quarta-feira, 31 de março de 2010

Interlúdio



Giacomo Balla, mestre do futurismo, em "A Luz da Rua", de 1909.

segunda-feira, 29 de março de 2010

O olhar da câmera

Em sua coluna de hoje na Folha, Luiz Felipe Pondé compara cinema argentino e cinema brasileiro. Meus comentários estão em negrito, no meio do texto.

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LUIZ FELIPE PONDÉ
O olhar da câmera

O Oscar do filme "O Segredo dos Seus Olhos" foi um prêmio mais do que justo para o cinema argentino. O cinema de "los hermanos" é melhor do que o nosso. E digo isso com lágrimas nos olhos porque sou envolvido diretamente na formação de novos cineastas no Brasil. E por que não conseguimos fazer filmes como nossos primos argentinos?


Verdade, não conseguimos. Há muito tempo não conseguimos fazer filmes melhores que os do Suriname. Isso tem absolutamente tudo a ver com a formação de novos cineastas. Mais adiante veremos isso mais bem explicado.

Resumidamente, eu diria que nosso cinema é, em grande parte, imaturo, sem tradição estética, obcecado por certos temas monótonos, quase amador em termos de conteúdo, e se vê como instrumento de transformação social.

Pondé se complica todo. Diz que nosso cinema não tem tradição estética e é obcecado por certos temas monótonos. Mais adiante na coluna, diz que há um culto a figuras como Glauber Rocha. Glauber, como todos sabem, foi um cineasta brasileiro dos anos 60 e 70. Logo, se há um culto a ele, necessariamente temos tradição estética, certo? Pondé não consegue ser coerente em seu próprio texto.

Começaria perguntando o seguinte: a arte deve ser política? Não. Muitas vezes isso atrapalha. E mesmo quando o for, deve ir além desse lero-lero de luta de classes, como no caso do "Segredo dos Seus Olhos" e o tratamento do ambiente pré-ditadura na Argentina, que não é foco principal do enredo. A política mata a arte, tornando-a datada como um panfleto qualquer. A política como tema da arte acaba sempre banal como a política o é na realidade: arranjos pragmáticos de violência e interesses. Quando ela se faz mais do que isso, fica mentirosa ou ridícula. Nosso cinema varia entre cinema político chato e uma verborragia psicanalítica adolescente. Com exceções.

Arte política, se entendida como aquela apoiada pelo Estado para vender a si mesmo é, de fato, uma tolice. A arte soviética do período pós-1927, quando houve o aperto do regime e os planos qüinqüenais estavam bombando, foi o fim da arte. O Estado dizia o que era “bom” e matava quem fazia o que era “ruim”. Se arte política é isso, então é atrapalha mesmo. Mas Pondé mistura tudo. Arte política, como deve ser entendido, é tudo aquilo que traz para o campo da cultura um posicionamento perante o mundo e a conjuntura em que vivemos. Dessa forma, podem concordar ou não comigo, mas toda arte deve ser política. De que adianta fazer uma coisa bobinha e superficial? Para nada. Toda grande arte, antes de qualquer coisa, é um chamado do artista – seja ele músico, compositor, pintor, desenhista, artista plástico ou cineasta – frente ao tempo em que ele vive.

Outro problema é o culto dispensado a figuras como Glauber Rocha. Se ele foi "revolucionário" em algum momento, o foi apenas no aspecto formal (ainda que eu o tenha sempre achado apenas cansativo e presunçoso, e essa coisa de "cinema novo" sempre me pareceu sobrevalorizada), mas quanto ao conteúdo, acho-o apenas datado e equivocado. Sua intenção revolucionária banhada em marxismo condenou sua visão de mundo a uma "historinha" que parece ter sido escrita em centros acadêmicos de gente de 18 anos (nos anos 60 e 70), que pouco revela da vida real e a sangria moral e existencial que ela realmente é.

O cinema brasileiro “monótono”, como disse Pondé em relação ao que era feito nos anos 50, 60 e 70, era justamente isso: cineastas que pensavam o país e usavam o cinema como posicionamento. Não à toa, foi festejado como arte maior ao lado do neorealismo italiano, a nouvelle vague francesa, o surrealismo espanhol e o impressionismo alemão. Não me lembro de nenhuma vertente argentina nesse panteão.

Lembremos que foi o próprio Glauber que escreveu em meados dos anos 60 que Machado de Assis seria esquecido porque não captou a luta de classes no período do Segundo Império no Brasil. Meu Deus, tenha piedade dele, porque não sabia a besteira que falava! Machado de Assis é eterno, enquanto ele, assim que a maioria dos formadores dos jovens cineastas pararem de idolatrá-lo, poderá ser confundido com a lata de lixo da história do cinema nacional.

Pondé usa uma crítica política do Glauber contra Machado como arma para demonstrar que Glauber vai estar na lata de lixo da história cultural. Mas ele, Pondé, critica Glauber nos mesmos termos. Se mantermos o raciocínio, Machado, autor de “Memórias Póstumas de Brás Cubas” será esquecido, disse Glauber Rocha, autor de “Deus e o Diabo na Terra do Sol”, que estará na lata de lixo, disse Luiz Felipe Pondé, auto de... peraí, quem é Luiz Felipe Pondé? Ah sim, aquele professor de cinema da Faap, a mesma que forma cineastas que fazem um cinema de lixo, segundo Pondé.

Algumas obsessões de conteúdo, ao meu entender, travam a produção nacional no nível de cineclube de centro acadêmico estudantil. Nada mais aborrecido do que alunos que acham que mudam o mundo: normalmente isso nada mais é do que uma forma chique de matar aula e estudar pouco. Com raras exceções. A força do jovem está no ato de emprestar aos dramas humanos ancestrais a beleza de seu encantamento, desprendimento, coragem e futuro desencantamento.

Aqui ele acerta. Quem diria.

Para além de chanchadas requentadas, o pressuposto de que o cinema seja instrumento de consciência social, enche o saco de qualquer pessoa que gosta de cinema. Nada mais monótono do que cinema com consciência social, além do mais, porque sabemos que a "indústria do bem" não passa de um disfarce. Os agentes de transformação social pela arte são mero produto, como qualquer outro produto da indústria cultural.

Legal, professor de cinema dizendo que cinema com consciência social é ruim. Bom é “Exterminador do Futuro”, né?

Cinema deve contar histórias, onde o olhar da câmera deve estar no lugar da voz. O conteúdo deve se alimentar de questões eternas, por isso, melhor se alimentar de temas morais do que de políticos, quando não for apenas bom entretenimento. E deve falar à alma e não a pseudodramas políticos de época.

Falar a alma é a coisa mais clichê que alguém pode escrever sobre cultura. O que é falar a alma para Pondé? E para mim? E para você? Cada um se sente tocado da forma que for. Não me venha um professor de cinema que critica os cineastas que ele mesmo forma dizer o que é bom ou ruim para mim. Aliás, ele, mais uma vez demonstrando incoerência, pratica o mesmo que sempre criticou: aquele blábláblá que o Demetrinho Magnoli sempre teve, de liberdades individuais, que dizer o que é bom ou ruim é coisa de Estado stalinista e tudo o mais. Não é isso o que você está fazendo aqui, Pondé, ao dizer que arte política é ruim e arte “que toca a alma” é bom?

Muitos de nossos futuros cineastas vêm da elite econômica (fazer cinema demanda muito dinheiro e disponibilidade de tempo), e muitas vezes são torturados com falsos dramas de consciência justamente porque são membros da elite. Como se devessem se redimir do que são, dando voz apenas aos pobres, bandidos e miseráveis do país.
E aí vem a repetição: Nordeste, fome, miséria, bandido (como se só por ser bandido, alguém fosse necessariamente vítima de alguma forma de injustiça, quando na realidade muitos bandidos o são porque são maus mesmo), ditadura (essa, então, no cinema, é uma enorme indústria de vítimas bem-sucedidas), favela. E daí, nós recomeçamos: Nordeste, fome, miséria, bandido, ditadura, favela... Nordeste, fome...

Onde Pondé está assistindo esses filmes? Quero saber porque adoraria assistir. A sério, Pondé, você é mais inteligente que isso, vai.

Voltemos a Shakespeare, Dostoiévski, Machado de Assis, deixemos Foucault, Glauber e Bourdieu "dormirem" um pouco no formol, para ver se eles sobrevivem ao tempo.

