A história humana é a história do poder e do amor. Da ambição por ter o amado, de alcançar a posição de alta estima. Quem quer pouco, tem pouco. Quem quer muito, tem muito. A vida é uma coleção de amores, mas também de dissabores e desilusões. Os que dão mais peso à primeira são românticos; à segunda, são melancólicos.
De romances e melancolias se fez e se faz a arte. A música, a pintura, o cinema, a interpretação cênica, a composição estética, a dança, a representação.
Vinícius de Moraes e suas 9 esposas é, para mim, dos maiores amantes brasileiros. O Gonçalves Dias do século XX. Amou muito e foi muito amado. Escreveu poesias, composições, cantou e falou muito. Viajou, conheceu, visitou, descobriu, experimentou. Mas não teve uma mulher, entre todas, que seja a representação da "mulher de Vinícius". Nesse caso, são seus parceiros nas músicas e na bebedeira, como Baden, Toquinho e Tom que são mais lembrados.
Por isso, tenho comigo que a maior história de amor foi a de Robert e Clara Schumann. Ele, compositor e pianista. Ela, pianista. Ele, de rosto redondo e cabelos revoltos. Ela, de rosto fino, suave e cabelo bem comportado. Foram Romeu e Julieta do século XIX, porque os pais de Clara, dez anos mais nova, não gostavam de seu relacionamento com Robert. Ele tinha 30, ela 20. O pai de Clara, inclusive, queria -- e por algumas vezes tentou -- matar Robert.
O pai dela tinha sido professor de piano de Robert Schumann, tido hoje como um dos maiores pianistas da história da música, ao lado de Debussy e Liszt.
Foram seis anos de namoro à revelia, de desencontros e discussões, que terminou por decisão judicial, em 10 de setembro de 1840, que deu à Robert o direito de casar com Clara. No dia seguinte, Robert deu à Clara um buquê de manuscritos de 22 "lieder" (canções para voz e piano), envoltos numa fita de veludo com a seguinte dedicatória: "À minha amada Clara, na véspera de nosso casamento, de seu Robert". Se casaram em seguida, dia 12 de setembro.
No dia seguinte à cerimônia, o casal inaugurou um Diário Conjugal. Na primeira página, as palavras: "Este caderno, iniciado hoje, tem significado íntimo: deve ser a narrativa cotidiana de tudo o que nos acontecer em nossa vida conjugal. Minha querida esposa, se você está de acordo, prometa-me observar estritamente os estatutos de nosso pacto secreto, como eu prometo fazer. A cada oito dias trocaremos de função, na direção do diário; todos os domingos, numa hora marcada (no café, se possível), faremos a transmissão do Diário, obrigatoriamente com um beijo".
Eles viveram um romance incrível, intenso, dos mais criativos da música, por dez anos. Robert, que já compusera ciclos para o piano lindos, como Papillons e Carnaval, quando eram namorados, levou sua paixão por Clara a afogá-lo em romantismo. Quando casados, Robert criou O Amor do Poeta opus 48, belíssima obra para o piano. Robert e Clara tiveram por dez anos o que muitos casais alcançam em 50 ou 60, se alcançam. Tiveram seis filhos.
Mas a sífilis que ele contraíra aos 20 anos e outros problemas mentais o levaram a um grave transtorno bipolar. Robert atirou-se no Reno em pleno inverno, tentando o suicídio. Era janeiro de 1854. Com muita relutância de Clara, que cedeu apenas após perceber o estado mental debilitado do marido, Robert foi internado em um sanatório. Lá viveu por mais dois anos.
Morreu em 29 de julho de 1856.
Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem. São incentivados pelo anacronismo e pelas facilidades a evitar o pensamento crítico. O escapismo é a ordem e o progresso é a intolerância.
quinta-feira, 29 de julho de 2010
quarta-feira, 28 de julho de 2010
O jogo na telefonia
A Portugal Telecom fechou a operação do ano nos negócios entre empresas de capital aberto no Brasil. Trata-se de um negócio que envolve a Vivo, a maior operadora de telefonia celular do Brasil, a Oi, uma das maiores do país de telefonia (celular e fixo), e as maiores empresas de telecomunicações da Espanha (Telefónica) e Portugal (Portugal Telefônica).
No jogo, temos também governo (por meio do BNDES) e fundos de pensão. Além deles, dois dos maiores grupos empresariais nacionais: a Andrade Gutierrez e a La Fonte Telecom, do grupo Jereissati.
A operação, que será concluída amanhã, a Portugal Telecom deve vender sua participação na Vivo à Telefónica, que passa a controlar a operadora de celulares. Com o dinheiro, cerca de 7,5 bilhões de euros, vai adquirir o equivalente a 22,8% da Oi, numa relação intricada, que envolve participação em cascata no capital da Oi e também dos grupos controladores, La Fonte e Gutierrez. Para isso, deve desembolsar até R$ 8,44 bilhões, pelo que consta.
O jogo entre nações fica curioso. Na Folha, semana passada se não me falha a memória, o Bresser escreveu um artigo dizendo que as disputas entre Portugal Telecom e Telefónica nada mais eram que uma reedição das batalhas econômicas que Portugal e Espanha tinham nos séculos XV, XVI e XVII. O Brasil, dizia Bresser, ficava como refém, tanto no passado de Camões e Alexandre Dumas quanto agora, em pleno governo Lula.
Com essa jogada da Portugal Telecom, que sai da Vivo para aterrizar na Oi, esta última, que fora bancada -- literalmente -- pelo governo para formar um "grande grupo de capital nacional em um setor estratégico" passa a ter um sócio estrangeiro.
Para entender o que estou dizendo, basta lembrar como foi feita a Oi.
Nasceu, em 2008, da fusão entre a Telemar e da Brasil Telecom, duas das três empresas que surgiram da privatização da Telebras, em 1998. Os empresários Carlos Jereissati e Sergio Andrade, donos da Telemar, entraram com capital próprio, mas tiveram a disposição dinheiro do BNDES e também um largo empréstimo (R$ 4,3 bilhões) do Banco do Brasil -- o maior da história do BB à um único tomador. Isso, é claro, sem contar o dinheiro que chegou dos fundos de pensão: Petros (da Petrobras), Previ (do BB) e Funcef (da Caixa Econômica Federal).
Até agora a Telemar não conseguiu deglutir toda a Brasil Telecom, que, até 2008, tinha como sócio Daniel Dantas. O jogo do capital 100% nacional, que ainda não funcionou para bancar a expansão da banda larga, durou exatos dois anos. Agora, é Brasil e Portugal, enquanto a Vivo passa a ser toda espanhola.
Xeque-mate
Pensando os negócios como fez o Bresser, demos uma reviravolta histórica. Se Portugal e Espanha antes decidiam entre si como ocupar nosso território, quatro séculos atrás, nós não assistimos às disputas entre eles pela Vivo. Na operação que fecham nessa semana, a Oi vai ficar com 10% da Portugal Telecom. O BNDES, aliás, já soltou nota sobre isso: a operação visa ampliar a internacionalização da Oi.
A conferir.
No jogo, temos também governo (por meio do BNDES) e fundos de pensão. Além deles, dois dos maiores grupos empresariais nacionais: a Andrade Gutierrez e a La Fonte Telecom, do grupo Jereissati.
A operação, que será concluída amanhã, a Portugal Telecom deve vender sua participação na Vivo à Telefónica, que passa a controlar a operadora de celulares. Com o dinheiro, cerca de 7,5 bilhões de euros, vai adquirir o equivalente a 22,8% da Oi, numa relação intricada, que envolve participação em cascata no capital da Oi e também dos grupos controladores, La Fonte e Gutierrez. Para isso, deve desembolsar até R$ 8,44 bilhões, pelo que consta.
O jogo entre nações fica curioso. Na Folha, semana passada se não me falha a memória, o Bresser escreveu um artigo dizendo que as disputas entre Portugal Telecom e Telefónica nada mais eram que uma reedição das batalhas econômicas que Portugal e Espanha tinham nos séculos XV, XVI e XVII. O Brasil, dizia Bresser, ficava como refém, tanto no passado de Camões e Alexandre Dumas quanto agora, em pleno governo Lula.
Com essa jogada da Portugal Telecom, que sai da Vivo para aterrizar na Oi, esta última, que fora bancada -- literalmente -- pelo governo para formar um "grande grupo de capital nacional em um setor estratégico" passa a ter um sócio estrangeiro.
Para entender o que estou dizendo, basta lembrar como foi feita a Oi.
Nasceu, em 2008, da fusão entre a Telemar e da Brasil Telecom, duas das três empresas que surgiram da privatização da Telebras, em 1998. Os empresários Carlos Jereissati e Sergio Andrade, donos da Telemar, entraram com capital próprio, mas tiveram a disposição dinheiro do BNDES e também um largo empréstimo (R$ 4,3 bilhões) do Banco do Brasil -- o maior da história do BB à um único tomador. Isso, é claro, sem contar o dinheiro que chegou dos fundos de pensão: Petros (da Petrobras), Previ (do BB) e Funcef (da Caixa Econômica Federal).
Até agora a Telemar não conseguiu deglutir toda a Brasil Telecom, que, até 2008, tinha como sócio Daniel Dantas. O jogo do capital 100% nacional, que ainda não funcionou para bancar a expansão da banda larga, durou exatos dois anos. Agora, é Brasil e Portugal, enquanto a Vivo passa a ser toda espanhola.
Xeque-mate
Pensando os negócios como fez o Bresser, demos uma reviravolta histórica. Se Portugal e Espanha antes decidiam entre si como ocupar nosso território, quatro séculos atrás, nós não assistimos às disputas entre eles pela Vivo. Na operação que fecham nessa semana, a Oi vai ficar com 10% da Portugal Telecom. O BNDES, aliás, já soltou nota sobre isso: a operação visa ampliar a internacionalização da Oi.
A conferir.
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terça-feira, 27 de julho de 2010
Economia desacelerando
Conversei ontem com Carlos Loureiro, presidente do Instituto Nacional dos Distribuidores de Aço (Inda). Trata-se de um dos melhores empresários para análises de conjuntura, além de tocar uma organização que produz ótimos levantamos sobre seu setor. Coloquei os números de nossa conversa na matéria de hoje do Valor.
As vendas de aço no Brasil estão em queda. E não é de hoje. Desde o recorde de março, quando foram distribuídos 381 mil toneladas de aço, os números mensais vem caindo. Foram 342 mil toneladas em abril e 320 mil toneladas em maio e junho. Agora, em julho, o Inda aposta que as vendas não serão superiores a 295 mil toneladas.
Ao mesmo tempo, os estoques estão aumentando. Como o ritmo estava muito forte no primeiro trimestre, os distribuidores passaram a demandar mais aço das siderúrgicas. Mas o mercado foi perdendo força, e os contratos, já firmados, resultaram em aumento de estoques, uma vez que as vendas foram diminuindo. Agora em julho, cerca de 405 mil toneladas de aço foram compradas -- e apenas 295 mil vendidas. Assim, os estoques acumulados até este mês pelos distribuidores de aço é suficiente para 4,3 meses -- muito acima dos 2,6 meses da média histórica da década.
Este é apenas um traço de um desenho muito maior. A economia está arrefecendo. Isso quer dizer que continua crescendo, mas não mais naquele ritmo alucinante do último trimestre do ano passado e do primeiro de 2010. As coisas começam a entrar na normalidade, diminuindo a pressão sobre o Banco Central, que pode fazer uma política de juros mais próxima da realidade.
Se ele vai de fato fazer é outra história.
As vendas de aço no Brasil estão em queda. E não é de hoje. Desde o recorde de março, quando foram distribuídos 381 mil toneladas de aço, os números mensais vem caindo. Foram 342 mil toneladas em abril e 320 mil toneladas em maio e junho. Agora, em julho, o Inda aposta que as vendas não serão superiores a 295 mil toneladas.
