quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

O gargalo na qualificação

O Ministério do Desenvolvimento Social, que administra o Bolsa Família, encomendou ao Ipea -- órgão de excelência no pensamento e pesquisa econômica e social do país -- um estudo sobre a participação dos beneficiários do Bolsa Família no mercado de trabalho.

A ideia era simples: uma vez que o programa existe desde o fim de 2003, já é possível hoje, oito anos mais tarde, fazer um levantamento histórico sobre como essas pessoas se resolveram, no que trabalharam, se deu certo ou não, e o que é possível fazer melhor.

O resultado da ampla pesquisa realizada pelos técnicos do Ipea junto aos empregadores de beneficiários do Bolsa Família escancara um problema que o Brasil está enfrentando hoje, início de 2011, e que será a tônica da década que abrimos. Vejam o que disse Alexandre Leichsenring, doutor em estatística e consultor do Ministério do Desenvolvimento Social, que trabalhou junto ao Ipea na pesquisa, divulgada nesta semana:

"A inserção dos beneficiários do Bolsa Família no mercado formal, quando existe, é bastante precária. Menos de um ano depois da contratação, metade dos beneficiários é desligada, 30% perderão seus empregos em menos de seis meses. Fora do mercado de trabalho, menos de 25% são recontratados nos quatro anos seguintes."

O estudo escancara que o Bolsa Família deu o primeiro passo, na década passada, isto é, o de dar um colchão mínimo para as 13 milhões de famílias que estavam abaixo da linha da pobreza no Brasil. O programa foi bem sucedido em sua missão, mas o segundo passo, de uma vez conquistada a sobrevida dessas pessoas, introduzi-las na vida regular de uma economia capitalista -- arranjar um emprego, abrir um negócio, andar com as próprias pernas -- está longe de ser dado.

O problema que enfrentamos hoje é o da falta de qualificação da mão de obra na quantidade demandada pelas empresas. Converso muito com uma série de empresários e sindicalistas e, ao longo de 2010, foi ficando claro que o problema do Brasil não era mais recuperar-se da crise mundial ou resgatar famílias da pobreza (ainda que essa seja uma missão incompleta), mas capacitar as pessoas para poderem trabalhar numa economia média, com demandas do século XXI -- indústria de base, sofisticada, serviços tecnológicos, trabalho intelectual e comércio online.

Aí entra a escola pública, que nunca foi efetivamente implantada no país e, quando começava, nos anos 50 e 60, foi destruída pelas reformas de Jarbas Passarinho, ministro do regime militar, em 1971 -- isso é conversa para outro post, mas fica anotado aqui.

Onde está a maior parte dos futuros trabalhadores brasileiros hoje? Na escola pública.

Para fechar o ciclo de combate à pobreza -- e, mais que isso, à obscena desigualdade -- precisamos manter e ampliar o Bolsa Família, uma vez que ainda há famílias abaixo da linha da pobreza que não recebem o programa, como sempre destaca Lena Lavinas, das maiores especialistas em pobreza no Brasil. Mas precisamos, junto ao Bolsa Família, capacitar professores e funcionários, aumentar salários, investir em infraestrutura física das escolas, apoiar iniciativas criativas de municípios e comunidades ribeirinhas e interioranas, isoladas dos centros urbanos, e criar um plano nacional, que torna a escola pública um centro de excelência da criança, algo como os Cieps do mestre Darcy Ribeiro, que davam à criança um estudo em tempo integral, com uniforme, comida e recreação.

Assim, aliado à intensivos programas e cursos de qualificação da mão de obra que está agora no mercado de trabalho, conseguiremos, de alguma forma forma, evitar que o Brasil pare não por falta de recursos na balança de pagamentos (nosso karma histórico) ou por crises cambiais, mas, como já ouvi de um dirigente sindical de grande categoria, "no gargalo da mão de obra".

***

O Valor publicou ontem grande material sobre emprego: além de uma matéria especial onde levantei o ganho acumulado na década 2000-20101 por quatro categorias tradicionais (petroleiros, químicos, metalúrgicos e bancários), também contou com uma entrevista que fiz com o ministro do Trabalho, Carlos Lupi, onde tento travar com ele algumas dessas ideias sobre qualificação.

Segundo Lupi, o equivalente a 1 milhão de empregos com carteira assinada deixaram de ser criados, em 2010, porque os candidatos não tinham a qualificação necessária. É disso que estamos falando.

7 comentários:

Ândi disse...

Por isso que eu defendo que a melhor forma de transferir renda para essas famílias é levando trabalho a elas em projetos ligados a educação e cultura. O custo seria maior, mas o dinheiro seria maior também, e o rendimento seria melhor. E o desenvolvimento local também. O que geraria mais renda, e mais desenvolvimento, e enfim... Reação em cadeia.

Luka disse...

