terça-feira, 30 de novembro de 2010

Sindicalismo no governo Dilma


Falei, nos últimos dez dias, com mais de 20 líderes sindicais, estrategistas e políticos para fechar um desenho de como foi, tem sido e será a relação entre as centrais sindicais e o governo Dilma Rousseff. O resultado: matéria de uma página, publicada no Valor de ontem.

São três textos: Sindicalistas buscam pontes com governo Dilma, Interlocução hoje passa por Palocci e uma pequena, Fim do governo Lula encerra a segunda 'república sindical', em que conto o surgimento do termo "República Sindical".

Em 30 dias, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixa o poder. E o jogo que narrei nas matérias acima começa -- à todo vapor.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O fim do soft power americano

Hoje, o Wikileaks começou a vazar a primeira parte do total de 251 mil documentos pertencentes às embaixadas norte-americanas em todo o mundo, cobrindo um período que vai de dezembro de 1966 -- sim, mil novecentos e sessenta e seis -- a fevereiro de 2010.

Há de tudo lá.

Informações do embaixador americano na Itália, contando detalhes das orgias sexuais promovidas pelo premiê Silvio Berlusconi. Informações de embaixadores, em diferentes países, seguindo cada passo da secretária de Estado Hillary Clinton. E o mais grave: há documentos que comprovam que os Estados Unidos espionaram as Organizações das Nações Unidas (ONU).

Os principais jornais do mundo estão em polvoroza. O The New York Times exclama, na capa, sob a chamada de "Segredos de Estado", que o governo americano já disparou pedidos à diferentes embaixadas para que atuem junto aos governos nacionais respectivos apagando fogo. Já o espanhol El País, um dos melhores jornais do mundo, na opinião deste blogueiro, destaca que os Estados Unidos consideraram José Luis Zapatero, o primeiro-ministro espanhol, "um problema para sua [dos EUA] política externa".

O Wikileaks é um serviço revolucionário, iniciado em março deste ano, que trabalha com documentos oficiais dos Estados Unidos vazados por funcionários de alto escalão em embaixadas e secretarias de Estado, de diferentes períodos. Trata-se de informação checada -- isto é, documentos com assinaturas verificadas, entregues por funcionários com DNA checado (!).

Em março, divulgou uma série de documentos sobre a invasão do Iraque. Em agosto, fez o mesmo sobre as operações no Afeganistão. Nas duas oportunidades, verificou-se -- e comprovou-se -- o uso da tortura à civis e "suspeitos" por parte dos militares norte-americanos.

Agora, finzinho do ano, divulgam uma batelada de documentos que comprometem a imagem americana.

Já defendia cá no Blog que o século XX, definido pela supremacia americana no soft e no hard power, terminou não em 1991 -- com o fim da URSS -- ou 2001 -- com o ataque às Torres Gêmeas --, mas com a crise financeira mundial desencadeada em setembro de 2008. Ali, o soft power americano começou a derreter, mas ainda ganhou uma sobrevida com a eleição de Barack Obama, um líder que falou às massas mundiais -- basta lembrar o histórico discurso à uma multidão em Berlim.

Mas continuou sangrando em 2009, ano em que a crise lentamente parecia se afastar.

O ano de 2010, no entanto, sepulta qualquer possibilidade desse soft power retornar. Não só a crise mundial piorou, e muito, com a destruição econômica de países como Grécia, Irlanda, Portugal e Espanha, e a derrota de Obama nas eleições internas para o Congresso. Mas, mais que isso, os vazamentos do Wikileaks. Se em março e agosto, falando de Afeganistão e Iraque, apenas comprovou-se o que muito já se falava dos americanos, agora, em novembro/dezembro, os problemas de imagem atingem praticamente todos os países -- Brasil, inclusive.

***

O conceito de soft e hard power foi desenvolvido aproveitando a teoria gramsciana, dos anos 1930, que delimita o poder dirigente e dominante de uma potência. Quando é dirigente, isto é, soft, a potência consegue influir nos demais países por meio das ideias, da cultura, das artes e dos costumes. Quando é dominante, isto é, hard, a potência precisa se utilizar de seu poderio militar e técnico para domar e conquistar as demais nações.

O auge de uma potência é quando ela consegue combinar os dois poderes, mas se utilizar mais fortemente do dirigente. Foi o que ocorreu com os Estados Unidos ao longo do século XX. Quando uma potência começa a perder a capacidade influir por meio de seu soft power em outros países, precisa lançar mão do hard power.

Mas esse jogo se esgota assim que surgir uma nova potência -- e um novo soft power.

***
Por meio do militarismo pueril, os americanos, sob George Bush, ainda tinham o mundo em suas mãos -- até jogarem fora em 2008. Obama, em 2009, ainda conseguiu retomar um pouco do poder dirigente norte-americano, que se esgotou neste ano.

E agora?

***
Por Radical

João,

apenas para informação - o Wikileaks já existe desde 2007 em sua forma aberta ao público, divulgando documentos secretos de TODOS os países do mundo, sempre que conseguem colocar a mão.

domingo, 28 de novembro de 2010

Domingo

Reféns, eis o que somos
os "eus"
que há em mim
os que são
os que hão de ser.

E, o que é
mais grave ainda,
os que nunca
chegarão a ser,
embora tivessem de ser.

Tu,
eu,
nós,
os que penetramos o tempo,
e rasgamos a vida.


Sofía Vivo, poeta uruguaia radicada na Argentina.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

A (velha) nova equipe econômica do governo

Em 35 dias, o velho novo comando da economia será o seguinte:

Ministro da Fazenda: Guido Mantega, no cargo desde março de 2006.

Ministra do Planejamento: Miriam Belchior, que já coordenava o PAC.

Presidente do Banco Central: Alexandre Tombini, técnico de carreira, é diretor do BC.

Presidente do BNDES: Luciano Coutinho, no cargo desde o início de 2007.

***
Acima, vimos apenas duas trocas: no Planejamento e no Banco Central. Enquanto que o atual ministro, Paulo Bernardo, no cargo desde 2004, deve ocupar um cargo estratégico no novo governo -- provavelmente, a Secretária-Geral da Presidência -- Henrique Meirelles, presidente do BC desde o início do governo Luiz Inácio Lula da Silva, deve cumprir quarentena e, em seguida, se recolocar no mercado financeiro.

Além destes, já estão confirmados também: Antônio Palocci, primeiro ministro da Fazenda de Lula, substituído em março de 2006 por Mantega, volta ao Planalto, agora para ocupar o cargo que Dilma Rousseff ocupou entre outubro de 2005 e março de 2010: será o ministro-chefe da Casa Civil.

