Vivo de um lado para o outro.
Como jornalista que curte um livro, mas ama mesmo é a rua, não passo dois dias seguidos sem ter um café, um almoço, uma entrevista ou um encontro com uma fonte. Como repórter em São Paulo, portanto, sou uma das pessoas que mais coleciona quilômetros rodados. Posso, então, dizer sem medo: esta cidade é um inferno na Terra.
O trânsito é simplesmente caótico e não há caminho que os motoristas do Valor ou a turma do táxi faça que não passe por uns 40 minutinhos de movimento lento. Lembro que quando fui, com Ivo Ribeiro, entrevistar Benjamin Steinbruch, presidente da CSN, no ano passado, a corrida foi de quatro horas. Foram duas horas para sair do jornal, na Barra Funda, e chegar na Vila Olímpia. E outras duas horas para voltar.
Tempos atrás, a Folha publicou uma das mais divertidas crônicas sobre o trânsito paulistano, do escritor Chico Mattoso. Reproduzo abaixo.
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Paulistano pode se orgulhar de viver numa época de ouro
Por Chico Mattoso
Existem momentos em que a História parece se coagular, como se os esforços e talentos de diversas gerações se concentrassem num só tempo e lugar. Exemplo: não deve ter havido melhor ocasião para se entrar num clube de jazz que nos anos 50 em Nova York. O que dizer da Rússia do fim do século 19, quando gênios da literatura brotavam feito capim? Pois bem: no que diz respeito à centenária arte do congestionamento, o paulistano pode se orgulhar de estar finalmente testemunhando uma época de ouro. Nós chegamos lá.
Vivemos um momento histórico, pelo qual seremos lembrados ao longo dos próximos milênios. Não à toa, nossas conquistas já nos dão certa empáfia. é comum que o paulistano, ao ver-se preso no engarrafamento de outra cidade, exiba um esgar petulante, como se dissesse: "Isso não é nada. Queria ver esses caras lá na Anhaia Melo, numa quinta-feira de noitinha". O fato de termos chegado tão alto na cadeia engarrafatória parece nos emprestar certa superioridade moral.
Vivemos a efervescência do novo, a arrogância de quem se sabe protagonista de uma revolução. A disseminação de aparelhos de DVD e videogames dentro dos veículos é só o primeiro indício de um processo inexorável de transformação social. Pessoas dormem dentro dos carros para não perder a vaga no estacionamento; rádios de trânsito prosperam mais que as musicais; na hora do recreio, crianças discorrem sobre as fragilidades do sistema de medição de quilometragem da CET; a fila tripla virou uma realidade. Se tudo isso não configurar uma revolução, o que mais configurará? Mas ainda há quem resista à marcha do futuro.
Outro dia um amigo propôs ao analista que passasse a acompanhá-lo de carro ao trabalho. O percurso dura mais ou menos uma hora, e ele pagaria o preço da sessão e o táxi da volta -sairia mais barato do que se locomover para o consultório na hora do rush, duas vezes por semana. O analista não topou. Insensibilidade histórica é isso aí.
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Agora levanto a bola aos urbanistas: tem saída?

7 comentários:
As principais saídas estão congestionadas.
Prioridade radical a um transporte público barato, confortável e de boa qualidade, João. Sugiro aos paulistanos uma visita à Cidade do México que, lembro, é maior que São Paulo, mas tem um trânsito muitíssimo melhor.
Hahaha muito boa, Bruno
Concordo com você, Paulo. Aliás, toda a formulação da política de transporte público coletivo em SP deveria ser revista. Há décadas a Prefeitura simplesmente coloca dinheiro nas concessionárias, por meio da EMTU, que também fiscaliza. Uma saída, acho, seria estimular concessões mais curtas, de forma a incentivar a competição, e utilizar o dinheiro para a compra e modernização da frota, hoje a cargo das concessionárias.
Abração
A melhora na estrutura seria maravilhosa e beneficiaria aqueles que se utilizam do sistema de transporte público atual, que é extremamente precário. Mas, além disso, deve-se mostrar para os que tem a opção de transporte particular os benefícios de um transporte público de qualidade e, para isso, também deve ser levado em consideração o fator segurança. Ainda que carro chame mais atenção, muitas pessoas preferem o transporte privado por questão de medo e insegurança.
Em São Paulo não é tão comum, mas em outras cidades do Brasil assaltos à ônibus são muito frequentes.
Existe uma linha que liga as cidades de Barcarena, no Pará, e Belém. Essa linha era famosa por ter assalto todos os dias. A que vos fala já vivenciou um desses episódios. Acontece que mesmo sabendo dos ocorridos, não havia atitude da polícia. No Rio de Janeiro tivemos uma fase em que sequestro de onibus de linha acontecia frequentemente e algumas linhas ainda são bastante perigosas. Quer dizer, além de se rever toda a política estrutural do transporte deve-se pensar em como fazer com que as pessoas se sintam seguras para utilizar esse transporte em determinados horários e locais.
Na mosca, Victória.
Os investimentos em transporte público devem ser condicionados a uma política de segurança das linhas -- seja por uma infraestrutura nos pontos, que deixa o embarque e desembarque mais velozes, como ocorre, por exemplo, em Curitiba, seja desenvolvendo os pontos em torno das linhas.
Fiquei interessado nessa história da linha entre Barcarena e Belém. Foi uma viagem sua por lá?
Beijos
Vejam esse site que interesante sobre segurança que encontrei
http://www.cemara.com.br/quero-minha-casa-no-campo/
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