quinta-feira, 24 de junho de 2010

Isto é o que importa

Mais que China, Copa do Mundo, novo disco do Coldplay (tá, tudo bem, esse último é sacanagem minha), a notícia mais importante dos últimos dias é esta aqui, que o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou:

Houve forte queda no número de brasileiros que ainda não se alimentam o suficiente. De 2002/2003, a última vez que o IBGE fez esse levantamento, para cá, o número caiu 25,5%. É uma queda abissal -- um quarto da população passou a se alimentar adequadamente em apenas oito anos. Não é pouca coisa.

Como também não é pouca coisa o tanto de gente que ainda passa fome. Segundo o IBGE, cerca de 35% da população brasileira não se alimenta o suficiente. Como somos cerca de 190 milhões, estamos falando de 66,5 milhões de pessoas.

Temos muito o que fazer ainda, mas não deixa de ser importantíssimo o avanço porque passamos. Vamos que vamos.

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Sempre que você tiver um problema, da ordem e magnitude que for, pense que ao menos você come. O ser humano não é nada sem comida. Todo o resto que fazemos por aqui é passatempo. Se somos engenheiros, médicos, banqueiros, jornalistas, carpinteiros. Se viajamos, namoramos, arruinamos ou somos arruinados, tudo isso são escolhas que fazemos para nos ocuparmos por 80 ou 90 anos. Mais importante que isso é comer.

Tente ficar sem comer para ver se consegue fazer qualquer coisa.

Essa é a grande luta do país e de qualquer país. E a bandeira número 1 do Blog, que se indigna quando vê conservador num país como o Brasil -- o que temos para conservar? -- ou gente indiferente -- curtir a vida é fácil quando se têm dinheiro, não? -- ou atitudes de outrem, como a do governo israelense, que priva os palestinos de comida, ou dos chineses, norte-coreanos e cubanos, que convivem numa boa com gente mal alimentada.

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É preciso politizar nossas artes para trazer essa discussão -- e todas as outras discussões que importam -- para o centro do debate cultural. Quando escrevi Versão Brasileira, uma das mensagens principais era centralizar a ideia de que a cultura é central para transformar. Quando se aposta em cinema, teatro, música e o que for de bobagens, perdemos um grande aliado na luta por mudanças. Os partidos e qualquer pessoa séria que têm ideias para alterar os nossos erros e aprofundar nossos acertos precisa encarar as artes de frente, não de costas, como nos anos 90, ou de lado, como nos anos 2000.

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E quando vem intelectual moderninho dizer que nosso cinema "cansa por repetir temas como fome e miséria"? Alguém precisa avisar o sujeito -- e todos os boçais que o levam a sério -- que enquanto esses temas forem problemas, eles devem sim ser tratados pelo cinema e pelas artes de modo geral. Claro que sempre haverá espaço para banalidades, elas são importantes também. Mas não podemos ficar só nisso.

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E lembrem-se: apenas 5% dos municípios brasileiros têm salas de cinema. Menos ainda tem anfiteatros ou espaços para shows.

É esse o país que ainda têm fome. Mas está trabalhando para diminuir. Isso é crucial: estamos conseguindo.

3 comentários:

Luiz Henrique Mendes disse...

Acertou em cheio, João. Sobre o tema, aliás, não posso deixar de lembrar de Chico Science e Nação Zumbi:

Peguei um baláio, fui na feira roubar tomate e cebola
Ia passando uma véia, pegou a minha cenoura
“Aí minha véia, deixa a cenoura aqui
Com a barriga vazia não consigo dormir”
E com o bucho mais cheio começei a pensar
Que eu me organizando posso desorganizar
Que eu desorganizando posso me organizar
Que eu me organizando posso desorganizar

Luis Henrique disse...

Uma grande piada sem graça, quase 1 bilhão de pessoas passando fome numa economia globalizada que produz tantos excessos.

Victor Rodrigues disse...

Tou contigo, João. O fato de o governo Lula ter conseguido muitos avanços faz com que o delírio geral tome conta e muito lulista ache que de uma hora para outra o Brasil não tem mais esse problema tão grave, que os problemas históricos estão completamente superados. O que acontece é que são muitos Brasis num só, dentre eles vários Haitis.

Mas tocando no ponto específico do cinema, vale também lembrar que certos documentaristas que dizem fazer um cinema engajado parecem às vezes fazer na verdade uma bela exploração da miséria alheia. Minha percepção pode estar equivocada, mas ao assistir Garapa, doc filmado no sertão nordestino sobre a fome pelo José Padilha do Tropa de Elite (um doc em que algo se aproveita, lógico), sinto algo além da fome ali naquela linguagem.

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