quarta-feira, 30 de junho de 2010

DEM, que tinha saído, voltou.

Quando escrevi sobre a falta de coerência na estratégia do PSDB ao escolher Álvaro Dias como vice, no sábado, coloquei um monte de "se". "Se Álvaro Dias for confirmado como vice de José Serra...". Fiz por precaução -- sabia que não ia ser daquele jeito, o DEM da família Maia (César, Rodrigo e José Agripino) não ia engolir.

Não engoliu mesmo.

O DEM indicou hoje o deputado federal Índio da Costa, do Rio de Janeiro, para ser vice de Serra. Álvaro Dias veio a campo dizer que não tinha sido avisado. Gente do PSDB já assumiu que o DEM levou mesmo. Alguns ligados a Serra ainda não cederam. O DEM postergou sua convenção nacional e ainda não há consenso sobre nada.

Numa só tacada, vemos o modo DEM de fazer política e a estratégia do PSDB. Enquanto isso, o PT vai fazendo seu jogo de se ater aos interesses do PMDB no campo regional, para estruturar seu projeto de poder.

Muita coisa ainda vai rolar, aguardem.

terça-feira, 29 de junho de 2010

Loucura fiscalista


Escrevi hoje cedo que os países ricos estão cavando um buraco ainda mais fundo para se enfiarem, depois de terem causado a mais grave crise econômica mundial desde o crash de 1929. Ao invés de estimularem suas economias a criarem empregos e bem estar, os ricos, com Alemanha à frente, decidiram que o melhor a se fazer é cortar gastos e aumentar impostos para deixar o orçamento equilibrado.

O nível de confusão mental dos governantes dos países ricos chegou a um ponto extremo. Como informa Matthew Garrahan, correspondente do londrino Financial Times em Los Angeles (EUA), a pequena cidade de Maywood, na California, resolveu demitir todos seus funcionários públicos.

Vejam o que diz Garrahan: "Pressionada pela recessão e pela queda na receita de impostos, a pequena cidade de Maywood, no sul da California, está dissolvendo sua força policial e dispensou todos seus funcionários públicos. Foi uma solução extrema, com a terceirização dos serviços, inclusive os mais básicos. Mas a cidade não é a única nessa tendência. Estados americanos estão cortando custos onde possível. A continuidade de atividades de municipalidades, como alocação de verbas para a polícia, prédios escolares, bombeiros e programas sociais, está na alça de mira."

Na loucura de ter um orçamento equilibrado, o pessoal está demitindo funcionários públicos -- gente que não vai arranjar emprego, porque a iniciativa privada não está contratando -- e repassando para terceirizados, que fazem o serviço pior e pagando salários menores. Quem, nessas circunstâncias, vai ter dinheiro para pagar impostos? Adianta elevar impostos desse jeito?

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Estou falando, meus caros. Do jeito que está, os países ricos vão parar.
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A foto acima mostra o City Hall da pequena Maywood, vazio, numa rua sem qualquer movimento.

Países ricos estão cavando, cavando...

O grupo G-20 se reuniu no último fim de semana em Toronto, Canadá, para discutir o que as principais economias do mundo devem fazer a partir de agora, para reagir à crise que explodiu em 2008 nos Estados Unidos e foi se transformando até bater na União Europeia, em 2010, já tendo passado pelo Japão, em 2009.

Decidiram lutar. Mas lutar uma guerra arcaica. O G-20 vai lutar por um orçamento equilibrado, deixando o desenvolvimento econômico em segundo plano. Para atingir a meta, os países terão de ampliar -- e muito -- os impostos, para aumentar as receitas, e também cortar gastos e isenções fiscais. Mesmo assim, só vão alcançar orçamentos razoavelmente equilibrados a partir de 2021, mais ou menos.

É uma luta besta, quase ingênua, para não dizer arcaica.

De que vale acertar um orçamento? Para começar a crescer em 11 ou 12 anos? Por que não crescer agora? O mundo político e econômico tinha essa prioridade nos anos 30, quando explodiu a crise de 1929. O desemprego explodia, os empresários estavam falindo, bancos sumindo, pessoas se matando e depressão geral. Ao invés de entrar gastando, ampliando estímulos de toda a forma, os governantes de então entendiam que o correto era atingir o equilíbrio orçamentário.

Essa visão distorcida do mundo criou uma série de problemas -- o mais grave deles foi a ascenção dos nazistas na Alemanha de 1932. Um povo desnorteado, sem perspectivas e além de tudo visto como vilão do mundo depois da primeira guerra mundial, estava aberto à toda sorte de manipulações, e os nazistas, apelando a símbolos e patriotismo, elegendo culpados para a crise porque passavam, ganharam legitimidade.

Não precisamos ir tão longe. Até 1933, os Estados Unidos nada fizeram para resolver a grave depressão, econômica e moral, porque passavam. As taxas de desemprego e suicídio alcançadas então nunca foram repetidas. Foi então que um dos maiores estadistas do século XX entrou em campo -- Franklin D. Roosevelt -- para acertar a casa, lançando mão de gastos enormes em assistência social e qualificação profissional.

Em cinco anos os EUA retomaram o patamar que tinham em 1928, antes da crise, mas com maior coesão social e mais firmes financeiramente. Mas até Roosevelt piscou. Diante do rápido salto, o governo acabou cedendo à forte pressão dos ortodoxos dinossauros, que defendiam austeridade fiscal e o mantra do "orçamento equilibrado". Roosevelt, então, retirou os estímulos, em 1937. A economia mergulhou, forçando o governo a retomar os incentivos.

