Sempre que ouço falar em privatização -- sim, este tema incansável, que volta com força sempre que há eleições no Brasil, que poucos conseguem dialogar com lucidez -- lembro de Brecht.
Já que o tema está no noticiário eleitoral, e infelizmente, muito pobremente tratado pelos candidatos, pelos analistas, economistas e torcedores da blogosfera, vamos, ao menos, ficar com quem sabe escrever.
Privatizado
Privatizaram sua vida, seu trabalho, sua hora de amar e seu direito de pensar.
É da empresa privada o seu passo em frente,
seu pão e seu salário. E agora não contente querem
privatizar o seu conhecimento, a sabedoria,
o pensamento, que só à humanidade pertence.
Bertold Brecht.
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Uma maçã caramelizada para o primeiro troll petista que pegar essa poesia de Brecht e disparar por e-mail com um adendo de "veja só como as privatizações são ruins!".
Uma banana com mel e uma cerejinha esperta em cima para o primeiro troll tucano que disparar essa poesia por e-mail adicionando o seguinte comentário "vejam o que escrevia esse comunista alemão maltrapilho do Brecht, que não entendia nada de política"
Como todos sabemos, os torcedores nada entendem da realidade.
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Aliás, isso me lembrou de um "analista" (e coloque aspas aí) de política, que criou o método "fulano só é bom no que me interessa" de análise. Disse certa vez que Chico Buarque era ótimo letrista, mas fraco analista político, simplesmente porque Chico é entusiasta do PT desde sua fundação, em 1980, e foi dos primeiros a declarar voto público em Dilma Rousseff (PT).
Lembrei também de uma conversa, certa vez, com um colega. Ele criticava Ferreira Gullar por ter declarado apoio à José Serra (PSDB). "Poxa", disse-me ele, "o Ferreira Gullar nem artista sério é, bom é o Chico Buarque".
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Os artistas só são legais mesmo quando eles apoiam o seu candidato, né? Isso vale para o "analista" e para o colega.
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As privatizações? Essas continuam pessimamente discutidas. Fico com Brecht.

4 comentários:
Uma dúvida sobre as idéias de Brecht expostas:
Só tem as idéias "privatizadas" quem se deixa "privatizar". Ninguém te obriga a "privatizar" sabedoria ou conhecimento.
Como economista que sou, tudo que eu queria era encontrar um debate mais profundo sobre as questões da dívida bruta, das privatizações (ganhos de performance e eficiencia x não participação do estado na distribuição dos lucros), da distribuição de renda, do investimento frente ao déficit primário... tudo isso é colocado de lado pelos dois imbecís que debatem...
Paulo preto? Erenice? Bolinha de papel ou balão d'água? Foda-se pra tudo isso.
Não votarei em ninguém, pq ninguém merece meu voto.
Salve Bruno,
De pleno acordo, à exceções dos xingamentos, hehe.
De fato, campanhas não costumam ser espaços para grandes debates, mas, ainda assim, as últimas (1994, 98, 2002 e mesmo 2006) conseguiram levantar grandes debates sobre todo tipo de tema: câmbio, reforma tributária, tamanho do Estado, política social, privatizações, etc.
A de 2010 foi uma lástima.
Só falamos de escândalos, como o que vc citou, e, pior ainda, de aborto e temas religiosos. Hoje, inclusive, o papa Bento XVI -- que foi integrante da Juventude Hitlerista, bom que se diga -- conclamou aos bispos brasileiros que ataquem o aborto.
Onde já viu esse tipo de interferência?
Os candidatos foram fracos em deixar isso virar tema crucial de campanha. As igrejas -- todas elas em suas infinitas subdivisões -- são importantes, mas, me desculpem, antes de você pensar em Jesus é preciso comer. Por que, então, falamos de religião e não de transferência de renda? Por que bispos e não agentes sociais? Por que Jesus e não salários?
Deus me livre... (comentário irônico)
Enfim, precisamos ter 2010 na cabeça para nunca mais repetir.
Abraços
P.S. Ah, sobre Brecht. Não é tão simples assim. Ele não está tratando só de temas práticos, mas de uma discussão filosófica, cujas margens de interpretações são mais amplas.
Outra coisa: você pode sim ser obrigado a privatizar conhecimento, basta ver as patentes e os direitos autorais de artistas. Mesmo os "contra o sistema" ou "alternativos" quando têm um contratinho milionário nas mãos não pestanejam em assinar...
Caríssimo Villaverde, é exatamente aí que eu queria chegar.
Ninguém é "obrigado" a privatizar o conhecimento! O contratinho milionário está lá pra quem quer assinar!
Quem não quiser, não assina. Divide o conhecimento. Essa obrigação está na cabeça do "privatizado"!
Você, aqui no seu blog, poderia "privatizar" a informação, o conhecimento. Tem gente que faz, tem gente que não.
O que é a obrigação? Quem te obriga a fazer o que?
Você pode fazer o que quiser, inclusive ilegalidades, imoralidades e etc... A "obrigação" é decorrente do conhecimento da consequencia dos seus atos e aí, não é uma obrigação, mas sim, uma escolha.
Você escolhe ser privatizado, no momento em que assina o contrato.
Caro Villaverde!
É uma eleição de privatização ou não. É Petrobras ou Petrobrax. Onde há o óleo há discórdia, guerra e todo tipo de compitões e interesses destrutivos. Não será diferente no Brasil. É nesse momento que podemos observar até que ponto chega numa eleição, os tipos de acusações, mentiras e calúnias. No é momento de omissão
e outro poema de Brecht mostra melhor tudo isso.
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