domingo, 31 de janeiro de 2010

Domingo

Um bom poema é como uma cerveja gelada
quando você está mais a fim,
um bom poema é um sanduíche de presunto, quando você
está
faminto,
um bom poema é uma arma quando
os bandidos te cercam,
um bom poema é algo que
te permite andar pelas ruas
da morte,
um bom poema pode fazer a morte
derreter feito manteiga,
um bom poema pode enquadrar a agonia e
pendurá-la na parede,
um bom poema pode fazer seu pé tocar
a China,
um bom poema pode fazer você cumprimentar
Mozart,
um bom poema permite você competir
com o diabo
e ganhar,
um bom poema pode quase tudo,
isso sem dizer que
um bom poema sabe quando
parar.


Charles Bukowski, escritor norte-americano. Tradução de Rodrigo Garcia Lopes.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

São Paulo, cidade preparada para chuvas

Do mestre Angeli:

Já são 38 dias seguidos de chuvas. E continua chovendo.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O tiro no pé

O noticiário econômico internacional não fala de outra coisa: o governo dos Estados Unidos deve começar a cortar gastos e, se possível, aumentar impostos. Há um objetivo único, que é diminuir o déficit orçamentário.

No Financial Times de hoje, por exemplo, uma matéria traz Peter Orszag, diretor de orçamento da Casa Branca, dizendo que o governo americano passará do combate à recessão a um ajuste fiscal. Esse ajuste para equilibrar o orçamento -- que deve ter um déficit equivalente a 9% do PIB neste ano (algo como US$ 1,34 trilhões) -- começará ainda em 2010, mas se intensificará a partir de 2011.

Será o maior tiro no pé da história econômica recente.

É indiscutível que um déficit elevado, como o que os americanos tiveram no ano passado (de US$ 1,4 trilhões) e o projetado para os próximos anos, não é algo bom ou desejável para qualquer nação. Especialmente se o país, no caso, é a maior potência econômica e política do globo.

O momento que vivemos, no entanto, é absolutamente excepcional. Ainda que calejados pela interminável série de crises econômicas na periferia do sistema, desde os anos 80, não passamos por uma crise dessas proporções -- que arrasou EUA, União Europeia e Japão -- desde os anos 30. Pior: naquela época, nem o Japão passou por apuros. O caso japonês, aliás, é emblemático. Por trás da política econômica japonesa, durante a Grande Recessão, estava Korekyo Takahashi, um dos maiores economistas do século XX. Takahashi imediatamente abandonou a ideia de orçamento equilibrado e finanças sadias, obtendo e criando uma série de empréstimos para impulsionar a produção industrial interna, que galgou escalas rapidamente, criando e expandindo o mercado consumidor interno. Ao mesmo tempo, Takahashi fomentou pesquisas e desenvolvimento em indústrias estratégicas, como a militar e marítima.

Anos antes de Keynes, Takahashi já colocava em prática os ditames do manual keynesiano, que prevê ampliação de gastos e déficit público em momentos de crise. O fato de ter impulsionado a indústria bélica e o nacionalismo exacerbado japonês, que depois fomentariam as inconsequências do governo na Segunda Guerra Mundial, é outra história, que fica para outro dia.

O mais impressionante de todo este debate no noticiário e no governo Barack Obama, de controlar os gastos, é que ele repete as iniciativas dos policy makers americanos e ingleses dos anos 30. Após o crash de 1929, o mundo sofreu horrores por quatro longos anos, até que, de forma mais ou menos articulada, as coisas começaram a mudar a partir de 1933. Os EUA, à época, deram o exemplo maior, com Franklin Delano Roosevelt e a mais brilhante equipe de economistas e estartegistas do século passado.

Mas, entre 1929 e 1933, com o mundo mergulhando rumo ao precipício, apenas se repetia a ladainha que vigorava no período anterior, altamente liberal, entre 1890 e 1929. Uma frase de Philip Snowden, secretário do Tesouro inglês nos anos 20 e 30, é emblemática: "A função do secretário do Tesouro é, como a entendo, resistir a todas as demandas de despesas feitas por seus colegas e, quando não puder mais resistir, limitar a concessão ao ponto mais austero de aceitação". Era esse o dono do caixa inglês durante a depressão. Snowden pertencia ao grupo que tocava o Tesouro, o BC e as Finanças dos EUA e do Reino Unido.

A preocupação com um orçamento equilibrado apenas ampliou a fome, a miséria e o suicídio. Não à toa, dois belíssimos dramaturgos, Tenesse Williams (americano) e Bertold Brecht (alemão), se esbaldaram, nos anos 30, com o tema da solidão, desemprego, amargura e alcoolismo que perpetuaram no mundo rico.

Os EUA nem bem saíram da recessão que se meteram e já estão pensando em cortar gastos. Se isso ocorrer, teremos recessão em forma de "W".

Será a maior burrice econômica do século 21.

Atualização:

O Hugo Albuquerque levou o debate ao Descurvo. Para conferir os desdobramentos do debate que tivemos por aqui, veja o post por lá:

"A economia americana e a era Obama"

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Conciliação entre elites

"Talvez a prova mais convincente de que não existe uma verdadeira "ciência monetária" é verificar que a regulação do sistema financeiro é um movimento pendular: segue o "espírito do tempo" e os interesses dos banqueiros. Não o bem-estar da sociedade."

