domingo, 28 de fevereiro de 2010

Domingo

A população da cidade triplicava com a extraordinária afluência de retirantes. Casas de taipa, palhoças, latadas, ranchos e abarracamentos do subúrbio, estavam repletos a transbordarem. Mesmo sob os tamarineiros das praças se aboletavam famílias no extremo passo da miséria -- resíduos da torrente humana que dia e noite atravessava a Rua da Vitória, onde entroncavam os caminhos e a estrada real, traçada ao lado esquerdo do Rio Acaracu, até o mar. Eram pedaços de multidão, varrida dos lares pelo flagelo, encalhando no lento percurso da tétrica viagem atráves do sertão tostado, como terra de maldição ferida pela ira de Deus; esquálidas criaturas de aspecto horripilante, esqueletos automáticos dentro de fantásticos trajes, rendilhados de trapos sórdidos, de uma sujilidade nauseante, empapados de sangue purulento das úlceras, que lhes carcomiam a pele, até descobrirem os ossos, nas articulações deformadas. E o céu límpido, sereno, de um azul doce de líquida safira, sem uma nuvem mensageira de esperança, vasculhado pela viração aquecida, ou intermitentes redemoinhos a sublevarem bulcões de pó amarelo, envolvendo, como um nimbo, a trágica procissão do êxodo.


Domingos Olímpio, escritor cearense, 1904.


Atualização

Por Carolina:
Coincidência termos assistido uma peça com um tema tão próximo bem no dia em que vc posta esse trecho!

A querida Carolina se refere à peça O que se verá, que aproveita os temas e trechos de "Morte e Vida Severina", do grande João Cabral de Melo Neto, para discutir o presente -- muitas personagens, por exemplo, são figuras dos centros urbanos subdesenvolvidos deste início de século 21.

Fica a dica aos leitores paulistas: "O que se verá", de quinta à domingo, no Teatro Célia Helena, na Liberdade. Fica também o beijo à amiga Adriana Sá Moreira, que dá show na peça.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

A zona em Brasília

O baixo meretrício do centro do Rio, nos anos 60, ou a "boca do lixo" da São Paulo dos anos 70, a baixa Augusta paulistana da década de 80, e os inferninhos de Salvador nos anos 90 são história. Hoje, se alguém está procurando uma boa zona, com pornografia explícita, deveria dar uma passeada pelo governo do Distrito Federal (DF), Brasília. Ali sim, a zona é quente.

Estou falando sério. O governador eleito em 2006, José Roberto Arruda (ex-DEM), está preso por liderar esquema de corrupção, aproveitando beneficiamento de empresas privadas ganhadoras de licitações públicas com o governo. Seu vice, Paulo Octávio (ex-DEM), assumiu interinamente, mas durou uma semana e renunciou para não ser cassado e, na ponta, preso também. Agora, assume Wilson Lima, que era presidente da Câmara do DF. Lima responde por processos na Justiça de improbidade administrativa. Ele é réu em ação movida pelo Ministério Público do DF por ter assinado ato de criação de cargos de confiança em 2008, contrariando a lei orgânica.

A zona fica completa quando se liga a TV, lá no Distrito Federal, e aparece Joaquim Roriz, o sujeito que era governador antes de Arruda, dizendo estar "chocado" com tudo o que ocorre. Segundo investigações da Polícia Federal, o tal "esquema Arruda" é uma extensão de um esquema de corrupção igualzinho que tinha sido criado no governo Roriz. Não há um só que se salva.



Já disse, aqui no Blog, que a única salvação dessa zona toda seria uma intervenção federal. O Alexandre Nodari, ao comentar o post, foi além: não é preciso governo no DF -- que é algo ridículo mesmo, é um não-Estado -- mas sim um administrador público indicado pelo governo federal.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

O final de tarde insosso

Um dos finais de tarde mais ácidos da literatura portuguesa, narrado com maestria por Cesário Verde, no auge do realismo português, nas décadas finais do século 19.

Está tudo lá: o ócio de uma classe que nada faz, se pensa internacionalizada (cita diferentes capitais européias), a inveja, e o incômodo que o cheiro do natural -- o peixe, na poema de Cesário -- traz.

Alguma semelhança com a "classe média inteligente" brasileira deste início de século 21?

Deve ser coincidência.

***

O sentimento dum Ocidental

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

***

Acima está apenas a primeira das quatro partes desta maravilha que é "Sentimento dum Ocidental". O original, se não me falha a memória, foi publicado -- em partes -- no Diário de Notícias onde publicou a maior parte de seus poemas.

José Joaquim Cesário Verde morreu cedo, em 18 de julho de 1886, com 31 anos. Não teve livro publicado em vida, mas seu amigo Silva Pinto -- que arranjara o espaço no Diário -- juntou seus poemas, em 1887, e publicou em livraço: O Livro de Cesário Verde.

***

Sempre tive comigo a percepção de que Fernando Pessoa foi um "continuador" do racionalismo de Cesário ao retratar os espaços, belezas e destinos de Lisboa do período 1870-1890, que pouco mudou na fase seguinte, até 1920 mais ou menos. E, por "continuador", não há nenhum reducionismo de Pessoa, um gênio máximo, apenas uma percepção que há um pouco da poesia de Cesário no trabalho dele.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A sagração do místico

Imagine um menino de nove ou dez anos de idade. Ele está esfuziante, carregando sua bandeirinha no banco de trás do carro, dirigido por seu pai, um sujeito de pouco mais de quarenta anos. Ao lado do pai, o irmão do menino, um adolescente de cabelos desgrenhados, com seus 17 para 18 anos. Ele é de áries e, nesse final de fevereiro, tudo o que ele quer é alcançar os 18 e, assim, lutar por uma carteira de motorista que o permite desvencilhar-se do pai coruja que se irrita sempre que têm de leva-lo para algum lugar.

