quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Por que José Sarney é o presidente do Senado e porque eu não apoio o "Fora, Sarney"

Eis que José Sarney, 81 anos, é eleito presidente do Senado Federal pela quarta vez, ontem. Ele assume hoje a casa, trazendo consigo todo o poder acumulado em 46 anos de vida pública, além, é claro, de funcionar como chanceler máximo do PMDB -- que, bom lembrar, tem também a vice-presidência da República, por meio de Michel Temer.

Aí, o leitor abre um site de notícias, vai ao twitter, vê no Facebook e recebe um e-mail e lá se vê chamado a participar da famigerada campanha "Fora, Sarney" ou "Xô, Sarney".

E aí, você apoia ou não?

Eu não.

À exceção do desmoronamento de terras na região serrana do Rio de Janeiro, o maior mal para esse país ainda é José Sarney. O homem que era líder da Arena, o partido de sustentação do pior período dos 511 anos de história do Brasil -- a ditadura militar --, e que migrou, em cima da hora, para o PMDB, a tempo de preencher a vaga de vice de Tancredo Neves nas eleições indiretas de 1985.

Aliás, um parêntesis. Poucos sabem que Tancredo selou dois pactos com os militares e os conservadores: um, que previa a eleição indireta -- em plena mobilização social pelas Diretas-Já --, mas que o garantia como eleito, e outra, que recebia de braços abertos um egresso da Arena -- sim, nosso amigo José Sarney. Fim do parêntesis.

Assim, num período de dois anos, Sarney passou de líder do governo ditatorial para vice-presidente de um governo civil depois de 21 anos de regime de exceção. E, com a internação de Tancredo um dia antes de tomar posse, em 14 de março de 1985, Sarney acabou presidente da República.

Outro rápido parêntesis: como Tancredo não tomou posse, Sarney, em tese, não poderia se tornar presidente porque ele como vice também não tinha tomado posse. Nesse caso, como previa a Constituição então em vigor na época (e mesmo a aprovada em 1988), quem tomaria posse deveria ser o presidente da Câmara dos Deputados, terceiro na hierarquia republicana, que, à época, era Ulysses Guimarães. Mas, como no Brasil sempre há um espaço para jeitinho... Fim do parêntesis.

Presidente da República a partir de 15 de março de 1985, Sarney se viu, então, no auge de sua vida política iniciada em 1965, quando venceu as eleições para o governo de seu Estado, o Maranhão. Sua posse, em março de 1966, foi filmada por ninguém menos que Glauber Rocha, que começava, naquele período, a preparar seu clássico maior -- Terra em Transe (1967).

Em março de 1986, o governo Sarney baixou o Plano Cruzado, formulado pela nata do pensamento econômico de então -- Edmar Bacha, Luiz Gonzaga Belluzzo, André Lara Resende, João Sayad. O plano instituiu o congelamento de preços na economia, como forma de debelar a inflação que o nefasto regime militar nos legou. A medida, que à época fazia sentido, acabou tendo problemas de largada com a remonetização, uma vez que na troca de moedas (do cruzeiro para o cruzado) foi concedido um reajuste de 8% real nos salários. A partir daí, os custos de produção e mesmo de importação subiam, como há de acontecer, mas não podiam ser repassados ao preço final, que era tabelado pelo governo e controlado pela população, que se vestiu de "fiscal do Sarney". A Polícia Federal, inclusive, foi destacada para agir em supermercados que aumentassem preços.

Ao mesmo tempo, os salários estavam inflados pelos 8% real concedidos na remonetização, o que fez as pessoas aumentarem seu poder de compra, enquanto os preços estavam fixos. Por quatro meses, o Brasil viveu uma maravilha. A aprovação de Sarney bateu níveis recordes, de 81%, suplantados somente no fim de 2010 por Lula.

Até que a famosa reunião de Carajás, no Pará, em julho de 1986, determinou não só o que viria a ser o fracasso do Cruzado, como o fracasso do governo Sarney e, mais fundo, o fracasso do projeto de construção de um país, iniciado na década de 1920 pelos modernistas. Na reunião, enquanto os economistas clamavam por reforma no plano, permitindo a negociação de preços e certo repasse de custos, integrantes do governo falavam em manter aquilo do jeito que estava até as eleições de outubro, quando seriam escolhidos os 27 governadores. Sarney ficou com a segunda opção, muitos economistas pediram demissão do governo e a situação ficou como ficou.

