sexta-feira, 30 de abril de 2010

Dica: Coisa Nossa

Este Blog não costuma fazer isso, portanto, caros leitores, permitam-me o convite. A Muda Cultural, dos amigos Ítalo, Igor e Marcos, promovia as melhores celebrações da música brasileira no ano passado. Fui em muitas dessas festas, a partir do fim de 2008, quando eles começaram. Depois de uma parada, em dezembro último, eles voltaram.


Para os leitores que estão em São Paulo, deixo o convite para a Coisa Nossa, que a Muda realiza hoje, no lindíssimo Centro Cultural Rio Verde, na Belmiro Braga (Vila Madalena). O nome da festa já diz tudo: baseada na "Coisa Nossa", do mestre Noel Rosa e, segundo Ítalo, também na canção do Erlon Chaves.


Quem gosta de música brasileira, está intimado ;-)



quinta-feira, 29 de abril de 2010

No taxi

Estava conversando com o taxista que me levava para uma entrevista, hoje cedo. É uma forma de relaxamento impressionantemente eficaz. Já ouvi histórias de homens casados que se tornavam heróis de musas em rodas de samba em Santos, já ouvi casos de relações de amizade entre taxista e passageiro, já me contaram discussões e atitudes malucas de passageiros apressados que culpam o taxista por tudo.

Costumo ouvir, mais que falar. Faço uma ou duas perguntas, arriscamos uma conversa de futebol ou de política e pronto, lá estamos nós falando um ao outro sobre as angústias e vontades reprimidas. É um tanto maluco isso, se pensar bem. Trata-se de uma conversa aberta entre duas pessoas que acabaram de se conhecer e dificilmente voltarão a se ver.

Hoje, falavamos de Flamengo e Corinthians, jogo realizado ontem no Maracanã, com vitória dos cariocas. Ele, palmeirense, estava estupefato com o salário das estrelas Adriano e Ronaldo.

"Porra, você viu quanto eles ganham? Mais de cinco milhões por ano! Sabe o que é isso?"

"É muito dinheiro mesmo", respondi.

"Converso com minha esposa isso. Poxa, eu, se pudesse, nem pediria cinco, mas se tivesse um milhão já ficaria feliz da vida. Imagina?"

"O que você faria se ganhasse um milhão, sei lá, hoje?", perguntei.

"Eu parava tudo e começaria a viver. Não trabalharia mais 14, 15 horas por dia. Mas não abriria mão do futebol com os amigos nas noites de quinta-feira. É o único momento em que fico sem preocupação de trabalho, de dinheiro, de família, de nada. É isso, meu caro. Começaria a viver".

****
Chegamos ao ponto, saí do carro. Na volta, em direção à redação, era outro taxista, outro papo.

Mais um dia, amigos. Mais um dia.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Interlúdio



Giorgio DeChirico, "A Melancolia da Partida", 1913.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Refúgio de Battisti

O caso Cesare Battisti, se conseguiu alguma coisa, foi reunir em torno de uma causa a nata do Direito brasileiro. Em carta enviada ao presidente Lula na semana passada, pedindo a concessão de refúgio a Battisti, assinaram, vejam só: Celso Antônio Bandeira de Mello, Dalmo Dallari, José Afonso da Silva, Paulo Bonavides e Nilo Batista, além de Luís Roberto Barroso, que é advogado de defesa de Battisti.

Não é pouca coisa. Seria como juntar numa roda de choro o Dino Sete Cordas, Jackson do Pandeiro, Jacob do Bandolim, Pixinguinha e Guilherme Britto. Os seis vão além do conhecimento das diretrizes legais e constitucionais nacionais: dominam o Brasil profundo, viajaram o país inteiro, interagindo com jovens advogados e juízes, escrevendo e debatendo sobre os temas do debate público há décadas. Estão na seleção de craques do blogueiro, ao lado de Hermes Lima, Orozimbo Nonato, Victor Nunes Leal e Evandro Lins e Silva.

Já disse, aqui, que sou favorável a concessão de refúgio à Cesare Battisti.

Agora com essa esquadra ao lado dele, acho que restam poucas dúvidas de que o caso está encerrado.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Banco Central e mercado

O mercado, por meio do boletim Focus, estima que a inflação medida pelo IPCA vai fechar 2010 acima de 5,4%. Os dados, divulgados hoje pela manhã, apresentam a 14ª elevação consecutiva de previsão inflacionária. Na semana passada, quando bateu em 13, fiz uma matéria no Valor mostrando que apenas em 2002 (17 semanas seguidas) e em 2008 (22 semanas) a série de pessimismo havia sido maior.