Todos vestem a mesma camisa e todos estão nervosos. O menino se agarra a bandeira como que torcendo por antecipação. O rapaz aumenta e diminui o som do rádio, como que querendo que certas notícias não fossem contadas e outras, inflamadas. O pai, que já passou por momentos mais angustiantes, reage como se a experiência de nada valesse. Está nervoso, dirigindo rapidamente, fumando seu cigarro como se aquilo fosse o último vestígio de um mundo equilibrado. Quando acabar, pensa ele, não terei mais no que pensar, a não ser naquilo.

São botafoguenses e estão indo para o Maracanã assistir a final da Taça Guanabara, em jogo único contra o Vasco da Gama.

Em janeiro, o Vasco metera um sonoro 6 x 0 no Botafogo, humilhando a torcida e forçando a demissão do técnico alvinegro. De técnico novo, o Botafogo caminhou até as semi-finais, disputadas pelos grandes. Vasco x Fluminense; Flamengo x Botafogo.

Para o pai, na semana passada, não tinha nada mais difícil que assistir Flamengo e Botafogo. Já viu uns 300 do tipo e, pescando na memória, consegue lembrar de 7 vitórias. O botafoguense é um torcedor curioso. Ele não torce para o Flamengo ou mesmo para o Vasco, que contam com torcidas imensas, amplo espaço nos jornais e na televisão. Também não torce para o Fluminense, o time da elite carioca, dos mais antigos do Rio. Ele torce para o Botafogo. Se tem mais idade, lembra do período auge, dos anos 50 e 60, quando o time dominava o lindo futebol carioca e rivalizava com o Santos de Pelé. Naqueles tempos, Santos e Botafogo tinham os melhores escretes do futebol e, muito provavelmente, formaram os melhores times do século XX. Eram base das seleções de 58, 62 e 70, quando o Brasil ganhou a Copa.

Se não tem muita idade, o botafoguense apenas ouve história e tenta sonhar como era aquele tempo. Entre 1968 e 1989, o Botafogo não ganhou um título sequer. Passou por um 6 x 0 contra o Flamengo de Zico, em 1980, por um 6 x 1 contra o São Paulo dos Menudos, em 1986, e por péssimas campanhas.

Em 1989, no entanto, a coisa mudou. Essa história o pai sabe bem. Cansou de contar aos filhos a sensação que foi quando Maurício, da camisa 7 alvinegra, simplesmente voou para cabecear o cruzamento, aos 07 minutos do segundo tempo ("olha a mística", diz sempre o pai) que assinalou o 1 x 0 consagrador contra, quem mais, o poderoso Flamengo na final do Campeonato Carioca. O Botafogo foi campeão do Rio pela primeira vez em 21 anos.

Nenhum de seus filhos assistiu o jogo. O mais velho ainda lembra, por cima, do maior título: o Campeonato Brasileiro de 1995, conquistado contra o Santos, em dois jogões. Mas sua memória mais forte de um time forte foi o Carioca de 1997, sobre o Vasco. Por isso, indo ao Maracanã, ele sabe que, se tudo der certo, o Botafogo ganha de novo do Vasco.

Está aí algo que o menino, saindo do carro estacionado próximo ao estádio, sabe de cor. Sempre que Botafogo e Vasco se encontraram em finais, o Botafogo ganhou. Não foram muitas vezes também, mas isso o menino não precisa saber.

No Maracanã de maioria cruz-maltina, chega a ser estranho não torcer para o Vasco. Parece que todos são vascaínos. Os botafoguenses, de um lado da arquibancada, estão como sempre estiveram. O pai fala, como que para ele mesmo se tranquilizar, que já tinham ido longe demais. Venceram o Flamengo, de virada, na semana passada. "Já estamos no lucro", repete ele.

O rapaz logo encontra os amigos do boteco e das boates, todos com 17 ou 18 anos. Eles se abraçam, mas nenhum deles pensa em assistir o jogo juntos. Cada um tem sua superstição, cada um fica na sua, sofrendo cada segundo como todo botafoguense deve sofrer.

Todos eles leram a crônica que o Xico Sá escreveu na Folha de S. Paulo naquela semana. Não, nenhum deles é paulista ou sequer lê a Folha, mas, nas poucas vezes em que o Botafogo é citado ou ainda vira tema principal de coluna esportiva, esses textos circulam rapidamente entre os botafoguenses. Na coluna, Xico Sá escreve, entre outras, sobre a final:

Não é fácil levar de seis em um clássico, como aconteceu na partida contra o Vasco, e, no mesmo turno, ressurgir como possível campeão da Taça Guanabara, o glamouroso torneio do verão carioca. O melhor é que a decisão é contra os impiedosos cruzmaltinos, o que põe um indisfarçável sangue de vingança na peleja.

O primeiro tempo é nervoso e o menino não consegue conter a vontade de gritar. O pai, mais nervoso ainda, não fala nada por 45 minutos. Estão próximos, pai e filhos, mas um mar separa cada um deles. Todos sofrem, mas cada um à sua maneira, cada um desenhando a jogada do gol perfeito, no momento perfeito. Terminou 0 x 0 e, no segundo tempo, o Vasco começa melhor. Joga mais fácil, tinha feito 6 x 0 no jogo em janeiro, desdenha do Botafogo, que, mais nervoso, não se arrisca tanto.

Escanteio para o Botafogo, metade do segundo tempo. Bola cobrada e, do alto, como Maurício, o zagueiro alvinegro sobe mais que todo mundo para tocá-la, devagarinho, para dentro da meta vascaína. É uma vibração botafoguense o que acontece. Não é time que dá show, mas também não é time sofrido. É Botafogo.

Numa dessas, anos atrás, o cineasta João Moreira Salles, botafoguense, explica a sensação que é, para o torcedor, ver seu time fazer um gol numa final e, mais que isso, ganhar um título.