Em outubro de 1986, o PMDB elegeu 26 dos 27 governadores. Cinco dias depois, Sarney anunciou o fim do Cruzado -- que já estava nas últimas, com a falta de produtos básicos nos supermercados. Dilson Funaro, então ministro da Fazenda, foi demitido e substituído por Luiz Carlos Bresser-Pereira, que era presidente do conselho de gestão do Pão de Açúcar. O Brasil lançou o Cruzado II, depois o Plano Bresser, mas a hiperinflação só aumentava -- finalmente, o calote da dívida foi decretado, em fevereiro de 1987.

Sarney ficou muito impopular, mas não perdeu a pose. Mais que isso: não perdeu o poder.

Durante os trabalhos dos constituintes, entre o fim de 1987 e outubro de 1988, quando enfim foi aprovada a Constituição, Sarney colocou de lado todas as prioridades nacionais -- acabar com a hiperinflação, renegociar a dívida externa, combater a pobreza, ampliar os investimentos -- priorizando sua permanência no poder por mais um ano. O correto seria a realização de eleições em 1988, mas atuação de Sarney foi tão firme -- Darcy Ribeiro, num Roda Viva em 88, chegou a dizer que o governo pagou para os constituintes aprovarem sua permanência por cinco anos -- que ele ganhou um ano a mais.

Em 1989, ano de eleições, o governo Sarney ainda fez um último desserviço ao país, escolhendo Mailson da Nóbrega para a Fazenda -- de longe, o mais despreparado ministro a ocupar a Fazenda desde o governo Nilo Peçanha. A hiperinflação bateu nos 2.000%, o país quebrou, e as eleições foram definidas da pior maneira possível. Se o primeiro turno foi um primor de democracia -- com uma série de candidatos fortes, como Mário Covas, Leonel Brizola, Lula, Ulysses -- o segundo foi um terror, com Fernando Collor atacando de maneira tacanha seu adversário (e contando também, vale dizer, com apoio da mídia).

O Brasil trocou, em março de 1990, o Estado imenso e patriarcal do PMDB de Sarney pelo czarismo alucinado de Collor, que logo no primeiro dia confiscou a poupança nacional.

Todos sabemos no que deu o governo Collor.

Enquanto isso, Sarney migrou seu domicílio eleitoral do Maranhão para o recém-criado Estado do Amapá, e e por lá, em seu novo Estado, se elegeu senador nas eleições de outubro de 1990, no último ano em que as eleições legislativas e para governadores ocorreu em data distinta à de presidente, como em 85 e 86.

Cinco anos mais tarde, Sarney foi eleito, em fevereiro de 1995, presidente do Senado Federal no primeiro ano do governo Fernando Henrique Cardoso. Foi ali, em 1995, que a história dos atos secretos do Senado começou a surgir, que o Estadão só desbarataria em 2009.

De lá para cá, Sarney foi presidente do Senado entre 1995 e 1997, entre 2003 e 2005 (o primeiro do governo Lula), entre 2009 e 2010, e agora, entre 2011 e 2013. Com isso, Sarney conseguiu a proeza de presidir o Senado nos primeiros anos dos últimos três presidentes: FHC, Lula e Dilma.

Mas por que, então, eu não apoio o "Fora, Sarney"?

Porque esse homem foi eleito senador pelo povo. Ele está no Senado não porque de golpe, mas porque ganhou eleições. Outra coisa: para presidir o Senado, o senador, qualquer senador, precisa ganhar o maior número de votos de seus colegas senadores. Foi o que aconteceu novamente. Sarney foi eleito com votos de 70 dos 81 senadores, sendo 3 abstenções, e oito votos em Randolfe Rodrigues (P-SOL). Sarney está lá, chefiando o Senado, porque o povo quis, num primeiro momento, e porque os senadores querem, num segundo momento.

Antes de sair gritando "Fora, Sarney" na Avenida Paulista ou andar com faixas bonitinhas na Lagoa Rodrigo de Freitas, é preciso entender que Sarney responde por uma das maiores parcelas de poder no país. Seus desvios, sejam eles quais forem, tem de ser investigados por pessoas muito mais capazes que eu, que sou apenas um jornalista tentando fazer meu trabalho de aumentar a conscientização nacional.

