quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Tanques na favela


Hoje, equipes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e tropas blindadas da Marinha entraram na Vila Cruzeiro, na zona norte do Rio -- um dos maiores redutos de traficantes ligados ao Comando Vermelho (CV).

Ex-policial do Bope, Rodrigo Pimentel, famoso por ser co-autor de Elite da Tropa, o livro que gerou o filme Tropa de Elite, deu uma boa entrevista ao Terra Magazine. Pimentel sabe separar o Bope das UPPs, as Unidades de Polícia Pacificadora, que mudaram a cara dos morros cariocas.

***
O que aconteceu com os fabricantes de gramophone quando as pessoas pararam de demandar seus produtos?

O que acontecerá, então, com os traficantes quando seus "produtos" pararem de ser demandados?

Aí é que está a sacada. Combater o tráfico de drogas, com UPPs e Bope, coordenados, tendo ascendência da primeira, é estratégico. Mas o traficante, como qualquer comerciante, só existe porque há demanda.

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Por Hugo Albuquerque

A grande questão do tráfico é a questão do nosso tempo. Em um primeiro momento, a política de combate à sua atividade se dá pela manutenção na ilegalidade de seus produtos - embora isso, por si só, não garanta que deixará de existir demanda por eles, ao contrário, proibições legais, como qualquer proibição, não neutralizam o desejo, mas sim o deslocam - e mantém pesado aparato militar para confronta-lo - quando, no que toca guerrilha urbana, força militar ostensiva serve apenas para isolar áreas, manter o controle do poder nas mãos do Estado, mas não para pôr fim a tais organizações, o que demanda trabalho de existência. Enfim, a questão aqui só é política em um segundo momento mesmo, afinal seja a questão normativa quanto a policial, incidem apenas sobre os efeitos, sem nunca eliminar as causas, mesmo quando terminado seu ciclo.

A questão é econômica mesmo, é a demanda, e demanda não surge de necessidade, mas sim de desejo. Por que alguém gostaria de consumir compulsivamente substâncias muitas vezes caras, que lhes debilita a saúde e por vezes de qualquer estado de razoabilidade? Porque se o Capitalismo, ainda mais esse capistalismo nosso de cada dia, precisa disciplinar comportamentos, ele produz cada vez menos válvulas de escape psicológicas para que as pessoas suportem sua dinâmica.

O mercado, que é esfera econômica e não política, embora demanda mais do que ninguém da Lei (ou da ausência dela), articula a falta de possibilidade de distribuir algo que é demandado por meio da criação de "mercados negros" (na verdade, subsistemas do próprio), do tráfico e, por incrível que pareça, a violência que isso desencadeia dá origem a um mercado de segurança, o que não apenas cria e fortalece o investimento estatal em armas e tropas, como também faz o mesmo com empresas de segurança privada...e cria milícias - do mesmo modo que o capitalismo mercantil e bancário da Península itálica criou as organizações mafiosas. O problema é enormíssimo. O que, conjugado com os problemas que nós temos, especialmente os que Rio tem, chegamos a uma situação de exceção.

***
Nos comentários, a leitora Luka falou sobre as UPPs (Unidade de Polícia Pacificadora), implementadas pelo governador Sergio Cabral a partir de dezembro de 2008 -- a primeira foi no morro Santa Marta.

A Luka está certa quando fala de abusos de policiais nas UPPs. Há relatos de que aconteceram. Isso precisa ser combatido, uma vez que, diferentemente do Bope ou mesmo das forças policiais estaduais e municipais, as UPPs (devem) ser mais apaziguadoras, com gente diferenciada ali. É o que acontece. Os relatos de que funciona, de maneira muito satisfatória, são muito mais comuns que o contrário. O saldo é extremamente positivo.

Boa parte da família do blogueiro mora no Rio -- espalhada pela Cidade Maravilhosa, com gente morando na zona sul, norte e centro -- além de amigos. O relato deles, combinado com o que vi nas várias vezes que fui ao Rio desde então, é de que as UPPs mudaram a cara dos 12 morros onde já estão instaladas. Há uma coesão social que praticamente não existia. Se o governo Cabral foi inepto em muitas áreas -- e foi -- acertou com as UPPs.

Sobre isso, o sociólogo Dario Sousa e Silva, que é professor na Uerj, deu uma bela entrevista ao Terra Magazine, aqui: UPPs bloqueiam cadeia do tráfico

22 comentários:

Hugo Albuquerque disse...