O legal de você torcer por um time que não ganha sempre é que, quando ele ganha, você tem uma sensação que um flamenguista nunca vai ter. A gente não banaliza a vitória; a vitória é uma coisa muito rara – e, quando ela acontece, eu duvido que alguém sinta a alegria de um botafoguense. A felicidade que eu senti quando o Botafogo foi campeão em 89, depois de 21 anos, eu duvido que algum torcedor de futebol sinta igual. Isso justifica minha paixão pelo time pelo resto da vida, mesmo que ele nunca mais ganhe nada. A gente é muito fatalista, e sempre acha que tudo vai acabar pior. Eu me lembro de um jogo em 95, quando fomos campeões: o Botafogo estava jogando em Caio Martins, contra um time de São Paulo – acho que o próprio São Paulo. O Botafogo ganhava de 4 a 0, mas a torcida estava cabreira: 4 a 0, pra gente, não é o suficiente. Quando deu mais ou menos 31 minutos do segundo tempo, o São Paulo, numa falha da nossa defesa, fez 4 a 1. Do meu lado, um pai falou: 'Meu filho, acabou!'. O filho começou a chorar, o pai começou a bater no alambrado, dizendo: 'Eu não agüento mais esse time, isso aqui é um horror, eu vou abandonar o estádio!'. E o que é mais estranho é que ninguém achou isso estranho. Todo mundo começou a reclamar, achando que o Apocalipse estava ali e que, em mais dez minutos, o São Paulo viraria o jogo. É claro que acabou 4 a 1, mas isso é típico do botafoguense. E isso é o que eu acho interessante.

Na final, ontem, o Botafogo ainda fez mais um, de pênalti, e o Vasco teve dois expulsos, quando já estava 1 x 0 para o Botafogo. Mas a torcida só acreditou quando o jogo acabou. A escrita estava mantida e os três homens, pai e filhos, não se cabiam. Estavam todos lá, cada um do seu jeito, vendo o Botafogo ganhar a Taça Guanabara.

A alegria de ser carioca e torcer para o Botafogo está aí. Poucos sacam isso, mas está exatamente aí.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Domingo

Agora que o silêncio é um mar sem ondas
E que nele posso navegar sem rumo,
Não respondas
Às urgentes perguntas
Que te fiz.
Deixa-me ser feliz
Assim,
Já tão longe de ti como de mim.

Perde-se a vida a desejá-la tanto.
Só soubemos sofrer, enquanto
O nosso amor
Durou.
Mas o tempo passou,
Há calmaria...
Não perturbes a paz que me foi dada.
Ouvir de novo tua voz seria
Matar a sede com água salgada.


Miguel Torga, escritor português. Nascido em São Martinho de Anta, 1907, viveu dos 13 aos 17 em Minas Gerais, antes de voltar à Portugal e se fixar em Coimbra.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Economia dos EUA depende do governo

Tempos atrás, escrevi aqui no Blog que a retirada dos estímulos econômicos americanos serão um tiro no pé. Sustentei minha análise nas lambanças que foram feitas no combate ao crash de 1929, quando os economistas liquidacionistas eram hegemônicos e defendiam que o Estado nada deveria fazer em tempos de crise, devendo se preocupar apenas em manter o orçamento equilibrado.

Quando explodiu a crise, em 2008, os Estados nacionais ressurgiram ao salvar o sistema da bancarrota. Quando o Estado foi leniente e falhou, como no caso do Lehman Brothers, que faliu, todo o globo sentiu o baque. Vivemos verdadeiro pânico entre setembro e novembro de 2008, que resultou nos bancos trancafiando suas linhas de crédito, investidores quietos e mercados em baixa. Como os últimos trinta anos foram de farra financeira, a economia real -- altamente dependente dos humores dos fluxos financeiros -- mergulhou.

O fundo do poço, para muitos, foi alcançado em algum momento de 2009. Outros, como Grécia ou Espanha, estão chegando nele agora, fevereiro de 2010. Muitos ainda estão em queda. Fato é que, não fosse a atuação do Estado, o mergulho seria ainda mais íngrime para muitos países.

O post gerou um excelente debate com o Hugo Albuquerque, que toca O Descurvo, e o Allan Patrick, que toca o Caderno de Patrick. As discussões alcançaram os respectivos blogs, se intensificando n'O Descurvo.

Sim, os Estados Unidos gastam muito e há muito tempo. Sim, também, eles gastam muito com despesas militares -- e não apenas no financiamento das várias guerras que se metem. Mas continuo insistindo num tema: é preciso separar gastos e gastos e, mais que qualquer coisa, é preciso respeitar o período histórico. Uma coisa é criticar os gastos irresponsáveis no pré-crise, até 2007, digamos. Outra coisa é fazê-lo agora, quando gastos para resgatarem o sistema (por mais revoltante que seja salvar bancos irresponsáveis tocados por gente que ganhou muito dinheiro) são cruciais para manterem empregos e a economia rodando.

Volto ao tema porque hoje, pelo Twitter, acabei me deparando com uma matéria muito importante da revista Newsweek, que discute os efeitos do plano de estímulo colocado em prática pelo governo americano. Segundo a Casa Branca, o plano, até agora, tem sido responsável pela criação de até 2 milhões de empregos. Não são números forçados uma vez que consultorias privadas como IHS Global Insight, Macroeconomic Advisers e Moody's falam em 1,6 a 1,8 milhão de empregos. Ao todo, calculam, o programa de US$ 787 bilhões poderá salvar 2,5 milhões de postos de trabalho.

A situação é a seguinte: os bancos não emprestam, e o que é pior -- as famílias, superendividadas que estão, não demandam empréstimos. Assim, a situação é de marasmo interno semelhante ao que viveu o Japão nos anos 90, após a explosão da bolha acionária em 1990. Até certo ponto, há um efeito educativo muitíssimo importante nisso tudo, uma vez que o consumo como era feito anteriormente era quase delinquente, porque baseado em cartões de crédito, empréstimos e mais empréstimos e tudo financiado pelas reservas chinesas e dos árabes petroleiros.