Com essas 14 semanas e IPCA batendo em 5,4%, o mercado, provavelmente, vai conseguir o que quer: o Banco Central (BC) vai elevar a taxas de juros básica, a Selic, na reunião que começa amanhã e acaba na quarta.

Hoje, a Selic está em 8,75%. O BC deve elevar em 0,5% ou em 0,75%. Tem gente falando em 1%. Seja como for, uma alta da Selic é certa, não há dúvida que vai ocorrer. Se for algo forte, tipo 0,75% ou 1%, o mercado pode ficar empolgado e já para de subir as previsões de inflação alta já na semana que vem.

Na reunião do mês passado, escrevi que seria um erro o BC subir os juros, porque era cedo naquele momento, com os índices sendo contagiados por pressões sazonais. O post gerou um ótimo debate, que chegou também à O Descurvo. Agora, do jeito que as previsões quanto a juros e IPCA estão ficando negras, não resta muito espaço ao BC que não elevar a taxa, ainda que as pressões inflacionárias estejam se desarticulando, como havia previsto. Os juros futuros, negociados na BM&F, já estão embutindo alta na Selic, o que já compromete a política monetária de qualquer jeito.

domingo, 25 de abril de 2010

Domingo

Canto para dizer que no meu coração
Já não mais se agitam as ondas de uma paixão
Ele não é mais abrigo de amores perdidos
É um lago mais tranquilo
Onde a dor não tem razão
Nele a semente de um novo amor nasceu
Livre de todo o rancor em flor se abriu
Venho reabrir as janelas da vida
E cantar como jamais cantei
Essa felicidade ainda
Quem esperou como eu por um novo carinho
E viveu tão sozinho tem que agradecer
Quando consegue do peito tirar um espinho
É que a velha esperança
Já não pode morrer.


Elton Medeiros, compositor brasileiro.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Sobre Belo Monte

Por Cesar

Olá Villaverde, sobre Belo Monte, afinal, vc é ou não é a favor??

Meu comentário:

Meu caro, já fui favorável, depois fui contra, fiquei neutro. A obra é importante e foi bem arquitetada -- são R$ 3,5 bilhões em gastos com o município, para recolocação dos ribeirinhos, amenização de choques culturais, etc.

A criação de empregos e interlocução com o resto do país é inegável, embora, neste ponto, as comunidades indígenas tem uma boa justificativa: o que será depois? Quer dizer, com a "modernidade", virá a criminalidade e os problemas de sociedades urbanas concentradas?

Não sei, e, convenhamos, é difícil prever.

Pensamento estrategicamente, estamos falando de uma obra necessária à política energética nacional e, melhor ainda, proveniente das águas, nosso forte. É mais energia limpa sendo despejada no operador do sistema.

Belo Monte, com sua grande capacidade produtiva, será um ótimo desafogo enquanto desenvolvemos novos polos tecnológicos, para energia eólica, por exemplo. Mas não deixa de ser uma lástima ver um lugar tão belo ter sua paisagem transformada completamente por um enorme canteiro de obras, maquinário, barulho e tudo o mais.

Além dessa loucura que está para fechar um consórcio que toque a obra. O que ganhou foi formado em cima da hora e, depois de ter levado o leilão, se desmanchou.

***

Até o momento, sexta-feira início da tarde, as perspectivas são de que o Estado vai fazer Belo Monte sozinho. O que você, caro leitor, acha disso?

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Atenção nas contas externas

O chefe do Departamento Econômico do Banco Central, Altamir Lopes, acaba de anunciar, em Brasília, que o déficit nas transações correntes do país alcançou US$ 12,1 bilhões nos primeiros três meses. É o maior déficit desde 1947, quando essas estimativas começaram a ser feitas.

Não precisa ter medo em dizer. Trata-se de um rombo.

Para se ter uma ideia, apenas no mês passado, nosso déficit (US$ 5 bilhões) foi superior a todo o buraco feito no primeiro trimestre de 2009 (US$ 4,9 bilhões). Não é pouca coisa. Isso mostra que o rombo é grande, e na ponta se acelera. As transações correntes computam toda a entrada e saída de divisas referentes a remessas de lucros e dividendos de multinacionais e investidores estrangeiros, pagamentos de juros, gastos de brasileiros no exterior e de estrangeiros no Brasil, exportações e importações, além de transferências unilaterais.

