quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

O saldo de 2009

Olhando para trás, o ano de 2009 conseguiu ser mais dinâmico que 2008, que já tinha sido uma correria só. Penso que, se continuar assim -- e com as perspectivas que temos para 2010 -- chegaremos no ritmo non-stop, literalmente.

Para um jornalista que concilia reportagem diária com Blog, isso significa apoteose. Sou viciado em trabalho, amante incondicional de arte & cultura, debatedor de primeira instância, são-paulino fanático e, nas horas vagas, um músico (baixista) frustrado.

O ano de 2009 fecha com livro escrito, a formatura em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), e muita coisa boa aqui no Blog e no querido jornal. Na colação universitária, que ocorrerá logo mais no dia 13, este blogueiro estará, muito bem acompanhado pela amiga Marina Dias, no palanque, como oradores da turma que se forma em 2009.

Foi um ano incrível, como já tinha dito aqui em 31/12 do ano passado.

Diferentemente do ano passado, no entanto, o blogueiro não produzirá um texto expositivo sobre o saldo do ano. Da mesma forma, não farei aqui o que fez muito bem Hugo Albuquerque, no ótimo O Descurvo, que levantou balanço do ano.

Deixo aqui meus cumprimentos a todos os leitores, comentaristas, seguidores, amigos e amigas, e um carinhoso voto de excelente 2010. Subscrevo meus agradecimentos do último dia 16 de dezembro, quando este Blog completou 3 anos de funcionamento:

Tem sido uma luta diária, mas uma bela luta, com direito a política brasileira, conflitos internacionais, eleições no Brasil e no mundo, economia, crise mundial, trabalhadores e sindicatos, mídia, jornalismo, blogs e internet, tribunais, muita música, poesia, contos e anedotas. De tudo um pouco, em três anos de textos, imagens, vídeos e, agora, até livro escrito.


O blogueiro, com sua rotina frenética, continuará por aqui, no Twitter e no Valor. Estão todo mais do que convidados a continuar, porque conversar nunca é demais.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

"Esperança Obama" desinfla

Com as ameaças da Al Qaeda de promover outro atentado aéreo aos Estados Unidos, os americanos entram em novo processo de parafuso ideológico. Era a ficha que faltava para colocar diante de Barack Obama o "real world", isto é, a vida real pós-campanha eleitoral.

Bati muito aqui no Blog na tecla de que era preciso dar tempo a Obama. É preciso dar tempo a todo e qualquer governante em primeiro ano. Uma coisa é levantar propostas, analisar problemas, compor equipe e discutir ideais. Outra coisa é formar projetos, dialogar com o Congresso, ser holofote da mídia e planejar todo e qualquer passo. Muitos se perdem no meio do caminho e exemplos não faltam.

Obama tem muita coisa a sua frente. Pode ainda ser o salvador que se desenhou, em 2008, mas pode ainda ser uma desgraça total. Um ano depois, ainda é cedo para afirmar.

Não é cedo, no entanto, para analisar como se guiou, o que pensou e como agiu. Uma coisa é fazer uma crítica besta, querendo mostrar que Obama é ruim sem dar tempo para o cara trabalhar, como se fazia aos montes assim que ele assumiu (não apenas nos EUA, mas mundo afora -- Brasil incluso). Outra coisa é começar a juntar peças, movidas pelo próprio Obama, para montar um quadro que se aproxime de seu governo.

Tivemos um programa de recuperação econômica, que envolveu salvamento de bancos, de montadoras, reforma do sistema de saúde, Copenhague, aumento de tropas para Iraque e Afeganistão, luta cambial com a China, e, agora, para terminar, ameaças da Al Qaeda. É cedo para vaticinar o governo democrata, dizer como serão os próximos três anos de Obama na Casa Branca ou qualquer coisa. Mas já se pode refletir com alguma base prática sobre como tem sido a experiência.

O Financial Times de hoje traz análise do sempre preciso Clive Crook, sobre a recepção dos americanos sobre o período Obama. Vejamos: (a tradução é do blogueiro, o original está aqui)

Muitos americanos -- conservadores, liberais e centristas -- estão desapontados com o primeiro ano de Barack Obama. Os Republicanos chamam Obama de "liberal que taxa e gasta". Progressistas dizem que o presidente cedeu aos interesses corporativos, e sua política externa é uma continuação de George W. Bush. Independentes se sentem em segundo plano porque Obama disse que uniria o país, rompendo com a divisão partidária. Exceto por unir esquerda e direita em desapontamento, ele falhou.

Em parte, Obama está pagando o preço de sua fabulosa campanha. Vindo do nada, ele ultrapassou os planos de seu partido (Hillary Clinton), fortaleceu a base do partido Democrata e maravilhou o país. Em temperamento -- calmo, intelectual, confiante -- ele era exatamente o que os eleitores queriam após Bush. Ideologicamente, ele se apresentou como tudo para todos os homens. A esperança por seu governo alcançou alturas impossíveis. Desapontamento era inevitável e é desapontamento o que as pesquisas de opinião estão mostrando.



Obama entra agora num ano crucial. Terá eleições internas para o Congresso -- ele têm uma maioria democrata, conquistada em 2006, que não pode perder --, mais um passo rumo a um acordo pelo clima (que ocorrerá no México), além do desenvolvimento de todos seus quebra-cabeças (Saúde, sistema financeiro, déficits orçamentários, terrorismo).

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Boa notícia

Mário Bortolotto, dos maiores dramaturgos contemporâneos brasileiros, recebeu alta hospitalar hoje pela manhã. Ele foi baleado no último dia 05 de dezembro, quando estava no bar dos Parlapatões, na Praça Roosevelt (SP), por dois assaltantes.

Bortolotto ficou 23 dias internado, boa parte deles em estado grave na UTI, se recuperando dos quatro tiros que levou.

A torcida, agora, é que a recuperação da Roosevelt não fique restrita aos Satyros, Parlapatões e às peças de Bortolotto. O teatro é importantíssimo para a região, mas não pode ficar sozinho. No post publicado no dia 05, levantamos bom debate, na seção de comentários, sobre o papel da Prefeitura paulistana na área.

