Do Chile, sempre acumulei mais curiosidade que conhecimento. Tinha curiosidade em conhecer essa sociedade avançada nas ideias, mas igualmente retrógrada nas ações. O Chile sempre foi um desenho muito simbólico do desenvolvimento dialético do homem como ser político. Todas as ideias no Chile foram colocadas em prática.
A independência veio em 1810, graças a liderança do "libertador" Bernardo O'Higgins. Ele foi seu primeiro líder, mas acabou deixando o poder em 1823, diante da pressão por novas mudanças. Os conservadores e os radicais sempre participaram muito -- depuseram presidentes, assassinaram opositores, motivaram suicídio de líderes populares, etc.
Já em fins do século XIX -- que foi cheio de turbulências internas e externas para o país -- os chilenos estavam divididos em dois grupos predominantes: aqueles que acreditavam na proatividade do líder do Estado, que traz a modernidade e implanta o desenvolvimento; e aqueles que lutavam por maior participação dos representantes populares, fortalecendo o Congresso e diminuindo o poder do Executivo. Era uma divisão desigual: a maior parte pertencia ao segundo grupo. Em 1891, o Chile estava no auge dessa grande disputa, tendo o presidente José Manuel Balmaceda liderando o primeiro grupo (mais ligado à esquerda da época) e os líderes conservadores lutando pelo parlamentarismo, ou seja, o enfraquecimento dos poderes presidenciais.
Balmaceda não negociara com a classe dirigente do país, isto é, os industriais e os controladores da comunicação, a elite criolla. Diferentemente do conseravadorismo de tom mais burguês dos criollos, Balmaceda era ex-seminarista convertido ao laicismo, liberal avançado, inovador e modernizador.
Uma guerra fraticida ocorreu ao longo do ano. Um dia antes de deixar o poder, em 19 de setembro, Balmaceda comete suicídio. Fora o primeiro líder latino-americano,
despues de la independencia de todos, a confrontar os imperialistas de seu tempo (a Inglaterra), ao resistir frontalmente às negociações -- danosas a economia chilena -- que teve com o coronel inglês John Thomas North. North, aliás, era apoiado pela elite católica e pela oligarquia criolla.
A guerra, o suicídio e a vitória dos conservadores -- tudo isso em meses -- demonstra bem o nível de participação e incitação política sempre presente no país. Somente a partir dos anos 40/50 do século XX é que o grau de debates internos acerca do modelo político do país começou a se elevar novamente.
O auge, é claro, se deu nas eleições de 1970, quando o Chile elegeu Salvador Allende, líder socialista da UP, a
Unión Popular. Allende, eleito pela maioria em eleições democráticas, falava na nacionalização da economia e na distribuição de renda. A oligarquia criolla do século XIX se desenvolvera, ganhando musculatura e alcançando os militares. Aliás, era o braço militar o mais eficiente em canalizar a ajuda -- financeira ou de know-how -- dos americanos. Em um ano, 1971, mais de 80 das principais companhias haviam sido nacionalizadas, inclusive as empresas mineradoras de cobre. No ano seguinte, mais de 60% das terras irrigadas foram estatizadas para serem redistribuídas aos trabalhadores rurais. Entretanto, Allende e os socialistas chilenos de um modo geral não estavam preparados para o choque do petróleo de 1973, que restringiu as importações e limitou as exportações. Ao mesmo tempo, os gastos de 71 e 72 excederam demais a receita, criando um enorme déficit público. A crise econômica foi acelerada pela queda no preço internacional do cobre, seguindo a tendência de baixa no mundo todo.
A inflação subiu rápida e fortemente e, em pouco tempo, a escassez de alimentos começou a se tornar comum. Antecipando amplas possibilidades de poder, a direita -- chamada no Chile de
momios -- passou a promover mais passeatas e a recolher alimentos, aumentando os preços internos e gerando mais desinformação.