O déficit em conta corrente é financiável, no entanto. Está entrando dinheiro à rodo no país. As multinacionais estão trazendo dólares para cá para ampliarem operações (vejam o exemplo das montadoras, para ficar em apenas um segmento). Essas operações crescem e parte do lucro que não é reinvestido é remetido às matrizes. Nesse exemplo, by the way, temos os dois lados da moeda: o dinheiro que entra e o que sai. Além disso, investidores de toda sorte estão chegando, com aportes em capital, na Bolsa de Valores e em títulos e dívida. Agora que a Selic vai subir então, mais capital vai chegar para aproveitar a boquinha dos juros.

Tudo bem, o rombo é grande e crescente, mas é financiável. A questão é que não podemos confiar de que as coisas continuarão assim indefinidamente. A pergunta de um milhão de dólares, no momento, é: "até quando o mundo continuará financiando o Brasil?"

Não sei. Mas é melhor não ficar cego com o otimismo dos mercados.

O consenso entre os economistas, sejam eles heterodoxos ou ortodoxos, é que um déficit nas transações correntes é "seguro" até algo como 3,5% do PIB. Além disso, os próprios investidores estrangeiros começam a se preocupar com a capacidade do país de honrar suas dívidas. Assim, o mercado, que era "o" bacana, que ajudava o crescimento e tudo o mais, sai correndo rapidinho.

Não estou dizendo que isso vai acontecer por aqui. Do jeito que as coisas estão, aliás, é difícil imaginar que isso pode ocorrer com o Brasil. Além de um baita mercado interno -- em ascenção -- temos perspectivas positivas de investimento, como o petróleo do pré-sal, o minério de ferro, Copa do Mundo e Olimpíadas. Poucos países no mundo tem projetos dessa estirpe, que fazem bancos e consultorias vislumbrarem uma década de crescimento elevado pela frente.

Mas fica aqui o pedido de atenção às autoridades. Um rombo dessa magnitude -- que se continuar nesse ritmo pode bater em US$ 70 bilhões no ano, ou algo como 3% do PIB -- não é das coisas mais tranquilas. Ele está sendo formado por uma demanda interna crescendo na casa dos dois dígitos e um real supervalorizado.

terça-feira, 20 de abril de 2010

Belo Monte... sai ou não sai?



O leilão que ocorreria hoje foi suspenso por liminar do Ministério Público, acatada pelo juiz Antônio Campelo, de Altamira (PA), cidade onde a usina hidrelétrica de Belo Monte será (seria?) erguida. Antes disso, o governo já enfrentava problemas com as empreiteiras, que não veem remuneração clara na tarifa mínimo definida, de R$ 83 por megawatt/hora.

Estamos falando da terceira maior hidrelétrica do mundo, ficando atrás apenas das Três Gargantas, na China, e de Itaipu, a bi-nacional Brasil e Paraguai. Estamos falando de um dos municípios lindíssimos do rio Xingu, onde convivem índios (ao menos três etnias diferentes), agricultores e comerciantes. Estamos falando também de um município esquecido, um dentre tantos outros ignorados pela tríade São Paulo-Rio-Belo Horizonte. Estamos falando de uma obra que mudará completamente a vida dos moradores de Altamira, no Pará. Especialmente daqueles ribeirinhos, que terão suas casas alagadas pela nova usina -- na foto acima, de Hélvio Romero, vemos as margens do Xingu.

Para o bem ou para o mal, seja lá qual for a opinião que se possa ter quanto a Belo Monte, estamos falando de uma das obras mais polêmicas do período recente.
Atualização das 14:25
De última hora, a Advocacia Geral da União (AGU) conseguiu derrubar a liminar que impedia o leilão. O leilão não só foi liberado como já aconteceu. No entanto, no momento em que escrevo essas linhas, nova liminar foi levantada, que proíbe a divulgação do resultado.
A usina de Belo Monte foi leiloada. Mas não sabemos quem ganhou.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O xadrez entre Oi e Telebras

A Oi pede R$ 27 bilhões do governo para tocar o programa de universalização da internet banda larga no Brasil. O dinheiro seria, em boa parte, oriundo de renúncias fiscais. Segundo argumentou a empresa, em matéria publicada hoje na Folha, a carga de impostos que incide na operação não permite remunerar o negócio.