Ao mesmo tempo, os estoques estão aumentando. Como o ritmo estava muito forte no primeiro trimestre, os distribuidores passaram a demandar mais aço das siderúrgicas. Mas o mercado foi perdendo força, e os contratos, já firmados, resultaram em aumento de estoques, uma vez que as vendas foram diminuindo. Agora em julho, cerca de 405 mil toneladas de aço foram compradas -- e apenas 295 mil vendidas. Assim, os estoques acumulados até este mês pelos distribuidores de aço é suficiente para 4,3 meses -- muito acima dos 2,6 meses da média histórica da década.
Este é apenas um traço de um desenho muito maior. A economia está arrefecendo. Isso quer dizer que continua crescendo, mas não mais naquele ritmo alucinante do último trimestre do ano passado e do primeiro de 2010. As coisas começam a entrar na normalidade, diminuindo a pressão sobre o Banco Central, que pode fazer uma política de juros mais próxima da realidade.
Se ele vai de fato fazer é outra história.
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O perfil da UGT
Durante meses participei de reuniões, algumas fechadas, seminários e eventos. Tive uma série de conversas, cafés, almoços e ligações com gente graúda do movimento sindical. A ideia era montar o perfil da União Geral dos Trabalhadores (UGT), a terceira maior central sindical do país.
O perfil ficou pronto ontem e o Valor publica hoje, em sua página especial.
Para ler, clique no site do jornal.
***
O Celso Rocha de Barros, que toca o Na Prática a Teoria é Outra (NPTO), comentou sobre a matéria. Ele lembra da Social Democracia Sindical (SDS), tocada pelo Alemão, que existiu sim -- e, como coloquei na matéria, foi uma das três centrais que se uniram para criar a UGT.
O Medeiros, fundador da Força Sindical, foi filiado sim ao PFL -- foi eleito deputado federal pelo partido.
O perfil ficou pronto ontem e o Valor publica hoje, em sua página especial.
Para ler, clique no site do jornal.
***
O Celso Rocha de Barros, que toca o Na Prática a Teoria é Outra (NPTO), comentou sobre a matéria. Ele lembra da Social Democracia Sindical (SDS), tocada pelo Alemão, que existiu sim -- e, como coloquei na matéria, foi uma das três centrais que se uniram para criar a UGT.
O Medeiros, fundador da Força Sindical, foi filiado sim ao PFL -- foi eleito deputado federal pelo partido.
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segunda-feira, 26 de julho de 2010
Sobre o trancamento da Justiça
Na semana passada, num café com uma fonte, conversávamos sobre movimento sindical. Pela tangente, acabei me deparando com uma das grandes travas de nossa Justiça: o jeitinho, e a incapacidade das diferentes esferas compartilharem decisões.
Ele contou que determinada ação foi conquistada por sua defesa na primeira instância. Depois, perdeu na segunda. O caso alcançou o Supremo Tribunal Federal (STF), a última instância no organograma jurídico nacional. Lá, ele ganhou.
Três anos depois, o reclamante pegou a decisão da segunda instância, que lhe era favorável, e entrou com pedido junto à procuradoria do Ministério Público, em outro tribunal. A juíza acatou. Minha fonte, então, foi cobrada, como se tivesse perdido o caso, mesmo que, três anos antes, o STF já tenha se posicionado sobre o assunto.
O caso voltou ao Supremo, que deve analisar a mesma pauta no mês que vem. Dirá, é claro, que sua decisão continua a mesma, uma vez que o mérito não mudou, apenas trocou de tribunal.
Assim, a Justiça brasileira não sai do lugar. O Supremo analisa o mesmo caso duas vezes. E faz isso com uma série de casos e processos. Da mesma forma o STJ e as instâncias inferiores.
Mais do que ampliar os gastos com salários no Judiciário -- os maiores entre as três esferas da República -- é preciso informatizar processos. Precisamos desenvolver e implementar um software conjunto, que arquive todos os processos, decisões e atas das instâncias inferiores e superiores da Justiça brasileira, o que, além de acabar com as pilhas e pilhas de papéis que ocupam espaços enormes e se perdem em caixas, tornaria a consulta mais ágil.
O Supremo não precisaria votar duas vezes a mesma questão. E a Justiça ganharia velocidade.
Ele contou que determinada ação foi conquistada por sua defesa na primeira instância. Depois, perdeu na segunda. O caso alcançou o Supremo Tribunal Federal (STF), a última instância no organograma jurídico nacional. Lá, ele ganhou.
Três anos depois, o reclamante pegou a decisão da segunda instância, que lhe era favorável, e entrou com pedido junto à procuradoria do Ministério Público, em outro tribunal. A juíza acatou. Minha fonte, então, foi cobrada, como se tivesse perdido o caso, mesmo que, três anos antes, o STF já tenha se posicionado sobre o assunto.
O caso voltou ao Supremo, que deve analisar a mesma pauta no mês que vem. Dirá, é claro, que sua decisão continua a mesma, uma vez que o mérito não mudou, apenas trocou de tribunal.
Assim, a Justiça brasileira não sai do lugar. O Supremo analisa o mesmo caso duas vezes. E faz isso com uma série de casos e processos. Da mesma forma o STJ e as instâncias inferiores.
Mais do que ampliar os gastos com salários no Judiciário -- os maiores entre as três esferas da República -- é preciso informatizar processos. Precisamos desenvolver e implementar um software conjunto, que arquive todos os processos, decisões e atas das instâncias inferiores e superiores da Justiça brasileira, o que, além de acabar com as pilhas e pilhas de papéis que ocupam espaços enormes e se perdem em caixas, tornaria a consulta mais ágil.
O Supremo não precisaria votar duas vezes a mesma questão. E a Justiça ganharia velocidade.
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domingo, 25 de julho de 2010
Domingo
Com um grande termômetro no chapéu
e um certo ar marcial de gênero equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza que há de vir de longe
a formiga que vem de muito muito longe
Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino
para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade.
Mário Cesariny de Vasconcelos, escritor, mestre do surrealismo português. Esta, acima, que chamou de "Parada" (1962), é das preferidas do blogueiro.
e um certo ar marcial de gênero equidistante
todos saíram hoje das suas casas na duna
para a rua a soprar o vento que vem de longe
a certeza que há de vir de longe
a formiga que vem de muito muito longe
Os prisioneiros polícias dos polícias prisioneiros
nas montras nos passeios por baixo dos bancos
passam os pontos escuros para o outro lado
sem esquecer o espelho
sem esquecer o aranhiço meticulosamente pequenino
para fazer a surpresa
sem esquecer a borboleta tonta que sobe no horizonte
da cor do sol
o pescoço da nossa felicidade.
Mário Cesariny de Vasconcelos, escritor, mestre do surrealismo português. Esta, acima, que chamou de "Parada" (1962), é das preferidas do blogueiro.
quinta-feira, 22 de julho de 2010
A volta dos que não foram
Do jeito que a campanha eleitoral degringolou, o incauto, pego de surpresa, poderia debulhar-se numa crise de depressão. Não vou dizer que não esperava nível tão baixo, mas, de qualquer jeito, me assustou a velocidade com que as coisas alcançaram o chão.
Na semana passada, o vice de José Serra (PSDB), o deputado Índio da Costa (DEM), disse que o PT tem ligação com as Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Ontem, se superou. Disse que, além das Farc, o PT mantém relação com o Comando Vermelho, que domina o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, cidade na qual Índio é dos principais expoentes da elite zona sul, principal consumidora das drogas vendidas pelo CV.
Sua lógica é a seguinte: As Farc praticam o narcotráfico, na Colômbia. De lá, remete a droga ao Brasil. Por aqui, é o Comando Vermelho quem recebe. Assim, Farc mantêm relação com Comando Vermelho. Como o PT, segundo Índio, tem relação com as Farc, logo: PT-Farc-Comando Vermelho.
Isso tudo sem apresentar nenhuma prova de nada.
Claro que Índio é aplaudido por sua claque, a elite zona sul do Rio e de São Paulo, a famosa República do Morumbi-Leblon, conforme denominação idelberiana. Mas com essas afirmações, Índio não consegue ir além disso, quer dizer, não arranca votos de ninguém, não torna sua chapa, PSDB-DEM, mais competitiva. Quem acha que o PT é isso mesmo, ligado às Farc e ao Comando Vermelho, já não ia votar em Dilma, independentemente do Índio dizer o que acha. E quem pense que ele está enganado, não iria votar em Serra de qualquer jeito. É pregação para convertido, como diria um amigo meu.
Ou seja, suas declarações não servem ao jogo eleitoral, para ver quem ganha e quem perde. Serve apenas para deixar o nível mais baixo.
Condeno a atitude de Índio como já cansei de condenar atitudes impensadas de Dilma, Lula, Marina, Ciro, ou quem quer que seja. É importante entender isso. O rapaz do DEM errou, e errou feio, não porque é do DEM ou porque é da zona sul carioca. Errou porque falou bobagem. Pior: afirmou algo sem apresentar provas.
Seria o mesmo que alguém do PT chegar e dizer que o DEM recebe dinheiro da direita americana. Recebe? É claro que não. Mas a partir do momento que se banaliza a obrigatoriedade de apresentação de provas para afirmações categóricas que envolvam destinos, pessoais ou políticos, de alguém, tudo fica liberado.
É isso que precisa ser coibido, se ainda temos a ilusão de elevar o nível da campanha 2010.
***
Índio da Costa, ao ligar PT com grupos guerrilheiros latino-americanos, nada fez que a prática normal do DEM, seu partido, que é useiro e vezeiro da tática de colar nos partidos de esquerda a pecha de serem antigos guerrilheiros.
É uma coisa estranha até. A grande crítica da direita brasileira à esquerda é que esta não esquece a ditadura militar. Mas é justamente o que faz o DEM quando tenta colar na esquerda a imagem da guerrilha do passado.
Se querem esquecer a ditadura, que esqueçam todos, certo?
***
Mas, já que ninguém esquece um dos períodos mais negros da história brasileira, lá vamos nós. Alguém precisa avisar os eleitores interessados em ditadura que todos os três principais candidatos à Presidência em 2010 foram extremamente contrários à ditadura militar.
Dilma Rousseff (PT) pertenceu à VAR-Palmares, grupo guerrilheiro que existiu entre 1968 e 1974. Foi presa.
Marina Silva (PV) militou no Partido Revolucionário Comunista (PRC), na segunda metade dos anos 1970.
José Serra (PSDB) foi da Ação Popular -- um racha da Juventude Universitária Católica (JUC) -- que flertou com o marxismo e, posteriormente, acabou se incorporando ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Além disso, Serra era o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964, quando os militares, apoiados pela UDN e pela elite católica paulista, deram um golpe no Estado, retirando o presidente da República eleito democraticamente, João Goulart, e instauraram uma ditadura.
***
Pouco antes de morrer, em 1997, mestre Darcy Ribeiro escreveu que "se olharmos com a atenção, a ditadura militar, ao arrasar o país que existia e se construía até 1964, não pode ser esquecida".
***
Falando sério. Estamos em 2010. Ficar discutindo que fulano é guerrilheiro, sicrano é latifundiário, beltrano é comunista é como aquela pessoa que chora todo santo dia porque deixou de ser criança.
Vamos crescer, ladies and gentleman. O mundo está avançando e tem muita gente ficando para trás.
Na semana passada, o vice de José Serra (PSDB), o deputado Índio da Costa (DEM), disse que o PT tem ligação com as Farc, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia. Ontem, se superou. Disse que, além das Farc, o PT mantém relação com o Comando Vermelho, que domina o tráfico de drogas no Rio de Janeiro, cidade na qual Índio é dos principais expoentes da elite zona sul, principal consumidora das drogas vendidas pelo CV.
