quarta-feira, 10 de março de 2010

De senadores, acadêmicos, racistas e deliquência

Não sou muito velho. Na realidade, se me basear no testemunho de amigos e colegas, sou "muito moço" para entrar em debates políticos de toda sorte. Comigo, penso que era "muito moço" lá trás, em 2006 ou mesmo 2007, quando este Blog estava começando. Hoje, estou calejado, ainda que, com certeza, com muito a aprender.

Posso ser moço, mas, nos últimos anos de discussões diárias acerca de lutas internas e externas, nunca vi ou li nada sequer parecido ao show de horror que se passou nos últimos dias, quanto ao debate das cotas raciais. Na semana passada, este primor de senador Demóstenes Torres (DEM), disse que as cotas raciais são um erro porque há miscigenação no país, formada numa relação consentida entre brancos (senhores de engenho) e negras (escravas africanas trazidas ao Brasil). Justificou sua tese anti-cotas raciais lembrando casos de negros africanos que traficavam escravos.
Particularmente, sou contra as cotas raciais por solidificarem uma diferenciação racial. Mas não sou contra a ideia de cota e, diante da situação de descalabro que ainda perdura no país -- temos sim desigualdade racial e sim, somos uma nação infestada de racistas -- instituir cotas raciais, num primeiro momento, não é uma coisa ruim. Seja como for, há um debate claro aí, com justificativas honestas de lado a lado.

O que não dá é, em pleno século 21, um sujeito, que além do mais é senador da República, falar que o estupro de escravas era consentido. Vejam só. A negra era traficada, tirada de seu país e levada à outro num navio cheio de gente na mesma situação, ficava meses num galpão infestado de ratos, sem comida, urinando e defecando no mesmo espaço que outras centenas em mesma condição, para aportar no estrangeiro (Brasil) e trabalhar mais de 16 horas por dia, sem receber remuneração e ainda por cima sendo açoitada e espancada. Viviam não mais que 25, 30 anos.

E o senhorzão de escravos, branco português, semi-analfabeto também, baixava a calça e fazia horrores com escravas, que engravidavam -- não, Demóstenes, não existia camisinha nos séculos XVII, XVIII e XIX, juro -- e disseminavam no país a cultura da criança sem pai, mestiça e largada. Isso, para gente como um senador da República, era "relação consentida".

Aí, o que acontece?

Os jornais publicam o que o senador disse. O primeiro a publicar foi a Folha de S. Paulo, em matéria assinada por Laura Capriglione e Lucas Ferraz. No dia seguinte, O Globo, Estadão e Valor repercutem. O Valor, inclusive, trazendo entrevista em ping pongue com Demóstenes, que mantém seu ponto de vista preconceituoso.

Pois, uma semana depois, a Folha publica artigo do acadêmico Demétrio Magnolli, doutor em geografia, chamando os jornalistas Laura Capriglione e Lucas Ferraz de "delinquentes" por terem transcrito o que disse Demóstenes. Coisa baixo nível mesmo. Demétrio, o acadêmico, cita, nominalmente, os jornalistas:

As pessoas, inclusive os jornalistas, podem ser contrárias ou favoráveis à introdução de leis raciais no ordenamento constitucional brasileiro. Não é necessário, contudo, falsear deliberadamente a história como faz o panfleto publicado nesta Folha sob as assinaturas de Laura Capriglione e Lucas Ferraz. A invectiva dos repórteres engajados contra o pronunciamento do senador Demóstenes Torres (DEM-GO) na audiência do STF sobre cotas raciais se inscreve no título a chave operacional da peça manipuladora.

Demétrio, o acadêmico, parte de um pressuposto perigoso, ao afirmar que os jornalistas tinham intenções políticas ao escrever a matéria. Desse pressuposto, Demétrio, o acadêmico, ataca. Em seguida, critica as cotas raciais e fundamenta seu ponto. Aí, nada contra. Trata-se, como disse antes, de algo perfeitamente discutível, com argumentos bons de lado a lado. Demétrio, o acadêmico, faz um desenho histórico -- algo que ele conhece bem -- para defender seu ponto de vista. Mas erra ao atacar de maneira vil e desonesta os jornalistas que relataram o que disse Demóstenes, o senador.

Agora, uma coisinha bem importante. Vocês, caros leitores, sabem quem é Demóstenes, o senador, e Demétrio, o acadêmico? Vamos lá, então.

Demóstenes é o senador que esteve envolvido naquela piada do "grampo no Supremo", que ganhou capa da Veja em agosto de 2008, no auge do debate levantado pela Satiagraha, que um mês antes prendera Daniel Dantas. Na época, Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, foi "grampeado" em conversa com Demóstenes, o senador, tratando de frivolidades. O fato de o presidente do Supremo e um senador terem sido "grampeados" lançou sobre a República um espectro terrível, de que todo mundo estava sendo grampeado. Aquilo virou o assunto do momento, fez esquecer a Satiagraha e limpou os quadros da Polícia Federal e Abin que estavam trabalhando na Satiagraha.

Isso porque, na matéria, a revista dizia que o "grampo" foi feito por gente da Abin. Até hoje, quase dois anos depois, ninguém nunca viu o tal grampo. Mas, os dois, Mendes e Demóstenes, disseram que tinham mesmo conversado. Então, ficou naquele bafafá. Tempos depois, em março de 2009, Gilmar Mendes ainda fechou aquele engodo com chave de ouro ao dizer que, mesmo sem mostrar o grampo, aquilo era "extremamente plausível" e, "se a história não era verdadeira", era, ao menos, "extremamente verossímil".

Maravilha, não? Quer dizer, o sujeito que legisla sobre o que é ou não é, diz que a história, seja ela qual for, pode ser mentira, mas, se for "extremamente verossímil", ah, então não há problema.

