segunda-feira, 2 de agosto de 2010

BC deve salvar quem apostou e errou

O Banco Central deve oferecer nesta semana contratos de swap cambial reverso. Tem um objetivo: salvar as instituições financeiras, que apostaram quase US$ 20 bilhões -- sim, vinte bilhões de dólares -- no cupom cambial, torcendo para que o real se valorize mais para ganharem mais dinheiro.

Vou explicar essa história toda. O jogo vai entrar no economês, como há muito não entrava aqui no Blog, então tirem as crianças da sala que o blogueiro já arregaçou as mangas.

Os bancos e instituições financeiras, nacionais e estrangeiras, estão montadas em gigantescas posições vendidas, tanto no mercado a vista quanto no de futuros. Estão com pouco mais de US$ 13 bilhões à vista e outros US$ 8,53 bilhões em contratos futuros, levando em conta contratos de dólar e o cupom cambial. É a posição mais elevada desde junho de 2008 -- quando, vale lembrar, o dólar escorregou de R$ 1,70 até bater no chão, atingindo R$ 1,56 em setembro daquele ano, pouco antes da explosão da crise mundial.

Dessa vez, o dólar oscila entre R$ 1,80 e R$ 1,75. Essa montanha de bancos vendidos ambiciona levar o dólar mais para baixo, coisa de R$ 1,70 ou R$ 1,65. Assim, eles ganham suas apostas e, mais que isso, ampliam seus lucros em dólares.

O problema é que não há dólares no mercado brasileiro suficientes para remunerar todos esses contratos. Pior ainda: o Banco Central passou o primeiro semestre com compras alucinadas de dólares, justamente para evitar que a cotação do real se valorize ainda mais. A situação é tão caótica que mesmo os exportadores, os principais entregadores de dólares, oriundos de suas vendas, não estão trazendo divisas, aproveitando a prerrogativa legal de manter até 100% de seu câmbio no exterior. Estamos falando de algo como US$ 20 bilhões ou US$ 30 bilhões que estão fora do país, aguardando uma moeda mais desvalorizada para entrar.

Moeda desvalorizada essa que, se ocorrer, como querem os exportadores e economistas desenvolvimentistas, vai deixar os bancos vendidos em dólar com um abacaxi bilionário nas mãos. Não é pouca coisa.

Uma parte dos analistas entende que o Banco Central forçou essa posição vendida dos bancos. Ao comprar montanhas de dólares, o BC meio que "empurrou" as instituições financeiras a apostarem na valorização do real, indo para a ponta vendida do mercado. Até meados de julho, o fluxo cambial acumulado no ano foi positivo em US$ 1,33 bilhão. Mas as compras do BC no mercado à vista foram de US$ 14,7 bilhões.

Assim, ficou no mercado uma conta negativa de US$ 13,37 bilhões.

Quanto os bancos compraram no mercado à vista mesmo? Ah sim, algo como US$ 13 bilhões.

Voilá.

As apostas foram feitas com captações externas, algo comum no mercado financeiro. Os bancos tomam dólares no mercado externo, onde os juros (e portanto o custo) são bem menores e trazem ao Brasil, onde o Banco Central tem comprado tudo e mais um pouco. Em troca, o BC entrega reais. Com os reais em mãos, os bancos usam esse dinheiro para crédito -- o que é bom, aqui -- ou ainda para ganharem juros. Isso porque o BC, ao entregar reais pra comprar os dólares, em seguida oferece títulos públicos, que pagam Selic, a maior taxa de juros do mundo. A ideia do BC é diminuir o estoque de reais na economia, para não gerar inflação. Os bancos, portanto, ficam com duas operações super vantajosas nas mãos: ou oferecem reais no mercado doméstico a uma taxa de juros absurda tanto para PF quanto para PJ, ou pegam os títulos públicos e ficam ganhando a Selic.

Para que essa operação seja bem sucedida, no entanto, os bancos têm de valorizar o real para rentabilizar sua posição vendida, ou seja, no final das contas, ao comprar mais dólares que o fluxo efetivo, o BC dá uma força aos bancos e indiretamente fomenta a valorização do real. Isso deu certo desde o início do ano, quando o real escorregou de R$ 1,90 para R$ 1,75, mas não deve ir muito além disso.

Os bancos e o mercado como um todo sacou isso. E agora está em pânico com um mico de US$ 13 bilhões no mercado a vista e US$ 8,34 bilhões no futuro. Se não entrarem dólares, o abacaxi aparece.

Eis que surge, então, o contrato de swap cambial reverso, que o BC deve oferecer ao mercado.

Essa modalidade de contrato é, na prática, um oferecimento de dólares em algum momento futuro ao comprador. Até lá, o BC se compromete a pagar juros Selic.

É um contrato de ganha-ganha para quem compra. Primeiro porque tem a garantia que o BC vai entregar os dólares que o comprador tanto precisa, para cobrir o rombo de suas apostas vendidas. Segundo porque, até receber os dólares, o comprador do swap reverso vai embolsando a Selic.

Uma parcela dos economistas advoga que o BC deve deixar os bancos se virarem sozinhos. Quer dizer, se entraram nessa, devem se virar para sair também. Mas não é bem assim. O próprio ministro da Fazenda, Guido Mantega, que costuma discordar do Banco Central até em par ou ímpar já disse que apoia o BC na venda de contratos de swap cambial reverso.

A cabeça aqui é a seguinte: se não ocorrer, o choque no sistema financeiro será grande demais para ser resolvido sozinho. Melhor vender os contratos e aumentar o endividamento público numa operação complexa, que pouca gente presta a atenção e/ou entende, que gerar uma crise financeira desnecessária.

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