Trata-se de um jogo complexo, com várias camadas por trás, e nem todas estão sendo bem interpretadas.

A Oi, mais precisamente os empresários Carlos Jereissati (do grupo La Fonte) e Sergio Andrade (do grupo Andrade Gutierrez), tomou o maior empréstimo da história do BNDES, em 2008, para comprar a Brasil Telecom. A compra, conforme muito se falou na época (inclusive neste Blog e na matéria que fiz para o jornal Contraponto), tinha, entre outros interesses, a vontade do governo de tirar Daniel Dantas da telefonia -- Dantas, como se sabe, controlava a BrT, ainda que não tivesse a maioria acionária.

Além do alto financiamento do BNDES, a Oi ainda conseguiu empréstimo do Banco do Brasil -- de R$ 4,3 bilhões, o maior já emprestado pelo BB a um único tomador. A mega-operadora passou a ter 49,7% de participação do governo, dividido em BNDES Par e três fundos de pensão: Previ, Petros e Funcef. O controle, no entanto, ficou nas mãos de Jereissati e Andrade.

A Oi tem uma situação complicada na praça, uma vez que está muito endividada. Até agora não conseguiu engolir a BrT e, por isso, vem apostando em dinheiro tomado de várias fontes. Na semana passada, O Globo noticiou que a Oi estava prestes a contrair empréstimo de US$ 1 bilhão junto a investidores chineses. Agora, são os R$ 27 bilhões em renúncias fiscais para fazer o plano de universalizar a banda larga.

Uma história estranha. O governo bancou praticamente toda a operação -- até agora não inteiramente deglutida -- de fusão entre Oi e BrT. Agora, a Oi pede mais dinheiro para bancar um projeto público. Fica uma situação em que o Estado entra com (muito) dinheiro. Assim, o pessoal do governo que defende o fortalecimento da Telebras ganha legitimidade. Hoje mesmo, em Brasília, as conversas estão todas centradas nisto: se o governo banca tudo, mais fácil o governo fazer logo.

Não é tão fácil assim.

A Telebras tem larga rede de fibras ópticas em seu portfólio. Elas, no entanto, não seriam suficientes para levar internet a todas as famílias. Investimentos são necessários e a Telebras, depois do esfolamento porque passou nos anos 90 e, principalmente, depois da privatização da telefonia em 1998, precisa passar por uma reforma de pessoal, regulatória e de metas para poder tocar o barco. Na realidade, uma profunda alteração no modus operandi e na musculatura financeira da Telebras é necessária para que a estatal toque qualquer barco.

Segundo informações do governo, a Telebras fala em investimentos de R$ 6 bilhões. Perto dos R$ 27 bilhões requeridos pela Oi, parece uma pechincha. Não estou a par da necessidade de investimentos para poder mensurar. Mas analistas do setor avaliam que R$ 6 bilhões é subestimado -- precisa mais.

Até o começo de maio, o projeto final de universalização da banda larga será encaminhado ao presidente. Fiquem de olho. Muita coisa vai rolar, no noticiário e nos bastidores, até lá.

domingo, 18 de abril de 2010

Foi

Não disse, na semana passada, que o Botafogo iria ganhar o Campeonato Carioca? Pois bem. Hoje, no Maracanã com 60 mil pessoas, num jogo eletrizante e com a cara do Botafogo -- porque, mesmo jogando melhor, parecia que o Flamengo poderia empatar e virar a qualquer momento -- o resultado final, de 2 x 1 para o Fogão, foi a demonstração clara de que o time mais charmoso do Brasil não poderia ser campeão de outra forma.


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Esse post fica como um tributo à magia botafoguense, que uniu um técnico ridicularizado na internet, um grupo de jogadores esforçados, e dois atacantes estrangeiros: Loco Abreu, uruguaio, e Herrera, argentino, com uma bela promessa do futebol carioca: o meia-atacante Caio.







A foto acima mostra Somália e Herrera caminhando após o primeiro gol do Botafogo contra o Flamengo, hoje à tarde. Aliás, parabéns ao Flamengo que, com o vice-campeonato, ainda conseguiu ficar na frente do Vasco ;-)


Vamos embalar o domingo, para começar a semana de Tiradentes com um dos hinos mais bonitos compostos pelo mestre Lamartine Babo, que também brilhou ao compor o hino do Flamengo.