Sua lógica é a seguinte: As Farc praticam o narcotráfico, na Colômbia. De lá, remete a droga ao Brasil. Por aqui, é o Comando Vermelho quem recebe. Assim, Farc mantêm relação com Comando Vermelho. Como o PT, segundo Índio, tem relação com as Farc, logo: PT-Farc-Comando Vermelho.
Isso tudo sem apresentar nenhuma prova de nada.
Claro que Índio é aplaudido por sua claque, a elite zona sul do Rio e de São Paulo, a famosa República do Morumbi-Leblon, conforme denominação idelberiana. Mas com essas afirmações, Índio não consegue ir além disso, quer dizer, não arranca votos de ninguém, não torna sua chapa, PSDB-DEM, mais competitiva. Quem acha que o PT é isso mesmo, ligado às Farc e ao Comando Vermelho, já não ia votar em Dilma, independentemente do Índio dizer o que acha. E quem pense que ele está enganado, não iria votar em Serra de qualquer jeito. É pregação para convertido, como diria um amigo meu.
Ou seja, suas declarações não servem ao jogo eleitoral, para ver quem ganha e quem perde. Serve apenas para deixar o nível mais baixo.
Condeno a atitude de Índio como já cansei de condenar atitudes impensadas de Dilma, Lula, Marina, Ciro, ou quem quer que seja. É importante entender isso. O rapaz do DEM errou, e errou feio, não porque é do DEM ou porque é da zona sul carioca. Errou porque falou bobagem. Pior: afirmou algo sem apresentar provas.
Seria o mesmo que alguém do PT chegar e dizer que o DEM recebe dinheiro da direita americana. Recebe? É claro que não. Mas a partir do momento que se banaliza a obrigatoriedade de apresentação de provas para afirmações categóricas que envolvam destinos, pessoais ou políticos, de alguém, tudo fica liberado.
É isso que precisa ser coibido, se ainda temos a ilusão de elevar o nível da campanha 2010.
***
Índio da Costa, ao ligar PT com grupos guerrilheiros latino-americanos, nada fez que a prática normal do DEM, seu partido, que é useiro e vezeiro da tática de colar nos partidos de esquerda a pecha de serem antigos guerrilheiros.
É uma coisa estranha até. A grande crítica da direita brasileira à esquerda é que esta não esquece a ditadura militar. Mas é justamente o que faz o DEM quando tenta colar na esquerda a imagem da guerrilha do passado.
Se querem esquecer a ditadura, que esqueçam todos, certo?
***
Mas, já que ninguém esquece um dos períodos mais negros da história brasileira, lá vamos nós. Alguém precisa avisar os eleitores interessados em ditadura que todos os três principais candidatos à Presidência em 2010 foram extremamente contrários à ditadura militar.
Dilma Rousseff (PT) pertenceu à VAR-Palmares, grupo guerrilheiro que existiu entre 1968 e 1974. Foi presa.
Marina Silva (PV) militou no Partido Revolucionário Comunista (PRC), na segunda metade dos anos 1970.
José Serra (PSDB) foi da Ação Popular -- um racha da Juventude Universitária Católica (JUC) -- que flertou com o marxismo e, posteriormente, acabou se incorporando ao Partido Comunista do Brasil (PC do B). Além disso, Serra era o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964, quando os militares, apoiados pela UDN e pela elite católica paulista, deram um golpe no Estado, retirando o presidente da República eleito democraticamente, João Goulart, e instauraram uma ditadura.
***
Pouco antes de morrer, em 1997, mestre Darcy Ribeiro escreveu que "se olharmos com a atenção, a ditadura militar, ao arrasar o país que existia e se construía até 1964, não pode ser esquecida".
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Falando sério. Estamos em 2010. Ficar discutindo que fulano é guerrilheiro, sicrano é latifundiário, beltrano é comunista é como aquela pessoa que chora todo santo dia porque deixou de ser criança.
Vamos crescer, ladies and gentleman. O mundo está avançando e tem muita gente ficando para trás.
quarta-feira, 21 de julho de 2010
terça-feira, 20 de julho de 2010
Devaneios e convicções
A Argentina aprovou, na semana passada, o casamento entre homossexuais. É uma medida exemplar. O país avança a passos largos no campo social, mas retrocede no manejo da economia. No começo do ano fez uma bela medida, que foi a revisão da anistia, permitindo o julgamento e condenação de militares que torturaram e assassinaram civis durante sua sangrenta ditadura, entre 1976 e 1983. Agora, aprova o casamento gay.
São duas medidas corretíssimas, que o Brasil deveria seguir.
Mas me intriga a opinião de muitos, na Argentina e também aqui no Brasil, que defendem o casamento gay, mas não aprovam a adoção de crianças. Parecem aqueles que defendem o consumo de drogas, mas proíbem a produção e a venda. É muito torto isso.
Ou se permite tudo -- casamento + adoção, produção + venda + consumo de entorpecentes -- ou se proíbe tudo. Sou amplamente favorável à primeira medida, de permitir o casamento entre homossexuais e a adoção de crianças. E muito contrário à segunda. Me explico.
As pessoas são imaturas. Sou muito cioso de direitos individuais e responsabilidades. Quem me conhece, sabe. Posso discordar completamente da opinião de alguém, mas, repetindo Voltaire, defendo com todas as forças a liberdade de terem a opinião que for. Ao mesmo tempo, é preciso ter responsabilidade. Todo mundo pode ter a opinião que for, defender o que quiser, fazer o que der na telha. Mas deve arcar com as consequências e zelar pelos outros. Esses dois pontos, liberdade individual e responsabilidade, são indiscutíveis para mim.
Precisamos, como seres humanos, de poucas coisas para viver. Precisamos de 1) comida, para existir; 2) de desafios; e 3) de amor, para sermos felizes. Agora vamos lá: 1) comemos o que for preciso, em última instância. 2) criamos nossos próprios desafios. Eu escolhi ser jornalista, blogueiro, repórter, escritor e o que mais vier pela frente. São os desafios que elenquei para mim, e o que vou fazer pelos próximos anos, até morrer. 3) Temos nossa personalidade, formada, principalmente, pelo 2), e, a partir dela, procuramos alguém que nos corresponda, que nos seja suficiente. E claro, o amor também é um desafio, se não o maior.
Não preciso, não precisamos, de substâncias químicas para viver. Não preciso me entorpecer, não preciso abstrair, não preciso de nada. Crio e persigo meus desafios.
Outro dia, li na Folha que uma pesquisa entre universitários aqui de São Paulo apontava que 70% dos estudantes já tinham usado alguma droga e que 80% deles diziam que era para "esquecer dos problemas".
Este é o grande x da questão. Que problema alguém de 20 e poucos anos de idade pode ter? Mais que isso: como alguém que até bem pouco tempo estava correndo num parque de infância com os pais limpando as fraldas, pode ter um problema que precisa ser esquecido consumindo uma substância que pode, a depender de uma combinação biológica e neural, desenvolver paranoia, ataque cardíaco ou depressão?
Estou falando sério. Fora que, convenhamos, como um estudante universitário pode conseguir drogas? Pense bem. Não estou sendo ingênuo. Fui, por duas gestões, membro do Centro Acadêmico Benevides Paixão, de Jornalismo e Artes do Corpo, da PUC de São Paulo. Evidentemente que sei como isso ocorre. Minha pergunta é outra: como alguém, com 20 e poucos anos de idade, estudante universitário, compra drogas? Com que dinheiro?
Com o dinheiro do papai e da mamãe, é claro.
Há irresponsabilidade maior que essa? Não, não há. A maior parte dos vícios termina em um hospital, público ou privado, e, em última hipótese, num tratamento terapêutico ou psiquiátrico. Tudo isso tem um custo. Se for privado, a pessoa, se tiver dinheiro, pode pagar. Aí, nesse caso, não tenho nada contra. Se não tiver, alguém vai ter -- um familiar, próximo ou distante, ou um amigo. Se for público, será o Estado, ou seja, eu e todos os 191 milhões de brasileiros.
Isso é um escárnio. O dinheiro público deve servir para políticas sociais, que encham a barriga de quem não tem dinheiro -- lembram-se da necessidade humana número 1) --, para obras e serviços que melhorem o bem estar da sociedade, para levantar e administrar instituições que nos auxiliam a viver, de uma estatal de petróleo a um parque natural. Não deve servir para tratar um irresponsável que se entorpeceu porque quis.
É o cúmulo da irresponsabilidade usar o dinheiro de outrem para usar algo que, repito, ninguém precisa para viver.
Claro que o debate sobre o assunto é atravessado por ideologia. Se alguém fizer uma leitura ideológica do que acabei de escrever, vai dizer que sou progressista quanto a união civil de homossexuais, mas conservador quanto a legalização das drogas. Mas isso é uma leitura simplista, no que já deixo de sobreaviso os trolls -- à direita e à esquerda.
Se for discutir, que apresente ideias, como fiz aqui. Ideologia, quando o assunto são questões humanas, é penduricalho.
***
Atualização de quarta-feira, 21/07, à 00:33:
O post recebeu ótimas contribuições dos leitores. Não poderia ser diferente com comentaristas como Hugo Albuquerque, Leonardo Bernardes, Manuca Ferreira, Patrick, Victor Rodrigues e Tomé.
Para acompanhar, basta clicar na caixa de comentários.
***
Atualização de sexta, 30/07, às 11:28
Mestre Ruy Castro escreveu sobre o tema na semana passada na Folha. Minha carga de trabalho me impossibilitou de atualizar o post antes. Aí vai a coluna do Ruy:
No grau inferno, por Ruy Castro
A Secretaria Nacional Antidrogas, órgão do governo federal, quer criar uma agência para pesquisar os "efeitos medicinais" da maconha. Se trabalhar direito, será uma decepção para os usuários da erva: a maconha "medicinal" não viria para ser fumada -mesmo porque esta tem todos os males do tabaco e mais alguns.
A lista de mazelas provocadas pela maconha fumada, estabelecida por médicos da Universidade de Oxford e citada na Folha ("Tendências/Debates", 22/10) pelos doutores Ronaldo Laranjeira e Ana Cecília Marques, inclui dependência química, bronquite crônica, insuficiência respiratória, risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade, depressão, episódios psicóticos, leseira, apatia e baixa do rendimento escolar ou profissional.
Donde, se provadas as qualidades terapêuticas da maconha-embora ninguém tenha conseguido até hoje descobrir sua superioridade em relação às substâncias tradicionais-, seu uso deveria se dar em forma de gotas, pomada, supositório ou o que for, e não enrolada, queimada e tragada. Sem contar que, depois de amplamente vitoriosa em banir o fumacê, a sociedade não poderia aprovar a volta ao espaço público de gente soprando fumaça sobre inocentes e passivos circunstantes.
A secretaria faria melhor se concentrasse seus esforços numa guerra que o Brasil se arrisca a perder: contra o crack, a pior droga já inventada. E a mais covarde. Os traficantes, mais práticos e profissionais, e beneficiando-se da tolerância com que o Brasil encara a maconha, puseram no mercado a craconha -a maconha enriquecida com fragmentos de pedras de crack. Fulaninho, 15 anos, pega um baseado com seu fornecedor e, sem saber que ele veio premiado, fuma o crack. Com algumas tragadas, estará dependente. E no grau inferno.
***
Aliás, a exceção do comentarista "Anônimo", que falou besteira e ainda por cima não se identificou, todos os comentaristas estão de parabéns. Levantamos um debate de alto nível.
São duas medidas corretíssimas, que o Brasil deveria seguir.
