quinta-feira, 28 de julho de 2011

As medidas no câmbio

Acordei ontem com o celular apitando nota da CNN Latin America: "Brazil has new legislation on currency" (Brasil tem nova legislação para o câmbio). A primeira coisa que fiz foi retirar, de uma vez por todas, esse alarme instantâneo do iPhone, que me acorda todo santo dia ainda na madrugada. A segunda coisa foi procurar os sites dos jornais para entender do que se tratava, e em seguida ler o Diário Oficial da União, onde a medida estava descrita.

A primeira sensação era de: nossa, o governo fez uma batelada contra os contratos de câmbio. Por que? Porque anunciou cobrança de 1% de IOF sobre o valor nocional (não é todo dia que lemos uma palavra tão bonita como essa) dos contratos de derivativos de câmbio na posição "vendida".

Que bela frase, não?

Mas vamos entender. O que o governo fez foi taxar aqueles que fecham contratos, na BM&F, onde são negociados contratos futuros, apostando que o real vai se valorizar. No jargão do mercado financeiro, são aqueles que estão "vendidos" em câmbio. Ou seja, apostam que o real se valorizará e, caso isso de fato ocorra no mercado à vista, o investidor ganha. Enquanto o contrato não é encerrado -- lembre-se, ele é um contrato futuro, ou seja, só será liquidado no futuro -- ele vai embolsando a Selic, a maior taxa de juros do mundo.

Como, pela manhã, nem jornais nem o mercado tinham entendido isso, instaurou-se um pânico: praticamente ninguém quis operar. Por que? Porque no Diário Oficial, onde o texto é muito complexo (uma mistureba de economês com juridiquês, para não ser contestado), o governo afirma que a tributação será de 1%, podendo ir a 25%. Além disso, o texto fala que a taxação cai apenas naqueles que estiverem operando a descoberto -- ou seja, sem a oferta física da moeda.

Então foram dois enganos, um dos jornais e do mercado, de interpretação, e outro do governo, de comunicação. Que a taxação pode ir a 25% não é novidade: este é o limite que a Constituição estipula para o IOF. Como ninguém sabia disso ou foi se informar, logo se interpretou que o governo começou taxando em 1% e logo poderia ir até 25%.

Mas sobre a operação a descoberto até agora eu não entendi. Como alguém pode operar "vendido" e não ter do outro lado alguém "comprado"? Isso não é possível. Mas, pelo texto, o governo diz que só cobrará os 1% de IOF para quem estiver acima. Além disso, como será feita essa fiscalização? É muito complexa!

Seja como for, trata-se de uma medida salutar.

Vamos entender por quê.

O real está se valorizando muito, todos sabemos disso. Na terça-feira, o dólar fechou cotado a R$ 1,53, a menor cotação desde janeiro de 1999, justamente quando começou o regime de càmbio flutuante (em substituição ao câmbio fixo praticado pelo Plano Real, entre julho de 1994 e janeiro de 1999). O câmbio valorizado torna os importados baratos, o que é bom de uma perspectiva de controle de preços, porque reduz a inflação, e mesmo produtiva, porque permite ao empresário brasileiro adquirir máquinas e insumos que não existem no Brasil. No entanto, traz junto muito produto que rouba mercado do bem nacional. É o que acontece com a enxurrada de produto chinês -- que está arrasando nossa tradicional produção de têxtil, calçados e autopeças. Além disso, o câmbio valorizado também encarece a exportação.

O real é a moeda que mais se valorizou no mundo, na última década.

Isso acontece porque o Brasil apresenta tudo o que o investidor quer: o país cresce e apresenta perspectivas de que continuará crescendo, ao mesmo tempo que oferece as maiores taxas de juros do mundo, com baixo risco de calote. Ou seja, capital chega voando aqui para investimento e, principalmente, para a conta de capitais, para aplicar em juros.

O que tem feito o governo para evitar a valorização?

Sempre que entra dólares no Brasil, o Banco Central, na maior parte das vezes, compra. Trata-se de um mal necessário, que amplia nosso endividamento externo. Isso ocorre porque, para comprar dólares, o BC oferece reais. O cara que traz dólares, aceita o real, é claro, porque é a moeda que ele vai precisar para fazer qualquer coisa no Brasil. Mas, como essa operação amplia o número de reais na economia (e isso, como todo brasileiro com mais de 21 anos sabe, é péssimo para a inflação), o BC imediatamente oferece títulos públicos, como forma de enxugar os reais que ele acabou de entregar ao investidor que traz os dólares. O investidor, é claro, aceita, já que temos o título público mais vantajoso do mundo.