Com participação direta dos Estados Unidos (os imperialistas do século XX) por meio da CIA, os militares chilenos dão um golpe de Estado, atacando com bombas e tiros o
Palacio de La Moneda, sede do Executivo. Allende é cercado e deixa o
La Moneda munido de uma metralhadora e com um capacete militar como proteção. Cometeria suicídio.
O golpe foi chefiado por uma junta de quatro homens, dentre os quais o general Augusto Pinochet, comandante do Exército, que logo despontaria como líder máximo.
A partir daquela data, 11 de setembro de 1973, o Chile ingressaria em um período negro, de torturas, desaparecimentos, perseguições, exílio e toda forma de crimes que os Estados na América Latina proporcionaram aos militantes de esquerda entre os anos 60 e 80.
Nas semanas seguintes ao golpe de 11/09/1973, pelo menos sete mil pessoas -- jornalistas, políticos, socialistas, líderes sindicais e demais opositores -- foram levadas para o Estadio Nacional de fútbol, onde muitas foram executadas e muitas mais torturadas.
A principal estratégia econômica da ditadura militar chilena foi adotar, de modo agressivo, a economia de livre mercado. Essa política, que passou a ser implantada a partir da segunda metade dos anos 70 e foi intensificada ao longo da década de 80 serviu como o tubo de ensaio do que depois se convencionou chamar de neoliberalismo. Aliás, o papa da teoria neoliberal, o americano Milton Friedman, foi conselheiro do general Pinochet.
Antes de deixar o poder, o general Augusto Pinochet transportou a sede do Congresso Nacional -- que esteve fechado durante a maior parte dos 17 anos de ditadura pinochetista -- para a cidade litorânea de Viña del Mar, a 125 km de Santiago.
O presidente, a partir de 1990, ficaria em Santiago, a capital, com a Cordilheira dos Andes à margem. Os congressistas passaram a trabalhar numa edificação pomposa de Viña, com o oceano Pacífico ao lado.
Desde então, o Chile intensificou o modelo neoliberal, idealizado e costurado pelos chilenos e americanos nos cargos do governo Pinochet (1973-1990). Mesmo sendo governado por diferentes líderes desde 90, todos pertenceram ao mesmo partido,
la Concertación de Partidos por la Democracia, que agregou 17 partidos pela democracia.
A despolitização, defendida a ferro e fogo pelos donos do poder, é forte no Chile do século XXI. Os anos 90 não fizeram bem a ninguém, especialmente na América Latina. Ainda assim, o Chile foi o primeiro país da região a eleger uma mulher como presidente, Michelle Bachelet, em 2006.
Os jornais chilenos, ao longo do feriado de carnaval, destrinchavam o plano de estímulo econômico que Bachelet quer colocar em prática, como forma de resistir aos piores efeitos da enorme crise econômica mundial que explodiu no centro do capitalismo, os Estados Unidos.
É nesse período de crise nos EUA, que foram tão importantes para formar essa geração de chilenos pós-73 (e especialmente a década de 90), que veremos como se dará um novo capítulo da história de transformações políticas e sociais no Chile.
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Indico os três livros sobre política chilena que ganhei e adquiri nos dias que passei por lá no começo deste ano.
> Balmaceda - por Joaquim Nabuco, numa edição linda da Cosaic Naify.
> Operación Siglo XX - Patrícia Verdugo y Carmen Hertz, numa edição da
Ornitorrinco, comprada numa
libreria perto do Terminal Rodoviário de Valparaíso, na segunda-feira 23 de fevereiro.
> Los EEUU y el derrocamiento de Allende - de Peter Kornbluh, da
Ediciones B, sobre a participação dos americanos no golpe de 73
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Este artigo foi escrito no dia 24 de fevereiro, entre o voo de volta para São Paulo e o expediente normal de terça-feira pós-carnaval, sendo finalizado, olha só, às 16h54 daquele dia.
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O Chile realiza amanhã suas eleições gerais.