Mas me intriga a opinião de muitos, na Argentina e também aqui no Brasil, que defendem o casamento gay, mas não aprovam a adoção de crianças. Parecem aqueles que defendem o consumo de drogas, mas proíbem a produção e a venda. É muito torto isso.
Ou se permite tudo -- casamento + adoção, produção + venda + consumo de entorpecentes -- ou se proíbe tudo. Sou amplamente favorável à primeira medida, de permitir o casamento entre homossexuais e a adoção de crianças. E muito contrário à segunda. Me explico.
As pessoas são imaturas. Sou muito cioso de direitos individuais e responsabilidades. Quem me conhece, sabe. Posso discordar completamente da opinião de alguém, mas, repetindo Voltaire, defendo com todas as forças a liberdade de terem a opinião que for. Ao mesmo tempo, é preciso ter responsabilidade. Todo mundo pode ter a opinião que for, defender o que quiser, fazer o que der na telha. Mas deve arcar com as consequências e zelar pelos outros. Esses dois pontos, liberdade individual e responsabilidade, são indiscutíveis para mim.
Precisamos, como seres humanos, de poucas coisas para viver. Precisamos de 1) comida, para existir; 2) de desafios; e 3) de amor, para sermos felizes. Agora vamos lá: 1) comemos o que for preciso, em última instância. 2) criamos nossos próprios desafios. Eu escolhi ser jornalista, blogueiro, repórter, escritor e o que mais vier pela frente. São os desafios que elenquei para mim, e o que vou fazer pelos próximos anos, até morrer. 3) Temos nossa personalidade, formada, principalmente, pelo 2), e, a partir dela, procuramos alguém que nos corresponda, que nos seja suficiente. E claro, o amor também é um desafio, se não o maior.
Não preciso, não precisamos, de substâncias químicas para viver. Não preciso me entorpecer, não preciso abstrair, não preciso de nada. Crio e persigo meus desafios.
Outro dia, li na Folha que uma pesquisa entre universitários aqui de São Paulo apontava que 70% dos estudantes já tinham usado alguma droga e que 80% deles diziam que era para "esquecer dos problemas".
Este é o grande x da questão. Que problema alguém de 20 e poucos anos de idade pode ter? Mais que isso: como alguém que até bem pouco tempo estava correndo num parque de infância com os pais limpando as fraldas, pode ter um problema que precisa ser esquecido consumindo uma substância que pode, a depender de uma combinação biológica e neural, desenvolver paranoia, ataque cardíaco ou depressão?
Estou falando sério. Fora que, convenhamos, como um estudante universitário pode conseguir drogas? Pense bem. Não estou sendo ingênuo. Fui, por duas gestões, membro do Centro Acadêmico Benevides Paixão, de Jornalismo e Artes do Corpo, da PUC de São Paulo. Evidentemente que sei como isso ocorre. Minha pergunta é outra: como alguém, com 20 e poucos anos de idade, estudante universitário, compra drogas? Com que dinheiro?
Com o dinheiro do papai e da mamãe, é claro.
Há irresponsabilidade maior que essa? Não, não há. A maior parte dos vícios termina em um hospital, público ou privado, e, em última hipótese, num tratamento terapêutico ou psiquiátrico. Tudo isso tem um custo. Se for privado, a pessoa, se tiver dinheiro, pode pagar. Aí, nesse caso, não tenho nada contra. Se não tiver, alguém vai ter -- um familiar, próximo ou distante, ou um amigo. Se for público, será o Estado, ou seja, eu e todos os 191 milhões de brasileiros.
Isso é um escárnio. O dinheiro público deve servir para políticas sociais, que encham a barriga de quem não tem dinheiro -- lembram-se da necessidade humana número 1) --, para obras e serviços que melhorem o bem estar da sociedade, para levantar e administrar instituições que nos auxiliam a viver, de uma estatal de petróleo a um parque natural. Não deve servir para tratar um irresponsável que se entorpeceu porque quis.
É o cúmulo da irresponsabilidade usar o dinheiro de outrem para usar algo que, repito, ninguém precisa para viver.
Claro que o debate sobre o assunto é atravessado por ideologia. Se alguém fizer uma leitura ideológica do que acabei de escrever, vai dizer que sou progressista quanto a união civil de homossexuais, mas conservador quanto a legalização das drogas. Mas isso é uma leitura simplista, no que já deixo de sobreaviso os trolls -- à direita e à esquerda.
Se for discutir, que apresente ideias, como fiz aqui. Ideologia, quando o assunto são questões humanas, é penduricalho.
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Atualização de quarta-feira, 21/07, à 00:33:
O post recebeu ótimas contribuições dos leitores. Não poderia ser diferente com comentaristas como Hugo Albuquerque, Leonardo Bernardes, Manuca Ferreira, Patrick, Victor Rodrigues e Tomé.
Para acompanhar, basta clicar na caixa de comentários.
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Atualização de sexta, 30/07, às 11:28
Mestre Ruy Castro escreveu sobre o tema na semana passada na Folha. Minha carga de trabalho me impossibilitou de atualizar o post antes. Aí vai a coluna do Ruy:
No grau inferno, por Ruy Castro
A Secretaria Nacional Antidrogas, órgão do governo federal, quer criar uma agência para pesquisar os "efeitos medicinais" da maconha. Se trabalhar direito, será uma decepção para os usuários da erva: a maconha "medicinal" não viria para ser fumada -mesmo porque esta tem todos os males do tabaco e mais alguns.
A lista de mazelas provocadas pela maconha fumada, estabelecida por médicos da Universidade de Oxford e citada na Folha ("Tendências/Debates", 22/10) pelos doutores Ronaldo Laranjeira e Ana Cecília Marques, inclui dependência química, bronquite crônica, insuficiência respiratória, risco de doenças cardiovasculares, câncer no sistema respiratório, diminuição da memória, ansiedade, depressão, episódios psicóticos, leseira, apatia e baixa do rendimento escolar ou profissional.
Donde, se provadas as qualidades terapêuticas da maconha-embora ninguém tenha conseguido até hoje descobrir sua superioridade em relação às substâncias tradicionais-, seu uso deveria se dar em forma de gotas, pomada, supositório ou o que for, e não enrolada, queimada e tragada. Sem contar que, depois de amplamente vitoriosa em banir o fumacê, a sociedade não poderia aprovar a volta ao espaço público de gente soprando fumaça sobre inocentes e passivos circunstantes.
A secretaria faria melhor se concentrasse seus esforços numa guerra que o Brasil se arrisca a perder: contra o crack, a pior droga já inventada. E a mais covarde. Os traficantes, mais práticos e profissionais, e beneficiando-se da tolerância com que o Brasil encara a maconha, puseram no mercado a craconha -a maconha enriquecida com fragmentos de pedras de crack. Fulaninho, 15 anos, pega um baseado com seu fornecedor e, sem saber que ele veio premiado, fuma o crack. Com algumas tragadas, estará dependente. E no grau inferno.
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Aliás, a exceção do comentarista "Anônimo", que falou besteira e ainda por cima não se identificou, todos os comentaristas estão de parabéns. Levantamos um debate de alto nível.
domingo, 18 de julho de 2010
Domingo
Existe em todo o homem, a todo o momento, duas postulações simultâneas, uma a Deus, outra a Satanás. A invocação a Deus, ou espiritualidade, é um desejo de elevar-se; aquela a Satanás, ou animalidade, é uma alegria de precipitar-se no abismo.
Charles Baudelaire, poeta francês.
Charles Baudelaire, poeta francês.
sexta-feira, 16 de julho de 2010
Fim de expediente
Este é um dos maiores vídeo-clipes da história. Estamos falando de uma arte que surgiu na metade dos anos 1970 e que hoje está próxima da morte. Quase ninguém mais assiste clipes musicais hoje em dia. Mas nos anos 1980 e 1990 não era bem assim.
Há divergências quanto a quem, de fato, criou o vídeo-clipe. Uns dizem que foram os Beatles, quando, em 1968, gravaram a si mesmos interpretando "Revolution" em playback. O vídeo, no entanto, era para ser divulgado em um programa específico de televisão. Como eles, muitos outros já tinham feitos vídeos parecidos antes e ainda fariam depois.
Tenho comigo -- e acho que não estou sozinho -- que o primeiro vídeo-clipe foi "Bohemian Rhapsody", do Queen, gravado em 1975. Como a banda estava em turnê pelos Estados Unidos quando a música estourou, não poderia participar de uma série de programas televisivos nos EUA e na Inglaterra, seu país de origem. Assim, como se fazia até então, era preciso gravar um vídeo da banda interpretando a música.
O Queen, no entanto, pensou que poderia aproveitar a oportunidade para ir além. Usaram cenários, efeitos de imagem e construíram um vídeo-clipe da maneira como conhecemos hoje.
Foi um sucesso danado, fazendo desencadear, a partir daí, toda uma indústria de vídeo-clipes, que tiveram nos anos 1980 seu auge, principalmente depois que Michael Jackson revolucionou a arte, em 1982, com "Thriller".
A hegemonia dos vídeo-clipes a frente de seu tempo foi dividida por MJ e Queen.
Até que, em fevereiro de 1991 surge "Innuendo". Era a música título do disco que o Queen lançava no mesmo mês. Seria o último disco do grupo, uma vez que poucos meses depois seu vocalista, Freddie Mercury, morreria de AIDS.
Além do diálogo que existe entre "Innuendo" e "Bohemian Rhapsody", uma vez que ambas são músicas longas e ao estilo Ópera-Rock que consagrou o grupo, há todo um fechamento de ciclo. O grupo atingia seu auge justamente em um de seus últimos vídeo-clipes.
Em "Innuendo" temos três fases distintas. A primeira segue o modelo de música diatônica, isto é, notas musicais cheias harmonizadas com o vocal. Em seguida temos o flamenco, música espanhola ao violão, retornando em seguida a primeira parte, em harmonia distinta, mais suave. O vídeo de Jerry Hibbert arrebatou uma série de prêmios pelo mundo. Hibbert atribuiu a cada membro do grupo uma estética de pintor específico, uma vez que o grupo decidira não aparecer, diante da debilidade física de Mercury.
Brian May, o guitarrista, passou a ser uma gravura da Inglaterra vitoriana, do século XIX. Roger Taylor, o baterista, encarnou a pintura de Jackson Pollock. John Deacon, o baixista, aparece em forma cubista de Picasso. Freddie Mercury surge como os rascunhos de Leonardo Da Vinci.
Para a montagem de "Innuendo" foram utilizados trechos da Guerra Civil espanhola (1937 -- que, aliás, influenciou Picasso a pintar seu trabalho máximo, Guernica). Esses trechos foram associados a desfiles ultrarreligiosos tanto de católicos quanto de muçulmanos, fundindo-se a imagens da invasão do Kuwait, por parte do Iraque, que pouco depois seria invadido pelas tropas norte-americanas, no que se convencionou chamar de Guerra do Golfo.
O teatro que entrecorta o vídeo-clipe é baseado nos desenhos e gravuras que ilustram o disco "Innuendo", da capa ao encarte. Todas as ilustrações do disco são do pintor francês Grandville, contemporâneo de Balzac, em meados do século XIX.
Para fechar o expediente, então, um dos maiores vídeo-clipes da história.

Assista clicando aqui.
Bom fim de semana a todos.
Há divergências quanto a quem, de fato, criou o vídeo-clipe. Uns dizem que foram os Beatles, quando, em 1968, gravaram a si mesmos interpretando "Revolution" em playback. O vídeo, no entanto, era para ser divulgado em um programa específico de televisão. Como eles, muitos outros já tinham feitos vídeos parecidos antes e ainda fariam depois.
