sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

O fim de uma era


Hoje, Luiz Inácio Lula da Silva, presidente da República de 1º de janeiro de 2003 até hoje, prepara a passagem da faixa presidencial à Dilma Rousseff, que fica no poder a partir de amanhã, até dezembro de 2014.

A ideia de que fechamos, hoje, uma "era", independe da questão: "eu gosto" ou "eu não gosto" do presidente e/ou do governo Lula. Uma era na história do Brasil acaba hoje, e um dia ainda vou explicar por quê.

Mas os leitores cá do Blog entendem. Como também entendem Fernando Barros e Silva e Kenneth Maxwell, para ficar em um brasileiro e um estrangeiro com boas capacidades analíticas.

***

A foto que ilustra o post (que vi pela primeira vez aqui) é de André Dusek, da Agência Estado, do início do mês, com Mariza Letícia, Lula, Dilma e, ao fundo, os olhares de Michel Temer, que assume amanhã como vice-presidente da República.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

O refúgio de Battisti

Hoje, dois anos depois do então ministro da Justiça Tarso Genro se colocar favoravelmente à concessão de asilo político à Cesare Battisti -- e, com isso, instaurar um dos debates mais longos e tortuosos dos últimos anos -- o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no penúltimo dia de governo, finalmente concedeu refúgio à Battisti.

O caso Battisti, por si só, dá um livro. Ele escreveu um -- que o blogueiro aqui leu, como deveriam ter feito todos que se pronunciaram sobre o caso -- mas caberia um apenas para contar essa história. Que, se alguém quiser apostar comigo, não acabou hoje.

Todo o debate envolveu dois ministros da Justiça, um Procurador-Geral da República, 11 ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), a Advocacia Geral da União (AGU), a embaixada e o governo da Itália, o presidente da República brasileira, os maiores juristas do Brasil, todos os jornais e revistas, além de rádio, televisão e internet.

Quando estourou o caso, em janeiro de 2009, fui fazer a lição de casa. Parti para todo tipo de leitura -- desde livros sobre a política e a sociedade italiana dos anos 70 e 80 até os processos (em italiano) da justiça local, livros sobre questões de refúgio político internacional. Como precisava conciliar com o trabalho do dia a dia, só arranjei tempo para escrever em maio, no que resultou "O caso Cesare Battisti".

Lá o leitor cá do Blog encontrará todos os argumentos para a concessão do refúgio.

Formei minha opinião depois de muito estudar. Quando entrei no caso, não tinha opinião -- nem era favorável à extradição nem à concessão de refúgio.

Quatro meses depois, em setembro, o caso foi parar no STF. No Blog, acompanhamos a votação ao vivo, com análises do blogueiro e ajuda dos leitores. A decisão foi dupla: por apenas um voto, 6 x 5, os ministros entenderam que era preciso extraditá-lo, mas, ao mesmo tempo, concordaram todos que a decisão final caberia ao presidente da República.

Mais tarde, já em abril de 2010, um grupo do melhor do Direito brasileiro assinou um manifesto pró-Battisti. Achei aquilo um sinal: não estava louco ao defender o refúgio, afinal, a nata da nata jurídica nacional também defendia.

Como, a partir do segundo semestre, o tema principal do país foi a eleição presidencial, era compreensível que o assunto fosse esquecido.

Tão logo terminaram as eleições, em novembro, escrevi um novo post, levantando novamente essa bola -- afinal, o que seria feito do caso Battisti? O post, escrito em forma de e-mail enviado por Battisti à Lula acabou repercutindo na blogosfera (lembro que O Descurvo tratou, mas se achar os outros links adiciono aqui) e chegou a resvalar nos jornais -- um amigo, de um jornalão de São Paulo (não o Valor, onde esse blogueiro trabalha, é claro) revelou que o post "lembrou" editores que o caso estava em aberto.

Finalmente, hoje, dois anos depois, o refúgio foi concedido. Mas o caso ainda está de pé e muitas pedras rolarão (o último parágrafo desta matéria deixa isso bem claro).

O dólar no governo Lula

O dólar fechou hoje, no último pregão do ano, cotado a R$ 1,66. Quando Luiz Inácio Lula da Silva assumiu a Presidência da República, em 1º de janeiro de 2003, o dólar estava cotado em R$ 3,53. Chegou a bater, no auge da valorização, R$ 1,56 em agosto de 2008, pouco antes de estourar a crise econômica mundial, que fez o dólar disparar, em dois meses, e, tão logo subiu, rapidamente desceu.

Ao fechar em R$ 1,66, a questão cambial fica como um pesado fardo para o novo governo, de Dilma Rousseff, solucionar caso queira tornar o país menos dependente de commodities, demandadas pela China, e dos capitais estrangeiros, que procuram um ativo num mundo em crise.

Essa é uma dependência perigosa. O que ocorrerá com o balanço de pagamentos do Brasil caso a situação global melhore e a China desacelere? Precisamos encontrar novas formas de inserção comercial e isso passa, de forma peremptória, pelo forte investimento em tecnologia e indústria, que precisam ter condições vantajosas para surgir e ganharem musculatura.

O câmbio aparece aí, neste momento estratégico de formação de país. Encontrar uma taxa que seja, ao mesmo tempo, vantajosa para aquele que exporta e que encareça o importado que rouba mercado de semelhante nacional, será uma das mais complexas missões encaradas por Dilma.

Fernando Henrique Cardoso não conseguiu lidar com o câmbio. Luiz Inácio Lula da Silva também não. Dilma conseguirá?

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Interlúdio

Da série "Grandes momentos de 2010"






Entrevista com Antônio Delfim Netto, no escritório do Delfim, em março. As fotos são da fotógrafa e grande amiga Ana Paula Paiva.

O debate que o Brasil não fez

O título do post é o mesmo da coluna que Clóvis Rossi escreveu na Folha de sábado. Trata-se de uma poderosa defesa da revisão da Lei de Anistia.

Concordo, assino embaixo e publico, na íntegra, aqui no Blog.

***

O debate que o Brasil não fez

Por Clóvis Rossi

Confesso que o instinto do escorpião prevaleceu sobre o espírito natalino na escolha do tema para hoje. Peço perdão, mas não me sentiria confortável se me omitisse na polêmica, algo abafada, mas polêmica, em torno da Lei de Anistia, em especial depois da condenação à prisão perpétua do ditador argentino Jorge Rafael Videla.


Antes, já houvera o vexame de uma instituição multilateral, a Corte Interamericana de Direitos Humanos, ter discutido (e decidido) a respeito de uma legislação que a sociedade brasileira, por meio de suas organizações representativas, deveria ter debatido há muito mais tempo.

Deixo para o final entrar no mérito da decisão da Corte de declarar nula a Lei de Anistia.

Até lá, meu ponto é a necessidade de um debate interno em torno do assunto.

A Lei de Anistia foi emitida para, na essência, proteger um lado, o dos vencedores. Eram, a rigor, os únicos que não haviam sido punidos.

Os derrotados, ou seja, os opositores ao regime militar, tenham ou não adotado a luta armada, sofreram punições de acordo com a legislação convencional (prisão, por exemplo), punições por uma legislação de exceção (o banimento, por exemplo) e até punições à margem de qualquer lei, convencional ou de exceção, como mortes em supostos enfrentamentos, suicídios que foram assassinatos (caso Vladimir Herzog, por exemplo) e torturas.

Aqui entra o julgamento do general Videla para entroncar com a falta de debate em torno da anistia no Brasil. Na Argentina, houve uma punição inicial, logo após a redemocratização de 1983, revertida depois como consequência de levantes militares que perseguiam a impunidade para os perpetradores da matança em massa ocorrida na ditadura de 1976-83.

Entre parêntesis, cabe lembrar que a condenação de Videla serve de compensação para os familiares de brasileiros vítimas da Operação Condor, o mecanismo multinacional de repressão criado no Cone Sul nos anos 70. A iniciativa surgiu em uma reunião de Exércitos americanos realizada em 1975 no Hotel Carrasco de Montevidéu. Videla era então comandante do Exército argentino e representou seu país nessa reunião.

Fecha parêntesis. A Argentina precisou de 20 anos para retomar a discussão da anistia, mas o fez em todos os âmbitos que a democracia inventou. As leis que concediam a anistia para os militares foram revogadas primeiro pelo Congresso, em 2003, e depois pela Corte Suprema, no ano seguinte.

Como a iniciativa havia sido do Executivo, tem-se pois que a revogação tramitou por todos os três Poderes clássicos. Alguém aí é capaz de conceber algo mais democrático?

E no Brasil? Nada, salvo esparsas iniciativas do atual governo. Termino com o mérito, como prometido: convém revogar a Lei de Anistia? Agora é tarde. Tivesse havido o debate nos governos FHC e/ou Lula, seria uma coisa. No governo Dilma Rousseff, vítima de punição extralegal, na forma de tortura, seria considerada revanchismo, o que abriria uma crise que só aproveitaria a pescadores de águas turvas.

