Todas as pesquisas de opinião realizadas com os paulistas dão o mesmo resultado. Quando perguntados sobre qual é o principal problema a ser resolvido, os paulistas não pensam primeiro em saúde, educação, trânsito ou o que for: a maioria aponta a segurança pública.
Estamos falando do Estado de São Paulo, o mais rico da nação, e o lugar onde as elites adoram apontar o dedo para os cariocas quando o assunto é segurança, e dizer que aqui não tem Comando Vermelho, tráfico de drogas dividindo parede, bala perdida. São Paulo é muito melhor, realmente, né? Tem só o PCC, o tráfico de drogas na periferia e o maior número de assalto a mão armada do Brasil.
Trata-se, é claro, de uma lástima da urbanização desenfreada por qual passou São Paulo desde o finzinho dos anos 40, processo esse muito bem estudado por uma série de sociólogos -- um deles, o Florestan Fernandes, fez um belo trabalho sobre a urbanização paulista, num trabalho de 1959, que integrou livro organizado pelo Cebrap, se não estou enganado. Resumindo, foi o seguinte: a industrialização induzida pelo Estado e acelerada pela chegada de multinacionais acaba por formar grandes pólos industriais, que sugam a mão de obra expulsa do campo para morar e trabalhar nas metrópoles. Isso acontece com todos os subdesenvolvidos e, no Brasil, fica mais concentrado em São Paulo.
O problema desta São Paulo de 2010 está lá em 1940, quando a cidade deixou de ser o ponto de encontro do baronato e dos modernistas que tinha sido entre 1900 e 1935 e passou a ser o centro da locomotiva industrial que passa a impulsionar o Brasil. A visão de São Paulo, hoje, impressiona: um Estado enorme, com 42 milhões de habitantes, com uma capital onde estão concentradas quase 20 milhões de pessoas -- metade do Estado está toda esprimida na capital --, gente que que se divide nas fábricas, no comércio, correndo como prestadores de serviços e madames cheias de sacolas e bolsas a caminhar pelas calçadas arborizadas da zona sul-oeste.
Os graves problemas de segurança pública de SP não são alarmantes apenas porque falamos da maior cidade do país, mas também porque proporcionalmente a coisa aqui está preta.
A maior parte dos paulistas considera a situação da segurança pública calamitosa. Não é à toa que todo canal de televisão aberta tem pelo menos um programa, nos fins de tarde, dedicado ao tema da segurança, com apresentadores patéticos que ficam berrando contra "bandidos", apoiando-se em helicópteros e reportagens sensacionalistas que beiram a atrocidade do boçal preconizada pelos pessimistas de Frankfurt que estudaram mídia.
O tema está presente por todo o Estado, toda família tem ao menos um sujeito com uma história para contar de assalto ou de medo. Agora precisamos entender a situação.
Claro que a discussão sobre violência urbana é muito mais complexa do que o blogueiro é capaz de fazer neste post, mas passa por três macro-temas: 1) igualdade de oportunidades; 2) polícia ativa e inclusiva, não só violenta; e 3) justiça rápida.
A ordem é exatamente essa e não é muito mais complexa que isso, na realidade. Se resolvermos a enorme desigualdade salarial e de escolas públicas, por exemplo, ao menos 80% dos crimes, leves ou pesados, serão extintos. Acreditem.
Em seguida, precisamos de um sistema opressor, representado pelo aparato policial, que combine a utilização de força -- para os casos em que não é possível resolver a violência por meio de inclusão e educação -- com a pacificação. A combinação tem de ser desigual, dando maios incentivo ao policial diferenciado, que entende a disparidade de renda e as dificuldades daquele que pratica atos ilegais.
Mas por policial diferenciado, entenda um sujeito que tenha tido uma vida decente até ingressar na profissão e que tenha, quando em exercício, companheiros igualmente preparados, um plano de carreira e um salário que seja compatível com seu esforço.
Os paulistas reclamam da segurança pública, mas não sabem que o efetivo policial do Estado é o menor e o que menos ganha, proporcionalmente falando, do Brasil.
O equivalente a 31% das cidades do Estado de São Paulo não têm delegados. De 1995 para cá, enquanto a população paulista cresceu 21%, o efetivo policial manteve o mesmo tamanho. São apenas 31 mil delegados para 42 milhões de habitantes de São Paulo. Aliás, segundo a Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), os salários dos delegados -- e também de seus subordinados -- são os mais baixos do país.
E não só isso: todo o (minguante) efetivo policial paulista recebe um vale-refeição de R$ 6,00. Isso mesmo, seis reais por dia. Agora me digam: como é que alguém, seja lá quem for, consegue almoçar com seis reais por dia? Vá em qualquer região mais distante dos polos mais caros da capital e entre num restaurante de prato feito. Se apenas comer -- e não pedir uma água, um suco ou um refrigerante -- você vai pagar, ao menos, uns seis ou sete reais por um prato de bife, arroz e feijão.
Fácil enfrentar PCC e outros crimes mais desse jeito, né?
Algo que precisa ser solucionado, antes de mais nada, são os problemas na ordem que são percebidos. Os paulistas apontam segurança pública como o pior deles. Então, qualquer governante sério de São Paulo deve, primeiro, olhar para a questão da segurança para depois sair dizendo à dona Maria que o preço do pãozinho vai parar de subir.
É simples até.