A frase acima, de Antônio Delfim Netto, exemplifica o período 2009-2010 da história econômica. A não ser que venha um segundo tombo na economia mundial -- que caracterizaria uma recessão em "W" -- os futuros historiadores verão este momento como mais uma conciliação de elites. A elite no governo move montanhas de dinheiro para a elite financeira. Para não gerar manifestações populares, a elite governamental adquire discurso confrontador contra a banca. Este discurso é todo afinado com o sistema privado, não há "confronto".

Foram poucos momentos, na história econômica, que vimos líderes tomarem a situação pelo pescoço e enfrentar o sistema financeiro e privado. Os americanos, que estão no olho deste furacão de "acerto entre elites", viveram dois grandes momentos de verdadeiro desafio: 1) com Alexander Hamilton, um dos fundadores do país, driblando regras e o conservadorismo para instituir controles e maneiras, no século 18; e 2) com Franklin Delano Roosevelt e a equipe do New Deal, que enfrentaram o maior turbilhão financeiro-econômico do século XX. E venceram.

No futuro, veremos o nosso presente como mais um lamentável acordo entre elites. Nessas e outras, os Estados Unidos podem se despedir da liderança global.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Quase 300 mil haitianos querem deixar capital



O Haiti vive um terror. Há quase 210 anos, é verdade. Mas, é claro, o terremoto do dia 12 serviu como gatilho para uma situação desesperadora. Uma imagem captada hoje exemplifica isso bem: haitianos, aos montes, se apertam em ônibus para deixar a capital Porto Príncipe.

Cerca de 265 mil haitianos ganharam direito a transporte de graça para deixar a capital. As estimativas são de 150 mil mortos no terremoto do dia 12 -- outros 300 mil estão feridos.

A lástima é que não há para onde ir. Sair de Porto Príncipe e ir para onde?

domingo, 24 de janeiro de 2010

Domingo

Eu sou a que no mundo anda perdida
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...

Sombra de névoa tênue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...

Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...

Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!


Florbela de Alma Conceição Espanca, poeta portuguesa, morta (talvez suícidio) no dia que completou 36 anos, em 08 de dezembro de 1930.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Fim de expediente

Enquanto 2010 começa a engatar, caminhamos para uma tardinha quente, que indica um fim de semana daqueles. Faz pensar na maravilha tropicalista em que estamos inseridos, como cidadãos do mundo num país privilegiado.

Saudosista brasilianista sem nunca ter saído da terrinha, o blogueiro tasca "Cravo e Canela", da inesquecível Banda Black Rio, os reis do swing & funk carioca dos anos 70. A música é das preferidas deste que vos escreve, que, como bem sabem os leitores, ama boa música.

video


Um ótimo fim de semana à todos.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

O Brasil de 2010

Este é um país diferente de qualquer outro que jamais tivemos. Poucos, no entanto, estão percebendo a mudança que passamos nos anos 80-90-00. Mas menos ainda sacam as mudanças que passamos ainda mais recentemente, num movimento subterrâneo que alteraria, na prática, nosso planejamento econômico.

Vivemos um período que grandes estruturadores, gênios da raça mesmo, como Celso Furtado e Darcy Ribeiro, adorariam viver.

O país que conhecemos foi forjado pela ebulição cultural dos anos 20, que produziu o modernismo na literatura, que regionalizou e ampliou o acesso à música popular, que fez surgir nosso maior gênio musical Heitor Villa-Lobos, entre tantas outras transformações, somada às enormes turbulências mundiais geradas após o crash de 1929.

A partir de 1930, passamos a viver num país diferente, orientado para o desenvolvimento interno, baseado no aumento do Estado -- direcionador e passificador de última instância (que até escorregou para ditadura varguista) -- e na industrialização. Ao nacionalismo da Era Vargas, passamos para o desenvolvimentismo, da Era JK.

Grosso modo, pensando na superestrutura, o Estado militar, entre 1964-1985, cumpriu o programa de ampliar a industrialização em todas as frentes, num mix de poupança interna e externa + endividamento internacional. Esse endividamento, aliás, fez explodir nossas contas entre 1979 e 1983. Foi preciso, no entanto, uma década de caos total para mudarmos o eixo, a partir de 1990.

O que se viu não foi necessariamente bonito.

Perdemos um bonde da história quando sofremos o golpe militar, em 1964. Sofremos outro, na década de 1980, quando as reformas de abertura e controle do Estado não foram feitas, preferindo esgarçalhar a balança comercial e desestruturar o Estado. Coisas que levam tempo para serem consertadas.

Mais de 90% dos municípios brasileiros não têm salas de cinema, auditórios de teatro ou espaços para shows. Um país que conhece melhor a cultura estrangeira que sua própria, não é necessariamente um modelo, afinal, quem vai copiar o copiador? Temos teatro novo, temos excelentes cineastas, músicos de primeira grandeza. Temos, graças à rapidez dos acontecimentos, muitos gênios dos anos 50 e 60 vivos, aptos a dialogar com gerações mais novas, criativas. E, convenhamos, pouco -- se algo -- disso é feito. Sequer incentivado.

Nosso grande exemplo de cinema é Fernando Meirelles. Um cara que nasceu como cameraman do Marcelo Tas nos anos 80, quando Tas inovou com o repórter que faz perguntas intrusivas e lida de maneira informal com os entrevistados. Tudo como Glauber Rocha, em 1979, já fazia no seu programa Abertura, na TV Cultura. Ainda assim, o ex-cameraman Meirelles, diz que Glauber não serve ao cinema brasileiro, que está no passado. Meirelles filma com o toque hollywoodiano, com atores hollywoodianos, enredos hollywoodianos, para ganhar prêmios hollywoodianos. E, assim, alcança o estrelato no Brasil.