Tem mais alguém que deveria dormir no formol...

***
Lendo esse tipo de coisa fico desanimado com os rumos da nossa crítica. Não defendo "Salve Geral", mas daí a ficar todo alegrinho porque um "O Segredo dos Seus Olhos" ganhou um Oscar é demais, não? E desde quando Oscar é sinônimo de coisa boa? O filme argentino é bom mesmo, assisti na semana passada. Mas a conquista do Oscar suscitou toda uma amargura por aqui. O pessoal ficou chateadinho porque os hermanos conseguiram e nós não. Realmente, nosso cinema não anda bem -- por mais que Fernando Meirelles ache que está -- mas sair atirando contra tudo é muita ignorância.

Pondé não é ignorante, muito longe disso. Mas hoje se superou na vontade de polemizar e chamar a atenção para suas coluninhas.

domingo, 28 de março de 2010

Domingo

Embora a conversa seja um hábito comum e muito apreciado, aqueles que tentam registrá-la sabem que ela corre de uma lado para o outro, raramente se atendo ao ponto, repleta de imprecisões e exageros, com frequentes digressões extremamente tediosas. Assim, quando sete ou oito pessoas jantaram juntas numa noite dessas, os primeiros dez minutos foram gastos com considerações sobre quão difícil está circular por Londres hoje em dia; se era mais fácil andar ou dirigir; se o novo sistema de cores ajuda ou atrapalha. E assim que o jantar foi anunciado, alguém indagou: "Mas quando foram inventadas as galerias de pintura?", pergunta que surgiu naturalmente, pois a discussão sobre o valor das luzes coloridas levou alguém a dizer que, aos olhos de um motorista, vermelho não é cor, mas simplesmente um sinal de perigo. Muito em breve, perderemos a noção das cores, outro completou, exagerando, é claro. Agora elas são tão usadas como sinais que logo irão meramente sugerir ações -- isso é o pior de se viver em uma sociedade altamente organizada.


Virginia Woolf, escritora britânica. No dia 28 de março de 1941, após uma crise nervosa, ela encheu de pedras o bolso do casaco e entrou no rio Ouse. Seu corpo só foi encontrado 20 dias depois.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Fim de expediente

Lembro de passear com meu pai e meu irmão pelas galerias de Copacabana no início da era do CD, que já disputava espaço com os LPs nas lojas de música. Na Copadisco, que ficava numa dessas galerias, o pessoal colocava as prateleiras numa disposição tal que o LP ficava virado de frente, ao lado do CD, do mesmo álbum. Assim, era possível ver claramente que tratava-se do mesmo disco em duas versões: a "antiga" e a "moderna".

Num desses passeios, meu pai se deparou com um disco lindo, coletânea do Luiz Gonzaga. Gonzagão, todo alegre na capa, aparece na clássica vestimenta de cangaceiro do sertão, com o chapéu de Lampião na cabeça, além de uma parte da sanfona, que também podia ser vista na capa. Lado a lado, o LP era imbatível: maior, mais elegante e mais convidativo. Seu João, meu pai, pegou o LP nas mãos para olhar as músicas. Uma a uma, pelos olhos dele, parecia despertar uma lembrança.

Era o "Baião", de 1949, que ouvia no rádio baixinho, no quarto em sua adolescência, nos anos 60. O "Xote das Meninas", de 1953, que marcou toda uma geração da música popular, que percorreu todos os meios, Brasil afora, interpretada nos festivais por uma série de artistas. O baião sanfoneiro que transformava-se em forró dos bons, lá para 1957, com a "Mulher do meu patrão" chegando no "Forró nº 1", num dueto gostoso com Gal Costa, gravado no auge da festa da redemocratização do Brasil, em 1985.

Namorou o LP por um tempo, cantarolando e comentando o trabalho do Gonzagão. Devolveu o LP à estante, pegando em seguida o CD. Foi dos primeiros CDs que ouvimos em casa, guardado até hoje lá, com o selo da Copadisco intacto. A loja acabou, as galerias de Copacabana não são mais as mesmas, o antes moderno CD já é praticamente peça de museu. Mas a maestria de Luiz Gonzaga em cantar a luta do nordestino no pau de arara, a cintura fina da sertaneja que dança o fole, as dificuldades do agreste que assolam a asa branca e a festa coletiva no forró continuam no imaginário.

O Brasil mudou muito rápido, inserido no mundo moderno a partir dos anos 90. As coisas passam depressa, mas não deixa de ser um dengo só pensar em como temos beleza enraizada, um passado que nos enriquece.

video


Acima, Gonzagão surge interpretando "Asa Branca", composição de dois mestres: ele e Humberto Teixeira, de 1949. Quem acertar o nome do cantor que aparece ao final engrossando o coro dos sanfoneiros pode sugerir o próximo Fim de Expediente do Blog.

Bom fim de semana a todos.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A tacada da Vale

A Vale disparou para as siderúrgicas com que negocia um comunicado amplo, na segunda-feira, que determinava novas cláusulas contratuais. No documento, a companhia determina a vontade de alterar uma grande regra da relação entre mineradoras e siderúrgicas.

O sistema de preços "benchmark", vigente desde os anos 1960, será abolido. Em seu lugar, a Vale aposta na criação de índice de preços chamado Iodex. O benchmark é negociado no setor por um período de 40 dias, normalmente, entre os meses de fevereiro e março de cada ano. Fechado um preço pela tonelada do minério de ferro, ele vale por um ano, a começar em 1º de abril. Esse sistema, tradicional, traz estabilidade, porque defende compradores e vendedores de movimento de baixa. No entanto, em movimentos de alta de preço do ferro, a mineradora sai perdendo, porque vende por preço tabelado pelo benchmark.

O novo sistema, o Iodex, tem validade menor -- trimestral. Assim, de três em três meses mineradoras e siderúrgicas negociarão qual será o preço da tonelada de ferro que valerá no trimestre seguinte. No comunicado, a Vale diz que o Iodex já começa a valer no próximo 1º de abril.

E mais: terá reajuste de 114% no preço do minério de ferro.

Estamos falando de um produto chave no comércio exterior. Com a consolidação dos últimos anos, apenas grandes players participam, do lado produtor, e cada vez menos empresas jogam, do lado comprador. É possível contar as grandes mineradoras nas mãos: Vale, ArcelorMittal, Rio Tinto, BHP Billiton e Thyssen-Krupp. As maiores siderúrgicas do mundo estão do lado asiático, além das japonesas Nippon Steel, JFE, Sumitomo Metals e Kobe, mais tradicionais, a China criou, em poucos anos, gigantes siderúrgicas.

Só para dar uma ideia do que estamos falando, boa parte do fenômeno chinês foi e é construído na importação maciça de ferro -- tendo o Brasil como um dos principais clientes -- e na agregação de valor, transformando ferro em aço. O aço chinês, além do processo de produção por si só -- que já permitiu rápida e densa industrialização -- é remetido ao exterior, garantindo a entrada de dólares que compõe as enormes reservas chinesas.

A Vale, por ser um grande player desse jogo, tem poder para alterar as regras do jogo. As siderúrgicas que compram seu minério de ferro terão de acatar os preços e, aquele vendido individualmente -- modelo contratual single partner -- terá sobrepreço feroz. Ao mesmo tempo, a Vale sacode o mercado, permitindo às outras mineradoras reajustarem seus preços em valores semelhantes.

Não há escapatória. São poucas e megas empresas do lado provedor, que dominam o mercado. Se o lado comprador, as siderúrgicas, se manifestam contrariamente, terão de engolir aumento de competição: muitas mineradoras já investem em plantas siderúrgicas, de forma a fecharem a cadeia em torno de si mesmas. No Brasil, a Vale já inicia planejamento para isso. Mas, por aqui, vemos a luta ocorrendo na via inversa. A CSN é que amplia sua participação em minas de ferro, para se blindar de altas como essas, superiores a 100%.

Além da competição empresarial, com participação estratégica de governos -- que adoram os dólares que suas empresas podem trazer --, veremos respingos na inflação. Ferro mais caro impacta o aço, que impacta todos os bens que usam aço, de carros a eletrodomésticos.

terça-feira, 23 de março de 2010

Repercussão da vitória Obama

Dois colunistas que respeito muito, Jânio de Freitas (Folha) e Gideon Rachman (Financial Times) fizeram análises sérias sobre a aprovação da reforma no sistema de saúde norte-americano. Como escrevi ontem sobre o criticismo burro na mídia e na blogosfera, é hora de ver o que os bons críticos têm a dizer.