Mas, na ponta, consumo fraco significa queda na economia. É exatamente o que vimos aqui no Brasil, quando estourou a crise. Foi o consumo, mais que qualquer outra coisa, quem segurou o emprego -- criamos 995 mil vagas em 2009! -- e a economia -- que cresceu, enquanto os países ricos derreteram. Há problemas em incentivar o consumo, especialmente porque estamos entrando numa fase de déficits correntes elevados, mas isso é outra história. Num primeiro momento, de crise pesada, não podemos discutir: o Estado deve fortalecer o consumo, incorrer em déficits se for preciso, fazer o que for para compensar a queda do setor privado.

Quando o plano americano foi apresentado ao Congresso, todos os republicanos da Câmara votaram contra; e todos menos três, no Senado, votaram contra também. Diziam que o programa não criava empregos, que era dinheiro sendo transferido para salvar aqueles que poluiam o sistema e, mesmo para os gastos produtivos, em novos projetos -- e portanto novos empregos -- diziam que o Estado não deveria intervir.

Hoje, segundo matéria da Newsweek, muitos dos republicanos que votaram contra o programa bateram na porta do governo ou de agências federais para pedirem fundos para seus municípios e distritos. Um comentário da Rachel Maddow, na MSNBC, mata a pau essa questão: foram hipócritas aqueles que criticaram o programa e agora vêm mendigar um dinheirinho porque viram que se o Estado não fizer nada, a iniciativa privada não segura a onda.

Ainda assim, a grande questão do debate nos países ricos se dá acerca do momento correto de se retirar os estímulos. Eles deveriam agradecer por parte desses gastos públicos estarem funcionando. No Japão dos anos 90, o governo tentou várias vezes -- especialmente a partir de 1995, quando sacou que ficar coçando de nada adiantaria -- e não conseguiu. Ficaram dependentes das exportações, tática que veio abaixo quando a crise de 2008 fez decair o comércio internacional.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Intervenção federal no DF é urgente

A situação política do Distrito Federal (DF) beira o insustentável. O ex-governador e atual presidiário José Roberto Arruda foi afastado do cargo e de seu partido, o DEM, por chefiar um esquema de corrupção que envolvia empresas com contratos públicos e deputados da Câmara Distrital.

Como já escrevi por aqui, quando estourou o caso, todo esse esquema, segundo consta nas investigações da Polícia Federal, já maquinava no governo anterior, de Joaquim Roriz (PSC). Muitos dos envolvidos no caso Arruda já pertenciam ao esquema no governo Roriz. Ou seja, no Distrito Federal, basta ligar uma câmera que, ao vivo e sem atores profissionais, é possível gravar uma bela pornochanchada.

Arruda não é flor que se cheire. Foi eleito senador pelo PSDB, em 1994, aproveitando a onda pró-Real, que elegeu Fernando Henrique Cardoso (PSDB) presidente da República. Ao longo de seu mandato, trocou o PSDB pelo PFL, que pertencia à base do governo, tendo o vice (Marco Maciel) e boa parte do Senado nas mãos. Foi como senador pelo PFL que Arruda participou do lamentável episódio do "painel do Senado", quando violou a votação secreta que selou a cassação de Luiz Estevão. Num primeiro momento, negou o crime. Depois, confessou e renunciou ao cargo para não ser cassado, em 2001.

Pois um ano depois o mesmo sujeito foi eleito deputado federal pelo PFL. Como se não bastasse, ao final de seu mandato, lançou-se candidato ao governo do DF -- e ganhou. Passou a ser, desde 2007, o único governador brasileiro filiado ao PFL, que mudara de nome para Democratas (DEM). A partir de 2007, imprimiu uma política realmente suprassumo de quem defende superávit no serviço público: demitiu servidores, cortou gastos, ampliou repasses à iniciativa privada. Assim, passou a ser louvado como um "grande gestor público".

O mesmo responsável pela quebra de sigilo do painel do Senado, que mentiu frente aos senadores, que renunciou para não ser cassado, passou a dar exemplo. Não deu outra. O esquema de repasses à iniciativa privada foi claramente sustentado pela delinquência gerencial e ética. Arruda usava dinheiro de empresas privadas com contratos públicos -- muitos conquistados sem licitação, o que é crime -- para pagar propina à deputados na Câmara Distrital.

Na semana passada, 11 de fevereiro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou a prisão preventiva de Arruda e outos quatro envolvidos numa tentativa de suborno de um jornalista para que este atuasse no encobertamento do caso. O STJ também afastou Arruda do cargo de governador do DF.

Assim, as portas ficaram abertas para Paulo Octávio (DEM), vice-governador.

Paulo Octávio era o sujeito que o PFL (atual DEM) ia lançar candidato ao governo do DF nas eleições de 2006. Empresário, muito rico, boa pinta e bem relacionado, era o cara ideal para um partido como o PFL. De última hora, selou-se um acordo, costurado por Arruda, que definia Arruda como cabeça de chapa e Octávio como vice, em 2006, composição que seria invertida em 2010. Ou seja, não fosse essa bomba, se o acordo fosse cumprido -- estamos tratando de pessoas com passado de mentiras, então sempre é preciso fazer essa ressalva -- o DEM lançaria Paulo Octávio governador e Arruda como vice. Estava tudo certo, uma vez que Arruda fez o governo bonitinho da elite que acha que governo bom é aquele que não gasta, não paga salários e transfere obrigações para a iniciativa privada. Emplacar Octávio, empresário bem sucedido, nesta campanha seria fácil.

O caso Arruda, no entanto, não explodiu com o esquema. Paulo Octávio, afinal, é o atual governador do DF.