É este país, culturalmente pobre quando olhamos a superfície, que precisa mudar.

Digo superfície porque, como tinha dito antes, há movimentos subterrâneos muito claros indicando caminhos diferentes. Temos uma cultura riquíssima em todas as frentes possíveis! Economicamente falando, temos o parque industrial mais desenvolvido e qualificado da América Latina, à disposição para mais evolução. Temos potencial para nos tornarmos economia verde antes de todo mundo. Nossa base científica é prolífica e rica, com conhecimento sendo exportado em biotecnologia e em ciências humanas. Mais que isso: temos um passado deslumbrante em todo o tipo de segmento, do Direito à crítica literária, da Economia ao erudito, passando por toda a mistura religiosa, além da mestiçagem e da cultura indígena.

Perdemos muitas chances no caminho. Janelas de oportunidade não são grande portas com destaque em neon escrito "Entrem e liderem". É preciso sensibilidade para sacar o momento certo. É preciso firmeza, como nação esclarecida e intelectuais orgânicos, para botar em prática um processo de mudança.

Para isso, alguns pontos têm de ser compreendidos. Somos um país distinto daquele que vigorou até os anos 80. Não somos mais o país da grande indústria, ainda que isso possa doer (e eu não estou defendendo nada, apenas verificando algo que está na minha frente). Temos um setor de serviços enorme, com um gigantesco mercado interno começando a colocar as manguinhas para fora. Hoje, se ficar como está, podemos oscilar entre uma Índia (fraca na indústria e forte em serviços) ou uma Austrália (indústria em equilíbrio com importações em abundância, convivendo tranquilamente com déficits em transações correntes).

Mas, se pegarmos o leme, podemos optar para rumos distintos. Rumos brasileiros, efetivamente. Ainda que isso acarrete pegar uma trovoada ou outra no caminho.

Para que não haja engano num ano que será forte (e um tanto vil, podem anotar) em partidarismos e radicalismos, este não é um texto pregando candidato A ou B, ou partido de lá ou de cá. A política está evidente no texto, é claro. Escrevo como agente político ativo, como todos, adianto, deveríamos ser. Mas uma coisa é política, outra são partidos e outra ainda são candidatos. Estou falando da primeira.

Política é a arte das escolhas. Precisamos discutir o que temos e fugir do que é fácil. A hora é de pensar, exercer o pensamento crítico, trocar informações e abrir leques para todos os lados. No final, os radicais, de lado a lado, vão perder, ainda que durante o trajeto seja muito mais bacana defender lados com mordidas ideológicas e críticas acidas. O jogo do partidarismo é muito bacana quando se está no olho do furacão, onde, diga-se, este blogueiro está e estará posicionado em 2010. Mas, para prevalecer o jogo maior -- o desenvolvimento do Brasil -- é preciso escapar dessa premissa e olhar o todo.

Temos um ano rico -- e decisivo -- para refletir e agir.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Versão Brasileira no Sopro

A edição 19 do Sopro, o panfleto político-cultural editado pela dupla Alexandre Nodari e Flávia Cera, acaba de ser divulgada na internet. O Sopro traz trecho do livro Versão Brasileira, que consumiu o ano de 2009 deste blogueiro, escrito em conjunto com Filippo Cecilio.

Além de orgulhoso por fazer parte do Sopro, fico feliz que o trecho do Versão seja divulgado na primeira edição colorida do panfleto, que está com uma diagramação linda.

Convido os leitores deste Blog a visitarem a página do Sopro, clicando aqui. O trecho publicado está no miolo do capítulo 6 do Versão Brasileira, que tem ao todo 7 capítulos (distribuídos em 196 páginas).

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Concertación deixa o poder no Chile, 20 anos depois

A vitória do direitista Sebástian Piñera, no segundo turno das presidenciais chilenas ontem, simboliza duas coisas: o esgotamento total da Concertación e a solidificação de um Chile à direita.

Após a ditadura de Pinochet (1973-1990), uma série de partidos, de esquerda, centro esquerda e centro, se uniram sob o nome de Concertación para governar o país. Representavam a vitória dos ideais sociais e cristãos, num país com sérios problemas de desigualdade de renda e escolar e, ao mesmo tempo, majoritariamente católico cristão.

A Concertación fez muito pela desigualdade, ampliando empregos e ajustando uma relação de seguridade social importante, tendo o Estado no centro do sistema. Ironicamente, o auge foi também a decadência: o atual governo de Michelle Bachelet, que termina seu mandato com 81% de aprovação, mas foi incapaz de fazer seu sucessor.

A Concertación errou em escolher Eduardo Frei, ex-presidente do Chile (1994-2000), que não foi lá muito popular e nem é muito carismático. Mas, principalmente, a Concertación errou por não saber evoluir num momento em que a direita, representada pelo bilionário empresário Sebástian Piñera, soube caminhar ao centro e lançar-se numa plataforma que defende melhoras sociais.

Ficou uma eleição em que o mesmo disputava com o igual. O Chile solidificou seus rumos à centro-direita, ao conservadorismo seguro. Não chega a ser de todo estranho que Piñera, ainda que sob pequena margem de votos, tenha sido eleito presidente.