No primeiro semestre deste ano, o fluxo cambial foi de US$ 50,7 bilhões. Para evitar que isso apreciasse o real, o BC comprou US$ 41,5 bilhões disso. Outros US$ 8 bilhões foram adquiridos pelos bancos nacionais. Ou seja, apenas ínfimos US$ 1 bilhão efetivamente entraram no país entre janeiro e junho de 2011.

Como então esse valor irrisório foi capaz de derrubar tão violentamente o real?

Porque a jogatina, na verdade, estava rolando solta é no mercado futuro. Foram as enormes apostas em contratos "vendidos" -- coisa de US$ 23 bilhões, até anteontem, em mãos de hedge funds e investidores estrangeiros, principalmente. Ou seja, era a aposta na valorização do real que estava valorizando o real.

Isso, no entanto, nunca foi mistério para ninguém. Se não era para este humilde blogueiro, não poderia ser para o mercado ou para o governo. E não era mesmo.

Finalmente, ontem, o governo resolveu se mexer.

Vai valer alguma coisa?

Acho que não. Tem mais o sentido simbólico da coisa, isto é, mostrar que tem alguém atento.

Mas, francamente, se a situação na União Europeia piorar (saiu do radar devido às turbulências nos EUA), ou o governo americano efetivamente dar um calote por falta de dinheiro, a partir da semana que vem, não lutaremos mais contra o excesso de capital, mas para convencer esse capital a vir para cá.

O governo agiu no lugar certo, mas na hora errada.

4 comentários:

Daniel Cobucci disse...

João, um site interessante pra acompanhar o fluxo de investidores estrangeiros é o http://gringolandianabolsa.blogspot.com/. Tem o saldo diário de movimentação nas principais ações e panoramas semanais de bmf, juros e dolar.
Abs,
Daniel

Anônimo disse...

Joao,

Operar a descoberto significa que você não tem o ativo que está vendendo no futuro. Na verdade isso é para evitar taxar exportador. Quem opera a descoberto é especulador.
Eu, por exemplo, opero coberto no mercado de opções da petrobras. Eu tenho a ação e vendo a opção de compra da petrobras. Se a ação subir muito eu sou obrigado a vender a ação da Petrobras ao preço previamente estipulado. Então eu deixo de ganhar o superlucro com a alta da ação. Mas, como opero coberto, não tnho prejuízo, nem ofereço risco sistêmico ao mercado. Imagina um cara que vende uma opção de compra de dólar descoberto e o dólar dispara e ele não tem dinheiro suficiente para cobrir o enorme prejuízo? Quem vai ter que pagar a conta e a BMF.
Entendeu mais ou menos a diferença entre operação coberta e descoberta? A diferença obviamente não é a existência de alguém na ponta oposta. Sempre tem alguém na ponta oposta.
Obs.: COmo é mercado futuro, o risco sistêmico é muito pequeno, porque tem ajuste diário. Todo dia você tem que por margem para cobrir seu prejuízo.
Um abraço
Bruno

Anônimo disse...

taxar não colega..tributar...

Hugo Albuquerque disse...

João,

Isso era um problema antigo. O cálculo do governo é que, elas por elas, manter do jeito que estava compensava: não criava indisposição do mercado e, sim, atendia ao sistema de metas de inflação. Mas a percepção geral mudou com essa crise, com Europa e Estados Unidos numa crise inimaginável para o senso comum, o Brasil pode ser engolfado pela corrente e o câmbio derreter por sobrecarga - aí, a turminha que especulava com o câmbio tornou-se um problema.

Essa medida, na verdade, trata-se de uma tributação e não de uma taxação como lembrou o amigo aí em cima (tributo é gênero, impostos, taxas e contribuições são espécies dele), tendo ainda um caráter extrafiscal: naturalmente, não é apenas uma questão de arrecadar mais com isso, mas de, mediante coerção tributária, forçar uma modificação no comportamento. Obviamente, tributo não é sanção jurídica, mas dói tal e qual, portanto, funciona (outro exemplo de extrafiscalidade são os tributos cobrados sobre o cigarro, cuja intenção não é arrecadar com aquilo, mas aumentar o preço dos maços para afastar as pessoas do tabagismo - ou mesmo reduzir seu consumo).

Ainda que 1% seja pouco, seu impacto simbólico é percebido no curto prazo da mesma forma que fosse 5% ou 10%. A possibilidade de estabelecer uma alíquota de 25%, aliás, ajuda a reforçar o impacto psicológico. A vantagem de uma medida desses com um simples estabelecimento de um piso para o câmbio por decreto é que (1) isso gera menos desgastes com os operadores porque não proíbe o fluxo, apenas o regula; (2) é possível ganhar dinheiro em cima disso, caminho que é uma tendência quase irrevogável em boa parte das micro-crises que compõem o cenário da crise mundial. Vai haver reação, por isso é importante ter grandeza política para reagir.

abraços

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