Pois bem, vocês conheceram Demóstenes, o senador. Agora vamos ver quem é Demétrio, o acadêmico.

No começo do mês, Demétrio Magnolli foi convidado do Instituto Millenium para falar sobre mídia. Mais especificamente, foi falar sobre "ataques contra a liberdade de expressão". Sabe aquele papo macartista (anos 50, século passado), ou satilinista (anos 40, século passado), ou mesmo maoísta (anos 40 a 70, século passado) de governo controlar a mídia? Aquilo que acontece em regimes avançados como Cuba e China? Então, o pessoal se juntou para conversar sobre o medo de que isso aconteça no Brasil.

Por si só, como vocês já devem ter percebido, uma asneira completa. Mas vamos continuar.

Demétrio entra em cena para falar do PT. Entre uma e outra análise, Demétrio disse que o PT hoje é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político reminescente dos antigos partidos comunistas.

Peraí, como é que é? O Demétrio diz que o PT é controlado por castristas, gente ligada à Fidel Castro, é isso? Alguém consegue imaginar Guido Mantega ligando para o Fidel e perguntando "e aí, companheiro, eu, que sou filiado ao PT e sou o manda chuva da economia, queria saber o que você achou da redução do IPI para carros? Fui comunista?". Ou ainda Henrique Meirelles, que tem total liberdade dentro do governo, ainda que não seja filiado ao PT (mas ao PMDB), viajando a Cuba para verificar como é feita a gestão da política monetária?

Deus me livre. Fica parecendo aquela crítica besta que setores "intelectuais" do PT ou da esquerda de maneira geral faziam nos anos 90, quando falavam que membros do governo FHC eram "assalariados" dos americanos porque defendiam a privatização. Menos, Demétrio, menos.

Pois é ele, Demétrio, o acadêmico, quem vê "controle da mídia" sendo defendido no governo, que chamou os jornalistas da Folha de delinquentes por terem relatado o que disse Demóstenes, o senador, acerca do "estupro consensual" nos tempos da escravidão.

Esse pessoal deveria conhecer mais história e ter um pouquinho mais de humanismo antes de sair arrotando atrocidades.

6 comentários:

gustavo.assano disse...

Bom texto, Harry. Vale lembrar que o discurso de relação senhor/escravo no brasil como dócil e consentida é ratificada academicamente com o Gilberto Freyre, que funde espectro nacionalista com nostalgia da dinâmica colonial... e que no auge da mineração o período médio de trabalho chegou a atingir 18 horas... e que a justificação da escravidão pela cultura escravocrata em tribos africanas ganha força na atualidade pelo ascenso da micro-história e da "crítica cultural" como formas de racionalização sobre a aparição das "minorias" no estado democrático, fruto do entrave colocado pela contestação anticolonial mesclada com a consolidação de estados nacionais integrados na ordem mundializada. Trata-se, portanto, de um conservadorismo atualizado, apesar de não soar politicamente correto (o que, aliás, lhe dá uma feição contestadora).
no caso...

depois entre lá no vestido azul (meu blog), dê uma olhada, uma comentada...

abraços!

Hugo Albuquerque disse...

Demétrio é o típico lúmpem-acadêmico brasileiro: Era aquele tipo de sujeito que ficava bancando uma de esquerdista na faculdade e metendo o dedo na cara dos colegas - típica atitude burguesa - que depois se cresce na carreira acadêmica produzindo asneiras - graças à burocracia típica da universidade brasileira - e, para aparecer, serve de miquinho amestrado da mídia e do que há de pior na política brasileira. Serra cavou a própria cova quando se escorou no discurso anti-Lula dessa gente.

Luiz Henrique disse...

Quando um jornal autoriza que alguém qualifique seus jornalistas como "delinquentes", isto não pode ser sério. Hoje, a Folha tentou criar um factóide com a partir do contrato do jornalista Luís Nassif com a EBC (mais em http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2010/03/11/a-resposta-dada-as-perguntas-da-folha/#more-51009._ Não conseguiu. Um jornal assim não pode estar falando sério.

João Villaverde disse...

Salve Gustavo,

Esse pessoal, os neoconservadores, partem de uma leitura bem estranha da realidade -- seja ela historia ou presente. É um conservadorismo atualizado, mas não deixa de ser tacanho.

Como já disse aqui no Blog, num texto que gerou uma polêmica (em 2007 ou 2008 se não me engano), é simplesmente criminoso ser conservador numa sociedade forjada no estupro, roubo e escravidão, e no assassinato de opositores. Uma sociedade que mantém desigualdades enormes, com gente passeando aos montes pela República Morumbi-Leblon (como dizia o Idelber Avelar), e outros tantos passando fome, Brasil afora.

Querem conservar o quê?

Abração e obrigado pelos elogios.

P.S.: visitei seu blog, é bem bom. Mas vc deveria atualizá-lo mais cara.

João Villaverde disse...

Pois é Hugo,

Demétrio, o acadêmico, era, como muitos estudantes universitários que querem parecer engajados, "esquerdinha".

Cresceu, arranjou espaço no mainstream e, ao invés de manter o conhecimento formado no mestrado e no doutorado, caiu nesse joguinho chinfrim de defender ideias pré-concebidas, atacar e desqualificar opositores, etc.

Ele não era assim. Mesmo na fase de colunista da Folha, quando escrevia às quintas na página A2, Demétrio mantinha um nível de análise muito adequado.

Demétrio, o acadêmico, se perdeu completamente.

Abração

João Villaverde disse...

Salve Luiz Henrique,

Esse episódio da Folha publicar artigo do Demétrio desancando jornalistas da casa não pegou bem mesmo...

Abração

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