Jânio, na Folha de hoje:

A vitória de Barack Obama na dissensão com a maioria dos congressistas e da opinião pública, a propósito da reforma do sistema de saúde nos Estados Unidos, não é exemplar só por cumprir uma promessa muito difícil da campanha, e ser um feito buscado sem êxito por presidentes anteriores. É uma lição completa do que é um estadista em ação. Obama não comprou nem um deputado ou senador, não atraiu nenhum jornalista, não vendeu ministério algum nem alto cargo, não se submeteu em abraços festejantes, sorrisos e bajulações aos oponentes ásperos ou ofertantes. Barack Obama saiu pelo país todo a expor seus argumentos, tentar convencer dos menos expressivos aos maiores auditórios da opinião pública adversa; cancelou sua presença em eventos internacionais para não interromper a pregação de seus argumentos aos congressistas, aos meios de comunicação, à população. Não consola, mas alivia ver que existe quem se conduza assim, mesmo que não seja isso a chamar as atenções.

Rachman, no Financial Times de hoje:

Ao pressionar pela aprovação de uma reforma social que havia escapado de gerações de presidentes do país, de Teddy Roosevelt a Bill Clinton, agora, Obama pode mostrar um feito autenticamente histórico. O sucesso em aprovar a reforma da saúde também pode encorajar acadêmicos volúveis (incluo-me entre eles) a assumir uma visão mais equilibrada sobre o primeiro ano de Obama no cargo. O governo conseguiu, afinal, evitar a ameaça de completo derretimento do setor bancário. A economia dos EUA agora cresce com taxa anualizada de quase 6% -- muito mais do que qualquer economia ocidental comparável. Ao comprometer seu país a proporcionar assistência médica pública a quase todos, Obama solapará a visão de Michael Moore dos EUA como uma nação em que as grandes empresas exploram impiedosamente a população mais pobre e oprimida. Essa é a visão caricatural dos EUA que é imensamente popular na Europa e por todo o mundo. Será mais difícil propagá-la, após a aprovação das reformas de Obama para o seu sistema de saúde.


Claro, os direitinhas dirão que o governo vai aumentar impostos para cobrir os novos gastos com o sistema de saúde e, com isso, o Estado interferirá mais na economia. Do outro lado, os esquerdinhas falarão que Obama nada fez para acabar com a indústria da guerra e que é fraco na condução do acirramento no Oriente Médio. Isso tudo vai continuar, com ou sem reforma na saúde pública.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O criticismo burro

Já disse um zilhão de vezes aqui no Blog que não adianta sair cobrando governantes com pouco tempo de casa. Assim como não se pode demandar de um estagiário uma resolução de gerente, não se pode cobrar de qualquer ser humano que assume uma nova função algo que demande tempo e jogo de cintura que apenas a experiência dá.

Mas não adianta. É assim sempre. Nunca vou esquecer duas capas seguidas de Veja, em janeiro de 2003, com chamadas do tipo "já começaram a bater cabeças" junto à imagens de Lula e ministros como Palocci, Dirceu, Gushiken etc. Os caras, independentemente de serem bons ou ruins, tinham acabado de assumir o Estado e já estavam sendo criticados como incompetentes. Da mesma forma, o PT, em agosto de 1994 dizendo que o Plano Real era mal gerido.

Esse criticismo vazio, burro mesmo, nunca dá em nada. O governo Lula, entre 2003 e 2010, ampliou o crescimento médio brasileiro em quase dois pontos percentuais em relação ao PIB. E o Plano Real, em quatro meses, acabou com a hiperinflação no Brasil. O PIB sob Lula alcançou taxas de 6% (em 2004, 2007 e provavelmente em 2010 também) só verificadas nos anos 70. O Real cortou a inflação de 2.535% para 3%.

Tiveram erros? Certamente. O governo Lula é cheio deles e o Real, depois do lançamento, trabalhou com uma valorização cambial perniciosa e com uma taxa de juros desnecessariamente alta. Isso para não entrar nos oito anos de FHC.

Seja como for é muito precipitado atacar ou ter opiniões definitivas sobre alguém com pouco tempo de casa. A não ser que esse alguém seja o Collor, que destruiu o país logo no dia da posse, ou George W. Bush, que era uma anta sem igual. Para todo o resto, o analista político, econômico, ambiental, sindical, que seja, precisa ter calma.

Ninguém teve calma com Obama. Falei muito disso aqui no Blog.

Criticaram o cara por ter dado dinheiro demais aos bancos. Por ter ampliado o déficit público para contrabalançar os efeitos da mega recessão que se meteram. Por ter perdido a vaga democrata no Senado depois que Ted Kennedy morreu. Por ter sido "leniente" quanto ao golpe de Estado em Honduras. Por tudo. Qualquer coisa que tenha ocorrido, da China a Honduras, passando por Albânia e Inglaterra, entre janeiro de 2009 e março de 2010, teve culpa de Obama.
Não estou defendendo o presidente americano de nada. Ele errou, é claro, em uma série de episódios. Foi tímido em tantos outros e poderia ter sido mais incisivo no combate à crise econômica interna.

Mas o cara simplesmente fez a Câmara americana aprovar a reforma do sistema de saúde. Ninguém nunca chegou perto de fazer algo parecido. Pois ele fez. E não demorou, se pensarmos com cabeça de analista. Ele está na Presidência há apenas 1 ano e 2 meses. Dá para fazer muita besteira em pouco tempo -- Bush pai jogou o país numa guerra maluca no Kuwait, Reagan arrasou a economia e bombardeou o Panamá, Bush jr. declarou guerra ao Iraque e ao Afeganistão --, mas acertar uma grande mudança não é das coisas mais fáceis.

Se o Senado seguir a Câmara, nada menos que 32 milhões de americanos que hoje não contam com nenhuma cobertura de saúde -- porque não têm dinheiro para arcar com os planos de saúde mais caros do sistema solar -- passarão a ter assistência pública. Ainda que não seja a universalização da saúde, como ocorre no Brasil, é algo muito próximo disso. Os custos para reformar o sistema serão altos, mas não chegam aos pés dos gastos para salvar os irresponsáveis do sistema financeiro.

Fica aqui o registro aos "analistas" apressadinhos que cobravam a revolução dos costumes em um ano. Agora, os livros de história vão ignorar completamente "a falta de pulso firme" de Obama quanto à Honduras e falarão loucamente da reforma na Saúde pública -- a primeira desde a criação dos Estados Unidos.

Mais engraçado que a turminha do amendoim da Fox News -- que acha que Obama lê Lênin todos os dias para as filhas -- é pensar nos "analistas" políticos e econômicos da mídia e blogosfera tupiniquim que, ao longo de 2009 e 2010, cravaram que Obama era uma farsa.

Durmam com essa.

domingo, 21 de março de 2010

Domingo

Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?


Cecília Meireles, escritora brasileira.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Fim de expediente


Essa é ótima: a Interpol (Organização Internacional de Polícia Criminal) incluiu Paulo Maluf na lista de procurados. Depois de quarenta anos de vida pública polêmica, Paulinho, que já foi preso pela Polícia Federal brasileira, foi incluído na lista máxima da Interpol, a pedido dos Estados Unidos. A promotoria criminal de Nova York justificou o pedido com a acusão de "conspiração com objetivo de roubar dinheiro da cidade de São Paulo a fim de possuir fundos no Brasil, Nova York, e outros lugares, e ocultar dinheiro roubado".

Assim, como colocou Claudio Leal, se Maluf tentar comer um pastel e tomar uma cervejinha em algum dos 181 países em que o organismo mantém representação, ele pode ser preso.

Maluf é o grande nome da política paulista. Os paulistas adoram o cara. Já votaram nele para prefeito, governador e, recentemente, para deputado federal. Hoje, Paulinho só não está limado da vida pública porque esse grande povo paulistano o elegeu deputado federal pelo PP (partido que nasceu da costela do PDS, que sustentava a ditadura militar).

A relação carnal entre Maluf e os paulistanos teve momentos de intensidade obscena. Paulinho se lançou candidato à presidente nas eleições indiretas de janeiro de 1985, na disputa com Tancredo Neves (PMDB). Paulinho, como sempre, estava do lado errado, com os militares. Teve apoio efusivo entre o pessoal aqui de Sampa. Outro grande momento foi em 1996, quando Maluf bancou a eleição de seu secretário das Finanças, Celso Pitta.

