O debate rolava solto, hoje à tarde, na mesa de fechamento do 7º Fórum de Economia da FGV. O ex-ministro Delfim Netto falava sobre o efeito China, que cresce há 30 anos com taxas de 10-15% ao ano. Delfim, então, fez duas projeções: uma assumindo que a China crescerá 9% ao ano até 2040 e o resto do mundo tendo leve queda anual de 0,4%. Outra com China crescendo os mesmos 9%, mas com o resto do mundo com fortes 4,5% até 2040.
Em determinado momento, Delfim para e diz: "E se as coisas continuassem do mesmo jeito que estão até lá?" Neste caso, ele mesmo responde: "Se as coisas ficarem iguais, o mundo será o mesmo".
Por fora, Delfim dava uma estocada em economistas e jornalistas que sempre fazem essa perguntinha sorrateira: "e se as coisas continuassem do mesmo jeito?".
Ficariam como estão, ué.
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
terça-feira, 31 de agosto de 2010
Lula e a política social da década de 2000
“No futuro, as pessoas não olharão Lula como o novo Getúlio Vargas. Mas entenderão Vargas como o Lula do passado. O presidente encarna a principal mudança porque passou o Brasil nos últimos anos, ele é a nova classe média. Lula é o Nelson Mandela tupiniquim”. A análise é de Marcelo Neri, economista da Fundação Getulio Vargas do Rio de Janeiro (FGV-RJ) e um dos maiores especialistas em política social do país. “Na última década, a desigualdade de renda caiu como nunca em nossa história. O equivalente a 31,9 milhões de pessoas ascenderam à classe C, ingressando no mercado consumidor, ampliando a capacidade de nossa economia crescer”, avalia Neri, para quem, no entanto, o futuro do país está nas classes A e B. “Quando terminarmos o processo de transferir pessoas das classes D e E para a C, passaremos a transferi-las da C para cima, o que gerará maior pressão sobre os ricos”.
A percepção de Neri não é isolada.
Durante seminário realizado ontem pela FGV em São Paulo, economistas e cientistas políticos configuraram o atual momento da economia brasileira como “privilegiado”. Para o cientista político André Singer, as condições econômicas e sociais estão próximas do período do New Deal, nos Estados Unidos, quando o governo americano, por meio de gastos em programas de amparo social e em obras de infraestrutura, impulsionou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) após o crash de 1929. “Para ir além”, disse Singer, “é indispensável manter a elevação do salário mínimo”.
O processo virtuoso, conforme avaliação dos participantes do debate, está assentado em “pontos chave”, como denominou Neri. Segundo números do economistas, a renda oriunda do trabalho respondeu por 67% da redução na desigualdade, a frente dos 17% oriundos de programas de transferência direta de renda, como Bolsa Família, e dos 15,7% provenientes da Previdência. “O tripé é este”, diz Singer, “quer dizer, aumento do emprego, seguido de gastos com pobreza extrema e aposentadorias”.
Este quadro, no entanto, não prescinde de problemas. “Do ponto de vista do crescimento acelerado combinado com redução da desigualdade, o jogo como está colocado hoje é preocupante”, avalia Mariano Laplane, economista da Unicamp. “Ficamos por quase 30 anos completamente a margem do desenvolvimento. O mundo moveu seu eixo tecnológico e industrial para os países asiáticos, ao longo dos anos 1970, e nós ficamos parados, assistindo isso tudo”, afirma.
A lógica de Laplane, compartilhada por outros economistas da FGV, é de que o ritmo acelerado do PIB – que neste ano, segundo estimativas do governo, deve passar por ampliação de 7%, a maior em 24 anos – não se sustentará, uma vez que o parque industrial brasileiro é pouco desenvolvido tecnologicamente quando comparado com outros países, como a China. “Os ganhos de produtividade que nossa indústria fez após a abertura comercial, em 1990, são claramente incapazes de fazer frente aos competidores externos”, avalia Laplane, para quem a ampliação do mercado de trabalho passa, principalmente, por maior oferta de empregos no setor industrial.
“Nos próximos dez anos, nosso crescimento será focado no mercado interno. Se não quisermos que a renda que estamos dividindo vaze para o exterior, por meio do consumo de importados, é preciso atenção maior com a indústria”, raciocina Paulo Gala, economista da FGV-SP.
A pressão por mudanças, no entanto, ocorrerá de forma difusa, avaliam Neri e Singer. Para este, a nova classe média é “parcialmente conservadora”, uma vez que quer continuar ascendendo socialmente, mas deseja que isso ocorra dentro da ordem, sem radicalizações. “Seja para fortalecer o processo de redução da pobreza, seja para efetuar mudanças do lado econômico, como alterar o câmbio e reduzir os juros, o Estado têm diante de si um novo proletariado, que está no setor de serviços, como os operadores de telemarketing”, diz Singer.
Para Neri, a nova classe média “não precisa tanto do Estado quanto os mais pobres”, assim, passa a ser natural que o Estado “foque mais em políticas sociais aos mais necessitados, deixando a classe ascendente com margem para desenvolvimento próprio”.
***
O post acima, é, na realidade, a reportagem que assinei no Valor de hoje. Não costumo trazer minhas matérias cá para o Blog -- na realidade, acho que fiz isso uma ou outra vez só, em 3 anos. Mas o tema já estava pingando na blogosfera, então achei oportuno trazer aqui.
Hoje, como ontem, passarei o dia no salão nobre da FGV, acompanhando os debates e conversando com os convidados.
A percepção de Neri não é isolada.
Durante seminário realizado ontem pela FGV em São Paulo, economistas e cientistas políticos configuraram o atual momento da economia brasileira como “privilegiado”. Para o cientista político André Singer, as condições econômicas e sociais estão próximas do período do New Deal, nos Estados Unidos, quando o governo americano, por meio de gastos em programas de amparo social e em obras de infraestrutura, impulsionou o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) após o crash de 1929. “Para ir além”, disse Singer, “é indispensável manter a elevação do salário mínimo”.
O processo virtuoso, conforme avaliação dos participantes do debate, está assentado em “pontos chave”, como denominou Neri. Segundo números do economistas, a renda oriunda do trabalho respondeu por 67% da redução na desigualdade, a frente dos 17% oriundos de programas de transferência direta de renda, como Bolsa Família, e dos 15,7% provenientes da Previdência. “O tripé é este”, diz Singer, “quer dizer, aumento do emprego, seguido de gastos com pobreza extrema e aposentadorias”.
Este quadro, no entanto, não prescinde de problemas. “Do ponto de vista do crescimento acelerado combinado com redução da desigualdade, o jogo como está colocado hoje é preocupante”, avalia Mariano Laplane, economista da Unicamp. “Ficamos por quase 30 anos completamente a margem do desenvolvimento. O mundo moveu seu eixo tecnológico e industrial para os países asiáticos, ao longo dos anos 1970, e nós ficamos parados, assistindo isso tudo”, afirma.
A lógica de Laplane, compartilhada por outros economistas da FGV, é de que o ritmo acelerado do PIB – que neste ano, segundo estimativas do governo, deve passar por ampliação de 7%, a maior em 24 anos – não se sustentará, uma vez que o parque industrial brasileiro é pouco desenvolvido tecnologicamente quando comparado com outros países, como a China. “Os ganhos de produtividade que nossa indústria fez após a abertura comercial, em 1990, são claramente incapazes de fazer frente aos competidores externos”, avalia Laplane, para quem a ampliação do mercado de trabalho passa, principalmente, por maior oferta de empregos no setor industrial.
“Nos próximos dez anos, nosso crescimento será focado no mercado interno. Se não quisermos que a renda que estamos dividindo vaze para o exterior, por meio do consumo de importados, é preciso atenção maior com a indústria”, raciocina Paulo Gala, economista da FGV-SP.
A pressão por mudanças, no entanto, ocorrerá de forma difusa, avaliam Neri e Singer. Para este, a nova classe média é “parcialmente conservadora”, uma vez que quer continuar ascendendo socialmente, mas deseja que isso ocorra dentro da ordem, sem radicalizações. “Seja para fortalecer o processo de redução da pobreza, seja para efetuar mudanças do lado econômico, como alterar o câmbio e reduzir os juros, o Estado têm diante de si um novo proletariado, que está no setor de serviços, como os operadores de telemarketing”, diz Singer.
Para Neri, a nova classe média “não precisa tanto do Estado quanto os mais pobres”, assim, passa a ser natural que o Estado “foque mais em políticas sociais aos mais necessitados, deixando a classe ascendente com margem para desenvolvimento próprio”.
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O post acima, é, na realidade, a reportagem que assinei no Valor de hoje. Não costumo trazer minhas matérias cá para o Blog -- na realidade, acho que fiz isso uma ou outra vez só, em 3 anos. Mas o tema já estava pingando na blogosfera, então achei oportuno trazer aqui.
Hoje, como ontem, passarei o dia no salão nobre da FGV, acompanhando os debates e conversando com os convidados.
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domingo, 29 de agosto de 2010
Domingo
Ai, a lua que no céu surgiu
Não é a mesma que te viu
Nascer nos braços meus
Cai a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra: adeus
Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima, um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Ai, mulher, estrela a refulgir
Parte, mas antes de partir rasga o meu coração
Crava as garras no meu peito em dor
E esvai em sangue todo o amor
Toda desilusão
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
Vinícius de Moraes, poeta e compositor brasileiro.
Não é a mesma que te viu
Nascer nos braços meus
Cai a noite sobre o nosso amor
E agora só restou do amor
Uma palavra: adeus
Ai, vontade de ficar mas tendo de ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima, um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Ai, mulher, estrela a refulgir
Parte, mas antes de partir rasga o meu coração
Crava as garras no meu peito em dor
E esvai em sangue todo o amor
Toda desilusão
Ai, vontade de ficar mas tendo que ir embora
Ai, que amar é se ir morrendo pela vida afora
É refletir na lágrima um momento breve
De uma estrela pura cuja luz morreu
Cuja luz morreu
Numa noite escura
Triste como eu
Vinícius de Moraes, poeta e compositor brasileiro.
sexta-feira, 27 de agosto de 2010
O cinema de Goiás
Os grandes Rodrigo Cássio e Pedro Novaes promovem a partir de segunda-feira a Mostra Cinema Feito em Goiás, no campus da Universidade Federal de Goiás (UFG). Serão oito dias de filmes e dois debates com realizadores e estudiosos do cinema brasileiro e goiano.

Só por se tratar do Rodrigo e do Pedro posso garantir que o nível vai ser alto. Os caras são feras.
Além de importante por fomentar a realização e a discussão de cinema regional, a Mostra dá um primeiro passo importante, porque coloca um elefante na sala da agenda pública: mais de 90% dos municípios brasileiros não têm salas de cinema, anfiteatros ou auditórios. Agora que estamos crescendo forte, com alta nos salários e queda do desemprego, avançando para uma década de ouro para a economia brasileira, com a atenção mundial toda depositada em nós, é preciso entender que a cultura é central para se pensar e se fazer um país.
Qualquer país sério preza por sua cultura. E cultura não se faz sem apoio, sem discussão e, principalmente, sem locais de exibição e discussão. Essa foi minha maior motivação ao escrever Versão Brasileira, no ano passado.
O Blog apoia a Mostra Cinema Feito em Goiás e incentiva atividades semelhantes.
Abaixo, a programação:

Debatendo os tucanos
O Celso de Barros, que já tinha iniciado o debate sobre o que pode acontecer com o PSDB no pós-2010, indicou, muito gentilmente, a análise que fiz aqui no Blog. O Idelber Avelar, do Biscoito, também entrou na discussão, com uma sacada ótima: muito do que depois justificaria as atitudes de Fernando Henrique Cardoso a partir de 1992 já estava colocado em 1975, pelo próprio FHC.
Antes um pouco, até, o Alexandre Nodari, do ótimo Consenso, Só no Paredão!, falava sobre Jorge Bornhausen, essa figura super carismática do DEM, o ex-PFL, que fez uma travessia curiosa: tinha programa na fase em que o PSDB não era além de um amontoado de intelectuais debatendo ideias -- ali por 1988 a 1992, 93 -- e, a partir do governo FHC, em 1995, foi, paulatinamente, deixando de ter cara, culminando com o ridículo processo de 2002 e 2010: rompeu com o PSDB, em 2002, e depois voltou chorando aos braços dos tucanos. Agora, nem sequer debateu candidatura própria à Presidência.
Para finalizar, o Hugo Albuquerque também entrou na discussão, por meio de uma análise lá n'O Descurvo.
Então, para arredondar o debate, convido os leitores a ler as visões do Idelber, do Celso, do Alex e do Hugo.
Fica registrada também a saudação aos comentaristas que aqui vieram.
Atualização de segunda-feira, 00:57
O grande Raphael Neves, do Politika etc., também escreveu sobre o assunto, citando cá o Blog e o NPTO. Para ler o que escreveu o Raphael, clique aqui. O Raphael já começou tascando uma simbólica imagem, que retrata os três nomes fortes do PSDB na década 2000-2010: Aécio Neves, que aparece gesticulando como quem quer conversar, FHC fazendo cara de quem berra por espaço e José Serra, no meio dos dois, em silêncio, sem olhar nem para um nem para o outro.
Na Folha de ontem, domingo, o Vinícius Torres Freire, colunista do caderno Dinheiro, entrou no debate sobre o futuro do PSDB. Segundo Vinícius, o fracasso do PSDB, liderando a oposição formada também por DEM e PPS, "se deve a elitismo e ao descolamento da realidade social e regional".
Antes um pouco, até, o Alexandre Nodari, do ótimo Consenso, Só no Paredão!, falava sobre Jorge Bornhausen, essa figura super carismática do DEM, o ex-PFL, que fez uma travessia curiosa: tinha programa na fase em que o PSDB não era além de um amontoado de intelectuais debatendo ideias -- ali por 1988 a 1992, 93 -- e, a partir do governo FHC, em 1995, foi, paulatinamente, deixando de ter cara, culminando com o ridículo processo de 2002 e 2010: rompeu com o PSDB, em 2002, e depois voltou chorando aos braços dos tucanos. Agora, nem sequer debateu candidatura própria à Presidência.
Para finalizar, o Hugo Albuquerque também entrou na discussão, por meio de uma análise lá n'O Descurvo.
Então, para arredondar o debate, convido os leitores a ler as visões do Idelber, do Celso, do Alex e do Hugo.
Fica registrada também a saudação aos comentaristas que aqui vieram.