Para isso, remeto à famosa frase do cineasta Eric Rohmer, mestre da Nouvelle Vague e crítico da Cahiers du Cinéma, morto na semana passada. Assinando sob o pseudônimo de Maurice Schérer, foi certeiro: "Se é verdade que a história é dialética, em certos momentos os valores conservadores tornam-se mais modernos que os progressistas".

***
Do leitor Raphael Tsavkko Garcia, na caixa de comentários:

"Li seu artigo e o do Arles e comparando-os também com o meu vejo que, curioso, cada um de nós de uma visão diferente do caso. Claro, todas somadas dão o resultado esperado, mas é engraçado como cada um viu um gancho e se apegou a ele!"

Aí vão, então, os links para as boas análises do Antônio Arles (aqui) e do Tsavkko (aqui) sobre o resultado das eleições chilenas.

domingo, 17 de janeiro de 2010

A lástima do Haiti

Relembrar a revolução do Haiti, em 1791, e, principalmente, suas consequências econômicas e políticas é ver -- e entender -- como se dá a história humana. Nós, seres humanos como agentes políticos, não lidamos bem com mudanças. Sempre foi assim, em qualquer nação ou sociedade.

Mudanças fortes, como as revoluções, são e serão sempre estigmatizadas pelas elites, quaisquer que sejam elas. O poder desalojado implica em alteração dos costumes e, com isso, em perda de prestígio da velha classe. Alguém sabe lidar bem com perda de prestígio? Começa então a difamação, as artimanhas provocativas e, se possível, a guerra (de fato, ou fria).

Ocorreu no Haiti, depois que os escravos liderados por Toussaint L'Ouverture, tomaram o poder e proclamaram a primeira República Negra da história. Foi, também, a segunda indenpendência nas Américas (a primeira foi a dos Estados Unidos, em 1776).

Mas quais foram as consequências da revolução dos negros no Haiti?

Matéria de Cristiano Souza, no Estadão de hoje, reconta a revolução e, de lá, pesquei o seguinte trecho, que recorto abaixo. Em seguida, volto com meus comentários:

A notícia do sucesso de uma revolução de escravos no Caribe teve profunda influência em toda a região, incluindo o Brasil. O medo das elites brancas de que o exemplo fosse replicado se espalhou e ficou conhecido como haitianismo. "O Haiti foi estigmatizado como inimigo de todos os regimes coloniais e escravistas das Américas", diz o historiador John Lynch, da Universidade de Londres.O Haiti começa então sua longa jornada de isolamento político e econômico. Em uma época em que EUA, Brasil e toda a América Espanhola eram escravocratas, a rebeldia haitiana foi condenada e a região fez de tudo para prevenir o "contágio" do haitianismo. "Os revolucionários hispano-americanos se preocuparam em dissociar-se da Revolução Haitiana", diz Lynch.

O Haiti passou por um isolamento econômico que foi uma desgraça. A indústria do açúcar, toda tocada pelos colonizadores, foi desarticulada, uma vez que os escravos não tinham maiores conhecimentos da gestão do negócio e, mesmo que tivessem, foram excluídos do comércio mundial por razões políticas e ideológicas.

Não foi o que ocorreu com Cuba após a revolução de 1959? Ou com os soviéticos após 1917? Ou, voltando mais um pouco, com os comunistas parisienses após as barricadas de 1871?

Não quero entrar nos méritos dos comunistas de Paris, Moscou ou Havana. Não é isso. A questão aqui é destacar as táticas levadas à cabo pelas elites em diferentes períodos históricos. Seja o Haiti negro de 1791, os parisienses de 1871, os russos de 1917 ou os cubanos de 1959, todos eles se levantaram contra o poder, instituíram diferentes modelos políticos e sociais e todos sofreram com isolamento das elites econômicas mundiais depois de vitoriosos.

Este é um tema tabu, principalmente porque, no caso dos soviéticos e dos cubanos, sempre levantam discussões ideológicas bestas, de lado a lado. Já vou deixar claro isto aqui, para evitar que a defesa cega dos casos ignore a discussão que aqui proponho: Cuba hoje não é propriamente modelo para nada, uma vez que a situação social lá não é boa para ninguém. E o que ocorreu na Rússia no período que se seguiu à morte de Lenin, foi um terror. Os trabalhos forçados e o assassinato de milhões, na União Soviética de Stálin nos anos 1930, simbolizam um período terrível da história humana.

As revoluções, no entanto, foram, em seu tempo, sinônimo de luta e mudança. Isso é indiscutível

Não deixa de ser curioso que, olhando para a história das nações, exemplos não faltam de isolamento político provocado por elites endinheiradas com medinho de que revoluções sociais possam se tornar paradigma.

A lástima que o Haiti vive hoje, depois do terremoto, está aí há quase 210 anos.

***

Estadão e Folha fazem ótimas coberturas do pós-terremoto no Haiti. Acertam em enviar mais de um corresponte (cada um despachou três repórteres) e em dar amplo espaço para o material produzido de lá, complementado pelo pessoal de Brasília e São Paulo, que correm no noticiário diplomático (a questão EUA x Brasil) e histórico.

***

Veja e Época com a mesma capa. Foto chocante e típica de capa mesmo, escolha certa. Mas duas equipes distintas pensarem a mesma coisa é curioso, não? Deve ser um sucesso nas bancas.

(Modo irônico desligado).

***

Rápido comentário: No dia 07 de janeiro, escrevi aqui no Blog que a grande sinuca de bico dos Estados Unidos é a elevada taxa de desemprego, que não cai de jeito nenhum. A iniciativa privada não sente confiança para contratar e investir. E a situação só não piora porque o governo colocou mais de um trilhão na economia. O problema é que esses gastos devem ser retirados, no meio do ano.

