domingo, 31 de outubro de 2010

Domingo

Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
já não se adoçará junto a ti a minha dor.

Mas para onde vá levarei o teu olhar
e para onde caminhes levarás a minha dor.

Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
uma curva na rota por onde o amor passou.

Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame,
daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.

Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.

...Do teu coração me diz adeus uma criança.
E eu lhe digo adeus.


Pablo Neruda, poeta chileno.

Domingo de eleições


Dia de eleições no Brasil. Cerca de 135 milhões de brasileiros vão hoje às urnas escolher entre Dilma Rousseff (PT), José Serra (PSDB) ou a nulidade de sua opinião. Decidem quem sucederá Luiz Inácio Lula da Silva (PT), presidente do país desde janeiro de 2003.

Na foto, acima, Dilma e Serra se cumprimentam no CCBB de Brasília, com Lula ao lado, após reunião entre os três, quando todos pertenciam à máquina pública -- Serra era governador de São Paulo, Lula presidente da República e Dilma sua ministra-chefe da Casa Civil.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O debate eleitoral de 2010

Abaixo, os leitores do Blog encontram dois textos. Um é escrito por Rodrigo Cássio, filósofo e pesquisador de cinema, defendendo voto em Dilma Rousseff (PT). O outro é escrito por Felipe Salto, economista, defendendo voto em José Serra (PSDB).

Os dois têm o mesmo tamanho e o tema é aberto, como expliquei aqui ontem.

Assim como fizeram Rodrigo e Felipe, à pedido do Blog, vamos debater ideias, portanto, peço aos trolls e torcedores fanáticos que deixem os ataques desqualificadores de lado. O negócio aqui está no campo das ideias.

Bom proveito.

O voto em Dilma Rousseff

Por Rodrigo Cássio

O que menos se viu nas eleições presidenciais de 2010 foram os debates que melhor fazem avançar as consciências políticas, sejam elas aproximadas a uma ou outra parte que protagoniza a disputa. O pleito tem sido pensado por meio do cotejo entre o que os presidentes FHC e Lula realizaram nas duas últimas décadas, o que não é suficiente, mas é legítimo no contexto de polarização, e seguramente evidencia as diferenças entre PSDB e PT.

Eu poderia dizer que voto em Dilma porque o governo que ela representa reduziu a miséria brasileira como jamais os tucanos fizeram, com mais de 20 milhões de pessoas deixando essa condição absurda em oito anos. Eu poderia mencionar também as mudanças que o governo do PT promoveu nas Universidades Federais do país, depois do descaso vivido na era FHC, cujos esforços deram um aval decisivo para a mercantilização da educação, alastrando instituições privadas que transformam a formação dos educandos em objeto de consumo (nesse passo, deixa-se de formar homens e cidadãos para se formar meros consumidores, como sabe qualquer pessoa com alguma vivência no universo acadêmico, como eu).

Essas duas diferenças do governo do PT para com o do PSDB já seriam suficientes para justificar o voto em Dilma, pois são aspectos absolutamente centrais nas sociedades de massas do século XX. A educação e a superação da miserabilidade são duas faces de uma única demanda. Elas viabilizam, como nenhuma outra mudança, a possibilidade de que um número maior de pessoas adquira e compreenda com abrangência o significado da cidadania, o direito a ter direitos e o compromisso necessário com os deveres. Seguindo nos números, eu poderia mencionar também o aumento do PIB, a diminuição da desigualdade de renda ou a geração de empregos.

Mas também se pode falar das semelhanças que nos ajudam a perceber as próprias diferenças entre o PT e o PSDB. O Brasil moderno é uma realização tardia ligado a uma estabilidade econômica pela qual FHC e Lula são responsáveis. Melhor: o Brasil moderno ainda é uma realização pendente, e não há maneira de levá-lo a cabo com verdadeiro sucesso senão no comprometimento com aquilo que nos é singular, aquilo que em nós pode originar uma resposta incisiva ao processo colonizador que nos encheu de cicatrizes.

Se com a nossa independência assumimos a modernidade capitalista (e desde Getúlio é assim), cabe desejar que ela desponte no Brasil sem os equívocos observáveis em quem nos obrigou a ela. Dilma ou Serra são capazes de potencializar a singularidade brasileira no mundo? Penso que ambos são falhos nesse quesito. Mas há consideráveis diferenças entre um e outro.

O pragmatismo político que o PT abraçou desde a campanha de 2002, a fim de tornar possível um governo de origem popular como o de Lula, deu origem a uma administração cada vez menos criativa de uma sociedade desigual. O espírito essencialmente político de repensar o papel das instituições e os mecanismos de ampliação da cidadania é sufocado pelo tipo de esquerda que se volta para a modernização sem visar criticamente as suas consequências perniciosas. Um desenvolvimento social que claramente não interessa ao PSDB foi iniciado por Lula, mas faltaram as práticas políticas que poderiam atingir diretamente o alvo, como um combate à miséria que não deixa de pôr em xeque os aspectos fundantes da ideologia -- a mesma que nos torna miseráveis. Por exemplo: a ascensão de uma nova classe média, por si só, não oferece a garantia sobre um futuro mais democrático, ainda que seja obviamente melhor a existência de uma nova classe média do que a continuidade da miséria nunca combatida pelo governo neoliberal agressivo de FHC.

Porém, se Dilma representa um pragmatismo de bons resultados, que garante uma boa inserção do país em uma forma de vida pouco questionada pela prática política, é apenas o candidato Serra quem pode barrar decisivamente a potencial singularidade do Brasil, e, por isso, assumir a mesma forma de vida da pior maneira possível. O casamento de Serra com alas conservadoras da sociedade evidencia que o PSDB se apropriou muito mal da história recente da modernidade. À promessa de liberdade, o PSDB responde com controle e alienação, como se vê no apoio que a "mídia tradicional" ainda oferece aos tucanos, associada ao projeto de lei do dep. Eduardo Azevedo para controle da internet, hoje uma consolidada alternativa à mídia hegemônica, sobretudo na classe média tradicionalmente apoiadora de Serra.

À necessidade de um Estado laico o PSDB responde com discursos demagógicos que distorcem o significado da laicidade, ou simplesmente o ignoram em nome do comprometimento com lideranças religiosas mais afeitas ao fanatismo que à preocupação com as relações sociais concretas, como no uso irresponsável do tema "aborto" durante a campanha. À manifestação livre e legítima de quem pensa diferente, Serra já deu mostras de que prefere a repressão ao diálogo, como no abuso de poder da PM no protesto da USP em junho de 2009. Em síntese, Serra e o PSDB reproduzem o que há de mais indesejável na matriz política do Ocidente.

Votar em Dilma ainda é a escolha de uma consciência política de esquerda. Mas não há consciência política que se comprometa com uma postura socialmente demarcada -- como a da esquerda -- sem o reconhecimento de que essa demarcação é movediça, dependente das circunstâncias que um país dá a si mesmo em cada nova fase de sua História. Nação cada vez mais presente no cenário internacional, o Brasil edifica a sua própria modernidade, e a escolha por Dilma é ainda um gesto de resistência no interior desse projeto de mundo que transcende a nossa época e remonta a séculos de tradição.

A resistência manifestada nesse voto é a da confiança em que as transformações da própria esquerda podem continuar a ocorrer sem regressões; uma confiança em que podemos ser humanistas sem obscuridades, e que a criatividade ainda venha a nos supreender, lá mesmo onde ela ainda não se confirmou impossível.