Fica renovada, portanto, a sagração do místico.

Domingo

- As histórias de amor podem não ter futuro, mas têm sempre passado. É por isso que as pessoas se agarram a tudo que as remete de volta ao que perderam. Os livros que elas leem sempre dizem respeito ao passado. Romances históricos, memórias, biografias, tudo tem que ser escrito em retrospectiva, senão não faz sentido. Ninguém quer ler o que está por vir, à beira do abismo. As pessoas precisam se agarrar ao que já conhecem. Os modernismos não podiam mesmo durar. Nem as revoluções. Ninguém vai construir uma casa à beira do abismo.

- Talvez você esteja certa.

- Se quero salvar um rapaz que não é meu filho, deve ser para que alguém se lembre de mim.

- A gente só entende quando começa a lutar pelos filhos dos outros. As mães têm mais a ver com as guerras do que imaginam. É o contrário do que todo mundo pensa. Não pode haver guerra sem mães. Mais do que ninguém, as mães têm horror a perder. Você é capaz de tudo para evitar a morte de um filho. É capaz de defendê-lo contra a própria justiça. Os filhos estão acima de qualquer suspeita. Você é capaz de matar por um filho. E acaba recebendo o troco na mesma moeda quando a guerra o leva. Está pronta para defender a prole e o clã contra tudo. Sem querer ver que é daí que nascem as guerras. Todo mundo tem mãe. Até o pior canalha, o pior carrasco. Não deixa de ser uma espécie de fanatismo.


Bernardo Carvalho, escritor brasileiro, 2008.

***

P.S. Dica da linda Carolina.

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Anotações

Há tempos não faço um post nos moldes do antigo "Anotações & Dicas", que fazia bastante por aqui. A correria louca da rotina, no entanto, traz o Anotações de volta. Vamos lá.

Situação política do Rio - 1
O governador do Rio de Janeiro, Sergio Cabral (PMDB), teve um comportamento péssimo desde que as fortes chuvas da semana passada arrasaram os morros fluminenses, causando a morte de mais de 200 pessoas. No primeiro dia, Cabral nada fez. Não que alguém poderia fazer alguma coisa naquela situação, mas o governador do Estado tem a função mor de apaziguar ânimos e harmonizar a sociedade. Dar as caras em comunidades carentes, aparecer com capa de chuva, dar uma entrevista às TVs, sei lá. Ficou uma sensação de que era cada um por si.

Depois, nas declarações que deu, Cabral foi sempre um tom acima do normal. Ao invés de, numa boa, aceitar a situação e esforçar-se por reanimar os cariocas, Cabral esteve sempre taciturno, nervoso e dando chicotada em qualquer um que o criticasse. Poucos dias depois, viajou à Milão (Itália), de onde voltou ontem. Faltou senso crítico.

Situação política do Rio - 2
Sou só eu ou o Fernando Gabeira (PV) se candidatar ao governo do Estado é uma das coisas mais ridículas possíveis? Estou falando sério. O cara é ligado a um partido que, ao menos em suas raízes europeias, se insere na centro esquerda, mas está coligado de carne e osso com DEM e PPS. Como alguém pode pregar mudança se está ligado à Cesar Maia (DEM) ou Roberto Freire (PPS)? Fora que, convenhamos, Gabeira no Rio é como a Soninha (PPS) aqui em SP: não tem capacidade de gerir nem centro acadêmico de faculdade.

Eleições 2010
Frase de um dos melhores economistas que converso, sobre os desafios de Serra: "Em 2002, era continuidade tentando mostrar que não era. Agora, não é continuidade tentando mostrar que é".

Uma grande farmácia
Ontem o IBGE soltou os dados de fevereiro referentes à vendas do comércio varejista. Os números vieram em alta, mostrando que o consumo continua forte mesmo depois do fim de ano e das promoções de janeiro. O item que mais cresceu, entre janeiro e fevereiro, foi "artigos farmacêuticos, médicos, ortopédicos e cosméticos". Conversando com um amigo, ouvi o seguinte: "Poxa, você viu quanto subiu artigos farmacêuticos? Uma barbaridade. Somos uma nação de hipocondríacos."