A grande questão do tráfico é a questão do nosso tempo. Em um primeiro momento, a política de combate à sua atividade se dá pela manutenção na ilegalidade de seus produtos - embora isso, por si só, não garanta que deixará de existir demanda por eles, ao contrário, proibições legais, como qualquer proibição, não neutralizam o desejo, mas sim o deslocam - e mantém pesado aparato militar para confronta-lo - quando, no que toca guerrilha urbana, força militar ostensiva serve apenas para isolar áreas, manter o controle do poder nas mãos do Estado, mas não para pôr fim a tais organizações, o que demanda trabalho de existência. Enfim, a questão aqui só é política em um segundo momento mesmo, afinal seja a questão normativa quanto a policial, incidem apenas sobre os efeitos, sem nunca eliminar as causas, mesmo quando terminado seu ciclo. A questão é econômica mesmo, é a demanda, e demanda não surge de necessidade, mas sim de desejo. Por que alguém gostaria de consumir compulsivamente substâncias muitas vezes caras, que lhes debilita a saúde e por vezes de qualquer estado de razoabilidade? Porque se o Capitalismo, ainda mais esse capistalismo nosso de cada dia, precisa disciplinar comportamentos, ele produz cada vez menos válvulas de escape psicológicas para que as pessoas suportem sua dinâmica. O mercado, que é esfera econômica e não política, embora demanda mais do que ninguém da Lei (ou da ausência dela), articula a falta de possibilidade de distribuir algo que é demandado por meio da criação de "mercados negros" (na verdade, subsistemas do próprio), do tráfico e, por incrível que pareça, a violência que isso desencadeia dá origem a um mercado de segurança, o que não apenas cria e fortalece o investimento estatal em armas e tropas, como também faz o mesmo com empresas de segurança privada...e cria milícias - do mesmo modo que o capitalismo mercantil e bancário da Península itálica criou as organizações mafiosas. O problema é enormíssimo. O que, conjugado com os problemas que nós temos, especialmente os que Rio tem, chegamos a uma situação de exceção.

Lady Haha disse...

Eu ainda fico abobado com o uso do argumento sobre quem financia como se fosse a nova descoberta cara do século (é pior até que gente que perdeu o ônibus dos anos 60 e tenta falar timidamente sobre o combustível da ilegalidade como se quebrasse tabus) e o mesmo não aparece para todos os outros elementos sistêmicos da violência que somos cúmplices (trabalho, aparato público, roupas, petróleo, frutas, comida, impostos, água, refrigerante, etc).

Gente coçando suas coceirinhas reaças (clássicas) de forma moralista contra estudantes, hedonistas ("bugueses cosmopolitas sem raízes!"), vagabundos e outros como bode expiatório - sonhando em exorcisar sua participação - é previsível e pontual feito trem fascista, sempre sonhando em fazer o sistêmico parecer ser culpa de um externo, dum interruptor, de um invasor.

Mas vai lá, tem um cantinho no cacete uniformizado que deixaste de polir com a língua (/teclado).

João Villaverde disse...

Pois, Lady Haha, se teve tempo de vir aqui, ler e escrever este comentário é porque, de fato, está precisando achar outra ocupação, né não?

Ninguém é obrigado a concordar com nada do que escrevo aqui -- o Blog, aliás, chama-se João Villaverde, isto é, trata-se da minha opinião.

Agora escrever uma série de asneiras e ser grosso, na argumentação, isso é de uma falta do que fazer atroz. Especialmente por escrever no masculino e assinar no feminino -- antes de vir aqui vomitar idiotices, Lady Haha, resolva-se mentalmente, meu caro.

Os 450 leitores (média/dia) deste Blog não precisam ser expostos a isso.

Saudações

Senhor Haha disse...

Sim, tem completa razão.

João Villaverde disse...

E isso confirma uma velha tese deste blogueiro: sempre que alguém quer atacar, de maneira baixa, faz de forma anônima.

Por que não assinar? Por que não colocar e-mail? Claro que, por meio de um dispositivo que domino, posso chegar ao I.P. e localização de qualquer comentarista, mas fica mais fácil quando a pessoa assina, né? Pelo menos mais corajoso fica.

Saudações

Luka disse...