O Estadão, hoje, fala que Fernando Haddad, ministro da Educação, será mantido no cargo. Além disso, fala-se também que José Eduardo Cardoso, um dos três coordenadores da equipe de transição (ao lado de Palocci e José Eduardo Dutra, o presidente do PT) será o ministro da Justiça.

Há ainda quadros importantíssimos em aberto, como o Ministério dos Transportes, da Previdência, de Minas e Energia e do Trabalho. Enquanto os dois últimos parecem fechados -- Minas e Energia deve voltar ao PMDB, que comandou a pasta desde 2005, quando Dilma passou à Casa Civil; e Trabalho deve continuar com Carlos Lupi (PDT) -- os dois primeiros estão abertos para negociações.

Fiquem de olho no Ministério dos Transportes. Será das pastas mais importantes deste mandato, que semeará o país para a Copa do Mundo, em 2014.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tanques na favela


Hoje, equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e tropas blindadas da Marinha entraram na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio -- um dos maiores redutos de traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV).

Ex-policial do Bope, Rodrigo Pimentel, famoso por ser co-autor de Elite da Tropa, o livro que gerou o filme Tropa de Elite, deu uma boa entrevista ao Terra Magazine. Pimentel sabe separar o Bope das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora, que mudaram a cara dos morros cariocas.

***
O que aconteceu com os fabricantes de gramophone quando as pessoas pararam de demandar seus produtos?

O que acontecerá, então, com os traficantes quando seus "produtos" pararem de ser demandados?

Aí é que está a sacada. Combater o tráfico de drogas, com UPPs e Bope, coordenados, tendo ascendência da primeira, é estratégico. Mas o traficante, como qualquer comerciante, só existe porque há demanda.

***

Por Hugo Albuquerque

A grande questão do tráfico é a questão do nosso tempo. Em um primeiro momento, a política de combate à sua atividade se dá pela manutenção na ilegalidade de seus produtos - embora isso, por si só, não garanta que deixará de existir demanda por eles, ao contrário, proibições legais, como qualquer proibição, não neutralizam o desejo, mas sim o deslocam - e mantém pesado aparato militar para confronta-lo - quando, no que toca guerrilha urbana, força militar ostensiva serve apenas para isolar áreas, manter o controle do poder nas mãos do Estado, mas não para pôr fim a tais organizações, o que demanda trabalho de existência. Enfim, a questão aqui só é política em um segundo momento mesmo, afinal seja a questão normativa quanto a policial, incidem apenas sobre os efeitos, sem nunca eliminar as causas, mesmo quando terminado seu ciclo.

A questão é econômica mesmo, é a demanda, e demanda não surge de necessidade, mas sim de desejo. Por que alguém gostaria de consumir compulsivamente substâncias muitas vezes caras, que lhes debilita a saúde e por vezes de qualquer estado de razoabilidade? Porque se o Capitalismo, ainda mais esse capistalismo nosso de cada dia, precisa disciplinar comportamentos, ele produz cada vez menos válvulas de escape psicológicas para que as pessoas suportem sua dinâmica.

O mercado, que é esfera econômica e não política, embora demanda mais do que ninguém da Lei (ou da ausência dela), articula a falta de possibilidade de distribuir algo que é demandado por meio da criação de "mercados negros" (na verdade, subsistemas do próprio), do tráfico e, por incrível que pareça, a violência que isso desencadeia dá origem a um mercado de segurança, o que não apenas cria e fortalece o investimento estatal em armas e tropas, como também faz o mesmo com empresas de segurança privada...e cria milícias - do mesmo modo que o capitalismo mercantil e bancário da Península itálica criou as organizações mafiosas. O problema é enormíssimo. O que, conjugado com os problemas que nós temos, especialmente os que Rio tem, chegamos a uma situação de exceção.

***
Nos comentários, a leitora Luka falou sobre as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), implementadas pelo governador Sergio Cabral a partir de dezembro de 2008 -- a primeira foi no morro Santa Marta.

A Luka está certa quando fala de abusos de policiais nas UPPs. Há relatos de que aconteceram. Isso precisa ser combatido, uma vez que, diferentemente do Bope ou mesmo das forças policiais estaduais e municipais, as UPPs (devem) ser mais apaziguadoras, com gente diferenciada ali. É o que acontece. Os relatos de que funciona, de maneira muito satisfatória, são muito mais comuns que o contrário. O saldo é extremamente positivo.

Boa parte da família do blogueiro mora no Rio -- espalhada pela Cidade Maravilhosa, com gente morando na zona sul, norte e centro -- além de amigos. O relato deles, combinado com o que vi nas várias vezes que fui ao Rio desde então, é de que as UPPs mudaram a cara dos 12 morros onde já estão instaladas. Há uma coesão social que praticamente não existia. Se o governo Cabral foi inepto em muitas áreas -- e foi -- acertou com as UPPs.

Sobre isso, o sociólogo Dario Sousa e Silva, que é professor na Uerj, deu uma bela entrevista ao Terra Magazine, aqui: UPPs bloqueiam cadeia do tráfico

Sobre a PUC-SP

O leitor cá do Blog, informado que é, sabe que não é de hoje que a Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) vive uma grave crise financeira.

Em 2007, a então reitora Maura Verás achava que sabia como solucionar: promoveria, ao lado do seu Conselho Universitário (Consun), um redesenho da instituição, que aboliria a autonomia financeira das faculdades (de comunicação, economia, letras, direito, ciências sociais etc.) e aumentaria o peso da Fundação São Paulo, a mantenedora da PUC, tocada pelo Vaticano.

Clamando espaço para discutir e uma nova proposta de redesenho institucional, os estudantes, que não foram ouvidos, ocuparam a reitoria em novembro daquele ano, como forma de criar um fato -- como qualquer ação política, havia um objetivo claro naquilo, qual seja, o de influir nas discussões.

A reitoria foi desalojada pelas forças policiais, seis dias depois, na segunda invasão policial em toda a história da PUC -- a primeira, histórica, ocorreu em 1977, sob o governo Ernesto Geisel, quando Erasmo Dias, chefe da polícia paulista, mandou sua tropa entrar no campus e prender os estudantes.

O redesenho passou quase que integralmente, como havia sido idealizado por Maura Verás.

A crise da PUC, no entanto, continuou. Em 2008 foi eleito Dirceu de Melo, reitor mais aberto ao diálogo, e o Consun foi renomeado, agora chamado de Consad, tendo peso maior de gente oriunda da Igreja Católica. A grande dívida bancária continua sendo rolada de maneira dramática, bem como os vencimentos com pessoal. Os investimentos, como há 20 anos, são sempre cortados, reduzidos, retidos.

Como sair desse nó?

