Até agosto, o Brasil passou intacto por toda a quebradeira econômica na União Europeia. Foi, no entanto, no fim daquele mês que os primeiros sinais da atividade começaram à apontar desaquecimento -- os empresários estavam começando a ficar muito assustados com as perspectivas econômicas mundiais, e, com isso, começavam a reduzir o ímpeto de contratação de crédito para investimentos; ao mesmo tempo, os bancos começavam a endurecer os empréstimos, até porque as amarras colocadas pelo governo desde dezembro de 2010 eram firmes; as famílias, mais assustadas, começaram a pensar duas vezes antes de consumir; e o mercado de trabalho não parecia sustentar mais o mesmo entusiasmo.
Isso ficou claro para os diretores do Banco Central (BC), que em 31 de agosto surpreenderam o mercado com um corte de 0,5 ponto percentual das taxas de juros.
O BC foi duramente criticado pelos economistas do mercado e pela mídia, que entendia que as pressões inflacionárias ainda eram fortes e que o cenário da economia era ainda de aquecimento, não necessitando, portanto, de um estímulo por parte do Banco Central.
Mas o BC estava correto.
Os meses de setembro, outubro e novembro foram péssimos para a economia brasileira.
A economia, rigorosamente, parou.
O dado mais recente deste período, divulgado hoje, deixa claro: foram criadas apenas 42 mil vagas formais em novembro -- resultado muito abaixo mesmo das previsões mais pessimistas, que apontavam saldo de 70 mil postos de trabalho.
Frear em setembro, outubro e novembro é algo péssimo, uma vez que este é o período mais forte da atividade, quando as empresas, em todos os setores, contratam mais mão de obra, aceleram os investimentos e sua produção, de forma a abrir terreno e preparar estoques para o forte consumo de dezembro.
A crise mundial de 2008 foi grave do jeito que foi também por um efeito calendário: ao explodir em 15 de setembro, com a falência do Lehman Brothers, a crise desencadeou um travamento do mercado de crédito justamente no momento em que os empréstimos bancários às empresas e consumidores são mais importantes.
Foi, guardadas as devidas proporções, o que se repetiu neste setembro, outubro e novembro de 2011.
O governo ficou um tanto desorientado, em setembro, com os indicadores da atividade mostrando claro desaquecimento, mas com os dados de julho e agosto sendo divulgados, e ainda apontando muita força.
A reação mesmo veio em outubro, quando enfim toda a equipe econômica se deu conta de que o buraco era mais embaixo e que o Brasil não estava imune à decadência europeia.
Estímulos foram dados à indústria automobilística e de eletrodomésticos, além da retirada das amarras ao crédito, com a desarticulação, em novembro, das medidas macroprudenciais de controle do crédito, baixadas em dezembro de 2010, e com a redução do IOF sobre os empréstimos ao consumidor, em 1º de dezembro. Além disso, o BC continuou sua trajetória de corte dos juros.
O mês de dezembro, indicam as primeiras leituras do governo, já registra um início de resposta. O consumo das famílias ainda é fortíssimo, e o BC estima que o mês de dezembro é tão forte pelo lado da demanda, que representa até um terço de todo o consumo das famílias no Brasil.
Estamos vivendo agora o início da recuperação, que só será acelerada mesmo a partir de janeiro, com o reajuste de 14,7% do salário mínimo -- que, como vimos aqui no Blog ontem, será de R$ 625,00 por mês.
A luta do governo Dilma Rousseff será fazer com que 2012 não repita o crescimento de 3% que o Produto Interno Bruto (PIB) de 2011.
Há de ser de no mínimo 4,5%, disse Dilma na última sexta-feira. À boca pequena, a equipe econômica entende que o PIB pode crescer 4%, mas menos que isso será intolerável por Dilma, que não gostou do resultado fraco de 2011.
A questão passará a ser a compatibilização de novos estímulos à atividade, de forma a sustentar uma aceleração da economia para um PIB de 4% ou 4,5% em 2012, com a perseguição de uma meta muito ousada de superávit primário, que deve ser de 3,1% do PIB no ano que vem.
O Blog ainda quer entender como o governo espera fazer as duas coisas.

6 comentários:
Creio que uma possibilidade é um corte mais agressivo na taxa de juros, não?
Voce nao vai comentar nada sobre o livro "Privataria Tucana"? Saiu um importante livro sobre um dos mais importantes fatos da historia recente e é o maior sucesso editorial do Brasil e a mídia fica calada.
Simplesmente ele não vai. O que é uma pena. E o pior vai ser se a França for atingida. Para você, quem cai primeiro? Itália França ou Espanha?
Caro Anônimo,
Só posso comentar qualquer coisa sobre o "Privataria Tucana" quando ler o livro. Sem ter lido, como posso escrever qualquer coisa?
O livro saiu tem duas semanas, e onde procurei não achei. Leio tudo muito rápido, então quando encontrá-lo, em pouco tempo já terei lido e um comentário aqui no Blog pode vir.
Agora não espere encontrar aqui comentário parecido com o lixo estrondoso que circula na blogosfera ou no Facebook, onde fica uma turminha petista tendo orgasmo com o livro (e ignorando o último capítulo, que trata da máfia interna do PT na campanha de Dilma Rousseff em 2010); e do outro lado a turmina tucana ignorando completamente o livro, como se um best-seller nacional pudesse ser ignorado.
O livro do Amaury Ribeiro Jr. é um best-seller, e não concordo com o silêncio dos jornais, das revistas e das rádios.
Repito: quando eu conseguir achar uma cópia do livro, e ler o material, comentarei aqui no Blog.
Att.
Exatamente leiterafaelo!
A grande saída para o governo seria um corte ainda mais drástico nos juros, levando a Selic para 8% ou um pouco menos (entre 7,75% e 7,5%) no fim do ano, de forma a abrir espaço para melhores condições creditícias e, principalmente, para melhor manejo das contas públicas -- principalmente em 2013, quando o efeito dos cortes da Selic seriam mais concentrados.
Abração
Um corte radical das taxas de juros aumentaria a arrecadação pela queda das despesas com encargos e pelo aumento do crescimento-arrecadação. Será que não é melhor se concentrar na evolução do déficit nominal ao invés do superávit primário? (lembro de ver uma citação do Simonsen, "déficit é déficit")
PS: comecei a frequentar o blog esse ano, e gostei muito! Um grande abraço, boas festas, e muita chuva pra você ai em Brasília
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