Atualização de segunda-feira, 00:57
O grande Raphael Neves, do Politika etc., também escreveu sobre o assunto, citando cá o Blog e o NPTO. Para ler o que escreveu o Raphael, clique aqui. O Raphael já começou tascando uma simbólica imagem, que retrata os três nomes fortes do PSDB na década 2000-2010: Aécio Neves, que aparece gesticulando como quem quer conversar, FHC fazendo cara de quem berra por espaço e José Serra, no meio dos dois, em silêncio, sem olhar nem para um nem para o outro.
Na Folha de ontem, domingo, o Vinícius Torres Freire, colunista do caderno Dinheiro, entrou no debate sobre o futuro do PSDB. Segundo Vinícius, o fracasso do PSDB, liderando a oposição formada também por DEM e PPS, "se deve a elitismo e ao descolamento da realidade social e regional".
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Sobre o futuro do PSDB
Com a correria, acabo lendo os blogs que acompanho (links do lado direito aqui do Blog) durante a noite, e, eventualmente, ao longo do dia, de maneira picotada. Demorei, portanto, para ver o belo texto que o Celso de Barros escreveu sobre os três principais partidos de oposição no organograma político brasileiro: PSDB, PPS e DEM.
Já escrevi um tanto sobre o DEM, então não vou me repetir. Ainda estou para falar do PPS, mas, pelo jeito que anda a rotina, vou acabar fazendo isso só depois das eleições.
Vamos então falar do PSDB -- até porque, é a parte em que o Celso me citou no texto dele.
O PSDB quase acabou mesmo no início dos anos 1990. Fundado no finzinho de 1988 de uma desavença com Orestes Quércia (PMDB), o PSDB unia uma bela nata de políticos e técnicos: Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Mário Covas, José Serra. Tinha massa crítica, mas não tinha qualquer apelo popular. Mesmo assim, lançaram Covas à Presidência em 1989 -- candidatura que, de relevante mesmo, teve apenas o fato de superar Ulysses Guimarães (PMDB), que era dos homens mais poderosos do Brasil de então.
A partir do governo Collor, o PSDB estava num beco bem perigoso. Não era governo, como era o grupelho de Collor e a turma do PFL. Também não era visto como oposição ao governo, como era o PT e boa parte do PMDB, o maior partido do país. Ficava no meio e, pior que tudo, não tinha base popular -- e pouco apelo midiático, por mais que seus quadros fossem bem vistos.
Até que uma tacada foi dada. Tão logo a revista Veja deu partida no processo de decapitação do presidente Collor em maio de 1992, com a entrevista de seu irmão, Pedro, às páginas amarelas, o então senador Fernando Henrique Cardoso tomou à frente nas articulações com ministros -- da área externa e econômica, principalmente -- e aparecendo na mídia como o sujeito que era igualmente crítico de Collor e capaz de de articular uma queda sem destruir a República.
Não estou dizendo que FHC era isso tudo e nem que não era, mas como ele passou a atuar e, principalmente, a ser percebido pelos formadores de opinião -- isso é crucial para entender o salto que leva o PSDB a ser o que ele (ainda) é hoje.
Em 14 de setembro de 1992, Fernando Henrique dá uma entrevista ao Estadão que serve de divisor de águas para ele, e consequentemente para o PSDB, que a partir daí passa a se misturar a sua figura. Quem fala que o PT se sujeitou a Lula não percebe que o mesmo ocorre com o PSDB. Qual é o grande nome do PSDB, a cara do PSDB? Sergio Guerra? Arthur Virgílio? Yeda Crusius? Não, é FHC.
Naquele entrevista, FHC defende a queda do presidente, mas a sua maneira, sóbria, tentando passar tranquilidade. Mais que isso: FHC é o primeiro a desvincular Collor das medidas tomadas por ele, Collor, desde 1990. Quer dizer, o que FHC faz naquele período é mostrar que a abertura da economia, do comércio exterior, da conta de capitais e, a partir de 1991, da utilização da Selic para manejo de preços, além das privatizações e mesmo extinção de estatais (como ocorreu com Funarte e Embrafilme, por exemplo), não dependiam de Collor.
FHC se colocava como um cara capaz de levar aquele projeto adiante, mas sem as estripulias de Collor.
Eis que, instituído Itamar, FHC surge -- e se coloca -- como condutor natural da economia, por mais que fosse sociólogo. O meio campo que cria com o grupo de economistas por trás do "Larida" de 1983 (André Lara Resende e Persio Arida), sua relação com Edmar Bacha e Gustavo Franco, da PUC-Rio, e outros, que lhe são apresentados por eles, como Winston Fristch e Chico Lopes, dá a FHC o papel de condutor. Escolhido ministro da Fazenda, no começo de 1993, coloca o grupo para funcionar e, ali, começa a ser traçado o Real, tendo a ideia do "Larida" por trás, isto é, a criação de uma moeda índice, não monetária, que seria desindexada de tudo -- o que seria, depois, a URV.
Com o Real e a queda repentina da inflação -- que sai dos 2.553% de 1993 para algo como 40% em 1994 e 5% em 1995 -- FHC é o cara que fica para a eleição de 1994 como alternativa. Principalmente porque o PT tinha a inteligentíssima tática de criticar o Real. Não deu outra: FHC levou no primeiro turno (algo, aliás, que só deve ser repetido agora em 2010, pela Dilma Rousseff, que, como FHC em 1994, aproveita e muito os erros da oposição -- isso é uma história que eu vou contar depois).
O problema do PSDB e de FHC surge exatamente ali: eleição ganha, câmbio em torno de R$ 0,90 por dólar, inflação controlada, mas juros altíssimos, e balança comercial degringolando -- e também um mercado interno voando e classe média viajando para Miami e Paris pela CVC -- mas e o que fazer para governar? Havia um projeto, que era continuar aquele de 1990: privatizar as estatais, diminuir o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e manter a inflação sob controle. Pode-se discordar desse projeto, como discordo, mas era esse.
O problema foi equalizar isso. Ao invés de exercer o diálogo que existia até então no partido, que, pela ausência de holofotes e falta de poder ficava só na ambição, e unir a ala mais PUC-Rio de Bacha, Franco e Fristch, com outra mais heterodoxa, dos irmãos Mendonça de Barros, outra mais fiscalista, com Serra, e outra com visão sofisticada de gestão pública, como Bresser e Nakano e a turma mineira, que começava a dar as caras, FHC concentrou tudo na PUC-Rio.
De um lado, o Estado fazia de tudo para se livrar das estatais -- inclusive lançando mão de empréstimos do BNDES, mas isso é outra história -- e, do outro, engordava a dívida pública com juros altíssimos. Foi preciso o choque de janeiro de 1999 para alterar a composição de forças sensivelmente, introduzindo o regime que Lula permaneceu intocado: metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante. Isso começou em 1999 e não mudou desde então. Mudou?
O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC.
Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.
Aliás, o dia que conseguir sair um pouco da pauleira e realizar um balanço dos oito anos Lula, já deixo registrado aqui que nosso maior avanço foi de mentalidade: o país passou a olhar para dentro, a dar mais atenção ao brasileiro e a nossos problemas. Erros foram feitos, é claro -- cansei de chamar a atenção para muitos deles aqui no Blog, desde 2006. Mas isso é conversa para depois.
Finalmente, para terminar o diálogo com a bela análise do Celso -- que é, como já disse aqui, o melhor analista de política na blogosfera -- a saída para o PSDB está em abrir um diálogo franco entre suas diferentes vertentes. O partido não tem base popular, nunca teve e dificilmente terá, não adianta chororô. Resta aos caras pegarem os restos dessa eleição de 2010 -- que deveria, como foi 1994 para o PT, funcionar como "fechar para balanço" -- e permitir a interação entre os gerentes de Minas (certamente mais antenados com a cabeça PUC-Rio), os fiscalistas de São Paulo (que instituíram a substituição tributária em SP para ampliar a arrecadação do governo) e os desenvolvimentistas da FGV, onde estão Bresser, Nakano e companhia. Um funcionaria como freio do outro.
Os fiscalistas e os desenvolvimentistas convergem quanto a importância do Estado grande, mas divergem no passo seguinte: os fiscalistas preferem tocar as coisas com calma, no que se assemelham com os gestores de MG, enquanto os desenvolvimentistas já lançam mão do Estado indutor -- e aí entrariam os gestores, para tocar a coisa da melhor maneira.
Enfim, se quiser continuar existindo, o PSDB precisa de mais diálogo e menos centralismo.
***
Aviso aos trolls de sempre: os alucinados na blogosfera logo vão achar que o texto é escrito por um tucano, simplesmente porque analisa o PSDB e sugere alternativas. Sejamos mais sofisticados intelectualmente que isso. O blogueiro já foi chamado de petista, de tucano, de comunista, de elitista, de tudo. Não sou nem nunca fui filiado a partido algum. Tenho concordâncias e discordâncias com todos eles, é isso, ok, rapaziada?
A única coisa que o blogueiro é, sem sombra de dúvida, é botafoguense.
Já escrevi um tanto sobre o DEM, então não vou me repetir. Ainda estou para falar do PPS, mas, pelo jeito que anda a rotina, vou acabar fazendo isso só depois das eleições.
Vamos então falar do PSDB -- até porque, é a parte em que o Celso me citou no texto dele.
O PSDB quase acabou mesmo no início dos anos 1990. Fundado no finzinho de 1988 de uma desavença com Orestes Quércia (PMDB), o PSDB unia uma bela nata de políticos e técnicos: Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro, Mário Covas, José Serra. Tinha massa crítica, mas não tinha qualquer apelo popular. Mesmo assim, lançaram Covas à Presidência em 1989 -- candidatura que, de relevante mesmo, teve apenas o fato de superar Ulysses Guimarães (PMDB), que era dos homens mais poderosos do Brasil de então.
A partir do governo Collor, o PSDB estava num beco bem perigoso. Não era governo, como era o grupelho de Collor e a turma do PFL. Também não era visto como oposição ao governo, como era o PT e boa parte do PMDB, o maior partido do país. Ficava no meio e, pior que tudo, não tinha base popular -- e pouco apelo midiático, por mais que seus quadros fossem bem vistos.
Até que uma tacada foi dada. Tão logo a revista Veja deu partida no processo de decapitação do presidente Collor em maio de 1992, com a entrevista de seu irmão, Pedro, às páginas amarelas, o então senador Fernando Henrique Cardoso tomou à frente nas articulações com ministros -- da área externa e econômica, principalmente -- e aparecendo na mídia como o sujeito que era igualmente crítico de Collor e capaz de de articular uma queda sem destruir a República.
Não estou dizendo que FHC era isso tudo e nem que não era, mas como ele passou a atuar e, principalmente, a ser percebido pelos formadores de opinião -- isso é crucial para entender o salto que leva o PSDB a ser o que ele (ainda) é hoje.
Em 14 de setembro de 1992, Fernando Henrique dá uma entrevista ao Estadão que serve de divisor de águas para ele, e consequentemente para o PSDB, que a partir daí passa a se misturar a sua figura. Quem fala que o PT se sujeitou a Lula não percebe que o mesmo ocorre com o PSDB. Qual é o grande nome do PSDB, a cara do PSDB? Sergio Guerra? Arthur Virgílio? Yeda Crusius? Não, é FHC.
Naquele entrevista, FHC defende a queda do presidente, mas a sua maneira, sóbria, tentando passar tranquilidade. Mais que isso: FHC é o primeiro a desvincular Collor das medidas tomadas por ele, Collor, desde 1990. Quer dizer, o que FHC faz naquele período é mostrar que a abertura da economia, do comércio exterior, da conta de capitais e, a partir de 1991, da utilização da Selic para manejo de preços, além das privatizações e mesmo extinção de estatais (como ocorreu com Funarte e Embrafilme, por exemplo), não dependiam de Collor.
FHC se colocava como um cara capaz de levar aquele projeto adiante, mas sem as estripulias de Collor.
Eis que, instituído Itamar, FHC surge -- e se coloca -- como condutor natural da economia, por mais que fosse sociólogo. O meio campo que cria com o grupo de economistas por trás do "Larida" de 1983 (André Lara Resende e Persio Arida), sua relação com Edmar Bacha e Gustavo Franco, da PUC-Rio, e outros, que lhe são apresentados por eles, como Winston Fristch e Chico Lopes, dá a FHC o papel de condutor. Escolhido ministro da Fazenda, no começo de 1993, coloca o grupo para funcionar e, ali, começa a ser traçado o Real, tendo a ideia do "Larida" por trás, isto é, a criação de uma moeda índice, não monetária, que seria desindexada de tudo -- o que seria, depois, a URV.
Com o Real e a queda repentina da inflação -- que sai dos 2.553% de 1993 para algo como 40% em 1994 e 5% em 1995 -- FHC é o cara que fica para a eleição de 1994 como alternativa. Principalmente porque o PT tinha a inteligentíssima tática de criticar o Real. Não deu outra: FHC levou no primeiro turno (algo, aliás, que só deve ser repetido agora em 2010, pela Dilma Rousseff, que, como FHC em 1994, aproveita e muito os erros da oposição -- isso é uma história que eu vou contar depois).
O problema do PSDB e de FHC surge exatamente ali: eleição ganha, câmbio em torno de R$ 0,90 por dólar, inflação controlada, mas juros altíssimos, e balança comercial degringolando -- e também um mercado interno voando e classe média viajando para Miami e Paris pela CVC -- mas e o que fazer para governar? Havia um projeto, que era continuar aquele de 1990: privatizar as estatais, diminuir o papel do Estado como indutor do desenvolvimento e manter a inflação sob controle. Pode-se discordar desse projeto, como discordo, mas era esse.
O problema foi equalizar isso. Ao invés de exercer o diálogo que existia até então no partido, que, pela ausência de holofotes e falta de poder ficava só na ambição, e unir a ala mais PUC-Rio de Bacha, Franco e Fristch, com outra mais heterodoxa, dos irmãos Mendonça de Barros, outra mais fiscalista, com Serra, e outra com visão sofisticada de gestão pública, como Bresser e Nakano e a turma mineira, que começava a dar as caras, FHC concentrou tudo na PUC-Rio.
De um lado, o Estado fazia de tudo para se livrar das estatais -- inclusive lançando mão de empréstimos do BNDES, mas isso é outra história -- e, do outro, engordava a dívida pública com juros altíssimos. Foi preciso o choque de janeiro de 1999 para alterar a composição de forças sensivelmente, introduzindo o regime que Lula permaneceu intocado: metas de inflação, responsabilidade fiscal e câmbio flutuante. Isso começou em 1999 e não mudou desde então. Mudou?