Rodrigo Cássio é doutorando em Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e mestre em cinema pela Universidade Federal de Goiás (UFG). Mantêm o blog Vistos e Escritos.

O voto em José Serra

Por Felipe Salto

Conhecer os candidatos que se apresentam para governar o Brasil, nos próximos quatro anos, é um ato de confiança e de esperança em um País que ainda tem desafios enormes pela frente. Não é raro ouvir, em conversas com familiares, com colegas de trabalho e com pessoas dos mais diversos setores da sociedade, frases do tipo “o Brasil não tem mais jeito”, “a política só serve para os corruptos”, “eu voto nulo, porque todos são iguais” e por aí vai... Ouvir essas coisas é muito triste, porque, de alguma forma, essas pessoas, desiludidas, não enxergam, ainda, a importância da democracia, da participação e, em última instância, do voto.

Por outro lado, este é mais um motivo para que aqueles que já definiram seu voto e têm motivos e argumentos para defendê-lo saiam em defesa de seu candidato. É o que faço neste artigo, mostrando por que acredito que o melhor para conduzir o País a um processo de desenvolvimento robusto é eleger José Serra presidente do Brasil.

Há 25 anos, o Brasil vem passando por mudanças político-institucionais importantes, não apenas com a consolidação da democracia e a aprovação de uma nova Constituição, mas também com a elaboração de políticas econômicas e políticas sociais que foram importantes para colocar fim ao processo inflacionário e criar as bases para o crescimento com estabilidade e distribuição de renda. Fernando Henrique Cardoso, ainda como ministro de Itamar Franco, conduziu o processo político que culminou na elaboração do melhor plano econômico já concebido no País, responsável pela promoção do controle da inflação – o Plano Real.

Desde então, ao longo do governo FHC, foram promovidas mudanças no campo fiscal, com a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), as metas para o superávit primário, o saneamento dos bancos públicos e, no âmbito da política monetária, foi instituído um Banco Central operacionalmente independente e focado no objetivo de manter a inflação sob controle. É bom lembrar que todas as bases da atual composição de política econômica, mantida pelo governo Lula, portanto, tiveram origem no governo anterior, e sua manutenção foi correta e saudável à persistência de uma situação econômica de estabilidade.

O desafio, entretanto, que se coloca ao próximo presidente, depois da conquista da estabilidade e da ampliação do processo de distribuição de renda, com programas que são reconhecidamente eficientes (do Bolsa-Alimentação – governo FHC ao Bolsa-Família – governo Lula), é o crescimento econômico. Evidentemente, no campo social, há um desafio ainda maior, que é a guinada necessária nas políticas de educação, que busque avançar, definitivamente, nos padrões da educação básica, garantindo um futuro decente às próximas gerações. No âmbito do ensino técnico, também é preciso um avanço significativo, em linha com as propostas e intenções de José Serra, não apenas construindo escolas técnicas pelo País, como criando programas de auxílio financeiro ao jovem estudante.

Desenvolvimento econômico aliado a um verdadeiro salto educacional – estas são as duas alavancas para dar início a um processo sólido de crescimento e de expansão do emprego e da renda, pondo fim aos “vôos de galinha” e dando início a um círculo virtuoso de políticas macroeconômicas e educacionais que ampliem o bem-estar social.

Serra defende uma política fiscal com corte de desperdícios, aumento dos benefícios sociais e redução da corrupção, que é um verdadeiro ralo pelo qual escoa o dinheiro público. Este é o caminho para conseguir um outro objetivo importante – a redução da carga tributária. É uma promessa crível, na medida em que tal estratégia esteve presente em todo o período em que Serra esteve à frente do governo do Estado de São Paulo, sendo a eficiência a marca de sua gestão e o combustível para que tantas e tantas obras e políticas pudessem ser implementadas em seu mandato.

Assim, o candidato do PSDB, José Serra, na minha avaliação, é o mais preparado para conduzir um processo de crescimento e de desenvolvimento fortes, calcados no objetivo de ampliar emprego e renda e na necessária atenção à sustentabilidade ambiental. O atual governo teve, sim, seus méritos, mas não soube aproveitar integralmente as bases construídas pelo governo FHC, negligenciando a oportunidade de dar início a um processo de crescimento elevado, digno de um País nas condições do Brasil. Mais do que isso, o PT, que hasteava a bandeira da ética, simplesmente decidiu rasgá-la, quando estabeleceu, no cerneu de seu governo, no gabinete da Casa Civil, práticas de compra de votos com mensalidades avantajadas a parlamentares da base aliada -- o famigerado "mensalão".

Os próximos quatro anos não poderão ser, novamente, desperdiçados, de modo que é preciso eleger alguém com conhecimento e capacidade política para liderar um processo de desenvolvimento, pautado em maiores taxas de investimento, com juros mais baixos, Estado eficiente, limpo, correto e atuante, redução da carga tributária e garantia de um processo amplo de redistribuição de renda. Educação e investimento em infraestrutura somente serão viabilizados com este novo Estado, que permita, através de uma liderança política eficaz e positiva, trazer o apoio da sociedade para implementar uma nova política econômica, mais forte e focada no crescimento, mantendo as conquistas do processo de estabilização.

Por isso, no domingo, votarei em José Serra para presidente do Brasil!

Felipe Salto é economista, formado pela FGV/EESP, e mantêm blog pessoal.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Dilma x Serra

O blogueiro, cansado da mais enjoativa campanha presidencial desde 1989, resolveu, no entanto, salvar este finzinho. Os últimos três dias serão movimentados: amanhã teremos o debate final, na TV Globo, que costuma atingir os picos de audiência. No sábado, além dos jornalões com edições maiores, ganharão as bancas e as casas dos assinantes as semanais, como Veja, IstoÉ e Época (CartaCapital será publicada na segunda-feira, já com os resultados, segundo avisa o leitor Jorge Maia), e também o último Jornal Nacional, que trará os melhores momentos (se existirem...) do debate de sexta-feira. Finalmente, o domingo amanhece com as edições gigantes de Folha, Estadão e O Globo, além dos regionais Zero Hora, Estado de Minas, Correio Braziliense, Gazeta de Alagoas e tantos outros.

Para antecipar essa correria final, que vai definir os últimos votos daqueles que ainda estão indecisos e eventualmente mudar daqueles que estão vacilando em suas escolhas, o Blog aqui promove um debate de ideias.

Que? Como assim debate de ideias?

Sim, eu sei. Diante da coletânea de inutilidades que permeou toda a campanha eleitoral de 2010, o blogueiro resolveu fazer algo um pouco diferente.

Convidei dois colegas da blogosfera para escreverem textos defendendo suas escolhas. Um vota em Dilma Rousseff (PT). O outro em José Serra (PSDB). Eles terão o mesmo espaço para defenderem suas escolhas e não há qualquer definição de tema ou forma. Apenas os contactei, na segunda-feira, com a ideia e disse que publicaria na sexta-feira pela manhã. O resto é com eles.

Não são pessoas ligadas aos partidos. O que vota em Serra é economista, que nasceu, estudou e trabalha em São Paulo, de onde não se imagina saindo. O que vota em Dilma é filósofo e pesquisador de Cinema, mineiro, mas que estuda no Centro-Oeste.

Parecem diferentes em absolutamente tudo, e, também por isso, os convidei a escrever. Mas há algo que dividem: os dois são genuínos defensores do país, debatem ideias e são capazes de discutir diferentes argumentos, sem ficarem presos às amarras ideológicas que travaram o debate em 2010.