Pitta, já falecido, foi um grande prefeito. Bem como Maluf foi muitíssimo honesto.

(modo irônico desligado)

A inclusão de Paulinho na lista de "WANTED" da Interpol, em plena sexta-feira, foi um belo fim de expediente para a política tradicional basbaque, que dá importância para o sujeito que faz obras rodoviárias e ignora escândalos e picaretagem com dinheiro público. A foto acima, que abre o post, é da página na Interpol em que Paulinho aparece e serve de souvenir para uma fase política do país que começa a se encerrar. Todos deveriam guardar com carinho.

Bom fim de expediente, Paulinho.

quinta-feira, 18 de março de 2010

A estratégia do PSDB em São Paulo


Ainda sem saber ao certo se será candidato ao governo de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB) já articula nos bastidores com um amplo rol de partidos. Na base partidária, principalmente nos pequenos municípios, Alckmin sempre foi muito hábil, como a costura interna de 2005 e 2006 -- que lhe permitiu sair à presidente -- demonstrou.

Alckmin já tem conversas avançadas com PMDB, DEM, PTB, PPS e PSC, que começam a se mexer favoravelmente à sua candidatura em São Paulo. Ele é um candidato forte por aqui. Não só foi governador interino depois da morte de Mário Covas (morto em 2001), como foi bem votado no Estado quando perdeu a presidencial de 2006. Em 2008, quando saiu candidato à prefeito, foi ignorado pela base forte PSDB-DEM depois que José Serra (PSDB) amarrou acordo para lançar Gilberto Kassab (DEM).

É justamente José Serra quem segura a candidatura Alckmin. Como Serra ainda não se lançou candidato à presidente, mantém acesa a chama de que pode largar tudo e lançar-se para uma reeleição tranquila ao governo de São Paulo. Como todo o pessoal íntimo de Serra sabe, nenhum gesto será feito antes de amanhã, quando o governador completa 68 anos. Serra aniversaria, passa o fim de semana e deve lançar a candidatura ao longo da próxima semana. Podem me cobrar aqui.

Além disso, pesa contra Alckmin o vexame de 2008. Foi o terceiro mais votado, ficando atrás de Kassab e Marta Suplicy (PT), com quem disputaria em condições normais. Ter perdido para Kassab demonstrou que sua habilidade nos municípios não era tão forte assim e sua força dentro do PSDB, que fora sólida entre o fim de 2005 e o início de 2006, havia rachado. O partido de Kassab, de lá para cá, vem perdendo força nacional e regional. Tinha apenas um governador -- José Roberto Arruda, no Distrito Federal, que hoje está preso e cassado. Resta um prefeito em cidade grande, justamente Gilberto Kassab, que faz uma gestão no mínimo pavorosa.

O declínio rápido e incontestável do DEM, mais que os méritos negociais de Alckmin, tem permitido que hoje se discuta uma candidatura não necessariamente serrista no Estado. Porque, como se sabe, Serra gostaria e muito de lançar Aloisio Nunes Ferreira, seu chefe da Casa Civil, ao governo do Estado. O derretimento do DEM, no entanto, abre novo espaço para Alckmin trabalhar apoios com partidos da base tucana em SP. E, se Serra confirmar a candidatura à Presidência, Alckmin, no mesmo dia, já estará fechado como candidato à governador.

A sinuca de bico do PSDB, em São Paulo, reside na costura que o PDT, com bases no movimento sindical paulista, pode fazer com o PSB (com Ciro, populista, e Skaf, empresário) e o PT. O DEM e o PMDB quercista colocarão todas as suas fichas nas eleições de 2010, em SP e no plano federal, porque dependem de ao menos uma vitória para continuarem relevantes. A briga intestina do PMDB, por enquanto, pende para o lado da turma de Sarney, Jucá, Renan e Temer, que controlam o Congresso e apoiam o governo federal. O grupo de Orestes Quércia, que conta ainda com Jarbas Vasconcelos, depende da vitória de Alckmin em São Paulo e de Serra para presidente. O DEM, então, está todo alocado, unido, em torno do PSDB -- em SP, no Rio e para presidente. Ainda que grupos demistas defendam Aécio -- o que mostra como é um partido bisonho porque os caras discutem quem, no PSDB, é melhor. Eles mesmos não tem quadros para indicar, nem pra vice...

Aécio é candidato ao Senado e, apenas por um cataclisma sairá candidato a presidente. Serra, que, como disse, anuncia a candidatura na semana que vem, passará a apostar suas fichas em Alckmin para governar São Paulo. Sua estratégia será conciliar sua candidatura com Alckmin, que guarda mágoas de 2008, e Aécio, que engoliu a seco a derrota na luta interna pela indicação do PSDB. Aécio se dá muito bem com Alckmin, que adora Aécio. São palanques importantíssimos para Serra, que, para convencê-los a apoiá-lo fortemente, lançará mão de seus contatos na direção do DEM e do PMDB.

A manobra, em São Paulo, é crucial para as pretensões do tucanato em 2010.

quarta-feira, 17 de março de 2010

BC mantém os juros

O Banco Central acaba de anunciar que manterá a taxa de juros básica, a Selic, estática em 8,75% ao ano. A decisão não foi unânime -- três dos oito diretores defenderam a elevação da Selic -- , o que indica que no próximo encontro, em fins de abril, o BC deve subir a taxa em meio ponto percentual.

No Blog, tivemos um ótimo debate sobre a decisão desta semana. Na caixa de comentários do post, um leitor defendeu a elevação da Selic, por ver a demanda crescendo acima da oferta, o que poderia gerar distúrbios mais a frente. Argumentei que seria um erro o BC subir os juros agora em março. Como a pressão nos índices inflacionários é praticamente toda sazonal ou devido à choques imponderáveis, subir os juros agora seria ceder ao alarme fácil do mercado financeiro. No fim de abril, o BC terá em mãos as informações do varejo (IPCA) relativo à este mês e do atacado (IGPs) do mês corrente. Terá, portanto, mais possibilidade de acertar -- e, consequentemente, menos chance de esfriar a economia indevidamente.

O BC, ao manter a Selic, acerta.

terça-feira, 16 de março de 2010

Os 20 anos do Plano Collor

Em meu livro, Versão Brasileira, trabalho com a inserção do Brasil no mundo "moderno", de hegemonia anglo-saxã no campo cultural. Nas 196 páginas, trabalho, entre outras coisas, com aspectos políticos e econômicos que sustentam -- e abriram caminho -- para nosso rebaixamento cultural pós-1990. Para isso, era necessário discutir o Plano Collor.

Hoje, completam-se 20 anos que a equipe collorida, liderada por Zélia Cardoso de Melo, anunciou o plano econômico mais polêmico da história do Brasil. Separei o trecho do livro que conta os contornos do choque. Publico logo abaixo.

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O Príncipe Moderno

Na quarta-feira 15 de fevereiro de 1990, Collor retornava ao Brasil depois de sua viagem ao exterior. Concedeu uma entrevista coletiva para relatar sua experiência, a recepção dos líderes políticos e empresariais internacionais ao novo presidente brasileiro e acalmar os mercados que especulavam sobre suas medidas econômicas. Naquele momento, restavam exatos 30 dias para sua posse, e os ânimos dos investidores, nacionais e internacionais, estavam à flor da pele, diante de uma inflação que alcançava 70% ao mês.

Surgiam boatos sobre um calote em gestação, endereçado aos investidores do overnight, onde diariamente girava uma soma de US$ 70 bilhões, uma fortuna para a época, diante da escassez de dólares no país. Esse dinheiro era depositado nos cofres do governo por bancos, indústrias, fundos de pensões, assalariados de altas faixas e até trabalhadores mais modestos, que aprenderam a operar no que era uma fonte de remuneração praticamente incomparável no resto do mundo: era possível capturar rendimentos reais (descontada a inflação) de até 60% ao ano. O overnight, naqueles tempos, concentrava a poupança do país inteiro. Era essa massa de dinheiro que atraía as preocupações dos investidores, inseguros a respeito do destino que lhes daria o novo presidente. Era isso o que a imprensa em geral queria saber de Collor naquela quarta-feira de fevereiro, um mês antes de ser empossado.

