quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Enquanto no Brasil só se fala nas eleições...

... os protestos na Europa atingem seu ápice: depois dos gregos, é a vez dos espanhois irem às ruas protestar contra os planos de seu governo, que quer reduzir os estímulos fiscais e gastos com funcionários públicos para reduzir o alto endividamento público.

Reduzir o endividamento público é preciso, claro, mas não tem hora pior que agora. O blogueiro sempre achou que os policy makers tinham entendido o recado em 1930, quando todos estavam mais preocupados com a dívida que com o emprego, mas, claro, estava enganado.

Não se surpreendam, caros leitores, caso grandes economias europeias entrem numa crise brava a partir de 2011. E o mesmo vai ocorrer nos Estados Unidos caso os estímulos sejam retirados. Podem me cobrar aqui.

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Estou acompanhando a cobertura dos protestos pelo El Pais. Ontem foram milhões às ruas em Madri. Hoje, em Barcelona.


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A grande questão está onde sempre esteve: no emprego. Enquanto no mundo rico a taxa de desemprego não para de subir -- porque as empresas privadas estão com medo de investir e, portanto, de contratar, ao mesmo tempo que os bancos temem emprestar, e os governos estão tímidos em gastar -- no mundo desenvolvido a história é outra.

No Brasil, apenas entre janeiro e agosto de 2010 foram gerados 1,7 milhão de empregos com carteira assinada. Isso explica a questão político-eleitoral também, mas deixem os cientistas políticos e os colunistas acharem que há outras explicações.

Não contem para ninguém, tá?

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O Equador está numa situação inacreditável: todos os acessos à capital, Quito, estão fechados e o presidente Rafael Correa dissolveu o Congresso. Ele, agora, está hospitalizado devido aos efeitos das bombas de gases que explodiram em diversos protestos militares. Há uma cisão no Exército.

Estou acompanhando pelo Estadão, que faz boa cobertura.




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Atualização de sexta-feira, à 01:53

Por Gustavo

Posso adicionar mais dois episódios a essa lista, que não vão entrar em nenhuma mais?


-Amanhã a ONU divulga um relatório sobre crimes de guerra acontecidos na D.R. Congo. Grandes chances de provocar desestabilização no centro-leste africano e, também, em todo o continente;


-Domingo, dia 3, é dia de eleições no Brasil... e na Bósnia também. E garanto que por lá as coisas vão ser bem mais quentes do que aqui.


Escrevo sobre os assuntos no meu blog nessa sexta. It's a dirty job but someone's gotta do it.

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O blog do Gustavo é ótimo, dos melhores de política internacional "fora do eixo" da blogosfera.

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Rafael Correa deixou o hospital e já está falando que o Equador sofreu nesta quinta-feira "uma tentativa de golpe mal-sucedida". Acompanho a história pela Telesur, que faz excelente cobertura.

A ciranda dos estrangeiros

A editora de Finanças do Valor, Vanessa Adachi, fez uma conta interessante: dos R$ 35 bilhões que foram abertos ao público em geral na capitalização da Petrobras (os outros R$ 85 bilhões ficaram fechados ao governo, que ampliou sua participação na estatal), o equivalente a R$ 21 bilhões vieram de investidores estrangeiros. Como R$ 13 bilhões foram nas ADRs que a Petrobras tem na Bolsa de Nova York, foram R$ 8 bilhões (ou US$ 14 bilhões) que efetivamente ingressaram no mercado brasileiro.

Isso quer dizer que os estrangeiros abocanharam 60% das ações que a Petrobras colocou à disposição dos investidores.

Além disso, a fatia da dívida pública brasileira que está nas mãos dos estrangeiros não para de crescer: no total, o equivalente a 11% da dívida está com gente de fora.

É esse forte -- e crescente -- ingresso de dólares que tem derrubado o câmbio. A cotação do dólar só não caiu dos R$ 1,70 porque o Banco Central está enxugando tudo e mais um pouco, como já expliquei por aqui, através das emissões de títulos públicos, que, por sua vez, são também abocanhados pelos estrangeiros.

Roda mundo, roda gigante, a ciranda vai rodando.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Interlúdio



Nathalie Schnider-Lang, artista plástica alemã, 2008.

Martin Wolf: "Brasil terá de administrar o ingresso de capitais"

Minha entrevista com Martin Wolf, publicada no Valor de hoje. Falamos de China -- que para Wolf vai ter de mudar de modelo --, dos EUA -- que para ele não vão liderar mundo pelos próximos dois anos -- e do Brasil.

Aqui, a entrevista.

Não costumo trazer minhas matérias do jornal cá para o Blog, mas como falamos de Martin Wolf, vale destacar a conversa.

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Atualização das 14:40

O Estadão repercutiu a entrevista.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

O Brasil na mídia internacional

Vejam a coluna de Nelson de Sá na Folha de hoje. Por registrar a adoração da mídia estrangeira no Brasil ela é imprenscindível para o leitor cá do Blog entender o que virá amanhã. Já me explico.