Os textos serão publicados ao mesmo tempo, amanhã cedo, abrindo a reta final.

***

Aliás, bela apuração de Natália Viana, do Última Instância, que fez o que ninguém pensou em fazer ao longo da campanha: chegou todas as fichas e dossiês que contavam com o nome de José Serra no Deops (Departamento Estadual de Ordem Política e Social) ao longo dos anos 1960 e 1970.

Ao longo do ano, muito se falou da participação de Dilma na guerrilha. Mas pouco, ou quase nada, da participação de Serra na luta contra o regime ilegal instalado no Brasil em 31 de março de 1964.

A regra básica do jornalismo, depois de dez meses, foi fechada. Ou não se olha nenhum documento, ou se olha os dos dois. Olhar para um lado só é política.

Conversando com Tuma

Estava ansioso naquele fim de tarde em outubro.

Era dia de festa de quinze anos da Regiane, grande amiga dos tempos de meninice. A Regi, como chamávamos, fazia parte do grupo de amigas que cresci: Fernanda, Thaís, Regi e Luiza. As quatro eram das poucas que aturavam o falastrão aqui, que quase obscurecia o último participante do grupo, meu grande amigo Daniel, que além de mirrado sempre foi quieto.

Falamos de crianças que andaram grudadas dos 7 aos 12, 13 anos. Boa parte das brincadeiras e descobrimentos foram feitos entre os seis. Eu era parecido com a Fernanda, que faz aniversário no mesmo dia, no que deixo para os astrólogos as explicações para isso: ambos hiperativos, que riam muito e falavam outro tanto. Ela era muito amiga da Luiza, cujo irmãozinho caçula nasceu nesse período, e a mãe dela, muito chegada em mim, deu a ele o meu nome.

Do outro lado, Thaís e Regi, que eram ainda mais ligadas que Fernanda e Luiza. Foram muitos os almoços, depois da aula, nas casas das meninas, que também adoravam servir de palco para as primeiras festinhas à noite. Era engraçado olhar para o lado, na sala de aula, e ver Thaís e Regi tendo as mesmas reações diante do que era falado pelos professores. Eram grudadas, quase irmãs -- as duas, aliás, tinham irmãs mais velhas que também eram amigas.

Fizemos praticamente tudo entre nós, à exceção dos trabalhos. As meninas detestavam se juntar ao blogueiro, que passava as aulas conversando e arquitetando artimanhas -- que me valeram muitas exclusões e chamadas de atenção, nas reuniões de pais e mestres. Lembro de uma das poucas vezes que fizemos algo, eu e Fernanda, num trabalho em dupla. Era preciso responder três perguntas, de português, e escrever uma redação, em seguida. "Vamos nos dividir", propus. "Você faz as perguntas e eu faço a redação, que tal?" Ela aceitou.

Como as perguntas precisavam ser respondidas antes, uma vez que a prova estava grampeada e a redação vinha ao final, tirei o tempo para dormir, apoiando levemente a cabeça sobre o estojo e o braço por trás de sua cadeira, como se estívessemos os dois concentrados, uma vez que Fernanda sempre escreveu muito próxima da folha de papel, como se estivesse tentando sentir o cheiro da tinta.

Seguindo o combinado, Fernanda me acordou na hora de escrever a redação. Faltavam pouco mais de cinco minutos e era uma redação longa. O rapaz aqui, todo confiante de si mesmo, não via problema, uma vez que sempre escreveu rápido. Mas foi ler a proposta de texto para ver o plano ir água abaixo: era preciso relacionar o tema às perguntas. Nos olhamos boquiabertos. Não havia tempo para que eu lesse tudo a tempo de escrever, então Fernanda, que tinha respondido as perguntas, saiu escrevendo tudo correndo -- algo que ela detestava.

Aquela experiência, que só confirmou a fama de arquiteto do desleixo que mantive por todo meu período escolar, definitivamente queimou meu filme como colega para trabalhos. Não me restava, então, outra alternativa que fazer os trabalhos em dupla com Daniel, que era tão bom aluno que certa vez repetiu o primeiro colegial.

A turma foi separada quando tínhamos uns 13 anos. Era uma prática da escola fazer rodízio entre as turmas para ampliar o leque de amizades. Compreensível, mas que à época soou como fim da amizade. Não foi bem assim, é claro, mas um distanciamento natural passou a ocorrer, conforme fomos criando laços com outras pessoas e amadurecendo -- essa lástima biológica humana que nos torna mais sisudos e nos tira o tempo.

Dois anos depois era hora da festa da Regi, que fazia 15 anos. Regi foi a última das meninas a fazer 15, pouco mais nova que eu e Fernanda -- cuja comemoração de 15 anos, um mês antes, eu quase estraguei, porque subi o elevador do buffet com ela, que, até então, não fazia ideia da festa surpresa que a família preparara. "Nossa, que coincidência você por aqui, João...", disse-me, já desconfiando.

A festa da Regi era especial por alguma razão que não sabia precisar. Por ser a última das meninas a aniversariar, e como as festas de 15 anos serviram para nos reaproximar depois da classe separada, parecia que aquela seria o último vestígio da amizade que construímos quando crianças. Passei o dia pensando naquilo e, naquele fim de tarde, não conseguia pensar em outra coisa.

Me arrumei e atravessei a cidade, porque morava na zona norte e a festa era na zona sul. Chegando no lugar estavam todos lá: Fernanda, Luiza, Thaís, Daniel e Regi, toda sorridente com a chegada dos amigos. Chegaram muitos outros, como o recém-compadre Nikolas, e as outras meninas da infância, como a dupla de Isabelas.

Ao fundo do grande salão onde os adolescentes dançavam e conversavam (hehe), uma série de mesas, onde a família de Regi se aglutinava. Seus pais, tios e tias, primos e seu avô. O adolescente aqui, que como a criança e o repórter, sempre tratou de cumprimentar e puxar papo com todos, cruzou o salão, sozinho, para falar com seus familiares, que conhecia desde pequeno.

Enquanto falava com o pai de Regi, o avô, na mesa ao lado, espiava. Sabe quando você sabe que uma pessoa está te olhando, mesmo que você não esteja olhando para ela? Pois bem, era isso. Pouco antes de encerrar a conversa, virei-me para ele, para confirmar que ele olhava para mim. Acenou com a cabeça e fez um gesto com as mãos, me chamando para perto.

Disse, com voz mansa, algo como "você é grande amigo de minha neta, não?", no que, antes que eu respondesse, ele complementou "você se comunica bem, minha neta já tinha comentado". Respondi que pensava em levar aquilo adiante, quer dizer, fazer algo profissionalmente que envolvesse comunicação. "É isso mesmo. Mas não vá com muita sede ao pote. Para quem se comunica bem é um pulo para a ambição de abraçar o mundo, e isso pode te trazer problemas", avisou.

Era Romeu Tuma, delegado e deputado federal, que fora presidente do Dops entre 1977 e 1983, e chefe da Polícia Federal entre 1990 e 1992. Tuma morreu anteontem, aos 79 anos.

Regi está para fazer aniversário e este não será um aniversário fácil. Então, de longe, seis ou sete anos depois da última vez que nos falamos, dedico este post à Regi e família e, por se tratar de uma questão pessoal, e não de polícia ou política fecho este post para comentários dos leitores. Os textos sobre Tuma na blogosfera tem gerado comentários acalorados sobre sua atuação como delegado, algo que nada tem a ver com o tema aqui. Para não gerar constrangimento, o texto fica aqui, como dedicatória.

