 e 2 (1972 e 74) e Appocalypse Now (1976), Tetro é não só um filme abaixo das expectativas -- infladas, por se tratar de um grande cineasta -- mas um filme ruim mesmo. Não há inovação na linguagem cinematográfica, algo que, ok, Coppola nunca teve, mas pior que isso: fracassa no grande diferencial do diretor, que é a capacidade de contar boas histórias.
O enredo de Tetro não passaria nem como trabalho de primeiro semestre do curso de cinema da Faap. E acreditem: há muito trabalho ruim por lá.
segunda-feira, 10 de janeiro de 2011
Reformando a educação paulista
O primeiro post em dia útil do Blog no ano, na segunda-feira passada, 03 de janeiro, tratou de minha conversa com o novo secretário de Educação do Estado de São Paulo, Herman Voorwald, com quem conversei na cerimônia de posse, no dia 1º. Escrevi, no post, estar otimista.
Hoje, a Folha publica longa entrevista com Voorwald. Uma bela entrevista.
Destaco uma resposta, que deve ser lida com atenção. Numa só tacada, Voorwald acerta dois alvos: as péssimas administrações anteriores na área da educação paulista e a questão dos salários dos professores. Leiam a resposta do secretário que depois volto com um curto comentário.
***
Folha: Como o sr. avalia a rede, em termos de infraestrutura, de organização pedagógica?
Herman Voorwald: Ainda não conheço as escolas. Vamos fazer um diagnóstico, objetivando que a infraestrutura seja a ideal. De qualquer forma, tive um sentimento da rede de absoluto desconforto de como a administração entende o processo de educação. O sentimento é muito ruim. Senti uma desmotivação, uma leitura de desconsideração do papel do professor. Há o sentimento que o Estado não têm preocupação em formar bem os jovens. Esse sentimento não é bom. A fala foi geral, e a sinalização foi o quanto se paga para um professor que ingressa [R$ 1.835, para jornada de 40 horas semanais]. Como você quer ter alguém comprometido, formado em boa universidade?
***
Em sua resposta, Voorwald fala o que todos que moram e se preocupam com São Paulo já sabiam: as administrações de Gabriel Chalita, Maria Helena Guimarães Castro e Paulo Renato Souza foram muito ruins, para não dizer desastrosas. Pouco foi feito para ampliar ou modernizar a infraestrutura das escolas públicas, capacitar professores, reformar a progressão continuada, pensar alternativas para melhorar a qualidade do ensino, apoiar a customização de material escolar de alto nível, utilizar o poder de compra do Estado para impulsionar redes de ensino produtora de equipamentos e materiais.
Isso, é claro, para não falar nos ridículos salários dos professores.
Este é o outro ponto abordado por Voorwald na resposta à Folha. Como motivar alguém com boa qualificação à dar aula nas escolas públicas de São Paulo, com salários de R$ 1,8 mil, péssima infraestrutura, falta de diálogo com superiores (a Secretaria), e com um sistema perverso para a disciplina -- a progressão continuada? Você consegue fazer um sujeito formado na USP, com mestrado e cursos fora do país, dar aulas nessas condições?
Por isso, mais que qualquer política pública, se quisermos, como sociedade, melhorar os serviços públicos -- de escola, hospitais, policiais etc. -- é prioritário, repito, prioritário oferecer bons salários no funcionalismo.
Hoje, a Folha publica longa entrevista com Voorwald. Uma bela entrevista.
Destaco uma resposta, que deve ser lida com atenção. Numa só tacada, Voorwald acerta dois alvos: as péssimas administrações anteriores na área da educação paulista e a questão dos salários dos professores. Leiam a resposta do secretário que depois volto com um curto comentário.
***
Folha: Como o sr. avalia a rede, em termos de infraestrutura, de organização pedagógica?
Herman Voorwald: Ainda não conheço as escolas. Vamos fazer um diagnóstico, objetivando que a infraestrutura seja a ideal. De qualquer forma, tive um sentimento da rede de absoluto desconforto de como a administração entende o processo de educação. O sentimento é muito ruim. Senti uma desmotivação, uma leitura de desconsideração do papel do professor. Há o sentimento que o Estado não têm preocupação em formar bem os jovens. Esse sentimento não é bom. A fala foi geral, e a sinalização foi o quanto se paga para um professor que ingressa [R$ 1.835, para jornada de 40 horas semanais]. Como você quer ter alguém comprometido, formado em boa universidade?