Brasil e Irã
Qual é o grande problema do Brasil aceitar o enriquecimento de urânio do Irã e, além disso, enviar comitiva de 86 empresários ao país persa? Eles tem de ser isolados do mundo? É assim que se resolve o "problema" nuclear? Não, com certeza não. As coisas se resolvem com harmonia e diálogo. Além do que, como já disse por aqui, Israel e Estados Unidos tem tecnologia nuclear mil vezes mais desenvolvida que a iraniana. E ninguém acha isso errado. É errado que o Irã e o Ahmadinejad façam isso. Muita hipocrisia, né não?

Belo Monte
Legal, James Cameron está passeando pelo Brasil para se colocar contra a instalação de uma hidrelétrica em Belo Monte, na Amazônia. Tenho minha opinião sobre esse eterno conflito entre ambiente e "desenvolvimento" e, um dia com mais calma, explicito por aqui. Mas Cameron dar as caras como o gente boa me lembra o Sting, que nos anos 80 também veio ao Brasil criticar a instalação de uma hidrelétrica no Xingu.

A hidrelétrica no Xingu foi inaugurada em 1994 e está funcionando bem, obrigado.

Vaticano sabe das coisas
Me vem um secretário do Vaticano justificar o alto nível de pedofilia entre padres porque, na Igreja, "tem muito homossexual". E depois o Ahmadinejad que é maluco.
Sobre isso, o Celso, do Na Prática a Teoria é Outra, fez uma belíssima análise.

Autocrítica
Preciso diminuir um pouco o ritmo. Como já dizia o saudoso Cesare Pavese, lavorare stanca. Botar o pé no freio, um pouco, não mata ninguém.

Vício
Estou ouvindo loucamente Freddie Hubbard, em "Straight Life", discaço de 1970, com Herbie Hancock, Joe Henderson, George Benson e outros feras. Tem sido uma bela companhia nas insônias.

Uma dica, para fechar
Minha grande amiga Samantha Maia começou um blog, depois de muita insistência de um amigo que, segundo ela, convive num misto de "piada e seriedade". O amigo, feliz com a iniciativa e, principalmente, com o alto nível dos contos da Samantha, ficou de indicar o blog dela no blog dele. Visitem pois, caros leitores, o Inconstante e borboleta.

***

É isso. Preciso correr.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Interlúdio



René Magritte, "O Falso Espelho", 1928.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Agora vai

Podem dizer que fui apressado ou mesmo torcedor. Mas o Botafogo, no domingo que vem, vai despachar o Flamengo e ganhar a Taça Rio. Como levou também a Taça Guanabara, o Fogão será o campeão carioca de 2010.

E não, Na Prática, nem a arbitragem, que costuma funcionar como 12º jogador do Mengo, ajudará dessa vez.

Fica registrado. Semana que vem podem vir cobrar a conta aqui.

domingo, 11 de abril de 2010

Domingo

"Quando as portas da percepção são abertas, o homem vê coisas como elas realmente são: infinitas"


William Blake, escritor inglês.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fim de expediente

Certa vez, pesquisando as maravilhas de Mercedes Sosa, acabei topando numa versão de "Sea", com Jorge Drexler ao violão. Não conhecia o rapaz, mas, afora a voz de Mercedes, era visível o domínio do violão, das harmônicas ao desenho da voz em seis cordas. Até batida, de leve, como que para acompanhar o pré-refrão, Drexler apresentava. A música, inclusive, era dele.

Pouco depois, assistindo a "Diários de Motocicleta", de Walter Salles, no cinema, topei com aquela lindíssima "Al Otro Lado del Rio", uma canção feita quase que à capela, com um violão persistente, no entanto. A música acabou deixando o violeiro uruguaio famoso no mainstream: ele arrebatou o Oscar de melhor canção, em 2005, se não me engano.

Uma joia rara do Uruguai, esse país que se reinventa na política com a eleição de José Pepe Mujica e que tem, como todos os nossos colegas latino-americanos, um passado rico com que se orgulhar. A dica, de pescar Jorge Drexler para este Fim de Expediente partiu do Vandson Lima, que acertou a pergunta do último Fim de Expediente. A música abaixo, no entanto, é seleção deste blogueiro ;-)

Jorge Drexler, em "Deseo", minha preferida.

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Um ótimo fim de semana aos leitores.

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Para guardar



Um dia ainda terei tempo de montar uma maravilha semelhante a esta estante do Job Koelewijn (retirada daqui). Quando tiver, colocarei em praça pública para que todos pesquem o que realmente interessa: livros, numa estante que é, por si só, arte.
Sim, sou um sonhador, como os leitores deste Blog bem sabem.

terça-feira, 6 de abril de 2010

As chuvas no Rio

Hoje pela manhã, o grande cronista Ruy Castro disse, em entrevista à rádio aqui de SP, que as chuvas torrenciais no Rio de Janeiro ainda não superavam à trágica chuvarada de fins de 1966 e início de 1967.