O balanço do governo FHC, feito com maestria por outros muito mais preparados que este blogueiro que vos fala, pende terrivelmente mais para o lado financeiro da coisa. Os números positivos que vemos hoje de desemprego baixíssimo, salários em alta e transferências de renda para redução da terrível desigualdade social que (ainda) temos, não vêm de FHC.
Se o PSDB sacou o que era preciso no país em 1994, ele perdeu o bonde nos oito anos seguintes. Teve uma bela oportunidade para mudar as coisas, quando as coisas explodiram em 1999, mas as reformas que vieram foram todas conservadoras, que não alteraram radicalmente os fatores, apenas um pequeno tapa no leme do navio, que manteve o mesmo ritmo. Deu uma arejada no excessivo controle exercido pelos puquianos cariocas, mas a ideia era a mesma.
Aliás, o dia que conseguir sair um pouco da pauleira e realizar um balanço dos oito anos Lula, já deixo registrado aqui que nosso maior avanço foi de mentalidade: o país passou a olhar para dentro, a dar mais atenção ao brasileiro e a nossos problemas. Erros foram feitos, é claro -- cansei de chamar a atenção para muitos deles aqui no Blog, desde 2006. Mas isso é conversa para depois.
Finalmente, para terminar o diálogo com a bela análise do Celso -- que é, como já disse aqui, o melhor analista de política na blogosfera -- a saída para o PSDB está em abrir um diálogo franco entre suas diferentes vertentes. O partido não tem base popular, nunca teve e dificilmente terá, não adianta chororô. Resta aos caras pegarem os restos dessa eleição de 2010 -- que deveria, como foi 1994 para o PT, funcionar como "fechar para balanço" -- e permitir a interação entre os gerentes de Minas (certamente mais antenados com a cabeça PUC-Rio), os fiscalistas de São Paulo (que instituíram a substituição tributária em SP para ampliar a arrecadação do governo) e os desenvolvimentistas da FGV, onde estão Bresser, Nakano e companhia. Um funcionaria como freio do outro.
Os fiscalistas e os desenvolvimentistas convergem quanto a importância do Estado grande, mas divergem no passo seguinte: os fiscalistas preferem tocar as coisas com calma, no que se assemelham com os gestores de MG, enquanto os desenvolvimentistas já lançam mão do Estado indutor -- e aí entrariam os gestores, para tocar a coisa da melhor maneira.
Enfim, se quiser continuar existindo, o PSDB precisa de mais diálogo e menos centralismo.
***
Aviso aos trolls de sempre: os alucinados na blogosfera logo vão achar que o texto é escrito por um tucano, simplesmente porque analisa o PSDB e sugere alternativas. Sejamos mais sofisticados intelectualmente que isso. O blogueiro já foi chamado de petista, de tucano, de comunista, de elitista, de tudo. Não sou nem nunca fui filiado a partido algum. Tenho concordâncias e discordâncias com todos eles, é isso, ok, rapaziada?
A única coisa que o blogueiro é, sem sombra de dúvida, é botafoguense.
Uma pensata
Um aspecto deprimente da política americana é a forma suscetível do establishment político e midiático com charlatões. Você pode ter pensado que, com a experiência acumulada, os bem informados em Washington estariam com um pé atrás contra conservadores com planos grandiosos. Mas não: é só alguém da direita clamar que têm ideias corajosas sobre novos aspectos que o sujeito é elevado como um pensador criativo. E ninguém checa sua aritmética.
De Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia no ano passado e colunista do The New York Times, em uma coluna recente.
A avaliação de Krugman, meus caros, fica como pensata por aqui.
De Paul Krugman, prêmio Nobel de Economia no ano passado e colunista do The New York Times, em uma coluna recente.
A avaliação de Krugman, meus caros, fica como pensata por aqui.
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Política
terça-feira, 24 de agosto de 2010
Que belo Ramadã
Os brasileiros têm o carnaval, a festa de Garantido e Caprichoso, o frevo. Nossas festas populares mais populares, e outras tantas, umas com cunho mais religioso, outras apenas embaladas pela farra popular mesmo. Todos os países e povos tem as suas.
A cultura muçulmana tem o Ramadã, que dura um mês e embala corações e mentes de todos.
Vejam agora que belo Ramadã essas pessoas estão tendo. Aviso: estou sendo irônico. É simplesmente trágico que isso ocorra, ano após ano, e ninguém faça nada.
A cultura muçulmana tem o Ramadã, que dura um mês e embala corações e mentes de todos.
Vejam agora que belo Ramadã essas pessoas estão tendo. Aviso: estou sendo irônico. É simplesmente trágico que isso ocorra, ano após ano, e ninguém faça nada.
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Palestina Ocupada
segunda-feira, 23 de agosto de 2010
A questão iraniana
O Irã tem um problema. Nenhum país sério apedreja mulheres. Nenhum. Assim como nenhum país sério prende e mata opositores. Falo não de um Irã, mas de dois. O primeiro, que apedreja mulheres, é o Irã pós-Revolução Islâmica de 1979. O segundo, que prende e mata opositores, é o Irã do xá, entre 1953 e 1979.
Qual é melhor?
Não vou defender um ou outro, mas, certamente, o primeiro, pós-1979, tem muito mais legitimidade que o segundo. Por quê? Porque o regime do xá Reza Palehvi foi instaurado em 1953 por meio de invasão norte-americana, que derrubou o primeiro-ministro eleito pelos iranianos, Mohammed Mossadegh, para colocar um boneco, um regime financiado e mantido pelos Estados Unidos, que matava opositores.
Eis, então, que a rapaziada mais preocupada em rezar do que ficar discutindo política começa a perceber que o país está desandando. Começam, então, a promover debates religiosos e políticos em mesquistas, o lugar perfeito para tanto, uma vez que a milícia do xá não entrava lá. As primeiras agitações surgem em 1977. A partir daí, iranianos de todo o tipo começam a entrar de cabeça no islamismo, antes renegado pelo xá e pelos Estados Unidos, e os grupos oposicionistas começam a engrossar.
Tudo isso desemboca na Revolução Iraniana de 1979, a maior das revoluções islâmicas do século XX. Depõe o xá e instauram um novo regime, tendo um líder religioso supremo -- o aiatollah Khomeini, que liderara os revolucionários -- e um democracia participativa, com presidente eleito pelo povo.
O regime, no entanto, vai se fechando. Na realidade, vai alternando momentos de mão pesada, altamente fundamentalista, com outros mais calmos.
Hoje, com o segundo aiatollah, Khamenei, e um presidente francamente mais radical que os dois últimos, que é Mahmoud Ahmadinejad, o Irã experimenta seu momento de maior aperto político -- não à toa, as primeiras manifestações anti-governo surgiram no ano passado (tal qual em 1977, podem ser um prenúncio de algo).
Qualquer analista sério deve prezar pelo fortalecimento dos oposicionistas, se deseja alterar o jogo político da antiga Pérsia.
Mas já começam a ganhar corpo vozes, nos Estados Unidos e em Israel, que defendem um ataque militar ao Irã como forma de derrubar o regime e acabar com o programa de enriquecimento de urânio. São países que contam com o mais poderoso arsenal bélico do mundo criticando o Irã por querer ter algo parecido.
Se um ataque ocorrer, podem escrever, será a guerra mais ignorante dos homens em 70 anos.
***
Por Luis Henrique:
Os falcões de Washington só estão esperando o momento certo para atacar.
Meu comentário:
Se dependesse dos falcões, Luis, os Estados Unidos já teriam invadido o Irã lá trás, quando Ahmadinejad levou as eleições de 2005. Os democratas, de modo geral, fazem um contrapeso a muito republicano tresloucado. Mas o equilíbrio de forças é interessante nos EUA. A maior parte é pró-ataque, mas uma parte dessa maioria sabe que seria uma ideia pouco inteligente aos olhos do mundo, então espera -- e articula -- por um bode expiatório.
***
Por Raphael Tsavkko:
O regime do xá era ilegítimo, a Revolução foi legítima, mas desvirtuada logo no início com o assassinato de todos os comunistas e socialistas que apoiaram o movimento. Fala-se muito em apedrejamento, mas o Irã não é o único país a usá-lo. O maior aliado dos EUA na região, depois de Israel, a Arábia Saudita, também pratica este crime em termos de "justiça". Mas ninguém fala nada, afinal, são "amigos".
Meu comentário:
Exatamente. O regime da Arábia Saudita é, de longe, o mais bárbaro do Oriente Médio. Mas é o menos falado, o menos discutido, que ninguém parece conhecer -- simplesmente porque a Arábia Saudita é "aliada" dos Estados Unidos. Aliás, os sauditas são grandes investidores de empresas americanas. O Irã, que depôs o boneco americano (o xá) em 1979, é inimigo de Estado.
***
Por Manuca:
João, acho que, neste post, você deixou passar um detalhe importante e que, para mim, está por trás de toda essa cruzada contra o Irã, contra os muçulmanos e ciganos (na França): a total intolerância dos ocidentais com qualquer cultura que possua valores diferentes à nossa. E não estou fazendo apedrejamento e nem nada do tipo, mas discutindo o porquê de não haver oposição à pena de morte nos EUA, por exemplo, com vítimas inocentes inclusive. Trata-se de um "país sério", aos olhos do Ocidente.
Por Caio Cezar:
Bem lembrado o que o Tsavkko disse: o Tio Sam é capaz de forjar qualquer pretexto para iniciar um ataque, como fez com o Iraque em 2003.
***
O jogo é exatamente esse. Havia um claro problema no Iraque de Saddam Hussein, um dos países com regimes mais bárbaros do mundo. Os Estados Unidos, então, partindo de uma premissa forjada -- como, anos depois, o próprio governo americano admitiu -- mas com ampla aceitação popular, já que o regime de Saddam era mesmo grotesco, e atacou o Iraque.
O mesmo pode ser feito com o Irã, embora, já aviso, não acredito que se repetirá. Mas as condições estão colocadas: um país com regime medieval -- apedrejar mulheres é indefensável -- pode ser atacado, tendo como subterfúgio o desenvolvimento de programa nuclear.
E tudo ficará como já tinha dito um milhão de vezes aqui no Blog: um carnaval de hipócritas. Um país que permite pena de morte, como bem lembrou o Manuca, e incentiva o uso de armas, o país com maior consumo de drogas pesadas do mundo, que financia os regimes narcotraficante de países que eles tanto criticam, como México e Colômbia (suas cobaias na América Latina), criticando o Irã -- que, como lembrou o Tsavkko, não é, nem de longe, dono do regime mais bárbaro da região, mas a Arábia Saudita, que, no entanto, é "aliada" econômica dos EUA -- por desenvolverem urânio enriquecido, algo que, como todos sabem, os americanos já fazem há décadas.
Viva a hipocrisia mundial.
Qual é melhor?
Não vou defender um ou outro, mas, certamente, o primeiro, pós-1979, tem muito mais legitimidade que o segundo. Por quê? Porque o regime do xá Reza Palehvi foi instaurado em 1953 por meio de invasão norte-americana, que derrubou o primeiro-ministro eleito pelos iranianos, Mohammed Mossadegh, para colocar um boneco, um regime financiado e mantido pelos Estados Unidos, que matava opositores.
Eis, então, que a rapaziada mais preocupada em rezar do que ficar discutindo política começa a perceber que o país está desandando. Começam, então, a promover debates religiosos e políticos em mesquistas, o lugar perfeito para tanto, uma vez que a milícia do xá não entrava lá. As primeiras agitações surgem em 1977. A partir daí, iranianos de todo o tipo começam a entrar de cabeça no islamismo, antes renegado pelo xá e pelos Estados Unidos, e os grupos oposicionistas começam a engrossar.
Tudo isso desemboca na Revolução Iraniana de 1979, a maior das revoluções islâmicas do século XX. Depõe o xá e instauram um novo regime, tendo um líder religioso supremo -- o aiatollah Khomeini, que liderara os revolucionários -- e um democracia participativa, com presidente eleito pelo povo.
O regime, no entanto, vai se fechando. Na realidade, vai alternando momentos de mão pesada, altamente fundamentalista, com outros mais calmos.
Hoje, com o segundo aiatollah, Khamenei, e um presidente francamente mais radical que os dois últimos, que é Mahmoud Ahmadinejad, o Irã experimenta seu momento de maior aperto político -- não à toa, as primeiras manifestações anti-governo surgiram no ano passado (tal qual em 1977, podem ser um prenúncio de algo).
Qualquer analista sério deve prezar pelo fortalecimento dos oposicionistas, se deseja alterar o jogo político da antiga Pérsia.
Mas já começam a ganhar corpo vozes, nos Estados Unidos e em Israel, que defendem um ataque militar ao Irã como forma de derrubar o regime e acabar com o programa de enriquecimento de urânio. São países que contam com o mais poderoso arsenal bélico do mundo criticando o Irã por querer ter algo parecido.
Se um ataque ocorrer, podem escrever, será a guerra mais ignorante dos homens em 70 anos.
***
Por Luis Henrique:
Os falcões de Washington só estão esperando o momento certo para atacar.
Meu comentário:
Se dependesse dos falcões, Luis, os Estados Unidos já teriam invadido o Irã lá trás, quando Ahmadinejad levou as eleições de 2005. Os democratas, de modo geral, fazem um contrapeso a muito republicano tresloucado. Mas o equilíbrio de forças é interessante nos EUA. A maior parte é pró-ataque, mas uma parte dessa maioria sabe que seria uma ideia pouco inteligente aos olhos do mundo, então espera -- e articula -- por um bode expiatório.
***
Por Raphael Tsavkko:
O regime do xá era ilegítimo, a Revolução foi legítima, mas desvirtuada logo no início com o assassinato de todos os comunistas e socialistas que apoiaram o movimento. Fala-se muito em apedrejamento, mas o Irã não é o único país a usá-lo. O maior aliado dos EUA na região, depois de Israel, a Arábia Saudita, também pratica este crime em termos de "justiça". Mas ninguém fala nada, afinal, são "amigos".
Meu comentário:
Exatamente. O regime da Arábia Saudita é, de longe, o mais bárbaro do Oriente Médio. Mas é o menos falado, o menos discutido, que ninguém parece conhecer -- simplesmente porque a Arábia Saudita é "aliada" dos Estados Unidos. Aliás, os sauditas são grandes investidores de empresas americanas. O Irã, que depôs o boneco americano (o xá) em 1979, é inimigo de Estado.