Economia em crise precisa de estímulos. Os empresários não vão fazer isso, porque não querem perder dinheiro. Trabalhadores não têm empregos, porque os empresários não querem contratar. Bancos não querem emprestar, com medo de passarem por um calote. Dinheiro não circula, porque ninguém quer gastar. É o governo quem precisa apelar para tudo. Bancos públicos, investimentos diretos, incentivos fiscais, qualquer coisa. Em momentos de crise, a coisa menos importante do mundo é o orçamento equilibrado. O orçamento se equilibra depois, quando a economia voltar a andar com as próprias pernas.

Como dizia Keynes, no longo prazo estaremos todos mortos.

A hora de agir é agora, não daqui a 12 anos. O G-20 foi tímido, ortodoxo e arcaico. E vão descobrir isso da pior maneira possível.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Os nazistas na Argentina

Anos atrás, movido por uma dúvida genuína -- para onde foram os nazistas quando sacaram que o regime hitlerista não ia dar certo? --, iniciei uma breve pesquisa. A resposta foi fácil -- foram, em sua maioria, para a Argentina. Mas queria entender o que fez os argentinos receberem gente de um dos piores regimes políticos da história humana e como essas coisas se desenrolaram.

Guardei uma série de anotações e outras tantas recordações de textos, trabalhos, livros e conversas. Nunca tive a oportunidade de escrever sobre o assunto, a não ser no início do ano passado, quando um padre na Argentina, que não reconheia o holocausto, foi deportado. Aproveitei a deixa e contei um pouco do que minha pesquisa rendeu.

Escrevi em fevereiro de 2009. O texto, como imaginava, não gerou debate -- afinal, há muito que o nazismo deixou de ser debate. Mas estava enganado.

Demorou um ano até o post receber um comentário, em março de 2010. Mais dois meses e um novo comentário, anônimo, comparava a recepção argentina ao que o Brasil faz com Cesare Battisti. Ontem recebi um novo comentário, o terceiro, dialogando com o caso Battisti.

Já me posicionei sobre Battisti aqui no Blog -- sou favorável a concessão de refúgio, e não estou sozinho. Quem quiser saber mais sobre a estadia dos nazistas na Argentina, clique aqui e aumente o debate que chegou um ano depois ;-)

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Uma amiga, consultada sobre a história, não teve dúvida em arrematar: "o post está sendo comentado agora que a seleção da Argentina na Copa está embalada".

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Nas quartas de final da Copa de 2010 se enfrentarão Alemanha x Argentina.

domingo, 27 de junho de 2010

Domingo

Viver significa tomar partido.


Friedrich Hebbel, poeta alemão.

sábado, 26 de junho de 2010

Jogada do PSDB não parece coerente

Se confirmada a ideia do PSDB lançar uma chapa puro-sangue à Presidência da República sem Aécio Neves ao lado de José Serra, parece ser a pior decisão desde o erro de espinafrar o PFL em 2001, no Congresso.

Serra, que foi candidato em 2002 sem o PFL (atual DEM), sabe o que significa sair com candidatura fragilizada. Repetir o erro não é coerente.

Ontem foi lançado, pela primeira vez, o nome de Álvaro Dias, senador do PSDB pelo Paraná, para ser o vice de Serra. Os principais aliados do PSDB -- o DEM, o PTB e uma ala do PMDB -- só aceitavam uma chapa puro-sangue do PSDB se ela fosse composta com Serra e Aécio, ex-governador de Minas Gerais. Desde que deixou a disputa interna, Aécio nunca mais ventilou essa ideia. Fez bem -- ele tem uma eleição garantidíssima como senador por Minas.

O grande nome do DEM era José Roberto Arruda. Ele, no entanto, foi cassado por corrupção ativa. Depois, chegaram a falar em Kátia Abreu e, nos últimos dias, em José Carlos Aleluia, da Bahia. Pensando estrategicamente, Aleluia seria o melhor nome para compor: baiano, atuaria em um estado governado pelo PT e funcionaria como eixo anti-Lula no Nordeste, ao lado de Jarbas Vasconcelos, que pertence à ala serrista do PMDB.

Se confirmado, Álvaro Dias pouco agrega. O Paraná já era um estado com maioria de PSDB. O prefeito de Curitiba é do partido e é bem avaliado por lá -- Beto Richa -- e já ajudaria a candidatura tucana.

Essa estratégia mais afasta que atrai. O DEM ficou descontente e não engoliu. O PP, partido de, entre outros, Paulo Maluf, que estava neutro, pode decidir aliar Dilma Rousseff, do PT -- o que deixaria o programa televisivo petista ainda mais gordo. E a ala PMDB pró-Serra, basicamente Jarbas, em Pernambuco, e Orestes Quércia, em São Paulo, podem atuar com menos motivação, uma vez que as chances diminuem.

A jogada do PSDB, pouco coerente, está fazendo os nomes por trás da candidatura pensarem. Jarbas (PMDB) e José Agripino Maia (DEM), que aparecem na imagem deste post, certamente estão. Não custa lembrar: foi Jarbas quem lançou a campanha presidencial desse ano, em fevereiro do ano passado, em entrevista à Veja.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Isto é o que importa

Mais que China, Copa do Mundo, novo disco do Coldplay (tá, tudo bem, esse último é sacanagem minha), a notícia mais importante dos últimos dias é esta aqui, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou:

Houve forte queda no número de brasileiros que ainda não se alimentam o suficiente. De 2002/2003, a última vez que o IBGE fez esse levantamento, para cá, o número caiu 25,5%. É uma queda abissal -- um quarto da população passou a se alimentar adequadamente em apenas oito anos. Não é pouca coisa.

Como também não é pouca coisa o tanto de gente que ainda passa fome. Segundo o IBGE, cerca de 35% da população brasileira não se alimenta o suficiente. Como somos cerca de 190 milhões, estamos falando de 66,5 milhões de pessoas.

Temos muito o que fazer ainda, mas não deixa de ser importantíssimo o avanço porque passamos. Vamos que vamos.