Parabéns, Regi.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

O símbolo Néstor Kirchner

Até hoje cedo, antes de falecer subitamente, o ex-presidente argentino Néstor Kirchner dividia os analistas políticos e econômicos em dois. Sua morte, na realidade, não muda essa divisão, que cai bem à um argentino: ame ou odeie.

Escrevi muito sobre a Argentina de Néstor no Blog, entre dezembro de 2006, quando comecei, e dezembro de 2007, quando ele deixou a presidência. Continuei acompanhando de perto, já com Cristina no comando. E continuarei acompanhando. Um dos textos mais famosos deste Blog -- que inclusive ultrapassou a marca de 4 mil pageviews trata justamente da Argentina, foi quando contei as relações dos nazistas que fugiam da Alemanha e eram recebidos de braços abertos pelos hermanos.

O tempo ainda fará um juízo sereno do que foi o governo de Néstor Kirchner, entre 2003 e 2007.

Mas não tenho dúvidas de afirmar que está entre os quatro líderes mais importantes e polêmicos de toda a história da Argentina: Juan Domingo Perón, Raúl Ricardo Alfonsín, Carlos Menem e Néstor Kirchner.

Interlúdio



Charlotte Voegele, Kleid aus Binkerinde, 2008.

Sobre privatização

Sempre que ouço falar em privatização -- sim, este tema incansável, que volta com força sempre que há eleições no Brasil, que poucos conseguem dialogar com lucidez -- lembro de Brecht.

Já que o tema está no noticiário eleitoral, e infelizmente, muito pobremente tratado pelos candidatos, pelos analistas, economistas e torcedores da blogosfera, vamos, ao menos, ficar com quem sabe escrever.

Privatizado

Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o seu conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.

Bertold Brecht.

***

Uma maçã caramelizada para o primeiro troll petista que pegar essa poesia de Brecht e disparar por e-mail com um adendo de "veja só como as privatizações são ruins!".

Uma banana com mel e uma cerejinha esperta em cima para o primeiro troll tucano que disparar essa poesia por e-mail adicionando o seguinte comentário "vejam o que escrevia esse comunista alemão maltrapilho do Brecht, que não entendia nada de política"

Como todos sabemos, os torcedores nada entendem da realidade.

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Aliás, isso me lembrou de um "analista" (e coloque aspas aí) de política, que criou o método "fulano só é bom no que me interessa" de análise. Disse certa vez que Chico Buarque era ótimo letrista, mas fraco analista político, simplesmente porque Chico é entusiasta do PT desde sua fundação, em 1980, e foi dos primeiros a declarar voto público em Dilma Rousseff (PT).

Lembrei também de uma conversa, certa vez, com um colega. Ele criticava Ferreira Gullar por ter declarado apoio à José Serra (PSDB). "Poxa", disse-me ele, "o Ferreira Gullar nem artista sério é, bom é o Chico Buarque".

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Os artistas só são legais mesmo quando eles apoiam o seu candidato, né? Isso vale para o "analista" e para o colega.

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As privatizações? Essas continuam pessimamente discutidas. Fico com Brecht.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Na bibliografia

Recebo mensagem do Filippo Cecílio, dizendo que o Versão Brasileira, livro que escrevemos no ano passado, já está sendo usado como bibliografia dos trabalhos acadêmicos dos estudantes que concluem graduação em Jornalismo na PUC de São Paulo.

No meio do ano uma amiga de Ciências Sociais na USP já avisara que estava usando o livro também como fonte de sua pesquisa. Mesmo ocorreu com um estudante de Filosofia da Universidade Federal da Paraíba, que ainda em março mandou e-mail pedindo informações sobre o livro.

Trata-se de um negócio de louco publicar um livro no Brasil.

Mesmo para um repórter, que além de bem relacionado, tem uma série de contatos no mercado editorial. O negócio é difícil mesmo.

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Não deixa de dar um orgulho danado ver essa demanda vindo de diferentes cursos e regiões. Mais que escrever, ver teu livro na bibliografia de outros é uma sensação sem igual.

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Para ler um trecho de Versão Brasileira, clique aqui. A edição 19 do Sopro, produzido pela dupla Alexandre Nodari e Flávia Cera, publicou um trecho do sexto capítulo do livro, que conta com sete ao todo.

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A luta, é claro, continua.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Um cenário lastimável


É o que ocorre com o rio Negro, um dos principais rios brasileiros, no Amazonas. Ontem, o rio Negro atingiu a menor marca de vazante (descida das águas) desde que a estação de monitoramento do Porto de Manaus foi fundada, em 1902.

Trata-se, portanto, a pior estiagem em 108 anos.

Isolados e sem fonte de água potável, cerca de 38 dos 62 municípios do Estado do Amazonas  decretaram estado de emergência. Uma cidade decretou calamidade pública.

domingo, 24 de outubro de 2010

Ó ópera!

Belíssimo artigo de Aderbal Freire-Filho, publicado n'O Globo de hoje, que só consegui ler agora à noite. (Trata-se de um hábito um tanto doido do blogueiro, que lê, todos os dias, quatro jornais, mas nem sempre pela manhã, diante da rotina alucinada do repórter. Assim, acabo lendo tudo ao longo do dia).

De Aderbal vi duas obras primas de maneira consecutiva no mês passado. Em setembro, como presente de aniversário da namorada Carolina, assisti à Orfeu Negro, peça de Vinícius de Morais com música de Tom Jobim e que originalmente contava com cenários de Oscar Niemeyer. Peça histórica por juntar, pela primeira vez, Tom e Vinícius, foi adaptada por Aderbal, que fez um trabalho magistral.

Quinze dias depois, já passeando rapidamente por Curitiba, assistimos no Teatro Guaíra -- o maior da América Latina -- As Centenárias, com as maravilhosas Andréa Beltrão e Marieta Severo.

Agora, Aderbal vem à público assinar artigo defendendo voto e discutindo política com Zelito Viana, outro cara fora de série.

Vou publicar o artigo do Aderbal não só pelo respeito que tenho por ele, mas principalmente porque dá um gosto danado ver grandes artistas se posicionando -- de maneira sensata -- sobre política. E isso independe de seu posicionamento, mas sim da forma como defende suas ideias.

Essa é a grande lição, meus caros. Todos podemos fazer o que quiser, mas é preciso saber fazer e defender. Aderbal foi certeiro.

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Ótimo, óbvio, ódio -- Ó Ópera!

Os artistas entraram na campanha eleitoral, ótimo. E óbvio que tem artistas dos dois lados. Não tinha que falar do óbvio, mas é o jeito, pois o ódio cega esta campanha. Também ressalvo: pedras (verdadeiras ou falsas) voam dos dois lados. Mas é preciso aceitar os apoios que agora os artistas dão a seus candidatos. Um erro isolado, como o nome do José Padilha em um manifesto, sem sua permissão, é o preço de uma ação de grandes proporções conduzida por pessoas e não por entidades. Daí a falar em pressões, vai uma distância enorme.