Para ler minha análise, clique aqui.

Dez dias depois, na edição de hoje, 17 de janeiro, manchete da seção Internacional do Estadão: "Desemprego é principal desafio de Obama", em matéria assinada pela correspondente em Washington, Patrícia Campos Mello.

***

As estimativas de mortos no Haiti, ainda incerta, variam de 45 mil a 200 mil pessoas. Além disso, estimam-se em 3 milhões de desabrigados. Há todo tipo de doença pipocando, uma vez que falta comida e água, dorme-se nas ruas em meio à milhares de corpos em decomposição há cinco dias. Há tanta destruição e sofrimento, com milhões de pessoas que perderam tudo -- da casa à familiares e amigos -- e sentem fome e sede, que não sobra espaço para caos social e criminalidade descontrolada. Tudo o que as pessoas querem é seu país de volta.

Aí que está o mais triste de tudo. O Haiti é o país mais pobre do hemisfério ocidental. E tudo o que as pessoas querem é que as coisas voltem ao normal.

Sem querer ser chato, mas alguém ainda acredita em Deus depois disso?

Domingo

Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas
Que já tem a forma do nosso corpo
E esquecer os nossos caminhos que nos levam sempre aos mesmos lugares
É o tempo da travessia
E se não ousarmos fazê-la
Teremos ficado para sempre
À margem de nós mesmos


Fernando Pessoa, escritor português

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Dicas para um fim de semana animado

Caros, não poderia deixar de indicar dois artigos primorosos:

1) O Hermenauta, falando de reinaldo azevedo (quem é ele mesmo?), mostra que aquela história de chamar a ditadura brasileira de "branda" está longe de ter acabado.
Escrevi sobre a tal "ditabranda", na época --> aqui.

Para ler o texto do Hermenauta analisando reinaldinho e a "ditabranda", clique aqui.

2) Anselmo, do Futepoca, escreve sobre o incrível comentário de Lúcia Hippolito, "analista" de política da CBN, que, ontem, falou sobre o PNDH. A graça está no fato que Lúcia surge alterada. O Futepoca, como é de seu feitio, fala em cachaça, mas pode ter sido algum calmante, é ou não é Fernando Vanucci?

Escrevi sobre o PNDH --> aqui.

Para ler o texto do Futepoca e ouvir Lúcia gaguejando, clique aqui.

***

Um ótimo fim de semana à todos.

Bondade

Ele caminha a passos largos para alcançar a moça. Ela, percebendo um tanto tardiamente, recebe o rapaz com um olhar que não diz muito.
Para ele, diz tudo.
Ele pergunta se pode acompanhá-la. Ela parece não entender, mas, conforme caminham, percebe que ele quer andar ao seu lado.
Ela hesita.
A falta de resposta, para ele, é um sinal importante.
Ela se arrepende.
Ele a pega pelos braços.
Me solta seu asqueroso filho de uma puta!, berraria ela.
Mas ela não berrou.
Ela olha para ele enquanto caminham.
Ele faz cara de orgulhoso, caminha confiante com um sorriso teimosamente bonito.
Ela deixa estar e hesita desvencilhar-se.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Zilda Arns morre no Haiti

As agências de notícias anunciam agora, 10h40min da manhã de quarta, que Zilda Arns, fundadora da Pastoral da Criança, morreu no terremoto que ocorreu ontem à noite no Haiti.

Além da terrível catastrófe em si, a morte de Zilda Arns é uma lástima para o Brasil e para o mundo.

Notícias aqui, aqui e aqui.

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Imagens, do New York Times, mostram a tragédia que ocorreu no Haiti.





Aqui.

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O leitor João Pereira fez uma comparação que, julgo, é apropriada para dimensionar o pesar que a morte de Zilda Arns causa:

"Para a história do Brasil, a morte de Zilda Arns só se assemelha em tamanho de perda a do Betinho"

Personagens cruciais da história do Brasil, que tornaram nosso país mais rico e se inserem ao lado de grandes nomes. Ambos, Zilda e Betinho, tiveram mortes trágicas.

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Por Isa Domenici:

"Morreu em missão, como viveu toda a sua vida"

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Um rápido pitaco sobre o PNDH

O grande debate dos últimos dias de 2009 e primeiros de 2010, na seara política, tem sido em torno do Plano Nacional de Direitos Humanos, lançado pelo governo no dia 21 de dezembro. A festa ganhou holofotes porque, além de ter sido o último evento oficial do Executivo no ano passado, marcou a primeira aparição pública da ministra da Casa Civil, Dilma Rousseaff, sem as perucas que passou a usar após o tratamento quimioterápico.

O tal plano, chamado pela sigla PNDH, causou um alvoroço danado -- no que O Globo chamou, em manchete interna da edição de sábado (09/01), de "mais uma crise no governo" -- porque os ministros militares + Nelson Jobim, ameaçaram demitir-se.

O que ocorre é que o PNDH instituiu uma retomada do período negro da ditadura militar brasileira, esquecido com a Lei de Anistia, de 1979, que prescreveu os crimes praticados a partir de 1964.

Isso, para os militares -- de pijamas ou ainda na ativa -- e setores que não têm interesse em lembrar os tempos róseos da ditadura, foi recebido como uma bomba (como aquelas que eles gostavam de lançar contra estudantes em passeata ou trabalhadores em greve).