Muito ainda precisa ser feito. Ao menos o dramaturgo está de volta.

domingo, 27 de dezembro de 2009

Domingo

Um brinde a nossas esposas e namoradas. Que elas nunca se encontrem!

Julius Henry Marx, comediante conhecido como Groucho Marx.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Ganância e punição

Os preços do trigo estão em elevação. Um operador do mercado consegue, sozinho, auferir ganhos crescentes ao apostar na cotação em alta. Pequenos produtores do cereal não se beneficiam da subida. Famílias carentes não conseguem pagar pelo pão, que fica mais caro dia a dia, o que também não favorece o padeiro. O especulador, no entanto, está protegido - e cada vez mais rico. Este é o enredo de "A Corner in Wheat", considerado o primeiro filme de crítica à especulação, que completou 100 anos no dia 13. No cinema de 1909, a saída escolhida pelo diretor David Wark Griffith (1875-1948) foi uma espécie de reflexão moral: o especulador morre sob a montanha de trigo que estocava para manipular preços.

"O especulador tem função importante no sistema econômico, que é a de lubrificar as operações, oferecendo liquidez ao mercado. Isso faz parte do jogo econômico desde que os homens se organizaram em sociedade. Ao longo do tempo, com o desenvolvimento do capitalismo financeiro, a atividade do especulador acabou ganhando conotação negativa", explica Fabio Silveira, economista sócio da RC Consultores. Generalizou-se o preconceito de que o especulador age em prejuízo dos interesses da sociedade, por supostamente distorcer preços.

É essa figura manipuladora que Griffith buscou enquadrar numa perspectiva moral em seu filme. Segundo Ismail Xavier, professor da Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), "A Corner in Wheat" inova não apenas na temática, mas também na linguagem. "Foi a primeira vez em que Griffith utilizou a mesma cena na abertura e no final de um filme, que é a dos pequenos agricultores semeando seu terreno. A repetição indica que a situação deles continuava a mesma, independentemente da trama."

Continua...

Desde quarta, no EU&FimdeSemana, do Valor Econômico, texto deste blogueiro sobre os 100 anos do clássico "A Corner in Wheat", de D.W. Griffith.

O filme pode ser visto no youtube e a matéria pode ser lida na versão impressa ou na internet.
A edição do jornal ficará nas bancas até domingo.

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O exemplo Barenboim

Época de festas de fim de ano. Isso pode deprimir alguns, aborrecer outros, alegrar famílias etc. Enfim, toda aquela baboseira que está sendo repetida em jornais, revistas, rádio e televisão (e mesmo na internet, diga-se). É assim todo ano.

Seja como for, acho que a melhor forma de curtimos esse período, é com música e política. Sou, como alguns leitores mais persistentes devem saber, fascinado por arte & cultura e, no cinema e na música (onde posso argumentar e contra-argumentar), aquilo que mais me atrai é a cultura política. Isto é, quando as artes carregam uma mensagem política, direta ou indireta, abrindo para discussões em diferentes campos e análises. Não estou falando de política partidária, ou de radicalismos, ou qualquer coisa ruim que pode se entender com política, mas, quando falo "política", me refiro ao pensamento crítico, à luta por um sentimento, por uma visão de mundo.

Um dia, com mais calma, exploro um pouco melhor este meu raciocínio. Hoje não é dia para isso, afinal, como ia dizendo, estamos em época de festas.

Daniel Barenboim é um dos gênios máximos da música. Maestro e pianista, Daniel nasceu na Argentina, mas foi criado em Israel, para onde a família Barenboim se mudou quando ele tinha três anos de idade. Isto foi em 1946. Aos sete, voltou à Argentina. Razão: fez seu primeiro recital para piano. Prodígio, como grande parte dos pianistas célebres (Nelson Freire se inscreve aí), aos 17 já executava seu primeiro ciclo de 32 sonatas para piano de Beethoven. Três anos mais tarde, com 20, estreou como regente. Mais tarde, acumularia cargo de diretor musical na Orchestre de Paris, na Chicago Symphony e na Berlin State Opera, além de ser maestro do La Scala em Milão.

Vai aí o detalhe precioso, que deixa tudo ainda mais sutil e fabuloso: Daniel é um militante político. Ele é um dos caras que, por meio da música, mais luta por uma conciliação na Palestina ocupada -- e arrasada -- por Israel.

O fato de um israelense dialogar com a causa palestina, é claro, sempre trouxe muitos problemas à Barenboim. Do mesmo jeito, seu perfil conciliador também não agrada 100% dos palestinos, que afirmam que o diálogo será contraproducente enquanto Israel não reconhecer seus direitos básicos. É um ponto. Se quiser saber a opinião deste blogueiro acerca deste eterno conflito, o leitor pode clicar em "Palestina Ocupada", uma tag aí do lado esquerdo da página, que reúne todos os textos publicados no Blog sobre a questão. Não se trata, aqui, de discutir razões ou omissões. Mas, como já disse, falar de música -- e política.

Recordo uma ótima matéria de Andrew Clark, para o Financial Times, em setembro último, que contava um almoço do repórter com o maestro-pianista. A matéria chegou a ser traduzida e publicada no caderno "EU&FimdeSemana", do Valor, no começo de outubro. As informações sobre a criação da West-Eastern, ideia amarrada entre o israelense Barenboim e o escritor palestino Edward Said (já falecido), são preciosas.

Na vida de Barenboim, a música nunca para, mas na West-Eastern Divan, que recebeu o nome por causa de uma coleção de poemas de Goethe que evocam a percepção que os ocidentais têm da cultura oriental, ele divide os holofotes com o ativismo político. O maestro vê a orquestra como um modelo para o diálogo no Oriente Médio -- um exemplo de como quebrar a barreira de ódio entre os povos. Seus membros são recrutados não só em Israel e nos territórios ocupados da Palestina, mas também na Síria, na Jordânia, no Egito e no Irã. Eles dividem acomodações, alimentação, transporte e estantes de partituras. O próprio Barenboim adotou cidadania palestina, decisão que, a par de suas tentativas de executar Wagner em Israel e do revolucionário concerto que deu na Cisjordânia com a Divan em 2005, enraivece muitos judeus.

O maestro, no entanto, apresenta um discurso que, de tão coerente, chega a causar desconforto.

