domingo, 11 de setembro de 2011

Domingo

Corre e não olhe para trás, João.
Corri muito, como nunca tinha corrido até então. Nunca mais corri tanto em toda a minha vida. E com essa maldita dor nas costas que sinto desde fevereiro, sinto que nunca voltarei a correr como corri naquele dia.

Arthur era, provavelmente, o rapaz mais insuportável que eu conhecia. Gordo que começava a esticar com o inicio da adolescência, o rapaz estava com aspecto forte, e voz que engrossara rápido. Era maior que eu, que, mirrado, só esticaria mesmo aos 15.

Tinha em mim a figura do que há de errado no mundo. Aos treze, eu já tinha perdido a virgindade que ele só iria perder aos 15, e, diferente do que a maioria, não tinha perdido pagando por aquilo. Como era falastrão, fiz com que as pessoas certas soubessem daquilo, de forma a atestar minha "larga experiência no assunto". Além disso, tinha uma banda, começava a deixar o cabelo crescer e os olhos claros causavam alvoroço nas festinhas do colégio.

Os garotos de 13 anos são divididos em dois: aqueles que são tímidos e aqueles que acham que são muito melhores que qualquer um. Este que vos fala, evidentemente, pertencia ao segundo grupo.

Mas Arthur era muito melhor que eu no futebol, e também muito mais esperto em se livrar da marcação dos professores mais rígidos. Também tinha uma turma enorme do lado dele, algo que eu nunca tive, porque flertava com meio mundo e, claro, fechava portas com a mesma facilidade que as abria com meu jeito extremamente seguro de si.

Arthur começara, então, um boato insuportável. Dissera que eu fazia coisas que eu não fazia. Como sempre ocorre quando temos 13 anos, aqueles boatos ganharam uma força insuportável.

Era bullying aquilo? Não faço a mínima ideia. Sei que Arthur costumava encher o saco de todos aqueles que não faziam parte de sua turma, algo que eu e meus amigos nos enquadrávamos perfeitamente.

Comigo, no entanto, a perseguição era mais acirrada porque eu me dava bem naquilo que ele tanto queria. E, óbvio, me irritava o fato de ele ser melhor que eu em outras coisas.

Foram meses insuportáveis aqueles. Não conseguia evitar que aquele maldito boato se espalhasse. E nem as férias foram capazes de cortar aquilo. Era preciso fazer alguma coisa.

Foi a única vez que briguei em minha vida.

De porte do apagador de giz que os professores usavam no quadro, caminhei pelos corredores atrás de Arthur, numa terça-feira paulistana de chuva fina. Entramos em uma das salas vazias dos enormes corredores do colégio.

Bati aquele apagador com uma força desproporcional em sua cabeça. Mas como o sujeito era grande, ele ainda desferiu um soco em cheio no meu abdome, antes dos dois se engalfinharem no chão daquela sala vazia. No meio da briga, Arthur sacodiu o corpo e levou a mão à cabeça. O golpe que tinha dado fizera efeito retardado, e o rapaz estava tremendo.

Parei, assustado. Foram dez segundos de tempo paralisado. Ele parou de tremer, mas continuava se contorcendo de dor. Nos olhamos. Foi provavelmente a primeira vez que nos olhamos.

Lá fora, os passos do bedel, a que chamávamos de vigia, anunciavam a figura do adulto que fatalmente nos conduziria à direção da escola e esta à expulsão.

Arthur, então, me dirigiu pela primeira vez a palavra, sem que aquilo que diria tivesse qualquer sentido de sacanagem comigo: Corre e não olhe para trás, João.

Corremos os dois como condenados em fuga à redentora liberdade.

Voltamos a nos ver uma semana depois. Eu com o corpo todo doendo e ele com um galo enorme na cabeça. Éramos estranhos um ao outro. Nunca mais nos falamos. O boato sumira na mesma velocidade que nossa rivalidade, que também não tinha nenhuma explicação lógica para existir. Erámos dois potes de hormônios que rivalizavam por uma questão irracional.

Corria o segundo semestre de 2001. E o ataque terrorista às Torres Gêmeas do World Trade Center em NY era a segunda coisa mais importante das nossas vidas.

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