“Cada um deve fazer aquilo que julgar conveniente com seu dinheiro. Eu não sou consultor financeiro nem consultor econômico”, afirmou Fernando Collor de Mello às perguntas sobre o tema da poupança dos brasileiros. O presidente eleito já sabia o que faria dali um mês. Mas só no dia seguinte à posse, na manhã de 16 de março de 1990, o resto do Brasil e do mundo descobriria quais seriam os passos do homem escolhido para trazer a modernidade ao país.

O Plano Collor

Durante o segundo semestre de 1989, no auge das campanhas políticas pela eleição presidencial que ocorreria no fim do ano, muitas ideias de combate a inflação eram aventadas por economistas e analistas aos partidos. Havia um início de hiperinflação no país, que fecharia aquele ano de 89 com 2.000%. Uma ideia clássica era retirar todo o dinheiro da economia, forçando um ajuste de preços – todos eles: de bens e serviços até salários e títulos – para baixo, que traria os níveis de inflação para a realidade. Na teoria, essa ideia fazia sentido. E até por isso, muitos economistas levaram essas propostas à assessoria do candidato do PMDB, Ulysses Guimarães. Quer dizer, começava-se a formular uma teoria de reter o dinheiro no Brasil para que os preços caíssem, acabando com a inflação.

Quando ficou claro o esvaziamento da campanha de Ulysses, a proposta foi levada para a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva, do PT, obtendo “grande apoio por parte de sua assessoria econômica” (Carvalho, Carlos Eduardo – As origens e a gênese do Plano Collor). Logo após o segundo turno, com a vitória de Collor, a ideia de bloquear o dinheiro teria vindo de Daniel Dantas, banqueiro ligado a Mário Henrique Simonsen (Ministro da Fazenda do governo Geisel). Durante as semanas de indefinição sobre quem seria o ministro da Fazenda do governo Collor – quando se aventou, inclusive, Daniel Dantas – as ideias de reter todo o dinheiro da economia foi ganhando musculatura.

No momento em que se decidiu pelo nome de Zélia Cardoso de Mello, a proposta já era forte. Zélia aprovou. Na manhã do dia 16 de março de 1990, o Brasil acordou com o programa de combate a inflação do novo governo já anunciado. Tinha o nome de Plano Brasil Novo, logo esquecido. O nome que o marcou foi exemplificado pela figura do presidente, e levava como principal ação o “bloqueio da liquidez de parte considerável dos haveres financeiros, exceto o papel-moeda em poder do público. Os valores em cruzados novos bloqueados ficariam recolhidos ao Banco Central do Brasil por dezoito meses, recebendo juros de 6% ao ano mais correção monetária, creditados diariamente, e seriam liberados em doze parcelas mensais a partir do 19º mês”, conforme relatado na Medida Provisória 168, depois transformada na Lei nº 8.024, de 12/04/1990 (Carvalho, Carlos Eduardo – As origens e a gênese do Plano Collor).

Se tratava, pura e simplesmente, de um “confisco monetário”, logo apelidado de “confisco da poupança”. Há um confisco de valores da população pelo Estado, mesmo incluindo compromisso explícito de devolução ao liberação, “pois economicamente os legítimos donos são privados (inteiramente ou ao menos em grande extensão) do domínio e do usufruto de seus fundos”. O Plano Collor bloqueara dinheiro das aplicações overnight em títulos públicos, dos fundos de investimentos e das cadernetas de poupança, onde estava a maior parcela do dinheiro da população brasileira. O choque, mais que econômico, foi moral e psicológico: da noite para o dia os brasileiras perderam 70% de toda a poupança acumulada em vida. Collor apostara, de uma só vez, todo seu capital político.

E não apenas isso: jogava fora boa parte de seu apelo eleitoral, calcado na segurança e confiança contra o radicalismo de Lula, seu rival do segundo turno, que, segundo Collor assinalou em entrevista à Folha de S.Paulo em 15 de dezembro de 89 , dois dias antes das eleições finais, tinha a intenção de fazer “tudo o que estiver a seu alcance para cercear e se possível suprimir a liberdade de expressão”. Collor, inclusive, trouxe à campanha a acusação de que Lula e seu partido, se eleitos, confiscariam a poupança dos brasileiros.

Em um só dia, Collor colocava toda sua aprovação popular em jogo.

****

Foi sintomático que Collor, antes elevado às alturas pela mídia, entre 87 e 89, logo de partida começou a perder força. A partir da metade de 1991 as coisas começaram a ficar feias para o presidente, que trocou a equipe de ministros para tentar alterar a relação de forças. No começo de 1992, no entanto, diante do descalabro político, econômico e gerencial, a entrevista de seu irmão Pedro à Veja, foi a gota d'água que deu início a um processo como nunca se viu. As revistas Veja e IstoÉ revezavam-se em lançar e apurar escândalos, enquanto que durante a semana Folha e Estadão iam nos meandros, ampliando as polêmicas das semanais. Na parte final, a partir de julho-agosto, até O Globo -- o último a manter certa distância do rol de denúncias -- entrou em jogo. Collor deixou a Presidência para Itamar Franco em fins de setembro, mas não teve tempo de renunciar ao cargo. Sofreu impeachment em novembro.

Pedro Collor, o homem que empurrou a primeira carta que levaria todo o castelo de cartas do governo ao chão, morreu em dezembro de 1994. PC Farias, o tesoureiro da campanha e amigo pessoal do presidente, foi assassinado (ou se suicidou) em julho de 1995. Renan Calheiros, braço direito de Collor em 89 e em 90, rachou com o governo em 91 e, em 92, foi um dos entrevistados pelas revistas -- nas páginas amarelas de Veja e nas vermelhas de IstoÉ -- atacando Collor. Hoje, Renan é senador pelo PMDB e aliado político de Fernando Collor, também senador, pelo PTB.

Vinte anos depois, o Plano Collor continua a ser a maior tragédia política e econômica de nossa história.

segunda-feira, 15 de março de 2010

O Banco Central e o erro de elevar os juros nesta semana

O Banco Central persegue a meta de 4,5% para o aumento de preços. Para isso, ele conta com, praticamente, um instrumento: a taxa de juros básica, Selic. Se prevê que a inflação pode superar a marca dos 4,5% nos 12 meses, ele eleva a Selic, tornando o crédito mais caro e desaquecendo a demanda, diminuindo preços e trazendo a inflação para baixo. Ao mesmo tempo, onera a dívida pública, encarece o financiamento e estanca (muito ou pouco, depende do choque) a atividade.

A inflação veio abaixo da meta, em 2009, fechando em 4,31%. Desses, o equivalente a 0,11% foi unicamente devido à alta do açúcar. Não fosse a alta da cana, que teve problemas de safra graças à chuvas torrenciais na Índia (grande exportador mundial) e pegou outros grandes produtores, como o Brasil, no período de entressafra, a inflação teria sido ainda menor: 4,2%.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador de inflação no varejo do país, coletado pelo IBGE e usado pelo BC, veio em alta forte nos dois primeiros meses do ano. Em janeiro bateu em 0,75% e em fevereiro chegou a 0,78%. Assim, acumulou 1,5% em dois meses.

O mercado tem feito um chororô danado quanto a isto. Diz, em alto e bom som, que a inflação já chegou em 1,5% em dois meses -- ou seja, falta apenas 3% para alcançar a meta no ano. Assim, as expectativas do mercado financeiro tem subido semana a semana. Já acham que o IPCA vai fechar acima de 5% em 2010. E tem analista trabalhando 5,5% já.

O mercado ignora que a inflação, em janeiro e fevereiro, é 40% sazonal e 40% choques imponderáveis. Tivemos alta nos transportes -- graças ao reajuste nas tarifas de transporte público em capitais como São Paulo e Salvador -- e alta no material escolar. Isso não vai se repetir. Acontece em janeiro e fevereiro. O mercado deveria saber disso, afinal, todo ano tem janeiro e fevereiro, não?

Além das questões sazonais, tivemos problemas com o imponderável -- aquilo que não pode ser antecipado. Além do açúcar, que pressionou até mais ou menos a metade de fevereiro, quando começou a cair (hoje está despencando), tivemos problemas com alimentos in natura e processados, graças aos problemas de alagamentos em grandes armazéns, como o Ceagesp em São Paulo. O açúcar, além de encarecer o grão, encarece o álcool combustível e também a gasolina, que conta com álcool em sua mistura. Assim, o impacto é disseminado.