"Fico arrasado todo dia quando vejo a situação do Oriente Médio piorando e o motivo de ela continuar assim é que a maioria dos israelenses não se sente responsável pelo problema palestino. Não acham que a criação do Estado de Israel, que era inevitável do ponto de vista judeu, iria igual e inevitavelmente criar um problema palestino. Temos de repará-los. Enquanto Israel não reconhecer esse fato, não haverá diálogo".

Barenboim finaliza dissertando sobre a tarefa israelense:

"A base do pensamento judeu não é a ideia cristã do amor e sim da moralidade e da justiça. Nós, judeus, precisamos agora aplicar esse senso de moralidade não apenas em nosso clube exclusivista, mas também em nossas relações com o mundo exterior. Isso significa reexaminar toda a nossa maneira de pensa, incluindo nosso humor, se quisermos ter uma existência normal e não ficar nos vendo como vítimas pela eternidade. Por todos esses motivos eu criei a Divan."

O post, no entanto, não poderia ficar completo sem um pouco de música, afinal, estamos falando de um dos maiores pianistas vivos. Escolhi uma pequena joia, o primeio movimento da Sonata nº14, Opus 27 de Beethoven. A interpretação de "Moonlight", como esta sonata é chamada (em inglês, é claro) por Barenboim é iniqualável em sua carga emotiva.

video

Boas festas a todos.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Domingo

Os dons vêm de Deus, e os presentes, dos humanos. Grandes talentos são, em geral, dons divinos. O charme é um presente que os homens conferem a si próprios. Ninguém nasce charmoso, embora o charme venha razoavelmente fácil para alguns e seja aparentemente impossível para outros. O charme tem a ver com agradar delicadamente, às vezes a ponto de causar fascínio. Quando se diz que uma pessoa "usa o seu charme", queremos dizer que ela lança um feitiço, por mais fugaz que seja. O encantamento temporário é um estado provocado em nós por alguém charmoso. O charme é uma espécie de atuação, é um virtuosismo da personalidade. É autoconfiante, mas nunca artificial, está sempre à vontade no mundo. Ele não força a barra; tem um fino senso de proporção e medida, nunca vai longe demais, nunca permanece por mais tempo do que deveria. O charme é Noël Coward entrando em uma festa com um terno comum, descobrindo que todos os outros homens estão de fraque e anunciando alegremente: "Por favor, não quero que ninguém peça desculpas por estar chique demais".

Joseph Epstein, ensaísta e escritor norte-americano.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

O verdadeiro xeque-mate de Aécio

Ontem, como todos já sabem, o governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB), deixou a pré-candidatura à Presidência da República. Agora, a peteca do PSDB está toda nas mãos de José Serra, governador de São Paulo.

Não entendo este movimento como algo ruim para Serra, pelo contrário até. Evidentemente, a decisão de Aécio, de certa forma, pressiona Serra, que agora pode ser considerado o candidato presidencial mesmo que ele negue isso até março. Mas, até aí, não há nada de novo. Pensando o jogo pelo lado da oposição PSDB-DEM-PPS e outros menos votados, como o PMDB da ala Quércia, a "jogada" de Aécio favorece a coligação, uma vez que, se o governador de Minas insistisse nas prévias, faria sangrar uma união necessária desde já, diante da enorme popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

União ainda mais necessária depois do infame caso dos panettones de Arruda, o único governador do DEM -- principal aliado do PSDB -- enrascado num escândalo horroroso de corrupção ativa (que envolve inclusive seu vice, Paulo Octávio, também do DEM, que era o pré-candidato ao governo do DF no ano que vem).

Aécio consolida seu nome como candidato ao Senado no ano que vem, enquanto caciques regionais, deputados, senadores e conselheiros partidários ficam completamente livres -- e estimulados -- a aderir à campanha de Serra.

O jogo eleitoral ganha agora um ingrediente crucial: José Serra terá de fazer valer, por si só, a capacidade de se eleger.

O "xeque-mate de Aécio", ideia muito difundida, de que a desistência do governador mineiro pressionaria Serra, não se deu ontem, nem hoje. Mas pode ocorrer até março, caso Serra continue a perder pontos nas pesquisas de intenção de voto e Dilma Rousseaf, candidata do presidente Lula, continuar a subir.

Nesse caso, Serra pode dobrar, optando por uma reeleição segura para o governo de São Paulo, abrindo caminho para Aécio, que consolida a figura de "bom moço", sair candidato à Presidência.

Aí está o verdadeiro xeque-mate da atitude de Aécio Neves em desistir da pré-candidatura.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Carta do Blog

Estava começando muita coisa, neste 16 de dezembro, três anos atrás. Muita coisa que está de pé hoje, foi plantada naquela época. Outras só surgiram graças aos sonhos de então. Muito ainda nem era imaginado, porém.

Tem sido uma luta diária, mas uma bela luta, com direito a política brasileira, conflitos internacionais, eleições no Brasil e no mundo, economia, crise mundial, trabalhadores e sindicatos, mídia, jornalismo, blogs e internet, tribunais, muita música, poesia, contos e anedotas. De tudo um pouco, em três anos de textos, imagens, vídeos e, agora, até livro escrito.

Lá trás, em 16 de dezembro de 2006, desculpem o clichê, nem eu imaginava.

Hoje, este Blog completa três anos de funcionamento diário. Agradeço aos leitores pela paciência e eterna disposição em debater todos os diferentes temas que abordo por aqui.

Mesmo para alguém discreto, dá uma alegria danada.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

O modelo dos vestibulares e a Fuvest

Recebi do amigo e leitor Luiz Henrique Mendes o seguinte texto, que parte de uma questão pessoal para algo mais amplo: os vestibulares, há tempos, não são unanimidade de teste para ingressar em uma faculdade. O mais notório deles, a Fuvest -- que decide quem entra na Universidade de São Paulo (USP), uma universidade pública de excelência -- concentra as atenções em si, justamente por ser o símbolo para outras provas.

Vamos aproveitar o texto do Luiz para abrir uma discussão acerca do modelo do vestibular no Brasil?