É uma pena.
 
***
 
Já escrevi uma vez sobre o tema. Para saber minha opinião, caro leitor, clique aqui.
 
A Lei de Anistia foi importantíssima em 1979, quando ajudou a formar, de novo, um país, que se fortaleceria para desalojar os militares do poder tomado por golpe em 1964. Passada uma geração -- algo como 20 anos -- era mais do que hora para revisar a Lei. Agentes do Estado que abusaram de seu poder para torturar, sequestrar, censurar e assassinar opositores precisam ser culpados e criminalizados. Se muitos já morreram, nós, como sociedade roubada de democracia em 31 de março de 1964, precisamos saber seus nomes, seus crimes e sua história. Se estão vivos, ainda há tempo de pagarem por seus crimes.
 
Havia uma sociedade, que se construía de maneira rica naquele momento. Tínhamos teatro, cinema, música, arquitetura, medicina, artes plásticas, poesia, literatura, televisão, rádio, enfim, uma nação, que era democrática. Aquela sociedade foi roubada, em 1964, e passou, a partir dali, a conviver com 21 anos de presidentes, governadores e prefeitos escolhidos por um grupelho, que decidia o que podia ou não podia ser encenado, projetado, cantado ou discutido. Quem se opunha tinha três possibilidades: 1) se exilava fora de seu país, o Brasil; 2) ficava quieto e aguentava as mazelas; 3) partia para a luta, na tentativa de reestabelecer a democracia roubada.
 
Estes, que ficaram e lutaram, não são melhores ou piores que aqueles que foram embora ou ficaram calados. São opções. Assim como, em uma família é possível que um filho, mais agitado e falante escolha ser jornalista e outro, filho dos mesmos pais, seja mais quieto e escolha fazer engenharia, direito, medicina ou o que for, numa sociedade, cada um segue seu caminho. No entanto, os que lutaram a batalha inglória -- porque, convenhamos, não seriam quarenta rapazes de 20 anos que acabariam com um Estado militar -- foram os que, em sua maior parte, sofreram as terríveis consequências. Tinha muito inocente sendo morto também, é claro, mas a maior parte eram os que optaram pela terceira via.
 
Era um mundo diferente também. Um mundo em que a União Soviética rivalizava na economia e nas Artes com os Estados Unidos, a nação mais populosa do mundo, a China, estava sob regime maoísta e Cuba, um dos países mais simpáticos das Américas, tinha conseguido derrubar seu governo de fantoches.
 
Era factível, portanto, na cabeça de jovens de 17, 20 anos, fazer algo parecido no Brasil.
 
Eles foram torturados e assassinados por gente que roubou nossa democracia. Essa gente precisa ser encontrada e criminalizada. Esse é um grande passo que o Brasil ainda precisa dar se quiser ser uma nação séria e desenvolvida.
 
Mas teremos coragem de dar?
 
Eu acho que não.

***

Atualização de 30/12, às 14h49min

Por Hugo Albuquerque

João,


Só lembrando que a própria Lei de Anistia não cobre "crimes de sangue". Depois, ela se direciona a quem foi vítima dos atos institucionais e não aos guerrilheiros, muito menos admite que agentes do Estado perpetraram atos de tortura. Os militares fizeram isso para não perdoar os guerrilheiros - tanto que aqueles que estavam presos, não foram libertados -, mas sem nunca supor que os seus crimes viessem à tona. Aí, valem-se do expediente, ratificado por certos juristas e juízes, de que os torturadores teriam sua arrolada entre as hipóteses dos "crimes conexos", o que é falso, posto que a própria Lei excetua isso e depois que a Constituição de 1988 torna a tortura crime impossibilitado de ser alvo de anistia, graça ou indulto. Uma argumentação mais sofisticada tenta pôr a questão em termos estritamente penais, de que apesar da tortura ser inanistiável, ela não é imprescritível, portanto, os crimes em questão já estariam prescritos. Isso também é falso. Não foi um particular que torturou, foi um agente do Estado - portanto, ele próprio - que o fez. Isso não é um infração penal é crime contra a humanidade.

Depois, temos a questão das políticas dos dois últimos governos em relação aos torturados. Esqueçam a Defesa e olhem para onde interessa: A Advocacia-Geral da União (AGU). Quando um torturado entra com um processo contra as violações que sofreu, ele processa a União, portanto, é a AGU o órgão que entra como parte contrária. Sim, ela é obrigada a litigar contra o torturado dentro porque ela é proibida de desistir de um caso porque, na medida em que não dispõe desse direito. Mas acontece que no Brasil existe apenas um duplo grau de jurisdição. Não três ou quatro. Um processo só chega ao STJ ou ao STF se for levantado, respectivamente, que Lei Federal ou a própria Constituição foram desrespeitadas no acórdão do Tribunal de Justiça. Em suma, em um caso que os torturados ganharam a causa, p.ex., no TJ-SP, o advogado da União não estariam incorrendo em improbidade administrativa caso deixasse de recorrer ao STJ e ao STF. Mas eles recorrem mesmo assim. E aí de quem não recorrer. A quem responde a AGU? Diretamente ao Presidente da República. Em suma, existe uma doutrina dentro da atual administração (como havia com FHC) de jogar duro com as vítimas de tortura.

Por que FHC e Lula fizeram isso? Porque as Forças Armadas atuam como um partido e lhes pressionaram duramente ao longo de seus longos mandatos. Nenhum dos dois teve a coragem de comprar uma briga que, em último caso, é o enfrentamento de uma doença mascarada pelo bom e velho cordialismo brasileiro (social mas também político), a saber, a luta última pela democratização do país, que passa por uma reforma nas FFAA que as submeta definitivamente à Democracia. E reforma nas FFAA tem pouco a ver com compra de caças supersônicos e uma nova frota pra a Marinha: Isso é uma questão de criar uma nova doutrina de ação na qual ela abra definitivamente mão de confortáveis álibis da Guerra Fria - e reconheça seus erros em um passado bem presente para garantir o nosso futuro. Chilenos e argentinos, que enfrentaram adversidades piores do as nossas, já o fizeram. Se não fizermos, pagaremos, tão logo, um preço alto demais para a democracia.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Gaza, dois anos depois


Crianças palestinas, em Gaza. Bela foto de Adriana Carranca, da Agência Estado, que escreveu matéria sobre a data.

Há dois anos, Israel começava seu último massacre contra os palestinos sitiados em Gaza, numa operação que recebeu cobertura extensa do Blog. Gaza continua sem a entrada de água, comida, energia, cimento, remédios. Os mais extremos, ligados ao Hamas, decidem, então se insurgir.

Não se trata de defender o Hamas ou quem quer que seja. Mas entender. O Hamas só existe e só é visto como uma "saída" para os palestinos em Gaza porque as condições colocadas por um agente externo os impelem para tanto.

Não é das coisas mais complicadas do mundo sacar isso.

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Um país que já existiu

Neli e Nelita eram amigas. Mas disputavam em tudo.

O Rio de Janeiro já não era mais a capital da República, mas ainda era a cidade mais populosa, mais charmosa, mais dinâmica e, claro, mais dengosa -- mais ainda que Salvador, uma vez que todas as baianas dengosas tinham seguido o caminho de Dorival Caymmi, e se mudado para o Rio. A ditadura acabara de começar para valer, depois de um governo Castello (1964-66) que vacilara no aperto político, e acertara nas mudanças econômicas.

Para quem tinha entre 13 e 17 anos, naqueles tempos, no entanto, não havia vida melhor. A ditadura incomodava apenas os irmãos mais velhos, com seus 20 e poucos, já na faculdade, e os pais mais politizados, e os artistas ainda estavam todos por aqui. Glauber e os cineastas do Cinema Novo enchiam as ruas do Rio de câmeras e atores reais, Oiticica flanava pela zona sul com seus parangolés, Caetano, Gil e os Mutantes, com suas roupas e cabelos loucos animavam as noitadas e o rádio e a televisão, para quem tinha, eram cheios do melhor que a música tinha a oferecer, e as modas chegavam ao Rio antes de chegar em Paris ou Nova York.

Nesse pequeno interregno, entre a debandada geral e o surgimento da guerrilha, mais precisamente entre 1968 e 1970, foi caracterizado por uma briga fraticida, que não se dava nos porões da ditadura ou nos gramados do Maracanã, mas nos bailinhos, festinhas e boates frequentados por Neli e Nelita.

Amigas de escola, Neli e Nelita tinham a mesma idade: 15, em 1968, e 17, em 1970. Eram amigas, portanto, na fase em que as meninas deixam de ser meninas, e passam, rapidamente, pela adolescência, para chegar à idade madura. Neli, de perfil mais impulsivo, demoraria um pouco mais para atingir a maturidade. Nelita, por seu tempo, atingia tão logo assistiu seu 17º carnaval.

