segunda-feira, 23 de agosto de 2010

A questão iraniana

O Irã tem um problema. Nenhum país sério apedreja mulheres. Nenhum. Assim como nenhum país sério prende e mata opositores. Falo não de um Irã, mas de dois. O primeiro, que apedreja mulheres, é o Irã pós-Revolução Islâmica de 1979. O segundo, que prende e mata opositores, é o Irã do xá, entre 1953 e 1979.

Qual é melhor?

Não vou defender um ou outro, mas, certamente, o primeiro, pós-1979, tem muito mais legitimidade que o segundo. Por quê? Porque o regime do xá Reza Palehvi foi instaurado em 1953 por meio de invasão norte-americana, que derrubou o primeiro-ministro eleito pelos iranianos, Mohammed Mossadegh, para colocar um boneco, um regime financiado e mantido pelos Estados Unidos, que matava opositores.

Eis, então, que a rapaziada mais preocupada em rezar do que ficar discutindo política começa a perceber que o país está desandando. Começam, então, a promover debates religiosos e políticos em mesquistas, o lugar perfeito para tanto, uma vez que a milícia do xá não entrava lá. As primeiras agitações surgem em 1977. A partir daí, iranianos de todo o tipo começam a entrar de cabeça no islamismo, antes renegado pelo xá e pelos Estados Unidos, e os grupos oposicionistas começam a engrossar.

Tudo isso desemboca na Revolução Iraniana de 1979, a maior das revoluções islâmicas do século XX. Depõe o xá e instauram um novo regime, tendo um líder religioso supremo -- o aiatollah Khomeini, que liderara os revolucionários -- e um democracia participativa, com presidente eleito pelo povo.

O regime, no entanto, vai se fechando. Na realidade, vai alternando momentos de mão pesada, altamente fundamentalista, com outros mais calmos.

Hoje, com o segundo aiatollah, Khamenei, e um presidente francamente mais radical que os dois últimos, que é Mahmoud Ahmadinejad, o Irã experimenta seu momento de maior aperto político -- não à toa, as primeiras manifestações anti-governo surgiram no ano passado (tal qual em 1977, podem ser um prenúncio de algo).

Qualquer analista sério deve prezar pelo fortalecimento dos oposicionistas, se deseja alterar o jogo político da antiga Pérsia.

Mas já começam a ganhar corpo vozes, nos Estados Unidos e em Israel, que defendem um ataque militar ao Irã como forma de derrubar o regime e acabar com o programa de enriquecimento de urânio. São países que contam com o mais poderoso arsenal bélico do mundo criticando o Irã por querer ter algo parecido.

Se um ataque ocorrer, podem escrever, será a guerra mais ignorante dos homens em 70 anos.

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Por Luis Henrique:

Os falcões de Washington só estão esperando o momento certo para atacar.

Meu comentário:
Se dependesse dos falcões, Luis, os Estados Unidos já teriam invadido o Irã lá trás, quando Ahmadinejad levou as eleições de 2005. Os democratas, de modo geral, fazem um contrapeso a muito republicano tresloucado. Mas o equilíbrio de forças é interessante nos EUA. A maior parte é pró-ataque, mas uma parte dessa maioria sabe que seria uma ideia pouco inteligente aos olhos do mundo, então espera -- e articula -- por um bode expiatório.

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Por Raphael Tsavkko:

O regime do xá era ilegítimo, a Revolução foi legítima, mas desvirtuada logo no início com o assassinato de todos os comunistas e socialistas que apoiaram o movimento. Fala-se muito em apedrejamento, mas o Irã não é o único país a usá-lo. O maior aliado dos EUA na região, depois de Israel, a Arábia Saudita, também pratica este crime em termos de "justiça". Mas ninguém fala nada, afinal, são "amigos".

Meu comentário:
Exatamente. O regime da Arábia Saudita é, de longe, o mais bárbaro do Oriente Médio. Mas é o menos falado, o menos discutido, que ninguém parece conhecer -- simplesmente porque a Arábia Saudita é "aliada" dos Estados Unidos. Aliás, os sauditas são grandes investidores de empresas americanas. O Irã, que depôs o boneco americano (o xá) em 1979, é inimigo de Estado.

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Por Manuca:

João, acho que, neste post, você deixou passar um detalhe importante e que, para mim, está por trás de toda essa cruzada contra o Irã, contra os muçulmanos e ciganos (na França): a total intolerância dos ocidentais com qualquer cultura que possua valores diferentes à nossa. E não estou fazendo apedrejamento e nem nada do tipo, mas discutindo o porquê de não haver oposição à pena de morte nos EUA, por exemplo, com vítimas inocentes inclusive. Trata-se de um "país sério", aos olhos do Ocidente.

Por Caio Cezar:

Bem lembrado o que o Tsavkko disse: o Tio Sam é capaz de forjar qualquer pretexto para iniciar um ataque, como fez com o Iraque em 2003.

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O jogo é exatamente esse. Havia um claro problema no Iraque de Saddam Hussein, um dos países com regimes mais bárbaros do mundo. Os Estados Unidos, então, partindo de uma premissa forjada -- como, anos depois, o próprio governo americano admitiu -- mas com ampla aceitação popular, já que o regime de Saddam era mesmo grotesco, e atacou o Iraque.