Mas lembram-se de como funcionava o esquema de Arruda, herdado de Roriz? Eram empresas que ganhavam contratos do governo e, por meio dessa relação, se estabelecia uma relação de propinas que, não apenas garantiam os contratos, mas também bancavam as contas de deputados e membros do governo. Pois Paulo Octávio foi beneficiado duplamente do esquema. Eleito vice-governador em 2006, não deixou a gestão de suas empresas de comunicação e publicidade, sediadas no DF.

Assim, entre 2007 e 2009, as empresas de Paulo Octávio selaram o equivalente a R$ 10,4 milhões em contratos com o governo. Vejam que falcatrua bisonha: empresas do vice-governador fecharam contratos com o governo!

Insisto com minha tese antiga. Num país desses, não precisamos de Millör Fernandes, Jaguar, Henfil, Angeli, Jean ou qualquer grande humorista ou chargista. A piada é a vida real.

A Lei Orgânica do DF não prevê crime no fato de membros do governo continuarem tocando empresas durante o exercício. OK, mude-se a Lei, que está errada. O procurador-geral da República, Roberto Gurgel, protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) um pedido de intervenção no Distrito Federal. Se o pedido for acatado, o DF poderá se tornar a primeira unidade da federação brasileira a ser alvo de intervenção federal em tempos democráticos.

Seria um avanço.

Não apenas o atual governador Paulo Octávio está comprometido no esquema que levou José Roberto Arruda à cadeia, como o candidato da "oposição" nas eleições deste ano é Joaquim Roriz! A situação no DF é de descontrole político e ético, algo inaceitável num país que anseia alcançar a modernidade política. Aliás, se a turminha conservadora dos rincões nacionais for coerente com seu discurso de "é preciso manter a ordem", fará força para o governo federal intervenha no DF porque não há qualquer possibilidade de existir ordem numa situação em que o governador eleito em 2006 está preso; seu vice está envolvido no esquema; nada menos que oito dos 24 deputados da Câmara Legislativa estão envolvidos, bem como membros do governo; e o candidato que lidera as pesquisas é o cara que criou toda essa parafernália corruptiva.

Algo precisa ser feito no DF. Até porque, trata-se de um município lamentavelmente bisonho dentro de nosso desenho político: funcionários ligados ao governo ganhando salários de R$ 20 mil ou R$ 30 mil reais (mais, quando alcançamos a rapaziada do Congresso) convivendo com gente que ganha o Bolsa Família. Qualquer um que conheça Brasília além dos bairros bonitinhos da elite público-privada sabe do que estou falando.

É preciso ser enfático: intervenção federal já.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

O Brasil do Carnaval

Não tem nada mais belo que o carnaval. Nossa festa tradicional é aquilo que nos define como povo festeiro, coletivo e que, mesmo sofrido, arruma espaço para uma farra. O desenvolvimento dos desfiles das escolas de samba, ao longo do século XX, é uma história que ainda vou arranjar tempo para escrever por aqui. A correria anda pesada e, como sempre na terrinha, vai se acelerar ainda mais passado o carnaval.

Porque, como todos sabemos, o ano só começa mesmo depois da festa.

Até lá, essa maravilha que é "Aquarela Brasileira", do Silas de Oliveira, transformada em samba-enredo em 1975 pela Império Serrano, no Rio. Abaixo, a versão do grande Martinho da Vila. Para iniciar a última semana antes do começo de 2010 :-)

video

Vejam esta maravilha de cenário
É um episódio relicário
Em que o artista num sonho genial
Escolheu para este carnaval
E o asfalto como passarela
Será aquela
O Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
Conheci vastos seringais
E no Pará, na ilha de Marajó
E a velha cabana do Timbó
Caminhando ainda um pouco mais
Deparei com lindos coqueirais
Estava no Ceará
Terra de Irapuã, de Iracema, e Tupã
Fiquei radiante de alegria
Quando cheguei à Bahia
Bahia de Castro Alves e do acarajé
Das noites de magia do Candomblé
E pude atravessar as matas do Imbú
Assisti em Pernambuco a festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
Na arte, na beleza e arquitetura
Feitiços de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
Do Leste por todo Centro-Oeste
tudo é belo, e tem lindo matiz
E o Rio de sambas e batucadas
De malandros e mulatas
De requebros febris
Brasil, essas nossas verdes matas
Cachoeiras e cascatas
De colorido sutil
E neste lindo céu azul de anil emolduram
Aquarela meu Brasil

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Domingo

Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas, nas profundezas, são tranquilos e escuros como o sofrimento dos homens.

João Guimarães Rosa, escritor brasileiro.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O fortalecimento da produção nacional

O governo acenou, nesta semana, com um plano que, de tão óbvio, deveria ser olhado torto, como que perguntando "por que raios demorou tanto para isso começar a ser pensado"? Desde 2007, o governo defende, mas só agora chegou num consenso.

Refiro-me a ideia de incentivar a produção nacional de fertilizantes, dando o primeiro passo para a substituição das importações. Segundo informações do ministro Edison Lobão, que é o encarregado do plano por ser o ministro de Minas e Energia (embora, claro, não seja ele o idealizador), o objetivo do governo é tornar o país autossuficiente. É algo ambicioso, mas tem duas coisas aí: 1) não é impossível e 2) a hora para ser ambicioso é agora.

Tornar-se autossuficiente, em qualquer coisa, é algo ambicioso. No caso dos fertilizantes, é algo mais ambicioso ainda. Para se ter ideia, cerca de 65% dos fertilizantes utilizados no campo são importados. No ano passado, isso representou déficit de US$ 2,5 bilhões. Grosso modo, se fôssemos autossuficientes desde já, nosso superávit comercial total de US$ 24,5 bilhões em 2009 seria de US$ 27 bi. Mais que isso: neste ano, com valorização cambial e crescimento acelerado, nossa balança deve despencar a algo entre US$ 5 bi e US$ 10 bi. E o déficit oriundo dos fertilizantes, por consequência, deve ser maior.

Ser autossuficiente na produção de fertilizantes, no entanto, não é algo impossível.

