quinta-feira, 25 de março de 2010

A tacada da Vale

A Vale disparou para as siderúrgicas com que negocia um comunicado amplo, na segunda-feira, que determinava novas cláusulas contratuais. No documento, a companhia determina a vontade de alterar uma grande regra da relação entre mineradoras e siderúrgicas.

O sistema de preços "benchmark", vigente desde os anos 1960, será abolido. Em seu lugar, a Vale aposta na criação de índice de preços chamado Iodex. O benchmark é negociado no setor por um período de 40 dias, normalmente, entre os meses de fevereiro e março de cada ano. Fechado um preço pela tonelada do minério de ferro, ele vale por um ano, a começar em 1º de abril. Esse sistema, tradicional, traz estabilidade, porque defende compradores e vendedores de movimento de baixa. No entanto, em movimentos de alta de preço do ferro, a mineradora sai perdendo, porque vende por preço tabelado pelo benchmark.

O novo sistema, o Iodex, tem validade menor -- trimestral. Assim, de três em três meses mineradoras e siderúrgicas negociarão qual será o preço da tonelada de ferro que valerá no trimestre seguinte. No comunicado, a Vale diz que o Iodex já começa a valer no próximo 1º de abril.

E mais: terá reajuste de 114% no preço do minério de ferro.

Estamos falando de um produto chave no comércio exterior. Com a consolidação dos últimos anos, apenas grandes players participam, do lado produtor, e cada vez menos empresas jogam, do lado comprador. É possível contar as grandes mineradoras nas mãos: Vale, ArcelorMittal, Rio Tinto, BHP Billiton e Thyssen-Krupp. As maiores siderúrgicas do mundo estão do lado asiático, além das japonesas Nippon Steel, JFE, Sumitomo Metals e Kobe, mais tradicionais, a China criou, em poucos anos, gigantes siderúrgicas.

Só para dar uma ideia do que estamos falando, boa parte do fenômeno chinês foi e é construído na importação maciça de ferro -- tendo o Brasil como um dos principais clientes -- e na agregação de valor, transformando ferro em aço. O aço chinês, além do processo de produção por si só -- que já permitiu rápida e densa industrialização -- é remetido ao exterior, garantindo a entrada de dólares que compõe as enormes reservas chinesas.

A Vale, por ser um grande player desse jogo, tem poder para alterar as regras do jogo. As siderúrgicas que compram seu minério de ferro terão de acatar os preços e, aquele vendido individualmente -- modelo contratual single partner -- terá sobrepreço feroz. Ao mesmo tempo, a Vale sacode o mercado, permitindo às outras mineradoras reajustarem seus preços em valores semelhantes.

Não há escapatória. São poucas e megas empresas do lado provedor, que dominam o mercado. Se o lado comprador, as siderúrgicas, se manifestam contrariamente, terão de engolir aumento de competição: muitas mineradoras já investem em plantas siderúrgicas, de forma a fecharem a cadeia em torno de si mesmas. No Brasil, a Vale já inicia planejamento para isso. Mas, por aqui, vemos a luta ocorrendo na via inversa. A CSN é que amplia sua participação em minas de ferro, para se blindar de altas como essas, superiores a 100%.

Além da competição empresarial, com participação estratégica de governos -- que adoram os dólares que suas empresas podem trazer --, veremos respingos na inflação. Ferro mais caro impacta o aço, que impacta todos os bens que usam aço, de carros a eletrodomésticos.

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