As duas não se desgrudavam e, amigas aos 15, viveram as fases da Jovem Guarda, quando dividiam as revistas de Roberto e Erasmo, dos Beatles, quando concordavam que o mais bonito eram mesmo Paul, dos Rolling Stones, que eram melhores para dançar nos bailes que os rapazes de Liverpool, da Tropicália e, claro, de Chico.

Na escola, que ficava na Tijuca, bairro então dos mais chiques da cidade mais chique do Brasil, disputavam o mais renomado concurso das meninas: o de "Rainha da Primavera". Para vencer, era preciso ser bem votada em quesitos tão díspares quanto "elegância", "boa dançarina" e "boa educação", além, é claro, do principal: saber sorrir.

A morena Neli, com seu cabelo negro curtinho, caberia tranquilamente nos filmes que Godard, naqueles mesmos anos, filmava em Paris. Usava sempre vestidinhos e uma tiara colorido, e foi das primeiras a se emperequetar com leve maquiagem e bolsas.

Já Nelita era branquinha de olhos azuis, com longos cabelos loiros, que desciam pelas costas, soltos, encontrando sempre uma camisa, dobrada nas mangas, com calças jeans ou de seda, apertas nas pernas e abertas nos calcanhares, já surfando a onda das boca de sino. Ao final, sandálias ou chinelos, para as duas.

Ao longo de todo aquele ano, Neli e Nelita, que moravam longe uma da outra, encontravam-se quarteirões antes da praça Saenz Pena, na Tijuca, onde ficava a escola, para papearem sobre a disputa. Nelita, mais estudiosa que Neli, se preocupava mais com as provas -- e com a bronca que viria de sua mãe caso as notas não viessem altas -- enquanto Neli, de família mais rica, esperava com o concurso semear o caminho para um casamento que lhe daria uma casa no Alto da Boa Vista.

O Alto da Boa Vista, no Rio de Janeiro dos anos 1960, era o suprassumo da humanidade. Morar ali era como, em 1969, andar na lua. Ou seja, uma parte dos cariocas achava que mesmo quem morava estava mentindo.

Chegada a primavera, em setembro, já no fim do ano letivo, as votações estavam abertas. O resultado seria divulgado no baile escolar de outubro, quando todas as meninas iam cheirosas e arrumadas tentar a sorte final. Neli estava na porta desde as 18h, quando as primeiras músicas começaram a tocar, enquanto Nelita quase não foi, porque o pai, o único que poderia e deveria levá-la, teimava em demorar a chegar do trabalho -- gene esse, de trabalhar aos sábados, que Nelita herdou.

O baile começou, Nelita chegou tarde, quase que só para ouvir o resultado. Teve tempo apenas de encontrar Neli, que naquela noite sequer dançou, para não suar e estragar a roupa. Neli quase não acreditou quando ouviu que a amiga era anunciada Rainha da Primavera de 1968 ao microfone. O desgosto da amiga, toda ansiosa para aquilo, deixou em Nelita a sensação de, mesmo entusiasmadíssima com a vitória, ter estragado a felicidade da amiga. Quando desceu do palco, ficou apenas com o buquê e a faixa, dando à Neli a coroa de rainha.

A amizade não sofreu com a aquilo, como nunca sofria, mas a disputa se acirrara.

Em 1969, aos 16, foi a vez de Neli ganhar. Naquele ano, quando "Aquele Abraço", de Gil, e "Flamengo", de Tim Maia, eram as vedetes das discotecas, a vitória de Neli mais que empatar a disputa, fez a decisão ir para os pênaltis. No ano seguinte, as duas estariam fora da escola e dificilmente se encontrariam com aquela facilidade. Já não poderiam mais disputar o Rainha da Primavera, fechado às meninas de até 16 anos, e precisavam descobrir algo que fizesse a moeda sair do equilíbrio e cair para algum lado.

Descobriram as boates.

Na Ilha do Governador, onde ambas moravam, as boates infestavam principalmente a região da Praia da Bica. Ali dançar era mais importante que cantar o hino nacional, numa época em que o governo Médici baixara censura pesada e o hino brasileiro era a música mais tocada em qualquer estação de rádio, principalmente depois que a seleção brasileira de futebol levou a Copa do Mundo no México, com Pelé, Tostão, Gerson e Jairzinho.

Uma das boates, que ficava bem no fim da Bica, mantinha um tradicional concurso de melhor dançarina. Como Neli e Nelita conheciam todas as músicas, encontraram ali, no fim de 1970, a chance do desempate. Passavam quantas vezes fosse por Stones, Pickett, Temptations e mesmo as mais calminhas, como Roberto e bossa nova. O concurso era como uma Copa do Mundo: os cerimonais excluiam os piores, deixando espaço apenas para os e as melhores. Ao final de uma noite, haviam apenas os dez finalistas, de onde sairiam cinco e, finalmente, o vitorioso. Lá estavam, é claro, Neli e Nelita.

As duas estavam também entre as cinco melhores, mas apenas Nelita chegou ao final, ganhando, então, um buquê da boate, que era mais valioso que a taça Jules Rimet que Carlos Alberto Torres levantara meses antes após bater a Itália por 4 x 1 no México.

A amizade não acabou depois do concurso final. A amizade existe até hoje, mesmo passados 35 anos do último encontro das duas. Neli ainda deve ter a coroa, imagina Nelita, que guardou a faixa de Rainha da escola, em 1968, na casa dos pais, que continuam no Rio, que não é mais o mesmo. A Tijuca perdeu, e muito, seu estigma, bem como o Alto da Boa Vista, hoje esquecido. Os bailes e concursos, ao som de música brasileira, morreram, e o cenário de representação nacional também mudou, a partir dos anos 1980, para São Paulo, onde, coincidência ou não, Nelita mora com o marido desde 1986.

domingo, 26 de dezembro de 2010

Os textos de balanço do ano

Os jornalões produziram belas edições de domingo, levantando balanços críticos de grandes eventos e personagens de 2010 e, no caso do Estadão, duas belíssimas reportagens especiais. Para este blogueiro que não descansa, fizeram a manhã deste domingo mais quente ainda.

***

Com seu delicioso texto, Lúcia Guimarães escreve sobre o fenômeno Sarah Palin, a pessoa mais incapaz a atingir sucesso político sem saber absolutamente nada sobre nada. O texto de Lúcia, "A mal-amada heroína dos alienados", é um primor só.

Ainda em terreno estrangeiro, Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia em 2001 e autor de Freefall, que devorei no início deste ano, ainda na versão em inglês, destila os percalços econômicos nos EUA e União Europeia. Ele acerta em cheio o alvo: os mercados, que dominavam a política e produziram essa enorme crise, não perderam força e hoje ditam o rumo, barrando toda e qualquer iniciativa de investimento público -- que seria, esse sim, o catalizador da recuperação.

***

O fenômeno WikiLeaks ganhou dois ótimos textos. No Estadão, Sergio Augusto, um dos grandes jornalistas, escritores e botafoguenses do país, desenha, com maestria, a figura de Julian Assange, o criador do WikiLeaks. Já na Folha, o embaixador Rubens Ricupero parte do vazamento de documentos diplomáticos secretos para recontar o imbróglio nas relações entre Brasil e Argentina, em 1908, que quase levou os dois países às vias de fato. Atuação genial do Barão de Rio Branco, segundo Ricupero.

***
A ombudman da Folha, Suzana Singer, chama a atenção para um caso triste: de todos os balanços produzidos pelos jornalões nos últimos dias, o de O Globo foi, de longe, o pior. Enviesado politicamente, o jornalão carioca está, há tempos, perdido na cobertura política -- o que distorce qualquer análise produzida ali. O blogueiro aqui, otimista como sempre, espera que esse tempo passará.

Já que o tema chegou na política interna, é bom ouvir o que Elio Gaspari tem a dizer sobre os casos de Pedro Novais e Ideli Salvatti, indicados para ocuparem, respectivamente, o Ministério do Turismo e a Secretaria Nacional da Pesca. Enquanto Ideli, que, como congressista, recebe verba mensal para moradia em Brasília cobrou notas de hospedagem de hotel, Novais foi mais longe: cobrou, do Congresso, nota fiscal de uma noitada no motel Caribe, dos mais caros de São Luiz, capital do Maranhão, seu Estado, de onde o poder de José Sarney bancou sua nomeação no Ministério.

***

Quando fala de política, Ferreira Gullar é uma lástima. Mas quando fala de suas memórias, poucos superam seus causos. É o caso da coluna publicada hoje na Folha, "E continua chovendo..."

***

Finalmente, as grandes reportagens -- as duas no Estadão.

Roberto Almeida foi ao rio Jatobá visitar a aldeia dos Ikpeng, uma das mais arredias das tribos brasileiras, que quer sair da reserva dos Xingu, onde estão desde outubro de 1964, quando os irmãos Villas-Bôas os integraram. Há um conflito esperando para acontecer, uma vez que a aldeia original dos Ikpeng hoje virou fazenda de soja.