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Sempre que você tiver um problema, da ordem e magnitude que for, pense que ao menos você come. O ser humano não é nada sem comida. Todo o resto que fazemos por aqui é passatempo. Se somos engenheiros, médicos, banqueiros, jornalistas, carpinteiros. Se viajamos, namoramos, arruinamos ou somos arruinados, tudo isso são escolhas que fazemos para nos ocuparmos por 80 ou 90 anos. Mais importante que isso é comer.

Tente ficar sem comer para ver se consegue fazer qualquer coisa.

Essa é a grande luta do país e de qualquer país. E a bandeira número 1 do Blog, que se indigna quando vê conservador num país como o Brasil -- o que temos para conservar? -- ou gente indiferente -- curtir a vida é fácil quando se têm dinheiro, não? -- ou atitudes de outrem, como a do governo israelense, que priva os palestinos de comida, ou dos chineses, norte-coreanos e cubanos, que convivem numa boa com gente mal alimentada.

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É preciso politizar nossas artes para trazer essa discussão -- e todas as outras discussões que importam -- para o centro do debate cultural. Quando escrevi Versão Brasileira, uma das mensagens principais era centralizar a ideia de que a cultura é central para transformar. Quando se aposta em cinema, teatro, música e o que for de bobagens, perdemos um grande aliado na luta por mudanças. Os partidos e qualquer pessoa séria que têm ideias para alterar os nossos erros e aprofundar nossos acertos precisa encarar as artes de frente, não de costas, como nos anos 90, ou de lado, como nos anos 2000.

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E quando vem intelectual moderninho dizer que nosso cinema "cansa por repetir temas como fome e miséria"? Alguém precisa avisar o sujeito -- e todos os boçais que o levam a sério -- que enquanto esses temas forem problemas, eles devem sim ser tratados pelo cinema e pelas artes de modo geral. Claro que sempre haverá espaço para banalidades, elas são importantes também. Mas não podemos ficar só nisso.

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E lembrem-se: apenas 5% dos municípios brasileiros têm salas de cinema. Menos ainda tem anfiteatros ou espaços para shows.

É esse o país que ainda têm fome. Mas está trabalhando para diminuir. Isso é crucial: estamos conseguindo.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Interlúdio



Edward Hopper, "A Perseguição", 1939.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

O fim da era chinesa

No futuro, os historiadores econômicos olharão para os acontecimentos destes três meses, de maio a julho, como o princípio do fim do modelo chinês de alto crescimento. Forjado nos anos 1990 e impulsionado a partir de 2002-2003, o modelo chinês está assentado em mão de obra abundante -- a maior população da Terra -- e baratíssima, taxa de câmbio desvalorizada fixa, que aumenta o lucro do produto exportado, e participação (financiamento e/ou operação) do Estado nas empresas.

Essa conjunção de fatores permitiu aos chineses crescer a taxas de doís dígitos todos os anos há décadas já. Ainda continuará assim por, suponho, uns cinco ou seis anos, com taxas entre 8% e 12% de alta no PIB. Mas o modelo não será mais o mesmo e, a não ser que haja uma reviravolta no hard power do regime comunista chinês, as coisas vão começar a entrar em outros eixos.

Em maio, nove trabalhadores da Foxconn Technology se suicidaram como forma de protesto contra salários medíocres e volume massacrante de trabalho. Na China não há leis trabalhistas, tribunais que defendem os operários, salário mínimo, aposentadoria, nada. O cara trabalha 14, 15, 16 horas por dia, sete dias por semana, ganha uma ninharia (cerca de 0,75 centavos de dólar por hora) e não têm direito a nada. As multinacionais adoram, é claro. Entram lá, contratam aos montes, não têm custo algum e exportam tudo que é produzido, alavancando lucros obcenos, uma vez que o câmbio é fortemente desvalorizado.

A onda de suicídios na Foxconn, no entanto, provocou uma massa de protestos. A empresa logo ampliou salários, em 33%, fazendo com a situação voltasse ao normal. Os trabalhadores da Foxconn serão os mártires dessa nova China. Há um símbolo aí, inclusive. A Foxconn produz os aparelhos do iPhone, da Apple, e também laptops da Hewlett-Packard (HP) e da Dell, num país em que a maioria não têm computador e quando têm não tem acesso à internet liberado.

A partir dali, greves em diferentes fábricas espalhadas pelo país começaram a surgir. Na Honda Motors, uma grande greve parou as máquinas pela primeira vez na história da operação da montadora na China. As quatro montadoras da Honda no país passaram por sucessivas paralisações até concederem aumento a seus funcionários. Conseguiram um aumento de 24%.

No início do mês, operários da fábrica de autopeças Beijing Xingyuy cruzaram os braços. Na cidade de Pingdingshan, em Henan, cinco mil trabalhadores pararam por duas semanas reclamando aumento salariais.

Na semana passada, foi a vez de uma subsidiária da Toyota. Os trabalhadores de uma fábrica de autopeças em Tianjin, controlada em 42% pela Toyota, iniciaram um boicote e não retornaram ao trabalho. A companhia aceitou negociar com os funcionários, uma medida sem precedentes.

Outras multinacionais com operações enormes na China, como Daimler-Benz, Ford, Coca-Cola e PepsiCo, podem passar por processos parecidos, o que desencadearia toda uma massa descontente -- e um aumento de salários como contrapartida.

A outra perna do modelo chinês, a taxa de câmbio desvalorizada, está com dias contados, a julgar pelos relatos de gente graúda no governo chinês. Depois de manter fixo o dólar em sete yuans, o regime comunista já admite valorizar um tanto a moeda. A pressão internacional, tendo os Estados Unidos a frente, parece ter surtido efeito.

