quinta-feira, 7 de abril de 2011

Uma sugestão ao governo brasileiro

Rapaziada da equipe econômica: por que vocês não compram títulos públicos de Portugal?

Desde sempre, nossa política monetária é feita da seguinte forma: uma montanha de dólares entra no Brasil por uma série de razões (para investimentos, para participação acionária, para compra de terras, para aplicação em títulos públicos brasileiros e para especulação com derivativos de câmbio e juros). Para evitar muita valorização do real (o que ocorreu mesmo assim), o Banco Central adquire os dólares que entram emitindo reais. Para evitar que os reais emitidos acabem impulsionando a inflação, o Tesouro emite títulos públicos que o BC oferece aos compradores dos reais.

Com os dólares comprados pelo BC, o Tesouro aplica nos títulos públicos dos Estados Unidos, que são os mais seguros do mundo (porque denominados em dólar), mas pagam praticamente nada (entre zero e 1% ao ano). Já os títulos que o Tesouro emite para enxugar os reais emitidos na compra dos dólares, a taxa de juros oferecida é a Selic, nossa taxa básica de juros, atualmente em 11,75% ao ano.

Ou seja, nossas reservas internacionais rendem algo como 1% ao ano, enquanto, para carregá-las, nos endividamos muito, pagando juros de 12% ao ano.

É para parar de acumular reserva? Isso é um grande debate, e não quero falar disso agora.

A questão é outra: por que, ao invés de adquirir títulos americanos, que, ok, são seguros, mas não pagam praticamente nada, o Tesouro não adquire títulos de países como Portugal? Ontem, o governo português fez uma grande emissão de títulos no mercado, oferecendo papeis com vencimento de 12 meses que pagam juros de 5,9% ao ano.

Certamente o risco dos títulos portugueses é muito maior que os americanos. A chance de os americanos darem um calote é praticamente nula, porque os títulos são denominados em dólar, e os EUA são o único país do mundo que podem imprimir dólar, ou seja, na falta de moeda disponível para honrar seus títulos, os americanos podem simplesmente emitir mais moeda. Isso não ocorre com os portugueses, mas, numa boa, o euro não é a pior moeda do mundo (hello, yuan).

Portugal, diante de sua posição atual (vai receber forte injeção de recursos da União Europeia), não vai deixar de pagar seus títulos, e está topando pagar juros altos ao comprador. Gozamos, como brasileiros, de uma relação simbólica com Portugal que nenhum outro país europeu têm. Assim, podemos comprar parte desses títulos e ainda nos apoiarmos numa campanha positiva, de incremento nas nossas relações históricas.

Não digo que é para o Tesouro alocar todos os recursos em títulos portugueses. E também não acho correto entrarmos em títulos gregos, irlandeses ou de outros países enrascados economicamente. Portugal não só está em um patamar mais confortável ("menos grave" talvez seja mais apropriado), como tem passado com o Brasil. Se direcionarmos algo como 10% ou 15% dos recursos esterelizados no mercado para títulos como esse, que pagam muito mais que os títulos americanos, não só faríamos uma gestão mais inteligente da política econômica, como o péssimo impacto causado pelo diferencial de juros será reduzido.

O que acham?

10 comentários:

André disse...

Sua proposta me lembra bastante da ação da Venezuela de Chávez na crise da Argentina. Quando os EUA e o FMi se recusaram a ajudar a Argentina, e todos investidores fugiam, a Venezuela comprou uma boa quantidade de títulos da dívida argentina.

no atual caso de portugal, já tivemos o pequenino Timor Leste, que comprou alguns títulos de portugal e exortou Brasil e Angola a fazer o mesmo.

Patrick disse...

Eu gosto da ideia. Até porque não representaria um percentual comprometedor do total das reservas.

Anônimo disse...

Olá João, comecei a me interessar mais pela economia agora e seu blog me ajuda muito, leio sempre.

Mas ainda tenho dificuldade com muitas coisas, por isso, para entender cada vez mais queria saber se pode me sugerir uns livros, primeiro um básico, depois um intermediário e assim por diante.

agradeço desde já.

Ana Cristina - Curitiba/Pr

Fábio ?No disse...