O mesmo pode ser feito com o Irã, embora, já aviso, não acredito que se repetirá. Mas as condições estão colocadas: um país com regime medieval -- apedrejar mulheres é indefensável -- pode ser atacado, tendo como subterfúgio o desenvolvimento de programa nuclear.

E tudo ficará como já tinha dito um milhão de vezes aqui no Blog: um carnaval de hipócritas. Um país que permite pena de morte, como bem lembrou o Manuca, e incentiva o uso de armas, o país com maior consumo de drogas pesadas do mundo, que financia os regimes narcotraficante de países que eles tanto criticam, como México e Colômbia (suas cobaias na América Latina), criticando o Irã -- que, como lembrou o Tsavkko, não é, nem de longe, dono do regime mais bárbaro da região, mas a Arábia Saudita, que, no entanto, é "aliada" econômica dos EUA -- por desenvolverem urânio enriquecido, algo que, como todos sabem, os americanos já fazem há décadas.

Viva a hipocrisia mundial.

11 comentários:

Luis Henrique disse...

Com o fracasso da 'revolução colorida' (dessa vez, o verde) no ano passado, o caminho para a guerra no Irã está aberto. Na minha opinião, os falcões de Washington só estão esperando o momento certo para atacar.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Não acredito que a questão esteja na legitimidade e nem que isto interesse aos EUA/Israel.

O regime do Xá era ilegítimo, a Revolução foi legítima, mas desvirtuada logo no início com o assassinato de todos os Socialistas e Comunistas que apoiaram o movimento. Ahmadinejad é ilegítimo, é um golpista, como o Xá, mas apoiado por forças internas e não os EUA.

Mas a questão não é essa.

Fala-se muito no apedrejamento, mas o Irão não é o único país a usá-lo. O maio aliado dos EUA na região depois de Israel, a Arábia saudita, também pratica este crime em termos de "justiça". Mas ninguém fala nada, afinal, são "amigos".

Os EUA torturam e matam civis, mas são intocáveis. Os Emirados estão processando uma garota brasileira de 14 anos na sharia, mas não é notícia.

Só o Irã, ele é inimigo.

Toda guerra em que se metem os EUA desde o fim da 2ª Guerra é ignorante e o saldo sempre é negativo no final.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Esqueci de comentar algo em relação ao comment do Luis Henrique:

Os States ainda não atacaram porque não tem o capital político necessário e já desafiaram a ONU a um ponto quase de ruptura com o Iraque.

NA minha opinião esperam que o Irã faça algo que precipite a guerra e, também, é possível que esperem uma ação de Israel. Israel atacando podem intervir como se para salvar o aliado ou simplesmente apoiar e, qualquer problema, a culpa não sobra pra eles.

Manuca disse...

João, acho que, neste post, você deixou passar um detalhe importante e que, para mim, está por trás, de toda esta cruzada contra o Irã, contra os muçulmanos e ciganos (na França): a total intolerância dos ocidentais com qualquer cultura que possua valores diferentes à nossa. E não estou fazendo defesa de apedrejamento e nem nada do tipo, mas discutindo o porquê de não haver oposição à pena de morte nos EUA, por exemplo, com vítimas inocentes inclusive. Trata-se de um "país sério", ao olhos do Ocidente.

João Villaverde disse...

Concordo em gênero, número e grau, Manuca.

Vou reproduzir teu comentário no post, porque foi na mosca.
Abração

Manuca disse...

Valeu, João.

Abração!

Caio Cezar disse...

Bem lembrado o que o Tsavkko disse: O Tio Sam é capaz de forjar qualquer pretexto para iniciar um ataque, como fez em 2003 no Iraque.

E realmente, dos sauditas pouco temos notícias uma vez que estão vinculados aos americanos, tanto na esfera política como também econômica. Ou seja, eles jamais começariam a denunciar as atrocidades que também são realizadas na Arábia Saudita correndo o risco de perder um dos seus principais investidores.

Conclusão, os EUA, um país que começou pequeno mas com um ego infladissímo, esqueceu de observar que existia, antes dele, culturas diferentes daquela que criaram e herdaram e permaneceram assim. Nesse sentido, pensam, infelizmente, que se uma nação não coaduna com as suas opiniões ou não lhe presta algum favor merece ser isolada e, se possível, transformada em um de seus fantoches.

Luiz Henrique Mendes disse...

E em meio a tanta hipocrisia, João, a gente ainda precisa ouvir comentários estapafúrdios do tal Índio da Costa.

Luis Henrique disse...

"um país com regime medieval -- apedrejar mulheres é indefensável -- pode ser atacado"

O pior é que 'pode' mesmo, do ponto de vista ocidental. É a 'guerra justa' do nossos tempos, a diferença é que não é mais o Papa a pregar pela cruzada, mas sim o G7.

João Villaverde disse...

Ótima sacada, Luiz: o que antes era o Papa agora é G7 hehe.

Aliás, essa história de "guerra justa" é um sofisma inacreditável, não é não?
Abração

Edk disse...

Excelente post analisando a situação da tão intrigante Pérsia. É com muita insatisfação que vemos o jogo político mundial, depois das atrocidades do século XX, ainda se pautar pela "política do ferro e fogo". Infelizmente a conjuntura atual é muito pior, pois não existe equilíbrio de forças na geopolítica mundial e o cinismo e a hipocrisia imperam.
Belo Post!

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