***
Por Manuca:
João, acho que, neste post, você deixou passar um detalhe importante e que, para mim, está por trás de toda essa cruzada contra o Irã, contra os muçulmanos e ciganos (na França): a total intolerância dos ocidentais com qualquer cultura que possua valores diferentes à nossa. E não estou fazendo apedrejamento e nem nada do tipo, mas discutindo o porquê de não haver oposição à pena de morte nos EUA, por exemplo, com vítimas inocentes inclusive. Trata-se de um "país sério", aos olhos do Ocidente.
Por Caio Cezar:
Bem lembrado o que o Tsavkko disse: o Tio Sam é capaz de forjar qualquer pretexto para iniciar um ataque, como fez com o Iraque em 2003.
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O jogo é exatamente esse. Havia um claro problema no Iraque de Saddam Hussein, um dos países com regimes mais bárbaros do mundo. Os Estados Unidos, então, partindo de uma premissa forjada -- como, anos depois, o próprio governo americano admitiu -- mas com ampla aceitação popular, já que o regime de Saddam era mesmo grotesco, e atacou o Iraque.
O mesmo pode ser feito com o Irã, embora, já aviso, não acredito que se repetirá. Mas as condições estão colocadas: um país com regime medieval -- apedrejar mulheres é indefensável -- pode ser atacado, tendo como subterfúgio o desenvolvimento de programa nuclear.
E tudo ficará como já tinha dito um milhão de vezes aqui no Blog: um carnaval de hipócritas. Um país que permite pena de morte, como bem lembrou o Manuca, e incentiva o uso de armas, o país com maior consumo de drogas pesadas do mundo, que financia os regimes narcotraficante de países que eles tanto criticam, como México e Colômbia (suas cobaias na América Latina), criticando o Irã -- que, como lembrou o Tsavkko, não é, nem de longe, dono do regime mais bárbaro da região, mas a Arábia Saudita, que, no entanto, é "aliada" econômica dos EUA -- por desenvolverem urânio enriquecido, algo que, como todos sabem, os americanos já fazem há décadas.
Viva a hipocrisia mundial.
domingo, 22 de agosto de 2010
sexta-feira, 20 de agosto de 2010
O desrespeito continua
Manifestantes palestinos armados com, vejam só, perigosíssimas bandeiras de seu país, mochilas com casacos e panos para cobrirem os rostos receberam o tratamento padrão das tropas militares israelenses: bombas de gás.

A foto, Majdi Mohammed, da Associated Press, tirada hoje, mostra que a região continua na mesma, ainda que, agora, os incautos de sempre achem que uma reuniãozinha é uma boa notícia.
Um país que constrói um muro, para se separar do outro. Um país em que parte majoritária de seu parlamento é francamente racista. Um país que ataca militarmente seus vizinhos e diz que o ataque é uma "ação de auto-defesa". Um país que não mede armamento quando se trata de violentar o vizinho. Um país que extermina, sistematicamente, seus vizinhos. Um país que há 62 anos não consegue resolver suas questões regionais.
Nada será uma boa notícia enquanto a Palestina permanecer ocupada.

A foto, Majdi Mohammed, da Associated Press, tirada hoje, mostra que a região continua na mesma, ainda que, agora, os incautos de sempre achem que uma reuniãozinha é uma boa notícia.
Um país que constrói um muro, para se separar do outro. Um país em que parte majoritária de seu parlamento é francamente racista. Um país que ataca militarmente seus vizinhos e diz que o ataque é uma "ação de auto-defesa". Um país que não mede armamento quando se trata de violentar o vizinho. Um país que extermina, sistematicamente, seus vizinhos. Um país que há 62 anos não consegue resolver suas questões regionais.
Nada será uma boa notícia enquanto a Palestina permanecer ocupada.
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Palestina Ocupada
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
A situação da classe média americana
A Segunda Guerra Mundial acabou em agosto de 1945, com o duplo ataque atômico dos Estados Unidos ao Japão. Até o fim do ano e ao longo de 1946, o mundo estava de ressaca, depois do maior conflito bélico da história humana -- o mais caro, o mais sangrento, o mais destruidor.
A partir de 1947, o mundo entrou no período da Guerra Fria. De um lado, os americanos e os países ajudados por eles para se recuperarem -- como Europa e o próprio Japão -- além dos países que seriam financiados para serem amigos -- como os latino-americanos -- e do outro lado, os comunistas, tendo a União Soviética e, a partir de 1949, a China, à frente.
Dali até 1973, quando houve o primeiro choque do petróleo, o mundo capitalista viveu o que hoje é conhecido como os "30 anos gloriosos do capitalismo". Não foram trinta, é claro, mas também as coisas não mudaram da noite para o dia. Mudar, mesmo, só mudou a partir de 1979, quando Margaret Thatcher assumiu o governo britânico, Reagan ganhou força na oposição americana, Paul Volcker assumiu o Fed e começou a subir juros e arrasar os endividados latino-americanos, e o Irã promoveu sua Revolução Islâmica.
A partir dos anos 1980 entramos na fase conservadora, de grande consenso neoliberal (retomando o consenso liberal vigente entre 1873 e 1929) e de globalização. Com a decadência soviética e seu consequente esfacelamento em 1991, a queda do muro de Berlim em 1989 e a abertura ao capitalismo por parte da China, os Estados Unidos lideraram o mundo do conservadorismo. Especialmente a partir dos ataques de 11 de setembro de 2001, quando o mundo passou a ver a luta entre os bons (Bush e Tony Blair à frente) e o mal (os "terroristas" ilsâmicos). Enquanto isso, o mercado financeiro mandava bala na liberalização total de fluxos. Esse consenso, para uma série de analistas, ruiu com a crise de 2008. Cheguei a escrever ideias parecidas cá no Blog na época, mas é preciso um distanciamento maior para ter certeza da coisa.
Como podemos separar essas fases, pensando na riqueza da sociedade americana, país que liderou todo esse processo?
O economista Edward Wolff trouxe números interessantes na última edição da "Science & Society" sobre o rendimento com salários na classe média americana.
De 1947 a 1973, o salário por hora cresceu 75%, descontada a inflação. Já entre 1973 e 2007, último ano antes da explosão da crise mundial, os salários-hora caíram 4,4%. Isso quer dizer que enquanto os americanos quase duplicaram seus ganhos com o trabalho na fase "gloriosa" de seu capitalismo, eles perderam dinheiro trabalhando na fase seguinte, de hegemonia neoliberal.
Isso diz muito sobre o sistema, mas diz pouco sobre rendimentos de modo geral. Isso porque a classe média passou a ganhar mais com aplicações, investimentos e especulações financeiras. Ao invés de ganhar com o trabalho, como faziam seus pais e avós, a geração dos anos 60 e 70, que começou a trabalhar nos anos 80 e 90, passou a colocar mais dinheiro em casas e ações.
O trabalho perdeu espaço no consenso que veio por terra em 2008. Agora, os americanos precisam olhar para seu passado não tão distante assim e aprender com eles mesmos. Ou olhar para os países que estão criando mercados nacionais: isso acontece com trabalho e mais salário.
A partir de 1947, o mundo entrou no período da Guerra Fria. De um lado, os americanos e os países ajudados por eles para se recuperarem -- como Europa e o próprio Japão -- além dos países que seriam financiados para serem amigos -- como os latino-americanos -- e do outro lado, os comunistas, tendo a União Soviética e, a partir de 1949, a China, à frente.
Dali até 1973, quando houve o primeiro choque do petróleo, o mundo capitalista viveu o que hoje é conhecido como os "30 anos gloriosos do capitalismo". Não foram trinta, é claro, mas também as coisas não mudaram da noite para o dia. Mudar, mesmo, só mudou a partir de 1979, quando Margaret Thatcher assumiu o governo britânico, Reagan ganhou força na oposição americana, Paul Volcker assumiu o Fed e começou a subir juros e arrasar os endividados latino-americanos, e o Irã promoveu sua Revolução Islâmica.
A partir dos anos 1980 entramos na fase conservadora, de grande consenso neoliberal (retomando o consenso liberal vigente entre 1873 e 1929) e de globalização. Com a decadência soviética e seu consequente esfacelamento em 1991, a queda do muro de Berlim em 1989 e a abertura ao capitalismo por parte da China, os Estados Unidos lideraram o mundo do conservadorismo. Especialmente a partir dos ataques de 11 de setembro de 2001, quando o mundo passou a ver a luta entre os bons (Bush e Tony Blair à frente) e o mal (os "terroristas" ilsâmicos). Enquanto isso, o mercado financeiro mandava bala na liberalização total de fluxos. Esse consenso, para uma série de analistas, ruiu com a crise de 2008. Cheguei a escrever ideias parecidas cá no Blog na época, mas é preciso um distanciamento maior para ter certeza da coisa.
Como podemos separar essas fases, pensando na riqueza da sociedade americana, país que liderou todo esse processo?
O economista Edward Wolff trouxe números interessantes na última edição da "Science & Society" sobre o rendimento com salários na classe média americana.
De 1947 a 1973, o salário por hora cresceu 75%, descontada a inflação. Já entre 1973 e 2007, último ano antes da explosão da crise mundial, os salários-hora caíram 4,4%. Isso quer dizer que enquanto os americanos quase duplicaram seus ganhos com o trabalho na fase "gloriosa" de seu capitalismo, eles perderam dinheiro trabalhando na fase seguinte, de hegemonia neoliberal.
Isso diz muito sobre o sistema, mas diz pouco sobre rendimentos de modo geral. Isso porque a classe média passou a ganhar mais com aplicações, investimentos e especulações financeiras. Ao invés de ganhar com o trabalho, como faziam seus pais e avós, a geração dos anos 60 e 70, que começou a trabalhar nos anos 80 e 90, passou a colocar mais dinheiro em casas e ações.
O trabalho perdeu espaço no consenso que veio por terra em 2008. Agora, os americanos precisam olhar para seu passado não tão distante assim e aprender com eles mesmos. Ou olhar para os países que estão criando mercados nacionais: isso acontece com trabalho e mais salário.
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
Interlúdio

Retirado daqui, depois de ter visto, tempos atrás, essa imagem no Dispersões, Delírios e Divagações do Fabiano Camilo.
terça-feira, 17 de agosto de 2010
O momento nos EUA está...
... para comprar ações, a julgar por esta conta aqui:

O gráfico (retirado daqui) mostra a correlação entre o rendimento das 500 principais ações do índice S&P da Bolsa de Valores de Nova York e o rendimento dos treasuries, os títulos de 10 anos do Tesouro americano.
Quando fica abaixo de zero significa que as ações estão caras frente ao rendimento delas, uma vez que os títulos americanos rendem menos, sim, mas custam mais barato também.
Agora, pelo contrário. Os títulos americanos até que estão bem em conta, mas o rendimento é pífio: cerca de 1% ao ano por dez anos, enquanto a Bolsa não só está barata, como deve ter uma alta nos próximos anos -- até por um simples efeito estatístico, uma vez que já caíram demais.
Resta saber se isso vai de fato ocorrer porque o gráfico também mostra outra coisa: as ações estavam caras até o momento, mas o que tivemos na Bolsa nesse período do gráfico? Crises em 1990/91, em 2000/01 e 2008/09.
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EUA,
mercado financeiro
O trânsito em São Paulo
Sexta-feira foi de doer.
Saí da redação do Valor, que fica na zona oeste, para participar de almoço-palestra com Luiz Carlos Mendonça de Barros, na Vila Olímpia. Saí as 11h40min do jornal para conseguir chegar lá uma hora depois, dez minutos atrasado. Após o almoço e uma breve conversa com ele -- que gerou matéria, publicada ontem -- deixei o restaurante por volta das 14h30min. Cheguei no jornal 1h15min depois.
Pouco depois, às 16h30min, sai novamente, desta vez acompanhado do amigo Ivo Ribeiro, editor do caderno de Empresas do Valor, para entrevistar Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e presidente em exercício da Fiesp, agora que o Paulo Skaf deixou a federação para concorrer ao governo de SP. Iríamos entrevistar Steinbruch na Fiesp, que fica na Avenida Paulista, uns 40 minutos da redação.
No meio do caminho, ele mudou o endereço -- estava na sede da CSN, de onde preferia conversar. A mudança de rota não alterou muito o trânsito. Alcançamos a Vila Olímpia, onde fica a CSN, às 17h40min.
A entrevista atrasou, porque Benjamin estava ocupado. Chegou para conversar apenas as 18h30min, terminando tudo por volta das 19h50min.
Dali, ainda voltei ao jornal. Cheguei na redação apenas as 21h00, de onde saí quase 1h20min depois, em plena sexta-feira.
Mais que uma história de trabalho, meu amigos, esta é uma história de trânsito. Fiquei, ao todo, 4h35min dentro de um carro. Isso mesmo: quatro horas e trinta e cinco minutos em trânsito urbano para ir e voltar de duas entrevistas. Claro que o papo com o taxista, na primeira viagem, e a boa conversa com o Ivo e o seu Valmir, um dos motoristas do jornal, ajudaram a manter a mente sã.
Mas não é das coisas mais fáceis do mundo. Andar em São Paulo é praticamente impossível -- seja a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus ou metrô. Ainda que o transporte coletivo seja bom, tendo em vista o tamanho da cidade e se compararmos com outras capitais, ainda são poucas estações de metrô e é preciso ampliar o número de ônibus circulando.
Seja como for, algo precisa ser feito sobre o trânsito em SP. É o maior custo econômico da mais rica capital latino-americana.
***
A entrevista com Benjamin Steinbruch foi publicada hoje, na contracapa do Valor.
***
Aos comentaristas: perdoem pela demora em responder os comentários. O blogueiro, como explicou no post, está numa correria só. Ontem foi outra, quando, além de fechar duas matérias -- a entrevista com Benjamin e uma outra, sobre inflação de commodities -- tive um almoço fora. Mesmo caso de hoje, quando almoço com fonte mais uma vez.
O tempo livre do blogueiro é gasto com posts -- ok, admito que poderia gastar com coisas mais saudáveis, como comer com calma e, eventualmente, dormir -- e fico com pouco tempo para responder. Mas leio tudo. E continuo lendo todos os dias os blogs que indico aqui do lado direito do Blog, que estão à todo o vapor.
Juro que se ao menos o trânsito em SP fosse mais tranquilo, o botafoguense aqui teria mais tempo ocioso para responder com a calma que vocês merecem.
Saí da redação do Valor, que fica na zona oeste, para participar de almoço-palestra com Luiz Carlos Mendonça de Barros, na Vila Olímpia. Saí as 11h40min do jornal para conseguir chegar lá uma hora depois, dez minutos atrasado. Após o almoço e uma breve conversa com ele -- que gerou matéria, publicada ontem -- deixei o restaurante por volta das 14h30min. Cheguei no jornal 1h15min depois.
