quinta-feira, 11 de agosto de 2011

O salão oval de Brasília

Imagine, caro leitor, uma grande sala, no segundo andar do Palácio do Planalto, a edificação onde funciona a Presidência da República -- uma das três construções da Praça dos Três Poderes, todos desenhados por Oscar Niemeyer entre 1957 e 1959, e inaugurados em abril de 1960. O Palácio do Planalto, ou simplesmente Planalto, fica do outro lado da praça, em frente ao Supremo Tribunal Federal (STF), com as duas cubas e as duas torres do Congresso Nacional a sua direita.

São quatro andares. No primeiro, o térreo, um amplo salão, com o comitê de imprensa à esquerda de quem entra. A famosa rampa, do lado de fora, leva ao terceiro andar, onde fica a Presidência e seu assessor-geral -- hoje, essas salas são ocupadas por Dilma Rousseff e Marco Aurélio Garcia. No segundo andar, fica a assessoria de imprensa e a sala de reuniões ministeriais. No quarto, temos a Casa Civil (hoje ocupada por Gleisi Hoffmann), Relações Institucionais (Ideli Salvatti) e Secretaria-Geral (Gilberto Carvalho).

Mas a grande sala que solicitei ao leitor imaginar fica no segundo andar -- a sala de reuniões ministeriais.

Imagine uma sala enorme, com uma mesa, que parece interminável, no centro. São 37 cadeiras, para os 37 ministros. Todas elas são desenhadas por Sergio Rodrigues. Os móveis são de Oscar Niemeyer, que também assina o projeto da sala -- que é, por si só, uma maravilha. Chama-se de "Reunião Suprema".

Em fevereiro de 1990, a um mês de assumir a Presidência, Fernando Collor fez uma viagem oficial aos Estados Unidos e Europa, para se apresentar aos líderes mundiais. Desembarcou no Brasil numa quarta-feira, 14 de fevereiro, com duas ideias na cabeça: a primeira referia-se a asneira de mudar a moeda e confiscar a poupança da população como forma de debelar a hiperinflação (o Plano Collor), a segunda, era copiar o Salão Oval, que visitou na Casa Branca, então ocupada por George H. Bush.

Implementou as duas. Mas, obviamente, as atenções ficaram concentradas no Plano Collor. Pois o presidente, enquanto assistia o país ruir em uma recessão crítica (graças a seu plano econômico louco, o PIB do Brasil despencou 4,5% em 1990), tratou de colocar a mão na massa, e mandou que fizesse da sala de reunião ministerial, no segundo andar do Planalto, uma espécie de Salão Oval.

Mas a sala, imagine caro leitor, não é oval. Além disso, a sala é de Niemeyer, e, como quase tudo em Brasília, é tombada. Ou seja, não poderia ser reformada em seu projeto arquitetônico. Mas o presidente queria porque queria fazer daquilo o Salão Oval tupiniquim.

Como?

Um designer, então, sugeriu ao presidente que adotasse uma cortina especial, que cobrisse as janelas, produzindo um efeito para aquele que entra na enorme sala próximo àquele que entra em uma sala oval. Collor ficou satisfeitíssimo. Todos os ministros que se reuniram com ele depois da instalação das cortinas, elogiaram a sacada do presidente.

Como a maior parte das coisas em Brasília, as cortinas estão lá até hoje.

***

Entrei na sala hoje. Não há nenhum efeito oval ali.

2 comentários:

Carlos sanmartin disse...

João, o subtitulo do blog é seu?

João Villaverde disse...

Grande Sanmartin!

É sim, meu caro.

Site Meter