Cortando em miúdos: clamar pela saída de alguém que foi eleito pelo voto popular e pelo voto dos senadores, eleitos em seus respectivos Estados, é golpe. Diferente do impeachment de Collor, em outubro de 1992, não há nenhuma comprovação séria de envolvimento de Sarney em desvios de verba pública ou abuso de poder. Há sim investigações avançadas sobre os rolos de seu filho, Fernando Sarney, com mídia e licitações, mas nada contra José Sarney. Enquanto a situação ficar assim, nada mais justo que ele ocupe a presidência do Senado, mesmo sendo a quarta vez, mesmo sendo o homem que trabalhou durante a constituinte para ampliar seu mandato, o homem que mudou seu registro eleitoral do Maranhão para o Amapá, mesmo sendo o homem que esticou o Cruzado além do limites para levar as eleições de 86, mesmo sendo o homem que se tornou presidente da República sem ter sido empossado como vice, mesmo sendo o homem que migrou da Arena para o PMDB.

Mesmo assim, todos têm de engolir que José Sarney é o presidente do Senado Federal. Democracia é assim.

***
Fora que Marcelo Tas apoia o "Fora, Sarney". Acho que isso, mais que tudo isso que escrevi acima, é mais relevante para alguém formar opinião.

***

Sarney também é membro da Academia Brasileira de Letras. Dele só li A Duquesa Vale uma Missa, além das colunas semanais na Folha. Trata-se de um texto muito bom, e a história de A Duquesa é bem razoável. Mas, a julgar pelas críticas do passado, seu texto deve ter melhorado muito. Quando lançou Brejal dos Guajás, em 1987 (quando era presidente da República), Millôr Fernandes escreveu que o livro se tratava de "uma obra-prima sem similar na literatura de todos os tempos, pois só um gênio poderia fazer um livro errado da primeira à última frase".

33 comentários:

Karina Padial disse...

Absolutamente impecável! Além da excelente aula de história - dispostivo esquecido diariamente no jornalismo brasileiro -, os argumentos nos quais baseia seu posicionamento me convenceram a não aderir ao #forasarney. Precisamos, portanto, de uma agilidade e de uma rigidez nas investigações contra Sarney. Bjs e sdds Padial

Edgar Ferrer disse...

João, seu artigo faz um retrospecto muito interessante da carreira do Sarney. Entretanto, a defesa da sua posição - de não apoiar o "fora, Sarney!" -, mesmo sendo legítima, não parece muito plausível.
Como sabemos, Sarney conta com apoio eleitoral do seu reduto e com o da esmagadora maioria dos senadores. Mesmo assim, isso não invalida o movimento contrário que pede o afastamento do agora presidente do senado. A manifestação contra Sarney não fere os direitos democráticos (como, em outros mundos possíveis, poderia resultar na supressão dos descontentes); e nem o apoio dado a ele pelos senadores é da mesma natureza do apoio eleitoral.
Não vejo como uma manifestação contra Sarney possa resultar em seu afastamento. Mas também não vejo motivos para não apoiar o "fora" - excluindo-se, talvez, a possível ineficiência de tal procedimento.

Luka disse...

João,

Concordo que Sarney é algo que precisa combatido, não acho que apenas 2 coisas que são o mal do país, acho que na verdade o Sarney é um belo de um sintoma, um sintoma do quanto o poder político neste país pouco mudou (só ver quais oligarquias ou acordos políticos que governam estados e elegem deputados, vereadores e indicam chefia de governo) e nisso acho que temos uma divergência bem grande pq pra mim vai além, quando não se inicia um processo de acabar com esta câmara tremendamente desnecessária e que em NADA representa o povo, sim por que o senado são vagas fixas por estado, pra garantir a representação oligarca e pans, contrário da câmara dos deputados que tem suas vagas divididas de forma proporcional e correspondem realmente a população estadual blábláblá.
Meu problema com o #forasarney é o mesmo do que com o #ondavermelha #ondaverde ou até mesmo abaixo-assinados virtuais é que só se muda as coisas com gente na rua, fácil xingar muito no twitter e depois não ir pra rua pra derrubar um dos maiores símbolos da oligarquia brasileira e da opressão de classe.
Não o respeito pq o povo o escolheu o povo em diversos momento deu seu apoio aos regimes mais totalitários, ou o Hitler tava sozinho? o próprio Stalin que fez o favorzinho de pisar em tudo que os anos revolucionários avançaram e ainda saiu trucidando todo mundo, entre as mais trucidadas as mulheres por conta do retorno ao culto da maternidade e pans... esses caras tinham apoio do povo tb, mas o debate é bom, não gosto de alguns argumentos, mas o debate é bom.

Ândi disse...

Estive pensando sobre o assunto ontem, mais ou menos pelo mesmo prisma.