5 comentários:
Caro João, segurança pública é um tema muito importante e você fez uma ótima abordagem. Mas ultimamente, em função de minhas leituras, eu tenho dado maior peso à questão urbanística. Mais importante até do que a efetividade policial. É incrível ler um livro como "Morte e vida nas grandes cidades" e perceber que essas questões já eram discutidas há 40 anos!
João,
Excelente e, sobretudo, pertinente post. Creio que a conjuntura de São Paulo e merece estudos aprofundados - eu mesmo, dentro das minhas parcas capacidades, vivo de fazer exercícios mentais e blogais dolorosos para tentar entender o que se passa por essas terras.
Sim, você tem razão, não há como entender a criminalidade no estado sem pensar na forma como ele foi industrializado-urbanizado no pós-guerra, bem como não há como não relacionar isso com a crise do próprio sistema policial - resolvido na base do golpe de espada no nó górdio por parte do ex-governador (e futuro ex-candidato à Presidência) José Serra.
No entanto, existe mais coisa aí. O ponto é não apenas como o estado foi industrializado, mas como isso tem a ver com a forma que áreas importantes do seu território - como a região metropolitana da capital - se desindustrializou, sem que houvesse políticas públicas para realizar a passagem desse cotingente humano do setor secundário para o terciário de forma minimamente includente. A maneira disfuncional como a formação da classe trabalhadora urbana da capital - e dos municípios interioranos industriais antigos - foi formada, além do modo perversamente cruel em que ele foi desmobilizado com a desindustrialização, são fenômenos em curso que provocam esse grave estado de guerra civil.
A bola que o Patrick levanta também é crucial: Urbanismo. A maneira como São Paulo não só foi, mas é urbanizada é caótica e piora a situação, no post que fiz sobre o aniversário de São Paulo este ano, abordava este problema: Mesmo os efeitos benéficos do crescimento com distribuição de renda e geração de empregos do Governo Lula podem ir por água abaixo no estado, caso os governos do estado e dos municípios - ali falava sobre a capital, mas é claro que a crítica se estende - não adotem uma política de moradia séria.
A crise educacional, por exemplo, nem se fala. Eu costumo ser muito cético quanto à ideia de que a melhora do aparato policial possa ser um meio de resolver substancialmente essa situação. Meu orientador costuma dizer que uma boa polícia mascara sintomas e, no máximo, consegue isolar áreas violentas por um determinado espaço de tempo - pode até ser pior no fim das contas. Sim, eu sei que você colocou a questão da polícia como item subsidiário, mas eu daria menos importância a isso ainda - o que eu não dou menos importância é em relação a tomar medidas em prol da dignidade do trabalhador policial e de como a falta disso além de ser bárbaro ainda é inútil porque alimenta a corrupção.
O que há é uma política aparentemente esquizofrênica do governo do estado que cria, por uma enorme coincidência, um amplo mercado para serviços privados de segurança, muito embora, nesse sentido, a elite e a classe média alta paulista não seja privatista: Há um interesse real em que a polícia funcione melhor, mas é preciso, antes de mais nada, refletir: Para fazer o que? Podemos conceber sim um projeto de polícia republicano - coisa que não temos nem nunca tivemos e que não salvaria nossas peles, embora atenuasse os efeitos da crise como dipirona em um caso de pneumonia -, mas não é isso que o pessoal que vibra com o Datena pensa ou espera.
abraço
Excelente texto, amor, parabéns!
Na mosca!
Tanto o Patrick quanto o Hugo levantaram questões importantíssimas para entendermos essa São Paulo de 2010. A formação urbana é o pano de fundo mesmo (aliás, Patrick, muito bom lembrar do "Morte e vida nas grandes cidades"), principalmente os processos que ocorreram entre 1935 e 1950, que é quando as bases para o grande salto são lançadas.
A partir de 1951-52 e, principalmente, ao longo dos anos 60, São Paulo larga como grande capital do país que se industrializa. Quando os militares tomam o poder e reorganizam o jogo em torno do capital industrial, São Paulo já tem diante de si todas as peças para liderar o que teóricos de peso chamam de "revolução capitalista".
Há uma crescente massa de trabalhadores que formam uma vantajosa -- porque barata e disposta -- mão de obra. Há capitais adoidados, tanto do Estado quanto de bancos privados nacionais e internacionais. Há multinacionais montando seus parques industriais na capital e no interior, que escoam sua produção à capital. Há serviços e comércio, e um sistema habitacional em crescimento.
Mas aí, quando a ditadura entra em falência e, com ela, o Estado entra em concordata, entre 1982 e 1992, respectivamente, o modelo dá em água.
É nessa transição, impulsionada pela abertura promovida por Collor em 1990 (abertura que tinha de ocorrer, mas foi feita sem critérios), que São Paulo se perde. Aí entra o ponto que o Hugo chamou a atenção, quer dizer, quando a indústria começa a deixar a capital, que passa a ser mais focada no setor terciário.
Não é coincidência que grandes entidades, como a Fiesp, tão importante -- para o bem e para o mal -- na história de SP e do Brasil como um todo, vão perdendo, ano a ano, sua importância.
A saída, para São Paulo, passa por uma verdadeira revolução urbanística, antes de mais nada.
Mas isso é papo para um outro post. E acreditem: o blogueiro aqui, como sempre, está cheio de ideias.
Abraços
Obrigado, linda Carolina, que bom que gostou :-)
Beijinhos
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