Um brinde à falta de transparência da Fuvest

Por Luiz Henrique Mendes

Na última terça-feira (8/12), recebi com felicidade a notícia de que a nota de corte do curso de medicina havia caído para 74 pontos – em 2008, o corte foi 77. Felicidade porque minha irmã, que acertou 72 questões no vestibular realizado no último mês de novembro conseguiria a vaga para disputar a segunda fase do concorrido curso de medicina da USP.

Antes que alguém estranhe minha matemática, devo esclarecer que além dos 72 pontos (ou questões) conseguidos, minha irmã teria acrescido 6% em sua nota por ter estudado o ensino médio inteiro numa escola pública, e mais alguns pontos devido a seu desempenho no Programa de Avaliação Seriada da Universidade de São Paulo (Pasusp), em 2008. Descontado o bônus do Pasusp, que eu confesso não saber calcular, minha irmã alcançaria 76,32 pontos, suficientes para a realização da segunda fase.

Acontece que a Fuvest divulgou nesta segunda-feira (14/12) a lista com os nomes dos aprovados para a segunda fase do vestibular, que vai acontecer na primeira semana de janeiro de 2010. Para minha surpresa e desolamento de minha mãe, o nome de minha irmã não estava lá.

Tenho algumas pistas para o ocorrido. 1) Minha irmã pode ter passado as questões erradas para o gabarito. 2) Ela pode ter se enganado na correção da prova. Estou consciente de que algo do tipo pode ter acontecido.

Contudo, salta aos olhos uma atitude no mínimo estranha da Fuvest, que é o fato de não liberarem os pontos atingidos na primeira fase. É uma falta de transparência e respeito ao vestibulando sem igual. Eu não teria dúvidas da lisura do vestibular caso pudesse encontrar no site da fundação um link com o desempenho individual de minha irmã, mostrando quantas questões ela acertou oficialmente e por quantos pontos ela ficou de ir para a segunda fase.

Não bastasse o processo desumano do vestibular, em especial para um curso de medicina, e a brutal desigualdade entre aqueles que têm condições financeiras para pagar um colégio privado e aqueles que têm como consolo a precariedade de uma escola pública – um processo no qual gente com condição de pagar universidades toma o lugar de quem só poderia estudar numa instituição pública como a USP - vemos numa situação em que o maior vestibular do país flerta com o obscurantismo e a falta de transparência.

É simplesmente lamentável.

Deixo este texto como forma de protesto à estrutura do vestibular da USP e a todos os outros vestibulares, que insistem em reproduzir a lógica capitalista, o darwinismo social descarado, o esquizofrênico conceito de meritocracia presentes nos vestibulares Brasil afora. Protesto, em especial, contra a falta de transparência da Fuvest.

Declaro aqui minha desconfiança. A lisura do vestibular está sob suspeita. Desfazer esta desconfiança me parece simples. Basta a Fuvest liberar o desempenho de cada estudantes no vestibular.. Terão coragem? Ou existe alguma maracutaia engendrada para favorecer alguém?

Como cidadão, exijo transparência.

Luiz Henrique Mendes é jornalista formado pela PUC-SP.

***

E você, leitor, o que acha do vestibular brasileiro?

domingo, 13 de dezembro de 2009

Domingo

A morte está no próprio coração da vida. A única coisa que nos permite tomar consciência disso, tolerar seu sentido e nos libertar é o amor. E no entanto, paradoxalmente, só a morte permite que o espírito encontre seu caminho até aquele ponto onde a vida recupera sua urgência.

Hélène Grimaud, pianista francesa.

sábado, 12 de dezembro de 2009

A política no Chile

Do Chile, sempre acumulei mais curiosidade que conhecimento. Tinha curiosidade em conhecer essa sociedade avançada nas ideias, mas igualmente retrógrada nas ações. O Chile sempre foi um desenho muito simbólico do desenvolvimento dialético do homem como ser político. Todas as ideias no Chile foram colocadas em prática.

A independência veio em 1810, graças a liderança do "libertador" Bernardo O'Higgins. Ele foi seu primeiro líder, mas acabou deixando o poder em 1823, diante da pressão por novas mudanças. Os conservadores e os radicais sempre participaram muito -- depuseram presidentes, assassinaram opositores, motivaram suicídio de líderes populares, etc.

Já em fins do século XIX -- que foi cheio de turbulências internas e externas para o país -- os chilenos estavam divididos em dois grupos predominantes: aqueles que acreditavam na proatividade do líder do Estado, que traz a modernidade e implanta o desenvolvimento; e aqueles que lutavam por maior participação dos representantes populares, fortalecendo o Congresso e diminuindo o poder do Executivo. Era uma divisão desigual: a maior parte pertencia ao segundo grupo. Em 1891, o Chile estava no auge dessa grande disputa, tendo o presidente José Manuel Balmaceda liderando o primeiro grupo (mais ligado à esquerda da época) e os líderes conservadores lutando pelo parlamentarismo, ou seja, o enfraquecimento dos poderes presidenciais.

Balmaceda não negociara com a classe dirigente do país, isto é, os industriais e os controladores da comunicação, a elite criolla. Diferentemente do conseravadorismo de tom mais burguês dos criollos, Balmaceda era ex-seminarista convertido ao laicismo, liberal avançado, inovador e modernizador.

Uma guerra fraticida ocorreu ao longo do ano. Um dia antes de deixar o poder, em 19 de setembro, Balmaceda comete suicídio. Fora o primeiro líder latino-americano, despues de la independencia de todos, a confrontar os imperialistas de seu tempo (a Inglaterra), ao resistir frontalmente às negociações -- danosas a economia chilena -- que teve com o coronel inglês John Thomas North. North, aliás, era apoiado pela elite católica e pela oligarquia criolla.

A guerra, o suicídio e a vitória dos conservadores -- tudo isso em meses -- demonstra bem o nível de participação e incitação política sempre presente no país. Somente a partir dos anos 40/50 do século XX é que o grau de debates internos acerca do modelo político do país começou a se elevar novamente.