Abaixo, a coluna:


"BRASIL DESLUMBRA"


O francês "Le Monde" deu o longo artigo "Lula, presidente inoxidável", em que dois cientistas políticos relatam seu pragmatismo e "a luta contra a pobreza" nos oito anos que o tornaram "personagem mítico". Avisam que a "favorita" Dilma Rousseff é diferente. O "Financial Times", na mesma linha, cobriu o comício de Porto Alegre sob o título "Lula se mostra espetáculo difícil de substituir no palco político". Já o "Independent" saudou "A ex-guerrilheira prestes a se tornar a mulher mais poderosa do mundo".


No editorial "Brasil deslumbra a finança global", o "Financial Times" saúda como a Petrobras "levantou US$ 67 bilhões", equivalentes à produção anual de "países de bom tamanho" -e como "tudo se deu em São Paulo, como exultou o presidente Lula".

Mais que "um grande negócio, é um marco da crescente presença financeira internacional do Brasil", diz o jornal, avisando que "a globalização das finanças brasileiras será cada mais sentida nos centros internacionais", a começar da City londrina. Mas esta não "precisa entrar em pânico". Com a abertura do escritório do BNDES, "os brasileiros estão chegando".

E a "Fortune" lançou sua edição indiana dando, como segundo destaque, "A longa sombra do Brasil". No subtítulo, pergunta: "A obsessão da Índia com a China fechou os olhos para a ascensão do Brasil?".

O "Investment Week" postou longa entrevista com um diretor do fundo Allianz Global Investors, que passa a priorizar o Brasil. Ele diz querer "participar do grande potencial de crescimento da economia brasileira e seu mercado de ações" -e acreditar que o país "está finalmente libertando o potencial que sempre teve". Ressalta sua "animada classe média, sustentada pela alta nos empregos". E em mais uma de muitas reportagens o "FT" noticiou ontem o "Fervor latino" de fusões e aquisições, "particularmente no Brasil".

Já o "Wall Street Journal" publicou que, "sem querer chover no desfile do Brasil, a história deveria deixar os brasileiros um pouco nervosos". Lembra que a maior oferta de ações antes da Petrobras foi da japonesa NTT em 1987, "quando a ascensão do Japão à primazia econômica global era considerada inevitável".

Por outro lado, o "FT Adviser" postou que, em avaliações à Associação de Empresas de Investimento (AIC), gerentes de fundos de instituições como JP Morgan e BlackRock "dizem que Brasil não é uma bolha".

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Amanhã, o Valor publica entrevista que fiz com Martin Wolf, um dos mais influentes analistas econômicos do mundo. Conversei com ele no último domingo, por telefone, sobre a situação econômica dos países ricos, China, Estados Unidos e, claro, falamos muito do Brasil.

A atenção que o Brasil está ganhando da mídia internacional foi um dos temas da conversa.

O nível do babaquismo

Um pouco de história e depois uma lição sobre o babaquismo dos nossos dias.

O dia 09 de julho é feriado aqui em São Paulo graças a data que foram assassinados Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo (M.M.D.C.) durante a repressão do governo Vargas aos manifestantes paulistas que clamavam uma Constituição. Era a Revolução Constitucionalista, um dos feriados mais ridículos do mundo -- porque os paulistas, chateadinhos com o fim do pacto do café com leite, fizeram uma série de revoltas por algo que eles não conseguiram.

Claro que muitos dirão que a Constituição de 1934 só veio em 34 porque houve pressão antes, dos paulistas, em 32. É verdade. A pressão acelerou o processo. Mas fato mesmo, só temos um: houve uma "revolução" em 32 pela Constituição, que não veio em 32, nem em 33, mas em 1934.

Vitoriosos? Acho que não.

Pois escrevi, no último dia 09 de julho, um post cá no Blog lembrando dessa beleza de feriado inútil. Quase três meses depois recebi um comentário no post me atacando. Como sempre quando as pessoas na internet querem atacar alguém, elas corajosamente não assinam.

Vejam só o nível do comentário, anônimo, como convêm aos corajosos, que recebi ontem:

vc é uma piada!!!!! Não foi fracassada, como voce mesmo disse, uma nova constituição veio. Esse não era o objetivo???? E não foi uma revolta da elite, teve grande participação popular, procure se informar mais antes de postar besteiras nesse blog de quinta categoria. Deve ser mais um carioca invejoso por não ser o estado mais rico, com o povo mais educado!!!! Pesquise antes de postar mentiras. São Paulo se fosse um país não teria que sustentar esse brasil e seria MUITO MELHOR.

Primeiro que posso até ser uma piada, mas não sou carioca. Sou paulista. Nasci e moro em São Paulo. Parte da família é carioca, outra é mineira e outra espanhola. Torço para um time do Rio -- o Botafogo, ilustrado pela camiseta que uso na foto do perfil aqui do Blog. Logo, o comentarista perspicaz e corajoso, tascou que estou com ciúmes de São Paulo por ser carioca e atacou com a velha cantilena de que "se São Paulo fosse um país seria muito melhor que o Brasil..."

Seria mesmo. São Paulo tem ótimas escolas, seus alunos tem as maiores notas nas provas nacionais, não há crime organizado, todos moram em condições razoáveis, os hospitais são incríveis e será um sucesso na Copa do Mundo.