Mas até concordo com quem pede a saída dele. Porque pede, sobretudo, a quem pode mudar isso. E não muda, nós sabemos, por simples jogo político e tráfico de interesses. E isso, permita-me discordar, não é exatamente democrático.

Anônimo disse...

Compreendo, você é mais um bobo que é "nervosinho" com a política e os políticos, porém como todo "bom cidadão" (tapado) é limitado por um sistema, aliás o sistema, que permite todos (todos!) os problemas pelos quais você fica "nervosinho" ao ponto de se expressar a plenos pulmões para os mesmos "jovens conservadores", que coincidentemente você repugna.

Te falo que esse caminho ai está cheio de "nervosinhos" igual você (mas você sabe muito bem disso), que contribuem para mudança alguma em lugar algum (isso você também sabe, mas sua limitação te faz interpretar de forma completamente "limitada").

ps. xingue o anônimo e pense, nada é por um acaso.

Marcos disse...

Na primeira onda #ForaSarney, eu lembrei (http://twitpic.com/8iice e http://twitpic.com/8iiml) que os mesmos que hoje exigem "moralização" em outros tempos defendiam a "governabilidade".

Ótimo texto pela contextualização histórica. Eu só acrescentaria que Sarney não é o problema; ele é a consequência. Se não queremos mais Sarney (ou outro que venhamos a odiar ainda mais) na presidência do Senado, é preciso mudar as regras do jogo que o levaram para lá. Sem reforma política, vamos viver de #ForaFulano para #ForaBeltrano até o fim dos tempos.

Rafael Carvalhêdo disse...

Infelizmente, essa é a realidade da nossa democracia. É o justo, concordo. Foram simples, mas belos os argumentos.

Mas confesso, João, estou saturado de Sarney. Sou maranhense e não suporto que Roseana Sarney seja novamente Governadora, e que seus aliados estejam todos no poder.

Considero-os uma praga, um vírus. Não sei como essas pessoas possuem tanto poder e influência. Não sei como há pessoas que são capazes de votar nestes políticos, principalmente em um estado como o Maranhão.

Se é realmente justa a estadia deles no poder, na verdade, nunca poderemos saber de fato. Teoricamente é justa, até que se prove o contrário na prática.

Ótimo texto. Muito esclarecedor. Aliás, essa é uma das principais qualidades que sempre me trazem ao blog. Uma outra, é a quantidade de link para ótimos textos.

Abraço!

Rafael Carvalhêdo disse...

Infelizmente, essa é a realidade da nossa democracia. É o justo, concordo. Foram simples, mas belos os argumentos.

Mas confesso, João, estou saturado de Sarney. Sou maranhense e não suporto que Roseana Sarney seja novamente Governadora, e que seus aliados estejam todos no poder.

Considero-os uma praga, um vírus. Não sei como essas pessoas possuem tanto poder e influência. Não sei como há pessoas que são capazes de votar nestes políticos, principalmente em um estado como o Maranhão.

Se é realmente justa a estadia deles no poder, na verdade, nunca poderemos saber de fato. Teoricamente é justa, até que se prove o contrário na prática.

Ótimo texto. Muito esclarecedor. Aliás, essa é uma das principais qualidades que sempre me trazem ao blog. Uma outra, é a quantidade de link para ótimos textos.

Abraço!

Absinto Muito disse...

Também fizemos um post. Se puder passe por lá. Um abraço!
http://absintomuitorock.blogspot.com/

Hugo Albuquerque disse...

João,

Eu também não apoio o "Fora Sarney!" e por um motivo muito simples: Isso nunca passou de uma jogada diversionista contra Sarney pelo simples fato dele ter se aliado com Lula e mobilizado a estrutura parlamentar do PMDB para aprovar os projetos do Governo - pelo menos da parte direitista do "Fora Sarney!", isso era o reino da hipocrisia, Sarney também fez parte do Governo FHC e, lá, ele não tinha defeitos nenhum nem ninguém exigia que ele caísse. Disso, só se pode concluir que queriam derruba-lo não por seus vícios (embora, de fato, nada de substancial tenha sido provado naquela história toda), mas pela sua aliança (mesmo na base do toma-lá-dá-cá) com o único governo com face humana da nossa história. O pessoal que faz oposição à esquerda do Governo se perdeu nesse momento ao encampar essa campanha hipócrita, quando deveria ter se aproveitado da situação para fazer uma crítica sistêmica, propôr uma reforma política etc etc. Ter apoiado isso, com o perdão da sinceridade, foi oportunismo de uns e inocência demais de outros. O buraco da política nacional é muito mais embaixo do que isso.

abraço

Tatiana Cavalcante Botosso disse...