***
Em sua resposta, Voorwald fala o que todos que moram e se preocupam com São Paulo já sabiam: as administrações de Gabriel Chalita, Maria Helena Guimarães Castro e Paulo Renato Souza foram muito ruins, para não dizer desastrosas. Pouco foi feito para ampliar ou modernizar a infraestrutura das escolas públicas, capacitar professores, reformar a progressão continuada, pensar alternativas para melhorar a qualidade do ensino, apoiar a customização de material escolar de alto nível, utilizar o poder de compra do Estado para impulsionar redes de ensino produtora de equipamentos e materiais.
Isso, é claro, para não falar nos ridículos salários dos professores.
Este é o outro ponto abordado por Voorwald na resposta à Folha. Como motivar alguém com boa qualificação à dar aula nas escolas públicas de São Paulo, com salários de R$ 1,8 mil, péssima infraestrutura, falta de diálogo com superiores (a Secretaria), e com um sistema perverso para a disciplina -- a progressão continuada? Você consegue fazer um sujeito formado na USP, com mestrado e cursos fora do país, dar aulas nessas condições?
Por isso, mais que qualquer política pública, se quisermos, como sociedade, melhorar os serviços públicos -- de escola, hospitais, policiais etc. -- é prioritário, repito, prioritário oferecer bons salários no funcionalismo.
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domingo, 9 de janeiro de 2011
Domingo
Carolina, nos seus olhos fundos guarda tanta dor, a dor de todo esse mundo
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajuda
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
Chico Buarque, compositor e escritor brasileiro.
Eu já lhe expliquei, que não vai dar, seu pranto não vai nada ajuda
Eu já convidei para dançar, é hora, já sei, de aproveitar
Lá fora, amor, uma rosa nasceu, todo mundo sambou, uma estrela caiu
Eu bem que mostrei sorrindo, pela janela, ah que lindo
Mas Carolina não viu...
Carolina, nos seus olhos tristes, guarda tanto amor, o amor que já não existe,
Eu bem que avisei, vai acabar, de tudo lhe dei para aceitar
Mil versos cantei pra lhe agradar, agora não sei como explicar
Lá fora, amor, uma rosa morreu, uma festa acabou, nosso barco partiu
Eu bem que mostrei a ela, o tempo passou na janela e só Carolina não viu.
Chico Buarque, compositor e escritor brasileiro.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
As medidas do Banco Central
Nunca apoiei muito as medidas do Banco Central, especialmente as tomadas entre o fim de 2004 -- quando começou a elevar os juros cedo e forte demais -- e o fim de 2008. O pior momento foi quando, em 22 de janeiro de 2007, dois dias depois do lançamento do PAC, quando todas as expectativas no governo e no país começavam a se virar para o crescimento, o BC, que então cortava a Selic em 0,75%, diminuiu o ritmo, apenas para demonstrar poder.
É do jogo, e um dia ainda escreverei um balanço da política econômica do governo Lula. E este será um episódio central quando for explicar os embates entre as alas ortodoxas e heterodoxas.
Pois bem. O BC, nos últimos dois meses, têm acertado muito.
Em dezembro, diante de um consumo muito acelerado das famílias, que estava transbordando para uma elevação do endividamento, o BC baixou uma série de medidas, que chamou de "macroprudenciais", que envolviam a elevação do compulsório dos bancos e a elevação do requerimento de capital para operações de empréstimos à pessoa física. As medidas visam amenizar o consumo desenfreado, sustentado por crédito.
É preciso, aqui, entender que consumo das famílias é algo ótimo. O leitor, quando tiver diante de si um economista que diz o contrário, saiba contraargumentar. Consumo das famílias é o que move o país, a economia, e o que traz bem-estar a todos. Um dos pilares da atuação estatal está em dar condições estruturais para que esse consumo seja impulsionado por questões sólidas. Ou seja, que o consumo seja estimulado por emprego e salário, e menos por crédito.
Crédito é importante? Claro que sim! Operações mais custosas, como compra de imóveis e bens mais caros, necessitam de operações creditícias. O problema aqui é quando o crédito começa a ficar grande demais, ocupando o espaço que deveria ser do emprego e do salário. No limite, poderia desembocar num processo terrível, que foi a crise econômica mundial de 2008, desencadeada pelos Estados Unidos.
Já vimos, aqui no Blog, que o rendimento das famílias americanas começou a cair a partir da metade dos anos 1970, quando o mercado financeiro começa a ganhar espaço, e o mercado de trabalho perder.
Não, não há nada disso ocorrendo no Brasil.
As medidas do BC, em dezembro, tinham o apropriado nome de "prudenciais". A ideia era ser prudente, para evitar a formação de uma bolha de crédito.