Em 1985, os Estados Unidos conseguiram amarrar o Japão, que, até então, era o que hoje pensamos em "China". O Japão cresceu por três décadas consecutivas a taxas elevadíssimas, entre 1960 e 1990. Até que Reagan, o presidente americano, convenceu os japoneses a valorizarem sua moeda, no famoso Acordo de Plaza, selado em 1985. O crescimento japonês durou exatos cinco anos mais, a partir dali. Passou por uma forte crise em 1990 e de lá para cá, o Japão está estagnado.

A China, que cresce a três décadas de maneira elevadíssima -- desde que Deng Xiaoping iniciou as reformas, em 1976 -- parece ceder às pressões americanas pela valorização de sua moeda. Não será nada drástico, é claro, mas um gesto impensável até bem pouco tempo atrás.

A moeda valorizada diminui os lucros do setor exportador e aumenta o poder de compra do mercado doméstico, além de deixar o importado mais barato. Se esse processo ocorre junto às elevações dos salários, há todo um fortalecimento do mercado interno. Guardadas as devidas proporções, é exatamente o que ocorre hoje no Brasil, percebam.

Isso tudo está ocorrendo agora, o que dificulta uma análise distanciada.

Mas as sementes do fim do modelo chinês de crescimento foram plantadas.

domingo, 20 de junho de 2010

Domingo

A bola não é a inimiga
como o touro, numa corrida;
e, embora seja um utensílio
caseiro e que se usa sem risco,
não é o utensílio impessoal,
sempre manso, de gesto usual:
é um utensílio semivivo,
de reações próprias como bicho
e que, como bicho, é mister
(mais que bicho, como mulher)
usar com malícia e atenção
dando aos pés astúcias de mão.


João Cabral de Melo Neto, poeta e diplomata brasileiro.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Morreu Saramago

"Estamos afundados na merda do mundo e não se pode ser otimista. O otimista, ou é estúpido, ou insensível, ou milionário."

José Saramago, escritor português, morto hoje, aos 87 anos.

***

Foi um escritor de mão cheia. Soube amarrar a inteligência poética com a sensibilidade do grande artista -- aquele que está inserido em seu tempo, capaz de entender desdobramentos políticos e criticar determinações. Não foi, como a grande maioria, um paspalho que ignora o mundo e seus problemas para ficar discutindo a existência, os jovens... bla bla bla.

Saramago é mestre, e à ele vai um abraço, com todo o carinho.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Nota administrativa

Depois que Estadão, Folha e Valor -- e logo O Globo também -- mudaram seu projeto gráfico, deixando mais amigável e mais moderno, é a vez do Blog também dar uma repaginada.

Aproveitei os designs oferecidos pelo sistema de publicação e dei pinceladas nas cores e no layout, para deixá-lo com a cara do anterior e assim não perder a assinatura, como dizem os especialistas nesse tipo de coisa. Ao mesmo tempo, remodelei a forma como os posts são publicados e a ordem dos fatores. Minhas mensagens no Twitter (twitter.com/joaovillaverde) que estavam linkadas na parte inferior do Blog foram trazidas para cima, do lado direito da página, acima das frases que norteiam a cabeça deste blogueiro, chamadas de "Pensatas". Aliás, adicionei mais uma frase por lá.

As seções do Blog continuam: Domingo, todo domingo. E quinzenalmente, se alternando na semana, Fim de Expediente, às sextas, e Interlúdio, às quartas.

Minha frase chave, que está abaixo do nome Blog do João Villaverde, continua lá, mas estou pensando em colocá-la num lugar distinto, para deixar o nome mais isolado e direto. Quem tiver sugestões e ideias, o campo, como todos que me acompanham sabem, está aberto.

De resto, um grande abraço aos amigos leitores e aos blogueiros que acompanho todos os dias, lá na seção "Blogs que acompanho". Esse pessoal é fera.

Vamos que vamos que o trabalho, com ou sem Copa do Mundo, não para.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

O PC do B e a alternância no Maranhão

O PC do B realiza sua convenção nacional hoje. Vai anunciar apoio a candidatura de Dilma Rousseff (PT) à Presidência, além de lançar seus candidatos regionais.

O PC do B é um partido curioso. Oriundo direto do Partidão, que rachou seus quadros em uma série de partidos -- entre eles o MR8, que está no PMDB, o PT e mesmo o PSDB -- os comunistas têm de tudo. Vão de Aldo Rebelo, o comunista amigo dos ruralistas, a Flávio Dino, o comunista inimigo dos Sarney.

Rebelo quer alterar o Código Florestal brasileiro para dar poder aos estados e tirar do governo federal a discriminação de mata a ser preservada. Conta com o apoio da bancada ruralista, dos fazendeiros e de dois históricos rivais da esquerda: Ronaldo Caiado e Kátia Abreu, ambos do DEM. Em tese, os comunistas deveriam fazer parte da esquerda. Mas isso é outra história quando falamos do PC do B.

Ainda assim, o PC do B é sim de esquerda, quando vemos o caso de Dino, que no Maranhão já conta com cerca de 20% das intenções de voto. Isso é metade do que têm Roseana Sarney (PMDB), atual governadora do estado. Dino é o protagonista de um dos episódios que configuram o projeto de poder do PT, tese que defendi aqui no Blog na semana passada.

Na sua coluna de hoje no Valor, Rosângela Bittar, faz um balanço do que ocorre no Maranhão. Ao final, transcreve conversa que teve ontem, na Câmara, com Dino. Vejam que bela análise ele faz da situação política do Maranhão:

Valor: O que o move nessa determinação [de se lançar candidato ao governo]?
Flávio Dino: A convicção de que o Maranhão está na hora da virada da página. Todas as oliquarquias regionais já foram removidas, desde o Ceará, em 1986, quando Tasso Jereissati venceu os velhos coroneis, até a Bahia, em 2006, quando Jacques Wagner derrotou o carlismo. É um processo de plenitude da alternância no poder do Brasil. Nesse intervalo histórico houve mudança no Pará, no Piauí, em Pernambuco. Não se trata de dizer se é esquerda ou direita, é alternância. No Maranhão, não, se cristalizou o poder total. Historicamente esse modelo ganha sua sobrevida hoje apenas por patrocínio do PT nacional.

