segunda-feira, 15 de março de 2010

O Banco Central e o erro de elevar os juros nesta semana

O Banco Central persegue a meta de 4,5% para o aumento de preços. Para isso, ele conta com, praticamente, um instrumento: a taxa de juros básica, Selic. Se prevê que a inflação pode superar a marca dos 4,5% nos 12 meses, ele eleva a Selic, tornando o crédito mais caro e desaquecendo a demanda, diminuindo preços e trazendo a inflação para baixo. Ao mesmo tempo, onera a dívida pública, encarece o financiamento e estanca (muito ou pouco, depende do choque) a atividade.

A inflação veio abaixo da meta, em 2009, fechando em 4,31%. Desses, o equivalente a 0,11% foi unicamente devido à alta do açúcar. Não fosse a alta da cana, que teve problemas de safra graças à chuvas torrenciais na Índia (grande exportador mundial) e pegou outros grandes produtores, como o Brasil, no período de entressafra, a inflação teria sido ainda menor: 4,2%.

O Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), principal indicador de inflação no varejo do país, coletado pelo IBGE e usado pelo BC, veio em alta forte nos dois primeiros meses do ano. Em janeiro bateu em 0,75% e em fevereiro chegou a 0,78%. Assim, acumulou 1,5% em dois meses.

O mercado tem feito um chororô danado quanto a isto. Diz, em alto e bom som, que a inflação já chegou em 1,5% em dois meses -- ou seja, falta apenas 3% para alcançar a meta no ano. Assim, as expectativas do mercado financeiro tem subido semana a semana. Já acham que o IPCA vai fechar acima de 5% em 2010. E tem analista trabalhando 5,5% já.

O mercado ignora que a inflação, em janeiro e fevereiro, é 40% sazonal e 40% choques imponderáveis. Tivemos alta nos transportes -- graças ao reajuste nas tarifas de transporte público em capitais como São Paulo e Salvador -- e alta no material escolar. Isso não vai se repetir. Acontece em janeiro e fevereiro. O mercado deveria saber disso, afinal, todo ano tem janeiro e fevereiro, não?

Além das questões sazonais, tivemos problemas com o imponderável -- aquilo que não pode ser antecipado. Além do açúcar, que pressionou até mais ou menos a metade de fevereiro, quando começou a cair (hoje está despencando), tivemos problemas com alimentos in natura e processados, graças aos problemas de alagamentos em grandes armazéns, como o Ceagesp em São Paulo. O açúcar, além de encarecer o grão, encarece o álcool combustível e também a gasolina, que conta com álcool em sua mistura. Assim, o impacto é disseminado.

Não será uma alta nas taxas de juros que vai "consertar" a elevação nas tarifas do ônibus, dos lápis coloridos das escolinhas, do açúcar que estava na entressafra ou das frutas afogadas. Teremos safra recorde, que começa a ser colhida agora. As chuvas, surpreendentes fortes e consecutivas, já pararam. O transporte e o material escolar já foi reajustado.

Temos inflação de demanda? Claro. Sempre tivemos e sempre teremos. A demanda vem forte, puxada por reajustes no salário mínimo -- que corrigem também dois terços dos benefícios previdenciários --, melhora do mercado de trabalho, e atividade bombando (PIB em quase 6%, segundo estimativas). Mas isso representa a menor parte das altas de janeiro e fevereiro.

Elevar os juros, agora em março, seria um erro de precipitação. Precisa ser muito conservador para achar que a inflação de 0,78% em dois meses será a explosão da hiperinflação no Brasil, o fim da Terra como a conhecemos, a anarquia dos povos.

O BC se reune amanhã e, na quarta-feira, anuncia como ficará a Selic, hoje em 8,75% ao ano, das maiores taxas de juros do mundo. Ele pode, tranquilamente, esperar até o fim de abril, quando ocorre a próxima reunião. Mantém a Selic em 8,75%, indica, numa decisão por 5 x 3 (com minoria defendendo elevação) que no futuro próximo mexe na taxa. Até abril, os diretores do Banco Central terão em mãos o IPCA de março -- o primeiro sem pressões sazonais ou choques imponderáveis -- e os dados do atacado (os IGPs) relativos à março e abril. Uma decisão, então, será mais firme e baseada em fatos e estimativas centradas na realidade, e não nessa megalomania do mercado de ver inflação em tudo quanto é lugar.

O mundo mudou minha gente. Nosso problema não é mais a inflação...

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá João se me permite gostaria de contribuir com alguns comentários:

O sistema de metas de inflação adotada em 1999 no Brasil se inspirou em experiências muito bem sucedidas como os sistemas adotados em países como Nova Zelândia, Reino Unido e Austrália. Esse último é considerado o exemplo do sistema em seu mais alto grau de desenvolvimento, no qual não se divulga mais a inflação mensal, mas sim a expectativa de inflação mensal, o índice de preços desse país é anunciado trimestralmente. Vale lembrar que no Brasil, ainda hoje, temos 13 divulgações de índice de preços por mês, conseqüência de nosso histórico inflacionário.