E eu aqui falando das revoltas de 1932. Deveria ser mais inteligente e assinar um blog anônimo que defende coisas inteligentes.

Este causo serve como exemplo do babaquismo que assistimos na internet brasileira desde 2007-08, que se intensificou no ano passado. Os Estados Unidos passaram também por esse babaquismo entre 2002-03, se intenficando em 2004 e depois diminuindo. Tenho a impressão que esse processo também vai diminuir no Brasil, a partir de 2011 e 2012, conforme a elite -- e não a ascendente classe C, que têm mais o que fazer no computador -- vai aprendendo a usar a internet.

Vejam só: quem publicou o comentário é paulista e pertencente aquela velha escola de babaquismo paulista, que se considera melhor que a maior parte dos brasileiros. Estes, de posse de um computador que ele ostenta como se fosse a joia que as paulistas de elite ostentavam nas festas que o baronato do café promovia no atual bairro da Bela Vista na década de 1910, faz pesquisas no Google para lembrar o "auge" de São Paulo. Foi lá, tascou "feriado 1932 paulista" para aprender sobre algo que ele não sabe, mas gosta de dizer que sabe e, no segundo resultado, achou este Blog.

Leu, não gostou de ser chamado de "paulistas chateadinhos com a derrota" e fez o comentário que fez.

Corajoso que só ele, este belo paulista de elite, resolveu não assinar.

A regra do babaquismo, minha gente, é essa: na hora de elogiar confunde com puxa-saco e passa nome, telefone e e-mail. Na hora de xingar, fica no anonimato.

O otimista aqui, há quatro anos na blogosfera e já tendo estudado um pouco como o funcionamento dos movimentos de mídia e nova mídia nos Estados Unidos do início desta década, acredita que em dois anos, no máximo, isso passa.

domingo, 26 de setembro de 2010

Domingo

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considero a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas...
... O tempo é minha matéria, o tempo presente,
os homens presentes, a vida presente.


Carlos Drummond de Andrade, poeta e escritor brasileiro.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Fim de expediente

Hoje é aniversário do blogueiro, então o expediente fecha mais cedo no Blog. Não estou sozinho neste 24 de setembro.

Em 1896, Francis Scott Fritzgerald, autor de livraços como O Grande Gatsby e Contos da Era do Jazz, nasceu no mesmo dia. Seis anos depois nascia Ruhollah Khomeini, que em 1979 lideraria a Revolução Islâmica no Irã. Quando eram pequenos, viviam num mundo que se recuperava a passos largos da primeira grande crise econômica mundial: a sexta-feira negra de 1869, quando dois especuladores, James Fisk e Jay Gould, fizeram o Tesouro americano sair vendendo ouro, derrubando os mercados financeiros.

Pouco antes da mais grave crise econômica, de 1929, nascia em 24 de setembro de 1923 o grande trompetista Fats Navarro. No início dos anos 1950, quando uma pequena parte dos Villaverde deixava a Espanha para chegar no Rio de Janeiro, o espanhol Pedro Almodóvar nascia.

Pensando em termos brasileiros, foi nesse dia, em 1834, que Pedro 1º morria, em Portugal.

Hoje o blogueiro avança e completa 23 anos. Mas, é claro, continua sendo o caçula da redação (e provavelmente da blogosfera também...).

Para quem começou no jornalismo com 17 o caminho não é tão curto assim, não?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Dez dias para as eleições

Seguinte, meus amigos: enquanto não me organizo para escrever sobre a reportagem do Raimundo Pereira na revista piauí, para fazer um mapeamento do que está em jogo nas eleições que ocorrerão em 10 dias para o Amálgama, e no meio disso tudo continuar trabalhando que nem um louco, deixo uma dica:

Não deixem de ler este artigo do Bruno Lima Rocha, cientista político que assina colunas no blog do Ricardo Noblat.

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E por falar na piauí, do grande botafoguense João Moreira Salles, os caras tem um dos blogs mais engraçados da internet: o The Piauí Herald.

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Uma grande amiga emprestou uma joia: Arthur Moreira Lima, grande pianista, e Abel Ferreira, no sax e no clarinete, junto ao Época de Ouro, num disco ao vivo com o melhor do choro brasileiro. Foi grava no teatro do Hotel Nacional, no Rio, em outubro de 1978.

Difícil é devolver um negócio desses :-)

terça-feira, 21 de setembro de 2010

O debate político do passado

Na televisão, cerca de quarenta anos atrás, debatiam Roberto Campos e Carlos Lacerda. Campos, de tão "adesista" aos Estados Unidos no campo econômico, era chamado de Bob Fields. Lacerda, também era ortodoxo, mas no campo político -- era o líder máximo da UDN, a oposição à direita de Getúlio Vargas.

Falavam sobre o futuro da economia e estavam assentados em algo que era bem característico na política e na economia brasileira do passado -- o planejamento estrutural.

Em determinado momento, Campos projeta que o crescimento da avicultura seria tão vistoso que as galinhas, nesse futuro distante (coisa de 40 ou 50 anos à frente), seriam capazes de colocar algo como 1 milhão 438 mil 627 ovos.