Eu, por exemplo, assinei o manifesto de apoio a Dilma e ninguém me obrigou. O Carvana me ligou e me perguntou se eu apoiava. Quando leio que fomos forçados a assinar, imagino eu dizendo que não apoiava e o Carvana, indignado, me gritando “vai trabalhar, vagabundo”. Abracei no Casa Grande o Waltinho Carvalho, não é possível que ele estivesse tão feliz à força. E o Jorge Furtado, esse outro cineasta fundamental do cinema brasileiro hoje, tão firme nas suas posições, quem o obrigou a assinar? Será possível discordar, defender pontos de vista, sem agressões, rancores, sem perder a admiração pelos artistas com os quais não concordamos? Pois bem, estava aqui lendo Nicanor Parra — o Chile entrou nas nossas vidas de novo estes dias — e pensando em quem cabiam esses versos do poeta: “Y asi fué como lo convirtieron de un tonto útil de izquierda en tonto inútil de derecha.” Como outro Chile acolheu o... bom, será que já estou contaminado pelo ódio?

E de repente encontro no GLOBO umas perguntas do Zelito Viana sobre o que é ser de esquerda. Pois gostaria de responder a essas perguntas, sem que se ponha em dúvida minha admiração pelo Zelito (e pela família toda). Podia respondêlas uma por uma, a partir da primeira: desde quando Henrique Meirelles é de esquerda? Desde nunca, Zelito, você tem razão. Mas qual esquerdista você imagina que o Lula poderia botar na presidência do Banco Central? Vamos lembrar da situação. Outra artista que admiramos havia resumido o pensamento do mercado, numa declaração emocionada: “Tenho medo do Lula.” Uma situação de tensão se criou com a eleição de um operário, forjado nas lutas sindicais, para a Presidência do Brasil. Qualquer passo em falso e Lula lá... fora.

Mas posso ser mais sucinto e dar uma explicação só, que responde a todas as perguntas.


O que define uma política de esquerda ou de direita é seu objetivo maior. O do atual governo do Brasil é defender seu povo — por isso tem uma aprovação de 81%. É fazer no Brasil esta revolução silenciosa que está conseguindo quebrar a espinha dorsal perversa da estratificação social brasileira. Mas não é difícil encontrar atitudes que conduzem a esse objetivo e que não são de uma ortodoxia de esquerda. Ortodoxia, sabemos todos, que não cabe mais no mundo de hoje de “conceitos mais complexos e difusos”.

Logo, escolher no meio do caminho algumas dessas atitudes e usálas para fazer perguntas/afirmações que procuram negar um pensamento de esquerda é fácil e falso. Nesse caminho, também mudaram os rumos da política externa brasileira.


Esses novos rumos aumentaram a importância do Brasil no mundo: os prêmios, o reconhecimento internacional são a forma de medir, como aqui os percentuais de aprovação dos institutos de pesquisa medem a aprovação interna.


Também é bom dizer que não são fins justificando os meios, outro lugarcomum do dicionário político. É como em um jogo de futebol. Um time para ganhar precisa de ataque e defesa, de táticas, de recuos (às vezes nos irritam aquelas trocas de passe no campo de defesa), de jogadas pelas pontas. E quando um juiz ainda está contra, vendo impedimento onde não existe, inventando faltas contra nós, deixando o adversário entrar de carrinho nas pernas dos nossos jogadores, tendo preconceito contra o capitão do time, é muito mais difícil ainda.

Aderbal Freire-Filho é diretor de teatro.

***

Aliás, finalmente entramos na última semana da campanha. Que, como disse, é a pior desde 1989.

Domingo

O conhecimento da verdadeira objetividade de um fenômeno, o conhecimento de seu caráter histórico e o conhecimento de sua função real na totalidade social formam, portanto, um ato indiviso do conhecimento.


György Lukács, filósofo húngaro.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

A pior campanha desde 1989

Isso é indiscutível. Nada, na história do Brasil, foi tão baixo quanto a disputa do segundo turno de 1989. Se continuar assim, este segundo turno de 2010 pode ultrapassar.

Em baixaria, 1989 ainda está à frente, mas esta de 2010 ainda não acabou -- falta uma semana ainda, e tudo pode acontecer.

Em debate de ideias, no entanto, 2010 já levou o prêmio de pior campanha da história moderna do Brasil. Em 1989, ao menos, havia um incessante debate sobre as ideias privatistas de Collor contra o Estado social de Lula. E em 2010? Nada se fala. Nada se discute.

Que terror.

***

Por Paulodaluzmoreira:

Eu vejo os dois candidatos se esforçando para mandar graças a Deus e ir à missa e se dizer contra o aborto e não serem a favor do casamento de homossexuais e eu me lembro desses reality shows em que os candidatos são obrigados a comer baratas ou correr pelados na neve. Minha impressão é que se para ganhar um marketeiro disser a esses dois que eles precisam do voto português para ganhar mais uns 4% de eleitores, saem os dois dançando o vira e se empanturrando de bacalhau em praça pública.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Lula e Roosevelt

Dois belos textos de dois brilhantes analistas de conjuntura foram publicados ao mesmo tempo tratando da mesma comparação, sobre diferentes pontos de vista: André Singer e Delfim Netto. Vou comentar os dois textos.

Na piauí, artigo do cientista político André Singer comparando a hegemonia do lulismo, criada em 2002 e chancelada em 2006 e 2010. Singer diz que a vitória da candidata de Lula, Dilma Rousseff (PT) nas eleições deste ano não significa a continuidade do lulismo. O centro do debate nacional colocado desde a ascenção de Lula ao poder, nas eleições de 2002, alterou radicalmente o polo de legitimação do governante, consequência dos anseios da gigantesca emergência de mais de 30 milhões de pessoas da pobreza à classe média. Tanto é, diz Singer, que mesmo o candidato de oposição falou em ampliar o salário mínimo a R$ 600, corrigir as aposentadorias em 10% e em dobrar o Bolsa Família.

Lula fez o que Franklin Delano Roosevelt fez nos Estados Unidos a partir de 1933, diz Singer. No melhor trecho do longo texto publicado na piauí, Singer fala sobre o enorme processo de "engordamento" da classe média. "Segundo o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre 2003 e 2008 a pobreza extrema (rendimento médio domiciliar per capita de até um quarto de salário mínimo) foi reduzida de 15% para 10% da população. No mesmo período, a pobreza absoluta (rendimento médio domiciliar per capita de até meio salário mínimo) caiu em proporção semelhante, reduzindo-se o total de brasileiros nessa faixa de renda para 23%."

Aí está a grande comparação entre Lula e Roosevelt. "Durante o governo Fernando Henrique Cardoso, os brasileiros abaixo da linha da pobreza eram metade da população. No governo Lula, caíram para cerca de um terço da população. Em linhas gerais, os dados apontam que uma parte do sonho roooseveliano -- o de construir uma sociedade em que (quase) todos estão fora da pobreza -- está ao alcance dos dois próximos mandatos presidenciais", escreve Singer.

Ao colocar a classe média no centro do debate, domando sindicatos e capitalistas sobre um mesmo sistema de coesão por ampliação da renda e do consumo doméstico, Roosevelt revolucionou o debate público americano. Mesmo quando a oposição -- os republicanos -- levou as eleições, em 1952 e 1956, o fez sob bases rooseveltianas, e se manteve no poder ampliando o fator Roosevelt.

É o que ocorre no Brasil hoje. A coesão de forças em torno do aparelho do Estado, que engendra desde grandes empresas, por meio do BNDES, a grandes centrais sindicais, através do repasse de quase R$ 150 milhões da contribuição sindical, até polos antagônicos da política regional e da academia. Este consenso, que, como todo consenso, não existe sem rachaduras ou rivalidades extremas, é o que banca o processo eleitoral do pós-Lula.