Ontem, o Banco Central acertou mais uma vez. Instituiu um compulsório de 60% sobre as operações dos bancos e instituições financeiras no mercado futuro que excederem US$ 3 bilhões ou o requerimento de capital. A medida acerta em cheio as enormes posições "vendidas" dos bancos em câmbio.
Vamos entender o que é isso, antes, para depois sacar porque o BC acertou a mão.
É o seguinte: as grandes especulações, pesadas mesmo, no país, rolam no mercado futuro. Lá, os bancos e instituições financeiras negociam contratos de câmbio e juros com liquidação futura, ou seja, que serão pagos em 30, 60 ou 90 dias. Os bancos compram um contrato de câmbio, por exemplo, apostando que o real vai se valorizar frente ao dólar em X % até o fim do mês. Se o real seguir a aposta, o banco recebe uma taxa de juros (a Selic). Se não seguir, o banco paga ao vendedor do contrato a variação cambial.
Como há de ocorrer no Brasil desde sempre, as expectativas do mercado financeiro são "auto-realizáveis".
Ou seja, a turma da bufunfa aposta que o dólar estará em R$ 1,64 no fim de janeiro. Daí, sai comprando cupom cambial de 30 dias (esse contratinho que expliquei acima) e fica montado na posição vendida. Só que, junto dele, outros trocentos de instituições fazem a mesma coisa.
Sabe quando você começa a acreditar que alguma coisa vai acontecer simplesmente porque está todo mundo falando? Então.
Quando chega o fim de janeiro, voilá, o dólar está aonde? Em R$ 1,64. Nossos amigos, então, embolsam a Selic do período -- lembrem-se, caros, a maior taxa de juros do mundo -- e, é claro, a variação cambial do período -- isto é, o deslize de R$ 1,67 para R$ 1,64.
Bom, né?
Ao instituir a cobrança do compulsório, o BC desestimula a formação dessas posições "vendidas" no mercado -- e também as "compradas", é claro. Assim, um caminho de apreciação cambial se fecha.
***
Só para não dizer que não falei das flores.
Não é que o mercado é mal e quer dominar o mundo. Não é isso. O mercado, como qualquer agente em um regime capitalista, procura se dar bem onde ele estiver. E vale dizer também que foi o BC quem primeiro estimulou as posições vendidas dos bancos.
Vou deixar para o repórter e grande amigo Eduardo Campos, do Valor, a explicação disso:
Em 2010, o fluxo cambial foi positivo em US$ 24,35 bilhões, mas as compras do BC somaram US$ 41,41 bilhões no mercado à vista, ou seja, além do fluxo ele absorveu outros US$ 17 bilhões. Se o BC compra, alguém vende. E, no caso, são os bancos que ofertaram moeda, fechando o ano vendidos em US$ 16,8 bilhões. Quem está vendido em dólar não tem interesse de ver as cotações avançarem, pois perde dinheiro com isso. No fim das contas, forma-se uma relação vantajosa para as duas partes. Os bancos conseguem captar reais de forma barata, pois levantam dólares no mercado externo sabendo que o BC vai comprar, depois investem os reais no mercado doméstico, ganhando o diferencial de juros. Já o BC conta um aliado na manutenção de um dólar baixo, o que reduz o impacto da inflação importada e permite menos uso de taxa de juros.
Aliás, na nota do Edu, há uma boa sacada, do economista Sidney Nehme, que avalia que essa medida do BC é a primeira sinalização de que o câmbio não será mais utilizado para combate a inflação.
Faz sentido, mas isso é tema para outro post. Porque os leitores não merecem tanto economês em plena sexta-feira de janeiro.
É do jogo, e um dia ainda escreverei um balanço da política econômica do governo Lula. E este será um episódio central quando for explicar os embates entre as alas ortodoxas e heterodoxas.
Pois bem. O BC, nos últimos dois meses, têm acertado muito.
Em dezembro, diante de um consumo muito acelerado das famílias, que estava transbordando para uma elevação do endividamento, o BC baixou uma série de medidas, que chamou de "macroprudenciais", que envolviam a elevação do compulsório dos bancos e a elevação do requerimento de capital para operações de empréstimos à pessoa física. As medidas visam amenizar o consumo desenfreado, sustentado por crédito.
É preciso, aqui, entender que consumo das famílias é algo ótimo. O leitor, quando tiver diante de si um economista que diz o contrário, saiba contraargumentar. Consumo das famílias é o que move o país, a economia, e o que traz bem-estar a todos. Um dos pilares da atuação estatal está em dar condições estruturais para que esse consumo seja impulsionado por questões sólidas. Ou seja, que o consumo seja estimulado por emprego e salário, e menos por crédito.