Já superaram.

Desde ontem à noite, já foram mais de 288 milímetros de chuva despejados sobre o Rio. Naquele 66-67, foram 245 mm. Quando escrevo esse pequeno texto, o setor público fluminense contabiliza 93 mortes, devido aos enormes desabamentos de morros. Esse número deve aumentar.

As chuvas de quarenta anos atrás, como mestre Ruy deve se lembrar, levaram, entre outros, Paulinho Rodrigues, irmão mais novo de Nelson, dramaturgo. Paulinho estava em casa, em Laranjeiras, com os dois filhos, comemorando o aniversário de sua esposa, quando sua casa -- junto a outras -- desabaram devido às chuvas. Em dezembro de 1967, com a cidade ainda cicatrizada pelas mortes trágicas provocadas pela chuva, a família Rodrigues ainda sofreria mais uma baixa: a viúva de Mário Filho, filho mais velho de Mário Rodrigues, pai de Nelson e Paulinho, cometia suicídio.

Hoje é mais um dia de lástima no Rio. E continua chovendo.

O samba "de" raiz

Em conversa de boteco, nada me incomoda mais que o pessoal metido a conhecedor dizendo coisas do tipo "samba de raiz", ou "MPB de raiz" ou o que seja "de raiz". O que, afinal, seria o "samba de raiz", por exemplo? Já ouvi muitos colegas relacionarem o "samba de raiz" à Cartola ou Noel. Legal, então a ideia é dizer que os caras, genuínos mestres da música nacional, fazem o "samba de raiz". Depois deles, de Caymmi a Martinho, passando por Ivone e Germano Mathias, fizeram "samba recente".

Ser "de raiz" nos anos 2000 significa fazer coisa antiga ou simplesmente fazer referência ao passado. Tem algo de muito bom nisso, é claro, porque difunde para novas gerações os craques da música, não os deixando esquecidos no fundo de um baú, no canto de uma sala cheia de entulho. Isso é importante.

Mas não deixa de incomodar ouvir a rapaziada dizer que fulano faz "samba de raiz". Samba é samba independentemente de modas e costumes. Ele evolui, sim, pois partiu do chorinho e do rasga, alcançou o samba-enredo, flertou com o bolero no samba-canção, com o refinado na música popular e com o jazz na bossa nova. Nos últimos anos, tem até o samba-rock -- que sustenta o antigo samba-festa do Jorge Ben.

Agora disso para chegar no "de raiz" é um pouco demais, não?

A ideia é usar figura de linguagem que remete à raízes dos campos, que estão no começo do processo biológico e criativo e que, mesmo depois de crescida, continua sendo a base de sustentação para a constante evolução. É uma figura de linguagem linda, que uso muito por aqui não só para críticas musicais ou de arte, de modo geral, mas mesmo nos posts de economia e política. Mas uma coisa é dizer que mestres como Noel, Cartola, Jacob, Caymmi, Gonzagão são as raízes da música -- seja ela o samba, o choro, o baião -- e outra é dizer que fazem música "de raiz".

É uma coisa bem paulista isso, aliás. "Vou sair de sexta para ouvir samba de raiz".

Tenha dó.

domingo, 4 de abril de 2010

Domingo

Ouço agora lá longe
Os acordes finais
Como os hinos de um monge
No templo dos samurais

Espinhos e rosas
Rosas e espinhos
Como é que tu gozas
E não tens nem dás carinhos?

Vagueio no meio
De muitas pessoas e gentes
Só não sei se sou lindo ou feio
E se existem mais de três continentes

Como se fazem versos?
Como se fazem mundos?
Assim como se fazem universos
Em segundos vagabundos?

Entenda:
Meu lema
É não se venda
E não tema

Cavaleiros
Medievais
Feiticeiros
E bacanais

Meu desejo não quer esperar, como eu erro!
Leva você pra longe de mim
Vou dar aquele grito, aquele berro
Eu vou chamar o Anjo Serafim

Que é como um Arcanjo
E é amante do Arlequim
Todos tocam seus banjos
Só eu toco bandolim


Jorge Mautner, compositor brasileiro.
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