Já Renée Pereira e Nilton Fukuda foram visitar as obras da Transnordestina, um dos maiores empreendimentos logísticos do mundo em operação, que ligará, até o fim de 2013, a cidade de Eliseu Martins, nos cafundós do Piauí, aos portos de Pecém, no Ceará, e à Suape, em Pernambuco. Todo o projeto, tocado pela CSN com ajuda do BNDES, Banco do Nordeste, Sudene e o Fundo de Desenvolvimento do Nordeste (Finor) e com três empreiteiras (Odebrecht, Andrade Gutierrez e Galvão) vai alterar profundamente o escoamento de minérios e, consequentemente, os diversos municípios no caminho.

Hoje, são 11 mil trabalhadores com carteira assinada trabalhando nas obras -- ao todo, até 2013, serão pouco mais de 20 mil empregos, diretos e indiretos, criados pela Transnordestina.

Oportunamente, falarei mais da Transnordestina -- como símbolo máximo da recuperação nacional do Nordeste como um todo.

Domingo

Talvez as pessoas logo se convençam de que não existe arte patriótica nem ciência patriótica. Ambas pertencem, como tudo o que é bom, ao mundo todo e podem se promovidas apenas através da intenção geral, livre, entre todos os que vivem ao mesmo tempo.


Goethe, ecritor alemão, em texto de 1826.

sábado, 25 de dezembro de 2010

O vácuo que Quércia deixa no PMDB

A morte de Orestes Quércia, ontem, fecha um dos maiores ciclos políticos em São Paulo. Explico por quê.

Quércia só foi eleito duas vezes em períodos democráticos: sua primeira eleição, como vereador em Capinas, em 1963, e sua última, como governador de São Paulo, em 1986. No meio tempo, foi eleito deputado estadual pelo MDB, em 1966, prefeito de Campinas, em 1968, e senador por SP, em 1974. Foi como senador, em 1977, que recebeu sua primeira denúncia: acusado de, quando prefeito de Campinas, ter enriquecido de maneira ilegal.

Essas denúncias o acompanhariam por toda a vida, tendo engrossado nos anos 1990, quando seu patrimônio cresceu enormemente depois de ter ocupado o governo de São Paulo.

O ciclo que Quércia fecha é o ciclo do baronato do café, das grandes fazendas paulistas, do PMDB como pólo aglutinador de todas as diferenças sociais. Nem São Paulo é mais o Estado do café, das grandes fazendas (embora elas ainda existam, é claro), e muito menos é o PMDB o reflexo das diferenças e convergências sociais. Era nos tempos da ditadura e continuou assim durante a redemocratização, mas suas rachaduras -- o PT, em 1980, fazendo o diálogo com a Teologia da Libertação, na Igreja Católica, e com os operários sindicalizados -- e o PSDB, em 1988, fazendo a ponte entre os acadêmicos com mestrados e doutorados estrangeiros e os empresários nacionalistas -- acabaram por, pouco a pouco, esvaziarem o PMDB.

Hoje, o PMDB é a maior colcha de retalhos política das Américas. Nada, nem a Concertacion chilena ou mesmo os Democratas americanos dos anos 1980, superam o tamanho e o jeito de fazer política do PMDB.

O fim da era Quércia, no entanto, deixa um vácuo enorme. Há ainda uma série de eras abertas -- os Sarney, no Maranhão e Amapá, Renan Calheiros, em Alagoas, Romero Jucá, de Roraima, Moreira Franco, no Rio de Janeiro, e, em menor medida, Pedro Simon, no Rio Grande do Sul e Michel Temer, em São Paulo.

Temer sai forte nesse novo caciquismo, que vai imperar no PMDB até essas figuras citadas acima também tomarem o rumo do quercismo, fenômeno que vai durar toda esta década que começamos agora. Temer será vice-presidente da República entre janeiro de 2011 e dezembro de 2014, e agora sem Quércia em SP, tem tudo para liderar os peemedebistas paulistas.

Em setembro de 2009, Orestes Quércia deu uma longa entrevista ao Estadão, publicada em página inteira. Á época, comentei cá no Blog um fato que me intrigou: a entrevista toda era calcada na disputa presidencial de 2010, já antecipada nos jornais em 2009. Quércia, como líder máximo do PMDB de São Paulo, portanto, tinha à sua frente a chance de negociar apoio ao candidato do PSDB -- fosse José Serra fosse Aécio Neves -- ou, em menor medida, à candidata do PT, Dilma Rousseff.

Mas ao invés de discutir apoio por meio do embate de ideias e visões de país -- o que, convenhamos, seria o mais adequado em qualquer disputa política numa democracia -- Quércia, em nenhum momento, falou de ideias.

É esse o PMDB. Mas, a partir de hoje, um PMDB ainda mais enfraquecido.

***
Aproveito o post para desejar boas festas a todos os leitores.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Quando a China ultrapassará o PIB dos EUA?

A The Economist fez um ótimo exercício econométrico: estipulou um crescimento médio de 7,75% do PIB da China, ao longo dos próximos anos, com inflação rondando 4% ao ano e uma valorização do yuan, sua moeda, de 3% por ano. Ao mesmo tempo, a economia americana crescerá 2,5% ao ano, com inflação anual em 1,5%.

Com isso, o PIB chinês ultrapassará os Estados Unidos em 2019.

Como a China ultrapassou o Japão, em 2010, e ocupa agora a segunda posição no ranking das maiores economias do mundo, isso quer dizer que, caso o cenário da Economist -- que é muito realista, repito -- se realize, a China passará, no espaço de uma década, da 3º para a 1ª maior economia.

No link, é possível testar vários cenários.

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

"O país está nos limites", diz Bacha

Quando, em 1974, o economista Edmar Bacha criou o termo “Belíndia” para designar o modelo econômico brasileiro — que unia a riqueza da Bélgica, um país pequeno, com a pobreza da Índia, um país continental — o Produto Interno Bruto (PIB) havia crescido 8,1%, mas a inflação dobrara, passando de 15,5% para 34,5% de 1973 a 1974. Era o fim do “milagre” produzido pela ditadura militar a partir de 1967, e início de um período que mesclaria crescimento acelerado com endividamento externo e inflação crescente. Vinte anos mais tarde, Bacha, doutor em economia por Yale (EUA) em 1968, liderava o grupo de economistas formado por Persio Arida, Gustavo Franco e André Lara Resende na formulação e implementação do Plano Real, que trouxe a inflação dos 2.477,1% registrados em 1993 para menos de dois dígitos a partir de 1996. Hoje, com a economia caminhando para repetir a alta de 8% registrada pelo PIB nos anos 1970, Bacha avalia que o Brasil está no limite.


“O Brasil está mais complexo que nos anos 1970 e 90. Superamos os grandes problemas da ditadura, da hiperinflação e da perspectiva para um governo de esquerda. Não há mais um grande problema, mas uma série de questões para serem atacadas”, avalia Bacha, para quem o país conta “com uma produtividade ainda fraca, o setor público ainda abocanha uma parcela muito grande do PIB e não entrega de volta no mesmo nível, o sistema político brasileiro é um horror, o sistema tributário é uma vergonha, e a Previdência, se não for reformada, vai quebrar o país em 2050”.

Na entrevista que deu no prédio projetado por Oscar Niemeyer, com jardins de Roberto Burle Marx ao fundo, onde funciona o Instituto de Estudos de Pesquisa Econômica Casa das Garças, Bacha, diretor do centro e até a semana que vem consultor sênior do Itaú BBA, fez um balanço dos oito anos do governo Luiz Inácio Lula da Silva, e avaliou os principais desafios de Dilma Rousseff. E foi contundente em dizer que não vê risco de desindustrialização no país, mesmo com os indicadores de produção industrial andando de lado desde abril. “Como podemos falar em desindustrialização quando estamos com pleno emprego?”, pergunta, se referindo à demanda por mão de obra, que acaba por elevar os salários.
 
***
Este é o início da entrevista que fiz com o economista Edmar Bacha, que o Valor publica na edição de hoje. Ao final da 1h20min de conversa, gravamos um pequeno vídeo, de 8 minutos, que é também publicado hoje no site do jornal.
 
Foi esta a entrevista que fui fazer no Rio, semana passada.
 
***
O outro peso pesado da economia ainda está para ser publicado. Aguardem.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

A refundação tucana

Iniciamos, em agosto, na blogosfera, um riquíssima discussão sobre o processo de refundação do PSDB. À época, nenhum dos tucanos -- ou mesmo da mídia tradicional, convenhamos -- admitia isso. Mas, tão logo as eleições terminaram, virou o assunto da vez.

A primeira fagulha foi lançada por Fernando Henrique Cardoso, em entrevista à Folha, na terça-feira seguinte ao domingo de segundo turno. A entrevista, publicada na terça, foi feita na segunda-feira. Ou seja, FHC já estava com a ideia de refundação engatilhada, esperando o momento certo.