João,
Eu entendo o que você diz, pois assisti ao Dalmo Dalari dizendo que no seu primeiro mandato, quando Lula se reunia os intelectuais para discutir sobre os seus programas sociais, o Dalmo perguntou ao Lula porque ele iria se aliar à Sarney e o assessor de Lula respondeu que sem o apoio do Sarney nada que o PT apresentasse seria aprovado pelo Congresso.
Nenhum governo executivo atua sem o legislativo ou seja: o Presidente estaria de mãos atadas pra governar.
É por isso que não adianta a gente eleger o Supermam pra presidente do Brasil e o Sarney no legislativo, pois o Sarney até pode não ter a criptonita, mas conhece quem fabrica.

Casa Forte Brasil disse...

Salvo se você votou num dos 11, o seu senador (aquele que você elegeu como seu representante) votou pró-Sarney. E isso desqualifica qualquer justificativa pra golpe.

Pedro Fraga disse...

Concordo que não devemos apoiar o movimento "Fora, Sarney". Ele é tão golpista quanto aquele "Fora, FHC" levado à cabo pelo PT no início dos anos 90...

PS. a propósito, embora Sarney tenha sido eleito pelos "braços do povo", devemos refletir sobre as condições que propiciaram essa eleição. Ou será que não existe mais voto de cabresto no estado do Amapá? Pelo menos no Maranhão, onde eu conheço bem, ainda existe. E muito!

Ewerton disse...

Passa 1 mês no Maranhão, depois vem falar comigo de novo... Vc vai ver que a democracia não funciona muito naquelas terras.....

Tiago Aguiar disse...

Fiquei realmente triste.

Nunca tinha comentado aqui, e na primeira vez que o faço você apaga o comentário, sem que eu veja razão.

É a vida.

Tiago Aguiar disse...

Bom, muito provável um erro qualquer na minha postagem evitou a publicação do comentário.

Quando escreves que Sarney seria o maior para o Brasil, eu não concordo.

Não que eu teria o atrevimento de defendê-lo.

Mas quando eu penso em nomes como o de Agripino Maia, o Sarney me parece um ser de uma simpatia tremenda.

Saudações fraternas

Anônimo disse...

Concordo com o post. Faltou mencionar as administrações escandalosas da famiglia Sarney no Maranhão, que levou aquele estado aos piores índices de... tudo o que existir!

Mesmo quando ele barbarizava, não havia muito jeito de pegar o Sarney porque seus atos no Maranhão costumavam ser mesmo dentro da lei. Quando a lei não permitia, por exemplo, que a famiglia se apropriasse de uma ilha inteira, mudavam a lei.

Claro que ha' campanha do tipo "Fora FHC" ou "Fora Mubarak" que são mais democráticas do que eleições. Quando um governo quintuplica a dívida pública por má fé e incompetência administrativa, como ocorreu de 1997 a 2002, os riscos para o país exigem manifestações de impedimento.

Quando o Sarney foi MUITO mais nocivo para o país, nada fizeram. Agora que sua atuação não compromete tanto, querem limá-lo? Qualé!

http://twitter.com/cearax

Pedro Fraga disse...

Como é que vc compara "Fora Mubarak" com "Fora FHC"? hahaha. Um é ditador há quase 30 anos o outro foi presidente eleito "pelos braços do povo".
Quanto ao aumento da dívida pública ocorrida nos anos 90, ela ocorreu muito após a tal campanha golpista.

Além disso, vc teria que assistir a algumas aulas de economia para entender o contexto deste aumento da dívida pública. Ele é um pouquinho mais complexo as pessoas gostam de pensar. (a propósito, votei na Dilma com muito orgulho na última eleição, e no Lula nas anteriores. Mas isso não significa que vou demonizar de modo equivocado o FHC, nem deixar de ficar indignado com o contínuo apoio que a família Sarney vem recebendo dos governos do PT.)

João Villaverde disse...

Vamos por parte aqui, rapaziada.

Tiago,

Eu não exclui seu comentário -- nunca excluí um comentário sequer daqui do Blog. Você deve ter se embananado na hora de publicar. Ontem foi um dia pesado, quase não consegui visitar o Blog depois de escrever o post.