Crédito é importante? Claro que sim! Operações mais custosas, como compra de imóveis e bens mais caros, necessitam de operações creditícias. O problema aqui é quando o crédito começa a ficar grande demais, ocupando o espaço que deveria ser do emprego e do salário. No limite, poderia desembocar num processo terrível, que foi a crise econômica mundial de 2008, desencadeada pelos Estados Unidos.
Já vimos, aqui no Blog, que o rendimento das famílias americanas começou a cair a partir da metade dos anos 1970, quando o mercado financeiro começa a ganhar espaço, e o mercado de trabalho perder.
Não, não há nada disso ocorrendo no Brasil.
As medidas do BC, em dezembro, tinham o apropriado nome de "prudenciais". A ideia era ser prudente, para evitar a formação de uma bolha de crédito.
Ontem, o Banco Central acertou mais uma vez. Instituiu um compulsório de 60% sobre as operações dos bancos e instituições financeiras no mercado futuro que excederem US$ 3 bilhões ou o requerimento de capital. A medida acerta em cheio as enormes posições "vendidas" dos bancos em câmbio.
Vamos entender o que é isso, antes, para depois sacar porque o BC acertou a mão.
É o seguinte: as grandes especulações, pesadas mesmo, no país, rolam no mercado futuro. Lá, os bancos e instituições financeiras negociam contratos de câmbio e juros com liquidação futura, ou seja, que serão pagos em 30, 60 ou 90 dias. Os bancos compram um contrato de câmbio, por exemplo, apostando que o real vai se valorizar frente ao dólar em X % até o fim do mês. Se o real seguir a aposta, o banco recebe uma taxa de juros (a Selic). Se não seguir, o banco paga ao vendedor do contrato a variação cambial.
Como há de ocorrer no Brasil desde sempre, as expectativas do mercado financeiro são "auto-realizáveis".
Ou seja, a turma da bufunfa aposta que o dólar estará em R$ 1,64 no fim de janeiro. Daí, sai comprando cupom cambial de 30 dias (esse contratinho que expliquei acima) e fica montado na posição vendida. Só que, junto dele, outros trocentos de instituições fazem a mesma coisa.
Sabe quando você começa a acreditar que alguma coisa vai acontecer simplesmente porque está todo mundo falando? Então.
Quando chega o fim de janeiro, voilá, o dólar está aonde? Em R$ 1,64. Nossos amigos, então, embolsam a Selic do período -- lembrem-se, caros, a maior taxa de juros do mundo -- e, é claro, a variação cambial do período -- isto é, o deslize de R$ 1,67 para R$ 1,64.
Bom, né?
Ao instituir a cobrança do compulsório, o BC desestimula a formação dessas posições "vendidas" no mercado -- e também as "compradas", é claro. Assim, um caminho de apreciação cambial se fecha.
***
Só para não dizer que não falei das flores.
Não é que o mercado é mal e quer dominar o mundo. Não é isso. O mercado, como qualquer agente em um regime capitalista, procura se dar bem onde ele estiver. E vale dizer também que foi o BC quem primeiro estimulou as posições vendidas dos bancos.
Vou deixar para o repórter e grande amigo Eduardo Campos, do Valor, a explicação disso:
Em 2010, o fluxo cambial foi positivo em US$ 24,35 bilhões, mas as compras do BC somaram US$ 41,41 bilhões no mercado à vista, ou seja, além do fluxo ele absorveu outros US$ 17 bilhões. Se o BC compra, alguém vende. E, no caso, são os bancos que ofertaram moeda, fechando o ano vendidos em US$ 16,8 bilhões. Quem está vendido em dólar não tem interesse de ver as cotações avançarem, pois perde dinheiro com isso. No fim das contas, forma-se uma relação vantajosa para as duas partes. Os bancos conseguem captar reais de forma barata, pois levantam dólares no mercado externo sabendo que o BC vai comprar, depois investem os reais no mercado doméstico, ganhando o diferencial de juros. Já o BC conta um aliado na manutenção de um dólar baixo, o que reduz o impacto da inflação importada e permite menos uso de taxa de juros.
Aliás, na nota do Edu, há uma boa sacada, do economista Sidney Nehme, que avalia que essa medida do BC é a primeira sinalização de que o câmbio não será mais utilizado para combate a inflação.
Faz sentido, mas isso é tema para outro post. Porque os leitores não merecem tanto economês em plena sexta-feira de janeiro.