Em seguida, Gustavo Franco, um dos quatro formuladores do Plano Real e presidente do Banco Central entre 1997 e 1999, escreveu um longo artigo na Folha dizendo querer "seu PSDB de volta". Gustavo, nome forte do mercadismo tucano, fez, com elegância, o que outros, dentro do partido, estão tentando fazer à força: depurar do PSDB a loucura moralista que assolou o partido entre 2005 e 2010.

Mais tarde, Aécio Neves, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, lançou algumas bases para a refundação do PSDB. Quais são elas? Acabar com a era do moralismo, do apego à religião como base política e a ideia de fazer de diferentes plataformas uma única. Além disso, é claro, o partido precisa saber dialogar com o fenômeno Lula -- gente, não me parece coerente ganhar eleição atacando um sujeito que é aprovado por 87% dos brasileiros, mas isso sou eu.

Hoje, na Folha, artigo do decano Jorge da Cunha Lima, quase 80 anos nas costas, vice-presidente do Conselho Curador da Fundação Padre Anchieta e vice-presidente do Itaú Cultural, falando em refundar o PSDB.

E em que teclas bate Lima?

Que o PSDB precisa ser refundado pensando no único passado que tem -- o governo FHC -- e, olhando para frente, em Aécio Neves.

Exatamente o que temos levantado por aqui e no Amálgama desde agosto.

***

Veja, no Amálgama, minhas colunas: "A esgrima tucana de 2011 a 2014" e "A nova oposição"

domingo, 19 de dezembro de 2010

Domingo

Estou sentado à beira da estrada,
o condutor muda a roda.
Não me agrada o lugar de onde venho.
Não me agrada o lugar para onde vou.
Por que olho a troca da roda
com impaciência?


Bertold Brecht, escritor e dramaturgo alemão.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

4 anos de Blog

Hoje, 16 de dezembro, o Blog comemora 4 anos de funcionamento diário. É clichê, eu sei, mas não custa nada e eu vou falar mesmo assim: o tempo passou.

Lá trás, em dezembro de 2006, falávamos de um país que acabara de reeleger Luiz Inácio Lula da Silva presidente da República, que consolidava um crescimento em torno de 4%, com geração de 1,2 milhões de empregos. Hoje, Lula deixa o poder e o país caminha para um crescimento de 8% e geração de 2,4 milhões de empregos.

Em dezembro de 2006, não só George W. Bush era o presidente dos Estados Unidos, como parecia que os democratas nada fariam diante de um candidato republicano em 2008, tamanho fora o golpe dado por Bush em John Kerry nas eleições do final de 2004. Como os EUA continuavam crescendo e ninguém sequer falava em crise, tudo parecia tranquilo, mesmo com as guerras no Afeganistão e no Iraque à todo o vapor. Hoje, não é que falamos de Barack Obama e o fenômeno americano -- um sujeito que ninguém conhecia em dezembro de 2006 -- mas sim se Obama será capaz de se reeleger em 2012, porque a crise que explodiu em setembro de 2008, nos EUA, continua se arrastando.

E sim, os americanos continuam no Iraque e no Afeganistão.

A Europa, em dezembro de 2006, era a Alemanha que recebia e distribuia estudantes colegiais e universitários do mundo inteiro, com suas montadoras e bancos importando lucros de operações multinacionais; a Espanha, com seu capitalismo pujante do pós-franquismo no auge, com Santander e Telefónica atraindo os holofotes para o turismo em Barcelona e Madrid; a Itália, com suas idas e vindas de Berlusconi, e seu eterno caos político; a beleza de Portugal que começava a se reatar com os teus, como José Saramago, que naquele ano ganhara seu primeiro prêmio nacional pela obra; Londres e Paris como centros financeiros e políticos.

Hoje, a Alemanha tenta se segurar como única força econômica do euro, moeda vista como fardo por todos os países que utilizam. A Espanha corre o risco de ser a bala de prata de todo um modelo de União Europeia, uma vez que o enorme endividamento público e privado não pode ser custeado por fundos compartilhados, mas com sangria (sem trocadilhos) interna. A Itália, ainda com Berlusconi, torce para que a Espanha se resolva, porque pode ser a próxima da lista, a não ser que Portugal, que não conta mais com Saramago, que nos deixou em 2010, entre numa espiral que derrube as contas do país. Londres e Paris são o desenho do atraso: hoje, beirando 2011, parecem capitais paradas nos tempos em que Shaw e Baudelaire flanavam por suas boulevares.

A China, bom, a China crescia a 12% em 2006, e hoje cresce a 11%. Mas a transformação porque passou não ocorreu na superfície, mas nos intestinos. Suicídios em massa na Foxconn, empresa americana que produz na China produtos sofisticados como iPod e iPad, forçaram o aumento dos salários. O governo chinês, centralizado no Partido Comunista, abranda, aos poucos, o controle econômico, permitindo, desde 2009, o estabelecimento de remuneração mínima e de mobilidade de capitais, ainda que continue controlando sua moeda. Sua política permanece fechada, com internet e jornais controlados, mas dá mostras, pela transição que ocorrerá em um ano e meio, que as reformas iniciadas em 1978 acelerarão.

A América Latina, em dezembro de 2006, parecia ser a região de Hugo Chávez, num extremo, e Álvaro Uribe, no outro, em países tão próximos, Venezuela e Colômbia, respectivamente. Uribe, que tentou loucamente se reeleger infinitamente, já foi embora -- mas Chávez continua, e, como sempre, com suas ideias tresloucadas de continuísmo eterno. Tinha um Néstor Kirchner começando a dar mostras que seu trabalho de recuperação da Argentina, iniciado em 2003, estava virando jogo de poder, mas ninguém, então, fazia ideia que sua esposa, Cristina, poderia ser indicada à sucedê-lo. Ninguém são, também, imaginaria que Dilma Rousseff, então ministra-chefe da Casa Civil do recém-releito Lula, levaria a Presidência nas eleições de 2010, que pareciam tão distantes.

De lá para cá assistimos o surgimento, sempre com muito alarde, Rafael Correa, no Equador, Evo Morales, na Bolívia e José Pepe Mujica, no Uruguai, que ajudaram a dar à região uma cara que deveria ser sua desde sempre: indígena e militante. Falamos do segundo continente mais pobre do mundo, onde uma elite, que vive viajando à Europa e Estados Unidos, ocupa os postos privados e públicos desde sempre, deixando negros, mulatos e índios de lado -- quem são os mais pobres em cada país? Pois é. Foram estes que ascenderam ao poder. Morales é o primeiro indígena a liderar o mais pobre dos pobres: a Bolívia. Mujica sofreu na pele os males da tenebrosa ditadura uruguaia, e, velhinho, lá está ele no poder do país que gerou Mario Benedetti, que tão bem tratou das coisas do coração, da velhice e da ditadura.

O Blog torce, e trabalha, por meio de análises, para que essas mudanças não sejam perdidas. Isso porque, de dezembro de 2006 para cá, assistimos uma série de tentativas de golpes -- a maior parte deles, felizmente, mal-sucedidos. Evo teve seu avião presidencial atingido, enquanto Correa foi parar no hospital em Quito depois de aspirar bombas de gás lançadas contra sua comitiva.

Golpes de Estado que todos imaginávamos extintos depois que as sangrentas ditaduras militares que varreram a região ao longo do século XX foram deixando o poder entre 1983, quando Galtieri deixou a Argentina, a 1990, quando Pinochet deixou o Chile. Até que em 2009 fomos apresentados à Honduras, e o golpe que tirou o presidente eleito Manuel Zelaya do poder. A figura de Zelaya, com sua camisa aberta e chapéu de cowboy, foi apresentado ao mundo, depois que conseguiu voltar ao seu próprio país e se alojar no consulado brasileiro.

Em dezembro de 2006, os brasileiros adoravam o Orkut e começavam a sacar a internet, com blogs e todo o espaço para discussões. Quatro anos mais tarde, o Orkut já é passado na terra do Facebook, e a internet já é realidade para ao menos 20 milhões de pessoas mais. Além destas, 32 milhões de bocas passaram a comer com frequência -- assistimos, de 2003 para cá, um dos maiores processos de ascensão social da história, engordando uma classe C que hoje é capa de 9 entre 10 revistas de negócios.

Goste-se ou não, Lula, no fundo, pode ser chamado de pai do capitalismo brasileiro. Não é a toa que os militantes mais a esquerda, alocados em P-SOL, PSTU, PCB, PCO ou simplesmente nos bancos da academia despartidarizada são ácidos críticos do governo federal. Não que o Brasil tenha ficado mais inteligente de dezembro de 2006 para cá. Basta ver que a maior parte das pessoas que dizem ser de direita são críticas do governo que mais falou a eles: afinal, amigos, gerar empregos, aumentar os lucros das empresas e do sistema financeiro, revolucionar a Bolsa de Valores (alguém falava de Bovespa no país?) e inserir o Brasil no jogo dos países ricos não me parece uma plataforma bolchevique, marxista, maoísta ou chavista, né?