Harry,

Tenho que descordar contigo profundamente contigo neste ponto. Acho que nos resignarmos apenas a questão do tráfico (que sim, existe é real, mata, mas quem morre é o pequeno traficante muito raramente o grande). Mas defender políticas como o BOPE e UPP para "combater" o tráfico é preocupante, pois as notícias que ouço são iguais as da época dos crimes de maio de 2006 aqui em SP, só morte de inocentes e pobres - tenho certeza que também devem ter marca de execução e ser maioria negra, da mesma forma que foi em 2006 aqui nas bandas paulistas.
Há um problema real que é o tráfico, mas também os locais onde as UPPs se ergueram são áreas de especulação imobiliária que para as Olimpíadas e Copa tendem a ser "estratégicas" para a elitização dos espaços e limpeza social dos lugares.

Algo que devemos pensar é por que todas as boas imagens que temos do RJ são imagens que lembram o Haiti, países africanos e afins? Quem é que realmente sofre com tudo isso? Como disse o Hugo a questão é complexa etcetc... Seguimos no debate.

Quanto a questão do tráfico se é o caso de legalização ou não é tema para outro comentário, ou até uma conversa de bar.

Vovô Haha disse...

1 - Há nomes que são mais fáceis de achar e algumas opiniões e constatações não são muito bem vindas em todas as esferas da sociedade (anonimato pode em horas ser um pré-requisito para coragem e verdades desregulamentadas extrainstitucionais - como um paralelo ilustrativo, o voto idealmente não é feito na frente da polícia; ou ver história de ativismo gay; ou citação de Pynchon sobre nomes serem coleiras a espera da guia. E sinto que devo notar que isso é mais verdade ainda se tratando da classe intelectual estabelecida - sua exigência corajosa de uma identidade é bem ilustrativa e familiar).

2 - pq passaria informações e contatos pessoais para estranhos? É uma pergunta retórica, ñ precisa responder.

3 - aonde te ataquei de forma baixa, com excessão da última frase (que concordei, foi um post sem educação e não civilizado o bastante para ser incluído)?* Fiz uma descrição de um argumento populista incitador de violência aos vulneráveis, com toques de culto as tropas (literalmente com camisas pretas e caveiras no quepe - o único lado positivo é que sujam a mão ao contrário de seus torcedores que ignoram a humidade). Como é um blog que me iscou a tempos pelas análises certeiras, senti um dever de constatar, de forma falha e grosseiramente tosca, que a visão mostrada anteriormente pelo autor não necessariamente legitimizavam o post que fez hoje (e que pareceu uma excessão numa linha de acertos).

*O máximo que vi aqui foi uma referência a uma falta de resolvimento mental em relação a auto-identificações em termos de gênero (na internet, se entendi corretamente), quase que faltando um "sua bicha" ou "sapata" ou "traveco".

Mas não me deixe atrasá-lo pq demorará para termos mais análises.

Anônimo disse...

Bom, visto que o anônimato dificilmente é utilizado com parcimônia, e tenho medo de ser confundido com outro mal intencionado, deixo o anônimato e o blog, se voltar, voltarei assinando.
Saudações Villa, até breve, sobre o texto da amazônia será um prazer, darei um jeito de mandar meu email para ti! #_#

João Villaverde disse...

Agora sim Vovô Haha!

Belo comentário, como foram os do Hugo e da Luka. Ideias são debatidas com ideias, não com ataques baixos. É isso que quero destacar.

Sobre o anonimato: você citou casos exemplares em que o anônimato não só foi central, como tinha uma função defensiva muito importante. Isso nada tem a ver com o anônimato num debate sobre Rio e drogas num Blog.

Percebe a diferença?

Ser anônimo e debater ideias -- concordando ou não -- não tem problema algum. Este Blog, inclusive, conta com um belo comentarista anônimo, que é #_#. Se você quiser continuar comentando, esta completamente livre para fazer por meio do Haha, conquanto que você não ataque ninguém.

Preciso correr com o fechamento, aqui no jornal. Quis passar aqui apenas para botar pingos nos "is". Volto aqui, mais tarde, para responde-los decentemente sobre as ideias :-)

Saudações

P.S. E por favor, aqui não quis, de forma alguma, dizer nada com a "confusão mental". Lendo o que vc escreveu percebi que dei margem para uma interpretação torta, no que me desculpo. Só quis chamar a atenção para a confusão entre o texto do comentário e a assinatura ;-)

João Villaverde disse...