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quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
O Brasil, visto de dentro
Quando li o texto da Tina Rosenberg, do New York Times, falando do Bolsa Família, logo pensei no preconceito dos endinheirados brasileiros quanto ao programa. Hoje, início de 2011, nem parece, mas lá trás, em 2004 e 2005, quando o Bolsa Família começou a ganhar musculatura, a turma da bufunfa, para parafrasear Paulo Nogueira Batista Jr., chamava o programa de "Bolsa Vagabundo".
Hoje, depois que 24 milhões de pobres ingressaram na classe média devido ao Bolsa Família -- e ao aumento do salário mínimo, frise-se -- em apenas sete anos (2003-2009), fica claro o efeito para o conjunto da economia que a transferência direta de renda teve. O efeito foi poderoso e ajudou, também, os endinheirados.
Há uma regra básica na economia: crescimento, acima de uma faixa de 4%, impulsiona quase todo mundo do país. Como, em 2010, crescemos algo como 7,5% a 8%, difícil pensar alguém que não tenha ganhado com isso.
Mas, mais que isso, refletindo sobre o texto da Tina, no NYT, lembrei do inesquecível Henfil. Suas tirinhas sempre tratavam do brasileiro com ironia, especialmente o andar de cima, para usar termos de Elio Gaspari. Uma tira, em especial, me veio a cabeça. Graças a internet, aí vai a tira:
O brasileiro da classe média tradicional -- aquela que era classe média nos anos 70 e 80, quando o Brasil era o país mais desigual do mundo -- sentado ao sofá, quer ver seu país dar certo. Então, aplaude a economia dos militares sob-Médici, que crescia para poucos e matando muitos, aplaude a seleção brasileira que ganha Copa, mesmo que a maioria da sociedade não tenha televisão para assistir.
Dá uma saudade enorme do Henfil e uma alegria enorme de um tempo que está cada vez mais distante no passado.
Continuemos assim, pois.
***
Atualização de 10/01/2011, às 15:16
Por Paulodaluzmoreira:
Há poucos dias postei um email "indignado" que recebi faz tempo com a história de um porteiro de prédio com três filhos que teria parado de trabalhar para viver de benefícios do governo. Nessa classe média conservadora ninguém se indigna com um pai de três filhos ganhar uma miséria mas todos se desesperam com a perspectiva de viver num prédio sem porteiro porque não tem dinheiro para pagar um salário decente e não tem ninguém que aceite trabalhar por uma miséria. O pesadelo da classe média brasileira é ter que lavar seu banheiro e suas próprias roupas!
Hoje, depois que 24 milhões de pobres ingressaram na classe média devido ao Bolsa Família -- e ao aumento do salário mínimo, frise-se -- em apenas sete anos (2003-2009), fica claro o efeito para o conjunto da economia que a transferência direta de renda teve. O efeito foi poderoso e ajudou, também, os endinheirados.
Há uma regra básica na economia: crescimento, acima de uma faixa de 4%, impulsiona quase todo mundo do país. Como, em 2010, crescemos algo como 7,5% a 8%, difícil pensar alguém que não tenha ganhado com isso.
Mas, mais que isso, refletindo sobre o texto da Tina, no NYT, lembrei do inesquecível Henfil. Suas tirinhas sempre tratavam do brasileiro com ironia, especialmente o andar de cima, para usar termos de Elio Gaspari. Uma tira, em especial, me veio a cabeça. Graças a internet, aí vai a tira:
O brasileiro da classe média tradicional -- aquela que era classe média nos anos 70 e 80, quando o Brasil era o país mais desigual do mundo -- sentado ao sofá, quer ver seu país dar certo. Então, aplaude a economia dos militares sob-Médici, que crescia para poucos e matando muitos, aplaude a seleção brasileira que ganha Copa, mesmo que a maioria da sociedade não tenha televisão para assistir.
Dá uma saudade enorme do Henfil e uma alegria enorme de um tempo que está cada vez mais distante no passado.
Continuemos assim, pois.
***
Atualização de 10/01/2011, às 15:16
Por Paulodaluzmoreira:
Há poucos dias postei um email "indignado" que recebi faz tempo com a história de um porteiro de prédio com três filhos que teria parado de trabalhar para viver de benefícios do governo. Nessa classe média conservadora ninguém se indigna com um pai de três filhos ganhar uma miséria mas todos se desesperam com a perspectiva de viver num prédio sem porteiro porque não tem dinheiro para pagar um salário decente e não tem ninguém que aceite trabalhar por uma miséria. O pesadelo da classe média brasileira é ter que lavar seu banheiro e suas próprias roupas!