Mas não contem isso para a turma da direita, que dos restaurantes caros de São Paulo e Rio continua achando que o "presidente analfabeto" é o culpado de tudo. Também não avisem a esquerda que criticar um sujeito aprovado por 84% dos brasileiros não vai ganhar eleição. Deixem a turma dos diretórios acadêmicos acreditar que as condições estruturais estão colocadas para, em 2011, instaurar uma revolução comunista no Brasil.

Tanto à direita quanto à esquerda, uma coisa não mudou nos últimos quatro anos: a falta de estudo. O Brasil se complexificou, minha gente. Não estamos mais na Era Vargas, ou na ditadura militar. Não se trata mais de ser contra ou a favor de alguém, algo ou uma política, mas saber defender uma ação e atacar outra -- e isso requer estudo, reflexão e capacidade de dialogar com todos os lados. Continuo acreditando que o que está à frente é melhor do que o deixamos para trás.

Em dezembro de 2006, vivíamos a dor nacional de ver nossa seleção de futebol ser desqualificada com futebol pífio na Copa. Era uma seleção de superestrelas, com Ronaldo, Ronaldinho Gaúcho, Kaká, Adriano, Cafu, Robinho, Roberto Carlos, todos jogando juntos. Caíram nas quartas-de-final. Quatro anos mais tarde, uma seleção de cabeças de bagre como Felipe Melo, Gilberto, Luis Fabiano e um Kaká machucado, caiu na mesma fase. Ao menos o campeão de 2010, a Espanha, apresentou um futebol infinitamente superior e mais bonito que a Itália de 2006.

Em dezembro de 2006, o mundo parecia a beira de um período incrível para este blogueiro, otimista que só ele. Veio crise mundial, terremoto no Haiti, massacres no Sudão e Darfur, guerra em Gaza, a Operação Satiagraha que prendeu Daniel Dantas e fez de Gilmar Mendes um superstar político, o imbróglio José Sarney no Senado, Sarah Palin, Ahmadinejad e a bomba nuclear em preparação, Dorival Caymmi, Michael Jackson e Pina Bausch se foram, bem como tivemos, em 2010, a falência econômica da Grécia, que forjou, há três mil anos, a mais avançada sociedade humana. Mas o blogueiro, quatro anos depois, continua otimista, acreditando -- e trabalhando muito para -- que o vêm a seguir será um período incrível.

Foi uma bela caminhada, meus amigos e amigas. Tudo comentado e discutido aqui no Blog, que começou com uma audiência zero, e hoje já bate em 500 leitores por dia, tendo o perfil do rapaz aqui, do lado direito de quem olha o Blog, ultrapassado 4,6 mil pageviews. Os amigos feitos nesses anos são muitos -- tantos que eu esqueceria vários de vocês se tentasse citar todos. Continuo intrigado sobre porque alguém viria até aqui, especialmente quando vocês são tantos.

Criei três seções: Domingo, Interlúdio e Fim de Expediente -- esta última infelizmente abandonada no meio do caminho. O Blog foi convidado, em 2008, a escrever algumas colunas para o Óleo do Diabo, e a partir de 2010 para o Amálgama, do Daniel Lopes. O blogueiro também foi convidado a palestrar aos estudantes de jornalismo da Casper Líbero sobre jornalismo econômico, em setembro de 2008, e deu duas entrevistas à MTV -- uma delas sobre a questão Brasil-Turquia-Irã, numa entrevista concedida no dia seguinte do meu retorno da Turquia, onde viajei por sete dias, cinco cidades, numa comitiva do governo turco. No meio do caminho ainda entrei no Twitter, onde mais de 400 pessoas me aturam.

Pelo Valor, onde o blogueiro exercita jornalismo diário com um prazer que muitos acham estranho -- como assim você gosta de trabalhar? -- fui à Recife, Rio de Janeiro, Paraty (RJ) e Turquia. Acompanhei assembleias dos metalúrgicos em greve de Campinas, a Festa Literária de Paraty (Flip), quando falei com quase 20 escritores, as eleições de primeiro turno na casa de Plínio de Arruda Sampaio (PSOL) e no segundo turno da missa da Basílica de Aparecida (SP), quando vi a importância que o debate religioso tomou nas eleições.

Além disso, tive o prazer de entrevistar pesos pesados da economia como Paul Krugman, Martin Wolf, Antônio Delfim Netto (e outros dois gênio da raça, 1) na terça, no Rio e 2) ontem, em SP, mas só os revelarei quando as entrevistas forem publicadas). Também produzi levantamentos inéditos sobre emprego e sindicalismo, como quando, em março, fui o primeiro jornalista a juntar, no Ministério do Trabalho, quanto era repassado às centrais sindicais por meio da contribuição sindical (R$ 146,5 milhões em 2008 e 2009), e quando calculei que, no primeiro semestre do ano, o equivalente a 30,1% dos brasileiros trocaram de emprego por salários maiores -- o maior percentual da história.

Foi uma bela caminhada. Obrigado a todos os leitores, comentaristas ou não. Vocês mantêm este Blog ativo.

***

Muita coisa, no entanto, continua intacta de dezembro de 2006 para cá. Vamos à elas:

P.S. 1: A Rodada Doha ainda é o assunto mais insuportável da humanidade.

P. S. 2: Israel continua ocupando o espaço que há séculos pertencia aos palestinos.

P.S. 3: As Conferências do Clima da ONU, realizadas anualmente desde a Eco-1992 no Rio, continuam não chegando a lugar algum.

P.S. 4: O Botafogo ainda é o time mais charmoso do Brasil.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Interlúdio



Mevlüt Akyıldız, anos 1980.

O aborto, em uma frase

"Quem aqui não teve uma namoradinha que precisou abortar? Meus amigos, vamos encarar a vida como ela é."

Sergio Cabral, governador do Rio de Janeiro, ontem, durante evento com empresários.

***
A Juliana Castro, do Substantivu Commune, escreveu um belo texto sobre a opinião de Sergio Cabral e a questão do aborto.

***
Por Luka

Sinceramente,


Tenho medo de ser esta pessoa quem esteja recolocando o tema em pauta depois de tudo o que aconteceu durante o período eleitoral, até por que o Cabral já deu diversas entrevistas defendendo a legalização do aborto do ponto de vista do controle de natalidade, sem incluir a discussão dentro de um debate sobre assegurar maternidade plena e afins.

Além da discussão de maternidade plena que ele se furta de fazer, pois isso coloca a sua própria administração em xeque, ele também subverte a autonomia da mulher, nessa frase quem teve uma namoradinha que teve que fazer aborto isso fica muito claro que pra ele quem vai decidir quem vai ter o filho ou não não é a mulher e sim o homem, estado ou o escambau.

Fora que a postura dele nesta declaração também é de um machismo profundo, eu não passei por isso por que fiz vasectomi e sou bem casado é de revirar o estômago de qualquer pessoa minimamente ciente do que é o papel da mulher na sociedade '¬¬

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

No Rio


Estou hoje na Cidade Maravilhosa, visitando a sucursal do Valor no Rio e revendo fontes com quem mantenho contato telefônico. Venho ao Rio para entrevistar um sujeito fora de série do pensamento econômico, que fala pouco com a imprensa e anda sumido há bom tempo.

Aviso quem é um dia antes do jornal publicar a entrevista, que também será gravada em vídeo.

Volto ainda hoje, por volta das 22h, para São Paulo, porque amanhã cedo faço nova entrevista, com outro peso pesado sumido.

Fiquem ligados, porque não vai faltar assunto e polêmica.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A nova oposição

Em meu último artigo em 2010 para o Amálgama, faço um desenho da tacada que Aécio Neves, senador mais votado da história de Minas Gerais, nas eleições de 2010, deu em José Serra e no tucanato mais tradicional. O artigo foi publicado hoje.

Na coluna anterior, quando falei da esgrima tucana que surge para o governo Dilma Rousseff (PT), entre 2011 e 2014, apostei com os leitores que o período neocon e moralista do PSDB, iniciado em 2005, tomou seu tiro final em 2010, ao perder as eleições presidenciais.

Há, é claro, uma chama forte pelo moralismo, uma vez que a campanha de 2010, que levou o udenismo de Carlos Lacerda ao extremo, fez eco em segmentos da classe média tradicional e no campo ainda deslocado da modernidade. Ainda veremos, no PSDB e, de maneira mais ampla, na sociedade (Igreja incluso), um forte debate entre pensamentos conservadores e pensamentos mais avançados.

Mas o lado moderno vai prevalecer -- sim, sou otimista, mas não ganho nada sendo otimista, estou fazendo uma aposta, baseando-me, é claro, na sensibilidade política adquirida em anos de labuta com o tema e em muitas conversas com gente ligada aos protagonistas dessa história.

O leitor do Blog está mais que convidado a ler minha mais recente coluna ao Amálgama, clicando aqui.

domingo, 12 de dezembro de 2010

Domingo

Quando tu me fitavas,
Teus olhos sua graça me infundiam;
E assim me sobreamavas
E nisso mereciam
Meus olhos adorar o que em ti viam.