Pouco depois, às 16h30min, sai novamente, desta vez acompanhado do amigo Ivo Ribeiro, editor do caderno de Empresas do Valor, para entrevistar Benjamin Steinbruch, presidente da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) e presidente em exercício da Fiesp, agora que o Paulo Skaf deixou a federação para concorrer ao governo de SP. Iríamos entrevistar Steinbruch na Fiesp, que fica na Avenida Paulista, uns 40 minutos da redação.
No meio do caminho, ele mudou o endereço -- estava na sede da CSN, de onde preferia conversar. A mudança de rota não alterou muito o trânsito. Alcançamos a Vila Olímpia, onde fica a CSN, às 17h40min.
A entrevista atrasou, porque Benjamin estava ocupado. Chegou para conversar apenas as 18h30min, terminando tudo por volta das 19h50min.
Dali, ainda voltei ao jornal. Cheguei na redação apenas as 21h00, de onde saí quase 1h20min depois, em plena sexta-feira.
Mais que uma história de trabalho, meu amigos, esta é uma história de trânsito. Fiquei, ao todo, 4h35min dentro de um carro. Isso mesmo: quatro horas e trinta e cinco minutos em trânsito urbano para ir e voltar de duas entrevistas. Claro que o papo com o taxista, na primeira viagem, e a boa conversa com o Ivo e o seu Valmir, um dos motoristas do jornal, ajudaram a manter a mente sã.
Mas não é das coisas mais fáceis do mundo. Andar em São Paulo é praticamente impossível -- seja a pé, de bicicleta, de carro, de ônibus ou metrô. Ainda que o transporte coletivo seja bom, tendo em vista o tamanho da cidade e se compararmos com outras capitais, ainda são poucas estações de metrô e é preciso ampliar o número de ônibus circulando.
Seja como for, algo precisa ser feito sobre o trânsito em SP. É o maior custo econômico da mais rica capital latino-americana.
***
A entrevista com Benjamin Steinbruch foi publicada hoje, na contracapa do Valor.
***
Aos comentaristas: perdoem pela demora em responder os comentários. O blogueiro, como explicou no post, está numa correria só. Ontem foi outra, quando, além de fechar duas matérias -- a entrevista com Benjamin e uma outra, sobre inflação de commodities -- tive um almoço fora. Mesmo caso de hoje, quando almoço com fonte mais uma vez.
O tempo livre do blogueiro é gasto com posts -- ok, admito que poderia gastar com coisas mais saudáveis, como comer com calma e, eventualmente, dormir -- e fico com pouco tempo para responder. Mas leio tudo. E continuo lendo todos os dias os blogs que indico aqui do lado direito do Blog, que estão à todo o vapor.
Juro que se ao menos o trânsito em SP fosse mais tranquilo, o botafoguense aqui teria mais tempo ocioso para responder com a calma que vocês merecem.
segunda-feira, 16 de agosto de 2010
Começou
O horário eleitoral na televisão começa amanhã. É a largada oficial da campanha de 2010 brasileira, que, como já disse aqui, começou mesmo em fevereiro de 2009. Agora, os candidatos -- à Presidência, governos estaduais, senadores e deputados (federais e estaduais) -- colocam a cara para bater: quase 97% dos 191 milhões de brasileiros têm televisões, então, amigos, é agora que a coisa pega.
***
O Celso Rocha de Barros, que toca o Na Prática a Teoria é Outra (NPTO), escreveu a melhor análise sobre a matéria que a revista Época deu em sua capa, na edição deste fim de semana.
O Celso, para quem acompanha a blogosfera, têm um dos melhores blogs de política. Quem acompanha só jornais sabe disso também: o Fernando Barros e Silva, competente colunista da Folha de S.Paulo, já dedicou uma coluna ao NPTO, chamado por ele de "o melhor blog de análise política da internet brasileira".
Para ler a análise do NPTO, clique aqui.
***
O Amálgama está fazendo um negócio interessante: convidou blogueiros (dos bons, é claro), para defenderem os candidatos de sua preferência. Por lá, já têm belas análises sobre José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Plínio de Arruda Sampaio (P-SOL). Logo será publicada de Marina Silva (PV).
***
O Botafogo está chegando, fiquem de olho, tricolores.
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O Celso Rocha de Barros, que toca o Na Prática a Teoria é Outra (NPTO), escreveu a melhor análise sobre a matéria que a revista Época deu em sua capa, na edição deste fim de semana.
O Celso, para quem acompanha a blogosfera, têm um dos melhores blogs de política. Quem acompanha só jornais sabe disso também: o Fernando Barros e Silva, competente colunista da Folha de S.Paulo, já dedicou uma coluna ao NPTO, chamado por ele de "o melhor blog de análise política da internet brasileira".
Para ler a análise do NPTO, clique aqui.
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O Amálgama está fazendo um negócio interessante: convidou blogueiros (dos bons, é claro), para defenderem os candidatos de sua preferência. Por lá, já têm belas análises sobre José Serra (PSDB), Dilma Rousseff (PT) e Plínio de Arruda Sampaio (P-SOL). Logo será publicada de Marina Silva (PV).
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O Botafogo está chegando, fiquem de olho, tricolores.
domingo, 15 de agosto de 2010
Domingo
Vejo, vejo, o que você vê?
Saúl, que aparece correndo sob a chuva. Saúl correndo sob a chuva? Ele me abraça como se tudo isso lhe doesse. Mas o que Saúl faz aqui, se ele mora em Barcelona? Isso é um pesadelo.
-Nadia, estou me molhando, me dá um pedaço do guarda-chuva?
-O que você está fazendo aqui? -- digo, cobrindo-o.
-Era verdade, seu pai estava vivo, nunca acreditei em você. Seu pai é um grande cineasta. Já vi sua obra.
-Mas desde quando você está em Cuba? O que é isso?
-Vim fotografar a Plaza de la Revolución, pós-desfiles. Uma fundação me pagou para que eu leve restos de bandeiras e de cartazes. Ah! Muito bom o documentário de seu pai sobre os símbolos políticos cubanos. Que visão esse homem tinha do circo dos anos setenta!
-Puta que o pariu, Saúl. Faça-me o favor de sair do guarda-chuva, que o oportunismo é contagioso. Saia do guarda-chuva ou vou enterrá-lo vivo na tumba dos condes de Pozos Dulces. Fora, fora, e mais respeito, que isso é um circo, sim, mas é o meu circo... Agora você vem beber dessa água que antes achava turva. Se molhe, porra. Se molhe porque isto é Cuba e aqui chove de verdade, não é aquela garoa que deixa você doente. Aqui um raio vai matá-lo por você ser tão medíocre. Se molhe com o que eu cresci, tome banho no aguaceiro pra ver se consegue se transformar num homem. Tomara que se afogue tirando fotos das bandeirinhas. Que covarde! Saia da minha frente, Saúl, você não me conhece...
Wendy Guerra, escritora cubana. Trecho de seu "Nunca fui primeira-dama".
Saúl, que aparece correndo sob a chuva. Saúl correndo sob a chuva? Ele me abraça como se tudo isso lhe doesse. Mas o que Saúl faz aqui, se ele mora em Barcelona? Isso é um pesadelo.
-Nadia, estou me molhando, me dá um pedaço do guarda-chuva?
-O que você está fazendo aqui? -- digo, cobrindo-o.
-Era verdade, seu pai estava vivo, nunca acreditei em você. Seu pai é um grande cineasta. Já vi sua obra.
-Mas desde quando você está em Cuba? O que é isso?
-Vim fotografar a Plaza de la Revolución, pós-desfiles. Uma fundação me pagou para que eu leve restos de bandeiras e de cartazes. Ah! Muito bom o documentário de seu pai sobre os símbolos políticos cubanos. Que visão esse homem tinha do circo dos anos setenta!
-Puta que o pariu, Saúl. Faça-me o favor de sair do guarda-chuva, que o oportunismo é contagioso. Saia do guarda-chuva ou vou enterrá-lo vivo na tumba dos condes de Pozos Dulces. Fora, fora, e mais respeito, que isso é um circo, sim, mas é o meu circo... Agora você vem beber dessa água que antes achava turva. Se molhe, porra. Se molhe porque isto é Cuba e aqui chove de verdade, não é aquela garoa que deixa você doente. Aqui um raio vai matá-lo por você ser tão medíocre. Se molhe com o que eu cresci, tome banho no aguaceiro pra ver se consegue se transformar num homem. Tomara que se afogue tirando fotos das bandeirinhas. Que covarde! Saia da minha frente, Saúl, você não me conhece...
Wendy Guerra, escritora cubana. Trecho de seu "Nunca fui primeira-dama".
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
Escrito para você
Minha matéria ("Escrito para você") sobre a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) foi publicada hoje, no caderno "Eu&FimdeSemana" do Valor, consumindo três páginas.
Assim que tiver o link, passo aqui no Blog. Aos leitores assinantes do jornal, depois me digam o que acharam da incursão desse blogueiro no mundo literário.
Assim que tiver o link, passo aqui no Blog. Aos leitores assinantes do jornal, depois me digam o que acharam da incursão desse blogueiro no mundo literário.
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quarta-feira, 11 de agosto de 2010
De príncipes e mentiras
Fernando Henrique Cardoso deu uma bela palestra na inauguração da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) na última quarta-feira. Assisti uma dezena de mesas e o debate de FHC com o professor Luis Felipe Alencastro foi dos melhores disparados. Fizeram uma leitura crítica de Gilberto Freyre, o homenageado da Flip. Lembraram a obra, as inovações e omissões, e atacaram o que eles, FHC e Alencastro, veem como discutível e errado no pensamento de Freyre.
Seis dias depois, já em São Paulo, FHC proferiu nova palestra, desta vez sobre Nicolau Maquiavel -- sua obra máxima, "O Príncipe", recebe nova edição, lindíssima, aliás, da cooperação entre Companhia das Letras e Penguim. FHC assina o prefácio e foi convidado pelas editoras para palestrar no lançamento.
Mas durante sua análise, FHC cometeu um erro estrondoso. Justificando e avaliando Maquiavel, diz que todo presidente precisa mentir. Vejam só:
"Às vezes é necessário dissimular. Vou dar um exemplo pessoal. Um exemplo de todo presidente... O jornalista chega e pergunta: 'Presidente, vai haver desvalorização do câmbio amanhã?' Você tem que dizer: 'Não, o que é isso!'. Aí, amanhã, vocês desvaloriza. Você tem que mentir, se não quebra o país"
Até aí, nada de errado. Não sejamos moralistas, todos mentem e muitas mentiras são estratégicas. Mas FHC usa um exemplo que foi dos maiores erros de seu governo: o episódio de 13 de janeiro de 1999, quando o real sofreu uma máxi-desvalorização, aprofundando a recessão e derrubando o já fraquíssimo crescimento da economia.
Ao longo de 1998, com o câmbio sendo sustentado na paridade um para um com o dólar desde o segundo semestre de 1994, havia claros sinais que o jogo macroeconômico iria -- porque teria que -- mudar. O governo tinha de segurar até as eleições, para não arriscar um revertério em pleno voto. Assim, o Banco Central torrou todas as reservas internacionais para manter o fluxo de dólares constante, a fim de manter o câmbio valorizado.
Todos pressionavam FHC a desvalorizar. Ele dizia que não havia por quê. Em dezembro de 1998, já reeleito, a situação estava caótica e o governo conseguiu acertar um último acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), um empréstimo-ponte que viria segurar o tranco. FHC mantinha o discurso de que o câmbio ficaria daquele jeito.
Treze dias depois, o real se desvalorizou -- bruscamente -- e a economia, que já estava parando, parou completamente.
Então, uma coisa é mentir, como disse acertamente o ex-presidente na palestra, para evitar uma crise. É verdade. Se FHC chegasse, em novembrou ou dezembro de 1998, e falasse que haveria uma desvalorização do câmbio, ele jogaria o país numa crise. Mas a crise veio de qualquer jeito! Por isso, uma coisa é mentir para evitar o pior. Outra é mentir e mesmo assim o pior acontecer.
***
Aviso aos trolls e partidários desmiolados: esse texto não é anti-FHC, pró-PT, ou qualquer coisa do tipo. Ele é uma análise de coisas que pessoas -- no caso, Fernando Henrique Cardoso -- disseram. Nada além disso.
Seis dias depois, já em São Paulo, FHC proferiu nova palestra, desta vez sobre Nicolau Maquiavel -- sua obra máxima, "O Príncipe", recebe nova edição, lindíssima, aliás, da cooperação entre Companhia das Letras e Penguim. FHC assina o prefácio e foi convidado pelas editoras para palestrar no lançamento.
Mas durante sua análise, FHC cometeu um erro estrondoso. Justificando e avaliando Maquiavel, diz que todo presidente precisa mentir. Vejam só:
"Às vezes é necessário dissimular. Vou dar um exemplo pessoal. Um exemplo de todo presidente... O jornalista chega e pergunta: 'Presidente, vai haver desvalorização do câmbio amanhã?' Você tem que dizer: 'Não, o que é isso!'. Aí, amanhã, vocês desvaloriza. Você tem que mentir, se não quebra o país"
Até aí, nada de errado. Não sejamos moralistas, todos mentem e muitas mentiras são estratégicas. Mas FHC usa um exemplo que foi dos maiores erros de seu governo: o episódio de 13 de janeiro de 1999, quando o real sofreu uma máxi-desvalorização, aprofundando a recessão e derrubando o já fraquíssimo crescimento da economia.
Ao longo de 1998, com o câmbio sendo sustentado na paridade um para um com o dólar desde o segundo semestre de 1994, havia claros sinais que o jogo macroeconômico iria -- porque teria que -- mudar. O governo tinha de segurar até as eleições, para não arriscar um revertério em pleno voto. Assim, o Banco Central torrou todas as reservas internacionais para manter o fluxo de dólares constante, a fim de manter o câmbio valorizado.
Todos pressionavam FHC a desvalorizar. Ele dizia que não havia por quê. Em dezembro de 1998, já reeleito, a situação estava caótica e o governo conseguiu acertar um último acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), um empréstimo-ponte que viria segurar o tranco. FHC mantinha o discurso de que o câmbio ficaria daquele jeito.
Treze dias depois, o real se desvalorizou -- bruscamente -- e a economia, que já estava parando, parou completamente.