No que Lacerda rebate: "e você já combinou isso com os galos?"

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A anedota quem me contou foi Delfim Netto, tempos atrás.

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Não vou entrar nos méritos de Campos e Lacerda, mas algo que perdemos, há muito, é a ideia de planejarmos nosso crescimento. Que tipo de desenvolvimento vamos ter, como planejar, o que focar, o que destruir, o que construir, o que será importante no futuro, enfim. Todo esse processo foi perdido -- embora, o otimista aqui veja, aqui e ali, feixes de que uma visão estratégica esteja voltando.

Temos projetos à frente: a construção e reforma de 12 estádios para a realização da Copa de Confederações (2013) e do Mundo (2014). Na mesma época, começa a surgir o petróleo da camada do pré-sal. Pouco depois, em 2016, serão realizados os Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro (2016). Pode parecer bobagem, mas esses eventos têm que e vão acontecer. Isso, por si só, coloca no radar das três esferas de governo uma série de objetivos.

Está aí a grande saída para aproveitarmos a enorme janela de oportunidades que se abriu diante do país após a crise de 2008: definirmos prioridades, planejarmos nosso crescimento e sacarmos o potencial que temos no mercado doméstico.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Sobre o Twitter

"O Twitter é o meio de expressão ideal para quem não tem o que dizer"

Eduardo Bueno, jornalista e historiador.

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Genial.

domingo, 19 de setembro de 2010

Domingo

Arrependo-me de tudo, de não ter sido um outro, de não seguir os caminhos batidos e esperar que eu tivesse sucesso, onde todos fracassaram. Tenho orgulho de me ter esforçado muito para realizar o meu ideal; mas me aborrece não ter sabido concomitantemente arranjar dinheiro ou posições rendosas que me fizessem respeitar. Sonhei Spinoza, mas não tive força para realizar a vida dele; sonhei Dostoiésvski, mas me faltou a sua névoa.


Lima Barreto, um dos cinco maiores escritores brasileiros de todos os tempos, em relato íntimo, inacabado, de sua última obra: Diário do Hospício.

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Dicas

Sexta-feira praticamente se foi e o leitor e a leitora cá do Blog já estão tomando um chope, mas para o alucinado aqui ainda é tempo de sugerir o que de melhor li na blogosfera nos últimos dias. Vamos lá.

A Veja e o PT
O Celso de Barros, do NPTO, escreveu os dois melhores textos que já li sobre a relação que a revista Veja tem com o PT. Ele começou de um ponto bem importante: ele leu a revista. Se não tiverem tempo para ler os dois, meus caros, leiam ao menos este. Fenomenal.

A militância na internet
O Idelber Avelar, que toca O Biscoito Fino e a Massa, escreveu dois primorosos textos sobre a militância política na internet. No primeiro, Idelber explica o caráter mais militante que o Biscoito tomou desde que ele retomou o blog. No segundo, admite cansaço com o nível de loucura que a internet tomou nos últimos dias.

Cara, vou dizer que assino embaixo. O nível do debate político em muitos fóruns -- da mídia tradicional à blogosfera, passando pelo Twitter -- está muito, muito, aquém do imaginava com meus botões mais ranzinzas. Claro que há muita coisa boa, não estou generalizando. Mas isso é uma conversa que eu quero ter, por meio de post, depois. Aguardem.

O nível do debate
Falamos, até aqui, de assuntos muito próximos. Então, para arrebatar a questão, não deixem de ler a análise que a Flávia Cera fez sobre a questão do "espião de Dilma".

Privatizações
É ótimo que o surrado tema das privatizações não tenha entrado no "debate" eleitoral (tá, eu sei, não há debate algum, mas vocês entenderam o que eu quis dizer). Mas fiquemos conversados com o seguinte: caso alguém venha com esse tema, saque este texto do Sergio Leo para argumentar.

Recordar é viver
O blogueiro, como vocês sabem, é aspirante de historiador. Acha que se todos conhecessem nossa (e de muitos outros) história recente, entenderia o por quê de muita coisa. Está muito vago? Pois leiam o que o Paulo da Luz Moreira escreveu do Filinto Müller.

Intolerância
Os franceses estão deixando os israelenses com a pulga atrás da orelha. Está ficando cada vez mais difícil para os israelenses se isolarem como uma sociedade intolerante no século XXI se os franceses continuarem arruinando os ciganos. Vejam o que o Hugo Albuquerque escreveu sobre o assunto.

É isso
Podem voltar ao boteco, o blogueiro já terminou. O post fica aberto, no entanto, porque posso ter deixado passar muita coisa boa que li nos últimos dias. Se lembrar -- e a rotina permitir -- volto aqui.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Crise mundial, 2 anos depois -- O século XX acabou em 2008

Hoje, a explosão da crise mundial completa 2 anos. Foi nos dias 15 e 16 de setembro de 2008 que o mundo parou com a falência consecutiva do Lehman Brothers e da AIG, o quarto maior banco de investimento do mundo e a maior seguradora financeira dos Estados Unidos, respectivamente.

