"Cara, vou tocar numa festa, nesta sexta. Você quer ir?"
"Nossa, que ótima notícia, não sabia que você sabia tocar alguma coisa. Que horas vocês vão entrar?"
"Não, sou só eu. E começa as 23h"
"Ah, é estilo banquinho e violão, então. Ótimo, ainda melhor, é o que mais gosto mesmo"
"Não, cara, eu vou discotecar. E vou tocar música contemporânea, o que o pessoal anda ouvindo"
"Mas isso não é tocar. Você não vai tocar nada, você vai discotecar, então"
"Dá no mesmo"
***
Diálogo realizado hoje cedo por dois rapazes. Um, o DJ que convida, de 30-31 anos. O outro, que é convidado, de 23. Além da clara inversão de papeis, há latente, no mais novo deles, um sentimento de deslocamento.
O mais novo deve pensar, em seu íntimo, que nasceu uns 30 anos depois do tempo certo. Ele gostaria de responder que "é da época em que as pessoas que tocavam alguma coisa eram conhecidos como "músicos" e não como 'DJ's'". Mas ele não pode, porque é novo demais para ter vivido isso.
A verdade é que dos anos 1990 para cá se consolidou a ideia de que o "músico" é quem aperta botões num computador em meio a um salão escurecido com luzes que piscam intermitentemente, com um balcão que serve bebidas ao lado, e um monte de gente vestida igual espremida e se sacudindo a um som infernalmente alto, com músicas que trocam, mas que parecem as mesmas.
Bons eram os tempos em que os músicos tocavam instrumentos.

8 comentários:
Desculpa, adoro seu blog, mas este post é um tanto reacionário.
Só consigo pensar nisso:
"Vivemos em um país em que os jovens já nascem conservadores, e se tornam ainda mais conservadores conforme envelhecem". A frase se aplica à perfeição ao personagem mais novo do post.
Não precisa pedir desculpa não, Marcus, fique mais que a vontade para falar o que pensa, meu caro.
Fico feliz que gosta do Blog e você puxar o próprio perfil para caracterizar o personagem mais novo foi uma boa sacada.
Mas o rapaz não é reacionário não, acredite ;-)
É que é estranho alguém falar que toca, sendo que aperta botões no computador. Nada contra DJs, computadores, ou o que for, meu caro.
Abração!
Mas dá pra pensar a mesma coisa 50 anos atrás:
"Poxa, que saudades dos tempos em que quem tocava não precisava de um amplificador e dessas distorções... Esse rock é muito engraçado, as músicas trocam mas parecem que são as mesmas..."
Não que eu também não prefira os músicos com instrumento... mas é engraçado ver que as coisas mudam, mas não tanto
João, tô contigo. Não acho reacionário. Acho racional.
Nem tanto ao céu, nem tanto ao inferno...
Este "putz,putz" não me agrada e confesso que não ouviria em minha casa, mas acredito que as coisas mudam...e resumir tudo hein"apertar botões", foi radical sim, não entendo bulufas, mas sei que que existe até curso para "apertar os botões"...Estou com o Marcus Pessoa nesta.
Não se limite a um banquinho e um violão, e lembre-se de que quando se começou a mostrar os peitos nos shows (ato de protesto por muitos vanguardistas) alguém também disse:
"Bons eram os tempos em que os músicos tocavam instrumentos"
#_#
Exatamente, Marina!
Os tempos mudam, e é preciso mudar com eles para não perecer ou se tornar anacrônico. Mas todos temos o direito de gostarmos mais de uma mudança do que outra ;-)
E adorei a comparação com os amplificadores que chocavam as famílias nos anos 1950-60.
Beijos
Já vi que você também não gosta dos "músicos" contemporâneos, Alexandre.
Fico feliz pelo bom gosto hehe ;-)
Abração
Sempre ótimas referências, #_#!
Foi um tanto radical sim com os DJs, que eu respeito muitíssimo. Tenho grandes amigos e amigas que arrasam no assunto -- alias, uma das melhores da noite paulistana, a Letícia "Leka" Peres, é uma de minhas melhores amigas.
Mas mantenho o que disse, quer dizer, o DJ pode ser o que for, mas se não fosse alguém tocando instrumentos e escrevendo musicas, o DJ não teria o que "tocar"...
E estou longe de ficar só no banquinho e violão, #_#. O repertório do blogueiro vai das serestas ao metal, do samba canção ao rock. Claro que se ele, o blogueiro, pudesse, ficava só no chorinho ;-)
Saudações!
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