Durante o 13º Congresso Internacional de Renda Básica (Bien 2010), realizado na semana passada em São Paulo, um dos grandes intelectuais brasileiros, Luiz Felipe de Alencastro, fez uma palestra irretocável sobre escravidão no Brasil. A discussão que se coloca, diferente do que se pode imaginar o incauto, é atualíssima.
Nos três séculos entre 1550 e 1850, ou seja, enquanto houve a exploração da mão de obra escrava africana, cerca de 11 milhões de negros vindos da África chegaram vivos às Américas -- uma parte relevante, contada nas casas dos milhares, morreu nos porões dos navios negreiros.
Dos 11 milhões que chegaram vivos, 4,84 milhões foram para o Brasil -- o equivalente a 44% dos escravos.
A partir de 1850, com a abolição paulatina, o acúmulo de negros foi aumentando, uma vez que não morriam mais torturados ou assassinados e conseguiam, de maneira subhumana, constituir famílias. Assim, no fim do século XIX, em meio a mudança de monarquia a República, o Rio de Janeiro -- pensando centro do Rio e Niterói --, então capital do Brasil, contava com 220 mil habitantes. Desses, 105 mil eram negros escravos ou recém-libertos.
Isso quer dizer que o Rio do fim do século XIX foi a capital mais densamente habitada por escravos desde o Império Romano.
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De lá para cá passaram 100 anos, apenas. Esse pessoal, liberado da escravidão, não tinha Estado para ajudar com ensino ou emprego público. Pior: o Estado só entrou na vida dessa enorme classe de miseráveis fardando-lhes como soldados e despachando-os à Canudos, em 1897, para matar os seus.
Os negros, então, voltaram ao Rio com os nordestinos sobreviventes. Em uma cidade que logo ganhava cara de cidade europeia -- principalmente durante o governo Campos Salles, a partir de 1902 -- não havia espaço para ex-escravos e famintos do Sertão. Eles se alojaram no Morro da Providência, dando o nome de favela aquele conjunto de moradias, usando o nome da planta favela muito presente no imaginário dos combatentes de Canudos.
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Esse país, agora, 2010, já fez tudo o que tinha que fazer para incluir os brasileiros?
Ainda há muito o que fazer.
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O post recebeu ótimos comentários. Vou trazê-los para o post.
Por Pedrão
A bárbarie da escravidão é chave indispensável para entender o Brasil de hoje.
O Luiz Henrique Mendes, então, lembrou do debate sobre cotas, que até hoje divide o Brasil. Há gente a favor, gente contra e até alguns que acham que não há racismo no Brasil. Não vou discutir esses últimos, porque eles moram em bolhas -- no que o Idelber convenientemente chamava de República Morumbi-Leblon.
O Luiz vai mosca: o Alencastro deu show no debate, no começo do ano.
O Hugo Albuquerque trouxe a lembrança da Guerra do Paraguai, realizada vinte anos antes de Canudos e uma década antes da abolição de 1888. Foi lá, como bem lembrou o Hugo, que os negros pela primeira vez foram inseridos como cidadãos brasileiros -- ainda que da pior maneira, porque jogados como soldados pouco preparados numa carnificina.
Concordo com ele: há um enorme abismo ainda e as cotas são a ponta. Precisamos ir além e criar cotas sociais, escalonadas por renda, desvirtuando a ideia de cota racial. Mas é melhor ter cotas que não ter -- isso não resta dúvida e não aceito discutir isso.
Finalmente, o pai deste blogueiro, estreando como comentarista, lembrou de trecho famoso do belíssimo Navio Negreiro, de Castro Alves. De lambuja, deu dica para uma seção Domingo.
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Com a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão!
Por João Almeida
Uma obra que deve sempre ser lembrada.
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Castro Alves foi mestre.

5 comentários:
A barbárie da escravidão é chave indispensável para entender o Brasil de hoje.
Abraços,
Pedrão
E é exatamente neste ponto que entram temas como as cotas raciais. Desse modo, discutir cota e negligenciar a história é no mínimo ingenuidade. Aliás, o professor Alencastro deu uma bela aula na recente audiência pública sobre as cotas, realizada no Supremo Tribunal Federal.
João,
Isso sem falar no nosso contingente na Guerra do Paraguai: A ampla maioria de negros, deslocados como bucha de canhão pelos oficiais brancos. A falta de organização e armamento do Brasil era compensada pelo grande contingente de soldados desumanizados, o que dava uma vantagem muito grande sobre os combatentes paraguaios que, via de regra, eram cidadãos de seu país - portanto, eram tratados e combatiam como "humanos".
Muito embora a situação dos negros tenha melhorado em alguns aspectos, resta um abismo violentíssimo no qual as cotas, ainda que estritamente necessárias, são apenas o primeiro passo para a resolução do problema. A questão transcende a classe, os negros, mesmo exercendo função idêntica a de um branco, recebe menos. Mas a divisão do trabalho também tem a ver com isso: Temos uma sociedade onde as funções junto à cadeia produtiva é rigidamente escalonada e aos negros, via de regra, acaba sobrando a pior parte - que é indigna para qualquer um, ainda mais quando isso acaba relegada a um determinado grupo.
um abraço
Ao ler este post, lembro-em da sua infancia quando eu lia, às vezes para Vc dormir, um poema que meu Pai lia para mim.
Navio Negreiros de Castro Alves.
"Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura... se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
Ó mar, por que não apagas
Co'a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrão?...
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufão! "
Uma obra que sempre deve ser lembrada.
Abraços
Ótimos comentários, Pedrão, Luiz Henrique, Hugo e pai, Seu Almeida, que ampliaram a discussão. Vou levar para o post.
Abraços
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