É preciso entender algumas coisas aqui. Havia um Estado e uma sociedade que se criava e se descobria, naquele 1964. Um grupo de pessoas, militares e conservadores políticos, aproveitando-se da inteligência norte-americana e da omissão da classe média religiosa chinfrim, deu um golpe no presidente eleito, João Goulart, e instituiu uma ditadura -- que, diziam, duraria apenas até 1965, quando ocorreriam eleições democráticas.

Como se sabe, a ditadura continuou por 21 anos, destruindo, no meio do caminho, o país que se formava entre os anos 20 e 60. O Brasil mudou, o mundo mudou, e, de 1979 (Anistia) ou 1985 (fim da ditadura) para cá, um milhão de coisas aconteceram, pessoas morreram de velhice, assuntos foram esquecidos etc.

Os assassinados e torturados pelo governo militar ilegalmente instituído no Brasil foram "esquecidos". Os criminosos foram "esquecidos".

A Lei de Anistia foi um passo gigantesco, enorme mesmo, costurado pelo MDB com os militares menos raivosos da Arena, que permitiu ao país ganhar um mínimo de tranquilidade e estabilidade. Os exilados voltaram. O país, aos poucos, passou a convergir para o fim da ditadura -- muito ajudado, diga-se, pelas circunstâncias econômicas, afinal, entrávamos de cabeça numa gravíssima crise econômica.

Já se foram 31 anos da Anistia. Mais que isso: boa parte dos torturados e assassinados pelo Estado já viram passar quase 35 anos. O PNDH, ainda que atabalhoadamente -- porque lançado em ano eleitoral, quando os nervos de todos os agentes políticos da sociedade ficam cintilantes -- faz algo que qualquer país sério faz: volta ao passado negro e diz que, quem barbaramente torturou e matou é criminoso.

É preciso ter clareza quanto a isso, caros leitores. Quem tortura e mata, porque qualquer razão, coloração partidária, ideologia ou que seja, é um criminoso. Crime se resolve com provas -- e existem muitas, ainda que não tenhamos acesso aos documentos -- e no tribunal. E, mais tarde, com pena e identificação pública. Isso não é "revanchismo", como querem alguns. Isso é justiça. Todos, como brasileiros, devemos saber os nomes dos criminosos que torturaram jovens, adultos, mulheres, mães, padres etc.

E uma última coisa: tentar equiparar os "crimes" da guerrilha com os "crimes" dos militares no governo é coisa de gente que não um pingo de inteligência ou, pior ainda, de psicopata. Mesmo. Pessoas tomaram a legalidade pelo pescoço, deram um golpe de Estado no país, exilaram artistas, cientistas, pesquisadores, economistas, advogados, bispos; fecharam o Congresso, cassaram políticos que discordavam, calaram a imprensa, censuraram as artes; concentraram (ainda mais!) a renda, a terra e o poder; extirparam o nacionalismo inclusivo criando lemas militares emburrecedores; arrasaram o ensino público e, de saída, deixaram as portas abertas para a "modernização" falida que abraçamos nos anos 90. Essas pessoas tinham o aparelho do Estado para si, com Exército, polícia e tudo o mais à sua disposição.

Comparar os "crimes" de um com os de outros realmente não parece coerente, parece?

Seja como for, para não irritar o leitor com texto carregado logo na segunda-feira com um assunto que deveria ser consensual num país como o Brasil, vou fechar esse rápido pitaco sobre o PNDH, a Anistia e os rumos do país pós-1964 com alguém que realmente escreve bem: Carlos Heitor Cony, em pequeno trecho sobre o assunto do momento:

O que a nação tem direito de saber não é o grau de punição que os militares e adeptos civis da ditadura merecem agora, tantos anos passados sobre o consenso que marcou o fim do arbítrio. Todos temos o direito de saber como as coisas se passaram, quem fez isso e aquilo, quais as estruturas contaminadas pelo crime, como foi possível tanta e tamanha degradação.

Que venha a verdade, os inquéritos e processos, as sessões de tortura e morte, as perseguições indiscriminadas que jogaram tantos brasileiros na clandestinidade e no exílio. Maior castigo não pode haver para aqueles que cometeram os crimes que continuam debaixo dos tapetes legais.

É isto, basicamente. Que venha a verdade.

domingo, 10 de janeiro de 2010

Domingo

Se eu algum dia me suicidar, será num domingo. É o dia mais desalentador, o mais sem graça. Quem me dera ficar na cama até tarde, pelo menos até as nove ou dez, mas às seis e meia acordo sozinho e já não consigo pregar o olho. Às vezes penso o que farei quando toda a minha vida for domingo. Quem sabe? Vai ver que me acostumo a despertar às dez horas. Fui almoçar no Centro, porque os rapazes saíram para o fim de semana fora, cada um para seu lado. Comi sozinho. Nem sequer tive forças para entabular com o garçom o fácil e ritualístico intercâmbio de opiniões sobre o calor e os turistas. Duas mesas adiante, havia outro solitário. Tinha o cenho franzido, partia os pãezinhos a socos. Duas ou três vezes olhei para ele, e numa oportunidade seus olhos cruzaram com os meus. Tive a impressão de que ali havia ódio. O que haveria para ele nos meus olhos? Deve ser uma regra geral, isso de nós, os solitários, não simpatizarmos uns com os outros. Ou será que, simplesmente, somos antipáticos?