Não vá embora não, #_#!

Não só aguardo teu texto sobre a Amazonia quanto espero continuar tendo seus comentários por aqui ;-)

Saudações

Luiz Octávio disse...

No filme tropa de elite I, há uma cena em que o capitão nascimento esfrega a cara de um garoto que fuma maconha na corpo baleado de alguem que morreu no confronto e diz algo assim: "Quem matou ele? Hein? - Foi o Senhor... - O Caralho! Quem matou ele foi você seu merda! Você que financia isso aqui!".
Tenho minhas dúvidas sobre a validade do argumento.

Xandão disse...

João aí, você tocou numa parte sensível - geralmente a narina - da nossa classe média-horrorizada-com-o-crime. Essa relação causa-efeito, tão óbvia, não faz sentido pra eles. Como disse um amigo meu, o pessoal no Rio está tão estressado com a violência que resolveu acender um baseado pra relaxar.

Bruno disse...

O sr. Xandão instituiu agora que a culpa pelo tráfico, pela guerra, pelo armamento dos traficantes e etc... é da "classe-média-horrorizada-com-o-crime"

Só pra deixar uma coisa clara aqui nessa merda: tem muita gente da "classe média-horrorizada-com-o-crime" que nunca chegou perto de nenhum tipo de droga e abomina qqer ligação com tais substancias.

Então, antes de vir com esse argumentozinho burro, pensa um pouco. Porque ser da "classe média-horrorizada-com-o-crime" não é condição precedente pra ser maconheiro ou usuário de qqer tipo de drogas.

Melhor ser um "classe média-horrorizada-com-o-crime" do que um hipócrita classe média pseudo-esquerdista que não se enxerga.

Carolina disse...

Concordo com o Bruno que esse argumento do "Xandão" é a coisa mais ridícula que li nesses comentários. Outra coisa, acho bem simplista culpar o "capitalismo do mal" pela demanda por drogas. As pessoas se drogam por uma infinidade de razões, sempre houve quem se drogasse, porque necessidades e angústias e carências existem independentemente de época e modelo econômico vigente.

Nicolau disse...

Acho complicado o argumento pelo seguinte: sempre houve demanda por substâncias alteradoras de consciência. Não sou nem de longe especialista no assunto (seja como estudioso ou usuário, hehe), mas não consigo lembrar de uma civilização que não tenha inventado algum jeito de chapar. Se assim for, e creio que é, não dá pra imaginar que isso vai mudar agora. O fato é que, em termos de comabte às drogas, a abordagem de guerra e da criminalização vem sendo usada há décadas e não obteve qualquer resultado. Talvez seja hora de pensar em algo novo.

Hugo Albuquerque disse...

Só pegando um gancho sobre um ponto que foi levantado, eu creio que o uso de substâncias que provocam alguma alteração pode até ser algo constante na história humana, no entanto, a maneira como isso é administrada - o que, ao meu ver, é uma decorrência de como se estruturam as relações sociais em certa coletividade -, muda tudo. Pensemos na questão do consumo de maconha entre os índios e entre nós. Drogar-se por que, como e para que. Nesse ponto, eu concordo bastante com os pós-estruturalistas franceses: o capitalismo difere dos sistemas que lhe antecederam pela maneira particularmente mais específica e voraz que ele disciplina comportamentos. O projeto filosófico kantiano gira em torno disso, Hegel, também não escapa. Normalização de comportamentos, entretanto, tem limites e precisa de linhas de fuga, o que, nos dias de hoje, se concretiza numa miríade de vícios e compulsões como nunca antes visto na história humana - e as substâncias alucinógenas são apenas parte dessa conversa.

Anônimo disse...

Hugo vc tocou no meu ponto de estudo, entre outras coisas estudo Etnofarmacobotânica,e fiquei tentada a escrever um texto gigantesco sobre seu comentário sobre o uso de substâncias de desfoque do SNC, mas me limito a dizer que está certo quando se refere a "normatização dos comportamento", e adoço dizendo que o uso de substâncias que alteram a mente tem forte ligação com o interesse econômico da sociedade. Poxa, isso é assunto para mais de metro #_# Saudações

Bruno disse...

