Vejo, vejo, o que você vê?
Saúl, que aparece correndo sob a chuva. Saúl correndo sob a chuva? Ele me abraça como se tudo isso lhe doesse. Mas o que Saúl faz aqui, se ele mora em Barcelona? Isso é um pesadelo.
-Nadia, estou me molhando, me dá um pedaço do guarda-chuva?
-O que você está fazendo aqui? -- digo, cobrindo-o.
-Era verdade, seu pai estava vivo, nunca acreditei em você. Seu pai é um grande cineasta. Já vi sua obra.
-Mas desde quando você está em Cuba? O que é isso?
-Vim fotografar a Plaza de la Revolución, pós-desfiles. Uma fundação me pagou para que eu leve restos de bandeiras e de cartazes. Ah! Muito bom o documentário de seu pai sobre os símbolos políticos cubanos. Que visão esse homem tinha do circo dos anos setenta!
-Puta que o pariu, Saúl. Faça-me o favor de sair do guarda-chuva, que o oportunismo é contagioso. Saia do guarda-chuva ou vou enterrá-lo vivo na tumba dos condes de Pozos Dulces. Fora, fora, e mais respeito, que isso é um circo, sim, mas é o meu circo... Agora você vem beber dessa água que antes achava turva. Se molhe, porra. Se molhe porque isto é Cuba e aqui chove de verdade, não é aquela garoa que deixa você doente. Aqui um raio vai matá-lo por você ser tão medíocre. Se molhe com o que eu cresci, tome banho no aguaceiro pra ver se consegue se transformar num homem. Tomara que se afogue tirando fotos das bandeirinhas. Que covarde! Saia da minha frente, Saúl, você não me conhece...
Wendy Guerra, escritora cubana. Trecho de seu "Nunca fui primeira-dama".

2 comentários:
Muito legal esse trecho! Não conhecia essa escritora, vou procurar algo dela pra ler.
Grande abraço!
André Gravatá
Bom, né não, Gravatá?
Vai atrás do livro, que gostei muito.
Abração
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