Não queiras desprezar-me,
porque, se cor trigueira em mim achaste,
já podes ver-me agora,
pois, desde que me olhaste,
a graça e a formosura em mim deixaste.


São João da Cruz, padre espanhol em seu "Cântico Espiritual", escrito durante o período de Contra-reforma da Igreja Católica, no século XV. João da Cruz é influenciado pela poesia erótica, que à época dominava a Europa -- e, por isso, era alvo principal da Contra-reforma -- e pelo "Cântico dos cânticos", da Bíblia.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Quem será o novo ministro da Cultura?

O Barretão, Luiz Carlos Barreto, escreveu um belo artigo ontem, na Folha, sobre como deve ser tratada a nomeação do ministro da Cultura do novo governo, que começa em 20 dias. Gilberto Gil fez uma ótima gestão, entre 2003 e 2008, colocando o Ministério no mapa -- vamos lembrar que desde Collor, em 1990, quando a figura do Estado nas artes foi destruída, que o Ministério virou pasta menor. Juca Ferreira, que era o secretário-executivo de Gil, tocou o barco, nos últimos dois anos.

E de Juca nunca vou me esquecer o embate que teve com Gilberto Dimenstein, numa sabatina da Folha, em setembro do ano passado. Coloquei um dos trechos no meu livro, Versão Brasileira, de tão sintomático que era.

Mas não se enganem. O Ministério da Cultura ainda é cheio de vícios -- e sim, continua, infelizmente, um ator menor no governo e no Estado. A maior parte dos trabalhos, no MinC, ainda é despachar incentivos milionários para bancos e grandes empresas -- aqueles que, como todos sabem, não precisam de incentivos -- para que estes invistam em cultura (exposições, cinemas, livros), colocando o logotipo da marca privada, não do Estado. Essa lógica torta, inaugurada na gestão de Sérgio Paulo Rouanet no MinC, em 1991, não foi desativada por nenhum dos ministros desde então, mas a dupla Gil-Juca, especialmente Juca, ao menos começou a mexer os pauzinhos para reformar a Lei Rouanet.

Essa reforma precisa ser incentivada. Daí que o novo ministro da Cultura tem diante de si uma oportunidade única de entrar para a história das artes brasileiras, como a pessoa que retomou aquele fogo perdido há 30 anos.

***
Nem fica nem sai Juca

Por Luiz Carlos Barreto -- Folha de S. Paulo, 09/12/2010

A questão da escolha do ministro da Cultura virou uma campanha eleitoral, espécie de terceiro turno -eventos públicos, almoços, jantares, manifestos, tuítes, blogs, Facebook, entrevistas em jornais, TVs etc. etc., uma pressão injustificável, criando um clima constrangedor e artificial para a simples nomeação de um ministro de Estado.


Todo esse movimento de apoio orquestrado não conta com a participação da classe artística e de empresários das indústrias culturais, que estariam mais interessados na discussão de um ministério para o século 21, visando inserir o Brasil no grande fluxo das indústrias criativas, do que nessa medíocre e fisiológica questão de nomes.


Queremos no governo Dilma um Ministério da Cultura e das Indústrias Criativas antenado com o Brasil que Lula transformou em país do presente, e não mais do futuro.


Um ministério que preserve e alimente fontes da cultura popular, artesanato, tradições culinárias, festas, folguedos e folias populares, e também voltado para a produção de bens artísticos e culturais de forma planejada e sistêmica, que leve a indústria cultural à autossustentabilidade. O vale-cultura é um mecanismo decisivo para que essa meta possa ser atingida.


A ideia do vale-cultura surgiu no meio da comunidade artística, sendo logo adotada com grande entusiasmo pelo ministro Gil e pelo presidente Lula, que logo a transformou em projeto de lei, mas que até hoje rola em comissões no Senado Federal, dado o pouco empenho da assessoria parlamentar do Ministério da Cultura.


O vale-cultura é a real democratização do processo cultural, uma vez que destina parte da renúncia fiscal para as mãos da população, que terá a livre escolha de ver um filme, peça de teatro, show, comprar um livro, CD ou DVD, além dos jornais e revistas que preferir.


Subsidiando o consumo, vamos criar um mercado de bens artísticos e culturais para fruição da população, sobretudo de baixa renda, até hoje excluída do direito fundamental à informação, ao conhecimento e ao entretenimento.


O Ministério da Cultura dos séculos 19 e 20 a que me referi anteriormente mantém o vício e a regra perversa de que a produção cultural não pode ser autônoma, tendo sempre que ficar dependente de mecanismos clientelistas mantidos pelo Estado-provedor, em vez do Estado-indutor.


Outros fatos recentes comprovam que a intenção dos atuais dirigentes do MinC é, cada vez mais, eliminar os mecanismos automáticos de financiamento à produção.


O pouco ou nenhum interesse explicitado em reunião recente do Conselho Superior de Cinema pelo ministro Juca Ferreira com relação à renovação do artigo 1º da Lei do Audiovisual, projeto de lei de autoria do senador Francisco Dornelles, é emblemático, ao alegar restrições da Receita Federal, cujo papel sempre foi e sempre será de evitar sangrias na receita da União.


Mas sempre contamos com ministros da Cultura que souberam defender a importância da renúncia fiscal para a cultura, que até hoje é inferior à concedida aos free shops dos aeroportos.


Outra lei está para ser enviada ao Congresso, ou já se encontra no Congresso, e serve para corroborar a voracidade do MinC em concentrar recursos em suas gavetas para financiar ou subsidiar a produção cultural. É o projeto de lei de reforma da Lei Rouanet que, grosso modo, trata de confiscar a renúncia fiscal concedida às empresas, que passarão, em certos casos, a devolver até 50% dela para o Fundo Nacional de Cultura.


A questão em debate, portanto, não deve se restringir ao fica ou não fica. É ver quem quer e tem competência para liderar e implementar uma nova política cultural, abrangendo do Brasil do zabumba ao Brasil da fibra ótica.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Rápida análise do PIB

O IBGE divulgou hoje o resultado do Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre (julho-setembro) do ano: avanço de 0,5% sobre o segundo trimestre (abril-junho). O PIB, portanto, está em desaceleração. Tinha crescido 2,3% nos primeiros três meses, depois 1,8% no segundo trimestre e agora 0,5%.

Mas vamos entender o que isso quer dizer.

Primeiro, o IBGE revisou o dado de 2009. Ao invés da queda de 0,2%, que todos trabalhavam, o PIB no ano passado caiu mais: -0,6%. Isso é explicado, em parte, porque a crise foi mais severa do que se imaginava. E, em parte, porque há um efeito estatístico aí. O IBGE atualizou as contas nacionais, o que fez o crescimento de 2008 passar de 5,1% para 5,2%. Assim, como a base de 2008 ficou maior, o tombo de 2009 foi maior.

Isso vai se repetir com 2010.

Como estávamos crescendo 7,5% sobre -0,2%, vamos crescer mais simplesmente porque a base piorou -- passando de -0,2% para -0,6%. Além disso, o quarto trimestre (outubro-dezembro) deve registrar um avanço maior, o que vai puxar o PIB de 2010 na ponta.

Podem calibrar aí meus caros. Estamos falando de um PIB acima de 7,5% pela primeira vez em 24 anos.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Interlúdio


Jin Shangyi, "Retrato de Huang Binhong", 1990.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Uma dica...

... para o leitor e leitora que, nesta madrugada, vaga a internet em busca de algo interessante e profundo: se você está aqui -- e eu não faço ideia de porque alguém são estaria aqui e não em lugar melhor -- vá correndo ler a entrevista que o Idelber Avelar fez com o professor Carlos Eduardo Rebello de Mendonça, da UFRJ e da PUC-RJ (universidades que, na Economia, são pólos opostos), sobre León Trotsky.

Por ser conversa entre professores -- Idelber dá aulas em Tulane (EUA) -- não se trata de uma entrevista convencional, em que o entrevistador, normalmente um jornalista, faz perguntas curtas (ou simplesmente lima da edição a elucubração). Não. O tom é de conversa mesmo -- algo que só a blogosfera pode propiciar, acreditem.

A melhor parte é quando Idelber cita Slavoj Zizek, um dos pensadores mais ativos da atualidade, dizendo que a maior parte dos trotkystas se engana, ainda hoje, quando pensa que "o mundo seria diferente" fosse Trotsky, não Stálin, quem tivesse levado a bagaça na luta intestina entre os bolcheviques depois que Lênin resolveu ser embalsamado no Kremlin, em 1921.

A resposta de Mendonça é seminal.

