Eu já gostava de Godard. Agora que a revista "The Jewish Journal" o acusou de antissemita, eu gosto muito mais.
Não, eu não sou antissemita. Pelo contrário. Meu avô, Victor Villaverde, era judeu, de pai polonês e mãe espanhola, que fugiram, quando ele era um mirrado rebento, para a Galícia, onde ele conheceu minha avó, Dulcina Cardesín, e se casaram. Victor mudou de nome -- apagou o nome judeu polonês, replicando o Villaverde, no que ficou uma curiosa combinação: Victor Villaverde Villaverde.
Meu avô e família saíram da Polônia devido às forças nazistas. Estas, como todos sabemos, tiveram um grande aliado nos anos 1930: os militares espanhois de Madrid, liderados por Franco, que iniciou uma das mais sangrentas guerras civis do século XX -- a Guerra Civil Espanhola.
Meu avô, que era pequeno na Polônia, já era um jovem adulto quando Franco colocou o exército nas ruas para estuprar, matar e torturar quem se opunha à sua unificação nazi-fascista. Meu avô, então, lutou. Não era, nem de longe, comunista, mas lá estava ele, ao lado dos comunistas, trotskystas e nacionalistas não-franquistas.
Meu avô, como todos os citados, perdeu a guerra. Mas não morreu. Viveu até onde pode na Espanha franquista, quando, com minha avó e família, decidiu pegar um navio, junto a uma série de outros espanhois anônimos, e vir à América. Uns foram aos Estados Unidos. Outros à Venezuela, Argentina e Uruguai. Meus avós foram os únicos que pararam no Brasil, Rio de Janeiro, em 1950. Ali ficaram, onde estão até hoje, já sem meu avô, que faleceu em 2004.
Por que, então, gosto mais de Godard agora que uma revistinha mambembe o chama de antissemita?
Porque a intolerância dos nazistas, fascistas e racistas, do século XX, está hoje onde? Num país que proíbe os muçulmanos de acreditarem em suas crenças, como ocorre em Israel, num país que constroí um muro para separar a Cisjordânia, o gueto palestino, de sua terra, Israel, num país que apoia as eleições democráticas de 2006, mas quando ganha o Hamas, as declara "manipuladas".
Onde está hoje a intolerância que fez meu avô fugir da Polônia?
Pois bem.
Godard é, para mim, um dos cinco maiores cineastas de toda a história. E o cinema não é coisa pequena. Como já tinha sacado Lênin, em 1916, o "cinema é a mais importante das artes". Assim como o romance inglês, no século XVII, a literatura satírica francesa do século XVIII, a invenção da música moderna, na Alemanha e Rússia do século XIX, e o teatro moderno da passagem do XIX para o XX, o cinema é a arte que define, por excelência, o século XX.
Temos, portanto, que reverenciar homens como Sergei Eisenstein, Roberto Rosselini, Glauber Rocha, Pier Paolo Pasolini e Jean-Luc Godard. Entre 1924 e 1980, esses homens revolucionaram o cinema e, por consequência, o mundo.
Matéria publicada hoje no
The New York Times, assinada por Michael Cieply, fala dos ataques que o mestre francês -- o único, dentre os cinco maiores, ainda vivo -- tem sofrido de publicações e instituições judaicas por conta do Oscar honorário que, dizem, Godard receberá na próxima premiação, em fevereiro de 2011. "
Ao longo último mês", diz a matéria no NYT, "
artigos na imprensa judaica -- inclusive uma reportagem de capa intitulada 'Será Jean-Luc Godard um antissemita?', no The Jewish Journal -- reabriu o debate sobre se Godard, antissionista declarado e defensor dos direitos dos palestinos, seria contrário aos judeus em geral".
Os leitores cá do Blog sabem de que lado estou. Para quem está chegando agora, vale dar uma passada na tag
Palestina Ocupada, que varre todos os imbróglios e discussões dos últimos anos (inclusive o massacre promovido pelas tropas isralenses contra os palestinos sitiados em Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009).
As críticas à Godard partem não só de sua defesa da Palestina, mas já correm o mundo há tempos. Tudo começou com seu belíssimo documentário "
Aqui e Lá", de 1976, quando Godard, entre outras imagens, intercala imagens de Golda Meir e Adolf Hitler.
Não é de hoje que prêmios como o Oscar não significam absolutamente nada. Servem apenas para chancelar um filminho ridículo para as elites descerebradas dos países colonizados, como o Brasil, pagarem uma fortuna em ingressos, pipocas e estacionamentos em grandes complexos transnacionais para assistirem um engodo estrangeiro, com a mesmíssima história e atores. Cineastas como Eisenstein, que foi perseguido pelo próprio regime soviético, Glauber, que foi exilado pela ditadura militar brasileira, Pasolini, que foi esquartejado pelos extremistas da direita italiana, ou Godard, que é um pária em seu próprio país, estes não precisam de Oscar's, mesmo que tenham sido indicados para tanto (Pasolini, por "
Evangelho Segundo São Mateus", indicado a três Oscar's em 1964).
Quando vejo uma revistinha dessas atacar Godard, lembro de meu avô, que detestava comunistas, americanos, Médici e Brizola, tudo ao mesmo tempo. Dizia, encostado na casa que ele próprio construiu, na zona norte do Rio, em 1957, "racista sempre pensa que está do lado certo, não importa que ele mesmo já tenha sido alvo de racismo".
Você estava certo, caro Victor.