As rivalidades extremas, sintoma dialético do poder hegemônico representado pelas forças lulistas, para ficar em termos gramscianos, são tema da outra análise que falei. Esta, do economista Antônio Delfim Netto, na última CartaCapital, compara as reações da mídia brasileira aos programas de transferência de renda de Lula, no primeiro mandato, e de obras públicas, no segundo, à forte -- para não dizer agressiva -- oposição sofrida por Roosevelt na mídia americana ao longo dos anos 1930 e 1940.

A mídia americana simplesmente não conseguia engolir Roosevelt.

Numa de minhas passagens por Nova York, visitei uma série de bibliotecas públicas e chequei, por curiosidade, os fac-símiles dos jornais durante a depressão. Não pensava em Roosevelt ou política, especificamente, mas em como aquele tremendo crash econômico de 1929, originário da Bolsa de Nova York, fora percebido então. A partir de 1933, com Roosevelt já eleito, a cobertura era grosseira. As notícias econômicas e sociais, péssimas, porque o país estava em profunda depressão, eram ligadas à Roosevelt, como se ele fosse a razão de todos os problemas.

Para a mídia americana dos anos 1930, Roosevelt era culpado inclusive pela extinção dos dinossauros.

O que Delfim Netto, que não pode, de modo algum, ser chamado (ou acusado, dependendo da perspectiva do leitor) de pertencer à esquerda, chama a atenção é que ocorre com o lulismo algo semelhante ao que passou Roosevelt quando, na década de 1930, inaugurou uma nova forma de contato com a sociedade.

O consenso de Roosevelt durou 46 anos. A vitória de Ronald Reagan (republicano) nas eleições de 1980 colocou um bode na sala da hegemonia democrata de classe média. A partir de 1981, os americanos promoveram uma nova revolução, que, tal como a de Roosevelt, aplacou a todos -- tanto é que o presidente que mais fez pela revolução conservadora inaugurada por Reagan foi Bill Clinton, democrata, eleito em 1992 e reeleito em 96. A crise de 2008 acabou com o reaganomics, que, portanto, durou 28 anos.

Quanto durará o lulismo?

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Cantando nos escombros


Só ontem consegui assistir à Foreign Affairs, obra prima que Billy Wilder produziu em 1948. Era o último dos filmes iniciais de Wilder que ainda não tinha assistido e, certamente, o melhor -- empatado, talvez, com Farrapo Humano (1944).

Traduzido como A Mundana para o português, o longa conta a história de uma comissão de congressistas americanos que viaja à Berlim em 1945, pouco depois do fim da Segunda Guerra Mundial, para verificar o ânimo e a moral das tropas americanas por lá. Entre os congressistas, Wilder foca em Jean Arthur, que interpreta a senadora por Iowa Phoebe Frost, dura e nacionalista republicana que preza pelos costumes tradicionais do bom homem americano.

Phoebe se depara com o que aquela acredita ser a depravação, uma vez que os soldados americanos, há quatro anos fora de casa, estão se divertindo com o fim da guerra, participando de festas e bebedeiras improvisadas nos escombros de Berlim, paquerando as alemãs e trocando bens no mercado negro. Se passando por alemã, Phoebe é levada por jovens soldados americanos a mais famosa boate do local, o Lorelei. Lá encontra Erika Von Schultow, a maravilhosa cantora interpretada por Marlene Dietrich.

Que linda era Marlene.

O enredo se estabelece, então, porque Phoebe, ciente de sua importante missão por lá, descobre que Erika era chegada nos nazistas e só continua cantando nas boates porque é protegida por um alto escalão do exército americano -- o capitão John Pringle, interpretado por John Lund, em um de seus papeis mais marcantes.

Filme maravilhoso e já bastaria pela cena em que Marlene canta "Black Market" no Lorelei.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

O aprendizado do século XXI

As pessoas ainda não sabem usar as redes sociais.

Há jornalistas, que trabalham em jornais de grande circulação, que cobrem política e economia. Eles têm Twitter e uma página pessoal no Facebook. Por meio desses dispositivos, disparam mensagens como "Eu voto Serra", ou "Dilma presidente".

Há economistas, que trabalham em bancos ou consultorias, que, pelo twitter, mandam mensagens com hashtags -- aquelas frescurinhas com # que representam um tema -- como #Dilma13 ou #Serra45. Outros vão além, e colocam suas imagens com bordas apoiando o número de seu candidato.

Há coisas menos diretas.

Há publicitários que, em suas imagens no Facebook, aparecem enchendo a cara, em fotos em que é possível ver a marca da cerveja.

Há advogados que aparecem claramente drogados, agarrados em amigos e amigas, em suas fotos pessoais.

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Como alguém, seja um jornalista ou um economista, que trabalha no mercado profissional de comunicação e policy making, tem uma cara, no seu meio profissional, e outra, nas mídias sociais?

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Pegue um palmeirense fanático. Coloque ele assistindo, pela TV, um comentarista que fala que o Palmeiras não pode se vangloriar, uma vez que o rival São Paulo tem três títulos mundiais, e o Verdão nenhum. O palmeirense vai se indignar, porque falaram mal de seu time, mas, em última instância, pensará lá com ele "bom, mas o sujeito é comentarista profissional, até que ele sabe o que está falando".

Em seguida, o palmeirense liga o computador e faz uma pesquisa com o nome do comentarista. Surge uma página pessoal do Facebook em que o comentarista esportivo aparece em fotos com os amigos vestindo a camisa do São Paulo, outras em aparece no Morumbi e algumas com legendas como "o dia em que nos sagramos campeões brasileiros".

Sabe quando esse palmeirense vai levar a sério de novo o comentarista esportivo?

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Todos temos opiniões. Todos votamos, torcemos, conversamos e boa parte de nós reza.

Mas há algo crucial aqui: há o foro público, profissional, e o foro íntimo. Não se trata de maturidade saber separar um do outro, mas de respeito aquele que confia, e decência com aquele que precisa de seu trabalho.

Ideologia é importante? Muito! Posicionamento político é algo incrível, importantíssimo para constituitmos uma sociedade milhões de vezes melhor que a que conseguimos criar em quinhentos e dez anos. Mas é preciso separar.

No limite, que o que ocorre na blogosfera e em parte considerável da mídia, é que as pessoas só conversam entre si. Uma pessoa que defende o PT lê apenas os blogs de quem pensa igual, elogia a mídia apenas quando ela fala bem de seu partido e candidatos ou quando investiga o rival. O mesmo ocorre com quem defende o PSDB. Falo dos dois, apenas, porque não vemos correntes de alucinados do PPS ou do PSB correndo a blogosfera ou enchendo as cartas dos jornais. E não me refiro aos jornalistas que cobrem as idas e vindas do Dado Dolabella ou aqueles que escrevem sobre a importância da rúcula para um corpo sarado.

Do jeito que a coisa está, fica um grupinho de um lado ruminando contra o outro, e do outro lado, o mesmo procedimento.

Politização é ótimo. Quem escreve isso aqui é um defensor inverterado da politização, do debate incessante de ideias. Mas também alguém cioso e zeloso do bom debate. Aquele que sabe apontar erros e virtudes nos dois lados.

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Não estou, antes que venham os trolls insuportáveis, me elogiando por aqui. Nada disso. Há zilhões de pessoas mais capazes que eu e também dizendo coisas mais interessantes.

Faço aqui apenas uma defesa, isolada, eu sei, do debate são, de todos os temas.

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Há muita gente boa que defende Dilma, Serra, Marina, e quem quer que seja -- ainda não encontrei ninguém que defenda José Roberto Arruda (DEM), mas continuo procurando -- e apresenta belíssimos argumentos para tanto.