***

O ponto fora da curva de Dino ocorreu também em 2006. Não foi apenas Jacques Wagner que bateu Antônio Carlos Magalhães, na Bahia. Mas também Jackson Lago (PDT) ganhou de Roseana Sarney, no Maranhão.

Lago, no entanto, foi cassado. Roseana, como segunda colocada em 2006, voltou ao governo.

No meio tempo, José Sarney (PMDB), seu pai, retomou o controle do Senado -- em 2008. Sarney está no poder, no Maranhão, desde 1966. Sua cerimônia de posse foi filmada por Glauber Rocha e em 66 já era possível traçar muitos dos problemas do estado.

O PC do B caminha, mas com todas as vertentes e disputas internas, continua sem consolidar um projeto. Tem dois trunfos, no entanto: controla, há décadas, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e constituí a Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil (CTB), que, só no ano passado recebeu R$ 4,5 milhões do governo federal, por meio do imposto sindical.

terça-feira, 15 de junho de 2010

A torcida do Blog

O que mais me atrai na Copa do Mundo é que ela reduz totalmente a distância política e geográfica que existe entre os países. São todos contra todos e vemos jogos de Coreia do Sul contra Grécia, Costa do Marfim e Portugal, Inglaterra e Eslovênia, Brasil e Estados Unidos. Torço para que a Coreia do Norte tome uma surra, mas também adoraria vê-los ganhando na raça dos americanos. A graça da Copa está aí.

Mas é claro que tem torcida. Se não tiver, não vale a pena. Acho bisonho quem vê futebol pela "mágica". Mágica é o escambau. Estamos falando de 22 caras que correm para colocar uma bola dentro de um ornamento de três pedaços de madeira.

O futebol bonito é aquele que viu o Vasco, nos anos 30, romper as barreiras da cor e aceitar um negro jogando bola, não um Paulistano, nas duas décadas anteriores tendo de conviver com o primeiro grande craque do futebol mundial, Friedenreich, mulato, tendo de passar pó de arroz para se fazer de branco. O futebol é bonito porque tivemos Garrincha, de pernas tortas e semi-analfabeto, entortando os branquelões europeus em 1958 e 1962, e ainda arranjando tempo para tomar sua cachaça. O futebol é bonito pelo Brasil de 1970 e 1982, a Holanda de 1974, a Argentina, a Itália, Alemanha, e todos os outros países lutando por um lugar ao sol.

Até por isso, como ia dizendo, futebol é torcida.

Nas Copas, mas especialmente nesta de 2010, não torço apenas pelo Brasil. Como muito bem disse Marcos Matamoros, é ridículo quando um brasileiro, na Copa, diz que torce contra o Brasil. Mesmo que você não preste muita atenção na Copa, como o Eduardo Prado bem colocou, há toda uma empolgação natural. Mas não torço por obrigação, mas por coração mesmo. O coração, que no Brasil se divide pelo Botafogo, pelas raízes, e pelo São Paulo, pela adolescência vivida na cidade, também se divide na Copa.

O Blog é Espanha, pelo Villaverde, e Brasil, pelo João.

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O Hugo Albuquerque está fazendo ótimas análises dos jogos, lá n'O Descurvo. Quem quiser debater os jogos, um a um, dá uma passada por lá.

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A Copa, definitivamente, é uma graça.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

O modo DEM de fazer política

Na semana passada, movido pelos acordos hierarquizados fechados pelo PT nos estados em torno de um projeto de poder -- no post "As escolhas do PT e o futuro da política" --, discuti, ao final, o que ocorreu com o DEM, o ex-PFL.

Não comparei e não comparo PT e DEM, por favor.

O DEM é o PFL de nome novo. O PFL, Partido da Frente Liberal, recebeu esse nome porque se tratava de um grupo de parlamentares do PDS, o partido que sustentava o regime militar, rompeu com as diretrizes do PDS e criou a Frente Liberal do PDS. Isso foi em 1984, quando o movimento das Diretas pressionava o governo, que já estava esquálido pela crise econômica que explodia a inflação. Os caras do PDS, então, sacaram que o negócio não ia ficar bem e resolveu romper. Não foram para o PMDB, que à época era centro-esquerda.

Como PFL desenvolveram um projeto de partido, com a tática de fortalecer bases regionais e lançaram candidatura própria à Presidência, em 1989. Depois, no governo Collor, passaram a se ligar ao PSDB, num acordo costurado com as lideranças tucanas, tendo Fernando Henrique Cardoso à frente. FHC era senador ilustre e, como ministro da Fazenda de Itamar se lançou candidato, em 1994. O PFL fez uma escolha em 1994, que manteve intacta até 2001.

Em 2001, o PFL teve um lampejo. Roseana Sarney, então filiada ao partido, lançou-se pré-candidata à Presidência e, até fevereiro de 2002, aparecia com grandes chances de disputar com Lula (PT) as eleições. Houve um racha com o PSDB, aprofundado pelo episódio de março, quando a Polícia Federal, chefiada por Marcelo Itagiba, colega de José Serra, então candidato pelo PSDB, desbaratou um esquema mal resolvido de Roseana e o marido. Ela deixou a candidatura e o PFL não esteve com Serra nas eleições.

A partir de 2003, no entanto, voltaram para o jogo de 1994: se ligaram, como unha e carne, ao PSDB. Todos os nomes fortes do PFL foram ruindo, culminando com três episódios sintomáticos.

O partido mudou de nome, no começo de 2007, para Democratas, o DEM.