Hey Johnny!
Gostei da idéia, realmente me parece ser algo viavel, o único problema seria o risco mesmo, mas por se tratar da zona do Euro acho que os outros paises não deixariam portugal chegar ao ponto de não ter como honrar suas dívidas.

Depois preciso de uma dicas suas sobre como aplicar meus recursos! heheeh

Grande Abraço!

Anônimo disse...

Melhor seria o governo tomar as seguintes medidas:
a) proibir a negociação de contratos futuros de juros e câmbio para aqueles que não comprovassem operações cambiais cobertas em instituições financeiras, e condicionar o limite do contrato ao valor da negociação no mundo real. No caso do contrato futuro de juros, na prática extinguir o mesmo, salvo para contratos indexados pelos índices utilizados na BM&F(ou seja nenhum, porque ninguém é leso de indexar seu contrato à SELIC) e novamente limitados ao valor do contrato real indexado.
b) extinguir a negociação de contratos futuros de Índices de Bolsa (inexistem contratos do mundo real indexados pela variação da bolsa).
c) PROIBIR a publicação da ata do COPOM, pois as expectativas de mercado são geradas (de forma totalmente maliciosa, praticamente pautando o BACEN)por conta dessa bendita ata.
d)Somente nomear funcionários de carreira para as Diretorias do BACEN.
e) aumentar o encaixe dos bancos.
f) aumentar a taxa do redesconto.

João Villaverde disse...

Olá Anônimo,

Gostei muito do seu comentário. Se não quiser se identificar por aqui, tudo bem. Mas me mande um e-mail, porque eu quero debater contigo algumas das suas sugestões.
Saudações!

João Villaverde disse...

Olá Ana Cristina,

Fico feliz que você gosta do Blog. Vou te dar duas dicas imperdíveis:

1) "O Crash de 1929", de Selwyn Parker. Livraço de jornalista australiano que escreve fácil e explica como o mundo chegou ao crash e como combateu a Grande Depressão que se instalou entre 1929 e 1933. Uma aula de economia.

2) "O Mito dos Mercados Racionais", de Justin Fox. Diretor editorial da Harvard Business Review, conta a história da teoria que vigorou no mercado financeiro ao longo do século XX (e que perdura até hoje). Ele tem texto leve e acessível.

Os dois são recentes e fáceis de achar (do Parker é de 2009 e do Justin Fox acabou de ser publicado no Brasil). Fiz resenha dos dois para o Valor, tendo inclusive conversado com o Fox para o texto.

Boa leitura!

E depois volte aqui para me dizer o que achou, Ana!

João Villaverde disse...

É exatamente isso, André. No caso da Argentina, aliás, foi exemplar o jogo político -- dos dois lados.

Enquanto os países ricos não queriam chancelar o regime populista dos Kirchner -- e por isso, e apenas por isso, não compraram títulos --, o governo Chávez comprou justamente para chancelar o governo Kirchner.

Seja como for, como ressaltou o Patrick, não se trata de colocar 100% dos dólares adquiridos em títulos de risco, como os emitidos hoje em dia por Portugal, mas algo como 10% a 15%.

Faria uma diferença enorme para as contas brasileiras.

Saudações!

João Villaverde disse...

Hahaha não dou dicas financeiras não, Fabio.

André disse...

Não sei como a situação de Portugla está sendo debatida no governo brasileiro, mas acho que para a proposta falta também iniciativa do lado português.

Me impressionou um vídeo da recente viagem de Lula a Portugal, jornalistas entrevistavam ele e o primeiro-ministro de Portugal (já de saída, já haviam marcado eleições antecipadas) José Sócrates.
Lula fez camentários críticos de uma saída a la FMI, preocupado com os impactos à população, e sobre a crise política portuguesa deu um voto de confiança à democracia ("o povo português terá sabedoria suficiente para resolver o problema da crise política"). E se disse simpático a uma ajuda brasileira, mas jogou a bola para a Dilma.
Já o primeiro-ministro português limitou-se a dizer e repetir que toda a ajuda que Portugal precisa é da confiança dos investidores.

A minha impressão é de Portugal com governo fraco, pouco criativo ou ousado, capitulando aos caprichos do mercado financeiro. O próximo primeiro-ministro será melhor? Tenho menos confiança do que Lula.

Para o Brasil atuar no papel da Venezuela, é preciso que Portugal encontre seu Kirchner.

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