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O Hugo Albuquerque, em O Descurvo, escreveu uma ótima análise sobre a PUC.

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Como nunca esquecemos da casa de nossa infância, este blogueiro escreveu um pequeno texto aos colegas estudantes de Jornalismo agrupados na chapa Desassossego, que concorre nas eleições realizadas hoje, para ocupar o Centro Acadêmico Benevides Paixão, saudoso C.A. Benê, que este blogueiro chefiou por três gestões.

O texto está na aba "Quem apoia", junto a textos de outros colegas.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Interlúdio


Vassily Maximov, "Tudo está no passado", 1889.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

O perigo da inflação

Os preços estão em alta no Brasil. Se você ligar o rádio, prestar atenção no noticiário dos programas jornalísticos na TV mais tarde ou ver nos sites de notícias agora -- ou esperar para os jornais de amanhã, para maiores detalhes -- verá que a inflação subiu 0,86% entre 15 de outubro e 15 de novembro. Isso quer dizer que, no mês fechado de novembro, a inflação ronda em 0,90%. Trata-se do maior avanço mensal em muito tempo, desde o pré-crise, pelo menos.

Mas e daí?

A depender da visão do analista diante deste fato, falamos de um "grande perigo" ou de "algo passageiro". Os que se inserem na primeira visão entendem que, quando olhamos o acumulado em 2010, quando a inflação medida pelo IPCA está em 5,1%, é preciso fazer alguma coisa para trazer essa taxa, em 2011, para um resultado próximo aos 4,5% da meta perseguida pelo Banco Central. Esse "fazer alguma coisa" significa aumentar os juros, uma vez que apertos na política fiscal estão cada vez mais distantes da realidade.

Já os que se inserem na segunda visão entendem que a maior parte dessa elevação de preços está em alimentos -- principalmente o preço da carne, que aumentou 6% nos trinta dias terminados em 15 de novembro. Assim, se a maior parte está concentrado em alimentos, não há muito o que ser feito na política monetária para evitar elevações de preços -- uma alta de juros, para combater a inflação em alta, impactaria todo o resto da economia.

Os dois lados têm razão.

De fato, o BC persegue a meta de 4,5%. Assim, ele precisa, de todas as formas, fazer a inflação convergir para sua meta. Isso inclui atacar a inflação atual e, principalmente, sinalizar ao mercado que está de olho. O leitor certamente já ouviu as tais "expectativas de mercado". Como a inflação está em alta, a expectativa do mercado -- leia-se, os departamentos econômicos de bancos, consultorias e instituições financeiras -- é de que a inflação continuará subindo. Como o BC, na visão destes, está demorando para agir, as expectativas só pioram. Assim, é preciso agir logo para não perder o controle.

Ao mesmo tempo, a inflação está, mesmo, muitíssimo concentrada em alimentos. E por quê? Em parte porque a Rússia e Cazaquistão, dois grandes produtores de trigo, tiveram a pior safra em 150 anos. O trigo some do mercado, fica mais caro e, com isso, precisa ser substituído por milho e soja. Estes, consequentemente, ficam mais caros. Com isso, elevam os preços dos animais que consomem esses grãos -- como as aves -- e encarecem o campo, de maneira geral. Além disso, a enorme liquidez no mercado mundial, como os US$ 600 bilhões que o Fed começa a despejar, tem fluído para os preços de commodities. Assim, amigo, subir juro no Brasil não vai acabar com esse processo.

Mais do que qualquer discussão, como compatibilizar essas duas visões agora que um novo governo começa? Vai começar elevando juro logo de partida, e assim queimar o crescimento, ou vai deixar para fazer isso mais tarde e correr risco das expectativas deteriorarem ainda mais?

Não tenho como saber o que será feito. Há, na equipe de transição, gente que se insere nas duas visões que destrinchei acima, então, não é possível sacar para qual lado a política de combate a inflação vai pender. Mas, se quiserem saber meus dois centavos sobre isso, acho que o momento é de, como já cansamos de ver, aguardar um pouco para ver até onde essa elevação de alimentos vai chegar, atuar com estoques reguladores -- algo que deveria voltar a ser implementado! -- e, se a ideia é desafogar o consumo, encarecer e/ou dificultar um pouco a concessão de crédito, não elevar os juros e derrubar a economia junto.

Atualização das 19h32min

Henrique Meirelles está fora do Banco Central, depois de oito anos no comando. Ficará na presidência do BC até 31 de dezembro, quando passará o cargo à Alexandre Tombini, atual diretor de normas do BC, convidado hoje por Dilma Rousseff, a presidente eleita, para ocupar a presidência.

Assim, será a primeira vez que um economista não ligado ao mercado financeiro assume o BC desde que Paulo César Ximenes Alves Ferreira, funcionário de carreira da Fazenda, ocupou, por seis meses, a presidência em 1993, entre a troca do pessoal ligado à Collor, que caiu em dezembro de 1992, e Pedro Malan, em 1994, já ligado à Fernando Henrique Cardoso, que despontava como o candidato à Presidência naquele ano.

Ao longo do governo FHC e os oito anos de Meirelles com Lula, o BC foi formado, em sua maior parte, por economistas oriundos do mercado financeiro -- de onde saíram e voltaram, depois da passagem no BC. Resta saber que rumo tomará Meirelles a partir de 2011.

Volta para um banco privado ou fica no governo?

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Já que perguntar não ofende

Onde está Índio da Costa?



















PROCURA-SE

domingo, 21 de novembro de 2010

Domingo

Os seres humanos são dotados do sentimento de curiosidade. Por que deveríamos tratar a morte de modo diferente? Não queremos experimentar coisas estranhas? A morte é a coisa mais estranha que você jamais experimentará se continuar vivendo. Alguns têm medo dela porque a mudança é demasiado drástica. Mas penso que essa é a coisa mais maravilhosa: em que outro lugar deste mundo podemos achar uma mudança tão fantástica e drástica?


Mao Tsé-Tung, líder supremo da China entre 1949 e 1976, em texto de 1918, quando tinha 24 anos e era apenas estudante em Pequim. Nos 27 anos em que governou seu país deixou um rastro de 70 milhões de mortos -- um dos maiores genocídios da história humana.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

E o mundo continua

Ontem, as tropas israelenses promoveram um ataque aéreo em Gaza, a única cidade sitiada do mundo, onde moram 1,6 milhões de palestinos, espremidos num espaço inferior a um bairro de São Paulo. Abaixo, imagem de Mohamed Abed, da AFB, mostrando bombeiros palestinos apagando o fogo de um carro bombardeado.


Não custa perguntar: por quê?

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um e-mail hipotético

De: Cesare Battisti
Para: Presidência do Brasil
Assunto: Vamos aí?