Não será uma alta nas taxas de juros que vai "consertar" a elevação nas tarifas do ônibus, dos lápis coloridos das escolinhas, do açúcar que estava na entressafra ou das frutas afogadas. Teremos safra recorde, que começa a ser colhida agora. As chuvas, surpreendentes fortes e consecutivas, já pararam. O transporte e o material escolar já foi reajustado.

Temos inflação de demanda? Claro. Sempre tivemos e sempre teremos. A demanda vem forte, puxada por reajustes no salário mínimo -- que corrigem também dois terços dos benefícios previdenciários --, melhora do mercado de trabalho, e atividade bombando (PIB em quase 6%, segundo estimativas). Mas isso representa a menor parte das altas de janeiro e fevereiro.

Elevar os juros, agora em março, seria um erro de precipitação. Precisa ser muito conservador para achar que a inflação de 0,78% em dois meses será a explosão da hiperinflação no Brasil, o fim da Terra como a conhecemos, a anarquia dos povos.

O BC se reune amanhã e, na quarta-feira, anuncia como ficará a Selic, hoje em 8,75% ao ano, das maiores taxas de juros do mundo. Ele pode, tranquilamente, esperar até o fim de abril, quando ocorre a próxima reunião. Mantém a Selic em 8,75%, indica, numa decisão por 5 x 3 (com minoria defendendo elevação) que no futuro próximo mexe na taxa. Até abril, os diretores do Banco Central terão em mãos o IPCA de março -- o primeiro sem pressões sazonais ou choques imponderáveis -- e os dados do atacado (os IGPs) relativos à março e abril. Uma decisão, então, será mais firme e baseada em fatos e estimativas centradas na realidade, e não nessa megalomania do mercado de ver inflação em tudo quanto é lugar.

O mundo mudou minha gente. Nosso problema não é mais a inflação...

domingo, 14 de março de 2010

Domingo

Mãe, às vezes eu sinto como se o mundo estivesse vazio, e ninguém mais existisse, a não ser nós, quer dizer, você, papai, eu e meus irmãos. Como se a nossa família fosse a única e primeira. Então, o amor e o ódio teriam de nascer entre nós.


Edmundo, personagem de "Álbum de Família", texto de Nelson Rodrigues, dramaturgo brasileiro.

sexta-feira, 12 de março de 2010

A morte do cartunista

Nesta madrugada, o cartunista Glauco e seu filho Raoni, de 25 anos, foram assassinados por três assaltantes, que tentavam sequestrar o cartunista de sua casa, em Osasco (SP). Pai e filho levaram quatro tiros cada, segundo informações, e não chegaram com vida ao hospital.


Glauco, além das inesquecíveis personagens Dona Marta e Geraldão, também foi co-roteirista da TV Pirata, além de escrever quadros para o infantil TV Colosso, ambos da TV Globo. Ao lado dos amigos Angeli e Laerte, criou Los Tres Amigos, personagens geniais.


A morte do cartunista escancara o mundo real.





Acima, sua última tirinha.

quarta-feira, 10 de março de 2010

De senadores, acadêmicos, racistas e deliquência

Não sou muito velho. Na realidade, se me basear no testemunho de amigos e colegas, sou "muito moço" para entrar em debates políticos de toda sorte. Comigo, penso que era "muito moço" lá trás, em 2006 ou mesmo 2007, quando este Blog estava começando. Hoje, estou calejado, ainda que, com certeza, com muito a aprender.

Posso ser moço, mas, nos últimos anos de discussões diárias acerca de lutas internas e externas, nunca vi ou li nada sequer parecido ao show de horror que se passou nos últimos dias, quanto ao debate das cotas raciais. Na semana passada, este primor de senador Demóstenes Torres (DEM), disse que as cotas raciais são um erro porque há miscigenação no país, formada numa relação consentida entre brancos (senhores de engenho) e negras (escravas africanas trazidas ao Brasil). Justificou sua tese anti-cotas raciais lembrando casos de negros africanos que traficavam escravos.
Particularmente, sou contra as cotas raciais por solidificarem uma diferenciação racial. Mas não sou contra a ideia de cota e, diante da situação de descalabro que ainda perdura no país -- temos sim desigualdade racial e sim, somos uma nação infestada de racistas -- instituir cotas raciais, num primeiro momento, não é uma coisa ruim. Seja como for, há um debate claro aí, com justificativas honestas de lado a lado.

O que não dá é, em pleno século 21, um sujeito, que além do mais é senador da República, falar que o estupro de escravas era consentido. Vejam só. A negra era traficada, tirada de seu país e levada à outro num navio cheio de gente na mesma situação, ficava meses num galpão infestado de ratos, sem comida, urinando e defecando no mesmo espaço que outras centenas em mesma condição, para aportar no estrangeiro (Brasil) e trabalhar mais de 16 horas por dia, sem receber remuneração e ainda por cima sendo açoitada e espancada. Viviam não mais que 25, 30 anos.

E o senhorzão de escravos, branco português, semi-analfabeto também, baixava a calça e fazia horrores com escravas, que engravidavam -- não, Demóstenes, não existia camisinha nos séculos XVII, XVIII e XIX, juro -- e disseminavam no país a cultura da criança sem pai, mestiça e largada. Isso, para gente como um senador da República, era "relação consentida".

Aí, o que acontece?

Os jornais publicam o que o senador disse. O primeiro a publicar foi a Folha de S. Paulo, em matéria assinada por Laura Capriglione e Lucas Ferraz. No dia seguinte, O Globo, Estadão e Valor repercutem. O Valor, inclusive, trazendo entrevista em ping pongue com Demóstenes, que mantém seu ponto de vista preconceituoso.

Pois, uma semana depois, a Folha publica artigo do acadêmico Demétrio Magnolli, doutor em geografia, chamando os jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz de "delinquentes" por terem transcrito o que disse Demóstenes. Coisa baixo nível mesmo. Demétrio, o acadêmico, cita, nominalmente, os jornalistas:

As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz. A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais se inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.

Demétrio, o acadêmico, parte de um pressuposto perigoso, ao afirmar que os jornalistas tinham intenções políticas ao escrever a matéria. Desse pressuposto, Demétrio, o acadêmico, ataca. Em seguida, critica as cotas raciais e fundamenta seu ponto. Aí, nada contra. Trata-se, como disse antes, de algo perfeitamente discutível, com argumentos bons de lado a lado. Demétrio, o acadêmico, faz um desenho histórico -- algo que ele conhece bem -- para defender seu ponto de vista. Mas erra ao atacar de maneira vil e desonesta os jornalistas que relataram o que disse Demóstenes, o senador.

Agora, uma coisinha bem importante. Vocês, caros leitores, sabem quem é Demóstenes, o senador, e Demétrio, o acadêmico? Vamos lá, então.

Demóstenes é o senador que esteve envolvido naquela piada do "grampo no Supremo", que ganhou capa da Veja em agosto de 2008, no auge do debate levantado pela Satiagraha, que um mês antes prendera Daniel Dantas. Na época, Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, foi "grampeado" em conversa com Demóstenes, o senador, tratando de frivolidades. O fato de o presidente do Supremo e um senador terem sido "grampeados" lançou sobre a República um espectro terrível, de que todo mundo estava sendo grampeado. Aquilo virou o assunto do momento, fez esquecer a Satiagraha e limpou os quadros da Polícia Federal e Abin que estavam trabalhando na Satiagraha.

Isso porque, na matéria, a revista dizia que o "grampo" foi feito por gente da Abin. Até hoje, quase dois anos depois, ninguém nunca viu o tal grampo. Mas, os dois, Mendes e Demóstenes, disseram que tinham mesmo conversado. Então, ficou naquele bafafá. Tempos depois, em março de 2009, Gilmar Mendes ainda fechou aquele engodo com chave de ouro ao dizer que, mesmo sem mostrar o grampo, aquilo era "extremamente plausível" e, "se a história não era verdadeira", era, ao menos, "extremamente verossímil".

Maravilha, não? Quer dizer, o sujeito que legisla sobre o que é ou não é, diz que a história, seja ela qual for, pode ser mentira, mas, se for "extremamente verossímil", ah, então não há problema.

Pois bem, vocês conheceram Demóstenes, o senador. Agora vamos ver quem é Demétrio, o acadêmico.