Falando de nosso momento atual, os alimentos ainda representam um problema (vide os indicadores semanais de inflação, nos quais os alimentos voltaram a se acelerar, apesar do fim das chuvas). Há um receio entre os analistas de que voltemos a viver o ocorrido no ano de 2007, onde um choque concentrado em alimentos (na ocasião “leite e derivados”) criou uma espiral inflacionária sancionada pela demanda excessivamente aquecida. A pesquisa feita pelo banco central divulgada essa semana mostrou que não só o mês corrente surpreenderá novamente (esperava-se 0,35 até a semana passada e ao meio do mês já se fala em 0,40), mas as projeções para o mês de abril já abrigam revisões (dessa vez por causa de remédios, veja sempre há uma explicação);

Quando você cita a participação do preço do açúcar para IPCA de 2009, acho válido ponderar que o indicador é composto de diversos itens e assim todos os itens são responsáveis por seu valor final. Pode parece ridículo dizer dessa maneira, acho que a idéia fica mais clara com um exemplo: assim como o açúcar foi responsável por (+)0,11% da variação da inflação do ano passado, a queda de preços de bens duráveis contribuiu com (-) 0,20% no IPCA de 2009, item esse que promete ser importante foco inflacionário esse ano, seja por reajuste de seus insumos, seja por conseqüência da forte demanda por crédito.

Anônimo disse...

Quanto ao “chororó” e "O mercado deveria saber disso, afinal, todo ano tem janeiro e fevereiro, não?". Os analistas já esperavam sim números mais pressionados em janeiro e fevereiro, o próprio BC projetava inflação de ao menos 0,60 para os dois primeiros meses do ano de 2010. O que têm incomodado os analistas são as surpresas entre o esperado e o observado, surpresas essa vindas da agricultura e do setor de serviços. Esse último é habitual usado como sinalizador de inflação causada por demanda doméstica, afinal depende menos de insumos transacionáveis, isto é, seu reajuste depende fortemente de salários e percepção de possibilidade de reajuste. São considerados serviços, entre outros preços: o cabeleireiro, a manicure, o estacionamento, o médico, o cinema, as aulas de ginástica, idiomas. Itens esses que dependem fortemente de demanda, por exemplo, o principal insumo de uma consulta é o próprio médico, ou e em um curso de inglês é professor, e esses só vão reajustar seus preços se tiverem a percepção que o reajuste será aceito.

E por fim você desabafa que "Precisa ser muito conservador para achar que a inflação de 0,78% em dois meses será a explosão da hiperinflação no Brasil...", Ninguém no país fala em hiperinflação, ou descontrole inflacionário, ao contrário, o que se defende é uma atitude preventiva para que mantenhamos as expectativas bem ancoradas e para que não tenhamos problemas de desvios fortes de inflação a meta, causado por uma taxa de juros fora do equilíbrio. Dessa maneira podemos nos manter na estabilidade que vivemos hoje, característica essa que permite o empresário planejar o futuro, e assim construir o Brasil de amanha, sem preocupação de revisão de projetos a cada aceleração inflacionária. Como disse o presidente Meirelles em sua última apresentação na presença de grandes executivos das principais empresas com investimento no Brasil "... perguntei a pessoa que me convidou qual seria meu público e qual aspecto deveria explorar com mais atenção, e fiquei feliz ao ouvir que os presentes gostariam de saber minha opinião e minha visão para o Brasil nos próximos 10 ou 20 anos, algo impensável há 15 anos atrás...".

Acredito sim que a alta de juros seja necessária nesse momento, mas não para que poucos lucrem com ela, e sim para que todos os brasileiros continuem a desfrutar do que a estabilidade tem de melhor, a verdadeira possibilidade de planejar o futuro.

Anônimo disse...

Tive que postar em dois posts, pois me alonguei de mais .

Ab

João Villaverde disse...

Caro,

Seu comentário é muito oportuno, porque apresenta, com argumentação sólida, o outro lado da moeda. Ambos refletimos e discutimos nossas ideias tendo como objetivo principal a consolidação de um desenvolvimento econômico que não gere descontrole dos preços e distúrbios quanto à solvência. Assim como não podemos apelar para elevações freqüentes na inflação, também não podemos confiar que as importações serão capazes de equilibrar a alta inflacionária, simplesmente porque importações elevadas acabam por “roubar” crescimento e causam problemas de solvência, na ponta – ao diminuírem o saldo comercial e, consequentemente, ao alargarem problemas com o financiamento do balanço de pagamentos.

Dito isso, vamos aos pontos que você trouxe.