Isso é ótimo e deve ser incentivado.

O que não pode, e é contra isso que estou me insurgindo aqui, é gente incapaz defendo plataformas com ataques vis ou por imaturidade. Todos, repito, todos tem todo o direito de se posicionar quanto à políticos, times de futebol, religião, o que for. Todos.

Mas é preciso decência. Ver um jornalista/economista/advogado defendendo um projeto com argumentos mesquinhos é fechar uma porta.

Porque há jornalistas que não vão procurar você como fonte depois de receber um e-mail com ataques baixos contra um candidato, ou vê-lo como um adolescente mimado bêbado nas fotos do Facebook ou dizendo asneiras pelo Twitter.

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As redes sociais são ótimas. Mas é preciso saber usá-las.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Liberdade de calar

Não deixem de ler a coluna "Liberdade de calar", de Lúcia Guimarães, publicada hoje no Estadão.

Trata de um tema que será alvo aqui do Blog, ainda nesta semana. Ler o texto da Lúcia servirá de introdução ao que virá por aqui.

domingo, 17 de outubro de 2010

Domingo

Gostaria de ver você.
Há tempos não paro de pensar
e venho pensando coisas que não pensava
há tempos.
Lembro de tanto, de tato, de tudo.
Se pudesse, pediria para voltar
mas não posso.
Eu sei que não dá, tá?
Sei, como por muito repeti a mim mesmo,
que não dá mais.
Mas e se pudesse...
...você voltaria para mim?
Sei que este é o mais difícil de todos os aniversários
de sua morte, amor.


J.V.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Anotações & Dicas

Dois belos textos, que traduzem o pensamento do blogueiro sobre dois temas que estão pingando em outubro.

No primeiro, o doutor em Direito Rafael Mafei Rabelo Queiroz escreve sobre o aborto. Um dos melhores textos que já li sobre o assunto.

No segundo, o doutorando em Filosofia Rodrigo Cássio escreve sobre o recém-lançado "Tropa de Elite 2", que, tal qual o primeiro, já abriu um enorme debate, para além das telas. O texto do Rodrigo, além de muito bem escrito, vai direto na ferida.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Desejo de asilo

Uma iraniana deixou seu país e foi à Grécia. Não é uma longa viagem e sua escolha, definitivamente, não está assentada numa vida melhor, mas mais segura. Os gregos estão passando por sua mais grave crise econômica desde os tempos em que Platão seguia Sócrates em seus devaneios pelas calçadas. A iraniana foge de um país que condena mulheres à apedrejamento e enforcamento, e também as força a usar véus e burcas.

me posicionei quanto ao Irã. Várias vezes, inclusive em entrevista à televisão. O problema do Irã é dos iranianos, e só eles podem resolver isso. Os americanos também praticam pena de morte, os franceses, que em tese são a vanguarda do pensamento avançado, são incapazes de viver com as diferenças. Israel..., bom, de Israel esse Blog já falou bastante. O importante aqui é perceber que o Irã não está sozinho: há um monte de exemplos de problemas sociais, religiosos e políticos.

Mas não deixa de ser péssimo para o espírito ver uma bela iraniana, anônima, costurar a própria boca em desagravo ao governo grego, que negou-lhe o asilo.



Falando em asilos políticos, por que até agora Lula não concedeu à Cesare Battisti o asilo?

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Interlúdio



José Resende, vagões e cabos de aço, realizada para o projeto ArteCidade/ZonaLeste, entre os viadutos Bresser e Belém, em São Paulo, 2002.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

De motoristas e fases

Hoje vou contar a história do seu Cícero, famoso pelo nome de padre nordestino herdado do pai, mas que de religioso mesmo só tem os últimos anos para contar, quando passou a dar mais atenção à religião. Até o finzinho dos anos 1990, seu Cícero, que hoje está na beira dos seus 65 anos, vivia pelo trabalho -- e pelo trabalho apenas.

Foi, por 17 anos, um dos mais destacados motoristas da extinta CMTC, a Companhia Municipal de Transporte Coletivo aqui de São Paulo. Ingressou em 1975 e, aos poucos, foi chamando atenção pela lealdade aos colegas e ao prefeito, que, naqueles tempos, era biônico. Passou a área de socorros e urgência, porque aproveitava a voz baixa e o jeito manso para sossegar os colegas que, por vezes, entravam em enrascadas no ofício.

Era motorista de ônibus. E se tem algo que carrega com orgulho de seu emprego é uma foto antiga, em que ele aparece ao lado dos amigos, todos vestindo o jaleco da CMTC. Dava orgulho trabalhar ali, disse-me ele.

Passou por muitas naqueles 17 anos. Gosta de lembrar das vezes em que Jânio Quadros, eleito prefeito em 1985, chegava ao bar do Chico, lugar onde os motoristas se juntavam depois do serviço para tomar uma pinguinha. Jânio estava sempre com jalego de motorista. Adorava dar apelidos aos colegas de Cícero, e não tinha nenhum medo em sentar-se com eles e dividir a cachaça. "Essa você vai ter de pagar para mim, hein China?", dizia Jânio, virando-se para um motorista com olhos mais apertados, que ele logo apelidara.

A história na CMTC acabou tão logo o processo de privatização e extinção da companhia começou, em 1993, quando Paulo Maluf assumiu a Prefeitura de São Paulo, após levar as eleições de 92. "Fui dos primeiros a ser demitidos, e logo, um a um foi também. Acabaram com uma das companhias mais felizes do setor público paulistano", diz seu Cícero.

O processo, gosta de dizer o antigo motorista de ônibus, não deve ter saído barato para a Prefeitura. "Nos demitiram todos, mas pagaram tudo bonitinho. Queriam privatizar, mas antes acho que quebraram a companhia de tanto que pagaram com rescisões contratuais". Na época, seu Cícero embolsou a soma de 302 milhões de cruzeiros, soma que não esquece, porque, embora não representasse tanto assim -- uma vez que a hiperinflação estava no auge -- não deixava de ser um número vistoso.

Aplicou tudo na poupança, em tempos de conversão de cruzeiros para URV e desta para o Real, que estava para ser criado. Com o dinheiro e os rendimentos, seu Cícero ampliou o sobradinho onde morava, constituindo a casa que reside até hoje com a mulher. No fim de 1994, passou a trabalhar como taxista, numa cooperativa de táxis, onde está desde então.

Seu Cícero é dos poucos taxistas de São Paulo que não gosta de Paulo Maluf. "Minha classe olha só pro umbigo. Como Maluf construiu túneis, elevados e pontes, ajudando o trânsito, taxista adora o cara. Mas ninguém fala a sério o que o sujeito fez com as finanças de São Paulo".

A conversa com seu Cícero, renovada a cada corrida do blogueiro, da redação do jornal a uma pauta, precisa ser desenferrujada. Há tempos não encontro mais o seu Cícero.

domingo, 10 de outubro de 2010

Domingo

Eles farejam teu hálito,
Com medo de que possas ter dito eu
te amo.
Eles farejam teu coração.
Estes são tempos estranhos, minha
querida.
Os açougueiros estão postados em cada
esquina com porretes e cutelos sangrentos.


Ahmad Shamlou, poeta iraniano, já falecido.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Os boas vidas


Um dos melhores textos que li no ano, do genial Roger Cohen, colunista do NYT.

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Não deixa de ser ótimo ler este texto depois da sessão de nostalgia que foi ontem, com "Bons tempos".