Caro presidente Luiz Inácio Lula da Silva,

Tudo bem? Espero que sim.

Preciso escrever rápido, porque aqui da Polícia Federal a conexão é ruim. Então, agora que as eleições passaram, sua candidata, inclusive, ganhou e tudo anda bem com a economia, que, segundo ouvi, vai crescer acima de 7% pela primeira vez desde 1986, pensei se não poderia decidir-se quanto a minha condição de exilado político.

O parágrafo anterior ficou comprido, algo que não tem a ver com meu texto, mas, diante do pouco tempo que disponho e da ansiedade que estou, fica desse jeito mesmo.

Quando ministro, Tarso Genro, que se elegeu governador do Rio Grande do Sul no primeiro turno, pelo que vi nos jornais, decidiu que minha condição era de refugiado político. Depois, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) entenderam que eu deveria ser extraditado, mas, na mesma decisão, afirmaram que cabia ao Excelentíssimo senhor definir minha condição. No meio tempo, um grupo de juristas eminentes assinou um manifesto defendendo a concessão do refúgio, algo que, como o senhor sabe, quero muito.

Entendo que o senhor não queria decidir antes das eleições para não melindrar sua candidata a explicar porque um militante político italiano de esquerda recebeu refúgio político. É compreensível, visto o alcance que a questão tomou aqui no Brasil, principalmente depois que o governo do meu país disse que me queria lá, para responder pelos meus "crimes". Como o senhor sabe, fui julgado à revelia, sem que pudesse me defender e tendo como testemunhas de acusação réus confessos de, aí sim, crimes, e tendo recebido privilégios para me incriminar. Eu estava vivendo na França há anos e ninguém reclamou do governo francês me conceder refúgio político, não entendo por que os esclarecidos brasileiros reclamam tanto.

Mas enfim, já passei tempo demais tentando entender tudo isso. Gostaria que o senhor, agora que, inclusive, voltou da reunião do G-20 em Seul, que aproveitasse os últimos 40 dias de governo para definir minha situação.

Desde já obrigado. Tudo de bom na transição.
Um abraço fraterno,

Cesare.

***

Trata-se de um e-mail fictício, bom avisar os incautos trolls. E sim, a ideia foi copiada de maneira deslavada do que costuma fazer Elio Gaspari em suas colunas na Folha e n'O Globo.

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

Ao mestre, com carinho

Eu já gostava de Godard. Agora que a revista "The Jewish Journal" o acusou de antissemita, eu gosto muito mais.

Não, eu não sou antissemita. Pelo contrário. Meu avô, Victor Villaverde, era judeu, de pai polonês e mãe espanhola, que fugiram, quando ele era um mirrado rebento, para a Galícia, onde ele conheceu minha avó, Dulcina Cardesín, e se casaram. Victor mudou de nome -- apagou o nome judeu polonês, replicando o Villaverde, no que ficou uma curiosa combinação: Victor Villaverde Villaverde.

Meu avô e família saíram da Polônia devido às forças nazistas. Estas, como todos sabemos, tiveram um grande aliado nos anos 1930: os militares espanhois de Madrid, liderados por Franco, que iniciou uma das mais sangrentas guerras civis do século XX -- a Guerra Civil Espanhola.

Meu avô, que era pequeno na Polônia, já era um jovem adulto quando Franco colocou o exército nas ruas para estuprar, matar e torturar quem se opunha à sua unificação nazi-fascista. Meu avô, então, lutou. Não era, nem de longe, comunista, mas lá estava ele, ao lado dos comunistas, trotskystas e nacionalistas não-franquistas.

Meu avô, como todos os citados, perdeu a guerra. Mas não morreu. Viveu até onde pode na Espanha franquista, quando, com minha avó e família, decidiu pegar um navio, junto a uma série de outros espanhois anônimos, e vir à América. Uns foram aos Estados Unidos. Outros à Venezuela, Argentina e Uruguai. Meus avós foram os únicos que pararam no Brasil, Rio de Janeiro, em 1950. Ali ficaram, onde estão até hoje, já sem meu avô, que faleceu em 2004.

Por que, então, gosto mais de Godard agora que uma revistinha mambembe o chama de antissemita?

Porque a intolerância dos nazistas, fascistas e racistas, do século XX, está hoje onde? Num país que proíbe os muçulmanos de acreditarem em suas crenças, como ocorre em Israel, num país que constroí um muro para separar a Cisjordânia, o gueto palestino, de sua terra, Israel, num país que apoia as eleições democráticas de 2006, mas quando ganha o Hamas, as declara "manipuladas".

Onde está hoje a intolerância que fez meu avô fugir da Polônia?

Pois bem.

Godard é, para mim, um dos cinco maiores cineastas de toda a história. E o cinema não é coisa pequena. Como já tinha sacado Lênin, em 1916, o "cinema é a mais importante das artes". Assim como o romance inglês, no século XVII, a literatura satírica francesa do século XVIII, a invenção da música moderna, na Alemanha e Rússia do século XIX, e o teatro moderno da passagem do XIX para o XX, o cinema é a arte que define, por excelência, o século XX.

Temos, portanto, que reverenciar homens como Sergei Eisenstein, Roberto Rosselini, Glauber Rocha, Pier Paolo Pasolini e Jean-Luc Godard. Entre 1924 e 1980, esses homens revolucionaram o cinema e, por consequência, o mundo.

Matéria publicada hoje no The New York Times, assinada por Michael Cieply, fala dos ataques que o mestre francês -- o único, dentre os cinco maiores, ainda vivo -- tem sofrido de publicações e instituições judaicas por conta do Oscar honorário que, dizem, Godard receberá na próxima premiação, em fevereiro de 2011. "Ao longo último mês", diz a matéria no NYT, "artigos na imprensa judaica -- inclusive uma reportagem de capa intitulada 'Será Jean-Luc Godard um antissemita?', no The Jewish Journal -- reabriu o debate sobre se Godard, antissionista declarado e defensor dos direitos dos palestinos, seria contrário aos judeus em geral".

Os leitores cá do Blog sabem de que lado estou. Para quem está chegando agora, vale dar uma passada na tag Palestina Ocupada, que varre todos os imbróglios e discussões dos últimos anos (inclusive o massacre promovido pelas tropas isralenses contra os palestinos sitiados em Gaza, entre dezembro de 2008 e janeiro de 2009).

As críticas à Godard partem não só de sua defesa da Palestina, mas já correm o mundo há tempos. Tudo começou com seu belíssimo documentário "Aqui e Lá", de 1976, quando Godard, entre outras imagens, intercala imagens de Golda Meir e Adolf Hitler.

