Há divergências quanto a quem, de fato, criou o vídeo-clipe. Uns dizem que foram os Beatles, quando, em 1968, gravaram a si mesmos interpretando "Revolution" em playback. O vídeo, no entanto, era para ser divulgado em um programa específico de televisão. Como eles, muitos outros já tinham feitos vídeos parecidos antes e ainda fariam depois.
Tenho comigo -- e acho que não estou sozinho -- que o primeiro vídeo-clipe foi "Bohemian Rhapsody", do Queen, gravado em 1975. Como a banda estava em turnê pelos Estados Unidos quando a música estourou, não poderia participar de uma série de programas televisivos nos EUA e na Inglaterra, seu país de origem. Assim, como se fazia até então, era preciso gravar um vídeo da banda interpretando a música.
O Queen, no entanto, pensou que poderia aproveitar a oportunidade para ir além. Usaram cenários, efeitos de imagem e construíram um vídeo-clipe da maneira como conhecemos hoje.
Foi um sucesso danado, fazendo desencadear, a partir daí, toda uma indústria de vídeo-clipes, que tiveram nos anos 1980 seu auge, principalmente depois que Michael Jackson revolucionou a arte, em 1982, com "Thriller".
A hegemonia dos vídeo-clipes a frente de seu tempo foi dividida por MJ e Queen.
Até que, em fevereiro de 1991 surge "Innuendo". Era a música título do disco que o Queen lançava no mesmo mês. Seria o último disco do grupo, uma vez que poucos meses depois seu vocalista, Freddie Mercury, morreria de AIDS.
Além do diálogo que existe entre "Innuendo" e "Bohemian Rhapsody", uma vez que ambas são músicas longas e ao estilo Ópera-Rock que consagrou o grupo, há todo um fechamento de ciclo. O grupo atingia seu auge justamente em um de seus últimos vídeo-clipes.
Em "Innuendo" temos três fases distintas. A primeira segue o modelo de música diatônica, isto é, notas musicais cheias harmonizadas com o vocal. Em seguida temos o flamenco, música espanhola ao violão, retornando em seguida a primeira parte, em harmonia distinta, mais suave. O vídeo de Jerry Hibbert arrebatou uma série de prêmios pelo mundo. Hibbert atribuiu a cada membro do grupo uma estética de pintor específico, uma vez que o grupo decidira não aparecer, diante da debilidade física de Mercury.
Brian May, o guitarrista, passou a ser uma gravura da Inglaterra vitoriana, do século XIX. Roger Taylor, o baterista, encarnou a pintura de Jackson Pollock. John Deacon, o baixista, aparece em forma cubista de Picasso. Freddie Mercury surge como os rascunhos de Leonardo Da Vinci.
Para a montagem de "Innuendo" foram utilizados trechos da Guerra Civil espanhola (1937 -- que, aliás, influenciou Picasso a pintar seu trabalho máximo, Guernica). Esses trechos foram associados a desfiles ultrarreligiosos tanto de católicos quanto de muçulmanos, fundindo-se a imagens da invasão do Kuwait, por parte do Iraque, que pouco depois seria invadido pelas tropas norte-americanas, no que se convencionou chamar de Guerra do Golfo.
O teatro que entrecorta o vídeo-clipe é baseado nos desenhos e gravuras que ilustram o disco "Innuendo", da capa ao encarte. Todas as ilustrações do disco são do pintor francês Grandville, contemporâneo de Balzac, em meados do século XIX.
Para fechar o expediente, então, um dos maiores vídeo-clipes da história.
Assista clicando aqui.
Bom fim de semana a todos.

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