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
Interlúdio
Da série "Grandes momentos de 2010"
No primeiro turno das eleições, o Valor destacou repórteres para ficar na redação, ligados nas notícias regionais, e outros para seguirem os principais candidatos. Acompanhei Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), no que foi um dos domingos mais interessantes para o repórter -- que, lembrem-se, estava em Ancara, capital da Turquia, com o presidente do Banco Central turco quando foi anunciado o acordo entre Brasil e Turquia envolvendo o programa de enriquecimento de urânio do Irã.
Estava lá eu, às oito da matina, na casa de Plínio, com garoa fina e tempo frio. Falei com ele em casa, o segui para o colégio eleitoral -- onde um batalhão de repórteres o esperavam para as tradicionais entrevistas "quebra-queixos" -- e, de lá, voltei para sua casa, onde sentamos, em seu escritório, por mais de uma hora. O papo começou em 2010, Dilma, Serra e Marina, e foi parar nas lambanças de Lott para destacar a tentativa de golpe nas eleições de 1955.
A foto, captada pelo fotógrafo e amigo Régis Filho, pega bem a empatia do momento.
No primeiro turno das eleições, o Valor destacou repórteres para ficar na redação, ligados nas notícias regionais, e outros para seguirem os principais candidatos. Acompanhei Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), no que foi um dos domingos mais interessantes para o repórter -- que, lembrem-se, estava em Ancara, capital da Turquia, com o presidente do Banco Central turco quando foi anunciado o acordo entre Brasil e Turquia envolvendo o programa de enriquecimento de urânio do Irã.
Estava lá eu, às oito da matina, na casa de Plínio, com garoa fina e tempo frio. Falei com ele em casa, o segui para o colégio eleitoral -- onde um batalhão de repórteres o esperavam para as tradicionais entrevistas "quebra-queixos" -- e, de lá, voltei para sua casa, onde sentamos, em seu escritório, por mais de uma hora. O papo começou em 2010, Dilma, Serra e Marina, e foi parar nas lambanças de Lott para destacar a tentativa de golpe nas eleições de 1955.
A foto, captada pelo fotógrafo e amigo Régis Filho, pega bem a empatia do momento.
O Brasil, visto de fora
Tina Rosenberg é um daqueles talentos natos. Quando surgiu, como editorialista do New York Times, tinha o texto mais cristalino e menos burocrático daquele seleto grupo, famoso por ser fechado e afeito a tecnicalidades. Depois, Tina escreveu um belo livro "The Haunted Land", que lhe valeu um prêmio Pulitzer. Hoje, ela escreve para a revista que o jornal circula aos domingos.
Sabem qual foi o texto mais recente de Tina, publicado neste domingo, dia 02 de janeiro?
Uma análise sobre o Brasil, num ótimo texto. Deveria, como a coluna de Maria Rita Khel no Estadão, em outubro, ser distribuído por e-mail para todos os brasileiros que recebem mais de R$ 10 mil por mês. Para acabar de vez com o preconceito burro de achar que Bolsa Família ajuda vagabundo.
Porque mais grotesco que viver em um país onde ainda vemos 12 milhões de famílias vivendo com nada, é viver em um país onde sujeito que gasta R$ 220 num sapato chama de vagabundo quem vive com metade disso por mês.
Receber R$ 110 por mês para pagar arroz, farinha, água e luz não é mole. Quem sabe agora que uma estrangeira diz o negócio fique mais claro.
Sabem qual foi o texto mais recente de Tina, publicado neste domingo, dia 02 de janeiro?
Uma análise sobre o Brasil, num ótimo texto. Deveria, como a coluna de Maria Rita Khel no Estadão, em outubro, ser distribuído por e-mail para todos os brasileiros que recebem mais de R$ 10 mil por mês. Para acabar de vez com o preconceito burro de achar que Bolsa Família ajuda vagabundo.
Porque mais grotesco que viver em um país onde ainda vemos 12 milhões de famílias vivendo com nada, é viver em um país onde sujeito que gasta R$ 220 num sapato chama de vagabundo quem vive com metade disso por mês.
Receber R$ 110 por mês para pagar arroz, farinha, água e luz não é mole. Quem sabe agora que uma estrangeira diz o negócio fique mais claro.
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terça-feira, 4 de janeiro de 2011
Uma honra
Estar no Top 10 do Alexandre Inagaki na lista dos melhores blogs de 2010 é o maior reconhecimento que esse Blog poderia receber. O Inagaki é um dos caras mais capazes da blogosfera (e com um ótimo twitter). Reforço os agradecimentos aos mais de 500 leitores que visitam diariamente o Blog -- continuo sem entender porque vocês vêm aqui -- e um grande abraço no Inagaki.