Hugo, não sou especialista em comportamento humano... mas acredito que não é exclusividade do capitalismo a padronização, condicionamento e disciplinamento de comportamentos.

A vida em sociedade é pautada padronização dos comportamentos, as pessoas que vivem em sociedade se portam conforme as expectativas produzidas por essa sociedade. Independente se num sistema capitalista, socialista ou seja lá o que for.

Se estudássemos as relações entre os indígenas perceberiamos a existencia de uma padronização de comportamentos, e consumo de alucinógenos, no império romano, na república (o mesmo), nas sociedades regidas por outros modelos econômico (mesmo), na idade média na Europa, nas tribos africanas... Em todas as sociedades organizadas, é possível observar um padrão de comportamento esperado para os indivíduos que às compõe. O uso de alucinógenos também é comum em todas as sociedades, sejam capitalistas ou não.

E em países capitalistas, poreém com melhores padrões de segurança pública, educação, saúde e etc... não se vê tamanho poder do tráfico, nem tantos usuários de dorgas.

Portanto, na minha opinião é invalido o raciocínio que: Capitalismo = pressão da sociedade = indivíduos atormentados = escape através de uso de drogas = tráfico de drogas.

PAra diminuir significativamente o tráfico de drogas é a solução é mais simples do que parece (mudar o sistema economico mundial).
Repressão ao tráfico, educação para evitar futuros usuários e saúde para atuais usuários (com programas de reabilitação).

Abraço

Hugo Albuquerque disse...

Bruno,

Eu discordo. Isso é naturalizar a disciplina, a partir do que está posto, aplicar de forma estanque o padrão de comportamento atual para trás como forma de justifica-lo. O ponto é que a forma das sociedades funcionaram, para além de qualquer vício positivista na qual as coisas caminham em certa marcha incessante, é profundamente diferente, e tal diferença se assenta no fato de que, para além da produção civilizacional, diferentes grupos humanos tiveram padrões culturais - logo fins - radicalmente diferentes, logo, modos de perceber as coisas e, por tabela, metas completamente distintas. Basta ver quais as consequências - em especial, "reações adversas" - de padronização do comportamento em sociedades pré-capitalistas e agora. Quando, em toda a História da humanidade, tivemos tanta gente viciada em qualquer coisa? Basta ver que o mercado que as chamadas "drogas" movimentam hoje, não tem paralelo com nenhum outro mercado de alucinógenos que já tenha existido. Essa tese de "repressão ao tráfico", lamento, não é original, é exatamente isso que está acontecendo agora e me parece que só tem servido para movimentar o mercado de armas. O problema dela, não resta dúvida, é por que as pessoas buscam, cada vez mais, consumir drogas? Se isso não for identificado e resolvido, não adianta seguir a lógica de combater um problema pelos efeitos - a velha dipirona como forma de tratar a pneumonia. Isso também é um tanto mais complexo do que "mudar o sistema econômico mundial", envolve estar disposto a enfrentar os mecanismos concretos de governança que impõem um modo de vida psicológica, social e ambientalmente insustentável, que não simplesmente não tem como ser concretamente alterados num passe de mágica - tanto que não foi a minha proposta, as coisas são sempre mais complicadas do que parecem.

Bruno disse...

Hugo, é estranho, mas sociedades que impuseram um sistema de repressão ao tráfico, aliado a um bom sistema de saúde e educação pública não têm problemas como os nossos, não é? Será que essas sociedades não estão inseridas no modelo capitalista?

Países como a Suécia, por exemplo, que nos anos 70 promoveu o combate direto e sem tolerancia ao consumo de drogas, hoje tem uma taxa de usuarios 3 vezes menor que no resto da Europa. A Dinamarca, que também não tem guerra entre traficantes e policiais, tambem instituiu um programa de tolerancia 0 para o consumo e compra/venda de drogas.

Isso não vai tirar das pessoas a vontade de usar drogas, mas vai fazer com que elas não tenham acesso às drogas.

Afinal, controlar as vontades das pessoas é algo que ngm vai conseguir.

Hugo Albuquerque disse...