No fim daquele ano, Antônio Carlos Magalhães, o ACM, a maior figura política do PFL, ex-PDS, ex-Arena, morreu. Morreu, inclusive, fora do poder. No ano anterior, seu candidato, Paulo Souto, perdeu a disputa pelo governo da Bahia para Jacques Wagner (PT).

Depois, em 2009, o único governador do partido, José Roberto Arruda, foi cassado por corrupção ativa.

O DEM chega em 2010 totalmente ligado ao PSDB. Abandonou completamente seu projeto de partido, trata-se de um projeto de poder apenas. Vale tudo para chegar lá. As discussões internas do partido, que já não contam com grandes lideranças, só discutem as melhores estratégias para o PSDB. O DEM discute Serra, discute Aécio, discute tudo, menos nomes do DEM.

Pior ainda: em São Paulo, onde o DEM ainda conta com a Prefeitura, por meio de Gilberto Kassab, o DEM ainda fez questão de rachar com o PSDB.

Na semana passada, Milton Leite, um dos vereadores mais influentes aqui em SP anunciou apoio à candidatura de Aloizio Mercadante (PT) ao governo do Estado. O natural seria o DEM apoiar Geraldo Alckmin, candidato do PSDB. Mas, em 2008, quando Kassab se elegeu, PSDB e DEM racharam. O PSDB lançou Alckmin, ao invés de, pela lógica partidária, apoiar o candidato do DEM.

Hoje, Carlos Apolinário, o líder do DEM na Câmara Municipal de São Paulo, anunciou apoio a Mercadante.

O modo DEM de fazer política é curioso. É um mix de projeto de poder com falta de coloração partidária. Se o PSDB não quer, o DEM, ao invés de ganhar autonomia, se liga a outro. Mesmo que esse outro seja o PT, o eterno rival político do ex-PFL.

Uma bela história

A ser contada é de Luis Cipriano, negro, semi-escravo.

Luís foi um dos negros contratados pelo deputado Nilo Peçanha para ser seu empregado doméstico, por volta de 1893. Nilo era famoso à época, por ter sido deputado constituinte em 1890, embora os autos daquela enorme discussão -- que gerou a primeira Constituição republicana, em 1891 -- não mostrem um deputado rigoroso, apenas um sujeito presente.

Luís não sabia ler ou escrever e não conhecia direito seus antepassados. Sabia que tinha de trabalhar para ganhar algum dinheiro. Trabalhava para um deputado, numa época em os deputados eram celebridade nacional e ganhavam mais dinheiro que ganham hoje. Luís, por ser empregado, podia comer e dormir na casa do patrão -- o que fez por muito tempo, até constituir família e conseguir levantar um pequeno sobrado, no Rio.

Quando conseguiu, já tinha filhos e esposa, e Nilo já tinha sido eleito senador. Depois, Nilo foi escolhido vice-presidente da República. Em 1909, quando o presidente Hermes da Fonseca faleceu, de febre crônica, Nilo assumiu a Presidência. Foi presidente do Brasil por um ano e Luis era o empregado do presidente.

Luís Cipriano teve um filho ilustre. Foi pai de Cartola.

domingo, 13 de junho de 2010

Domingo

O mundo é grande e cabe nesta janela sobre o mar. O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. O amor é grande e cabe no breve espaço de beijar.


Carlos Drummond de Andrade, poeta brasileiro.

sábado, 12 de junho de 2010

Para o dia dos namorados

Do xará João Antônio, 1973:

Meu amor.
Hoje, acordei encapetado. E me ganiu, profunda, alta, uma vontade de brigar contigo, te chutar a barriga, sua marafona engalicada!
Vontade, não: gana. Urrar e vomitar em você. Você e tu. Mijar na tua cabeça, tronco e membros, te socar contra a parede, te fazer sangue. Ao te beijar ficou perdido de amor é o cacete. Pelas manhãs tu és a vida a cantar é uma pinóia, uma ova, uma bosta.
A tua cara decadentosa parece o mapa do Chile, estrepe velho, tralha, cadela arrombada, esmerdeada, meu horror.
Mas és para ser entendida só por aqueles que não tiveram dinheiro nem para comer um prato feito. E, isto sim, é a pior das sacanagens.
E eu te bato porque te amo.

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João Antônio nasceu em Presidente Altino, São Paulo, em 1937. Era apaixonado pelo Rio de Janeiro, para onde mudou em 1964, pouco depois do golpe militar. A coincidência de datas é curiosa. Meu pai, também chamado João, nasceu numa cidade pequena de Minas, saudosa Ponte Nova, e mudou com a família para o Rio de Janeiro na mesma época, em julho de 1964, três meses depois do golpe.

Os dois, no entanto, só foram se estabelecer onde morariam quase a vida toda em 1968. Em Copacabana.

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Ganhei Ô, Copacabana!, de João Antônio, da morenina Carolina. Presentaço.

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E não, não foi presente dos dias dos namorados.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Rápidas anotações antes da Copa

A partir de amanhã, preparem-se: nenhum assunto vai ter chance de ganhar atenção até que a Copa do Mundo acabe. Mesmo que a seleção brasileira seja desclassificada na primeira fase após uma goleada do esquadrão da Coreia do Norte, o assunto único será Copa pra lá, Copa pra cá, até a final.

Então, para falar alguma coisa antes do turbilhão futebolístico começar, vamos lá, rapidinho.

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O projeto de capitalização da Petrobras foi aprovado, nesta madrugada, pelo Congresso. Estão previstos R$ 110 bilhões de aporte na estatal, que, com isso, vai operacionalizar a retirada de petróleo da camada do pré-sal e também parte de seu refino. Só de fontes externas estão previstos US$ 20 bilhões (algo como R$ 36 bilhões), que devem apreciar mais o câmbio -- mas isso é outra história.