A partir dali, o mundo entrou num turbilhão inacreditável de quebradeira bancária, de fundos de investimentos, bolsas e mesmo empresas. No Brasil, a Bovespa precisou ser fechada cinco vezes para evitar quedas monstruosas nos preços das ações.

Assim que explodiu a crise, escrevi cá no Blog um pequeno texto, com sugestivo título de "Lá vamos nós". Estava claro que a recessão que viria não seria curta.

A implosão do sistema financeiro americano foi, dia após dia, se alastrando pelos países. Migrou dos EUA para os europeus mais fracos, destes foi para os europeus mais fortes e, finalmente, se atracou no Japão. A velocidade foi tamanha que, em 14 de outubro, já era possível perceber que a enorme socialização de dívidas que estava ocorrendo.

No fim de outubro, juntei todas as peças soltas para montar um quebra-cabeça da crise. A percepção era de os Estados estavam gordos, depois de terem engolido sistemas inteiros para evitarem um cataclisma tal qual o de 1929-1933, e que muito havia por ser feito, ainda.

O jogo foi passando do mercado financeiro para a economia real, destruindo grandes empresas no caminho. A questão mais estrutural que a crise de 2008 colocou foi o fim da hegemonia americana. É aqui que o blogueiro se coloca no debate sociológico: o século XX não acabou em em 1991, como defende Eric Hobsbawn.. Também não acabou em 2001, como defendem muitos, depois dos ataques às torres gêmeas. O século XX foi marcado pela hegemonia americana em todos os campos (político, econômico, cultural, nas artes, na guerra, nas ideias) e acabou em 2008, quando o modelo americano de sociedade faliu.

Mas discordo de Giovanni Arrighi, que, embora não falava isso de "o século XX acabou em 2008", acreditava que os americanos deixariam o trono da hegemonia global para os chineses. Acho que não, como, inclusive, já defendi aqui no Blog. O mundo pós-2008 ainda está para ser escrito e, se pudesse apostar meus dois centavos, diria que caminhamos para um jogo de liderança compartilhada, tendo China à frente, mas não como líder incondicional.

No auge da crise, sempre defendi -- e continuarei defendendo entusiasticamente -- que não havia outra coisa a ser feita, naquele momento. Era preciso sim estatizar e, em seguida, partir para programas amplos de gastos públicos, contratação de funcionários, aumento do endividamento.

Infelizmente, os países ricos ficaram apenas no primeiro passo. Não é à toa que, 24 meses depois do início da crise, o futuro que se vislumbra para os países ricos está mais para novo mergulho recessivo que para estabilidade econômica.

Uma pena.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Interlúdio



Rubens Mano, "Básculas", 2000, Galeria Casa Triângulo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Trabalhadores (quase) em greve

Mais de 100 mil metalúrgicos já tiveram seus salários reajustados em 9% neste ano, sendo que um terço deles ainda embolsou um abono de R$ 2,2 mil. A percepção geral entre os líderes sindicais da categoria, no entanto, é de que uma greve geral deve ocorrer a partir desta quinta-feira. O motivo: 132,5 mil metalúrgicos ainda estão em negociações com as empresas e indicativos de greves já foram estabelecidos em três diferentes regiões do país. Os mais de 70 mil petroleiros também estão se mobilizando para realizar uma greve, caso a Petrobras não aceite o reajuste de 15% pedido pela Federação Unida dos Petroleiros (FUP). Além de metalúrgicos e petroleiros, cerca de 450 mil bancários iniciam hoje suas negociações salariais com os bancos, reivindicando reajuste salarial de 11% e uma Participação nos Lucros e Resultados (PLR) maior.

Os metalúrgicos e petroleiros aguardam uma resposta das empresas até amanhã para, então, definirem os rumos das reivindicações — ontem, os sindicatos dos metalúrgicos do ABC, de Taubaté, e a FUP entregaram às companhias indicativos de greve. Segundo este dispositivo, previsto pela Constituição, os sindicatos de trabalhadores “avisam” as empresas com 48 horas de antecedência de que há disposição para entrar em greve. “Infelizmente, o quadro é de que haverá uma greve geral. Não é, absolutamente, o que queremos. Nosso objetivo é alcançar o acordo por meio de negociação”, diz Sergio Nobre, presidente do sindicato dos metalúrgicos do ABC.

***

Este é o início da minha reportagem de hoje no Valor. Não costumo publicá-las cá no Blog, como os leitores bem sabem, mas deixei este trecho inicial para aqueles que curtem sindicalismo terem uma ideia do que está rolando nas principais categorias: metalúrgicos, petroleiros e bancários. O resto da matéria está lá no site do jornal.

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Repensando a segurança pública

Todas as pesquisas de opinião realizadas com os paulistas dão o mesmo resultado. Quando perguntados sobre qual é o principal problema a ser resolvido, os paulistas não pensam primeiro em saúde, educação, trânsito ou o que for: a maioria aponta a segurança pública.

