quinta-feira, 12 de maio de 2011

União Europeia na berlinda

O economista Barry Eichengreen, da Universidade da California (EUA), trouxe uma ideia interessante para o debate sobre o futuro da Europa: um novo Plano Brady. Os argumentos de Eichengreen vão aqui, mas o blogueiro tem dois centavos para adicionar.

De fato, um Plano Brady seria uma saída inteligente e indolor para a crise europeia, mas acho que as condições ainda não estão propícias para ele. Um plano que passe por reestruturação das dívidas é um plano que, em outras palavras, deixa países credores, como Alemanha, com menos dinheiro do que poderiam ter, e países devedores, como Grécia, Portugal ou Espanha, com dívidas menos caras do que teriam.

A questão, por mais bobo que isso possa parecer, precisa amadurecer para ir à frente.

Quer dizer, hoje, a turma credora ainda acredita que os países que se deram mal tem mais é que arcar com o prejuízo mesmo, fazer reformas maldosas, pagar juros altos sobre empréstimos concedidos pelo FMI e pelo fundo europeu de ajuda monetária, enfim. Será preciso que as condições piorem mais para que os credores entendam que é melhor ter algo do que não ter nada.

Outra coisa. Um pouco de história.

O que é o Plano Brady? Foi um grande plano autorizado pelo governo americano entre 1993 e 1994 aos credores latino-americanos, que passaram toda a década de 1980 sangrando com dívidas externas.

Foi o Plano Brady que permitiu ao governo brasileiro implementar o Plano Real. Sem encargos altos para a dívida externa, toda reestruturada, além da boa vontade conquistada junto ao FMI e ao grupo de bancos privados norte-americanos, a equipe de economistas liderada por Fernando Henrique Cardoso, então ministro da Fazenda do presidente Itamar Franco, conseguiu colocar o plano heterodoxo de combate a inflação, por meio da remonetização da economia.

Além da habilidade da comitiva brasileira nos EUA -- que era chefiada por Pedro Malan -- ajudou o fato de que as condições econômicas estavam "maduras" para um Plano Brady.

Ainda no governo Sarney, em 1987, o então ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira, que substituíra Dilson Funaro, tentou emplacar a ideia de um plano ambicioso e coordenado pelo governo americano, de reestruturação das dívidas soberanas dos principais países latinos endividados: Brasil, México e Argentina.

Só que em 1987, a turma da bufunfa ainda estava com raiva, queria porque queria todo o dinheiro a que tinham direito, com juros altos e tudo. Foi preciso calotes atrás de calotes, e loucuras gerenciais -- lembrem-se, amigos, tivemos o Plano Collor.... -- para que amadurecesse a ideia de que era melhor ter um pouco do que não ter nada.

Aprovado entre 1993 e 1994, o Plano Brady foi bom para quem devia e ótimo para quem recebeu. E permitiu a ascenção econômica dos países latino-americanos a partir de então.

Se a União Europeia vai passar por um Plano Brady eu não sei. Mas sei que Eichengreen é um cara a ser ouvido. E sei que, para nós, o plano foi ótimo.

Como gostam de dizer alguns colegas da imprensa: "À conferir".

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