No começo do mês, Demétrio Magnolli foi convidado do Instituto Millenium para falar sobre mídia. Mais especificamente, foi falar sobre "ataques contra a liberdade de expressão". Sabe aquele papo macartista (anos 50, século passado), ou satilinista (anos 40, século passado), ou mesmo maoísta (anos 40 a 70, século passado) de governo controlar a mídia? Aquilo que acontece em regimes avançados como Cuba e China? Então, o pessoal se juntou para conversar sobre o medo de que isso aconteça no Brasil.

Por si só, como vocês já devem ter percebido, uma asneira completa. Mas vamos continuar.

Demétrio entra em cena para falar do PT. Entre uma e outra análise, Demétrio disse que o PT hoje é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político reminescente dos antigos partidos comunistas.

Peraí, como é que é? O Demétrio diz que o PT é controlado por castristas, gente ligada à Fidel Castro, é isso? Alguém consegue imaginar Guido Mantega ligando para o Fidel e perguntando "e aí, companheiro, eu, que sou filiado ao PT e sou o manda chuva da economia, queria saber o que você achou da redução do IPI para carros? Fui comunista?". Ou ainda Henrique Meirelles, que tem total liberdade dentro do governo, ainda que não seja filiado ao PT (mas ao PMDB), viajando a Cuba para verificar como é feita a gestão da política monetária?

Deus me livre. Fica parecendo aquela crítica besta que setores "intelectuais" do PT ou da esquerda de maneira geral faziam nos anos 90, quando falavam que membros do governo FHC eram "assalariados" dos americanos porque defendiam a privatização. Menos, Demétrio, menos.

Pois é ele, Demétrio, o acadêmico, quem vê "controle da mídia" sendo defendido no governo, que chamou os jornalistas da Folha de delinquentes por terem relatado o que disse Demóstenes, o senador, acerca do "estupro consensual" nos tempos da escravidão.

Esse pessoal deveria conhecer mais história e ter um pouquinho mais de humanismo antes de sair arrotando atrocidades.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Rápida observação sobre Kassab

Estive ontem na inauguração da sede da Força Sindical, aqui em SP. Entre os presentes, sindicalistas de diferentes gerações, além dos presidentes das seis centrais reconhecidas pelo Ministério do Trabalho. A inauguração, feita em forma de ato político, serviu para legitimar o uso do imposto sindical por parte das centrais -- a Força recebeu R$ 22 milhões com o imposto, em 2009, e diz ter usado R$ 6 milhões para adquirir e reformar a nova sede. Além disso, estavam lá dois convidados externos: o deputado federal Cândido Vaccarreza, líder do PT na Câmara, e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab (DEM).

É sobre este último que quero falar.

Com todo o respeito, mas salta aos olhos a incapacidade de Kassab para falar em público. Qualquer pessoa que gosta de observar saca quem fica mais à vontade, quem fica menos, quem fala bem, quem fala mal, etc. Entre os seis presidentes das centrais, por exemplo, é latente quem sabe falar ao grande público, seja este formado por trabalhadores ou não, e quem não sabe.

Pois bem, nosso prefeito não sabe.

Diz coisas absolutamente desimportantes, fica estático no palco -- manhã quente, muita gente em espaço apertado, muito burburinho e o cara lá, como se estivesse vendo um filme -- e, quando abordado pelos repórteres (este blogueiro foi um deles), fala pouco e não diz nada. Não é que ele omite ou se esquiva, algo perfeitamente comum em políticos, mas ele responde francamente. E não diz nada.

"Mas o que você queria que ele falasse, cara pálida?", pode perguntar o incauto. Não estou cobrando o prefeito por dizer coisas óbvias e inúteis num dia de solenidade política. De fato, ele tem de falar que a Força é importante, que a sede é legal, que o dia internacional da mulher era no dia seguinte (hoje), que isso tudo é muito bacana, coisa e tal. Mas podia ir além disso, ao menos quando perguntado pelos repórteres. Poderia falar sobre o papel do DEM quanto à Arruda, seu ex-colega de partido que está preso. Poderia falar sobre o DEM e sua relação com o PSDB, partido de seu amigo (ainda é?) José Serra, pré-candidato à Presidência. Poderia falar sobre iniciativas futuras da prefeitura. Poderia responder críticas dos partidos de oposição, aqui em SP, quanto a seu governo.

Se ele falasse sobre futebol já seria um avanço.

***

Aliás, a cobertura do evento na Força pode ser lida no Valor de hoje, aqui.

No texto, menciono matéria publicada na edição de sexta-feira, quando fiz levantamento com as seis centrais sobre o dinheiro arrecadado com o imposto sindical. Ela pode ser lida clicando aqui.

***

Já fiz muitas críticas ao trabalho da prefeitura. Elas podem ser lidas clicando na tag São Paulo, aí do lado esquerdo do Blog. Este post, no entanto, não é uma análise política ou eleitoral, como fiz das outras vezes em que escrevi sobre a prefeitura e o prefeito. É, como deixei claro no título, uma constatação rápida quanto a postura e (falta de) assunto do prefeito.

domingo, 7 de março de 2010

Domingo

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la.
Em cofre não se guarda coisa alguma.
Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por
admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por
ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela,
isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro
Do que um pássaro sem vôos.

Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,
por isso se declara e declama um poema:
Para guardá-lo:
Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda:
Guarde o que quer que guarda um poema:
Por isso o lance do poema:
Por guardar-se o que se quer guardar.


Antônio Cícero, poeta brasileiro.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Fim de expediente

Estimulado pelo frio repentino que bateu em São Paulo tão logo março começou, lembrei na interpretação seminal de Elis Regina para "Águas de março", do Tom. Achei que era uma escolha óbvia e, no meio da pauleira da semana, comecei a remexer a memória e, de Elis, cheguei na alegria esfusiante de Jair Rodrigues, seu parceiro de coro nos anos 60. Lembrei, então, do inesquecível Jongo Trio, que acompanhava Elis e Jair. Logo tive a imaginação preenchida pela maravilhosa "Pout-Pourri do Morro", que o grupo interpretava em 1965 e 66. Aí, a saudade bateu porque o grande baixista do Jongo, mestre Sabá, nos deixou na semana passada, aos 83 anos.

Parei de pensar ontem à noite, quando soube do falecimento de Johnny Alf. Mestre, e agora saudoso Johnny Alf, foi dos primeiros a trazer o Jazz norte-americano, que ainda não era o bebop de Parker e Gillespie, mas o mais tradicional, para as searas brasileiras. Johnny mesclava, com seu piano leve e letras descontraídas, uma voz fenomenal, que era um instrumento por si só. Sua voz, no entanto, era baixinha, não era o imponente das meninas do rádio, das cantoras de bolero ou o samba-canção, que animava a vida brasileira nos anos 40 e início dos 50. Johnny fazia um jazz à brasileira, cantando os temas do adolescente.

Ficou famoso por tocar noites à fio nas boates da zona sul carioca, no hotel Plaza, onde os jovens de 17 a 19 anos se aboletavam para acompanhá-lo ao piano, bebericando um drink, dividindo cigarros e cantando as moças entoando as letras do Johnny -- preferencialmente aquelas que ele não estava tocando. Assim, entre 1955 e 1957, Johnny já forjava o que viria a ser a Bossa Nova, que teve como marco inaugural a batida do violão e voz mansa de João Gilberto em "Chega de Saudade", lado A do biscoito acompanhado ainda por "Bim Bom", no lado B.

Johnny, tal como Dick Farney, não era bossa nova. Ele ajudou a criar, a mostrar que era possível unir sonoridades e brincar com o som brasileiro, do samba baiano e carioca, com o jazz que tanto fazia mexer.

Faleceu ontem, aos 80 anos, em Santo André, onde estava internado. Não tinha parentes e, como fez desde que o movimento da bossa nova explodiu e o Brasil entrou de boca na indústria cultural, ficou sozinho.

Bom fim de expediente a todos, e uma grande saudação à Johnny Alf.

quinta-feira, 4 de março de 2010

O símbolo que Aécio construiu



Aécio Neves deixa, em menos de 30 dias, o governo do Estado de Minas Gerais para concorrer nas eleições de outubro. Depois de oito anos, o governador deixa Minas ainda sem saber exatamente se para ser vice de José Serra na chapa presidencial do PSDB ou para ser candidato ao Senado Federal. Aécio, até dezembro, era pré-candidato, como Serra. Ele desistiu de concorrer, diante da demora tucana em se decidir por um e outro. Deixou o botijão nas mãos de Serra que, ontem à noite, se reuniu com o mineiro para solicitar-lhe que aceite ser seu vice.