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Para não repetir o título do post, que caberia facilmente neste, resolvi homenagear um dos meus filmes preferidos, de Federico Fellini.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O desemprego no mundo

O Fundo Monetário Internacional (FMI) soltou ontem seu mais recente "World Economic Outlook", o mais amplo balanço de dados econômicos do mundo. Pesquisando nele, pesquei uma informação interessante.

No mundo, hoje, há cerca de 210 milhões de desempregados -- isto é, pessoas em idade economicamente ativa que querem, mas não conseguem trabalhar. Houve um crescimento brutal no número de pessoas desempregadas de 2007, antes da explosão da crise mundial, para cá. Coisa de 30 milhões de trabalhadores perderam seus empregos nos últimos três anos e ainda não conseguiram arranjar uma nova vaga.

Mas a informação interessante vem agora: O equivalente a três quartos desses 30 milhões, ou seja, 22,5 milhões de desempregados, estão nos países desenvolvidos.

Esta, mais que qualquer outra, é a principal questão por trás dessa crise iniciada em 2008: ela atingiu os países ricos em cheio, deixando os países emergentes, praticamente de fora.

Até quando os emergentes conseguiram viver, crescer e gerar milhões de empregos sem serem contaminados pelo lamaçal dos países ricos, cuja situação só piora? Eu não sei.

Só sei que o século XX, dominado pelos americanos, acabou em 2008. Um novo mundo surgiu ali e esta é uma briga que o Blog comprou faz tempo: o século XX não acabou com a queda do muro de Berlim, em 1989, ou o fim da União Soviética, em 1991, ou mesmo com o ataque às Torres Gêmeas, em 2001. Acabou em 2008 -- ali, o poder econômico e político americano, que se estendia para o social e cultural, se esgotou.

Mas isso é uma conversa para depois, quando chegar um sociólogo com um livro defendendo isso e dizendo que foi o primeiro a falar. Não avisem ele, quando ele chegar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Bons tempos

"Cara, vou tocar numa festa, nesta sexta. Você quer ir?"
"Nossa, que ótima notícia, não sabia que você sabia tocar alguma coisa. Que horas vocês vão entrar?"
"Não, sou só eu. E começa as 23h"
"Ah, é estilo banquinho e violão, então. Ótimo, ainda melhor, é o que mais gosto mesmo"
"Não, cara, eu vou discotecar. E vou tocar música contemporânea, o que o pessoal anda ouvindo"
"Mas isso não é tocar. Você não vai tocar nada, você vai discotecar, então"
"Dá no mesmo"

***

Diálogo realizado hoje cedo por dois rapazes. Um, o DJ que convida, de 30-31 anos. O outro, que é convidado, de 23. Além da clara inversão de papeis, há latente, no mais novo deles, um sentimento de deslocamento.

O mais novo deve pensar, em seu íntimo, que nasceu uns 30 anos depois do tempo certo. Ele gostaria de responder que "é da época em que as pessoas que tocavam alguma coisa eram conhecidos como "músicos" e não como 'DJ's'". Mas ele não pode, porque é novo demais para ter vivido isso.

A verdade é que dos anos 1990 para cá se consolidou a ideia de que o "músico" é quem aperta botões num computador em meio a um salão escurecido com luzes que piscam intermitentemente, com um balcão que serve bebidas ao lado, e um monte de gente vestida igual espremida e se sacudindo a um som infernalmente alto, com músicas que trocam, mas que parecem as mesmas.

Bons eram os tempos em que os músicos tocavam instrumentos.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Os verdes no segundo turno


Tão logo deu meia-noite, de domingo para segunda, o Amálgama publicou um pequeno texto deste blogueiro dizendo que o jogo neste segundo turno passa por Marina Silva (PV).

O jogo já começou. Vejam o que escreveu Alexandre Nodari, que declarou voto em Marina no primeiro turno, e Celso de Barros, que votou e repetirá voto em Dilma Rousseff (PT). Por serem donos de dois dos melhores espaços da blogosfera, os textos encontram um eco ainda maior. Aqui, o texto do Alexandre e, aqui, do Celso.

Esta semana será decisiva, escrevam o que estou dizendo.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

Como disse o Blog...

...o governo dobrou a alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) cobrado do capital externo que entra para abocanhar títulos públicos, no dia seguinte as eleiçoes.

Escrevi na sexta-feira que este deveria ser o primeiro passo do governo após as eleições.

A questão do câmbio valorizado, no entanto, continua de pé.

Marina Silva leva eleição ao segundo turno

Com mais de 19,6 milhões de votos, Marina Silva (PV) foi a razão das eleições presidenciais não terem acabado no primeiro turno -- Dilma Rousseff (PT), com seus 47,5 milhões de voto ficou a 3,2% de arrebatar de primeira. Assim, José Serra (PSDB), que ficou com 32% dos votos, foi ao segundo turno.

Vejam o que estará em jogo em outubro, o mês em que o novo presidente será definido, em minha coluna especial ao Amálgama.

domingo, 3 de outubro de 2010

Domingo



Dia de eleições gerais no Brasil. O mundo todo está de olho, pela primeira vez em nossa história. Independentemente do resultado, ainda há muito a ser feito -- como a imagem acima, retirada da matéria especial da The Economist dessa semana, demonstra: um cartaz com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua candidata Dilma Rousseff (PT) em meio a uma das tantas moradias de baixa renda no país.

***
O blogueiro passará o domingo trabalhando. Pela manhã acompanho o voto de Plínio de Arruda Sampaio, candidato do P-SOL, e em seguida corro para a redação do Valor de onde acompanharei a apuração ao longo do dia.

***
Atualização das 14:57

Dica da amiga Júlia Frate Bolliger, jornalista que está para voltar para a terrinha depois de temporada em Londres: o belíssimo artigo de Maria Rita Kehl, publicado no Estadão de ontem.

Maria Rita trata do editorial do Estadão que declara voto em José Serra (PSDB), que foi tema de coluna minha no Amálgama, para, em seguida, falar da série de e-mails que circularam ao longo da campanha eleitoral.

Este, ao lado do artigo de Wanderley Guilherme dos Santos no Valor de quinta-feira, foi um dos melhores textos que li sobre as eleições de 2010.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

A primeira coisa

que o governo federal tem de fazer passada as eleições é mexer no câmbio. A atual cotação do dólar, de R$ 1,69 (fechou hoje, sexta-feira pré-eleição em R$ 1,67), depois de ter passado todo o ano oscilando abaixo de R$ 1,80 e vindo de um processo de agressiva valorização cambial -- 37% em dois anos! -- está começando a formar uma bomba relógio.

Não é só na indústria, que diminui muito as exportações. Também não é só no emprego, que começa a se concentrar em firmas importadoras, como ocorre em Espírito Santo, e nas empresas que prestam serviço ao mercado doméstico, que cresce forte.

Mas refiro-me à possível formação de bolha, com a crescente entrada de capital externo. Ele é bom, nos ajuda -- e muito -- a crescer, pois complementa a poupança e os investimentos nacionais. Mas se continuar crescendo assim, tendo no câmbio um grande incentivo, problemas podem vir.

É uma missão, claro, para o próximo presidente. Mas o atual governo já pode começar a se mexer agora, seja elevando a alíquota do IOF, seja implementando alguma medida mais criativa. Tenho minhas ideias, mas não vou encher os leitores com elas agora.

Fica o recado.


                É, amigo, o problema é deste tamanho mesmo. (foto: Marcos de Paula/AE)
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