O auge, é claro, se deu nas eleições de 1970, quando o Chile elegeu Salvador Allende, líder socialista da UP, a Unión Popular. Allende, eleito pela maioria em eleições democráticas, falava na nacionalização da economia e na distribuição de renda. A oligarquia criolla do século XIX se desenvolvera, ganhando musculatura e alcançando os militares. Aliás, era o braço militar o mais eficiente em canalizar a ajuda -- financeira ou de know-how -- dos americanos. Em um ano, 1971, mais de 80 das principais companhias haviam sido nacionalizadas, inclusive as empresas mineradoras de cobre. No ano seguinte, mais de 60% das terras irrigadas foram estatizadas para serem redistribuídas aos trabalhadores rurais. Entretanto, Allende e os socialistas chilenos de um modo geral não estavam preparados para o choque do petróleo de 1973, que restringiu as importações e limitou as exportações. Ao mesmo tempo, os gastos de 71 e 72 excederam demais a receita, criando um enorme déficit público. A crise econômica foi acelerada pela queda no preço internacional do cobre, seguindo a tendência de baixa no mundo todo.

A inflação subiu rápida e fortemente e, em pouco tempo, a escassez de alimentos começou a se tornar comum. Antecipando amplas possibilidades de poder, a direita -- chamada no Chile de momios -- passou a promover mais passeatas e a recolher alimentos, aumentando os preços internos e gerando mais desinformação.

Com participação direta dos Estados Unidos (os imperialistas do século XX) por meio da CIA, os militares chilenos dão um golpe de Estado, atacando com bombas e tiros o Palacio de La Moneda, sede do Executivo. Allende é cercado e deixa o La Moneda munido de uma metralhadora e com um capacete militar como proteção. Cometeria suicídio.

O golpe foi chefiado por uma junta de quatro homens, dentre os quais o general Augusto Pinochet, comandante do Exército, que logo despontaria como líder máximo.

A partir daquela data, 11 de setembro de 1973, o Chile ingressaria em um período negro, de torturas, desaparecimentos, perseguições, exílio e toda forma de crimes que os Estados na América Latina proporcionaram aos militantes de esquerda entre os anos 60 e 80.

Nas semanas seguintes ao golpe de 11/09/1973, pelo menos sete mil pessoas -- jornalistas, políticos, socialistas, líderes sindicais e demais opositores -- foram levadas para o Estadio Nacional de fútbol, onde muitas foram executadas e muitas mais torturadas.

A principal estratégia econômica da ditadura militar chilena foi adotar, de modo agressivo, a economia de livre mercado. Essa política, que passou a ser implantada a partir da segunda metade dos anos 70 e foi intensificada ao longo da década de 80 serviu como o tubo de ensaio do que depois se convencionou chamar de neoliberalismo. Aliás, o papa da teoria neoliberal, o americano Milton Friedman, foi conselheiro do general Pinochet.

Antes de deixar o poder, o general Augusto Pinochet transportou a sede do Congresso Nacional -- que esteve fechado durante a maior parte dos 17 anos de ditadura pinochetista -- para a cidade litorânea de Viña del Mar, a 125 km de Santiago.

O presidente, a partir de 1990, ficaria em Santiago, a capital, com a Cordilheira dos Andes à margem. Os congressistas passaram a trabalhar numa edificação pomposa de Viña, com o oceano Pacífico ao lado.

Desde então, o Chile intensificou o modelo neoliberal, idealizado e costurado pelos chilenos e americanos nos cargos do governo Pinochet (1973-1990). Mesmo sendo governado por diferentes líderes desde 90, todos pertenceram ao mesmo partido, la Concertación de Partidos por la Democracia, que agregou 17 partidos pela democracia.

A despolitização, defendida a ferro e fogo pelos donos do poder, é forte no Chile do século XXI. Os anos 90 não fizeram bem a ninguém, especialmente na América Latina. Ainda assim, o Chile foi o primeiro país da região a eleger uma mulher como presidente, Michelle Bachelet, em 2006.

Os jornais chilenos, ao longo do feriado de carnaval, destrinchavam o plano de estímulo econômico que Bachelet quer colocar em prática, como forma de resistir aos piores efeitos da enorme crise econômica mundial que explodiu no centro do capitalismo, os Estados Unidos.

É nesse período de crise nos EUA, que foram tão importantes para formar essa geração de chilenos pós-73 (e especialmente a década de 90), que veremos como se dará um novo capítulo da história de transformações políticas e sociais no Chile.

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Indico os três livros sobre política chilena que ganhei e adquiri nos dias que passei por lá no começo deste ano.

> Balmaceda - por Joaquim Nabuco, numa edição linda da Cosaic Naify.

> Operación Siglo XX - Patrícia Verdugo y Carmen Hertz, numa edição da Ornitorrinco, comprada numa libreria perto do Terminal Rodoviário de Valparaíso, na segunda-feira 23 de fevereiro.

> Los EEUU y el derrocamiento de Allende - de Peter Kornbluh, da Ediciones B, sobre a participação dos americanos no golpe de 73

***
Este artigo foi escrito no dia 24 de fevereiro, entre o voo de volta para São Paulo e o expediente normal de terça-feira pós-carnaval, sendo finalizado, olha só, às 16h54 daquele dia.

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O Chile realiza amanhã suas eleições gerais.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Ares chilenos

O Chile realiza eleições, neste fim de semana, para definir quem será o sucessor de Michelle Bachelet na presidência. Estou numa correria danada, o que me impede de explorar o assunto de uma forma decente.

Estive no Chile, mais precisamente Santiago, Valparaíso e Viña del Mar, no começo do ano. Quando voltei, cheguei a escrever um artigo expositivo sobre a política chilena, juntando reflexões frescas acerca do que consegui estudar no pouco tempo de viagem. Por alguma razão, deixei o artigo na gaveta do Blog, sem nunca ter publicado. As eleições me lembraram dele.

Antes de publicá-lo -- no que farei num post separado deste -- deixo aqui uma pequena besteira, típica de blogueiro em fim de ano: abaixo vai uma foto do titular deste Blog, num cruzamento (não me pergunte qual) em Santiago, fevereiro de 2009.


Publico o texto sobre a política chilena amanhã. Fiquem espertos.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Os dançarinos

Algo que sempre me intrigou, desde pequeno, foi a destreza com que homens e mulheres dançarinos deslizavam por palcos e tablados. Nunca fui, no entanto, ligado em dança, é preciso avisar. Desconheço técnicas e tradições. Minha relação com a arte é de um leigo interessado: reconheço gestos, percebo talentos e me deslumbro com uma coleção de movimentos bem articulados.