Não é de hoje que prêmios como o Oscar não significam absolutamente nada. Servem apenas para chancelar um filminho ridículo para as elites descerebradas dos países colonizados, como o Brasil, pagarem uma fortuna em ingressos, pipocas e estacionamentos em grandes complexos transnacionais para assistirem um engodo estrangeiro, com a mesmíssima história e atores. Cineastas como Eisenstein, que foi perseguido pelo próprio regime soviético, Glauber, que foi exilado pela ditadura militar brasileira, Pasolini, que foi esquartejado pelos extremistas da direita italiana, ou Godard, que é um pária em seu próprio país, estes não precisam de Oscar's, mesmo que tenham sido indicados para tanto (Pasolini, por "Evangelho Segundo São Mateus", indicado a três Oscar's em 1964).

Quando vejo uma revistinha dessas atacar Godard, lembro de meu avô, que detestava comunistas, americanos, Médici e Brizola, tudo ao mesmo tempo. Dizia, encostado na casa que ele próprio construiu, na zona norte do Rio, em 1957, "racista sempre pensa que está do lado certo, não importa que ele mesmo já tenha sido alvo de racismo".

Você estava certo, caro Victor.

domingo, 14 de novembro de 2010

Domingo

A Independência e a República, que em quase toda a América deram lugar a um profundo esforço nacional por elevar o nível cultural da população, capacitando-a para o exercício da cidadania, não ensejaram um esforço equivalente no Brasil. Esse descaso para com a educação popular bem como o pouco interesse pelos problemas de bem-estar e de saúde da população explicam-se pelo senhorialismo fazendeiro e pela sucessão tranquila, presidida pela mesma classe dirigente, da Colônia à Independência e do Império à República. Não ensejando uma renovação de liderança, mas simples alternância no mesmo grupo patricial oliquárquico, se perpetua também a velha ordenação social.


Darcy Ribeiro, antropólogo brasileiro.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Um ótimo entrevistado

Eis que Mônica Bergamo, colunista da Folha, telefona para Silvio Santos, desejando obter seu lado quanto ao imbróglio envolvendo o banco Panamericano, que pertence à Silvio.

E o dono do SBT dá uma das melhores entrevistas que li em todos os escândalos financeiros.

***

Folha – Eu gostaria que o sr. desse uma palavra para o público sobre tudo o que está acontecendo no banco.


Silvio Santos – Não posso porque eu assinei um termo de confidencialidade. Eu assinei um termo de conf… confidencialidade… é até difícil de falar! Não posso comentar nada. Só quem pode falar é o Fundo Garantidor de Crédito.

Folha – O sr. se encontrou com o Lula. Falou com ele sobre isso?

SS - Que Lula?

Folha - O presidente.

SS - Estive com ele falando sobre o Teleton [programa que arrecada recursos para a AACD]. Ele está me devendo R$ 13 mil [risos]. Tive que dar por minha conta porque ele prometeu e não deu os R$ 13 mil [que disse que doaria]. Eu falei para ele: “Se você der R$ 13 mil, a Dilma pode ganhar a eleição”. Porque é o número dela, não é? Não é 13 o número da Dilma? “Pode ser que Deus te ajude e ela ganhe a eleição.”

Folha - E ela ganhou do mesmo jeito.

SS - Mas aí é que tá: agora tô preocupado [risos]. Ele fez a promessa e não cumpriu.

Folha – E o senhor votou nela?

SS – Eu estou com 80 anos. Você acha que eu vou sair de casa para votar? Vou votar é em mim mesmo aqui em casa.

Folha - E aquela história da bolinha [reportagem do SBT afirmou que o candidato tucano, José Serra, foi atingido, numa manifestação, por uma bolinha de papel, e não por um objeto mais pesado, como ele dizia]?

SS - Todo mundo está falando que o SBT fez a reportagem porque estava com problema no banco. Mas que bolinha?

Folha – A bolinha que caiu na cabeça do Serra.

SS - Caiu alguma coisa na cabeça dele? [risos] Caiu alguma coisa na cabeça dele?

Folha - Na campanha.

SS - Ah, não foi hoje?

Folha - Não.

SS - Ah, eu não sei desse negócio de bolinha, não. Isso aí, olha, eu não vejo TV. Televisão, para mim, é trabalho. Só vejo filme. Agora que você ligou para mim eu estava vendo a Fontana di Trevi. Você já viu esse filme, “A Fonte dos Desejos” (de Jean Negulesco)? Eu estava vendo agora.

Folha - E essa informação de que o empresário Eike Batista quer comprar o SBT?

SS - No duro?

Folha - É.

SS - Ah, me arranja! Arranja para mim que eu te dou uma comissão.

Folha – O senhor venderia?

SS – Se ele me pagar bem, por que não? Quem é? “Elque”?

Folha - Eike, um dos homens mais ricos do Brasil.

SS - Ele é americano? Eike?

Folha – Brasileiro.

SS – Não, não conheço. Mas, se ele pagar os R$ 2,5 bilhões que estou devendo, vendo, é claro que vendo. Não precisa nem pagar para mim, paga para o Fundo Garantidor de Crédito. Eu não posso vender nada sem passar pelo Fundo Garantidor de Crédito.

Folha – O senhor está bem? Triste? Chateado?

SS – Eu estou sempre bem. Você já me viu mal?

Folha - O senhor ficou surpreso com tudo o que aconteceu?

SS - Não posso falar.

Folha - Mas o senhor colocou o seu nome e a sua história como garantia de tudo…

SS - É claro. A holding [do grupo Silvio Santos] só recebeu R$ 2,5 bilhões porque eu dei todos os meus bens em garantia. [A operação se realizou] Como se fosse num banco particular. Mas com banco particular seria mais difícil porque os bancos particulares não querem concorrência [do banco PanAmericano].

Folha – O Bradesco não emprestaria para o seu banco, né?

SS - É claro [que não]! Acha que o Bradesco… eu não digo o Bradesco. Mas um banco particular não vai querer me emprestar R$ 2,5 bilhões por dez anos. Vai? Até vou tentar conseguir, quem sabe?

Folha - E o ex-superintendente do PanAmericano, Rafael Palladino?

SS - Palladino? Que Palladino? Nunca fui ao banco. Nem sei onde é o prédio. Quando tenho dinheiro, abro uma empresa no Brasil. Aplico no mercado brasileiro. Mas não sou obrigado a ficar sabendo onde é a empresa. Eu tinha uma fazenda que era a segunda maior do Brasil, a Tamakavi, e nunca fui lá. Nem vi no mapa. A única coisa com que me preocupo é com a televisão. Eu sou investidor. Se [o negócio] der certo, deu. Se não der certo, não deu. A TV é o meu negócio. Mesmo que não desse certo, é o meu hobby. Agora, os outros são negócios. Eu não sou obrigado a entender de perfumaria, de banco. Eu não! Isso aí eu boto dinheiro, pago bem os profissionais e eles têm que me dar resultados. E, às vezes, falham. Desta vez, falhou.