Estamos falando do Estado de São Paulo, o mais rico da nação, e o lugar onde as elites adoram apontar o dedo para os cariocas quando o assunto é segurança, e dizer que aqui não tem Comando Vermelho, tráfico de drogas dividindo parede, bala perdida. São Paulo é muito melhor, realmente, né? Tem só o PCC, o tráfico de drogas na periferia e o maior número de assalto a mão armada do Brasil.

Trata-se, é claro, de uma lástima da urbanização desenfreada por qual passou São Paulo desde o finzinho dos anos 40, processo esse muito bem estudado por uma série de sociólogos -- um deles, o Florestan Fernandes, fez um belo trabalho sobre a urbanização paulista, num trabalho de 1959, que integrou livro organizado pelo Cebrap, se não estou enganado. Resumindo, foi o seguinte: a industrialização induzida pelo Estado e acelerada pela chegada de multinacionais acaba por formar grandes pólos industriais, que sugam a mão de obra expulsa do campo para morar e trabalhar nas metrópoles. Isso acontece com todos os subdesenvolvidos e, no Brasil, fica mais concentrado em São Paulo.

O problema desta São Paulo de 2010 está lá em 1940, quando a cidade deixou de ser o ponto de encontro do baronato e dos modernistas que tinha sido entre 1900 e 1935 e passou a ser o centro da locomotiva industrial que passa a impulsionar o Brasil. A visão de São Paulo, hoje, impressiona: um Estado enorme, com 42 milhões de habitantes, com uma capital onde estão concentradas quase 20 milhões de pessoas -- metade do Estado está toda esprimida na capital --, gente que que se divide nas fábricas, no comércio, correndo como prestadores de serviços e madames cheias de sacolas e bolsas a caminhar pelas calçadas arborizadas da zona sul-oeste.

Os graves problemas de segurança pública de SP não são alarmantes apenas porque falamos da maior cidade do país, mas também porque proporcionalmente a coisa aqui está preta.

A maior parte dos paulistas considera a situação da segurança pública calamitosa. Não é à toa que todo canal de televisão aberta tem pelo menos um programa, nos fins de tarde, dedicado ao tema da segurança, com apresentadores patéticos que ficam berrando contra "bandidos", apoiando-se em helicópteros e reportagens sensacionalistas que beiram a atrocidade do boçal preconizada pelos pessimistas de Frankfurt que estudaram mídia.

O tema está presente por todo o Estado, toda família tem ao menos um sujeito com uma história para contar de assalto ou de medo. Agora precisamos entender a situação.

Claro que a discussão sobre violência urbana é muito mais complexa do que o blogueiro é capaz de fazer neste post, mas passa por três macro-temas: 1) igualdade de oportunidades; 2) polícia ativa e inclusiva, não só violenta; e 3) justiça rápida.

A ordem é exatamente essa e não é muito mais complexa que isso, na realidade. Se resolvermos a enorme desigualdade salarial e de escolas públicas, por exemplo, ao menos 80% dos crimes, leves ou pesados, serão extintos. Acreditem.

Em seguida, precisamos de um sistema opressor, representado pelo aparato policial, que combine a utilização de força -- para os casos em que não é possível resolver a violência por meio de inclusão e educação -- com a pacificação. A combinação tem de ser desigual, dando maios incentivo ao policial diferenciado, que entende a disparidade de renda e as dificuldades daquele que pratica atos ilegais.

Mas por policial diferenciado, entenda um sujeito que tenha tido uma vida decente até ingressar na profissão e que tenha, quando em exercício, companheiros igualmente preparados, um plano de carreira e um salário que seja compatível com seu esforço.

Os paulistas reclamam da segurança pública, mas não sabem que o efetivo policial do Estado é o menor e o que menos ganha, proporcionalmente falando, do Brasil.

O equivalente a 31% das cidades do Estado de São Paulo não têm delegados. De 1995 para cá, enquanto a população paulista cresceu 21%, o efetivo policial manteve o mesmo tamanho. São apenas 31 mil delegados para 42 milhões de habitantes de São Paulo. Aliás, segundo a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), os salários dos delegados -- e também de seus subordinados -- são os mais baixos do país.

E não só isso: todo o (minguante) efetivo policial paulista recebe um vale-refeição de R$ 6,00. Isso mesmo, seis reais por dia. Agora me digam: como é que alguém, seja lá quem for, consegue almoçar com seis reais por dia? Vá em qualquer região mais distante dos polos mais caros da capital e entre num restaurante de prato feito. Se apenas comer -- e não pedir uma água, um suco ou um refrigerante -- você vai pagar, ao menos, uns seis ou sete reais por um prato de bife, arroz e feijão.

Fácil enfrentar PCC e outros crimes mais desse jeito, né?

Algo que precisa ser solucionado, antes de mais nada, são os problemas na ordem que são percebidos. Os paulistas apontam segurança pública como o pior deles. Então, qualquer governante sério de São Paulo deve, primeiro, olhar para a questão da segurança para depois sair dizendo à dona Maria que o preço do pãozinho vai parar de subir.

É simples até.

domingo, 12 de setembro de 2010

Domingo

A navegação entrega o homem à incerteza da sorte; nela, cada um é confiado ao seu próprio destino; todo embarque é, potencialmente, o último. É para outro mundo que parte o louco em sua barca louca; é do outro mundo que ele chega quando desembarca.