A Petrobras possui hoje 100% da jazida de potássio de Nova Olinda, no Maranhão, mas não a extrai porque o custo de exploração é estimado em mais de US$ 2 bilhões. Como não se trata de um investimento estratégico para a empresa, a mina é mantida apenas como um ativo importante no balanço, não como base de negócios. Essa mina, na margem do rio Madeira, tem potencial de ser a maior do mundo.

Na mesma onda, segundo o governo, a Vale também tem uma mina de potássio com grande potencial, no Espírito Santo, mas explora apenas 50% do seu potencial.

Assim, a ideia inicial do governo é estimular a produção "fácil", isto é, de minas que estão em mãos de empresas com musculatura econômica para botarem as mãos na massa. O governo vai mandar quatro projetos ao Congresso, nas próximas semanas. Vejamos o que se pretende:

1) Criar um novo Código de Mineração do Brasil, que reformulará o código vigente, que está caduco -- não apenas para fertilizantes, mas para a exploração de minerais como um todo.

2) A partir disso, desenvolver uma política de incentivos fiscais às empresas que explorarão minas e produzirão fertilizantes, que serão comercializados internamente.

3) Para isso, o governo quer criar uma agência reguladora para o setor -- a Agência Nacional de Mineração -- que vai acompanhar de perto a política de incentivos fiscais e o respeito às regras do novo Código. A agência será subordinada ao Ministério de Minas e Energia, que vai definir diretrizes estratégicas.

4) Finalmente, o último projeto prevê mudanças na política de royalties sobre a atividade mineral. Hoje, o governo cobra 2%, em média, a título de Contribuição Financeira pela Exploração dos Recursos Minerais (CFEM). A ideia é escalonar a cobrança de royalties, ou seja, aqueles que produzem bens minerais de maior uso social, como areia, brita e fertilizantes, paguem alíquotas menores de CFEM.

Segundo o material levantado em matéria de Danilo Fariello e Cristiano Romero, no Valor de ontem, e de Fernando Lopes, na edição de hoje, as iniciativas do governo não deverão gerar muito neste ano. Primeiro porque o ano eleitoral não dá esperanças de que o Congresso vá fazer alguma coisa. Segundo que, segundo analistas, o plano é de longo prazo, e não pode ser feito como espera o governo, em três anos.

De fato, não fazia sentido o governo, em 2007, defender um plano de tornar o Brasil autossuficiente em fertilizantes em apenas três anos. Estamos falando de projetos com prazo de maturação de cinco anos, sem que problemas financeiros, ambientais e legais sejam entraves. Mas um projeto enviado ao Congresso em 2010, quero supor, deve ignorar essa história de fazer tudo em três anos. Se enviou agora é porque espera realizar independente do prazo ou do próximo governante.

Trata-se de uma política que deve ser incentivada e isso deve ser entendido por situação e oposição. Não se trata de algo bacana ao governo, mas sim ao Estado.

Há, ainda, o eterno debate sobre fertilizantes, muito usado em movimentos sociais. Espero, futuramente, voltar ao tema sobre a perspectiva política e social da coisa.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

O ocaso da indústria fonográfica

O século XX desenvolveu um modelo de negócios bem delineado em torno da música. A criação do LP, a partir dos anos 30, produziu um casamento sem igual com o rádio, que já exercia um poder de concentração social desde o finzinho da década de 1910 nos países mais avançados.

Foi a partir dos anos 40 e 50 que o modelo da indústria fonográfica anglo-saxã se tornou hegemônico. Era preciso vender discos. Para isso, as gravadoras desenvolviam verdadeiros aparatos técnico-industriais-financeiros para alcançar o objetivo. Tinham grandes estúdios, técnicos e produtores, além de departamentos comerciais competentíssimos e relações envolventes com as rádios. Como se verificou, para vender discos era preciso tocar nas rádios.

Foi criado o single, que, aqui no Brasil, ficou conhecido como "música de trabalho". O single era aquela música mais comercial que se destacava do conjunto de temas apresentados nos LPs -- o termo abrasileirado "música de trabalho" já exemplifica a ideia chave de que a música tocada em rádio podia gerar dinheiro justamente por ser comercialmente apelativa. Em diferentes momentos, surgiam as modas. Assim, pipocaram, ao longo do século passado, os "artistas de uma música só", alçados à fama pela indústria fonográfica para aproveitar uma moda passageira.

As gravadoras eram verdadeiras chancelas do que era "bom" e do que era "ruim". Para ter um bom estúdio, um single tocando nas rádios, um disco sendo vendido em todos os lugares e um video-clipe na MTV, era preciso ter uma gravadora por trás. Para isso, era preciso se aliar à proposta da moda do momento ou instituir o novo, criando uma nova moda.

Exemplos não faltam. Os Estados Unidos, coqueluche do modelo tradicional da indústria fonográfica, viram, nos dez anos entre 1981 e 1991, ao menos três grandes vertentes de moda surgirem, monopolizarem as rádios e tevês e decaírem, substituídos por uma nova moda. A passagem pode ser exemplificada pela explosão do hard-glam (entre 81 e 86), do thrash (entre 84 e 88) e finalmente do grunge (entre 89 e 92).

Claro, essa regra de modas e costumes não é estático. E, muito menos, algo que deve ser entendido como necessariamente ruim. Não foi e não é. Amante de música que sou, já gastei posts e mais posts aqui no Blog tratando de artistas, brasileiros e internacionais, que só foram o que foram graças ao sistema da indústria fonográfica. Era impossível fugir do esquema para quem viveu a segunda metade do século XX. Podia ser rebelde até certo ponto, mas, regra infalível, invariavelmente voltava ao mainstream das gravadoras.

Faz parte.