Folha - E a auditoria não pegou…

SS - Mas quem é que arranja a auditoria? Não é o próprio executivo do banco? Que culpa tenho eu? Você vai publicar isso na Folha? A Folha fez uma matéria muito boa hoje. Ninguém sabia o que era Fundo Garantidor de Crédito. Pensavam que era um órgão do governo. Aquilo ali é praticamente uma companhia de seguros. Nem jornalista sabia. Aquilo ali realmente é para poder emprestar dinheiro, garantir o que você tem no banco. Se você tem até R$ 60 mil, garante.

Folha - Não é dinheiro público…

SS - Mas claro que não é. O dinheiro é particular. É uma empresa sem fins lucrativos.

Folha - E com o Henrique Meirelles, o senhor tem falado muito?

SS - Nem conheço. Não sei quem é. Olha, capricha, bota uma foto minha bem bonita no jornal.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Da MPB à MPB, do popular, pop e pesado na música

O resultado de acompanhar a namorada num show de uma banda que eu nunca tinha ouvido uma música sequer, em matéria hoje, no Estadão: "Fãs lotam Via Funchal para ver Belle & Sebastian".

Não é costume jornalista entrevistar jornalista, mas, como estava como "fã" (de um grupo que eu não conheço), não houve conflito profissional.

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Vi, na Folha de hoje, que o Humberto Franceschi finalmente terminou sua pesquisa sobre o Estácio, gueto do melhor samba já forjado no Rio de Janeiro. Lança hoje, livro e dvd "Samba de sambar do Estácio - 1928-1931", pacote que o blogueiro certamente vai adquirir assim que arranjar tempo -- e o caso do Panamericano e a reunião do G-20 desanuviarem.

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Para fechar, o blogueiro comunica que ouviu, nos últimos dias, o mais recente disco do Krisiun -- sim, a banda de metal mais pesado do mundo. Os gaúchos, que conheço desde o "Black Force Domain" ainda estão para ser estudados pelo pessoal que gosta de música na academia. Deixo como dica e me disponho a escrever o prefácio.

***

De uma amiga, tempos atrás: "Sempre que eu acho que você é o ser mais alucinado do mundo, por tratar de uma série de assuntos ao mesmo tempo, lembro que você é fã, ao mesmo tempo, de Krisiun e Vinícius de Moraes. Aí vejo que não ninguém mais louco no mundo".

Indeed.

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Uma lição sobre o mercado financeiro

Sabe o banco Panamericano? Aquele que, como expliquei hoje, vendeu carteiras de crédito e não deu baixa, deixando seu balanço artificialmente inflado e agora está com um rombo de R$ 2,5 bilhões?

Então. A Fitch Ratings, uma das mais prestigiadas agências de avaliação de riscos, tinha, há três meses, elevado a nota do Panamericano. A Fitch, junto a outras agências como Standard's Poor's foram as mesmas que davam notas elevadíssimas à instituições financeiras como Bear Stearns, Lehman Brothers e Merril Lynch -- todas que ou foram adquiridas por outros bancos, com dinheiro do Estado americano, ou simplesmente faliram.

Não, o Panamericano nada tem a ver com essa rapaziada que ajudou a quebrar a economia americana em 2008. Não mesmo.

Mas as agências de avaliação de riscos estão fazendo o que?

Seja lá o que fazem -- ou deixam de fazer, enquanto embolsam uma grana preta para isso -- sei que é aconselhável pensar duas vezes antes de abrir um sorriso quando eles vêm dizer que a nota do Brasil vai subir.

Isso, como vimos, não quer dizer nada.

Interlúdio


Violino e jarro, Georges Braque, 1910.

Duas dicas e Sílvio Santos

Sem tempo, diante da correria que foi o início da semana, quando acompanhei dois seminários consecutivos -- da Fiesp, na segunda, e The Economist, na terça -- tenho de apelar para tratar de dois assuntos que não gostaria de deixar passar.

Para isso, fico dois mestres cá do blogueiro.

Do lado político e judicial, Dalmo Dallari fala sobre os limites do ficha-limpa, projeto sensação da rapaziada que nada entende de política e adora ler o Marcelo Tas e repetir consigo mesmo: "nossa, esse sujeito deveria ser presidente".

No front econômico, Martin Wolf escreve hoje, no Financial Times (em inglês) e no Valor (em português), sobre a iniciativa dos Estados Unidos de inundar o mercado com a emissão de US$ 600 bilhões. Em resumo, porque preciso ser telegráfico aqui: os EUA estão certos, isso faz parte do jogo de combate à recessão e ao crescente desemprego, e quem não entende (os republicanos, lá, e os liberais, aqui) acaba criticando. O negócio é o seguinte: ainda há muito a ser feito se a intenção dos americanos é não repetir a letargia dos japoneses, que viram sua bolha imobiliária explodir em 1990 e desde então perderam todo o ímpeto econômico.

Se tiver tempo, destrincho melhor esse plano americano.

***
Para entender o que ocorreu com o Banco Panamericano, do empresário Sílvio Santos (popular por seu canal de televisão, o SBT): o banco vendeu uma série de carteiras de crédito à outros bancos e, ao invés de riscar essas carteiras de seu balanço, as manteve. Assim, ficaram com um resultado inflado: pelo dinheiro que entrou e pelas carteiras que "ainda" estavam ali.

O rombo, de R$ 2,5 bilhões, será coberto por Sílvio, a partir de empréstimo junto ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) e supervisionada pelo Banco Central e a Caixa Econômica Federal (CEF), que conta com quase metade das ações do Panamericano. Sílvio tem patrimônio estimado em R$ 2,7 bilhões -- passível, portanto, de cobrir o empréstimo do FGC -- e terá 10 anos para pagar o empréstimo.

O importante é o seguinte: toda o board, a diretoria do banco, foi destituída e já está sendo substituída. Novas medidas, universais, de controles de riscos devem ser aprovadas, mas a questão que balançou os mercados ontem e hoje já foi, grosso modo, solucionada.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Contos de boteco

Na noite do dia 1º de outubro de 1975, no bar Chopeta, no bairro das Perdizes aqui em São Paulo, um grupo de jornalistas lançou a revista Escrita. A ideia era levar uma revista aberta à crônicas, contos e jornalismo literário, tudo feito em boteco e na camaradagem.

Do boca a boca, a revista passou por 13 anos circulando. Fechou, como qualquer empreendimento cultural brasileiro sem apoio, no fim de 1988.