Então, uma coisa é mentir, como disse acertamente o ex-presidente na palestra, para evitar uma crise. É verdade. Se FHC chegasse, em novembrou ou dezembro de 1998, e falasse que haveria uma desvalorização do câmbio, ele jogaria o país numa crise. Mas a crise veio de qualquer jeito! Por isso, uma coisa é mentir para evitar o pior. Outra é mentir e mesmo assim o pior acontecer.
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Aviso aos trolls e partidários desmiolados: esse texto não é anti-FHC, pró-PT, ou qualquer coisa do tipo. Ele é uma análise de coisas que pessoas -- no caso, Fernando Henrique Cardoso -- disseram. Nada além disso.
terça-feira, 10 de agosto de 2010
Venezuela e Colômbia, amigos novamente

Uma boa notícia: as relações entre os governos de Venezuela e Colômbia estão voltando ao normal. São dois países cruciais no desenho latino-americano, que polarizaram o debate ideológico na última década. Ambos com projetos e bandeiras antigas, dos anos 1950 e 1960, que tiveram força aqui de novo, nos anos 2000.
De um lado, Hugo Chávez, representando a esquerda anti-EUA e seu projeto bolivariano. Dou outro, Álvaro Uribe, representando a direita pró-EUA, financiada e defendida pelo governo americano de George W. Bush.
Chávez alterou a Constituição, por meio de plebiscito popular, diga-se, para permitir novas e sucessivas reeleições. Uribe, que tanto vocalizou as críticas ao projeto de poder de Chávez, tentou fazer o mesmo. Não conseguiu. No entanto, fez seu sucessor, Juan Manuel Santos, que era o principal operador militar da política uribiana, de milícias anti-Farc.
Empossado no último sábado, Santos recebeu Chávez, que fez declarações positivas sobre a Colômbia. A foto acima, de Fernando Llano, da Associated Press, mostra Chávez caminhando ao lado de Santos, hoje, em Bogotá. É uma aproximação importante, que deixa nossa região num pé diferente do passado recente. Países chaves, como o Brasil, que não pende nem para um lado (como a Argentina, que está com Chávez) nem para o outro (como o Peru, que está com a Colômbia), devem aproveitar agora e lançar mão de reuniões conjuntas, que intensifiquem o diálogo.
Para a década que temos pela frente, de 2011 a 2020, a participação dos vizinhos latino-americanos é crucial.
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Sobre o enriquecimento dos políticos
Desde que a campanha eleitoral começou oficialmente, em meados de julho, no pós-Copa do Mundo, o noticiário ficou afogado de matérias e levantamentos junto ao tribunal eleitoral sobre o patrimônio dos candidatos. Muito se falou de "ooohh como enriqueceram de quatro anos para cá" e muitos ficaram todo bravinhos com "esse pessoal fica rico de tanto roubar".
Não é bem assim.
Vamos entender como boa parte desse enriquecimento ocorre. Para aqueles que buscam sua reeleição no Congresso, o cálculo fica mais simples de explicar. Let's go.
Um deputado federal ganha R$ 16,5 mil por mês. Pela Constituição, os deputados federais recebem 15 salários por ano, além de terem cobertos todos seus gastos com gabinetes (em Brasília e em suas bases eleitorais) e com passagens aéreas.
Pegue alguém que se elegeu deputado federal em 2006. Quando concorreu, há quatro anos, o sujeito declarou, digamos, R$ 280 mil numa casa, R$ 100 mil em aplicações financeiras e outros R$ 120 mil em pertences pessoais, como um carro e/ou um pequeno apartamento no litoral. Assim, o sujeito em questão declarou patrimônio de R$ 500 mil, em 2006.
De lá para cá, ele passou quatro anos recebendo R$ 16,5 mil. Mais que isso: como vimos, ele recebeu essa quantia por 15 meses. Por ano, portanto, o deputado federal recebeu, só em salários, R$ 247,5 mil. Nos últimos quatro anos, acumulou R$ 990 mil apenas com salários.
Pode-se discutir se é justo um salário de R$ 16,5 mil. Se é justo receberem 15 salários. Se é justo terem verbas para gabinetes, salários de funcionários e passagens aéreas. Mas isso tudo é permitido e previsto em lei. Eles receberam e não há nada de ilegal nisso.
E um deputado federal dificilmente tem muitos gastos. Como suas verbas cruciais com assessores e funcionários, além de passagens aéreas para ir e voltar de Brasília, fora a casa que recebe para morar na capital federal, são todos custeados pelos cofres públicos, o deputado federal gasta apenas com comida, viagens pessoais, roupa ou bugigangas mil que, como qualquer outro ser humano, tem o direito de comprar.
Só que, de terça a quinta ele almoça e janta em Brasília, sem gastar um tostão. E segunda e sexta em seu domicílio eleitoral, também sem gastar nada. Aos fins de semana, se vai comer fora, muito provavelmente não precisa pagar a conta, porque o dono do restaurante vai oferecer como "da casa", pedir uma foto para grudar na parede e dizer que fulano de tal, deputado federal, come lá. Se aproveita o sábado e domingo para fazer uma refeição com gente do partido, quem paga a conta do regabofe é o partido.
Assim, podemos tirar uma depreciaçãozinha de uns, digamos, 15% do salário auferido nesses quatro anos. Assim, nosso deputado federal ficou com R$ 840 mil só de salários, em mãos. De seus R$ 500 mil em 2006, ele tem hoje, se não fez nada com o salário que ganhou de 2007 para cá, R$ 1,3 milhão. Só com salários, teve um salto de 168% em seu patrimônio.
Mas não é só isso. O cara pode, como qualquer pessoa, aplicar parte desse dinheiro. Pode usar outra parcela para comprar uma casa maior, ou adquirir um apartamento de praia melhor. Assim, se considerarmos um rendimento conservador de 12% ao ano para uma parcela que aplicou no mercado financeiro, e outro ganho imobiliário que fez, nosso deputado federal tem, facilmente, um salto superior a 200% no patrimônio.
E esse salto de 200% no patrimônio é totalmente legal.
Não é bem assim.
Vamos entender como boa parte desse enriquecimento ocorre. Para aqueles que buscam sua reeleição no Congresso, o cálculo fica mais simples de explicar. Let's go.
Um deputado federal ganha R$ 16,5 mil por mês. Pela Constituição, os deputados federais recebem 15 salários por ano, além de terem cobertos todos seus gastos com gabinetes (em Brasília e em suas bases eleitorais) e com passagens aéreas.
Pegue alguém que se elegeu deputado federal em 2006. Quando concorreu, há quatro anos, o sujeito declarou, digamos, R$ 280 mil numa casa, R$ 100 mil em aplicações financeiras e outros R$ 120 mil em pertences pessoais, como um carro e/ou um pequeno apartamento no litoral. Assim, o sujeito em questão declarou patrimônio de R$ 500 mil, em 2006.
De lá para cá, ele passou quatro anos recebendo R$ 16,5 mil. Mais que isso: como vimos, ele recebeu essa quantia por 15 meses. Por ano, portanto, o deputado federal recebeu, só em salários, R$ 247,5 mil. Nos últimos quatro anos, acumulou R$ 990 mil apenas com salários.
Pode-se discutir se é justo um salário de R$ 16,5 mil. Se é justo receberem 15 salários. Se é justo terem verbas para gabinetes, salários de funcionários e passagens aéreas. Mas isso tudo é permitido e previsto em lei. Eles receberam e não há nada de ilegal nisso.
E um deputado federal dificilmente tem muitos gastos. Como suas verbas cruciais com assessores e funcionários, além de passagens aéreas para ir e voltar de Brasília, fora a casa que recebe para morar na capital federal, são todos custeados pelos cofres públicos, o deputado federal gasta apenas com comida, viagens pessoais, roupa ou bugigangas mil que, como qualquer outro ser humano, tem o direito de comprar.
Só que, de terça a quinta ele almoça e janta em Brasília, sem gastar um tostão. E segunda e sexta em seu domicílio eleitoral, também sem gastar nada. Aos fins de semana, se vai comer fora, muito provavelmente não precisa pagar a conta, porque o dono do restaurante vai oferecer como "da casa", pedir uma foto para grudar na parede e dizer que fulano de tal, deputado federal, come lá. Se aproveita o sábado e domingo para fazer uma refeição com gente do partido, quem paga a conta do regabofe é o partido.
Assim, podemos tirar uma depreciaçãozinha de uns, digamos, 15% do salário auferido nesses quatro anos. Assim, nosso deputado federal ficou com R$ 840 mil só de salários, em mãos. De seus R$ 500 mil em 2006, ele tem hoje, se não fez nada com o salário que ganhou de 2007 para cá, R$ 1,3 milhão. Só com salários, teve um salto de 168% em seu patrimônio.
Mas não é só isso. O cara pode, como qualquer pessoa, aplicar parte desse dinheiro. Pode usar outra parcela para comprar uma casa maior, ou adquirir um apartamento de praia melhor. Assim, se considerarmos um rendimento conservador de 12% ao ano para uma parcela que aplicou no mercado financeiro, e outro ganho imobiliário que fez, nosso deputado federal tem, facilmente, um salto superior a 200% no patrimônio.
E esse salto de 200% no patrimônio é totalmente legal.
segunda-feira, 9 de agosto de 2010
Da Flip
Já estou em São Paulo, no lar doce lar -- na redação do Valor, entende-se.
Fecho a matéria especial sobre a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) durante a semana, para entrar no caderno cultural do jornal, o EU&FimdeSemana, que circula na sexta-feira.
Comecei a ler no fim da viagem e será o livro que vai embalar a semana, que deixo como dica aos leitores: "Any Human Heart", de William Boyd. Escrito em forma de anotações dispersas num diário, o narrador Logan Mountstuart conta, por meio de seus encontros, desencontros, ideias, reflexões, atitudes intempestivas, uma história que se encaixa, é claro, em uma série de outras histórias individuais. Logan se encontra com Picasso e Hemingway, em Paris, e Virginia Woolf em Londres, para ficar em alguns.
Logan, influente que só ele, resolve ser artista, depois escritor. Anota o início de um projeto. Corta para outra viagem, outro encontro. Sua cabeça vai mudando, amadurecendo. Pensei se tratar de uma história clichê, ao ouvir a sinopse da boca do próprio Boyd. Mas arrisquei e estou gostando.
***
Aos poucos o Blog vai retomando as discussões políticas, fiquem calmos. Aliás, viram o debate? Vi o final apenas, quando cheguei na pousada em Paraty. Não posso dar julgamentos, mas, pelo que acompanhei na repercussão n'O Globo, Estadão e Folha o Plínio de Arruda Sampaio, do P-SOL, levou, porque não ficou tímido. Timidez essa que atrapalhou Marina Silva (PV), que poderia ter usado o debate para ser mais incisiva.
A regra da política eleitoral é essa, afinal. Quem está atrás não têm o que perder, então fala mesmo, diz que sabe mais, que pode mais, e chama todos para o debate, coloca o contraditório na mesa. Plínio, ao que parece, fez isso, com seus 1% de intenção de voto nas pesquisas. Marina, que têm entre 8% e 11% dos votos, poderia ter ido além.
José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), ao que parece, ficaram no empate. Dilma, pelo que li, estava nervosa no começo e depois consertou. Serra estava mais seguro, mas não deu ao PSDB o banho que se esperava dele, que é o candidato mais experiente em debates eleitorais dos quatro que lá estavam -- Marina e Dilma fizeram pela primeira vez.
A impressão que me passa é que as coisas ficaram mais ou menos como estavam, quer dizer. Quem ia votar no Serra, acha que ele ganhou. Quem ia votar na Dilma, acha que ela ganhou. E assim com Marina e Plínio, tendo esse, um pouco mais que os outros, conquistado boa vontade.
***
Pior momento da Flip
Durante mesa com Colum McCann e William Kennedy, no sábado, meio dia, jornalistas passeavam por facebook, twitter e superficialidades em seus notebooks, com o debate rolando solto.
Melhor refeição
O almoço no Margarida Café. Imbatível. Mas jantar no Punto Di Vino também foi fabuloso.
Melhores entrevistas
Com William Kennedy, em frente à Pousada do Ouro, e com Isabel Allende, um doce.
Fecho a matéria especial sobre a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) durante a semana, para entrar no caderno cultural do jornal, o EU&FimdeSemana, que circula na sexta-feira.
Comecei a ler no fim da viagem e será o livro que vai embalar a semana, que deixo como dica aos leitores: "Any Human Heart", de William Boyd. Escrito em forma de anotações dispersas num diário, o narrador Logan Mountstuart conta, por meio de seus encontros, desencontros, ideias, reflexões, atitudes intempestivas, uma história que se encaixa, é claro, em uma série de outras histórias individuais. Logan se encontra com Picasso e Hemingway, em Paris, e Virginia Woolf em Londres, para ficar em alguns.
Logan, influente que só ele, resolve ser artista, depois escritor. Anota o início de um projeto. Corta para outra viagem, outro encontro. Sua cabeça vai mudando, amadurecendo. Pensei se tratar de uma história clichê, ao ouvir a sinopse da boca do próprio Boyd. Mas arrisquei e estou gostando.
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Aos poucos o Blog vai retomando as discussões políticas, fiquem calmos. Aliás, viram o debate? Vi o final apenas, quando cheguei na pousada em Paraty. Não posso dar julgamentos, mas, pelo que acompanhei na repercussão n'O Globo, Estadão e Folha o Plínio de Arruda Sampaio, do P-SOL, levou, porque não ficou tímido. Timidez essa que atrapalhou Marina Silva (PV), que poderia ter usado o debate para ser mais incisiva.
A regra da política eleitoral é essa, afinal. Quem está atrás não têm o que perder, então fala mesmo, diz que sabe mais, que pode mais, e chama todos para o debate, coloca o contraditório na mesa. Plínio, ao que parece, fez isso, com seus 1% de intenção de voto nas pesquisas. Marina, que têm entre 8% e 11% dos votos, poderia ter ido além.
José Serra (PSDB) e Dilma Rousseff (PT), ao que parece, ficaram no empate. Dilma, pelo que li, estava nervosa no começo e depois consertou. Serra estava mais seguro, mas não deu ao PSDB o banho que se esperava dele, que é o candidato mais experiente em debates eleitorais dos quatro que lá estavam -- Marina e Dilma fizeram pela primeira vez.
A impressão que me passa é que as coisas ficaram mais ou menos como estavam, quer dizer. Quem ia votar no Serra, acha que ele ganhou. Quem ia votar na Dilma, acha que ela ganhou. E assim com Marina e Plínio, tendo esse, um pouco mais que os outros, conquistado boa vontade.