Michel Foucault, filósofo francês.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Saudades do tempo...

... em que os jornais, mesmo os mais escandalosos, ainda vinham com manchetes que incutiam nos leitores um debate mais profundo que "fulano diz isso", "sicrano rebate com aquilo".




"A arma do voto está com o povo" é a manchete do Última Hora que aparece na imagem acima, tirada nas ruas do Rio de Janeiro em 07 de outubro de 1962. Tratava das eleições legislativas que ocorreriam dali alguns dias, quando o parlamento seria renovado. Pouco depois, em janeiro de 1963, ocorreria o plebiscito que decidiria pelo retorno ao presidencialismo -- medida que fortaleceria o então presidente João Goulart, que, no entanto, seria deposto por golpe militar em 1º de abril de 1964.

Não, a imprensa não era melhor antes que agora. Absolutamente.

Mas é que andei passeando pelas belas imagens do arquivo do Última Hora e bateu aquela saudade dos tempos que não vivi. E o noticiário político atual, viciado em todo tipo de escândalo, também não ajuda.
***
Sou só eu ou os penteados das cariocas dos anos 50 e 60 era uma coisa linda só?

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

O genial Mario Prata

Larguem o que estão fazendo aí, agora, e vão ler essa entrevista que o Diário de Natal fez com Mario Prata.

Não vou falar nada aqui. Mario Prata diz tudo. O cara é gênio.

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Atualização das 20:28

Aproveitando que o post está para indicar leituras geniais, vejam só o que o Sergio Leo escreveu sobre a privatização da telefonia no Brasil. Foi na mosca.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O escândalo dos sigilos quebrados

Vocês, caros leitores, podem até não estar acompanhando de perto o escândalo dos sigilos fiscais de tucanos graúdos (dois vice-presidentes do partido e a filha do candidato à Presidência do partido), mas sabem que não se fala de outra coisa mais nesse país.

Belo Monte? Esqueçam. As dificuldades para implementar a Copa do Mundo no Brasil? Os programas e ideias de cada candidato? A economia está superaquecendo? O que fazer com os chineses que continuam tomando espaço cada vez maior de nosso mercado? Os Estados Unidos voltaram a recessão?

Nada mais é discutido. A quebra dos sigilos fiscais é o assunto único.

Então, o blogueiro aqui, que preferiria um milhão de vezes debater os assuntos que levantei de cabeça logo acima -- e, acreditem, tenho opiniões sobre todos eles -- também entrou no debate sobre a quebra dos sigilos.

Está lá, na minha coluna de estreia no Amálgama.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

No Amálgama

Seguinte, meus caros: o blogueiro passa a assinar uma coluna no Amálgama, o coletivo criado pelo Daniel Lopes em julho de 2008. O convite do Daniel, aceito por este que vos escreve, veio na semana passada -- e ele, mesmo sendo flamenguista, foi rápido no gatilho. No Amálgama, passarei a figurar como colunista fixo de Atualidade, tratando preferencialmente de política brasileira. Como colunista, estarei ao lado dos bambas que por lá figuram.

Como trabalho nunca é demais, a coluna do Amálgama entra na conta. Quer dizer, continuo fazendo todas as coisas que venho fazendo até aqui -- escrevendo diariamente no Valor e postando quase todo dia uma análise cá no Blog. Ou seja, apenas adiciono na minha carga de trabalho maluca mais um espaço para azucrinar os leitores.

A coluna do Amálgama -- que terá caráter mensal ou quinzenal, dependendo da minha correria -- será exclusiva. Assim, quando publicar meu post por lá, faço uma chamada aqui no Blog, convidando os leitores daqui a darem seus pitacos por lá. De resto, o jogo continua o mesmo aqui, com os posts sobre tudo e seções fixas (Interlúdio, Fim de Expediente e Domingo).

Então, para começar, todos convidados para meu perfil lá no Amálgama, clicando aqui.

Amanhã, logo cedo, minha coluna de estreia no Amálgama. Fiquem ligados: trata do imbróglio por trás das quebras de sigilos fiscais.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

E os bancos públicos?

Lembram-se que quando explodiu a crise mundial, em setembro-outubro de 2008, a primeira consequência foi o corte do crédito bancário? Logo de partida, os Estados mundo afora passaram a tentar, de todas as formas, estimular os bancos a emprestarem, para manter a economia rodando. Mas poucos conseguiram -- basta ver a lama que os americanos estão até agora.

Logo de partida, os bancos públicos brasileiros já partiram com tudo, para aproveitar o espaço deixado vago pelos bancos privados -- nacionais e estrangeiros -- que botaram a mão no freio. À frente dos públicos estavam os dois maiores: Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF).

Agora vocês também devem se lembrar do chororô que foi entre uma parcela dos economistas e da mídia, dizendo que aquilo ia trazer problemas aos bancos públicos? Diziam que, ao saírem cortando juros e emprestando a torto e a direito, logo estariam tendo problemas com inadimplência e, no médio prazo, com a própria solvência.