Sinceramente este resultado do IPEA não me surpreende muito não, faz parte da lógica da política assistencialista, da mesma forma que outras medidas de inclusão promovidas pelo governo nestes últimos 8 anos também acabam por ajudar a beneficiar o acordo de washigton se não me engano, ou seja, tu tens um investimento maior na educação privada (principalmente a do ensino superior com todos os programas implementados para que os alunos de escola pública fossem inseridos na vida universitária, porém não na universidade pública e sim na privada)e tendo política de PPP pra educação pública superior (que era o que se "salvava" no país e continua super elitizada), a crianção de cotas encontra resistência em tudo que é canto, exemplo clássico foi o que aconteceu na UFRGS em 2008.
No final das contas tenho a sensação de que a política aplicada de assistência foi só pra quantificar e não qualitativa, pois quando vamos ver com um microscópio a coisa ainda vai mal ¬¬

João Villaverde disse...

Acho, Ândi e Luka, que o caminho está no meio. Não está nem no oferecimento de trabalho -- qualquer trabalho -- nem na suposição de que o Bolsa Família é um assistencialismo de cunho político.

O Bolsa Família é um programa importantíssimo, que assegurou à 12,9 milhões de famílias na extrema pobreza um mínimo de condição para começar a, efetivamente, viver. Com o dinheirinho do Bolsa Família, o beneficiário passa, pela primeira vez na vida, a ter a garantia de que poderá comer naquele mês e também no próximo. Com esse "colchão" de tranquilidade, que é condicionado à frequência das crianças na escola, o beneficiário pode se preocupar em aprender uma função e, em seguida, procurar emprego.

A Maria Rita Khel, em sua famosa última coluna no Estadão explicou isso muito bem.

O caminho do meio, este que defendo, entende que o Bolsa Família é importante e precisa ser continuado.

Mas, ao mesmo tempo, abrimos uma frente ampla pela qualidade da educação pública e para cursos de qualificação da mão de obra que já está em idade para trabalhar.

Na educação pública, a frente ampla entraria ampliando salários e pisos, criando um plano de carreira claro e funcional, a implantação de testes periódicos do quadro de funcionários (professores à frente), e a revitalização da infraestrutura das escolas. Tudo isso será combinado com uma nova organização do ensino público: as escolas terão rotina das 8h às 17h, com aulas de esporte e merenda para todos -- alunos, professores e funcionários.

Assim, as escolas teriam seu padrão e qualidade de ensino revolucionado por professores que ganham bem e são estimulados pelo plano de carreira, pais tranquilos pelo fato da escola ter um aspecto de creche que mantêm as crianças e adolescentes lá, e os alunos aprendendo alguma coisa.

O beneficiário do Bolsa Família, nessas condições, terá não só a oportunidade de ingressar num curso de qualificação, como deixará tranquilo seus filhos na escola, que devolverão as crianças num estágio de aprendizado muitas vezes superior ao dos pais.

É penoso, mas precisamos, mais que nunca, arregaçar as mangas e construir um país. Por que se deixarmos nas mãos dos birutas da extrema esquerda e da extrema direita, o Brasil fica como está: a 510 anos no lugar...

Abração no Ândi e um beijão na Luka!

Paulodaluzmoreira disse...

E na custa lembrar, João, que o problema da educação primária e secundária depende de um complicado trabalho articulado em vários níveis diferentes de governo: federal, estadual e municipal. E que o problema não é apenas financeiro; a falta de dinheiro aqui é, eu aacho, sintoma de falta de empenho. Como filhos e netos de políticos, burocratas qualificados, jornalistas, etc estudam em geral no sistema privado, fica a impressão de que as mudanças mais urgentes podem sempre esperar um pouco mais. Realmente o senso de urgência e a energia e entusiasmo do Darcy Ribeiro iriam muito bem agora... Que tal fazermos uma seção espírita e chamar o homem de volta? ;)

Ândi disse...

Mas, João, não sou contra o Bolsa-família e nem cogito que deva ser interrompido. Como disse, deve ser mantido, ampliado e melhorado.

Vou tentar ser mais claro na minha idéia. Essas pessoas, que a partir do momento que tem uma renda mínima pode passar a aprender uma função, muitas vezes não tem estrutura pra isso. Não tem escola, não tem quem ensine, ou às vezes não tem sequer quem oriente.

Então precisamos de mais escolas, e mais profissionais qualificados, e devidamente valorizados. Ok, mas para levantar tudo isso será necessário trabalho, dos mais variados tipos. Claro que os mais qualificados terão que vir de fora, mas dá pra usar mão-de-obra local também. Pode até ser um trabalho conjunto, onde a qualificação seja parte do processo. Ou seja, o cara está contribuindo para erguer o prédio da escola em que ele (ou seus filhos) vão estudar, e ao mesmo tempo ampliando sua renda.

João Villaverde disse...

Grande Ândi,

Você está certíssimo. Respondi rápido, pelo celular, e não dei conta de fazer as ressalvas quanto ao pensamento de cada um, como costumo fazer. Uma coisa é escrever post pelo celular (uma loucura, eu admito, mas eu faço), outra é responder comentários.

Gostei da explicação que você deu neste segundo comentário.

Abração

João Villaverde disse...

Hahaha nem me fale, Paulo. Darcy é um dos meus maiores mestres -- uma pessoa que o Brasil pode se orgulhar de ter criado. E também um dos poucos que entendia o país.

Cara, se eu te contar que, de 22 secretários de educação que acabaram de assumir, apenas um colocou os filhos na escola pública você acredita? Eu conto essa depois...

Abração!

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