Se confirmada a ideia do PSDB lançar uma chapa puro-sangue à Presidência da República sem Aécio Neves ao lado de José Serra, parece ser a pior decisão desde o erro de espinafrar o PFL em 2001, no Congresso.Serra, que foi candidato em 2002 sem o PFL (atual DEM), sabe o que significa sair com candidatura fragilizada. Repetir o erro não é coerente.
Ontem foi lançado, pela primeira vez, o nome de Álvaro Dias, senador do PSDB pelo Paraná, para ser o vice de Serra. Os principais aliados do PSDB -- o DEM, o PTB e uma ala do PMDB -- só aceitavam uma chapa puro-sangue do PSDB se ela fosse composta com Serra e Aécio, ex-governador de Minas Gerais. Desde que deixou a disputa interna, Aécio nunca mais ventilou essa ideia. Fez bem -- ele tem uma eleição garantidíssima como senador por Minas.
O grande nome do DEM era José Roberto Arruda. Ele, no entanto, foi cassado por corrupção ativa. Depois, chegaram a falar em Kátia Abreu e, nos últimos dias, em José Carlos Aleluia, da Bahia. Pensando estrategicamente, Aleluia seria o melhor nome para compor: baiano, atuaria em um estado governado pelo PT e funcionaria como eixo anti-Lula no Nordeste, ao lado de Jarbas Vasconcelos, que pertence à ala serrista do PMDB.
Se confirmado, Álvaro Dias pouco agrega. O Paraná já era um estado com maioria de PSDB. O prefeito de Curitiba é do partido e é bem avaliado por lá -- Beto Richa -- e já ajudaria a candidatura tucana.
Essa estratégia mais afasta que atrai. O DEM ficou descontente e não engoliu. O PP, partido de, entre outros, Paulo Maluf, que estava neutro, pode decidir aliar Dilma Rousseff, do PT -- o que deixaria o programa televisivo petista ainda mais gordo. E a ala PMDB pró-Serra, basicamente Jarbas, em Pernambuco, e Orestes Quércia, em São Paulo, podem atuar com menos motivação, uma vez que as chances diminuem.
A jogada do PSDB, pouco coerente, está fazendo os nomes por trás da candidatura pensarem. Jarbas (PMDB) e José Agripino Maia (DEM), que aparecem na imagem deste post, certamente estão. Não custa lembrar: foi Jarbas quem lançou a campanha presidencial desse ano, em fevereiro do ano passado, em entrevista à Veja.

5 comentários:
Concordo, João. Serra tentou desestabilizar a articulação que o PT fez no Paraná e deu um tiro no pé. Sua candidatura terminou o dia mais enfraquecida do que entrou - mesmo levando em consideração o baque sofrido após a divulgação da última pesquisa do Ibope mostrando Dilma seis pontos a frente. Por coincidência, também acabo de escrever sobre o tema.
Vi uma vez Aleluia na tribuna, a impressão foi péssima. Argumentava muito mal, nem me lembro o assunto. Quem sabe seria tão metralhado pela mídia quanto os outros vinte e tantos candidatos a vice do Serra.
Todo o quadro interno, privada ou publicamente, hoje culpa Serra pelo fracasso que tem sido sua campanha até então. Fora outras obscenidades na estrutura interna da campanha que se tornaram públicas: Roberto Jefferson do PTB chegou ao ponto de escrever no Twitter que o DEM é uma merda, e o Caiado do DEM falou absurdos do PSDB e de Serra.
Se não fossem políticos, eu diria que a aliança já se rompeu definitivamente (de novo). Mas considerando o mato sem cachorro em que também está o DEM, não duvido que seja só uma briguinha. O DEM não seria aceito nem com outra sigla na coligação vermelha, mas fico em dúvida se também não seria na verde (certo que ia "queimar" a floresta moral deles um pouco, mas a coligação já existe no Rio).
O que você acha dessa possibilidade, Villaverde?
E Marina, se ganhasse esse tempinho a mais, ia fazer a centro-esquerda, ou Gabeirizou 100% também, na sua opinião?