Martín Santomé, um dos maiores personagens da literatura latino-americana, protagonista de "A Trégua", de Mario Benedetti, escritor uruguaio, falecido em 2009.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Fim de expediente

Para fechar a primeira semana do ano. Uma dos grupos que melhor mesclou o rock dos anos 80 com o funk dos anos 70, numa combinação sensacional, que fez muito sucesso nos primeiros anos da década de 90: Faith No More.

Estive no show que fizeram em SP em outubro e, por mais tentador que seja tascar um rockão aqui no Blog, o Fim de Expediente de hoje ataca com uma maravilha: "Easy", cover do The Commodores, grupo que lançou Lionel Ritchie.

Não fazia nenhum sentido uma banda pauleira como o Faith No More tocar "Easy". E aí é que está toda a graça desse grupo: não levar a sério os ditames ortodoxos que mais afugentam que libertam. Essa é a grande lição da música, não?

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Um ótimo fim de semana à todos.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Zona na Argentina

É impressionante o despreparo de Cristina Kirchner em conduzir o país. Iniciou uma guerra inacreditável com o presidente do Banco Central, Martín Redrado, por uma medida do Executivo. Cristina quer tirar US$ 6,5 bilhões das reservas do BC para pagar juros da dívida externa do país e, assim, libera parte do Orçamento para medidas sociais de estímulo econômico, como cheques à famílias carentes.

É algo legítimo, nada de errado com isso. O problema é que, como qualquer medida, ela precisa ser apreciada por órgãos independentes. É o caso do Banco Central argentino, que tem sua independência ao governo garantida por lei. O governo não tem poder para passar por cima do BC, ou do Congresso ou de qualquer ente federal que não lhe pertença, ainda que, obviamente, há soberania do Executivo sobre o BC.

Há então um conflito, que pode ser resolvido de forma harmoniosa, por meio de um debate entre BC e governo, com participação popular, para se chegar a um consenso. Mas Cristina, despreparada que só ela, resolve agir de forma intempestiva: pede a renúncia de Martín Redrado.

Ele responde rápido: "Não".

Abre-se uma crise institucional absolutamente inacreditável num país acostumado com crises inacreditáveis. Redrado é colocado no paredão, restando oito meses para deixar o mandato. É um sujeito liberal, com cabeça semelhante a 90% dos banqueiros centrais, que levantou uma série de discórdias ao longo de seu mandato, iniciado em 2004. Mas, ainda assim, nada semelhante ao que vimos no Brasil entre Lula, José Alencar, Mantega (Executivo) e Henrique Meirelles (BC) desde 2003. Nada disso.

Hoje, então, Cristina assina decreto que demite Redrado e, no segundo parágrafo, anula a lei que proíbe ao Executivo demitir o presidente do Banco Central sem passar pelo Congresso, que está em férias.

Uma zona total, que poderia ser tranquilamente resolvida com um mínimo de tato político.

Atualização de sexta-feira, 18:52

A zona continua: a Justiça argentina determinou a suspensão do decreto que exonerava o presidente do Banco Central de seu cargo.

O desemprego nos EUA

O governo americano está numa verdadeira sinuca, das mais difíceis de serem contornadas: Hoje, são 15,4 milhões de desempregados, sendo que metade destes (7,7 milhões de pessoas) perderam seus empregos a partir de dezembro de 2007, quando a recessão começou.

Não há contas precisas quanto ao cargo e setor onde as pessoas trabalhavam, mas, com certeza, algo como 80% ou 85% delas são do setor privado. É aí que está a grande sinuca de bico.

Quando a crise explode e a demanda cai, o setor privado, que necessita do lucro para existir, logo desiste de investir e, temendo problemas futuros, começa a demitir. O empresário precisa reativar confiança para voltar a contratar. E, nesta conta de confiança, tem muita coisa dentro: precisa ter certeza que haverá demanda, no presente e no futuro, para seu produto; precisa de condições interessantes de crédito; precisa de certa tranqulidade competitiva com mercado externo; entre outros fatores.

Desde 2007, o empresário americano não tem nada disso.

O desemprego americano só não explode porque o governo, desde o finzinho de 2008, entrou com uma batelada de dinheiro na economia, sustentando bancos e empresas da falência. Como pré-condição, a administração Obama tornou compulsória a manutenção de parte dos postos de trabalho -- quer dizer, as empresas, para se sanearem, podem até demitir, mas não podem fazer isso como gostariam.

Isso é importante e, convenhamos, não há nada de intervencionismo estatal exacerbado, como os republicanos gostam de dizer. É claro que, se fosse o governo Chávez, isso seria recebido como o socialismo leninista (e, se querem saber, muitos radialistas direitistas americanos chamam Obama e os democratas de leninistas).

Mas a sinuca é: o governo não deve manter os estímulos por muito mais tempo. Grande parte deles deve ser desligado no meio do ano. Se ocorrer, teremos nova explosão de desemprego.

O sistema privado americano não consegue se manter com as próprias pernas.

Atualização de sexta-feira, 19:00

A Casa Branca disse que os dados de emprego divulgados hoje foram decepcionantes. Aqui.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

A classe operária do século 21

Lembram que, tempos atrás, relatei aqui conversa com Ricardo Antunes sobre como os tempos estavam mudando para a indústria automobilística? Refleti, na época, sobre como o enxugamento de trabalhadores nas montadoras -- que combinadas hoje não chegam a alcançar o que apenas a Volks tinha nos anos 70 e 80 -- representava a mudança porque passou o Brasil nos últimos trinta anos.