Aécio está mais tentado a sair senador, cargo que fatalmente alcança, visto sua aprovação em Minas. Se sair na vice de Serra, corre um risco considerável de perder, uma vez que as pesquisas mais recentes já apontam empate técnico entre Serra e a candidata do PT, Dilma Rousseff, que ainda nem começou a surfar nos quase 80% de aprovação do presidente Lula.


Seja como for, Aécio Neves inaugura hoje sua maior obra: a nova sede do governo do Estado, denominada de Cidade Administrativa. Projetada por Oscar Niemeyer, a obra custou ao todo R$ 1,69 bilhão e é a maior construção envidraçada da América Latina. Localizada a 20 km da capital Belo Horizonte, a justificativa oficial é "interiorizar o desenvolvimento", além de "aprimorar a gestão pública", ao unificar todas as autarquias e secretarias no mesmo bloco.


Aécio, mais que qualquer coisa, deixa um símbolo. Inaugura hoje um monumento que não poderá ser abandonado, do mesmo modo que a Pampulha e Brasília, construídos, respectivamente, nos anos 1940 e 1950, permanecem. Monumentos esses que também foram projetados por Oscar Niemeyer, sob encomenda do mineiro Juscelino Kubitschek, que era prefeito de BH nos anos 40 e presidente do Brasil no fim dos anos 50. À época, Niemeyer despontava como a grande sensação da arquitetura brasileira (anos 40) e mundial (anos 50), revolucionando a maneira como a arquitetura se relacionava com os centros urbanos. Hoje, com 102 anos, Niemeyer é ele o monumento que suas obras transpiram.
A Cidade Administrativa é a obra mais vistosa, mais cara e mais ambiciosa legada pelos oito anos do governo Aécio Neves (2003-2010).

Um monumento de 1 bilhão e 690 milhões de reais.

quarta-feira, 3 de março de 2010

Um discurso

Sou favorável ao jogo limpo. Porém, quando falo em jogo limpo, quero dizer que não apenas respeito as regras estabelecidas, mas que me bato para que tais regras sejam alteradas de maneira a propiciarem uma igualdade mais substancial de oportunidades e de recompensas por serviços igualmente bons. O verdadeiro conservador é aquele que insiste em considerar a propriedade como serva e não como a senhora da comunidade; insiste em que uma coisa criada pelo homem seja a serva e não a senhora do homem que a criou.

A ausência de uma restrição eficaz do Estado, e mesmo de uma restrição nacional, às formas descabidas de fazer dinheiro, levou à criação de uma pequena classe enormemente rica e economicamente poderosa, cujo principal desiderato é a fruição do poder e seu aumento. A primeira providência é alterar as condições que permitiram a esses homens acumularem um poder que não se destina ao bem geral, que eles deveriam promover. Não condenamos ninguém por deter uma fortuna que resultou de seu próprio esforço e sagacidade, que maneja considerando o bem-estar de seus concidadãos... Não condenamos ninguém por possuir uma fortuna honradamente conquistada e bem empregada. Não basta que haja sido ganha sem ter causado dano ao país. Devemos aceitar tal riqueza somente quando representa um benefício para a comunidade. Bem sei que isso implica uma interferência muito mais ativa por parte do governo nas condições sociais e econômicas deste país, em comparação com a atualmente exercida, mas julgo que temos de enfrentar o fato de que esse aumento do controle do governo se tornou agora necessário.

O governo nacional pertence a todo o povo americano e onde quer que a maioria esteja interessada, tal interesse somente poderá ser defendido pelo governo nacional. As melhorias que desejamos deverão ser conseguidas, creio eu, através principalmente do governo nacional. O povo americano está certo ao pedir o novo nacionalismo, sem o qual não podemos enfrentar os futuros problemas. O novo nacionalismo coloca as necessidades nacionais antes das setoriais ou pessoais. Não admite a confusão que resulta da ação das assembleias querendo tratar os problemas nacionais como se fossem locais. E admite ainda menos a impotência que deriva da exagerada divisão de poderes governamentais, impotência que torna possíveis os egoísmos locais ou as astutas manobras legais desencadeadas em favor dos opulentos interesses especiosos, com o objetivo de bloquear a ação nacional. Este novo nacionalismo encara o poder executivo como o procurador do bem-estar público; espera do judiciário que se interesse prioritariamente pelo bem-estar do homem, em vez de cuidar da propriedade; do mesmo modo como exige que as assembleias representem todo povo e não apenas uma classe ou uma seção desse povo.

Acredito em adaptar as finalidades do governo tendo em vista tanto a proteção da propriedade como a do bem-estar humano. Normalmente e a longo prazo, os dois objetivos se confundem, mas, sempre que houver uma alternativa, sou a favor do homem e não da propriedade.

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Completamos 100 anos desde que Theodore Roosevelt, presidente dos Estados Unidos, proferiu essas palavras, em Osawatomie. (retirado do livraço "Roosevelt e Hopkins", de Robert E. Sherwood)

O novo nacionalismo proposto por Theodore em 1910, no entanto, só seria colocado em prática durante o governo de seu sobrinho, Franklin Delano Roosevelt, que tirou os EUA da Grande Depressão, entre 1933 e 1945.

Hoje, 2010, o novo nacionalismo se fortalece nos EUA, como vemos no acirramento entre republicanos e democratas ou há um pastiche?

Trazendo para a terrinha, em ano eleitoral e crucial. Vemos o "novo nacionalismo" no Brasil?

terça-feira, 2 de março de 2010

O ataque contra o euro

Com a crise dos Piigs (Portugal, Itália, Irlanda, Grécia e Espanha, na sigla em inglês), a União Europeia vê surgir um problema ainda mais grave: sua moeda única, o euro, está sob ataque especulativo.

Segundo noticia hoje o Wall Street Journal, poderosos fundos de hedge estão apostando na queda da cotação do euro frente ao dólar. A operação, conjunta (...cartel, talvez?), se dá em contratos de derivativos e opções cambiais em bolsas de futuro. Trata-se de um jogo complexo, mas que, grosso modo, significa que um papel que vencerá no futuro -- num prazo de, digamos, 06 ou 12 meses -- é vendido em forma de aposta para fundos de hedge, que negociam entre si. Pode-se negociar tudo, desde moedas e juros, até cotações de títulos públicos e preços de commodities.

Se, no prazo estimado, a cotação registrada na aposta estiver certa, o aplicador ganha. Se estiver errada, ele tem de recompor margens. Essas operações, via de regra, são feitas por fundos poderosos (com ativos superiores a US$ 10 bilhões, por exemplo) que, além de tudo, operam alavancados, isto é, com dinheiro emprestado sobre sua base de capital. Seus ganhos, portanto, são enormes, porque se dão sobre base muito grande.

Conforme os números mais recentes, as apostas contra o euro aumentaram para o recorde de 60 mil contratos futuros. É o maior patamar desde 1999, segundo o Morgan Stanley. Os dados representam o volume de contratos futuros que terão lucro se o euro cair para cotações específicas no futuro. No caso, a aposta geral dos fundos é que a cotação do euro equipare ao dólar, isto é, US$ 1 = 1 euro.

O euro, que valia US$ 1,51 em dezembro, agora está testando a barreira dos US$ 1,35. Segundo o Wall Street Journal, uma queda deste patamar para os almejados US$ 1,00, seria "o melhor negócio de toda uma carreira". Entrar com US$ 5 milhões, para fazer um negócio de US$ 100 milhões -- algo que é possível, uma vez que as operações são alavancadas umas vinte vezes -- e aproveitar uma oscilação cambial de 5% na direção em se apostou (para baixo ou para cima) poderia dobrar seu capital inicial. Quer dizer, os US$ 5 milhões passam para US$ 10 milhões numa simples aposta.

Claro, não é tão simples assim. Como o dinheiro em jogo é pesado, os fundos não estão acostumados a perder. Dessa forma, antecipam movimentos e indicam tendências. Essas operações, de baixar o euro, é boa para todos os fundos, que estão apostando loucamente em contratos futuros. Assim, o ataque especulativo se configura. E, uma vez instaurado, mexe com a consciência de todos os agentes, que já passam a precificar um euro mais baixo em contratos financeiros de todo tipo.

Quando ataques desse tipo começam, fica muito difícil jogar contra. Na história recente, não faltam casos de países reféns dos grandes operadores.
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