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Pior momento da Flip
Durante mesa com Colum McCann e William Kennedy, no sábado, meio dia, jornalistas passeavam por facebook, twitter e superficialidades em seus notebooks, com o debate rolando solto.
Melhor refeição
O almoço no Margarida Café. Imbatível. Mas jantar no Punto Di Vino também foi fabuloso.
Melhores entrevistas
Com William Kennedy, em frente à Pousada do Ouro, e com Isabel Allende, um doce.
domingo, 8 de agosto de 2010
Domingo
O amor acaba. Numa esquina, por exemplo, num domingo de lua nova, depois de teatro e silêncio; acaba em cafés engordurados, diferentes dos parques de ouro onde começou a pulsar; de repente, ao meio do cigarro que ele atira de raiva contra um automóvel ou que ela esmaga no cinzeiro repleto, polvilhando de cinzas o escarlate das unhas; na acidez da aurora tropical, depois duma noite votada à alegria póstuma, que não veio; e acaba o amor no desenlace das mãos no cinema, como tentáculos saciados, e elas se movimentam no escuro como dois polvos de solidão; como se as mãos soubessem antes que o amor tinha acabado; na insônia dos braços luminosos do relógio; e acaba o amor nas sorveterias diante do colorido iceberg, entre frisos de alumínio e espelhos monótonos...
Paulo Mendes Campos, escritor e jornalista brasileiro, morto em julho de 1991.
Paulo Mendes Campos, escritor e jornalista brasileiro, morto em julho de 1991.
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Domingo
sexta-feira, 6 de agosto de 2010
Impressões da Flip
Bom moçada, estou, como o pessoal que aqui me acompanha, em Paraty, Rio de Janeiro, acompanhando a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), que ocorre pelo oitavo ano consecutivo. Estou cobrindo pelo Valor -- que, aliás, publicou hoje em sua revista mensal Valor Investe, minha última matéria da Turquia, de turismo. Lá, mais especificamente no caderno EU&FimdeSemana, que circula na próxima sexta-feira (não o de hoje), escrevo a matéria especial.
Por aqui, meninos e meninas (estou todo tranquilão, né?), faço um rápido apanhado das impressões que estou tendo aqui em Paraty. Vamos lá.
Jornalistas x escritores I
Tem mais jornalistas que escritores aqui, sério. Para cada escritor -- são 31, ao todo -- há, pelo menos, 386 jornalistas. Cameramen, pessoal de produção, repórteres de TVs, de rádios, de jornais (rá, cá estou eu), de revistas, de internet, de blogs (sim, cá também), correspondentes internacionais.
Jornalistas x escritores II
É fácil distinguir um e outro. Não é só pelo crachá -- o dos jornalistas é cinza, dos escritores amarelo -- mas principalmente pelos apetrechos. Os escritores estão de chapéu panamá. Os jornalistas, além dos bloquinhos, a indefectível jaqueta, para os homens, e os vestidos com jaquetas jeans, para as mulheres.
Os fotógrafos
Estes, os artistas -- não os fotógrafos de jornal, diga-se -- são os mais fáceis: usam óculos com armações enormes, que ocupam todo o rosto da pessoa. Muito bonito.
Ironia
Estou sendo irônico. Esses óculos são horríveis, mas o pessoal usa mesmo.
O público conhece, jornalistas parece que não
Sério isso. Muitos repórteres parecem desconhecer totalmente os escritores -- não só sua aparência física, mas principalmente suas obras. O público conhece mesmo. Há, claro, muita gente que nada conhece. Mas o "F" de Flip é "Festa", né? Então vale tudo, não posso reclamar.
E isso aqui é uma festa mesmo
Está cheio para burro. Onde se olha, aqui no centro histórico, de onde escrevo, têm gente. Quem gosta de multidão, como o blogueiro, se delicia. Quem detesta, se suicida.
A mais charmosa
De longe, Carola Saavedra.
A mais louca
Com certeza Wendy Guerra, escritora cubana que, além de escrever bem -- li, em apenas duas noites, seu belíssimo "Nunca fui primeira-dama" -- também conta com sorriso arrebatador. Aliás, fica a dica ao pessoal que vai a Cuba: ela nunca sai da ilha (até porque não é das coisas mais fáceis, como ela me contou) e já posou nua. Mas isso fica entre nós, não digam a ela que eu vazei essa.
A mais educada
Isabel Allende. Um primor de escritora, de honestida e de carinho.
O mais engraçado
Entre os mediadores, de longe, Humberto Werneck, rato velho do jornalismo paulistano. Entre os autores, Robert Darnton.
A melhor entrevista
Por enquanto -- porque ainda tenho três dias inteiros pela frente -- com Isabel Allende.
A melhor mesa
A inaugural, com Fernando Henrique Cardoso e Luis Felipe Alencastro discutindo Gilberto Freyre. Falaram do homem, da obra e não ficaram presos à louvação vazia. FHC criticou veementemente as ideias de Freyre e Alencastro bateu no escritor de Recife por seu posicionamento político.
A melhor refeição
Dizem, todos aqui, que o Banana da Terra. O repórter e blogueiro aqui não pode dizer. Não teve muito tempo para comer decentemente ainda. (E ao invés de fazê-lo quando tem tempo, prefere blogar).
O que dizem os corredores
Em todo o espaço que você ocupar na Flip você vai ouvir uma história diferente sobre Lou Reed. Todas elas, diga-se, críticas a ele. Roqueiro dos anos 60 -- um muito fraco, se me permitem. Conheço bem aquela época e acho o Velvet Underground um pastiche do que The Doors faziam e do que os Beastie Boys já tinham feito tempos antes -- Lou Reed foi convidado, confirmou, os ingressos para sua mesa esgotaram em horas e, depois de tudo, ele cancelou sua visita à Paraty.
Recorde
Ontem me superei: 13 cafés expressos ao longo do dia, que foi das 8h às 01h20min.
***
Vamos que vamos que hoje tem mais e está só começando.
Por aqui, meninos e meninas (estou todo tranquilão, né?), faço um rápido apanhado das impressões que estou tendo aqui em Paraty. Vamos lá.
Jornalistas x escritores I
Tem mais jornalistas que escritores aqui, sério. Para cada escritor -- são 31, ao todo -- há, pelo menos, 386 jornalistas. Cameramen, pessoal de produção, repórteres de TVs, de rádios, de jornais (rá, cá estou eu), de revistas, de internet, de blogs (sim, cá também), correspondentes internacionais.
Jornalistas x escritores II
É fácil distinguir um e outro. Não é só pelo crachá -- o dos jornalistas é cinza, dos escritores amarelo -- mas principalmente pelos apetrechos. Os escritores estão de chapéu panamá. Os jornalistas, além dos bloquinhos, a indefectível jaqueta, para os homens, e os vestidos com jaquetas jeans, para as mulheres.
Os fotógrafos
Estes, os artistas -- não os fotógrafos de jornal, diga-se -- são os mais fáceis: usam óculos com armações enormes, que ocupam todo o rosto da pessoa. Muito bonito.
Ironia
Estou sendo irônico. Esses óculos são horríveis, mas o pessoal usa mesmo.
O público conhece, jornalistas parece que não
Sério isso. Muitos repórteres parecem desconhecer totalmente os escritores -- não só sua aparência física, mas principalmente suas obras. O público conhece mesmo. Há, claro, muita gente que nada conhece. Mas o "F" de Flip é "Festa", né? Então vale tudo, não posso reclamar.
E isso aqui é uma festa mesmo
Está cheio para burro. Onde se olha, aqui no centro histórico, de onde escrevo, têm gente. Quem gosta de multidão, como o blogueiro, se delicia. Quem detesta, se suicida.
A mais charmosa
De longe, Carola Saavedra.
A mais louca
Com certeza Wendy Guerra, escritora cubana que, além de escrever bem -- li, em apenas duas noites, seu belíssimo "Nunca fui primeira-dama" -- também conta com sorriso arrebatador. Aliás, fica a dica ao pessoal que vai a Cuba: ela nunca sai da ilha (até porque não é das coisas mais fáceis, como ela me contou) e já posou nua. Mas isso fica entre nós, não digam a ela que eu vazei essa.
A mais educada
Isabel Allende. Um primor de escritora, de honestida e de carinho.
O mais engraçado
Entre os mediadores, de longe, Humberto Werneck, rato velho do jornalismo paulistano. Entre os autores, Robert Darnton.
A melhor entrevista
Por enquanto -- porque ainda tenho três dias inteiros pela frente -- com Isabel Allende.
A melhor mesa
A inaugural, com Fernando Henrique Cardoso e Luis Felipe Alencastro discutindo Gilberto Freyre. Falaram do homem, da obra e não ficaram presos à louvação vazia. FHC criticou veementemente as ideias de Freyre e Alencastro bateu no escritor de Recife por seu posicionamento político.
A melhor refeição
Dizem, todos aqui, que o Banana da Terra. O repórter e blogueiro aqui não pode dizer. Não teve muito tempo para comer decentemente ainda. (E ao invés de fazê-lo quando tem tempo, prefere blogar).
O que dizem os corredores
Em todo o espaço que você ocupar na Flip você vai ouvir uma história diferente sobre Lou Reed. Todas elas, diga-se, críticas a ele. Roqueiro dos anos 60 -- um muito fraco, se me permitem. Conheço bem aquela época e acho o Velvet Underground um pastiche do que The Doors faziam e do que os Beastie Boys já tinham feito tempos antes -- Lou Reed foi convidado, confirmou, os ingressos para sua mesa esgotaram em horas e, depois de tudo, ele cancelou sua visita à Paraty.
Recorde
Ontem me superei: 13 cafés expressos ao longo do dia, que foi das 8h às 01h20min.
***
Vamos que vamos que hoje tem mais e está só começando.
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quarta-feira, 4 de agosto de 2010
Os rumos do P-SOL
O partido que nasceu em 2003 para ser "o que era, mas deixou de ser o PT quando ganhou o poder", fez muito barulho em 2005, quando estourou a crise do mensalão e atingiu seu auge em 2006, quando Heloísa Helena, presidente do partido e das mais famosas senadoras da República, chegou a bater em 8% dos votos.
O P-SOL, Partido Socialismo e Liberdade, se perdeu.
Não tem força no movimento estudantil, na classe operária ou no establishment político -- prefere ficar em briguinhas com PSTU, PCO, PC do B e PCB. Sem espaço, tende a desaparecer. Isso é algo péssimo para a democracia brasileira. Dos partidos de esquerda que citei, o P-SOL é o que têm quadros mais qualificados na academia, pensadores próximos deles no movimento sindical e na sociologia, além de jovens universitários de cabeça boa (há, também, muitos jovens universitários próximos ao P-SOL que só falam asneiras, é claro, mas tem mais desses nos outros partidos de esquerda que no P-SOL).
O partido não só fica de birra com os outros nanicos e outros nem tão nanicos assim -- o PC do B, por exemplo, é um partido grande -- como também está rachado internamente. A antiga líder Heloísa Helena não está com o atual candidato à Presidência do partido, Plínio de Arruda Sampaio que, mesmo com toda a boa vontade das forças cósmicas não chegará a 1,5% dos votos nas eleições de outubro.
O P-SOL, se não se reiventar, e se não fizer isso logo, vai desaparecer.
***
O Raphael Tsavkko escreveu uma bela análise do P-SOL, que, inclusive, me inspirou a escrever o que penso do partido, nesse curto post. Os leitores estão convidados a ler "No que o P-SOL falhou?".
Uma tese boa do Tsavkko: o P-SOL nasceu para ser o PT justamente quando a maioria queria a continuidade do PT. Conseguiu fazer barulho em 2005 e 2006, quando escândalos mil surgiram, mas logo foi perdendo espaço, conforme o Bolsa Família foi surtindo efeito na redução da pobreza e a economia foi crescendo, com emprego e salários bombando.
Esse efeito, aliás, deixou o outro espectro partidário louco. Vejam Arthur Virgílio, um dos principais nomes do PSDB, senador por Amazonas. Bateu todo santo dia no governo desde 2003. Agora, em pleno ano eleitoral, precisando se reeleger, Virgílio sumiu. Não aparece do lado de José Serra, candidato à presidente por seu partido, e não critica Lula e Dilma de forma nenhuma.
O P-SOL, Partido Socialismo e Liberdade, se perdeu.
Não tem força no movimento estudantil, na classe operária ou no establishment político -- prefere ficar em briguinhas com PSTU, PCO, PC do B e PCB. Sem espaço, tende a desaparecer. Isso é algo péssimo para a democracia brasileira. Dos partidos de esquerda que citei, o P-SOL é o que têm quadros mais qualificados na academia, pensadores próximos deles no movimento sindical e na sociologia, além de jovens universitários de cabeça boa (há, também, muitos jovens universitários próximos ao P-SOL que só falam asneiras, é claro, mas tem mais desses nos outros partidos de esquerda que no P-SOL).
O partido não só fica de birra com os outros nanicos e outros nem tão nanicos assim -- o PC do B, por exemplo, é um partido grande -- como também está rachado internamente. A antiga líder Heloísa Helena não está com o atual candidato à Presidência do partido, Plínio de Arruda Sampaio que, mesmo com toda a boa vontade das forças cósmicas não chegará a 1,5% dos votos nas eleições de outubro.
O P-SOL, se não se reiventar, e se não fizer isso logo, vai desaparecer.
***
O Raphael Tsavkko escreveu uma bela análise do P-SOL, que, inclusive, me inspirou a escrever o que penso do partido, nesse curto post. Os leitores estão convidados a ler "No que o P-SOL falhou?".
Uma tese boa do Tsavkko: o P-SOL nasceu para ser o PT justamente quando a maioria queria a continuidade do PT. Conseguiu fazer barulho em 2005 e 2006, quando escândalos mil surgiram, mas logo foi perdendo espaço, conforme o Bolsa Família foi surtindo efeito na redução da pobreza e a economia foi crescendo, com emprego e salários bombando.
Esse efeito, aliás, deixou o outro espectro partidário louco. Vejam Arthur Virgílio, um dos principais nomes do PSDB, senador por Amazonas. Bateu todo santo dia no governo desde 2003. Agora, em pleno ano eleitoral, precisando se reeleger, Virgílio sumiu. Não aparece do lado de José Serra, candidato à presidente por seu partido, e não critica Lula e Dilma de forma nenhuma.
terça-feira, 3 de agosto de 2010
De afazeres e obrigações
Como os leitores cá do Blog bem sabem, o blogueiro esteve na Turquia no começo de maio. Visitei cinco cidades em sete dias, tendo ficado três em Istambul -- ou seja, o resto foi mais corrido. Além das reportagens sobre a economia e o empresariado turco, ainda tive chance de escrever sobre como foi visto nas ruas o acordo chancelado entre turcos e brasileiros pelo enriquecimento de urânio no Irã. Estava lá, na Turquia, quando o acordo foi selado.