Agora, 35 anos depois da estreia e 22 depois do último número, a turma da Escrita retomou o projeto inicial -- mas, como os tempos são outros, partiu para a internet. A ideia é colocar todo o conteúdo da revista na internet, além de abrir espaço para novos autores.

Na semana passada, o jornalista Wladyr Nader, fundador da Escrita e principal motor por trás do ressurgimento da revista na internet, me mandou um e-mail, pedindo para publicar o conto que escrevi aqui no Blog no fim do ano passado. "Aquele conto do bailinho, sabe?", disse ele.

Mandei, então. Para quem quiser ler o conto "Petit, le fou" no Escrita, clique aqui.

Aos leitores que querem embarcar, fica o convite -- o espaço na Escrita, como destacou Nader em mensagem ao blogueiro, é aberto.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

A esgrima tucana: o período 2011-2014 do PSDB

Minha coluna mais nova para o Amálgama -- coletivo de bambas da internet onde sou o único ponto fora da curva dentre tanta gente boa -- trata do que está ocorrendo no ninho tucano e o que desembocará em 2014.

Parto de um desenho claro: a endireitização do PSDB, iniciada no início de 2006, acabou em 2010.

Para ler minha coluna, caro leitor, clique aqui.

domingo, 7 de novembro de 2010

Domingo

A literatura, como toda a arte, é uma confissão de que a vida não basta.


Fernando Pessoa, poeta português.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

O novo líder chinês

O novo primeiro-ministro chinês, que assume o poder em 2012, será, muito provavelmente, Xi Jinping.

Quem é ele?

Xi foi escolhido pela direção do Estado, na semana passada, para ocupar o cargo de vice-presidente da Comissão Militar Central do Partido Comunista. Trata-se de um dos mais importantes cargos na hierarquia tecnocrata chinesa. O atual primeiro-ministro da China, Hu Jintao, ocupou o mesmo cargo dois anos antes de alcançar a liderança do governo.

O provável novo primeiro ministro chinês pertence à uma elite comunista muito seleta. Seu pai, Xi Zhonghun, foi um famoso revolucionário dos anos 1930 e 1940, surgindo como um dos líderes do movimento que gerou Mao Tsé Tung e transformou a China a partir de 1948.

Tal qual ocorreu com muitos bolcheviques após a emergência de Stalin, ao longo dos anos 1920, muitos revolucionários chineses sofreram na pele a concentração de poder em torno de um homem. A partir dos anos 1960, o sr. Xi teve de deixar a cidade e ir morar no campo, rotina que aplacou outros milhões de chineses, que deveriam "trabalhar pela nação". Eram arquitetos, escritores, políticos, matemáticos, geógrafos, contadores, alfaiates deixando suas ocupações para pegarem enchadas e pás para plantarem comida, que era centralizada pelo Estado, que depois às redistribuía.

Era a Revolução Cultural, que muito maoísta defendia mundo afora. Defendiam algo que não viveram ou sequer imaginavam. Uma beleza que deixou muito jovem deslumbrado nos cafés de Paris, realidade que foi brilhantemente captada por Jean Luc Godard em seu Pierrot, Le Fou.

O senhor Xi, já pai de família, aceitou sua sina e para o campo foi. Lá ficou por décadas, até que as coisas começassem a mudar na China, a partir das reformas promovidas por Deng Xiaoping, de 1978 em diante. Ele foi grande entusiasta das mudanças promovidas por Deng, o que fez dele, então um homem reconhecido em seu país por ter participado da revolução de 1948, fosse indicado para participar, nos anos 1980, do Politburo -- o segundo organismo mais importante da China, com apenas 25 membros, inferior apenas ao Comitê Central.

Xi Jinping, o provável primeiro-ministro chinês de 2012, é um homem que tem em si a China pré-revolução, contada por seu pai, a revolução e o maoísmo, que seu pai viveu, e as reformas que desembocam na China potência de hoje, que ajudou a formar, junto ao pai, a partir dos anos 1980.

Fiquem de olho.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Pela volta da CPMF

Há conversas quentes no governo pela retomada da CPMF, imposto criado pelo médico Adib Jatene, um dos homens que mais respeito, e que foi derrubado pelo Congresso em dezembro de 2007. Foi criado para finaciar os gastos da Saúde, uma das contas mais caras do setor público, que, por força da Constituição, precisa prover e cuidar de todos os brasileiros.

A CPMF era um imposto inteligentíssimo: era retirado automaticamente nas transações financeiras, correspondia a uma alíquota minúscula -- de apenas 0,38% -- e que ajudava e muito as contas do Sistema Único de Saúde (SUS).

O grande problema da CPMF era o próprio Estado. Por meio da Desvinculação das Receitas da União (DRU), criada em 1998, o Estado poderia retirar um quinto do arrecadado com contribuições diretas à determinada rubrica e gastar em outro setor. Via de regra funcionava assm: o governo arrecadava um montante X, de 100, digamos, com a CPMF. Seguindo a Constituição, todo esse valor, ou seja, todo esse 100 arrecadado deveria ir para o Ministério da Saúde administrar.

Mas com a DRU, o Estado poderia retirar 20% desse valor, ou seja, 20 desses 100 arrecadados, para gastar em outros setores. Mas não gastava. O Estado retirava os 20 da Saúde e ao invés de gastar com outras rubricas importantes, como Transportes ou Educação, repassava para engordar o superávit primário -- o nome dado pelo acordo costurado entre o governo brasileiro e o FMI em dezembro de 1998 que significa a economia qu eo setor público faz para pagar sua dívida.

Há um estudo interessante feito pelo pessoal da GVLaw, em outubro de 2007, se não me falha a memória, que mostra como essa engenharia financeira funcionava. Cheguei a escrever e explicar isso no Blog, na época (está em "Arquivos Antigos").

A Saúde precisa de mais dinheiro. Se quiser funcionar de maneira decente, não só é preciso organizar melhor a estrutura de gastos e fiscalizações, mas, principalmente, ter um orçamento mais gordo. E isso passa por uma renovação da CPMF -- talvez com outro nome, como já chegou a ser cogitado, com o CSS (Contribuição Social da Saúde).

Não, não sou favorável a aumento de impostos. Deles já estamos cheios -- especialmente a parcela de rendimentos mais baixos, a base da pirâmide, que gasta proporcionalmente mais que as classes médias-altas com impostos, uma vez que incidem sobre consumo.

Uma reforma tributária brasileira passa por uma esquematização mais sofisticada de nossa carga de tributos, especialmente sobre o setor industrial, que tem uma estrutura muito complexa de tributos para pagar, passa por uma federalização do ICMS, que provoca guerra fiscal insana entre estados -- chegando até a política nonsense de Santa Catarina, que isenta de ICMS o importador (!) -- e, sim, pela volta da CPMF.