Vale para os trotkystas que ainda não acordaram para um mundo que mudou loucamente da Rússia arrasada pós-tzarismo-Primeira Guerra-Revolução-Guerra Civil para cá (Hello, my friends!). Gramsci, nos seus cadernos (escritos nas masmorras da Itália fascista dos anos 1930), quando desenvolveu a figura do intelectual, dizia, entre outros atributos, que o intelectual é aquele que se insere em seu tempo para, em seguida, influenciar no modus operandi dos usos e costumes. Se esse pessoal ainda espera fazer uma revolução socialista -- vai que dá, galera -- é preciso, antes de mais nada, sacar que não estamos em 1923, mas indo para 2011, com Obama, Facebook, Chávez, WikiLeaks, Sílvio Santos falindo, Ahmadinejad e Burguer King sendo comprado por empresários brasileiros.

A resposta do Mendonça vale também para um exercício delicioso de reescrever, ainda que mentalmente, a história. Se não fosse Stálin, a Rússia sob Trotsky, diz ele, impulsionaria ainda mais a revolução na China (à época, Mao estava apenas iniciando seu trabalho no Partido Comunista Chinês, e ainda demoraria mais vinte anos para tomar o poder) e certamente não apoiaria Mussolini e Hitler -- algo que, como os documentos depois comprovaram, Stálin fez de maneira entusiasmada (com repasse de dinheiro e know how técnico-militar). O que não quer dizer que o mundo seria lindo e maravilhoso, como bem chama a atenção Mendonça.

Não gosto, no entanto, quando ele desqualifica Lênin e Gramsci. Esse, aliás, é um mal de qualquer pessoa que escreve uma biografia, um relato ou mesmo uma tese sobre alguém e/ou suas ideias. Para aumentar seu personagem, desqualifica-se outros. É como alguém que conta a história de Nelson Piquet e no meio do caminho desqualifica Ayrton Senna. Lênin, Gramsci e Trotsky têm, todos eles, seus méritos intelectuais -- goste-se ou não dessa turma. Essa é uma lição: você não precisa esculhambar ou diminuir os outros para tornar sua história mais legal.

Enfim, amigos, deixo a sugestão para a madrugada.

***

Falar de Trotsky me lembrou do belo filme de Joseph Losey, "O Assassinato de Trotsky", de, se não me falha a memória, 1972, com Richard Burton, no papel do dito cujo, e de Alan Delon, interpretando o assassino de aluguel, no México, 1940.

***

Me lembrou também que preciso tirar um pouco o pé do acelerador. Ando acumulando o trabalho diário de redação (e as matérias são apenas a ponta do iceberg, que engloba almoços e reuniões com fontes de todos os matizes e setores, além de relatórios, papers, livros, e-mails e telefonemas), com Blog e outras tarefas mil que o workaholic aqui vai abraçando.

E eu estou há 19 meses sem férias, porque os 30 dias de 2009 foram gastos nos ajustes finais do meu livro, Versão Brasileira. Livro esse que o blogueiro aqui, desorganizado que é com a vida pessoal, ainda não arranjou tempo de publicar decentemente.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O emprego em 2011

A taxa de desemprego americana atingiu, em novembro, sua máxima em mais de vinte anos -- 9,8%. Isso quer dizer que quase 9,8% das pessoas habilitadas a trabalhar não conseguem arranjar emprego.

Um mês antes, a taxa de desemprego brasileira atingiu a mínima histórica de 6,1%, e, segundo a maior parte dos economistas, deve ter caído mais em novembro, fechando o ano em algo como 5,6% ou 5,7%.

A The Economist fez uma boa matéria, neste fim de semana, sobre o assunto. A grande pergunta que a maior parte dos políticos e analistas americanos estão fazendo é porque os dados econômicos estão melhorando, mas o emprego não. Isso porque os preços das casas novas não só pararam de cair, mas começaram a subir. Os indicadores de produção industrial também estão apontando alta, bem como, e aí é o mais importante para a economia americana, o consumo das famílias cresce.

Por que, então, o emprego não acompanha?

Bom, é aí que colocamos o caso brasileiro em perspectiva.

O que faz um empresário, seja ele da indústria, do comércio ou de serviços, contratar um trabalhador? São dois fatores: 1) as vendas do que ele produz estarem em alta e 2) a perspectiva de que continuarão fortes pelos próximos 12 meses ou mais. Na realidade, o 2) é mais importante que o 1), mas o jogo é esse, de qualquer jeito.

Sem a perspectiva de que seu produto será vendido, por que um empresário vai contratar mais alguém? Ele não vai. Quando o 1) está forte, ele não necessariamente precisa contratar se o 2) estiver ruim. Isso porque um consumo acelerado no presente, sem a perspectiva de que continuará no futuro, pode ser feito com mais trabalho daqueles que já são funcionários. O empresário pode aumentar as horas extras, o número de turnos e, na ponta, os salários.

A decisão de contratar funcionários é a última hipótese. A iniciativa privada, que precisa dar lucro, só vai colocar seu dinheiro -- e aquele tomado de empréstimos bancários e/ou ações e títulos vendidos -- numa folha de pagamentos maior se tiver certeza de que terá mais consumo no futuro.

A taxa de desemprego não para de cair no Brasil porque a economia caminha para um crescimento de 7,5% ou mais, em 2010, e para algo como 4,5% ou 5% nos próximos anos. Assim, o empresário daqui contrata praticamente sem medo. Da mesma forma, as companhias estrangeiras que estão chegando no país sem parar, também entram contratando e investindo, porque têm boas perspectivas de lucro.

Essa necessidade de mão de obra, é claro, pressiona o país, uma vez não há qualificação na medida que é demandado, mas isso é história para outro post.

Nos Estados Unidos, onde as coisas estão melhores que na Europa, onde não há nem indicadores econômicos minimamente positivos, as companhias não contratam porque não sentem firmeza que essa melhora na economia, agora, se sustentará no futuro.

E eles têm razão em pensar assim.

O quadro na Europa é péssimo. Dois países já quebraram -- Grécia e Irlanda -- e outros três estão em situações perigosas -- Portugal, Espanha e Itália. O esforço fiscal que esse pessoal está fazendo também não ajuda a situação. Em tempos de crise, com as companhias privadas falindo ou, aquelas que ainda estão de pé, sem investir ou contratar, é o setor público quem deve entrar gastando -- seja contratando funcionários, mesmo temporários, seja contratando obras. Goste-se ou não do Estado, amigo, é isso o que deve ocorrer.

Mas diante da parafernália financeira que esses países se meteram, pelos abusos (no caso grego) ou pela irresponsabilidade (no caso dos outros), deixa esses caras com um pepino enorme nas mãos. Gregos, irlandeses, portugueses, espanhois e italianos precisam cortar gastos e até elevar impostos para fazer caixa e bancar o enorme endividamento. Mas isso só não basta, tanto é que a União Europeia tem, de maneira coordenada, arranjado fundos para salvar os mais encrencados, como Grécia e Irlanda.

Com esse quadro péssimo, e um governo letárgico nos Estados Unidos (com Executivo democrata e Legislativo republicano), quais são as perspectivas para o empresário americano? Os bancos, além disso, também não estão nada dispostos a emprestar. Para fechar, os republicanos vão barrar qualquer iniciativa de ampliar gastos do setor público.

Como criar empregos numa situação dessas?

domingo, 5 de dezembro de 2010

Domingo

Assim pela tarde, quando essa gente volta para o trabalho ou do passeio, a mescla se faz na mesma rua, num quarteirão, e quase sempre o mais bem posto não é que entra na melhor casa.


Lima Barreto, escritor brasileiro. Trecho de "O Triste Fim de Policarpo Quaresma".

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Ele está de volta

Para quem não lembra, fica a dica: aguardem o primeiro episódio de truculência.

O secretário de Transportes de São Paulo a partir de janeiro é Saulo de Abreu Castro, que quando secretário de Segurança Pública do governador Geraldo Alckmin (2003-2006), protagonizou episódios famigerados, como o gesto nada delicado na Assembleia Legislativa.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Censura a ideias

O primeiro-ministro da Rússia, Vladmir Putin, falou, hoje, que "não esperava tanta arrogância, grosseria e falta de ética dos Estados Unidos". Ele se refere, é claro, aos dados vazados pelo Wikileaks.

Wikileaks que, ontem, teve seu site tirado do ar pelo Departamento de Defesa dos Estados Unidos.

Na segunda-feira, quando escrevi sobre o Wikileaks, chamei a atenção para o fato de ele ser o tiro final no soft power americano, deixando de pé apenas o hard power, isto é, o poderio militar e coercitivo. O fato de os EUA barrarem, ontem, o site do Wikileaks é uma demonstração clara de que eles estão se apoiando totalmente no poder dominante, da força.

Porque o poder dirigente, das ideias, já está levando tiro de todos os lados, como demonstra Putin.

***

Antes que se consolide a impressão de que Putin é a rainha da Inglaterra em bondade, é bom dizer que sua frase está dentro de um contexto -- e um contexto perigosíssimo.

Um dos documentos vazados pelo Wikileaks dá conta da preocupação do governo americano, Hillary Clinton, secretária de Estado, à frente, quanto à "nefasta conexão" entre Putin e Silvio Berlusconi, premiê italiano.

Máfia italiana e máfia russa. Maravilha, não?
Site Meter