Obrigado.
Obrigado.
segunda-feira, 3 de janeiro de 2011
A reforma na educação de São Paulo
Não é de hoje que os alunos das escolas públicas paulistas tem as piores notas nas provas nacionais e internacionais. Não obstante, São Paulo é o único Estado que têm, desde 1998, a política de "progressão continuada", que, em outras palavras, significa "passar de ano mesmo tirando zero em tudo".
A progressão continuada tem um peso muito importante, ao praticamente exterminar a evasão escolar. Isso porque as crianças, antes desmotivadas pela repetência, deixavam a escola. Com a progressão continuada, Mário Covas (PSDB) pensou em manter as crianças na escola.
De fato, os trabalhadores paulistas passaram a ingressar no mercado de trabalho com ensino médio concluído. Mas quase analfabetos.
Ou seja, o primeiro passo de resolver o grave problema de educação no Brasil, de colocar as crianças nas escolas, já foi resolvido, mas já está mais do que na hora de dar qualidade à turma que está lá sentada nas cadeiras olhando o professor.
O Estado de São Paulo está atrasado nisso. Mas, ao menos agora, o jogo deve mudar.
No sábado 1º de janeiro pela manhã, estive no Palácio dos Bandeirantes para acompanhar a posse de Geraldo Alckmin (PSDB) e de seus 22 secretários. Pelo Valor, produzi as matérias que o jornal publica hoje. Conversei com muita gente, mas foi a conversa com o novo secretário de Educação, Herman Voorwald, que mais me animou.
Voorwald afirmou que está com um projeto prontinho para sair do forno que pretende "revisar" a progressão continuada. A ideia é a seguinte: a progressão continuada continua, mas as escolas farão uma prova em intervalos periódicos para testar o conhecimento adquirido pelos estudantes. Se ficar claro que o aluno não aprendeu o necessário até aquele momento em que a prova é realizada, ele vai repetir de ano.
Mas não é só isso. Voorwald foi enfático em dizer que "sua prioridade absoluta será motivar o quadro de professores". Porque, como bem sabe o leitor, do que basta repetir de ano se o conteúdo continua muito ruim? Assim, a reforma precisa atacar várias frentes. O objetivo de Voorwald é trazer o professor "para dentro" da secretaria, ou, na suas palavras: "mostrar ao professor que a secretaria está sendo tocada por um professor, que continuará dando aulas mesmo quando está no governo, e que entende suas dificuldades salariais e motivacionais".
O projeto de revisão da progressão continuada não será aprovado de cima para baixo. Ele será apresentado hoje, a partir das 8h30min, na reunião que o secretário da Casa Civil Sidney Beraldo convocou com todos os 22 secretários do Estado para debater planos prioritários de cada pasta e limites orçamentários para tanto. Em seguida, o projeto será apresentado ao corpo docente de professores das escolas públicas, que terão espaço para opinar.
"Professor quer fazer parte da discussão, quer participar do projeto. Só assim dará certo", diz Voorwald, que, reitor da Unesp, chama a atenção para o caso das três universidades públicas do Estado de São Paulo. "Veja o caso da Unesp, da Unicamp e da USP", diz ele, "elas nunca se destacaram por suas instalações físicas, mas pela qualidade dos seus quadros, e é isso que eu quero expandir".
Se o projeto vai dar certo, eu não sei -- e nem Voorwald tem como saber. Trata-se de um plano, pensado em diferentes vertentes, que pode dar certo ou errado, ou ainda nem sequer sair do papel. Qualquer um que acompanha política e setor público há algum tempo sabe que nem sempre grandes ideias são recebidas de forma amistosa pelos agentes. Mas, ao menos, podemos ficar otimistas -- e o blogueiro está -- com o fato de que tem gente pensando.
No fundo, meus amigos e amigas, o mais importante é isso. Precisamos reaprender a pensar e estudar os problemas.
***
Atualização de 04/01/2011, às 12h54min
Da série "Como antecipou o Blog..."
Alckmin vai mudar a progressão continuada na rede de ensino a partir de 2012, Folha de S.Paulo, 04/01/2011.
A progressão continuada tem um peso muito importante, ao praticamente exterminar a evasão escolar. Isso porque as crianças, antes desmotivadas pela repetência, deixavam a escola. Com a progressão continuada, Mário Covas (PSDB) pensou em manter as crianças na escola.
De fato, os trabalhadores paulistas passaram a ingressar no mercado de trabalho com ensino médio concluído. Mas quase analfabetos.