Vivemos num país onde 12 milhões e 500 mil pessoas trabalham no setor de serviços. Somados, indústria e comércio não alcançam esse patamar. E percebam: estes dados são da Relação Anual de Informações Sociais (Rais) de 2008, porque o mais completo mapeamento do emprego no Brasil, relativo à 2009, só sairá em março de 2010. Ou seja, os serviços já bateram na casa dos 13 milhões de trabalhadores -- e isso está acontecendo agora.

Refleti sobre a mudança de padrão: saimos do operários industriais para os operadores de telemarketing e call center, a "nova classe operária do século XXI".

Aquela conversa com professor Ricardo e a rápida reflexão em forma de post aqui no Blog cresceram e ganharam corpo. O Valor publica hoje matéria especial em que conto um pouco desta "nova classe".

Não costumo linkar minhas matérias. Como a ideia para esta de hoje nasceu aqui no Blog, julgo conveniente compartilhar :-)

Assinantes do jornal podem ler "Telemarketing cresce, mas engatinha no sindicalismo" clicando em "Notícias Relacionadas", que vai abaixo da chamada, neste link. Em seguida, há entrevista com Ricardo Antunes, que compara os operadores de telemarketing neste início de século 21 com os bancários dos anos 60 e 70 (aqui).

Atualização

Seguindo o pedido do leitor Pedro, na caixa de comentários, aí vão os links para não-assinantes:

Telemarketing cresce, mas engatinha no sindicalismo

Pesquisador compara categoria aos bancários dos anos 70

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Um exemplo de mau-caratismo

O vice-ministro de Exteriores israelense, Danny Ayalon, deu o primeiro exemplo de mau-caratismo de 2010 ontem à noite, quando afirmou que o massacre promovido pelo exército de Israel contra os palestinos em Gaza, um ano atrás, provou que "dissuasão funciona".

Uma rápida recapitulação: Israel decretou bloqueio das fronteiras da Faixa de Gaza, em 2006, após a vitória do Hamas, grupo fundamentalista islâmico eleito democraticamente. Com o embargo, houve um corte de mais de 80% no na entrada de alimentos, bebidas, combustíveis e remédios. Foram três anos assim. O Hamas, que não reconhece o Estado de Israel, seguiu lançando foguetes contra o sul de Israel. Em junho de 2008 foi estabelecida uma trégua de seis meses. O Hamas suspendeu os foguetes. Mas Israel manteve o embargo e ainda rompeu o acordo, assassinando sete palestinos no dia 04 de novembro, quando toda atenção mundial estava depositada nas eleições nos Estados Unidos, principal parceiro ideológico e financeiro de Israel. Terminada a trégua, o Hamas retomou os foguetes, no dia 19/12. Poucos dias depois, a 27/12, Israel iniciou o massacre. Em 22 dias de ataque, mais de 1.300 palestinos foram mortos e quase 5 mil ficaram feridos. A guerra parou três dias antes da posse de Barack Obama, nos Estados Unidos, principal parceiro ideológico e financeiro de Israel. Fim da recapitulação.

Pois bem. Foi esta "operação israelense" que Danny Ayalon considerou como exemplo de que a dissuasão funciona, uma vez que o Hamas parou de lançar foguetes contra Israel.

Detalhe: nada entra ou sai de Gaza. Tudo é controlado, desde combustível até água, passando por roupas, alimentos e remédios. E, ainda assim, há um enorme chororô quando bombinhas -- porque me desculpem os incautos, mas comparado ao arsenal bélico israelense, que inclui armas nucleares, os foguetes do Hamas são na realidade bombinhas -- ultrapassam as fronteiras de Gaza.

Este é um mundo de desfaçatez e mau-caratismo.

Feliz ano velho.

domingo, 3 de janeiro de 2010

Domingo

Creio que para exercer o jornalismo, antes de tudo, há de ser um bom homem ou uma boa mulher: bons seres humanos. Más pessoas não podem ser bons jornalistas. Se se é uma boa pessoa, se pode tentar compreender as demais, suas intenções, sua fé, seus interesses, suas dificuldades, suas tragédias. E converter-se, imediatamente, desde o primeiro momento, em parte de seu destino. É uma qualidade que a psicologia denomina “empatia”. Mediante a empatia, se pode compreender o caráter próprio do interlocutor e compartilhar de forma natural e sincera o destino e os problemas dos demais. Nesse sentido, o único modo correto de fazer nosso trabalho é desaparecer, esquecermos de nossa existência. Existimos somente como indivíduos que existem para os demais, que compartilham com eles seus problemas e tentam resolvê-los, ou ao menos descrevê-los. O verdadeiro jornalismo é intencional, a saber: aquele que fixa um objetivo e tenta provocar algum tipo de mudança. Não há outro jornalismo possível. Falo, obviamente, do bom jornalismo.

Do mestre Ryszard Kapuscinski, polonês, conhecido como o "maior jornalista do século XX".

***

Foi dos primeiros jornalistas que li, num livro que guardo com carinho. Que seja ele, Kapuscinski, falecido em 2007, o marco inicial de 2010.

O Jornalismo (com "J" maiúsculo) será central neste ano.

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Para um 2010 a todo o vapor

Uma ode ao país mais rico do mundo, ao som do que temos de melhor. Heitor Villa-Lobos, dos maiores compositores da música, que bebeu de nosso popular -- o choro, o samba, o rasga, o bolero -- e de nossas raízes caboclas, indígenas e europeias.

Que nosso melhor aflore em 2010.


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