Escrevi tudo isso para o Valor. Ficou faltando apenas uma reportagem, mais light, com foco de turismo. Escolhi falar de Ancara, a capital da Turquia, que fica a uma ponte aérea de Istambul. A matéria será publicada na semana próxima semana, na revista mensal do jornal, Valor Investe.
Escrever essa última matéria, tempos depois de voltar, serviu para rememorar impressões e sensações. E acabou coincidindo com o belo jantar que tive no sábado no restaurante turco Kösebasi (pronuncia-se "Cochebaxi") com os colegas jornalistas que participaram da comitiva do governo turco em maio. Fica registrado o abraço aos amigos Ricardo Lessa e Ricardo Rossini, da Globonews, José Eduardo Barella, do Estadão, Renata Malkes, de O Globo e aos que viajaram, mas não estavam no Kosebasi, sábado: Samy Adguirni e Marcos Flamínio da Folha e Milton Gamez, da IstoÉ.
Agora a parada é outra. Viajo amanhã a Paraty (RJ) para cobrir a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Fico em Paraty até domingo à noite, quando volto à São Paulo.
Conheço a belíssima Paraty, mas nunca cobri a Flip, que, nesse ano, está uma maravilha.
Os leitores do Blog podem conferir a programação clicando aqui. Tentarei trazer notas e reflexões para cá durante a Flip, mas não posso prometer nada ;-)
Escrevi tudo isso para o Valor. Ficou faltando apenas uma reportagem, mais light, com foco de turismo. Escolhi falar de Ancara, a capital da Turquia, que fica a uma ponte aérea de Istambul. A matéria será publicada na semana próxima semana, na revista mensal do jornal, Valor Investe.
Escrever essa última matéria, tempos depois de voltar, serviu para rememorar impressões e sensações. E acabou coincidindo com o belo jantar que tive no sábado no restaurante turco Kösebasi (pronuncia-se "Cochebaxi") com os colegas jornalistas que participaram da comitiva do governo turco em maio. Fica registrado o abraço aos amigos Ricardo Lessa e Ricardo Rossini, da Globonews, José Eduardo Barella, do Estadão, Renata Malkes, de O Globo e aos que viajaram, mas não estavam no Kosebasi, sábado: Samy Adguirni e Marcos Flamínio da Folha e Milton Gamez, da IstoÉ.
Agora a parada é outra. Viajo amanhã a Paraty (RJ) para cobrir a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Fico em Paraty até domingo à noite, quando volto à São Paulo.
Conheço a belíssima Paraty, mas nunca cobri a Flip, que, nesse ano, está uma maravilha.
Os leitores do Blog podem conferir a programação clicando aqui. Tentarei trazer notas e reflexões para cá durante a Flip, mas não posso prometer nada ;-)
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segunda-feira, 2 de agosto de 2010
BC deve salvar quem apostou e errou
O Banco Central deve oferecer nesta semana contratos de swap cambial reverso. Tem um objetivo: salvar as instituições financeiras, que apostaram quase US$ 20 bilhões -- sim, vinte bilhões de dólares -- no cupom cambial, torcendo para que o real se valorize mais para ganharem mais dinheiro.
Vou explicar essa história toda. O jogo vai entrar no economês, como há muito não entrava aqui no Blog, então tirem as crianças da sala que o blogueiro já arregaçou as mangas.
Os bancos e instituições financeiras, nacionais e estrangeiras, estão montadas em gigantescas posições vendidas, tanto no mercado a vista quanto no de futuros. Estão com pouco mais de US$ 13 bilhões à vista e outros US$ 8,53 bilhões em contratos futuros, levando em conta contratos de dólar e o cupom cambial. É a posição mais elevada desde junho de 2008 -- quando, vale lembrar, o dólar escorregou de R$ 1,70 até bater no chão, atingindo R$ 1,56 em setembro daquele ano, pouco antes da explosão da crise mundial.
Dessa vez, o dólar oscila entre R$ 1,80 e R$ 1,75. Essa montanha de bancos vendidos ambiciona levar o dólar mais para baixo, coisa de R$ 1,70 ou R$ 1,65. Assim, eles ganham suas apostas e, mais que isso, ampliam seus lucros em dólares.
O problema é que não há dólares no mercado brasileiro suficientes para remunerar todos esses contratos. Pior ainda: o Banco Central passou o primeiro semestre com compras alucinadas de dólares, justamente para evitar que a cotação do real se valorize ainda mais. A situação é tão caótica que mesmo os exportadores, os principais entregadores de dólares, oriundos de suas vendas, não estão trazendo divisas, aproveitando a prerrogativa legal de manter até 100% de seu câmbio no exterior. Estamos falando de algo como US$ 20 bilhões ou US$ 30 bilhões que estão fora do país, aguardando uma moeda mais desvalorizada para entrar.
Moeda desvalorizada essa que, se ocorrer, como querem os exportadores e economistas desenvolvimentistas, vai deixar os bancos vendidos em dólar com um abacaxi bilionário nas mãos. Não é pouca coisa.
Uma parte dos analistas entende que o Banco Central forçou essa posição vendida dos bancos. Ao comprar montanhas de dólares, o BC meio que "empurrou" as instituições financeiras a apostarem na valorização do real, indo para a ponta vendida do mercado. Até meados de julho, o fluxo cambial acumulado no ano foi positivo em US$ 1,33 bilhão. Mas as compras do BC no mercado à vista foram de US$ 14,7 bilhões.
Assim, ficou no mercado uma conta negativa de US$ 13,37 bilhões.
Quanto os bancos compraram no mercado à vista mesmo? Ah sim, algo como US$ 13 bilhões.
Voilá.
As apostas foram feitas com captações externas, algo comum no mercado financeiro. Os bancos tomam dólares no mercado externo, onde os juros (e portanto o custo) são bem menores e trazem ao Brasil, onde o Banco Central tem comprado tudo e mais um pouco. Em troca, o BC entrega reais. Com os reais em mãos, os bancos usam esse dinheiro para crédito -- o que é bom, aqui -- ou ainda para ganharem juros. Isso porque o BC, ao entregar reais pra comprar os dólares, em seguida oferece títulos públicos, que pagam Selic, a maior taxa de juros do mundo. A ideia do BC é diminuir o estoque de reais na economia, para não gerar inflação. Os bancos, portanto, ficam com duas operações super vantajosas nas mãos: ou oferecem reais no mercado doméstico a uma taxa de juros absurda tanto para PF quanto para PJ, ou pegam os títulos públicos e ficam ganhando a Selic.
Para que essa operação seja bem sucedida, no entanto, os bancos têm de valorizar o real para rentabilizar sua posição vendida, ou seja, no final das contas, ao comprar mais dólares que o fluxo efetivo, o BC dá uma força aos bancos e indiretamente fomenta a valorização do real. Isso deu certo desde o início do ano, quando o real escorregou de R$ 1,90 para R$ 1,75, mas não deve ir muito além disso.
Os bancos e o mercado como um todo sacou isso. E agora está em pânico com um mico de US$ 13 bilhões no mercado a vista e US$ 8,34 bilhões no futuro. Se não entrarem dólares, o abacaxi aparece.
Eis que surge, então, o contrato de swap cambial reverso, que o BC deve oferecer ao mercado.
Essa modalidade de contrato é, na prática, um oferecimento de dólares em algum momento futuro ao comprador. Até lá, o BC se compromete a pagar juros Selic.
É um contrato de ganha-ganha para quem compra. Primeiro porque tem a garantia que o BC vai entregar os dólares que o comprador tanto precisa, para cobrir o rombo de suas apostas vendidas. Segundo porque, até receber os dólares, o comprador do swap reverso vai embolsando a Selic.
Uma parcela dos economistas advoga que o BC deve deixar os bancos se virarem sozinhos. Quer dizer, se entraram nessa, devem se virar para sair também. Mas não é bem assim. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que costuma discordar do Banco Central até em par ou ímpar já disse que apoia o BC na venda de contratos de swap cambial reverso.
A cabeça aqui é a seguinte: se não ocorrer, o choque no sistema financeiro será grande demais para ser resolvido sozinho. Melhor vender os contratos e aumentar o endividamento público numa operação complexa, que pouca gente presta a atenção e/ou entende, que gerar uma crise financeira desnecessária.
Vou explicar essa história toda. O jogo vai entrar no economês, como há muito não entrava aqui no Blog, então tirem as crianças da sala que o blogueiro já arregaçou as mangas.
Os bancos e instituições financeiras, nacionais e estrangeiras, estão montadas em gigantescas posições vendidas, tanto no mercado a vista quanto no de futuros. Estão com pouco mais de US$ 13 bilhões à vista e outros US$ 8,53 bilhões em contratos futuros, levando em conta contratos de dólar e o cupom cambial. É a posição mais elevada desde junho de 2008 -- quando, vale lembrar, o dólar escorregou de R$ 1,70 até bater no chão, atingindo R$ 1,56 em setembro daquele ano, pouco antes da explosão da crise mundial.
Dessa vez, o dólar oscila entre R$ 1,80 e R$ 1,75. Essa montanha de bancos vendidos ambiciona levar o dólar mais para baixo, coisa de R$ 1,70 ou R$ 1,65. Assim, eles ganham suas apostas e, mais que isso, ampliam seus lucros em dólares.
O problema é que não há dólares no mercado brasileiro suficientes para remunerar todos esses contratos. Pior ainda: o Banco Central passou o primeiro semestre com compras alucinadas de dólares, justamente para evitar que a cotação do real se valorize ainda mais. A situação é tão caótica que mesmo os exportadores, os principais entregadores de dólares, oriundos de suas vendas, não estão trazendo divisas, aproveitando a prerrogativa legal de manter até 100% de seu câmbio no exterior. Estamos falando de algo como US$ 20 bilhões ou US$ 30 bilhões que estão fora do país, aguardando uma moeda mais desvalorizada para entrar.
Moeda desvalorizada essa que, se ocorrer, como querem os exportadores e economistas desenvolvimentistas, vai deixar os bancos vendidos em dólar com um abacaxi bilionário nas mãos. Não é pouca coisa.
Uma parte dos analistas entende que o Banco Central forçou essa posição vendida dos bancos. Ao comprar montanhas de dólares, o BC meio que "empurrou" as instituições financeiras a apostarem na valorização do real, indo para a ponta vendida do mercado. Até meados de julho, o fluxo cambial acumulado no ano foi positivo em US$ 1,33 bilhão. Mas as compras do BC no mercado à vista foram de US$ 14,7 bilhões.
Assim, ficou no mercado uma conta negativa de US$ 13,37 bilhões.
Quanto os bancos compraram no mercado à vista mesmo? Ah sim, algo como US$ 13 bilhões.
Voilá.
As apostas foram feitas com captações externas, algo comum no mercado financeiro. Os bancos tomam dólares no mercado externo, onde os juros (e portanto o custo) são bem menores e trazem ao Brasil, onde o Banco Central tem comprado tudo e mais um pouco. Em troca, o BC entrega reais. Com os reais em mãos, os bancos usam esse dinheiro para crédito -- o que é bom, aqui -- ou ainda para ganharem juros. Isso porque o BC, ao entregar reais pra comprar os dólares, em seguida oferece títulos públicos, que pagam Selic, a maior taxa de juros do mundo. A ideia do BC é diminuir o estoque de reais na economia, para não gerar inflação. Os bancos, portanto, ficam com duas operações super vantajosas nas mãos: ou oferecem reais no mercado doméstico a uma taxa de juros absurda tanto para PF quanto para PJ, ou pegam os títulos públicos e ficam ganhando a Selic.
Para que essa operação seja bem sucedida, no entanto, os bancos têm de valorizar o real para rentabilizar sua posição vendida, ou seja, no final das contas, ao comprar mais dólares que o fluxo efetivo, o BC dá uma força aos bancos e indiretamente fomenta a valorização do real. Isso deu certo desde o início do ano, quando o real escorregou de R$ 1,90 para R$ 1,75, mas não deve ir muito além disso.
Os bancos e o mercado como um todo sacou isso. E agora está em pânico com um mico de US$ 13 bilhões no mercado a vista e US$ 8,34 bilhões no futuro. Se não entrarem dólares, o abacaxi aparece.
Eis que surge, então, o contrato de swap cambial reverso, que o BC deve oferecer ao mercado.
Essa modalidade de contrato é, na prática, um oferecimento de dólares em algum momento futuro ao comprador. Até lá, o BC se compromete a pagar juros Selic.
É um contrato de ganha-ganha para quem compra. Primeiro porque tem a garantia que o BC vai entregar os dólares que o comprador tanto precisa, para cobrir o rombo de suas apostas vendidas. Segundo porque, até receber os dólares, o comprador do swap reverso vai embolsando a Selic.
Uma parcela dos economistas advoga que o BC deve deixar os bancos se virarem sozinhos. Quer dizer, se entraram nessa, devem se virar para sair também. Mas não é bem assim. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que costuma discordar do Banco Central até em par ou ímpar já disse que apoia o BC na venda de contratos de swap cambial reverso.
A cabeça aqui é a seguinte: se não ocorrer, o choque no sistema financeiro será grande demais para ser resolvido sozinho. Melhor vender os contratos e aumentar o endividamento público numa operação complexa, que pouca gente presta a atenção e/ou entende, que gerar uma crise financeira desnecessária.
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domingo, 1 de agosto de 2010
Domingo
Pra que mentir
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor
Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor
Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Agenor de Miranda Araújo Neto, conhecido como Cazuza, compositor e poeta brasileiro, morto há 20 anos (07/07/1990).
Fingir que perdoou
Tentar ficar amigos sem rancor
A emoção acabou
Que coincidência é o amor
A nossa música nunca mais tocou
Pra que usar de tanta educação
Pra destilar terceiras intenções
Desperdiçando o meu mel
Devagarzinho, flor em flor
Entre os meus inimigos, beija-flor
Eu protegi o teu nome por amor
Em um codinome, Beija-flor
Não responda nunca, meu amor
Pra qualquer um na rua, Beija-flor
Que só eu que podia
Dentro da tua orelha fria
Dizer segredos de liquidificador
Você sonhava acordada
Um jeito de não sentir dor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Prendia o choro e aguava o bom do amor
Agenor de Miranda Araújo Neto, conhecido como Cazuza, compositor e poeta brasileiro, morto há 20 anos (07/07/1990).
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