Sempre tive comigo que os maiores, os gênios da coreografia criativa -- aqueles que criaram métodos, inventaram escolas e motivaram muitos à copiarem -- foram Fred Astaire, Michael Jackson e Pina Bausch. Claro, a inclusão de MJ na lista sempre causou polêmica aos ouvidos dos mais "cultos", mas isso, sempre tive comigo, é uma frescura deslavada de gente que não aceita colocar alguém tão relacionado com a indústria cultural norte-americana do século XX numa lista dos maiores.

Graças ao amigo Fabio Cypriano, pude assistir ao ensaio final do grupo de Pina, Tanztheater Wuppertal, antes da série de quatro apresentações que fizeram no Teatro Alfa, em São Paulo, no começo de setembro. Foram as primeiras apresentações do Wuppertal sem Pina, que falecera pouco antes (30 de junho). O espetáculo, que unia duas de suas mais ricas obras, "Café Müller" e "A Sagração da Primavera" foi uma das coisas mais incríveis de se ver.

Lembro de um trecho do texto de Helena Katz publicado no programa de "Ifigênia in Tauris" do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1997. Ele define, para mim, a arte de Pina:


As danças de Pina não exibem o virtuosismo habitualmente avaliado pela quantidade ou a velocidade de piruetas e grandes saltos. Seus bailarinos fazem aula de balé clássico, mas precisam saber construir movimentos distantes do clichê. Às vezes cantam, às vezes choram, gritam, falam, se atiram, usam linguagem de sinais, ajudam-se a andar pelas paredes, nadam sem água, homens se vestem de mulher. O palco pode estar coberto de terra, de água, por cravos, por doze pianos, com o esqueleto de um navio, ou pelos escombros de um muro que desaba logo na primeira cena. A força das imagens que Pina Bausch produziu com seus sempre muito bem escolhidos intérpretes perturba, desconcerta.

De Fred Astaire, dentre todos os filmes e imagens que vi, a mais genial foi a de Royal Wedding (Núpcias Reais, de Stanley Donen, 1951), em que Astaire sapateia pelas paredes, subindo ao teto pelo simples deslizar dos pés, enquanto os braços movem-se como se fizessem parte de outro corpo.

Lorenzo Mammì, professor de filosofia na USP, descreveu de maneira certeira o dançarino-coreógrafo que, recentemente, foi (felizmente) relembrado, quando da morte de Michael Jackson. Vejam a descrição de Mammì e, para quem só conhece MJ, com certeza vai se confundir. O texto pode ser aplicado, quase integralmente, aos dois, Astaire e Jackson.


O milagre de Fred Astaire foi ter conseguido conciliar esses dois ideais aparentemente contraditórios da revolução burguesa: a dança como liberação do indivíduo e como trabalho, atividade produtiva. Sua obsessão pelos ensaios é mítica: qualquer gesto, não apenas os passos de dança, era repetido à exaustão. Seu corpo, objetivamente, era desgracioso: pernas muito magras, ombros caídos, mãos enormes, e aquela estranha cabeça. Mas foi reduzido à elegância pelo controle ferrenho de cada detalhe: a maneira de colocar a mão no bolso, por exemplo, ou a forma muito peculiar como gesticulava (Astaire nunca estendia completamente os dedos, desproporcionalmente longos, a não ser quando dançava). Tudo, nele, é evidentemente artificial, sem jamais se tornar afetado. Por um processo que ainda não foi explicado até o fim, e talvez seja inexplicável, esse esforço extraordinário de autocontrole se transforma nas maiores leveza e naturalidade já vistas numa tela de cinema.


De Michael Jackson, bem ao estilo over the top que lhe foi peculiar, deixo um vídeo, meu preferido, como definição de sua arte. Em apresentação surpresa, durante programa ao vivo na MTV, em 1991, Michael Jackson surge interpretando "Dangerous".

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Amante de arte que sou, nunca tive com a dança o contato que tenho com cinema, música e teatro, onde posso defender meus pontos de vista de maneira mais criteriosa, embasada por conhecimento.

Mas para estes três dançarinos nunca precisei de conhecimento maior para cravar que são gênios da raça.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sobre as chuvas em São Paulo

Convido os leitores do Blog a lerem o artigo "Gira mondo, gira", do Flavio Gomes, jornalista esportivo (ESPN) e blogueiro.

Para ler o texto, clique aqui.

Mais um muro

Exatamente um mês atrás, publiquei post aqui que dizia, no auge das recordações quanto à queda do muro de Berlim (09/11/1989), que ainda existem muros a serem derrubados. Tratei, particularmente, do muro levantado por Israel para isolar a Cisjordânia -- território da Jordânia ocupado por palestinos expulsos de sua terra.

Nos comentários, o leitor Fernando Romano atentou para outros muros: o que separa as favelas cariocas e o que divide a fronteira americana com o México. Todos, como o israelense, construído pelo poder para arrasar e separar homens de homens.

Hoje, o Harretz -- jornal israelense (de alto nível, diga-se) -- acaba de informar que o Egito inicia a construção de um muro na fronteira com a faixa de Gaza. O imenso muro de aço terá de 9 a 10 metros. A justificativa egípcia é "evitar a construção de túneis palestinos ao Egito". Por isso, além do muro "tradicional" (acima do solo), o muro egípcio terá de 20 a 30 metros de aço abaixo da terra.

A faixa de Gaza é uma tripa, um pedaço de terra falida que agrupa centenas de milhares de palestinos em condições subhumanas de subsistência. A entrada de comida, bebida, remédios, tecidos, combustíveis é controlada pelo exército de Israel. Tudo que entra -- porque nada sai -- em Gaza passa por Israel. A exceção, nos últimos tempos, têm sido os túneis, construídos, em boa parte, por gente do Hamas, a agremiação política radical dos palestinos, maioria em Gaza.

Os palestinos, além da divisão territorial -- uma parte em Gaza, outra na Cisjordânia (além de tantos outros espalhados em diversos países da região) -- são também divididos politicamente entre os moderados do Fatah e os radicais do Hamas. A ideia de que "união faz a força" já foi descartada há tempos. Desde os anos 30, quando os principais líderes árabes foram assassinados (sobre isso, leia esta obra-prima), os palestinos são um povo sem liderança unitária -- Yasser Arafat, antes da moderação dos anos 80-90, talvez seja uma exceção -- e constantemente desgraçados.