Ela ainda apresenta muito argumento de esquerda, embora no campo moral (casamento gay, aborto, religião, etc) seja mais à direita. Minhas percepções estão em conflito hehe, com essa ambiguidade da candidata, entre o que ela acredita e seus acenos políticos para a classe média globalizada.
PS: Desculpa ae o comment longo, me empolguei rs.. To acompanhando o blog, mais um que foi pra lista!
Pois é Hugo, me parece que o PSDB articulou como uma tacada para amarrar o Paraná -- o que, de fato, vai conseguir -- mas errou feio: no Paraná, como no sul, de maneira geral, Serra já deve ganhar de qualquer jeito.
Por isso, a ideia do José Carlos Aleluia parecia mais coerente. Não só ele é do DEM -- o que mantém a relação entre PSDB e DEM intacta -- como o cara é da Bahia, ponto importante para a campanha tucana.
Esse ponto, Victor, do Aleluia ser ruim de doer, não traria problema à candidatura. Michel Temer (PMDB), do lado de Dilma, convenhamos, não agrega muito mais. Temer é ruim de voto e pertence a São Paulo, estado que o PT já é forte -- ainda que dominado pelo PSDB desde 1986. As bases petistas estão em SP. Mas Temer agrega o PMDB.
Aleluia agrega o DEM e dá palanque para Serra na Bahia, onde Dilma, Lula e o PT são fortes.
Acho que, se confirmada, a escolha de Álvaro Dias vai ser um tiro no DEM. Rodrigo Maia, presidente do DEM, não vai aceitar, como outros setores do ex-PFL. Mas não vejo eles entrando no barco do PV.
O modo DEM de fazer política é pragmático sim, mas não o suficiente para pular de canoa em canoa. Claro, se o PV -- principalmente a banda ruim do partido, que tem Gabeira à frente -- buscarem uma aproximação, podem conseguir alguma coisa.
Mas o PSDB, que já fez essa burrada, não deve repetir a dose. Vão partir para cima do DEM, abrindo mão do que puderem para poder manter os caras juntos. O PV pode até tentar, mas não vejo uma aliança PV-DEM no campo federal.
Agora concordo contigo. Na hipótese, e coloque ênfase nisso, porque se trata de uma hipótese que não acredito ser realizável, do DEM se unir ao PV, com certeza o discurso de Marina ia para o lado da moral ainda mais. Ia virar um negócio meio Heloísa Helena (PSOL) em 2006, lembra?
Não defendia nada, apenas ficava no discurso da ética, da moralidade na política, e todo aquele bla bla bla de candidato que não chega a lugar nenhum. Marina, se quiser algo, tem de fugir disso. O DEM é um partido sem discurso político -- sua única bandeira é essa, que vêm da direita, e que, convenhamos, não tem nada a ver com o partido de Antônio Carlos Magalhães e José Roberto Arruda, para ficar em dois exemplos.
O PSOL, que abriu mão de ser sério, se perdeu justamente quando adotou como bandeira única essa história da ética.
Abração!
P.S. E não tem que se desculpar pelo comentário longo, meu caro Victor. Já levantamos discussões enormes aqui no Blog e quanto mais análise melhor ;-)
Eu diria que Serra tem grandes chances de levar no Sul, mas não de qualquer jeito: As últimas pesquisas para as eleições gaúchas, por exemplo, apontam para Tarso em primeiro lugar tanto no primeiro quanto segundo turno. A ameaça do chapão PT/PDT/PMDB é clara. Ainda assim, mais do que defender a posição paranaense - onde os tucanos vão bem -, a escolha de Álvaro é fruto desesperado de uma busca por um nome, frente ao temor de se associar ao DEM e ausência total de nomes no próprio PSDB - haja vista a frustrada tentativa de cooptar Aécio.
Sobre o PSOL, creio que o partido se perdeu ao não fazer política de base - o que se deve muito ao fato do partido ser um balaio de gato pouco disposto a dialogar até mesmo entre si. O moralismo de Heloísa Helena e uma leitura errada da conjuntura econômico-política foram fatais. Não sei se ele se recupera...
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