Tenho comigo -- e acho que não estou sozinho -- que o primeiro vídeo-clipe foi "Bohemian Rhapsody", do Queen, gravado em 1975. Como a banda estava em turnê pelos Estados Unidos quando a música estourou, não poderia participar de uma série de programas televisivos nos EUA e na Inglaterra, seu país de origem. Assim, como se fazia até então, era preciso gravar um vídeo da banda interpretando a música.
O Queen, no entanto, pensou que poderia aproveitar a oportunidade para ir além. Usaram cenários, efeitos de imagem e construíram um vídeo-clipe da maneira como conhecemos hoje.
Foi um sucesso danado, fazendo desencadear, a partir daí, toda uma indústria de vídeo-clipes, que tiveram nos anos 1980 seu auge, principalmente depois que Michael Jackson revolucionou a arte, em 1982, com "Thriller".
A hegemonia dos vídeo-clipes a frente de seu tempo foi dividida por MJ e Queen.
Até que, em fevereiro de 1991 surge "Innuendo". Era a música título do disco que o Queen lançava no mesmo mês. Seria o último disco do grupo, uma vez que poucos meses depois seu vocalista, Freddie Mercury, morreria de AIDS.
Além do diálogo que existe entre "Innuendo" e "Bohemian Rhapsody", uma vez que ambas são músicas longas e ao estilo Ópera-Rock que consagrou o grupo, há todo um fechamento de ciclo. O grupo atingia seu auge justamente em um de seus últimos vídeo-clipes.
Em "Innuendo" temos três fases distintas. A primeira segue o modelo de música diatônica, isto é, notas musicais cheias harmonizadas com o vocal. Em seguida temos o flamenco, música espanhola ao violão, retornando em seguida a primeira parte, em harmonia distinta, mais suave. O vídeo de Jerry Hibbert arrebatou uma série de prêmios pelo mundo. Hibbert atribuiu a cada membro do grupo uma estética de pintor específico, uma vez que o grupo decidira não aparecer, diante da debilidade física de Mercury.
Brian May, o guitarrista, passou a ser uma gravura da Inglaterra vitoriana, do século XIX. Roger Taylor, o baterista, encarnou a pintura de Jackson Pollock. John Deacon, o baixista, aparece em forma cubista de Picasso. Freddie Mercury surge como os rascunhos de Leonardo Da Vinci.
Para a montagem de "Innuendo" foram utilizados trechos da Guerra Civil espanhola (1937 -- que, aliás, influenciou Picasso a pintar seu trabalho máximo, Guernica). Esses trechos foram associados a desfiles ultrarreligiosos tanto de católicos quanto de muçulmanos, fundindo-se a imagens da invasão do Kuwait, por parte do Iraque, que pouco depois seria invadido pelas tropas norte-americanas, no que se convencionou chamar de Guerra do Golfo.
O teatro que entrecorta o vídeo-clipe é baseado nos desenhos e gravuras que ilustram o disco "Innuendo", da capa ao encarte. Todas as ilustrações do disco são do pintor francês Grandville, contemporâneo de Balzac, em meados do século XIX.
Para fechar o expediente, então, um dos maiores vídeo-clipes da história.
Assista clicando aqui.
Bom fim de semana a todos.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010
Sobre a proibição da burca, na França
Vocês viram que o Congresso francês proibiu as mulheres de usarem burca e véu em ambientes públicos? Até me arrumei a escrever sobre o assunto, não tivesse lido O Descurvo e o Politika etc., do Hugo Albuquerque e do Raphael Neves, respectivamente.
Eles já disseram tudo o que tinha a ser dito.
Eles já disseram tudo o que tinha a ser dito.
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quarta-feira, 14 de julho de 2010
O fim do Jornal do Brasil
Em sua edição de hoje, o Jornal do Brasil, o JB, anuncia que deixará de circular a partir de 1º de setembro. Vai noticiar apenas na internet, onde consegue ser menos lido ainda. O fim do JB, depois de 119 anos, fica como o ocaso de uma época que nunca mais vai voltar.
No fundo, o JB já estava morto desde o governo Collor. Ali, o jornal começou a ser aos poucos desmantelado, chegando a meados da década de 1990 como um pastiche do que já fora, incapaz de disputar no Rio com O Globo e no Brasil com Estadão e Folha. Era uma decadência triste porque de 1959 a 1989, exatamente 30 anos, o JB foi um dos melhores jornais brasileiros e, por vezes, como na cobertura das eleições de 89, o melhor disparado.
Em junho de 1959, três jovens entraram no JB com o intuito de renovar aquele jornalzão atrasado. Eram Alberto Dines, Amilcar de Castro e Jânio de Freitas. Amilcar fez um desenho gráfico revolucionário, inspirado no pintor holandês Mondrian. Rapidamente, o JB despontou, com Jânio surgindo como um dos mais vorazes repórteres de sua geração. Ali foi criado o Caderno B, de cultura, que passou a influenciar todos os jornalões: o Estadão renovou seu Caderno B, O Globo repaginou seu Caderno 2 e a Folha criou a Ilustrada. Depois, o JB saiu na frente de novo, criando a Domingo, a primeira revista colorida que vinha encartada ao jornal, nos domingos -- ideia que os jornalões, mais uma vez, copiaram.
Foi no JB que o Brasil leu o Manifesto Neoconcreto, em 1959, uma das mais importantes peças de nossa rica cultura. A amiga Vera Pereira lembrou também, pelo twitter, do Suplemento Dominical do JB, o SDJB. Segundo Vera, que é socióloga e trabalhou como jornalista do JB entre 1960 e 1964, o SDJB tinha uma diagramação que lembrava a arte neoconcreta.
Pelo JB passaram mestres do jornalismo e da crônica, como Elio Gaspari, Zózimo, João Saldanha, Carlos Castelo Branco, Marcos Corrêa, João Máximo, Norma Couri, Ferreira Gullar.
Em 13 de dezembro de 1968, quando o então presidente Costa e Silva fechou o Congresso e baixou o Ato Institucional número 5 (AI-5), instaurando de uma vez por todas no Brasil uma ditadura que perseguia, torturava e assassinava opositores, os jornais já tinham censores -- membros do regime militar -- em suas redações. Para noticiar o AI-5, o JB fez a mais bela cobertura, das mais belas de nossa imprensa. Publicou, na edição do dia 14/12/1968, no alto da página, a previsão de tempo para o dia, como de costume. Lá, no entanto, dizia que o tempo, em Brasília, estava fechado, "com ar irrespirável".
Coisa de gênio, que escapou a censura.
Em 1989, enquanto os jornalões -- Estadão e O Globo à frente -- apoiavam descaradamente Fernando Collor, o JB fazia a cobertura mais imparcial, dando espaço a todo tipo de lado. A Folha fazia parecido, mas entre os colunistas, por abrir suas páginas a todos os lados. O JB ia além. Não eram só colunistas de todas as colorações, mas também reportagens abordando todos os lados.
A decadência começou em 1990. Muitos bambas começaram a deixar a redação. Um dos últimos grandes editores-chefes, Ricardo Noblat, que comandara a cobertura de 1989, foi um dos primeiros. Depois os repórteres especiais. Em seguida, os repórteres. Os mais experientes se aposentaram. Os mais jovens, que despontavam, ou saíram do Rio para se aventurarem em São Paulo, ou, se fossem da área de economia, iam para a Gazeta Mercantil.
Taí o desenho mais desalentador. A Gazeta, que ainda tinha uma boa equipe nos anos 90, fechou as portas no ano passado, atolada em dívidas. O JB, que ninguém mais lia, vai embora também. Não por coincidência, os dois, Gazeta e Jornal do Brasil, eram administrados, desde o início da década, pelo mesmo empresário.
Não discuto, aqui, se isso é bom ou ruim. Claro que aqueles que acham que a internet é a salvação da humanidade e onde o debate de ideias é honesto e racional, o fim do JB significa mais um tiro na velha mídia. Para aqueles que veem nos jornais o único poço de lógica fraternal, o fim do JB é a supremacia dos bem administrados.
Nem um, nem outro. O fim do JB é o que é: o assassinato de um jornal que já estava enterrado -- mais que isso: que se enterrou sozinho.
No fundo, o JB já estava morto desde o governo Collor. Ali, o jornal começou a ser aos poucos desmantelado, chegando a meados da década de 1990 como um pastiche do que já fora, incapaz de disputar no Rio com O Globo e no Brasil com Estadão e Folha. Era uma decadência triste porque de 1959 a 1989, exatamente 30 anos, o JB foi um dos melhores jornais brasileiros e, por vezes, como na cobertura das eleições de 89, o melhor disparado.
Em junho de 1959, três jovens entraram no JB com o intuito de renovar aquele jornalzão atrasado. Eram Alberto Dines, Amilcar de Castro e Jânio de Freitas. Amilcar fez um desenho gráfico revolucionário, inspirado no pintor holandês Mondrian. Rapidamente, o JB despontou, com Jânio surgindo como um dos mais vorazes repórteres de sua geração. Ali foi criado o Caderno B, de cultura, que passou a influenciar todos os jornalões: o Estadão renovou seu Caderno B, O Globo repaginou seu Caderno 2 e a Folha criou a Ilustrada. Depois, o JB saiu na frente de novo, criando a Domingo, a primeira revista colorida que vinha encartada ao jornal, nos domingos -- ideia que os jornalões, mais uma vez, copiaram.
Foi no JB que o Brasil leu o Manifesto Neoconcreto, em 1959, uma das mais importantes peças de nossa rica cultura. A amiga Vera Pereira lembrou também, pelo twitter, do Suplemento Dominical do JB, o SDJB. Segundo Vera, que é socióloga e trabalhou como jornalista do JB entre 1960 e 1964, o SDJB tinha uma diagramação que lembrava a arte neoconcreta.
Pelo JB passaram mestres do jornalismo e da crônica, como Elio Gaspari, Zózimo, João Saldanha, Carlos Castelo Branco, Marcos Corrêa, João Máximo, Norma Couri, Ferreira Gullar.
Em 13 de dezembro de 1968, quando o então presidente Costa e Silva fechou o Congresso e baixou o Ato Institucional número 5 (AI-5), instaurando de uma vez por todas no Brasil uma ditadura que perseguia, torturava e assassinava opositores, os jornais já tinham censores -- membros do regime militar -- em suas redações. Para noticiar o AI-5, o JB fez a mais bela cobertura, das mais belas de nossa imprensa. Publicou, na edição do dia 14/12/1968, no alto da página, a previsão de tempo para o dia, como de costume. Lá, no entanto, dizia que o tempo, em Brasília, estava fechado, "com ar irrespirável".
Coisa de gênio, que escapou a censura.
Em 1989, enquanto os jornalões -- Estadão e O Globo à frente -- apoiavam descaradamente Fernando Collor, o JB fazia a cobertura mais imparcial, dando espaço a todo tipo de lado. A Folha fazia parecido, mas entre os colunistas, por abrir suas páginas a todos os lados. O JB ia além. Não eram só colunistas de todas as colorações, mas também reportagens abordando todos os lados.
A decadência começou em 1990. Muitos bambas começaram a deixar a redação. Um dos últimos grandes editores-chefes, Ricardo Noblat, que comandara a cobertura de 1989, foi um dos primeiros. Depois os repórteres especiais. Em seguida, os repórteres. Os mais experientes se aposentaram. Os mais jovens, que despontavam, ou saíram do Rio para se aventurarem em São Paulo, ou, se fossem da área de economia, iam para a Gazeta Mercantil.
Taí o desenho mais desalentador. A Gazeta, que ainda tinha uma boa equipe nos anos 90, fechou as portas no ano passado, atolada em dívidas. O JB, que ninguém mais lia, vai embora também. Não por coincidência, os dois, Gazeta e Jornal do Brasil, eram administrados, desde o início da década, pelo mesmo empresário.