Os túneis, dizem os governantes egípcios (e principalmente o governo de Israel), servem para contrabandear armas da Síria e do Irã. Servem, também, para trazer mantimentos básicos que faltam à Gaza. Uma coisa não justifica a outra, mas é sempre bom lembrar que os túneis não servem apenas ao "terrorismo", segundo denominação norte-americana.

Seja como for, abandonar o diálogo e levantar um muro é uma coisa impressionantemente animalesca. De um lado, o povo é cortado por um muro cercado (na Cisjordânia). Agora, do outro lado (Gaza), também.

Muros são excrecências. Todos devem ser derrubados. Homens são homens.

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Evo reeleito na Bolívia

A semana começa com uma notícia importante: Evo Morales, atual presidente da Bolívia, foi reeleito nas eleições realizadas ontem. Seu primeiro governo, entre 2006 e 2009, realizou mudanças importantes -- programas de renda mínimo, ampliação dos direitos indígenas, fortalecimento da política externa -- e passou por alguns apertos (como a enorme campanha mundial anti-nacionalizações, em 2006, ou a tentativa de assassiná-lo, no fim de 2008).

O segundo governo será importantíssimo, especialmente pelos desafios que terá de contornar. Os apelos e anseios da oposição, encastelada nos bairros ricos de Santa Cruz, o centro "empresarial" do país mais pobre da América Latina, ainda que em baixa, tendem a ganhar força em 2011, depois de passado o primeiro ano pós-vitória eleitoral. Além disso, Evo ganhará pressão à esquerda e à direita.

À esquerda porque, por solidificar seu nome como líder boliviano, receberá chamados por todo lado para ampliar seu poder no país. Se conseguir resistir à força do continuísmo, Evo, ao mesmo tempo, desarticulará a pressão da direita (interna e externa), que ficará sem discurso.

Seja como for, seu maior desafio continua o mesmo: governar o país mais pobre de uma região pobre.

***
No começo do ano, escrevi um texto que analisava alguns avanços do governo Evo Morales na Bolívia. O texto foi publicado no Óleo do Diabo e, pouco depois, republicado aqui.

Mais tarde, à pedidos da amiga Fabiana Nanô, o artigo foi ampliado e traduzido para o francês, (agora "Le Bolivie Moderne"), para publicação na edição número 04 do Le Journal International, feito pelos estudantes da Universidade de Lyon. O jornal, com ajuda da Région Rhône-Alpes, da Université de Lyon 2, e da Ville de Lyon, é vendido nas bancas do município e, segundo Guillaume, editor-chefe e amigo da Nanô, está começando a ganhar visibilidade no mundo acadêmico-estudantil por lá.

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Na semana passada, o amigo Marcos de Moura e Souza, escreveu três ótimas reportagens sobre a Bolívia no Valor, após ter passado um tempo por lá.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Domingo

Se tem algo acontecendo, eu escuto. Eu gosto de conversar com as pessoas, de socializar. Televisão é uma perda de tempo. O que importa é o contato humano.

Nassim Nicholas Taleb, economista indiano, que raramente lê jornais e não assiste TV. Foi dos poucos que publicou um livro indicando que existiam problemas no sistema antes da crise.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Na torcida por Bortolotto e Carcarah

Este é um sábado todo errado.

Vi, com atraso, que Mário Bortolotto e seu amigo Carcarah, foram baleados nesta madrugada no Espaço dos Parlapatões, na Praça Roosevelt, centro de São Paulo. Bortolotto éum dos melhores dramaturgos contemporâneos brasileiros. E põe contemporâneo nisso. Além de escrever, dirigir e atuar (nas suas e, ocasionalmente, nas peças de outros dramaturgos), Marião é vocalista de uma banda de rock, a Sacos de Ratos, e toca, há anos, um dos melhores blogs da internet, o Atire no Dramaturgo.

Acompanhar Bortolotto, no blog, é das coisas mais sensacionais. Seu estilo de vida, seus amigos, suas ideias, suas peças, está tudo lá, permeado por seu estilo despojado e, permitam-me, pouco se lixando, de escrever. Foi lá, no Atire no Dramaturgo, que conheci Carcarah, que é desenhista, ator de muitas peças do Bortolotto e DJ das festas em que o Sacos de Ratos se apresentam. O texto é tão intimista que, depois de algum tempo, você começa a achar que conhece, de fato, os amigos do Bortolotto.

Os dois, segundo consta, foram assaltados e receberam tiros de dois rapazes. Carcarah levou dois tiros nas pernas, enquanto Bortolotto, ainda em estado grave (e, neste exato momento, passando por mais uma cirurgia), levou três balas.

Isso é algo totalmente bizarro. Os rapazes devem ser doentes porque, no bar, surpreenderam Bortolotto e atiraram nele. Pensem bem, os caras atiraram no dramaturgo -- como clama o blog do Márião. Tem coisa aí.

Sábado que termina em suspense. Este Blog torce, apreensivo e triste, para que tudo acabe bem.

***
Atualização de domingo, 20:55

O leitor Raphael Tsavkko avisa, na caixa de comentários, que agora, às 21h, ocorre um ato público em homenagem ao Bortolotto, lá na praça Roosevelt, entre o Espaço dos Satyros e o Espaço dos Parlapatões.

O Blog continua torcendo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Fim de expediente

Para terminar a semana corrida que foi, aí vai um bluesão, com toques pesados à cargo do AC/DC, uma das cinco melhores bandas da história do rock.

Tive o privilégio -- como apreciador de boa música e fã dos caras -- de conferir o show do AC/DC na sexta passada, num Morumbi lotado com mais de 70 mil pessoas (e eu, correndo do fechamento do jornal, consegui chegar atrasado, no começo da terceira música).

Abaixo, "Down Payment Blues", segunda música do Powerage (1978), meu preferido da fase Bon Scott, que foi o primeiro vocalista, morto em 1980. Bon foi substituído por Brian Johnson -- famoso pela boina na cabeça e pela voz estridente -- que já chegou com tudo em Back in Black (1980), o segundo disco mais vendido da história da indústria fonográfica, atrás apenas de Thriller (1982), de Michael Jackson.