O Rafael Carvalhêdo, o Ewerton e o Pedro Fraga chamam a atenção para algo importante, que a Luka também lembrou: a vida política de Sarney, construída no Maranhão, entre 1955 e 1990, e no Amapá, entre 1990 e 2011, precisa ser melhor analisada. Se, de fato, há democracia no sentido formal, uma vez que foi ele quem recebeu a maior parte dos votos e, por isso, está lá no Senado, também é preciso analisar as condições políticas que permitiram sua permanência histórica no poder.

Para isso, precisamos levantar a mídia local -- quem é o dono da transmissão da TV Globo nos dois Estados? Ocorre algo como em Alagoas, onde a família Collor é quem transmite a Globo? Quem é o dono e quem anuncia nos principais jornais e rádios? Como os blogs críticos são vistos?

Vocês estão certos em olhar para isso, sem dúvida.

Mas, sempre é bom lembrar, fosse feito o que for, Sarney sempre foi eleito. Isso, por si só, já confere um ar totalmente distinto de debate.

A conversa entre o Cearax e o Pedro foi muito boa. O blogueiro assina embaixo do que disse o Pedro, no entanto, Cearax. Houve sim um salto terrível da dívida pública ao longo do governo FHC, mas é preciso entender por quê (os juros altos, as crises externas, a recém-conquistada estabilidade de preços). Fora que Mubarak é um títere americano, colocado no poder em 1981 e sustentado desde então. FHC venceu eleições -- em 1994 e 1998, ambas no primeiro turno.

João Villaverde disse...

Continuando:

O Edgar Ferrer e o Ândi destacaram o fato de que o movimento "Fora, Sarney" pode até estar errado, mas tem legitimidade.

É verdade.

Em nenhum momento quis dizer que esse pessoal não pode se mobilizar. É claro que pode. Discuto o mérito em si: acho que criticar agora, como também destacou o Hugo no comentário dele, é um tanto estranho -- afinal, Sarney estava na presidência do Senado também em 2003-2005, também em 1995-1997, e antes disso foi governador de Estado, presidente da República, enfim.

É claro que há margem para mobilização. Não só neste caso, mas em todos. Uma sociedade mobilizada é tudo que queremos, porque assim conseguimos avançar mais rapidamente. É como dizia Brecht, "o grande problema das pessoas que não gostam de política é que elas são governadas por aquelas que gostam muito".

A partir do momento que temos mais gente pensando nos erros e vícios nacionais, sejam eles quais forem, teremos um canal aberto para o desenvolvimento. Isso é importante.

Tem também o que disse Casa Forte Brasil: podemos até não ter eleito Sarney -- quem fez isso foi o povo do Amapá -- mas a partir do momento que 70 dos 81 senadores votaram nele para presidir o Senado, nossos votos estão, de alguma forma, representados ali.

Não se trata, é claro, de passar um cheque em branco ao nosso senador. Não é isso. Mas é preciso entender que no nosso sistema, Sarney está na presidência do Senado por vias democráticas.

Acho que seria muito mais efetivo nos mobilizarmos -- na internet e nas ruas -- por uma reforma política, como bem destacou o Marcos. Só com uma reforma política poderemos trocar esse sistema que, como destacou a Tatiana, exige a relação entre tipos totalmente diferentes apenas pela "governabilidade".

Governabilidade essa que o PT tanto criticou durante o governo FHC, mas que praticou e continua praticando no poder. Nessa história, não há inocente entre PSDB, PT, PMDB ou quem quer que seja.

Seja como for, é preciso ter conhecimento histórico das coisas, se não ficamos só no discursinho adolescente de "ai, como ele é ruim né? Vou postar no Facebook um chamado para meus miguxos reclamarem comigo". Sarney já foi o homem mais amado (em 1986) e o mais odiado (em 1989) desse país. Ele já ocupou cargos importantíssimos -- a liderança do partido da ditadura, a Arena, a Presidência da República, a presidência do Senado -- e já passou por muita coisa.

A Karina gostou do contexto dado pelo post, mas exagerou nos elogios. Não sou merecedor, querida ;-)

João Villaverde disse...

Quanto ao comentário anônimo me xingando, não tenho muito o que dizer. Tempos atrás escrevi um post destacando esse fenômeno: a internet libera toda a irresponsabilidade e imaturidade das pessoas. Para xingar, preferem fazer de forma anônima, nada corajosa.

Toda a crítica é bem vinda. Todas. Mas o blogueiro só responde o que é assinado, ou, se quiser fazer de forma anônima, como faz o comentarista #_# que fez ou outra aparece por aqui, que faça de maneira educada, não tacanha.