Não discuto, aqui, se isso é bom ou ruim. Claro que aqueles que acham que a internet é a salvação da humanidade e onde o debate de ideias é honesto e racional, o fim do JB significa mais um tiro na velha mídia. Para aqueles que veem nos jornais o único poço de lógica fraternal, o fim do JB é a supremacia dos bem administrados.
Nem um, nem outro. O fim do JB é o que é: o assassinato de um jornal que já estava enterrado -- mais que isso: que se enterrou sozinho.
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terça-feira, 13 de julho de 2010
Vamos falar de política
Bom, amigos e amigas, agora entramos de cabeça nas eleições. Já tinha dito aqui que as eleições de 2010 deram largada ainda em fevereiro de 2009, quando começou o tiroteio pesado entre PSDB e PT, com DEM e PMDB sambando no meio. De lá para cá, Marina Silva deixou o PT, se filiou ao PV e se lançou candidata. Gritem o que quiser, apoiadores do Plínio de Arruda Sampaio (PSOL), a campanha está concentrada nesses três: Dilma Rousseff (PT), a candidata do governo, José Serra (PSDB), o candidato do governo que antecedeu o atual, e Marina Silva (PV), que é a cara do partido que está no governo hoje.
O resto é conversa para boi dormir.
A Copa do Mundo serviu de interlúdio -- e este Blog adorou o resultado, porque o blogueiro está sorrindo sozinho desde que a Espanha bateu Portugal nas oitavas de final. Avisei aqui, em 15 de junho, que dividia a torcida por Brasil e Espanha. Senti a derrota brasileira, mas comemorei a conquista da Espanha como se fosse um título do Botafogo. Futebolísticamente falando, o ano não está mal: título do Fogão no Carioca (em cima do Flamengo de Bruno, ressalte-se) e da Espanha na Copa.
Mas a vida não parou, é claro.
De 11 de junho, quando a Copa começou, até 11 de julho, quando acabou, muita água rolou e é preciso ficar atento para não se perder. Vimos, bem de perto, o modo DEM de fazer política, no processo muito mal costurado pelo PSDB para escolher o vice na chapa de José Serra. Ao mesmo tempo, um projeto de poder ficou escancarado no PT, que abriu mão de disputas regionais -- os casos mais flagrantes sendo o de Minas Gerais e do Maranhão, onde a estratégia ficou óbvia -- para consolidar a candidatura de Dilma e eleger senadores. Estes, os senadores, fizeram ao menos uma coisa decente no ano: aprovaram a criação da estatal Pré-Sal Petróleo S.A., que vai administrar a operação do pré-sal.
No meio do caminho, recebemos uma notícia maravilhosa: o número de famintos no Brasil vêm diminuindo. E outra péssima -- a morte de José Saramago, um dos grandes gênios da literatura mundial.
Enquanto isso, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, o G-20, fez uma plenária no Canadá onde decidiu que a principal missão é estabilizar a grave crise econômica por meio de corte de gastos e estímulos, priorizando o orçamento equilibrado. Vimos, por aqui, que isso é um erro absoluto. Há, inclusive, casos absurdos, como da cidadezinha de Maywood, nos EUA, que demitiu todos os seus funcionários públicos.
Do outro lado do mundo, a China, a terceira maior economia do mundo, está no olho do furacão. Vaticinei, aqui no Blog, que seu modelo de crescimento acelerado, vedete do mundo capitalista desde o fim da era maoísta nos anos 1970, está acabando.
Para finalizar, num dos posts sobre a Copa, levantamos um belo debate sobre Espanha e a evolução do conceito de Estado-Nação.
Agora, sem mais lenga-lenga. A campanha eleitoral começou e o futuro do Brasil está em jogo. Mãos a massa.
O resto é conversa para boi dormir.
A Copa do Mundo serviu de interlúdio -- e este Blog adorou o resultado, porque o blogueiro está sorrindo sozinho desde que a Espanha bateu Portugal nas oitavas de final. Avisei aqui, em 15 de junho, que dividia a torcida por Brasil e Espanha. Senti a derrota brasileira, mas comemorei a conquista da Espanha como se fosse um título do Botafogo. Futebolísticamente falando, o ano não está mal: título do Fogão no Carioca (em cima do Flamengo de Bruno, ressalte-se) e da Espanha na Copa.
Mas a vida não parou, é claro.
De 11 de junho, quando a Copa começou, até 11 de julho, quando acabou, muita água rolou e é preciso ficar atento para não se perder. Vimos, bem de perto, o modo DEM de fazer política, no processo muito mal costurado pelo PSDB para escolher o vice na chapa de José Serra. Ao mesmo tempo, um projeto de poder ficou escancarado no PT, que abriu mão de disputas regionais -- os casos mais flagrantes sendo o de Minas Gerais e do Maranhão, onde a estratégia ficou óbvia -- para consolidar a candidatura de Dilma e eleger senadores. Estes, os senadores, fizeram ao menos uma coisa decente no ano: aprovaram a criação da estatal Pré-Sal Petróleo S.A., que vai administrar a operação do pré-sal.
No meio do caminho, recebemos uma notícia maravilhosa: o número de famintos no Brasil vêm diminuindo. E outra péssima -- a morte de José Saramago, um dos grandes gênios da literatura mundial.
Enquanto isso, o grupo dos 20 países mais ricos do mundo, o G-20, fez uma plenária no Canadá onde decidiu que a principal missão é estabilizar a grave crise econômica por meio de corte de gastos e estímulos, priorizando o orçamento equilibrado. Vimos, por aqui, que isso é um erro absoluto. Há, inclusive, casos absurdos, como da cidadezinha de Maywood, nos EUA, que demitiu todos os seus funcionários públicos.
Do outro lado do mundo, a China, a terceira maior economia do mundo, está no olho do furacão. Vaticinei, aqui no Blog, que seu modelo de crescimento acelerado, vedete do mundo capitalista desde o fim da era maoísta nos anos 1970, está acabando.
Para finalizar, num dos posts sobre a Copa, levantamos um belo debate sobre Espanha e a evolução do conceito de Estado-Nação.
Agora, sem mais lenga-lenga. A campanha eleitoral começou e o futuro do Brasil está em jogo. Mãos a massa.
domingo, 11 de julho de 2010
Espanha, enfim, campeã

Ganhou o time com futebol mais envolvente da Copa. Mais que 2010, a Espanha apresentou o futebol mais bacana de assistir desde a Copa de 2002 -- e não falo como descendente de espanhóis e torcedor da seleção. A final da Copa de 2006 apresentou dois times fracos -- Itália e França -- que fizeram uma final horrorosa. Ao longo da Copa, times com potencial, como Brasil e Inglaterra, também apresentaram um futebol medíocre.
O último grande futebol em Copas foi o Brasil de 2002, com um futebol bonito, gostoso de ver. Claro, essa Espanha de 2010 não se compara com os brasileiros de oito anos atrás, que tinham melhor futebol e jogadas mais bonitas. Mas é o que mais se aproximou.
Mais que o futebol de pé em pé, sem faltas e com jogadas bem costuradas, a coisa mais linda desta seleção espanhola é o fato de não perder sua ligação com o país -- em toda sua miscelânea cultural. Todos os 11 titulares jogam na Espanha. São jogadores que os espanhóis assistem em seus estádios, torcem e conhecem. Mesmo se pegar todos os 23 convocados pelo técnico Vicente Del Bosque, apenas quatro jogam fora da Espanha -- por coincidência, os quatro em times ingleses.
Uma seleção que, diferente de outros campeões menos votados de Copas passadas, pode ser escalada ao pé da letra: Casillas, Piqué, Puyol, Capdevilla, Sérgio Ramos, Xabi Alonso (ou Fábregas), Busquets, Iniesta, Xavi, Pedro (ou Fernando Torres) e David Villa. A seleção que fez o artilheiro da Copa -- David Villa -- e um dos melhores jogadores: Iniesta. Um timaço.
O último grande futebol em Copas foi o Brasil de 2002, com um futebol bonito, gostoso de ver. Claro, essa Espanha de 2010 não se compara com os brasileiros de oito anos atrás, que tinham melhor futebol e jogadas mais bonitas. Mas é o que mais se aproximou.
Mais que o futebol de pé em pé, sem faltas e com jogadas bem costuradas, a coisa mais linda desta seleção espanhola é o fato de não perder sua ligação com o país -- em toda sua miscelânea cultural. Todos os 11 titulares jogam na Espanha. São jogadores que os espanhóis assistem em seus estádios, torcem e conhecem. Mesmo se pegar todos os 23 convocados pelo técnico Vicente Del Bosque, apenas quatro jogam fora da Espanha -- por coincidência, os quatro em times ingleses.
Uma seleção que, diferente de outros campeões menos votados de Copas passadas, pode ser escalada ao pé da letra: Casillas, Piqué, Puyol, Capdevilla, Sérgio Ramos, Xabi Alonso (ou Fábregas), Busquets, Iniesta, Xavi, Pedro (ou Fernando Torres) e David Villa. A seleção que fez o artilheiro da Copa -- David Villa -- e um dos melhores jogadores: Iniesta. Um timaço.
É a seleção que fez unir um país no ano de sua mais grave crise econômica desde o fim do franquismo, nos anos 1970. Desde o craque Xabi Alonso, basco, até a formação do time, com jogadores dos arqui-rivais Barcelona e Real Madrid. Um país que se revigorou por meio do esporte, por meio da Copa do Mundo de 1982 e das Olimpíadas de Barcelona, em 1992. Que levantou equipes imbatíveis de vôlei e basquete, além dos tenistas, como Rafael Nadal, e pilotos de Fórmula 1, como Fernando Alonso.O futebol que alcançou seu auge agora já tinha sido coroado em 2008, quando essa mesma equipe venceu a Alemanha na final da Eurocopa.
Agora a Espanha não é mais apenas a melhor seleção da Europa. É a melhor seleção do mundo.
Fica a saudação e a alegria dos Villaverde, galegos que se entusiasmaram e torceram junto a seleção espanhola.
Fica a saudação e a alegria dos Villaverde, galegos que se entusiasmaram e torceram junto a seleção espanhola.
***
Com a bela imagem de Nelson Mandela passeando pelo gramado, do alto de seus 91 anos, antes do jogo, ficaria chato a Holanda, o país que colonizou a África do Sul e instituiu o regime do apartheid no país, levar a taça.
***
A Holanda, que perdeu as finais de 1974 (para a Alemanha), de 1978 (para a Argentina) e agora de 2010 (para a Espanha), daria um belo time brasileiro: o Vasco da Gama, o eterno vice.
A Holanda, que perdeu as finais de 1974 (para a Alemanha), de 1978 (para a Argentina) e agora de 2010 (para a Espanha), daria um belo time brasileiro: o Vasco da Gama, o eterno vice.
***
Atualização de segunda, 12/07, ao 12:35: que bela foto de Casillas, o capitão da seleção espanhola, abraçando um fiscal do aeroporto, na chegada dos jogadores à Espanha.
Domingo
Se o amor é fantasia, eu me encontro ultimamente em pleno carnaval.
Vinícius de Moraes, poeta brasileiro, morto há 30 anos, em 09/07 de 1980. Com ele, morria um Brasil que nunca mais voltou. No mesmo ano nos deixava Cartola, Nelson Rodrigues e Hélio Oiticica. Em 1981, morria Glauber Rocha. Em 82, Elis Regina e em 83, Clara Nunes.
Era um país lindo, maravilhoso, que dava tchau.
Vinícius de Moraes, poeta brasileiro, morto há 30 anos, em 09/07 de 1980. Com ele, morria um Brasil que nunca mais voltou. No mesmo ano nos deixava Cartola, Nelson Rodrigues e Hélio Oiticica. Em 1981, morria Glauber Rocha. Em 82, Elis Regina e em 83, Clara Nunes.