Um fato mais relevante que a capitalização em si: foi aprovada a mudança no regime, que não será mais de concessão -- isto é, o governo prospecta um poço e realiza um leilão, no qual participam petroleiras nacionais e internacionais e a vencedora recebe a concessão do local. Agora, o regime será de partilha. Isto é, será a Petrobras, reforçada pela capitalização e o know how, que operacionalizará todos os campos, estando ou não ligada com outras empresas, deixando uma parte do petróleo e do lucro com a União, que constituirá um Fundo Social para aplicar o dinheiro em causas sociais.

A mudança no regime é uma ótima medida.

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Marina Silva (PV) lançou hoje oficialmente sua candidatura à Presidência da República. A festa do PV foi bem pensada: ocorreu na quinta-feira, recebendo atenção e ainda terá espaço nos jornais e rádios amanhã pela manhã, ao mesmo tempo em que o mundo começa a virar a cabeça para a Copa do Mundo.

No sábado, José Serra (PSDB) faz o mesmo. No dia seguinte, domingo, é a vez do PT oficializar Dilma Rousseff.

O PV é um partido desorganizado, que até a entrada de Marina, em setembro de 2008, era um amontoado sem planos, sem ideias, sem nada. Melhorou muito de lá para cá, especialmente o grupo que discute o programa da candidata, que deu gás novo aos Verdes. Continuam perdidos, mas, nesse sentido, acertaram na mosca: lançar a candidatura antes da Copa garantiu à Marina uma exposição que ela teria perdida se fizesse depois.

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A proposta de alterar o Código Florestal, da maneira como está sendo levada por Aldo Rebelo (PC do B), é péssima. Regionalizar a questão é instituir na terra uma política semelhante a que existe no ICMS, de guerra fiscal. Os estados vão ficar disputando fazendeiros e investimentos por meio da redução do limite de mata a ser preservada. Quem perde com isso, é claro, são seus filhos, caro leitor.

Claro que isso não é um problema para Rebelo, o comunista que é adorado pelos desmatadores.

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O PIB cresceu 2,7% nos primeiros três meses de 2010 frente aos últimos três de 2009. É um crescimento chinês. Se repetir esse patamar até o fim do ano, o Brasil vai garantir um crescimento superior a 9%.

Mas o Brasil não vai sustentar esse ritmo. Aliás, já não está mais sustentando.

O que puxou nos três primeiros meses foi, principalmente, o aumento de produção na indústria automobilística e nos fabricantes de eletrodomésticos da linha branca, que tinham, até março, impostos reduzidos. Ao mesmo tempo, o consumo veio forte, porque o emprego bombou e porque carros e geladeiras estavam baratos, então quem podia comprar, comprou.

Agora, quem comprou não vai comprar de novo. Isso não fica só refletido na queda do consumo desses itens -- embora aumente o de TVs, devido à Copa do Mundo -- mas também na queda de produção. A indústria não precisa ampliar tanto a produção, uma vez que o consumo deu uma freada. As previsões são ótimas, porque o emprego está subindo, bem como a renda. Então o terreno está bom para se investir -- o que está acontecendo. Mas o segundo trimestre não vai manter o ritmo do primeiro.

O Brasil deve crescer 7% nesse ano, se nada de muito ruim acontecer na Europa. Pode crescer até mais que isso, mas menos de 6,5% não fica.

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Engraçado é ver o pessoal achando ruim, olhando gargalo em tudo quanto é lugar para tentar parar esse crescimento.

Ontem, no evento de lançamento da Escola do Dieese, o ministro Paulo Bernardo, do Planejamento, me disse que "o governo não vai brecar o crescimento".

Nem um, nem outro.

É claro que temos gargalos, que surgem conforme avançamos o crescimento. A construção civil é um deles. O setor de material de construção está operando perto do limite e já estamos começando a fazer coisas que não fazíamos a séculos para compensar: estamos importando material. Além disso, a falta de mão de obra qualificada -- uma vez que nosso ensino público é uma lástima completa -- esbarra em aumento de custos. Os salários estão subindo, o que é ótimo, mas mais por consequência da falta de trabalhador do que porque as construtoras estão sendo bacanas. Os trabalhadores estão trabalhando muito mais e uma série de problemas começam a aparecer.

Há problemas em portos, aeroportos e a falta de ferrovias, que é um dos grandes males nacionais. Mas isso não tira o mérito de que estamos crescendo a 9% ao ano enquanto o resto do mundo está numa crise pesada.

Crescimento é bom sim, não acreditem naqueles que não gostam. Mas é claro que existem gargalos e, diferentemente do que diz Paulo Bernardo, é preciso sim frear um pouco o ritmo para arrumar a casa. Mas não é frear a economia inteira, mas sim setores específicos, para ampliar nossa condição futura.

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Contem uma semana após o fim da Copa e liguem os motores: as eleições vão passar a nortear todo o noticiário. Coloquem os cintos porque não vão faltar dossiês, grampos, críticas, ataques, composições, Chávez e Hillary Clinton.

Com a força que o Brasil adquiriu nos últimos anos, principalmente agora em 2010, todo mundo vai dar pitaco nas eleições. E tudo vai ganhar proporções enormes.

Coloquem os cintos.

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Vou dar uma passada no Bar do Alemão, hoje, tradicional reduto de jornalistas e sambistas. Estou avisando em cima da hora, então os leitores paulistas que se dispuserem, estão mais que convidados. Vou fazer um convite mais decente na semana que vem, com mais antecedência.

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É isso, boa Copa do Mundo para todos.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Interlúdio



Por Carolina Orberg

Os trabalhos de Gerhard Richter são super figurativos e tem um quê de fotografia, mas ao mesmo tempo ele inflinge uma série de efeitos nas pinturas que causam um distanciamento, um estranhamento que atrai.

terça-feira, 8 de junho de 2010

As escolhas do PT e o futuro da política

O PT está abrindo mão de um projeto de partido para um projeto mais amplo, coordenado, de projeto de poder. Isso pode ser bom ou ruim, fica a cargo do leitor. Fato é que isso está ocorrendo agora, e não é tradição do partido, fundado em 1980, e não ocorreu nas eleições majoritárias mais recentes, de 2006.

