quinta-feira, 31 de março de 2011

Da ditadura

O golpe, em 31 de março de 1964, recebeu diversos elogios dos jornais e das rádios, a partir das edições do dia seguinte. No dia 02 de abril, com o então presidente legal João Goulart já longe do país, a edição de O Globo veio com o seguinte editorial:

Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos.

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No mesmo dia, o extinto Tribuna da Imprensa, jornal tocado por Carlos Lacerda, veio com o seguinte editorial:

Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas. Um dos maiores gatunos que a história brasileira já registrou, o Sr João Goulart passa outra vez à história, agora também como um dos grandes covardes que ela já conheceu.

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Hoje, há 47 anos, o Brasil levava um golpe.

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A ditadura instalada pelo golpe duraria 21 anos. No meio do caminho, ampliou o endividamento público do Estado, torturou e assassinou pessoas, calou dissidentes por meio da censura e do expurgo de intelectuais e fez da classe média brasileira, nos anos 70, uma das mais ignorantes do mundo: com uma escola pública antes de primeira e depois em frangalhos, a classe média chegou a apoiar o regime, uma vez que o país crescia para quem tinha estudo (coisa que 75% da população não tinha) e mantinha a ordem.

"Eram tempos mais seguros", diz o incauto, hoje, 26 anos depois do fim da ditadura? Eram. A mídia não podia apontar desvios de dinheiro e corrupção de políticos, bem como a criminalidade nas grandes cidades (então muito menores que hoje) não tinham a cobertura que hoje internet, rádio, televisão e revistas disseminadas dão. E quem discordava? Bom, estes eram perseguidos, torturados e assassinados.

Bom tempos aqueles, não?

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Mas esqueçamos a ditadura. A turminha que hoje, com 20 aninhos, povoa twitter e facebook não está interessada em discutir nosso passado recente. Sobre ele, melhor ouvir o que mamãe diz. O presente, o tão delicioso presente, tem de ser desfrutado nas baladas.

A ditadura militar nos legou uma elite desinteressada, pouco antenada, despolitizada e com preconceitos arraizados. Isso quem diz não é o blogueiro, mas Darcy Ribeiro, um dos primeiros brasileiros cassados pelo regime, logo em 02 de abril de 1964, mesmo dia em que os jornais de grande circulação publicavam editoriais como os que vimos acima.

Bons tempos aqueles.

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Nos tempos em que curiosidade era insubordinação.

10 comentários:

Luka disse...

Ai João,
É agoniante ver que a nossa geração e as que vieram depois de nós em nada percebem o quanto é recente essa possibilidade de liberdade de expressão (e aqui acho que é liberdade de expressão contra intolerância, mas isso é um papo longo).
Os desaparecidos políticos da Ditadura Militar parecem tão distantes, parece que falamos da época da Revolução Francesa e não de 47 anos atrás... 47 anos não é nada do ponto de vista de tempo histórico e aí tu vês gente jovem reproduzir idéias que muitas vezes beiram ao facismo, de intolerância mil...
Ainda temos muitas contas a acertar com o nosso passado.

Bjs

Paulodaluzmoreira disse...

João, tbm fiz post "comemorando" o golpe do dia 1 de abril, dia da mentira, dia da covardia, dia da truculência, começo de um longo e tenebroso inverno que ainda não passou de todo.
O tempo passa e os defensores do regime militar continuam os mesmos: ignorantes úteis e canalhas mentirosos e oportunistas.

Manuca Ferreira disse...

João,

Belo post. Também fico preocupado com a desatenção que a nossa geração e as posteriores têm em relação a fatos do nosso passado. Aqueles que, no entanto, não desconhecem o nosso passado recente tem a incumbência em apontar este período de truculência e deixar claro as incoerências dos Bolsonaros da vida. Além disso, outra preocupação deve se dar sobre aqueles que acham que, em uma democracia, tudo pode ser feito e dito - outro efeito nefasto dos anos de repressão.

Laura Cantal disse...

Eu sempre encontro reconforto por aqui. Obrigada por isso.
Beijos

Tiago Azevedo de Aguiar disse...

João!
Talvez o maior emblema do que foi o Golpe de 1964 esteja logo em seu primeiro dia, quando em Recife se arrastaram pessoas amarradas por 3 cordas em seu pescoço pelas ruas da cidade. Livros dão conta deste horror, que foi transmitido e narrado ao vivo pela TV e pela rádio na época. Eu escrevi sobre isso esses dias, e deixo o link aqui: http://tiagoaaguiar.blogspot.com/2011/03/o-homem-de-ferro-e-de-flor.html

Saudações fraternas

Luis Henrique disse...

Minha irmã teve o infortúnio de nascer neste dia infame para a nossa história. Mas um golpe tão boçal só podia ter acontecido no dia da mentira!

Uma geração X, outra Y, daqui a pouco vem a Z. Uma cada vez mais alienada que a outra.

Parece que vivemos um romantismo desbotado - só interessa o prazer e o consumo imediatos.

Frases para o Msn disse...

Se ao menos aprendêssemos com nossos erros, a educação de nosso povo não estaria nesse estado lastimável.
Professores: Salvem-nos de nossa ignorância, eu clamo.

Mahet disse...

Para não Esquecermos. Ditabranda é o C.... !
Allan Mahet
Dia 31 de Março para Primeiro e Abril de 1964, começava ali umas das mais sombrias páginas de nossa história.
Quarenta e sete anos depois, vinte e seis do último governo militar e até hoje não conseguimos nos acertar com nosso passado.
Por isso é preciso romper o silêncio do bom convívio. Retirar o véu que cobre as crueldades. Punir os algozes que ainda caminham livres sobre o mesmo chão de suas vítimas. Responsabilizar os comandantes desse trágico painel pintado com sangue de lutadores, corajosos militantes que sob a chuva de papel picado da burguesia e dos cacetetes do exército lutou contra a barbárie, a injustiça e o entreguismo.
Não podemos permitir que esse triste capítulo seja chamado do Ditabranda, porque simplesmente nada de branda teve.
Destaco o forte depoimento abaixo é de Jarbas Marques, militante torturado no DOPS.
http://amahet.blogspot.com/2011/04/para-nao-esquecermos-ditabranda-e-o-c.html

Anônimo disse...

e ai?
vc acha q a geração de vcs seria diferente da nossa se n houvesse pelo q lutar?
a nossa geração n tem luta, pq não somos como vcs, animais selvagens engaiolados...somos animais domesticados!!
a liberdade que vcs conquistaram....é de VCs!!!! enfiem no cú...
um bjo a todos

Anônimo disse...

Olá, João, fico perplexa ao saber que onde já foi palco de horror, atualmente conhecido como "Catavento", antigo COI em São Paulo, esconde a História da ditadura de pessoas que morreram na condição mais "desumana e covarde"- por lutar e acreditar na liberdade. O desapontamento que tenho em relação a isto é que por várias vezes enviei e-mails contestanto junto a Secretaria de Educação de São Paulo, Catavento e a própria Presidenta, não obtive respostas.Colocam pano de fundo, no palco e os visitantes que na grande maioria são jovens e alunos. Enquanto o "porão", está fechado com o passado, que políticos tentam esconder desta nova geração, que País é este.
Obrigado pela oportunidade.
Ivanete

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