Era um país lindo, maravilhoso, que dava tchau.
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Domingo
sexta-feira, 9 de julho de 2010
O feriado paulista
A comemoração do 09 de julho de 1932 como feriado em São Paulo é uma das mais ridículas do Brasil. Os paulistas comemoram seu fracasso. Há, é claro, a lembrança das trágicas mortes de Martins, Miragaia, Dráuzio, Camargo (M.M.D.C.), logo no começo do conflito que duraria três meses.
De 1889, quando instaurada a República, até 1930, quando Getúlio Vargas tomou o poder, o Brasil era um amontoado de ideias, miseráveis e uma elite basbaque mineiro-paulista que trocavam o poder entre si. O Rio de Janeiro, a capital, praticamente não produzia líderes, servindo de alojamento dos paulistas e dos mineiros, que tocavam a política do café (São Paulo) com leite (Minas Gerais).
Veio um gaúcho, eleito governador do Rio Grande do Sul em 1926, para mudar o quadro. Era um momento de turbulência política e econômica, depois que o crash de 1929 varrera o modelo liberal que existia até então. Vargas assumiu no fim de 1930, com a promessa de alterar a Cosntituição de 1891 -- que era mesmo uma lástima.
Os paulistas, chateadinhos que perderam o poder, se revoltaram.
Em 1932 iniciaram uma revolta, depois chamada de "revolução constitucionalista", exigindo que o novo presidente adotasse uma constituição. Não deu em nada. Os paulistas até hoje acham que são mártires -- os M.M.D.C. são, porque morreram por seu ideal -- mas, no fundo, não alteraram em nada o rumo das coisas. A Constituição só viria em 1934 -- aliás, uma bela constituição. Vargas depois perderia a mão, politicamente falando, com o golpe do Estado Novo, em 1937. Mas isso é história para outro momento.
Fato que os paulistas perderam. Vargas continuou. O Brasil mudou.
Até hoje, o pessoal não engole. Viva o feriado de 09 de julho.
***
Porque bons debates não se perdem: no ano passado escrevi sobre a dita "revolução" e o post recebeu ótimos comentários.
***
Com tanta coisa na cabeça acabei deixando passar um fato mais importante que essa revolta dos paulistas chateadinhos de 1932: há 30 anos morria Vinícius de Moraes.
Vou repetir o que disse no twitter: o amor não seria o amor não fosse Vinícius. O blogueiro deve muito a ele, a quem reverencia.
De 1889, quando instaurada a República, até 1930, quando Getúlio Vargas tomou o poder, o Brasil era um amontoado de ideias, miseráveis e uma elite basbaque mineiro-paulista que trocavam o poder entre si. O Rio de Janeiro, a capital, praticamente não produzia líderes, servindo de alojamento dos paulistas e dos mineiros, que tocavam a política do café (São Paulo) com leite (Minas Gerais).
Veio um gaúcho, eleito governador do Rio Grande do Sul em 1926, para mudar o quadro. Era um momento de turbulência política e econômica, depois que o crash de 1929 varrera o modelo liberal que existia até então. Vargas assumiu no fim de 1930, com a promessa de alterar a Cosntituição de 1891 -- que era mesmo uma lástima.
Os paulistas, chateadinhos que perderam o poder, se revoltaram.
Em 1932 iniciaram uma revolta, depois chamada de "revolução constitucionalista", exigindo que o novo presidente adotasse uma constituição. Não deu em nada. Os paulistas até hoje acham que são mártires -- os M.M.D.C. são, porque morreram por seu ideal -- mas, no fundo, não alteraram em nada o rumo das coisas. A Constituição só viria em 1934 -- aliás, uma bela constituição. Vargas depois perderia a mão, politicamente falando, com o golpe do Estado Novo, em 1937. Mas isso é história para outro momento.
Fato que os paulistas perderam. Vargas continuou. O Brasil mudou.
Até hoje, o pessoal não engole. Viva o feriado de 09 de julho.
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Porque bons debates não se perdem: no ano passado escrevi sobre a dita "revolução" e o post recebeu ótimos comentários.
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Com tanta coisa na cabeça acabei deixando passar um fato mais importante que essa revolta dos paulistas chateadinhos de 1932: há 30 anos morria Vinícius de Moraes.
Vou repetir o que disse no twitter: o amor não seria o amor não fosse Vinícius. O blogueiro deve muito a ele, a quem reverencia.
quinta-feira, 8 de julho de 2010
O desenho do pré-sal
Ontem à noite o Senado aprovou a criação da estatal Pré-Sal Petróleo S.A. que vai gerir as operações de retirada e manejo do petróleo que será retirado do pré-sal. Este é o segundo grande passo -- o primeiro foi aprovar a mudança de regime, que deixa de ser por concessão e passa a ser por partilha.
O modelo será o seguinte:
O governo prospecta um campo, delimitando uma área específica no mar de onde uma petroleira poderá retirar petróleo. A camada do pré-sal é um dos investimentos mais seguros e rentáveis do mundo. Ao mesmo tempo, é uma operação cara, porque poucas empresas do mundo tem cacife financeiro e econômico para operacionalizar os campos. Daí que a Petrobras, que é uma das petroleiras mais tecnologicamente avançadas do mundo, ainda precisou ter um projeto de capitalização por parte do governo aprovado.
Com o campo definido pelo governo, há a realização de um leilão. Todas as petroleiras com interesse em participar dão seus lances e a vencedora ganha o direito de retirar o petróleo do campo leiloado. Com duas regras, apenas: 1) a Petrobras participa de todas as operações, então se ela mesmo não levar o leilão, participa do consórcio vencedor. 2) Não se trata mais de uma concessão do governo, então o petróleo retirado precisa ser compartilhado com o Estado -- por isso, a mudança para o regime de partilha.
A parte do governo será definida antes de cada leilão, que terão regras claras. O governo vai ficar com uma parte X de barris retirados. Daí parte-se para uma segunda etapa. Será realizado novo leilão em que o governo vende seus barris para a empresa que aceitar pagar o maior preço. O dinheiro conseguido nessa venda será repassado ao Fundo Social do Pré-Sal, também aprovado pelo Congresso.
Tudo isso será pensado e administrado pela nova Pré-Sal Petróleo S.A.
Será ela que vai definir os campos e os editais que serão lançados nos leilões. Será ela que supervisionará a operação nos campos, sejam eles operados apenas pela Petrobras, ou por um consórcio, nacional ou estrangeiro, com participação da Petrobras. Será ela que vai realizar o segundo leilão, que vai vender os barris recebidos pela União oriundos da partilha. Será ela, finalmente, que vai administrar o Fundo Social.
A nova estatal é importantíssima para o regime que se desenha. Será enxuta, com no máximo 130 funcionários, todos eles técnicos em engenharia, administração e indústria do petróleo. Acima, um cargo, provavelmente político, para servir de amparo às críticas -- que virão -- e às relações com empresas.
Esse modelo todo foi desenhado em 2009 e está sendo colocado em campo agora, em 2010. Mas só começa a operar no ano que vem, com novo(a) governante em Brasília.
O modelo será o seguinte:
O governo prospecta um campo, delimitando uma área específica no mar de onde uma petroleira poderá retirar petróleo. A camada do pré-sal é um dos investimentos mais seguros e rentáveis do mundo. Ao mesmo tempo, é uma operação cara, porque poucas empresas do mundo tem cacife financeiro e econômico para operacionalizar os campos. Daí que a Petrobras, que é uma das petroleiras mais tecnologicamente avançadas do mundo, ainda precisou ter um projeto de capitalização por parte do governo aprovado.
Com o campo definido pelo governo, há a realização de um leilão. Todas as petroleiras com interesse em participar dão seus lances e a vencedora ganha o direito de retirar o petróleo do campo leiloado. Com duas regras, apenas: 1) a Petrobras participa de todas as operações, então se ela mesmo não levar o leilão, participa do consórcio vencedor. 2) Não se trata mais de uma concessão do governo, então o petróleo retirado precisa ser compartilhado com o Estado -- por isso, a mudança para o regime de partilha.
A parte do governo será definida antes de cada leilão, que terão regras claras. O governo vai ficar com uma parte X de barris retirados. Daí parte-se para uma segunda etapa. Será realizado novo leilão em que o governo vende seus barris para a empresa que aceitar pagar o maior preço. O dinheiro conseguido nessa venda será repassado ao Fundo Social do Pré-Sal, também aprovado pelo Congresso.
Tudo isso será pensado e administrado pela nova Pré-Sal Petróleo S.A.
Será ela que vai definir os campos e os editais que serão lançados nos leilões. Será ela que supervisionará a operação nos campos, sejam eles operados apenas pela Petrobras, ou por um consórcio, nacional ou estrangeiro, com participação da Petrobras. Será ela que vai realizar o segundo leilão, que vai vender os barris recebidos pela União oriundos da partilha. Será ela, finalmente, que vai administrar o Fundo Social.
A nova estatal é importantíssima para o regime que se desenha. Será enxuta, com no máximo 130 funcionários, todos eles técnicos em engenharia, administração e indústria do petróleo. Acima, um cargo, provavelmente político, para servir de amparo às críticas -- que virão -- e às relações com empresas.
Esse modelo todo foi desenhado em 2009 e está sendo colocado em campo agora, em 2010. Mas só começa a operar no ano que vem, com novo(a) governante em Brasília.
quarta-feira, 7 de julho de 2010
Parabéns, Alemanha
A Alemanha tinha o melhor time, diziam os analistas. A Alemanha era praticamente imbatível, azucrinavam os que torciam contra o blogueiro. A Alemanha têm histórico, lembravam aqueles que preferem o chucrute a paella.
A Espanha está na final e a Alemanha não jogou absolutamente nada. Os alemães grosseirões desengonçados e feiosos (segundo as amigas), dão espaço aos espanhóis, donos do melhor toque de bola da Copa do Mundo 2010.
Que viva Espanha!

Na foto, tirada agora na semi-final, os espanhóis comemoram o gol de Puyol enquanto os alemães imbatíveis de Klose (que aparece de boca aberta na imagem) caminham de volta.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Transição eleitoral

Todos os dias costumam ser uma correria só, mas hoje superou. Só consegui assentar agora, depois de ficar de um lado para o outro desde as 8 horas. A conversa com o amigo Delela, um dos "pilotos" da equipe do Valor, valeu pelo tempo perdido em viagens de carro. Suas histórias da fase 1986 a 1989, quando, com seus 20 e poucos anos de idade, era caminhoneiro de viagens semanais São Paulo-Belém do Pará, são impagáveis.
Só fui ter notícias da vitória da Holanda sobre o Uruguai agora, porque a conversa supera o rádio ligado. Mediei os comentários aqui no Blog e atualizei o post sobre escravidão no Brasil pelo celular, entre uma pauta e outra.
A campanha eleitoral começou oficialmente hoje. Vocês viram a enxurrada que foi o Twitter à meia-noite? Muitos candidatos-twitteiros e suas assessorias não perderam tempo e já dispararam mensagens pedindo votos e anunciando seus números. A Copa, que termina domingo, ainda concentrará as atenções dos brasileiros e da mídia ao menos até segunda-feira. A partir de 12 de julho, amigos, vai ser aquela loucura.
***
Isso foi uma besteira, especialmente em período eleitoral. Isso deixa as revistas do fim de semana numa sinuca: afinal, não insinuavam que o goleiro do Flamengo, Bruno tinha mais culpa que inocência? Agora isso, segundo o Delela, recompensa os erros de um e destemperos de outro.
***
Enquanto há Copa e esperança, o Blog mantém acesa a torcida pela Espanha.
