Não tem como começar um texto sobre a escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 sem fugir do clichê. Então vamos lá.
Muito se falou da definição do Rio como sede da Olímpiada em 2016. O tema se impôs no noticiário desde o fim da semana passada, tomando páginas e páginas de jornais e revistas, além das rádios, TVs, sites, blogs e a boa e velha conversa de botequim. Não há nada de novo neste texto, caro leitor. Nada do que você vai ler aqui é novo, apenas, digamos assim, é autoral. Direi o que penso e só. A caixa de comentários, como sempre, está aberta para quem discordar.
Achei a escolha do Rio algo extraordinário sobre qualquer ponto de vista. É a emancipação política e social pelo esporte, algo que algumas nações e regiões já vivenciaram e nós ainda não tivemos a chance de ter. Soa clichê, eu sei, mas é fora de série.
O Brasil teve um gostinho disso em 1950, quando, poucos anos antes, levantou toda uma infra-estrutura para receber uma Copa do Mundo. Praticamente não existiam estádios, informações, transporte, hoteis etc. para receber as diferentes comitivas. Tudo foi planejado e colocado em prática em pouquíssimo tempo. O Maracanã simplesmente não existia em 1949. E lá estava ele, um ano depois, recebendo 250 mil pessoas na final entre Brasil e Uruguai. Uma maravilha, que conta com um detalhe pouco lembrado: foi a primeira Copa em 12 anos. Após a competição de 1938, eclodiu a Segunda Guerra Mundial, paralisando as disputas que ocorreriam em 42 e 46.
O retorno da Copa em 1950 era importantíssimo para o futebol e o esporte de uma maneira geral. O Brasil foi exemplar e aquilo serviu para disseminar toda uma modernização político-cultural no país, que já tinha sido iniciada nos anos 20.
[Claro que ninguém aprendeu nada. Catorze anos depois, militares e políticos fascitazinhos descontentes com Jango, financiados pelos EUA e com medinho do comunismo fizeram um golpe de Estado, que fez o Brasil retroceder horrores, massificando a telinha que abstrai e a colonização cultural, assassinando o início da emancipação. Mas isso é outra história.]
O Brasil hoje, início da segunda década do século XXI, está com uma enorme janela de oportunidade aberta diante de si. Desde o fim do ano passado venho batendo nessa tecla aqui no Blog, especialmente na série que escrevi sobre
O Brasil e a crise em abril e nos artigos analisando as eleições de 2010.
Das últimas vezes que tivemos janelas semelhantes, jogamos fora, seja por burrice extrema, seja por interesses internacionais, seja pelos dois. No fim do século XIX, entre as décadas de 1870 e 1890, o Brasil foi o principal receptor de imigrantes, que fugiam da Europa falida pela crise de 1873 (a primeira de muitas...). Além disso, passávamos por uma revolução interna, com disputas ideológicas e políticas, que respingavam na luta social -- ainda que incipiente. O Brasil era o segundo país que mais recebia investimentos estrangeiros no mundo, além de pagar bônus sobre dívida externa menores que boa parte dos países europeus. Perdemos a chance com a incrível falta de capacidade de revelarmos estadistas, especialmente a partir de Prudente de Moraes. O auge desse individualismo retrógrado basbaque foi o governo Campos Salles, campeão mundial de bobagens colonizadas.
Depois, com a reorganização de 1930 e toda a ebulição política, econômica, cultural, social e artística que vivemos entre as décadas de 1920 e 1960, tínhamos um país enorme, que se descobria e conquistava o mundo com futebol, samba, cinema novo, artes plásticas, literatura regional, teatro do oprimido, pensamento intelectual avançado, diplomacia de primeira etc. Tudo aquilo foi assassinado a partir de 1964, sendo o golpe fatal desferido durante os anos Costa e Silva (66-69) e Médici (69-74). Ali, um projeto de país foi imposto e a miopia política desfez nossa possibilidade para salto.
Tivemos, ainda, uma grande janela aberta entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90. O Brasil dispunha de um avançado parque industrial, com organização sindical, experiência econômica e maturidade financeira para entrar de cabeça na fase mais aguda do desenvolvimento tecnológico e a competição entre empresas e países que o mundo viveria após o fim da URSS e o início da hegemonia incontestável dos EUA e do neoliberalismo.
Com Collor, jogamos fora qualquer alternativa de liderança política. Descartamos a política cultural, optando por um joguinho ridículo de "ganha ou ganha" para iniciativa privada nacional e internacional e "perde ou perde" para o Estado. Além disso, a abertura comercial e financeira, necessária, foi feita de qualquer maneira, facilitando o caminho para as empresas e nações desenvolvidas, mais capacitadas para operar num terreno desconhecido pelas nacionais. Com a valorização cambial e taxas de juros nas alturas, a partir do governo FHC -- que, no entanto, acabou com a hiperinflação -- não restava nada ao Brasil senão seguir a cartilha de Washington. Um papelão, mais uma vez.
Agora, pela primeira vez, temos a abertura de uma janela de oportunidade no espaço de uma geração. A mesma geração que viu o Brasil jogar no lixo a chance que se abriu nos anos 80 e início dos 90 vê o país com todas as possibilidades de alçar voos mais altos. Evidentemente, há uma série de fatores aí, o mais relevante deles sendo a grave crise econômica que explodiu nos Estados Unidos, o centro do mundo globalizado.
Os Jogos Olímpicos no Brasil, daqui a sete anos, terão um caráter de emancipação cultural por meio do esporte. Parece ambicioso isso, mas depende de nós -- e não apenas das autoridades -- para que aconteça. [Isso está soando livro de auto-ajuda, me desculpem, mas a mensagem é essa mesma].
Claro que, definido o Rio-2016, já vimos, na mídia e nos botequins, aquele velho discurso maneta de "vai ser uma roubalheira", "o Brasil não está preparado", "aqui não é a Europa" e bla bla bla. Esse pessoal está aí faz tempo. Se deixarem falar, vão querer um novo Campos Salles, uma marchinha ridícula pela famíla e Deus, e, na dúvida, vão ficar com os estrangeiros. O país não vai para frente com esse pensamento retrógrado.
A questão é simples: a Olimpíada será maravilhosa porque o Rio é maravilhoso e o Brasil é o país mais culturalmente rico e preparado para receber todos os gostos, costumes, credos, sexos e tipos. Se temos espaço para gente que vota em Collor e acredita que diploma é sinônimo de inteligência, temos espaço para qualquer tipo de gente.
[Pronto, falei.]