Pois bem.

Lucro dos bancos federais cresce 72% no segundo trimestre, conforme análise dos balanços divulgados por cinco bancos públicos. O BB obteve lucro 26,5% maior no primeiro semestre e a CEF um resultado 44% superior, também no primeiro semestre, em relação a igual período do ano passado.

Portanto, meus amigos, quando voltarem a ler, ouvir ou ver alguém defender algo como a privatização do Banco do Brasil ou de qualquer banco público, lembrem-se da importância que essas instituições têm num momento de crise, quando nenhum banco privado -- legitimamente, diga-se -- topa emprestar dinheiro às empresas e famílias.

E se por algum acaso lerem algo como isso aqui, por favor, não pensem duas vezes: é lixo.

domingo, 5 de setembro de 2010

Domingo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior... glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto...


Olavo Bilac, poeta brasileiro.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Sobre a quebra do sigilo

Sobre a quebra do sigilo fiscal de Verônica Serra, filha do candidato do PSDB à Presidência, José Serra, temos os seguintes fatos:

O sigilo foi quebrado em setembro de 2009 e vazado um ano depois, em setembro de 2010.

Quem quebrou? Não está claro. Por quê? Não está claro. Por quê o sigilo demorou 365 dias para ser vazado? Ninguém sabe. Quem vazou? Ninguém sabe.

De um lado, os fatos -- poucos, como vimos. Do outro, as dúvidas -- muitas, como vimos. No meio disso, uma centena de versões, explicações e justificativas.

O PT não é santo, basta lembrar o lamentável episódio dos aloprados, de 2006. O PSDB tampouco, uma vez que o caso Lunus, em 2002, foi todo feito ali.

Enfim, cá estamos nós, discutindo politicalha da pior espécie, sem nenhuma informação concreta sobre nada, simplesmente com dois fatos -- 1) o sigilo quebrado em 2009 e 2) vazado em 2010 -- e muita especulação.

E vamos que vamos.

Atualização de sexta-feira, às 15:56

O Renato Rovai, da revista Fórum, juntou uma série de peças e nomes desse enorme quebra-cabeças. Tudo, ainda, no terreno da especulação. Mas o Rovai montou um jogo interessante, vejam só.

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Atualização de domingo, à 01:03

Por Paulodaluzmoreira:

A história brasileira é repleta de exemplos tristes desse tipo de manobra usada em momentos cruciais:
1. Na república velha produziram-se cartas [falsas] em que Arthur Bernardes demonstrava desprezo por figuras importanets das forças armadas, dando combustível para as revoltas tenentistas de 22.
2. O suposto complô comunista chamado de "Plano Cohen", saído da máquina de escrever de um militar integralista funesto serviu de desculpa para o golpe do Estado Novo.
3. A carta falsa de um deputado Peronista sobre uma tal "República Sindicalista" foi usada por um certo jornalista agourento que visava tachar de golpista e anti-democrático aquele que seria afinal derrubado pelo Golpe de 64 com apoio de quase toda a imprensa em "defesa da democracia".
4. O "caso Lurian" na campanha de 1989.
Em comum em todos esses casos: todos esses "documentos" foram, depois que serviram seus propósitos políticos, desmascarados como farsas grotescas.

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Em seu comentário, o Paulodaluzmoreira faz referência ao movimento tenentista de 1922, o Plano Cohen de 1937 -- que deu à Vargas a justificativa para bancar o Estado Novo, a partir de novembro daquele ano --, Carlos Lacerda e a campanha Collor, em 1989.

A conclusão do Paulo é certeira.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Um causo político

Essa quem me contou foi o ex-ministro Luiz Carlos Bresser-Pereira, que foi ministro da Fazenda do governo Sarney, de Gestão Pública no primeiro governo FHC e de Ciência e Tecnologia no FHC II.

Conversávamos, na segunda à noite, depois da sessão inaugural do 7º Fórum de Economia da FGV, que é coordenado anualmente pelo Bresser e onde o blogueiro participava como jornalista, cobrindo as discussões. O papo estava centrado na ideia de que caminhávamos, como país, para uma modernidade política -- um conceito muito propalado pelo Collor, mas que só agora estamos começando a, de fato, vislumbrar.

"Mas algumas coisas não mudam", dizia ele. Bresser contou de um caso recorrente durante sua estada no Ministério da Fazenda de Sarney, entre 1987 e o início de 88. Um governador de Estado ia sempre a seu gabinete pedir dinheiro para tocar alguma ideia.

Não havia dinheiro algum no Estado, falido que estava então, ainda que existisse ainda a famigerada conta movimento do Banco do Brasil. "Mas ao invés de dizer não, eu simplesmente desconversava, e começava a falar sobre política partidária, sobre a situação regional, federal". E o governador embarcava na conversa, pertencente a uma geração de políticos que respirava política no dia a dia. "Conversavamos e ele logo esquecia o que tinha ido fazer na Fazenda".

E assim se fazia política federativa no Brasil dos anos 1980.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Interlúdio



Di Cavalcanti, "A Mulher com chapéu", 1940.
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