Sobre o fenômeno, o post "O nível do babaquismo": http://joaovillaverde.blogspot.com/2010/09/o-nivel-do-babaquismo.html

Saudações

Rodrigo Saraceno disse...

Villaverde, nesse negócio da explosão da dívida no governo FHC, eu acho que também entra na equação que foi no governo dele que a Constituição de 1988 começou de fato a ser realizada.

A CF/88 mudou o Estado brasileiro, colocando uma série de deveres para o Estado. Isso gerou um aumento das despesas públicas (a carga tributária saindo de país liberal (24%) para welfare state (35%) não me deixa mentir), sem contar que FHC não tinha mais a ciranda inflacionária para esconder os desaranjos financeiros do Estado.

João Villaverde disse...

Exatamente, Rodrigo!

Com a Constituição prevendo saúde e educação pública para todos os brasileiros, quais são os debates que começamos a ver com Itamar e quem são dominantes no governo FHC? Justamente uma forma de equacionar os preceitos constitucionais. Daí que em 1993, sob Itamar, surge o IPMF, e, em 1996, já sob FHC, a CPMF, para bancar gastos na saúde. Ao mesmo tempo, o Ministério da Educação, sob FHC, tem a missão única de colocar todas as crianças nas escolas.

Podemos -- e devemos -- discutir como isso foi de fato implementado, os erros e acertos, etc. Mas isso tudo teve um custo, e não havia mais a hiperinflação, que era ótima para as contas públicas.

Anônimo disse...

Desculpa, pessoal! Não quis comparar FHC com Mubarak.

Meu ponto é que tem atos reversíveis (total ou parcialmente), como a ilha do Sarney, que usei de exemplo, poderá ser recuperada pelo Estado. Vejam caso Edemar (Banco Santos). Enquanto venda de estatais ou dívidas emperram o país por anos. No caso Egito/Mubarak o problema maior é miséria/desemprego e não ditadura em si, como mostrou estudo da Pew Research.

Tô aprendendo muito com o bom papo! Abraços!

Anônimo disse...

O anônimo que se desculpa é o http://twitter.com/cearax

Abraço!

Pedro Fraga disse...

Muito bons os comentários acima! Sobre o aumenta da dívida pública interna nos anos FHC, gostaria de complementar o ótimo raciocínio exposto pelo Rodrigo e pelo João.
Pouco depois de o Plano Real entrar em vigor, o governo tomou a decisão de internalizar a dívida externa, ou seja, começou a adiantar o pagamento de parcelas desta dívida com o dinheiro levantado aqui dentro, com a emissão de dívida pública interna (queria aproveitar a valorização da moeda). Como o Brasil tinha acabado de sair de uma hiperinflação, a única forma de convencer os investidores a aceitar essa troca foi vinculando a nova dívida ao dólar. Claro que, naquela época, ninguém imaginou que uma enorme crise de confiança nos países emergentes se aproximava (primeiro na Coréia até chegar à Russia, que basicamente faliu). Resultado: o dólar disparou aqui dentro e a dívida interna foi às alturas. Passados muitos anos, é fácil a gente dizer que o governo foi imprudente e tal... mas na época, ninguém previu aquilo. Ao mesmo tempo, as vezes as pessoas ignoram que foi por causa daquela política que a dívida externa - o grande bicho papão do Brasil nos anos 80 e 90 - praticamente sumiu.

Mas isso tudo não invalida o fato do FHC ter feito várias coisas absolutamente equivocadas: sucateou as universidades públicas, não deu atenção aos movimentos sociais, expandiu o neoliberalismo etc. Mas isso já é outra história :-)

abraços

João Villaverde disse...

Exatamente, Pedro!

Por isso é estapafúrdia a eterna proposta do P-SOL de promover uma auditoria da divida pública. Faz parte do jogo entre Estados soberanos emitirem divida em moeda própria, e na fase FHC aquilo era política de inversão de dividas -- externa por interna -- e também de manutenção do modelo criado pelo Plano Real.

A ideia do Plano era, uma vez feita a remonetizacao (dos cruzeiros reais para URV e deste para o real), que a inflação reduzida fosse controlada pelos importados e pela valorização cambial. Como os fluxos estrangeiros, então, não eram nada perto do que assistimos nos últimos anos, a forma encontrada pelo governo para manter o real valorizado foi a elevação dos juros, tornando os titulos denominados em reais muito atrativos.