Ou seja, o primeiro passo de resolver o grave problema de educação no Brasil, de colocar as crianças nas escolas, já foi resolvido, mas já está mais do que na hora de dar qualidade à turma que está lá sentada nas cadeiras olhando o professor.
O Estado de São Paulo está atrasado nisso. Mas, ao menos agora, o jogo deve mudar.
No sábado 1º de janeiro pela manhã, estive no Palácio dos Bandeirantes para acompanhar a posse de Geraldo Alckmin (PSDB) e de seus 22 secretários. Pelo Valor, produzi as matérias que o jornal publica hoje. Conversei com muita gente, mas foi a conversa com o novo secretário de Educação, Herman Voorwald, que mais me animou.
Voorwald afirmou que está com um projeto prontinho para sair do forno que pretende "revisar" a progressão continuada. A ideia é a seguinte: a progressão continuada continua, mas as escolas farão uma prova em intervalos periódicos para testar o conhecimento adquirido pelos estudantes. Se ficar claro que o aluno não aprendeu o necessário até aquele momento em que a prova é realizada, ele vai repetir de ano.
Mas não é só isso. Voorwald foi enfático em dizer que "sua prioridade absoluta será motivar o quadro de professores". Porque, como bem sabe o leitor, do que basta repetir de ano se o conteúdo continua muito ruim? Assim, a reforma precisa atacar várias frentes. O objetivo de Voorwald é trazer o professor "para dentro" da secretaria, ou, na suas palavras: "mostrar ao professor que a secretaria está sendo tocada por um professor, que continuará dando aulas mesmo quando está no governo, e que entende suas dificuldades salariais e motivacionais".
O projeto de revisão da progressão continuada não será aprovado de cima para baixo. Ele será apresentado hoje, a partir das 8h30min, na reunião que o secretário da Casa Civil Sidney Beraldo convocou com todos os 22 secretários do Estado para debater planos prioritários de cada pasta e limites orçamentários para tanto. Em seguida, o projeto será apresentado ao corpo docente de professores das escolas públicas, que terão espaço para opinar.
"Professor quer fazer parte da discussão, quer participar do projeto. Só assim dará certo", diz Voorwald, que, reitor da Unesp, chama a atenção para o caso das três universidades públicas do Estado de São Paulo. "Veja o caso da Unesp, da Unicamp e da USP", diz ele, "elas nunca se destacaram por suas instalações físicas, mas pela qualidade dos seus quadros, e é isso que eu quero expandir".
Se o projeto vai dar certo, eu não sei -- e nem Voorwald tem como saber. Trata-se de um plano, pensado em diferentes vertentes, que pode dar certo ou errado, ou ainda nem sequer sair do papel. Qualquer um que acompanha política e setor público há algum tempo sabe que nem sempre grandes ideias são recebidas de forma amistosa pelos agentes. Mas, ao menos, podemos ficar otimistas -- e o blogueiro está -- com o fato de que tem gente pensando.
No fundo, meus amigos e amigas, o mais importante é isso. Precisamos reaprender a pensar e estudar os problemas.
***
Atualização de 04/01/2011, às 12h54min
Da série "Como antecipou o Blog..."
Alckmin vai mudar a progressão continuada na rede de ensino a partir de 2012, Folha de S.Paulo, 04/01/2011.
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domingo, 2 de janeiro de 2011
sábado, 1 de janeiro de 2011
E o que fica para 2011...
Assim como Joaquim Manuel de Macedo, em seu "A Moreninha", de 1844, criou Carolina como protagonista, e Chico Buarque, em seu maravilhoso terceiro disco, de 1968, fez a bela "Carolina", que nada via acontecer, este blogueiro tinha de ter sua Carolina, que é moreninha, mas vê muito acontecer.
Foto tirada há quinze dias, num raro dia de folga deste blogueiro, aproveitado, como há de ser, com a moreninha Carolina.
***
O blogueiro está, desde as 11h, no Palácio dos Bandeirantes, onde acompanha, pelo Valor, a posse do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e de seus 22 secretários.
Se deixar, 2011 será um 2010 acelerado: muito trabalho e muito Carolina.
Um ótimo ano a todos os leitores do Blog.
Foto tirada há quinze dias, num raro dia de folga deste blogueiro, aproveitado, como há de ser, com a moreninha Carolina.
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O blogueiro está, desde as 11h, no Palácio dos Bandeirantes, onde acompanha, pelo Valor, a posse do governador Geraldo Alckmin (PSDB) e de seus 22 secretários.
Se deixar, 2011 será um 2010 acelerado: muito trabalho e muito Carolina.
Um ótimo ano a todos os leitores do Blog.
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