O regime de metas de inflação foi, sem dúvida, um avanço crucial frente ao modelo que tínhamos antes de 1999. Operávamos com juros nas alturas – como vc sabe, muito maiores que os vigentes pós-99 – para segurar o câmbio baixo, que funcionava como âncora da inflação controlada. Não havia uma meta, então a ideia era segurar a inflação em patamares ínfimos, a custa da explosão da dívida pública, do derretimento do saldo comercial e de déficits correntes cada vez maiores. O modelo explodiu em 13 de janeiro de 1999 e, com ele, adotamos as metas.

Assim, de fato, o BC cumpre apenas uma meta: esta, de inflação. Logo, tudo o que precisa fazer é trabalhar para que, a cada ano, o IPCA feche em torno dos 4,5% que ele persegue. Dessa forma, entendo perfeitamente seu comentário e mesmo o papel do BC em se preocupar com uma escalada no IPCA, acima do que projetava o mercado – e o próprio BC em seu relatório de inflação divulgado em dezembro – para o período janeiro-fevereiro. Como há riscos de que o IPCA termine 2010 acima dos 4,5%, o Banco Central precisa agir cedo para trazer os preços e as expectativas para o centro da meta. Ele precisa levar em conta a defasagem entre as medidas de política monetária.

Vc lembra muito do bem do que ocorreu em 2007 e 2008, quando uma alta nos preços dos alimentos foi “sancionada pela demanda excessivamente aquecida”. Hoje, a demanda está aquecida e uma alta nos preços internacionais poderia provocar um pequeno descontrole. Acho, como achava naquela época (e muitas vezes escrevi aqui no Blog), que uma alta de juros no Brasil não serve para derrubar as cotações internacionais dos alimentos. Os juros altos apenas trazem para baixo a demanda interna, além de onerarem o rolamento da dívida pública e ampliarem o ingresso de moeda externa. Sei que é a única coisa que se pode fazer nessa situação – e foi exatamente o que fez o BC em abril de 2008, quando começou a subir os juros, em processo que se estendeu até setembro, pouco antes da explosão da crise.

(continua)

João Villaverde disse...

A questão é que o mercado, que trabalhava, como vc disse, com taxas de 0,30 e 0,35% para o IPCA em março, já vê algo como 0,40% e mesmo 0,45%. Esse seria um dado preocupante, uma vez que os vestígios das altas nas tarifas públicas e material escolar serão marginais, bem como a elevação pontual em determinados itens, como açúcar, combustíveis e alimentos in natura. Será, portanto, uma alta mais determinada por demanda correndo acima da oferta – ainda que o nível de capacidade instalada da indústria não apresente problemas e as importações ocupem um espaço importante, quando falamos de bens duráveis e não-duráveis.

Mas, olhando o IPCA dos últimos dois meses, e as leituras dos IGPs, não consigo enxergar problemas em preços que determinariam excesso de demanda que precisa ser contida por um aperto monetário. No IPCA, preços de eletroeletrônicos – que serão os mais vendidos em 2010, graças à Copa do Mundo –, vestuário e calçados, por exemplo, vieram bem abaixo em fevereiro que em janeiro. Da mesma forma, os alimentos diminuíram (fecharam, ainda que em alta forte, abaixo de 1%) pressão. Itens como móveis, eletrodomésticos e automóveis, que ainda pressionam, tendem a arrefecer uma vez que boa parte do consumo que ocorreria em 2010 foi antecipado para 2009, impulsionado pela política anticíclica que cortou impostos para a indústria e deu condições facilitadas – por meio dos bancos públicos – para o consumidor.

Nos IGPs, o item que puxou as leituras mais recentes foi um chamado “material para manufatura”, que elenca principalmente commodities e insumos. Isso indica que a demanda das fábricas e do campo (que adquire insumos para produção e consumo de fertilizantes, por exemplo) por materiais básicos para aumentar sua produção é grande. Como ainda há margem em praticamente todos os setores industriais para ampliar a produção – não adianta falar das fábricas de produtos químicos, que historicamente trabalham perto do limite do Nuci – e muitos investimentos foram feitos no terceiro e quarto trimestre de 2009 (fora os que estão sendo feitos neste primeiro trimestre de 2010), é possível imaginar que teremos ampliação da oferta, conforme os investimentos maturam, e arrefecimento do consumo, graças ao que foi antecipado.

É preciso calma, por parte do BC e dos analistas, para não ser precipitado. Entendo as razões por trás de uma alta da Selic nesta semana – cumprir a meta de inflação – e as suas preocupações. Quando falo que o BC poderia esperar um mês, também me coloco favorável a um controle firme para ancorar expectativas e o IPCA dentro do centro da meta. Em abril, as condições de análise serão muito maiores que agora, que estamos no olho de um furacão sazonal e pontual, pressionados pelos dados fortes da PMC de janeiro.

Até porque, se pensarmos apenas na questão das metas, subir os juros em março ou em abril não vai fazer muita diferença, uma vez que a alta já terá efeito sobre o IPCA deste ano.

É isso, meu caro. Seu comentário foi de muito alto nível, algo que sempre torna o debate mais agradável.
Um abraço

Site Meter