A versão abaixo, gravada em 1996, é com Brian cantando essa maravilha da lavra dos irmãos Angus e Malcolm Young.

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Que coisa sensacional que foi ver de "perto" a loucura de Angus Young na semana passada. Os mesmos trajes clássicos (o uniforme de estudante), a mesma cara de maluco, os mesmos trejeitos. Uma maravilha.

Bom fim de semana à todos.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Das pequenas histórias

Estava eu, ontem pela manhã, no saguão do auditório Serasa Experian, por volta das 8h30min, meia hora antes do início de um seminário sobre perspectivas para a economia brasileira em 2010. Como estava cedo, resolvi passear, enquanto as pessoas chegavam.

O saguão, amplo, era cortado por duas longas mesas com pequenos lanches, café e leite. Mais à frente, antes da escada que leva ao auditório, uma bancada com vários copos (daqueles de plástico) com água gelada. Peguei um e me apoiei sobre o corrimão inferior da escadaria. Aí começou a luta para tirar a tampinha de papel-alumínio, totalmente colada que estava no copinho plástico.

Encosta, ao meu lado, um senhor, corpo esguio, mas corpulento. Ajeitado num terno impecável, cinza escuro. "Preciso me apoiar em algo. A idade já não ajuda como antes", comentou, enquanto apoiava as costas no corrimão da escada. Ficou ao meu lado.

"Não é fácil abrir essas coisas. Principalmente quando estamos com sede", comentei, enquanto me debatia na luta para abrir o copo. Ele fitava o copo, quase que torcendo. Finalmente consegui, e então ele começou: "Tenho 72 anos, mas quando tinha 34, 35, ou seja, quase 40 anos atrás, vivi minha melhor fase. Era criativo, meus dois filhos tinham acabado de nascer e nós passeávamos muito". Parou por um instante, levantou os braços e perguntou se poderia pegar o copo. Parecia querer demonstrar algo. "Claro", disse à ele.

"Naquela época, começo dos anos 1970, o iogurte era muito mais espesso que é hoje. E vinha num copo como esse, longo, com tampinha em papel-alumínio. Só dava para comer em casa, porque precisava de colher, guardanapo, tudo o mais. Quando iamos passear no parquinho com as crianças, tinhamos de levar tudo", me contou. "Então", disse ele, segurando o copo d'água na mão, "pensei em fazer uma tampinha que tivesse, no meio dela, um papel mais espesso que, dobrado, formaria uma espécie de pá, que poderia funcionar como colherzinha". Ele contava, ao mesmo tempo em que dobrava a tampinha retirada do copinho de água.

Disse que chegou a patentear a tampa, que foi introduzida no mercado por diferentes companhias, nacionais e revendedoras de importados. Deu um dinheiro bom, disse, mas durou pouco. "A Danone tratou de liquefazer o iogurte. Assim, passou a ser possível beber direto do copo", afirmou, olhando para a tampinha dobrada em sua mão esquerda. Ficou um tempo, não mais que cinco segundos, em silêncio. Levantou os olhos e me devolveu o copo.

"Fui muito criativo. Mas o tempo vai passando e a gente vai perdendo o entusiasmo", finalizou. Nos olhamos, ele sorriu. "Você tem tempo para ser criativo. Na realidade, todos temos, não é?"

Os seminaristas chegaram, tive de descer, no que me despedi, perguntando seu nome de longe. Velloso, disse ele, ainda apoiado no corrimão, enquanto eu descia as escadas rumo ao auditório.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O Irã nuclear

Pessoalmente, não vejo porque condenar a política de enriquecimento de urânio por parte do Irã. Afinal, se EUA e Israel podem, porque o Irã e qualquer outro país também não pode?

Ah, por quê o Irã desrespeita acordos internacionais, diria o incauto.

E os Estados Unidos não desrespeitaram a Organização das Nações Unidas (ONU), em 2002, quando invadiram o Afeganistão, e depois em 2003, quando invadiram o Iraque? E Israel, que cerca um povo -- os palestinos -- na faixa de Gaza, onde a entrada de comida, combustíveis, remédios e tudo o mais é controlado? Isso não é desrespeitar a convenção de Direitos Humanos, aprovada de forma consensual por quase 200 países em 1947?

Acho, claro, um tanto temeroso que Mahmoud Ahmadinejad esteja a frente deste processo. Mas, até aí, num mundo que até o ano passado tinha George W. Bush como chefe da maior economia do planeta, não estou tão nervoso assim.

O sempre preciso Antônio Luiz M. C. Costa acertou em cheio sobre a questão nuclear iraniana. Vejamos o que ele diz:

Considere-se agora a questão nuclear, combinada com a disposição de Teerã de confrontar verbalmente o Ocidente, os EUA e Israel e sua bem avançada tecnologia de mísseis e foguetes. O projeto foi iniciado pelo Xá, com apoio dos EUA e de países europeus que forneceram usinas nucleares e tecnologia de enriquecimento de urânio e de processamento de plutônio, com aprovação de Gerald Ford e seu gabinete, incluindo Dick Cheney e Donald Rumsfeld. Os EUA não fizeram objeções quando Israel, Índia e Paquistão obtiveram armas nucleares e estavam dispostos a aceitar que o Xá as tivesse, como Henry Kissinger veio a admitir. Há razões para aplicar outros pesos e medidas aos aiatolás, que insistem em que seu programa é pacífico. A ameaça iraniana tem sido exagerada, principalmente por Israel, interessado em desviar a atenção do mundo e de seus eleitores do problema palestino


Debater Irã, em 2009, tem sido quase tão dramático quanto debater Venezuela e Chávez no período entre 1999 e 2006. Nas vezes em que arrisquei artigos sobre o Irã, aqui no Blog, especialmente na época das eleições, os posts levantaram debates acalorados.

A verdade é uma só: se é para o Irã ter seu projeto de enriquecimento de urânio assistido por entidades internacionais, também deve ser assim nos EUA e Israel. Principalmente a política externa desses países, vide o que ocorre, desde 2003, no Iraque; e desde sempre nos territórios palestinos ocupados pelos israelenses.
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