Só fui ter notícias da vitória da Holanda sobre o Uruguai agora, porque a conversa supera o rádio ligado. Mediei os comentários aqui no Blog e atualizei o post sobre escravidão no Brasil pelo celular, entre uma pauta e outra.
A campanha eleitoral começou oficialmente hoje. Vocês viram a enxurrada que foi o Twitter à meia-noite? Muitos candidatos-twitteiros e suas assessorias não perderam tempo e já dispararam mensagens pedindo votos e anunciando seus números. A Copa, que termina domingo, ainda concentrará as atenções dos brasileiros e da mídia ao menos até segunda-feira. A partir de 12 de julho, amigos, vai ser aquela loucura.
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Isso foi uma besteira, especialmente em período eleitoral. Isso deixa as revistas do fim de semana numa sinuca: afinal, não insinuavam que o goleiro do Flamengo, Bruno tinha mais culpa que inocência? Agora isso, segundo o Delela, recompensa os erros de um e destemperos de outro.
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Enquanto há Copa e esperança, o Blog mantém acesa a torcida pela Espanha.
segunda-feira, 5 de julho de 2010
Escravidão no Brasil
Durante o 13º Congresso Internacional de Renda Básica (Bien 2010), realizado na semana passada em São Paulo, um dos grandes intelectuais brasileiros, Luiz Felipe de Alencastro, fez uma palestra irretocável sobre escravidão no Brasil. A discussão que se coloca, diferente do que se pode imaginar o incauto, é atualíssima.
Nos três séculos entre 1550 e 1850, ou seja, enquanto houve a exploração da mão de obra escrava africana, cerca de 11 milhões de negros vindos da África chegaram vivos às Américas -- uma parte relevante, contada nas casas dos milhares, morreu nos porões dos navios negreiros.
Dos 11 milhões que chegaram vivos, 4,84 milhões foram para o Brasil -- o equivalente a 44% dos escravos.
A partir de 1850, com a abolição paulatina, o acúmulo de negros foi aumentando, uma vez que não morriam mais torturados ou assassinados e conseguiam, de maneira subhumana, constituir famílias. Assim, no fim do século XIX, em meio a mudança de monarquia a República, o Rio de Janeiro -- pensando centro do Rio e Niterói --, então capital do Brasil, contava com 220 mil habitantes. Desses, 105 mil eram negros escravos ou recém-libertos.
Isso quer dizer que o Rio do fim do século XIX foi a capital mais densamente habitada por escravos desde o Império Romano.
***
De lá para cá passaram 100 anos, apenas. Esse pessoal, liberado da escravidão, não tinha Estado para ajudar com ensino ou emprego público. Pior: o Estado só entrou na vida dessa enorme classe de miseráveis fardando-lhes como soldados e despachando-os à Canudos, em 1897, para matar os seus.
Os negros, então, voltaram ao Rio com os nordestinos sobreviventes. Em uma cidade que logo ganhava cara de cidade europeia -- principalmente durante o governo Campos Salles, a partir de 1902 -- não havia espaço para ex-escravos e famintos do Sertão. Eles se alojaram no Morro da Providência, dando o nome de favela aquele conjunto de moradias, usando o nome da planta favela muito presente no imaginário dos combatentes de Canudos.
***
Esse país, agora, 2010, já fez tudo o que tinha que fazer para incluir os brasileiros?
Ainda há muito o que fazer.
***
O post recebeu ótimos comentários. Vou trazê-los para o post.
Por Pedrão
A bárbarie da escravidão é chave indispensável para entender o Brasil de hoje.
O Luiz Henrique Mendes, então, lembrou do debate sobre cotas, que até hoje divide o Brasil. Há gente a favor, gente contra e até alguns que acham que não há racismo no Brasil. Não vou discutir esses últimos, porque eles moram em bolhas -- no que o Idelber convenientemente chamava de República Morumbi-Leblon.
O Luiz vai mosca: o Alencastro deu show no debate, no começo do ano.
O Hugo Albuquerque trouxe a lembrança da Guerra do Paraguai, realizada vinte anos antes de Canudos e uma década antes da abolição de 1888. Foi lá, como bem lembrou o Hugo, que os negros pela primeira vez foram inseridos como cidadãos brasileiros -- ainda que da pior maneira, porque jogados como soldados pouco preparados numa carnificina.
Concordo com ele: há um enorme abismo ainda e as cotas são a ponta. Precisamos ir além e criar cotas sociais, escalonadas por renda, desvirtuando a ideia de cota racial. Mas é melhor ter cotas que não ter -- isso não resta dúvida e não aceito discutir isso.
Finalmente, o pai deste blogueiro, estreando como comentarista, lembrou de trecho famoso do belíssimo Navio Negreiro, de Castro Alves. De lambuja, deu dica para uma seção Domingo.
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Por João Almeida
Uma obra que deve sempre ser lembrada.
***
Castro Alves foi mestre.
Nos três séculos entre 1550 e 1850, ou seja, enquanto houve a exploração da mão de obra escrava africana, cerca de 11 milhões de negros vindos da África chegaram vivos às Américas -- uma parte relevante, contada nas casas dos milhares, morreu nos porões dos navios negreiros.
Dos 11 milhões que chegaram vivos, 4,84 milhões foram para o Brasil -- o equivalente a 44% dos escravos.
A partir de 1850, com a abolição paulatina, o acúmulo de negros foi aumentando, uma vez que não morriam mais torturados ou assassinados e conseguiam, de maneira subhumana, constituir famílias. Assim, no fim do século XIX, em meio a mudança de monarquia a República, o Rio de Janeiro -- pensando centro do Rio e Niterói --, então capital do Brasil, contava com 220 mil habitantes. Desses, 105 mil eram negros escravos ou recém-libertos.
Isso quer dizer que o Rio do fim do século XIX foi a capital mais densamente habitada por escravos desde o Império Romano.
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De lá para cá passaram 100 anos, apenas. Esse pessoal, liberado da escravidão, não tinha Estado para ajudar com ensino ou emprego público. Pior: o Estado só entrou na vida dessa enorme classe de miseráveis fardando-lhes como soldados e despachando-os à Canudos, em 1897, para matar os seus.
Os negros, então, voltaram ao Rio com os nordestinos sobreviventes. Em uma cidade que logo ganhava cara de cidade europeia -- principalmente durante o governo Campos Salles, a partir de 1902 -- não havia espaço para ex-escravos e famintos do Sertão. Eles se alojaram no Morro da Providência, dando o nome de favela aquele conjunto de moradias, usando o nome da planta favela muito presente no imaginário dos combatentes de Canudos.
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Esse país, agora, 2010, já fez tudo o que tinha que fazer para incluir os brasileiros?
Ainda há muito o que fazer.
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O post recebeu ótimos comentários. Vou trazê-los para o post.
Por Pedrão
A bárbarie da escravidão é chave indispensável para entender o Brasil de hoje.
O Luiz Henrique Mendes, então, lembrou do debate sobre cotas, que até hoje divide o Brasil. Há gente a favor, gente contra e até alguns que acham que não há racismo no Brasil. Não vou discutir esses últimos, porque eles moram em bolhas -- no que o Idelber convenientemente chamava de República Morumbi-Leblon.
O Luiz vai mosca: o Alencastro deu show no debate, no começo do ano.
O Hugo Albuquerque trouxe a lembrança da Guerra do Paraguai, realizada vinte anos antes de Canudos e uma década antes da abolição de 1888. Foi lá, como bem lembrou o Hugo, que os negros pela primeira vez foram inseridos como cidadãos brasileiros -- ainda que da pior maneira, porque jogados como soldados pouco preparados numa carnificina.
Concordo com ele: há um enorme abismo ainda e as cotas são a ponta. Precisamos ir além e criar cotas sociais, escalonadas por renda, desvirtuando a ideia de cota racial. Mas é melhor ter cotas que não ter -- isso não resta dúvida e não aceito discutir isso.
Finalmente, o pai deste blogueiro, estreando como comentarista, lembrou de trecho famoso do belíssimo Navio Negreiro, de Castro Alves. De lambuja, deu dica para uma seção Domingo.
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Por João Almeida
Uma obra que deve sempre ser lembrada.
***
Castro Alves foi mestre.
domingo, 4 de julho de 2010
sábado, 3 de julho de 2010
Espanha está como nunca

Essa é a manchete do El País, o principal jornal espanhol e um dos maiores jornais do mundo, que conta com um modelo online que é copiado por 9 em 10 jornais.
A seleção espanhola passou pelo Paraguai hoje na África do Sul e agora fará a semi-final com a Alemanha. Será uma repetição da final da Eurocopa de 2008, quando a Espanha despachou os alemães, que melhoraram de lá para cá.
Depois da vitória esmagadora da Alemanha hoje contra a Argentina, acho que a situação da Espanha fica difícil. Do outro lado, enfrentam-se Holanda e Uruguai. Torço pelos latinos -- Uruguai de Fórlan, Diego Lugano e Loco Abreu, e Espanha de Iniesta, Xavi, Pedro, Casillas e David Villa.
No fundo quem tem de se preocupar são os alemães. A Espanha está como nunca.
***
Aqui, o gol de Villa, o artilheiro da Copa do Mundo.
Os Villaverde, na Espanha e no Brasil, adoraram o grito da torcida espanhola: "Illa, Illa, Illa, Villa maravilla"
***
Não falo como torcedor espanhol, mas apenas repito o que outros -- mais qualificados que eu para falar de futebol -- já falaram: a escola espanhola de futebol é uma das mais belas do mundo. Jogam fácil, bonito, de pé em pé. Tiveram uma bela coroação em 2008, quando se tornaram a melhor equipe da Europa.
Melhor que isso, na realidade, é o banho de alegria que dá no país, que passa por sua mais grave crise econômica desde o franquismo, que se esgotou nos anos 1970.
sexta-feira, 2 de julho de 2010
Com a eliminação brasileira...
Resta a torcida aos latino-americanos Uruguai e Argentina -- sim, vou torcer pela Argentina contra a Alemanha -- e à Espanha, para a alegria dos Villaverde.

Atualização das 18:41
No jogo mais emocionante das Copas desde a final de 1994, o Uruguai passou por Gana. Nas semi-finais, terça-feira, se enfrentam Uruguai e Holanda. O Blog nem precisa dizer, mas diz: está com a celeste.

Atualização das 18:41
No jogo mais emocionante das Copas desde a final de 1994, o Uruguai passou por Gana. Nas semi-finais, terça-feira, se enfrentam Uruguai e Holanda. O Blog nem precisa dizer, mas diz: está com a celeste.
quinta-feira, 1 de julho de 2010
Dica de livro
Hoje meu grande amigo Alexandre Fisberg, o jornalista-ativista "Fisba", lança seu primeiro livro, Vida nos campos da morte. Para quem estiver em São Paulo, fica o convite para visitar a Livraria da Vila a partir das 18h30min para conhecer o livro e participar do coquetel.
Estou no Bien 2010, na USP. Daqui ainda corro para o Valor e do jornal, depois do fechamento, dou uma passada lá para dar um abraço nele. Vou aproveitar para rever as amigas Bruninha Bittencourt, a jornalista mais boa forma de São Paulo, Glenda Andrade, a repórter mais falante do Brasil, que só fala menos que a Júlia Bolliger, que está em farra londrina.

Mais informações aqui.
Estou no Bien 2010, na USP. Daqui ainda corro para o Valor e do jornal, depois do fechamento, dou uma passada lá para dar um abraço nele. Vou aproveitar para rever as amigas Bruninha Bittencourt, a jornalista mais boa forma de São Paulo, Glenda Andrade, a repórter mais falante do Brasil, que só fala menos que a Júlia Bolliger, que está em farra londrina.

Mais informações aqui.
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