Este modelo de monopólio das grandes gravadoras começou a entrar em decadência tão logo os anos 90 acabaram. O século XXI começou e, logo de início, já trazia consigo a disseminação da internet. As experiências dos anos 90, com o Napster, foram desenvolvidas anos-luz à frente em pouco tempo. Se em 1997, o Napster causava burburinho, isso não era problema, uma vez que os artistas ainda vendiam milhões de CDs, tinham singles e clipes em toda parte e as gravadoras deitavam e rolavam. A partir dos anos 2000, no entanto, passamos a conviver com blogs e sites de altíssimo nível que traziam álbuns inteiros de gente nova e, principalmente, daquelas joias esquecidas pela indústria, que, de moda em moda, vai enterrando gênios do passado.

Aí foi que a coisa virou. Não são apenas um ou outro site causando burburinho com o compartilhamento de músicas. Mas blogs, sites e sistemas de difusão musical, feitos anonimamente ou não, em diferentes países. A democratização da internet -- por meio dos ganhos de escala dos computadores (olha aí outra indústria...) -- permitiu que um número cada vez maior de pessoas passasse a trocar ideias, e porque não músicas?, entre si, formando cadeias de fãs interligados. O mais curioso, conforme a coisa foi ganhando musculatura, é ver blogs feitos em nomes de artistas e bandas dos anos 30 e 40, que mal gravaram sequer LPs, gerando debates entre milhares de pessoas que descobriram o material quase centenário por meio de um ou outro geek que disponibilizou na internet.

As gravadoras não cederam facilmente, é claro. Sacaram que era preciso reduzir o preço do CD, vender música pela internet e mesmo relançar grandes discos do passado em edições de luxo. Este blogueiro, aliás, aproveitou e muito os relançamentos (estou, aliás, apaixonado por uma coleção de relíquias da Dolores Duran, lançado no ano passado).

A verdade é que, ano a ano, a indústria fonográfica foi perdendo o monopólio. Este 2010 parece ser o momento em que a luta parece ter sido decidida à favor de um modelo mais aberto. Estamos todos, independentemente de onde vivemos, tateando este novo modelo, difuso e sem o "fator hierarquia", exercido pelas diferentes indústrias do século XX: cultural, fonográfica, midiática etc.

Este, aliás, é o grande ponto desta quebra de paradigmas porque passamos nesta década que termina e que continuaremos a ver, de maneira ainda mais louca, na década de 10. Pouco se pensa sobre isso, mas, ainda que os efeitos negativos do monopólio e do poder de chancela (de decidir o que ganha espaço e o que é excluído do sistema) sejam em muito superiores aos positivos, a indústria (seja ela do disco, da mídia ou qualquer outra) serve para hierarquizar e organizar informações e conteúdos. O que os americanos passam desde 2003-04 -- e que nós começamos a ver nos últimos anos, a partir de 2008 mais especificamente -- é uma espécie de anarquismo informacional, que dá espaço à todos e à tudo. Isso é ótimo e deve ser aprofundado. Mas, como qualquer fenômeno novo, coloca um elefante na sala do tradicionalismo acostumado a alguém dizendo o que é bonito e o que é feio. O definhamento da indústria leva esse modelo século XX embora.

É um quadro interessante.

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Na semana passada, matéria de Marcus Preto, na Folha, contava os planos das cinco gravadoras majors no mercado brasileiro. As cinco gravadoras que detém acervo em LPs clássicos da música brasileira não tem qualquer interesse em relançar material em CD em 2010. Das cinco -- Universal, EMI, Sony, Warner e Som Livre -- apenas a Sony e a EMI vão reeditar discos. A Sony pretende lançar álbuns da Amelinha, Elba Ramalho, Dominguinhos, Sandra de Sá e Elza Soares.

Luiz Garcia, gerente de marketing estratégico da EMI -- que possui o catálogo da Odeon --, diz que a empresa deve lançar, em 2010, apenas uma caixa com teipes garimpados em acervo analógico. Trata-se da obra completa da cantora e compositora Dolores Duran. O material, no entanto, já está pronto desde o ano passado.

"Se fôssemos começar neste ano, talvez nem esse aí saísse", diz. "O negócio é difícil. Fabricamos os mil CDs, mandamos 100 à imprensa, vendemos 200 ou 300. O resto fica parado no meu estoque. E, se não sai em dois anos, tenho que mandar quebrar. Não posso ficar pagando para guardar aquilo."

Responsável por séries memoráveis de reedições nos últimos três anos, a Som Livre -- dona também do acervo da RGE -- é ainda mais radical. "Ainda não temos nenhum lançamento de catálogo planejado", diz Leonardo Ganem, presidente da empresa. "É melhor concentrarmos nossos esforços em artistas novos".

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Na edição de novembro da Fórum, o editor Renato Rovai entrevistou Fernando Anitelli, um dos caras mais criativos da música brasileira contemporânea, coração do Teatro Mágico, grupo que serve de símbolo desse novo modelo de relação entre artista e público, tendo a internet como atravessadora.

Destaco duas respostas Anitelli, que considero emblemáticas:

Fórum – A estratégia utilizada pelo grupo foi bem sucedida, indo contra a corrente do mercado musical e cultural. Isso no início era mais para quebrar as correntes e mostrar o trabalho ou também era uma concepção política?
Anitelli – Era um pouco dos dois. Precisávamos quebrar as amarras para entrar no mercado, porque senão não tínhamos nem como existir. Não é à toa que os programas dominicais enchem o povo brasileiro de lixo. Você sabe, por exemplo, que por trás do É o Tchan foi investido 1 milhão de reais para que eles acontecessem? Acho que tem que ter todo tipo de música, todo timbre, inclusive o do É o Tchan, mas não pode ter só aquilo. Quebrando essa amarra, percebemos que aquilo era a nossa única alternativa, nossa bandeira. Fortalecemos essa ideia, amadurecemos, espalhamos e instalamos esse movimento.
Fórum – Há quem diga que essa proposta vale para o Teatro Mágico, mas que não serve como fórmula. Essas mesmas pessoas dizem que o direito autoral é necessário e que não dá para se sustentar através de shows, por exemplo. Queria que você falasse um pouco disso.
Anitelli – Em relação ao direito autoral o que acontece é uma falta de informação dos músicos sobre o que de fato ele é. São milhares de músicos desinformados no país, que anseiam o estereótipo, que querem alcançar a fama. Quem ganha com direito autoral hoje em dia são as pessoas amarradas dentro desse modelo de negócio antigo, que visa à questão do jabá, da veiculação nas rádios, de compra de espaços nas TVs. Essas 100 músicas mais tocadas recebem recolhimentos, direito conexo etc. Nunca vi um fórum de debates, uma oficina para informar os músicos como é que se dá o recolhimento do direito autoral. Tirando gente como Zezé di Camargo, poucas pessoas se beneficiaram de direito autoral. O Teatro Mágico está há três anos fazendo certo sucesso de público e até hoje não tocamos nas rádios. Por quê? Porque não pagamos jabá. Fomos convidados a pagar, já passaram preços de jabá pra gente, mas isso é crime e a gente não paga. Rádios e TVs são concessões para trabalharem a comunicação para o público e, infelizmente, isso não acontece. Falta o músico entender que quem lucra com direito autoral são as editoras e as gravadoras.

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Independentemente de fórmulas, vivemos tempos de planejamento coletivo multipolarizado. Como será organizada esta rica festa da internet?

domingo, 7 de fevereiro de 2010

Domingo

Está claro que odiava todos os funcionários da nossa repartição, do primeiro ao último, e desprezava-os a todos, mas, simultaneamente, como que os temia. Acontecia-me até colocá-los acima de mim. Sucedia o seguinte: ora desprezava alguém, ora colocava-o acima de mim. Um homem decente e cultivado não pode ser vaidoso sem uma ilimitada exigência em relação a si mesmo e sem se desprezar, em certos momentos, até o ódio. Mas, quer desprezando, em certos momentos, pessoas acima de mim, eu baixava os olhos diante de quase todos que encontrava. Fiz até algumas experiências: tolerarei sobre mim o olhar deste aqui, por exemplo? E era sempre o primeiro a baixar os olhos. Isto me torturava até o enfurecimento. Temia, também, a ponto de adoecer, tornar-me ridículo, e, por isto, adorava como um escravo a rotina em tudo o que se relacionava com coisas exteriores; entregava-me amorosamente à vida cotidiana e comum e do fundo da alma assustava-me ao notar em mim alguma excentricidade. E como poderia deixar de ser assim? Eu era doentiamente cultivado, como deve ser o homem de nossa época. Eles, pelo contrário, eram todos embotados e parecidos entre si, como carneiros de um rebanho. É possível que eu fosse o único em toda a repartição a ter continuamente a impressão de ser um covarde e um escravo, e talvez tivesse esta impressão justamente porque era cultivado. Mas não se tratava apenas de impressão; isto se dava na realidade: eu era um covarde e um escravo. Digo-o sem qualquer acanhamento. Todo homem decente de nossa época é e deve ser covarde e escravo.


Monólogo inicial de "Memórias do Subsolo", de Fiódor Dostoiévski, 1864.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Fim de Expediente

Do pré-carnaval, o Fim de Expediente ataca de mangue beat. Genial, Chico Science inovou ao misturar os tambores do maracatu com as guitarras de Lucio Maia, formando um dos grupos mais inventivos da música brasileira dos anos 90, ao lado do Sepultura (que é dos anos 80, mas foi a partir de 93 que se abrasileirou).

Na última quarta-feira, estive no vernissage da exposição Ocupação Chico Science, promovida no Itaú Cultural, na Avenida Paulista (fica em frente ao Sesc Paulista). Sai correndo da redação a fim de ver algo e, embora estivesse lotado, o simples fato de ler trechos de Josué de Castro ao som de "Cidadão do Mundo" e "A Cidade", já foi uma maravilha.

Espero voltar no fim de semana, com mais calma. Até lá, fechamos o expediente com o primeiro clipe de Chico Science & Nação Zumbi, para a "A Cidade", em 1994. Está tudo lá: o groove do baixo, a guitarra pesada, os batuques do maracatu, as danças da Nação Zumbi, as letras de protesto de Chico Science e o visual do mangue beat.

video

Bom fim de semana à todos.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Sem Eloy Martínez

A correria do dia a dia não permitiu um comentário antes -- e nem permite algo profundo agora -- mas este Blog não poderia deixar passar a morte de Tomás Eloy Martínez, dos maiores jornalistas e escritores argentinos.

Eloy Martínez chamava a atenção pela militância ativa nos meios de comunicação. Escritor consagrado desde 1974 -- quando "A Paixão segundo Trelew" foi queimado em praça pública por atentar contra a elite militar --, o mestre argentino ocupava páginas de jornais e revistas com colunas e matérias até bem pouco tempo atrás. Não vivia enclausurado na rotina de grande escritor, que interage com o debate público poucas vezes, lançando livros a cada cinco ou seis anos. Muito pelo contrário.

Até porque sua literatura sempre foi francamente jornalística e política, mantinha com o debate público uma relação simbiótica. Lembro de ser apresentado à seus textos por meio de ataques ferinos que desferia àqueles que, na mídia argentina, defendiam o esquecimento da ditadura.

Aliás, refletindo um pouco, muitas das conquistas do governo Kirchner no campo político e social, de revisitar os crimes do período 1976 a 1983 devem-se à Eloy Martínez.

Assim, anos atrás, devorei o "Purgatório", livraço que, por meio da interação com o real, estabelece um conto sobre como a política é capaz de transfigurar uma relação de amor, ainda que os protagonistas não sejam militantes ou sequer ligados à disputa política. O casal de "Purgatório" se separou graças à ditadura, reatando o namoro três décadas mais tarde.

Com sua morte, "Purgatório" acabou sendo o último livro de Eloy Martínez.
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