Mas, é claro que nada disso vai ser discutido de maneira coerente. Se de fato entrar no debate público essa história eterna de "reforma tributária" será da pior forma, a julgar pelo que assistimos em 2010, como muito bem apontou o Alexandre Inagaki.

Mas vou continuar tentando.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

90 anos de rádio



O rádio comemora, hoje, 90 anos oficiais. Em 02 de novembro de 1920, uma emissora de Pittisburgh, Estados Unidos, fez sua primeira transmissão para a população local. Como foi a primeira a ter uma licença para tanto, se convencionou estabelecer este segundo dia de novembro como o aniversário do rádio.

Não é, claro. Emissoras de rádio já existiam desde o início do século XX, sem equipamentos bons, pessoal organizado ou mesmo ouvintes cativos. Mas existiam.

Mas, para festejarmos sobre algo sólido, vamos com este 02/11/1920.

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O rádio guarda ótimas histórias. Vou contar algumas, os leitores ficam convidados a lembrar outras, inclusive de cunho pessoal.

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Durante a Copa de 1958, na Suécia, a delegação de futebol da seleção brasileira, aproveitou os dias livres para passear nas ruas e no comércio. Logo no comecinho da viagem, a turma dos jogadores do Botafogo, que era a base da seleção, resolveu comprar aparelhos que eram caros no Brasil. Daí que Garrincha comprou um radinho.

Mais tarde, no hotel onde se concentravam, Garrincha, que no Rio e em qualquer viagem com a seleção dividia quarto com Nilton Santos, seu companheiro de Botafogo, tentava, a todo custo, fazer o rádio funcionar.

"Não funciona, Nilton. Não tem jeito. Esse troço só fala coisa esquisita. Deve estar com problema na antena, dei azar", disse ele. Nilton, de jeito sério, mais experiente, logo sacou o que estava acontecendo. O rádio tinha captação limitada, portanto sua antena apenas atingia estações suecas -- e, portanto, com emissoras de programas suecos. Mas não disse nada.

"Você me dá esse rádio, então?" falou à Garrincha, que cedeu ao amigo, balbuciando algo como "pra quê? Tá quebrado...".

Quando voltaram ao Rio, Garrincha ficou espantado que o rádio, no quarto que dividia com Nilton Santos estava funcionando. "Poxa, você conseguiu consertar?"

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Vinte anos antes, em 1938, um jovem americano quase colocou Nova York abaixo. Orson Welles, um dos homens mais criativos do século XX, fez uma transmissão tão entusiasmada de "Guerra dos Mundos", que aos nova iorquinos que sintonizavam nas rádios mais famosas do país -- CBS e CBC, que transmitiam, ao mesmo tempo, o The Mercury Theatre on the Air, programa de Orson -- parecia que o país estava sendo atacado por alienígenas.

O episódio cacifou Welles para, tres anos mais tarde, chacoalhar o mundo com seu primeiro filme, O Cidadão Kane. Ele veio ao Brasil, em 1942, numa passagem por Ceará e Recife, onde tentou gravar um filme, sabiam? Mas isso é história para outro post.

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Herdei de meu pai um costume curioso. Ele sempre me contou dos tempos de garoto, no fim dos anos 1960 no Rio, em que ficava com o rádio de pilha sobre o peito, deitado na cama à noite, ouvindo as canções de bolero e samba-canção, as transmissões de lutas de boxe e os programas esportivos.

Quando pequeno, o blogueiro aqui fazia o mesmo, mas para se auto-ninar, uma vez que sempre teve dificuldade para dormir. Dificilmente dava certo. Ficava entusiasmado com as músicas e sempre acabava gerando discussão com o irmão, com quem divida o quarto.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

A nova presidente do Brasil

Eleita, ontem, Dilma Rousseff (PT), com 55,7 milhões dos votos -- 56% do total de eleitores.


Foto tirada ontem, em que o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2010) recebe Dilma.

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Sobre o derrotado:

José Serra (PSDB) teve 43,9% dos votos. Seu desempenho foi mais vistoso que em 2002, quando perdeu o segundo turno para Lula, mas sua campanha foi muitos tons abaixo.

O candidato se aliou a parte mais retrógrada da sociedade e dois gestos são claros nisso: a escolha de Índio da Costa (DEM) para vice e a defesa alucinada do catolicismo e dos "bons costumes da família". Temas e pessoas que deveriam estar no passado de qualquer país, especialmente de um país jovem como o nosso, que ainda tem tanto por fazer.

Passou o mês de outubro inteiro indo em missas, aceitou os ataques de gente perturbada -- como o bispo de Guarulhos, que afirmou que o "PT é o partido da morte" -- e nada disse sobre todo o turbilhão cristão e católico que tomou conta de seus pronunciamentos e em sua campanha na TV.

Ontem, quando veio à imprensa declarar-se derrotado, nem um "se Deus quiser", ou um "graças a Deus" ou mesmo um "Deus quis assim", disse. Nada. Para alguém que da noite para o dia falou tanto em religião, ficou devendo.

Ficou devendo também um apreço à Fernando Henrique Cardoso e Aécio Neves, respectivamente, o passado e o futuro do PSDB. De FHC falou, depois que já tinha dito tudo que queria, apenas porque foi lembrado por sua filha, na frente de todos. De Aécio nada falou.

Deste lado, posso garantir que a campanha da oposição em 2010 será marcado por uma figura igualmente cômica e trágica, numa mistura que termina por ser lamentável: Índio da Costa.

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Ao PSDB: juntem os quadros bons do PPS -- que tem aos montes, e certamente não é Soninha Francine -- e o que restou do DEM para formarem um partido sério. O nome, PSDB, tem muito a zelar, como já escrevi aqui. Mas passa, sem dúvida alguma, por FHC. Aliás, o Paulo Nogueira tem escrito muito isso -- e ele está coberto de razão.

O governo Dilma terá um quadro mundial muito complicado. Nem os Estados Unidos nem União Europeia dão qualquer sinal de que haverá uma recuperação econômica antes do fim de 2012. Estamos falando dos dois primeiros anos do governo Dilma. Isso quer dizer que o jogo ficará ainda mais concentrado no mercado interno, e, por consequência, nas importações crescentes.

Se sacar os buracos que surgirão -- já estão surgindo -- o PSDB, e a oposição como um todo, fará uma campanha muito mais decente em 2014.

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E por favor: deixem religião e assuntos moralistas de fora do Estado, que é laico, e cujo poder deve ser disputado de forma política.
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