Bruno,

Suécia e Dinamarca estão longe de serem as utopias que vendem e apontam, mas possuem uma dinâmica menos capitalista do que a média (ao menos, por ora): Estado grande e intervencionista que garante a primazia do espaço e do interesse público, abranda a exploração do trabalho e educa seus habitantes - beneficiados ainda por uma posição junto à divisão internacional do Trabalho que cria condições para tanto, afinal, lobo não come lobo em Estocolmo, mas o mesmo não se pode dizer no resto da Europa ou na África, embora tudo esteja interrelacionado. Enfim, pessoas podem consumir menos drogas se não tem motivos para tanto - o que, em situações excepcionais, pode acontecer no Capitalismo, mas não é a regra, pelo menos não dentro da cultura ocidental.

A proibição e o fechamento ao acesso não produzem efeito algum se as condições para esse desejo assim se realizar no campo social não for, elas sim, resolvidas. O que esses países nos ensinam é, na verdade, como construir todo uma política de estruturação da sociedade que o desejo assim se manifeste, se não fosse isso, seria como dizer que se as drogas fossem, de repente, legalizadas neles, todos começariam a consumi-las por tabela. Evidentemente, isso não aconteceria.

Do mesmo modo que a construção desse modo de vida, infelizmente, só é possível por conta das condições específicas dessas nações e, volto a repetir, a posição que elas ocupam na divisão do internacional do trabalho. Elas não se reproduzem - nem há como se reproduzir - pelo mundo, sequer pela bela Europa, dentro desse atual sistema de produção.

abraços

Bruno disse...

Hugo, por ter morado na Suécia por algum tempo, posso lhe dizer o que eu vi e também o que li e conheço.

Quando falo da Suécia, não falo de algo utópico, não. A vida em sociedade lá é tranquila. Não existem balas perdidas, não existem "chefes do tráfico" nem "donos do morro". É óbvio que existe o crime e o consumo de drogas, como existe em todo lugar (inclusive nos países que tentaram rumar para o socialismo, ou seria, a utopia socialista). Mas no geral os crimes cometidos na Suécia são menores. Vi também situação parecida na Dinamarca, na Noruega, na Nova Zelandia e no Canadá (sendo que o último tem uma política menos ostensiva de confronto às drogas).

A Suécia sem dúvida tem altíssimas taxas de imposto, o que confere ao Estado a capacidade de investir muito em educação, saúde, segurança, infra-estrutura, e etc... Mas, ao contrário do que a maioria pensa, a economia sueca é mais dependente da iniciativa privada do que outras economias como a Italia, por exemplo, que tem muitas empresas de base e de serviços estatizadas. O modelo adotado pela Suecia depende de uma cooperação mutua entre governo, empresas e sindicatos, mas isso não quer dizer que as empresas estão nas mãos do Estado. As maiores empresas e quase toda a previdência sueca são privadas, e, vcs não vão acreditar, eles são privatistas! Fato que vai na contramão do que prega o socialismo utópico.

Associar o capitalismo com consumo de drogas sem que haja um aprofundamento dessa análise não vale. Tem que trazer algum dado concreto. O que eu estou vendo é que o Brasil é, talvez junto com o México, é o país "em desenvolvimento" que tem menos controle do tráfico de drogas e da segurança pública.

A proibição e o fechamento ao acesso produzem efeito caso sejam bem conduzidos. Se não entrar mais um grama de cocaína no Brasil e ninguém mais tiver acesso aos meios de produção, é óbvio que os usuários ou vão parar de usar, ou vão usar em outro lugar do mundo.

Hoje em dia ninguém mais tem varíola, pq? Pq ninguém mais tem acesso ao vírus. Se ninguém mais tiver acesso à cocaína, ngm vai ficar viciado, não tem desejo, não tem tráfico e etc...

É bom lembrar que não comentei sobre países que não conheço, mas que são reconhecidamente mais seguros e tem um índice de consumo de drogas mais baixo que o brasileiro, como: Japão (incidência mínima de consumo de drogas)coréia do sul, Austrália, todo o resto da Europa Ocidental... mas como você disse, com esses países não podemos nos comparar... Temos que continuar nos comparando com a Índia, com o Afeganistão, Paquistão e etc..

Para diminuir substancialmente o tráfico de drogas: educação de qualidade, saúde pública de qualidade, controle de fronteiras, repressão ao tráfico, punição severa aos traficantes.

Agora, não tenho muitos dados das ditaduras socialistas, se você quiser dissertar sobre o consumo de drogas em países não capitalistas e mostrar que quando o "sistema" exerce menos pressão nas pessoas elas usam menos drogas, pode se sentir a vontade.

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