Quando estourou a Rússia, no fim de 1998, o modelo chegou ao limite, porque nem com Selic a 44% ao ano havia demanda. O governo, tal qual Sarney com o Cruzado em 1986, levou o Real ao limite para fazer a reeleição de FHC -- e o real explodiu em 13 de Janeiro de 1999, dois meses depois das eleições.

A questão grave, dessa história, é que o mecanismo escolhido -- a valorização do cambio por meio de juros altos -- foi péssimo para o país. O que não deixa de ser compreensível, como você bem disse, Pedro.

O PT teria ganhado muito mais, naqueles tempos, se tivesse criticado a valorização do cambio e nao o Plano Real, que é um primor -- e, até hoje, grande trunfo do PSDB, que prefere ficar num discurso consevador besta para o estagio que alcançamos hoje, 2011.

Anônimo disse...

Muito legal o texto, mas por favor, não cometa assassinatos contra o Direito e a Língua Portuguesa. O vice presidente, como disse Afonso Arinos na época (um excelente jurista d'antanho) é da República e não do canditado diplomado. Abra a Constituição da época no site do Planalto e relembre suas aulas de intepretação de texto, que vão te dizer o seguinte: Art 78 - O Presidente tomará posse em sessão do Congresso Nacional e, se este não estiver reunido, perante o Supremo Tribunal Federal.

§ 2º - Se, decorridos dez dias da data fixada para a posse, o Presidente ou Vice-Presidente, salvo por motivo de força maior, não tiver assumido o cargo, este será declarado vago pelo Congresso Nacional.

Art 79 - Substitui o Presidente, em caso de impedimento, e sucede-lhe, no de vaga, o Vice-Presidente.

Art 80 - Em caso de impedimento do Presidente e do Vice-Presidente, ou vacância dos respectivos cargos, serão sucessivamente chamados ao exercício da Presidência o Presidente da Câmara dos Deputados, o Presidente do Senado Federal e o Presidente do Supremo Tribunal Federal.

Mais claro que isso só desenhando. Existe uma regra que qualquer aluno calouro do curso de Direito aprende quando estuda Hermenêutica: onde o legislador não fez distinção, não cabe ao intérprete fazê-lo.

Em nenhum momento no texto da Constituição, está escrito que o Vice só pode tomar posse se o Presidente tomar. A lógica lhe diz isso, mas não se condiciona, o texto da lei não diz isso.

Imagine a seguinte situação: Sessão de diplomação de eleitos, ano passado no TSE. Se a Dilma se atrasa, nada impede que o Presidente do TSE não a diplome e diplome o Temer. Por mais estranho que isso possa parecer, a diplomação tardia dela seria válida, desde que justificável, dentro da razoabilidade (presa no trânsito, doença, etc).

O mesmo se passou com o Sarney. Se o Presidente estava impedido, o seu primeiro substituto é o Vice, e sua posse não é condicionada pela posse do titular, por mais absurdo que isso possa lhe parecer.

João Villaverde disse...

Anônimo,

Verdade, você fez a pesquisa certinho e mandou bem em chamar a atenção sobre isso. Agora sejamos civilizados, como seres humanos desenvolvidos intelectualmente -- e eu estou tomando a liberdade de inclui-lo neste rol -- sejamos educados. Você não precisa ser grosso e falar que eu preciso relembrar "minhas aulas de interpretação de texto" ou que "mais fácil que isso só desenhando".

Isso é grosso.

Parece difícil, mas é possível sim discutir e debater ideias e pontos específicos sem perder a elegancia. Acredite.

Anônimo disse...

Sempre há ignorância e erros de linguagem em quem acusa outro de assassinar a língua:

1. bons modos também fazem parte da linguagem;

2. não se separa sujeito de predicado com vírgula, a não ser numa poesia pedante.

Hugo Albuquerque disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Hugo Albuquerque disse...

e fato, o apontamento jurídico-constitucional do Anônimo está correto, embora a postura ridícula e arrogante dele estrague o conteúdo: Será que as pessoas não entendem que um post de blog, diferentemente de um artigo acadêmico, tem caixa de comentários justamente para se construir coletivamente o conhecimento? Ora essa...

J C disse...

Oi João.

Você pesquisou opiniões de artistas, por exemplo? Muito boa a sustentação do seu argumento. Bate muito de frente com o que Zeca Baleiro (Maranhense, antes de ser artista) pensa:

http://www.lucianacapiberibe.com/2009/03/29/artigo-maranhao-engenhosa-mentira-por-zeca-baleiro/

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