Vejam só:

No Rio, o PT, que sempre foi esquálido em terras fluminenses, está esfrangalhado e não tem qualquer chance de constituir um contrapeso às candidaturas de Sergio Cabral (PMDB), Garotinho (PR) e Fernando Gabeira (PV). Uma ala do partido defende candidatura própria -- que, se sair, não chega a lugar nenhum. Outra, empurrada pelas ordens do PT nacional, quer apoiar Cabral.

Em Minas, o PT realizou prévias para decidir qual candidato lançaria para o governo do Estado, que sucederá Aécio Neves (PSDB). O PT mineiro tinha dois ótimos candidatos em mãos: Fernando Pimentel e Patrus Ananias. As prévias, democráticas, definiriam Pimentel. Na segunda-feira, no entanto, o PT mineiro anunciou que não lançará Pimentel. Não lançará candidato nenhum. Vai apoiar Helio Costa (PMDB), ex-ministro das Comunicações, ao governo do Estado.

No Maranhão, estado comandado pela família Sarney desde o início da década de 1960, o PT não têm força para lançar um candidato próprio. Sua ala mais à esquerda quer apoiar Flavio Dino, candidato do PC do B, que confrontaria Roseana Sarney, atual governadora do Maranhão. as uma ala petista, ouvindo a voz que vêm de cima, quer deixar a candidatura de Dino para se agrupar junto à Roseana, que pertence ao PMDB.

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Todos esses movimentos, de apoiar Cabral, Costa e Roseana, todos do PMDB, em três diferentes -- e importantíssimos -- Estados, se justificam. Mas não se justificam pelo jogo de fortalecimento partidário, mas pelo fortalecimento de um projeto de poder.

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Esse jogo exterminou o DEM. Foi uma frente liberal que rachou do PDS, o partido que sustentava o regime militar no Brasil. Essa frente liberal criou o PFL, o Partido da Frente Liberal, que lançou candidato à Presidência em 1989. A partir dali, o partido foi, pouco a pouco, abandonando o projeto de se afirmar como partido político, preferindo o projeto de poder. O PFL alcançou o poder máximo em 1994, quando, pertencente à chapa do PSDB que elegeu Fernando Henrique Cardoso presidente. O PFL indicou o vice, Marco Maciel, e teve uma força descomunal no Congresso, com Antônio Carlos Magalhães, o famigerado ACM, à frente.

Quando deixaram o poder federal, em 2003, PSDB e PFL se viram juntos na oposição. De lá para cá, o PFL perdeu governos estaduais, prefeituras, deputados e senadores. Perdeu até o nome: mudou para Democratas, o DEM. No ano passado, sofreu um golpe duro: seu único governador, José Roberto Arruda (DEM), foi cassado. Neste ano, o DEM não passa de um escritório extra do PSDB. Todas as lideranças do DEM (ex-PFL, ex-PDS, ex-Arena) só discutem estratégias para eleger José Serra, do PSDB. Não há um projeto de partido, mas um projeto de poder.

***
Não estou comparando o PT com o DEM, por favor, não é nada disso. Absolutamente.

Apenas diagnostifico: há um projeto de poder em curso. E tem pouca gente olhando para isso.

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Atualização de quarta-feira, 09/06, às 13:52

Renata Lo Prete, na sua coluna Painel, na Folha de hoje, dá mais um exemplo do projeto de poder do PT:

"Em Roraima, o PT anunciou apoio a Neudo Campos (PP) para o governo. O pepista chegou a ser preso pela Polícia Federal, acusado de chefiar esquema de fraudes em folha de pagamento do governo".

Se pegarmos as peças dos acordos regionais, podemos montar o quebra-cabeça que defendo.

domingo, 6 de junho de 2010

Domingo

Sim,
Deve haver o perdão
Para mim
Senão nem sei qual será
O meu fim

Para ter uma companheira
Até promessas fiz
Consegui um grande amor
Mas eu não fui feliz
Os braços levantei
Blasfemei
Hoje são todos contra mim

Todos erram neste mundo
Não há exceção
Quando voltam a realidade
Conseguem perdão
Porque é que eu Senhor
Que errei pela vez primeira
Passo tantos dissabores
E luto contra a humanidade inteira


Cartola, compositor brasileiro

quinta-feira, 3 de junho de 2010

No Rio

Aos leitores cariocas, o blogueiro convida para uma bela saída. Estou no Rio, de onde saio só no domingo à noite. Quem quiser um café no Armazém, lá na Ouvidor, uma roda de samba no Bip Bip ou uma bela carne de cabrito no Capela, na Mem de Sá, está mais do que convidado.

E domingo, para deixar o blogueiro ainda mais contente, tem Botafogo e Corinthians, no Engenhão. Será o primeiro jogo sério do Timão no ano -- e já adianto que o Fogão vai despachar os paulistas com uma facilidade só.

terça-feira, 1 de junho de 2010

O dia na Conclat


Amanhã, no Valor, conto minha experiência na Conferência Nacional da Classe Trabalhadora (Conclat), realizada hoje no Estádio do Pacaembu, em São Paulo. Na semana passada, escrevi matéria que apresentava e discutia o evento, remetendo à Conclat original, realizada em 1981.

Agora foi diferente.
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Na foto, de Epitácio Pessoa, da Agência Estado, vemos o Pacaembu por trás do palco. À esquerda, os ligados à Força Sindical. Em frente, no anel oposto, estão CGTB e CTB, mais à esquerda, e NCST, na parte amarela. Do lado direito, os filiados à CUT.
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