sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Fim de expediente

Para fechar a semana, o mês e entrar de cabeça no feriado e nos últimos dias deste 2009, separei uma joia do Eduardo Gudin. Gudin é dos maiores sambistas do Brasil, craque do samba quietinho, educado e nobre, que tem em Paulinho da Viola outro belo nome.

Este samba de Gudin, "Praça 14 bis" já foi eternizado em diferentes vozes e versões. Na toada Gudin, acho a versão de Leila Pinheiro imbatível: emula o jeito do compositor, numa calma só.

Mas a versão que aqui está para fechar o expediente é um pouco diferente: Dona Inah mandando bala no tradicional Samba da Vela, aqui em SP. A versão de Dona Inah é altiva, cantanda com elegância, mas leva o samba de Gudin para o sambão, distanciando do jeito pé de ouvido que o caracteriza. Não preciso dizer, uma maravilha.



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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

O Bolsa Família e o jornalismo

Um dos melhores textos que li na blogosfera nos últimos dias: a inteligente análise que o Na Prática a Teoria é Outra faz de uma manchete do jornal O Globo sobre o Bolsa Família.

Para ler, clique aqui.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

A incerteza do dólar


O dólar derrete frente a maior parte das moedas do mundo. Nosso real, uma "moeda commodity", é das que mais ganhou valor em relação às verdinhas americanas desde o início do ano. Em 1º de janeiro deste ano, o dólar valia R$ 2,33. Hoje, já bate nos R$ 1,70. Antes da crise, estava em R$ 1,56. Há muita oscilação -- e isso é péssimo -- mas um movimento é inevitável: o real tende à apreciação. Não tem jeito.

A entrada cavalar de capital estrangeiro, conforme já tratava aqui, vai ampliar nosso endividamento em contas correntes, trazendo o câmbio para baixo. Com PIB a 5%, Copa do Mundo, pré-sal, Olimpíada, e tudo o mais, a entrada de investimento estrangeiro em larga escala é algo contratado, com ou sem barbeiragem política.

Uma parcela dos economistas prefere olhar isso de outra maneira. Segundo eles, o que há é uma perda de força do dólar -- diante das pequenas dificuldades que o Tio Sam vem passando -- e, assim, o real fica mais forte do que ficaria.

Afora a batalha pela interpretação correta sobre a valorização do real, fato é que o dólar está, de fato, derretendo nos mercados cambiais e financeiros. A China, o maior detentor de títulos do tesouro americano, morre de medo, claro. A queda do dólar não é de hoje: há tempos surgiram os fundos soberanos, que, ao invés de aplicar no de sempre (títulos dos EUA), passaram a ousar em investimentos em diferentes moedas e países. A China faz isso. Muitos países ricos em petróleo também. O Brasil, no ano passado, chegou a montar um fundo soberano.

Os Estados Unidos, por enquanto, não estão muito preocupados. Eles tem problemas mais sérios, como uma grave recessão econômica para contornar. Mas, passado o momento de crise pesada, eles vão ter um enorme déficit público, um grande déficit externo e uma moeda ainda mais fraca.

Tempos incertos pela frente.

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P.S. Desenho retirado daqui.

domingo, 25 de outubro de 2009

Domingo

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram.
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertam ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que não adianta morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.

Carlos Drummond de Andrade, poeta, 1935.

sábado, 24 de outubro de 2009

350

Hoje é dia internacional da ação climática em quase 180 países. A ideia do dia é chamar a atenção para o aquecimento global, provocado pela crescente emissão de gases que aceleram o efeito estufa, como gás carbônico e metano.

A situação mundial, nesta rota à Cúpula de Copenhague (CoP-15), é alarmante. A concentração atual de carbono é por volta de 390 partes por milhão (p.p.m.). Há uma aceleração absurda, visto que, no período pré-revolução industrial era de 270 p.p.m. Essas informações foram conquistadas pelo avanço da ciência que, além de mapear as emissões de hoje e do passado, consegue prever o limite até o aquecimento sem saída: 440 p.p.m.

A ideia é trazer de volta aos patamares de 350 p.p.m., número que conseguiria equilibrar um volume tal de emissões com segurança climática, quer dizer, sem aquecer o mundo.

Por isso, o número chave de 350 para o dia.

No Brasil, teremos ações em Brasília -- ativistas compõe o número 350 em frente ao Congresso Nacional -- em Belo Horizonte -- no Mineirão antes do jogo entre Atlético e Vitória -- e em São Paulo. No exterior, teremos (e já tivemos) manifestações de alpinistas no alto do Himalaia e de mergulhadores na Grande Barreira de Corais da Austrália. Na Hungria, banhistas vão saltar nos banhos públicos em Budapeste para uma performance sincronizada. No Nepal, jovens e monges vão marchar até o templo de Swayambhunath e formar o número 350 com lanternas tradicionais.

A atenção mundial começa aos poucos a sintonizar o CoP-15.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Livro quase pronto

O livro que estou escrevendo com o amigo Filippo Cecilio tem de estar na gráfica até o dia 03 de novembro, uma terça-feira. Assim, temos treze dias para finalizá-lo. Na prática, ele deve ser fechado antes disso: precisa ser revisado e diagramado. Isso é o que está começando.

São 07 capítulos, que tratam da mercantilização cultural brasileira a partir de 1990. No primeiro, apresentamos o tema por meio da discussão teórica que está em jogo. Quer dizer, falamos de ideologia e globalização. No segundo, entra em jogo a questão da hegemonia, a luta que se dá no campo das ideiais para dominar e convencer os dominados (ou subalternos, segundo a terminologia gramsciana). Dito isso, partimos, no terceiro capítulo, para uma rápida rediscussão da formação política e econômica brasileira a partir do modernismo cultural. Ou seja, é um apanhado histórico que traça um painel entre as décadas de 1920 e 1980.

Uma vez em 1980, entramos no quarto capítulo. Aqui, a discussão é mostrar como estava o Brasil e nossos vizinhos numa época de caos econômico e agitação política. Com o surgimento de Margaret Thather (Inglaterra) e Ronald Reagan (EUA), há uma reformulação conservadora dos principios estruturais do sistema. Essas ideias se tornam hegemônicas e chegam ao Brasil com força maior através dos anos naquela década, criticando o Estado, os políticos tradicionais, a velha cultura, o atraso tecnológico.

Isso desemboca nas eleições de 1989, que passa a representar a inserção -- ou não -- do Brasil no mundo neoliberal de Reagan e Thatcher. Este é o debate do quinto capítulo. Com Fernando Collor, a partir de 1990, vemos o desmonte do Estado, seja por meio das privatizações, seja pela desativação, pura e simples, de empresas e órgãos estatais, como as agências que financiavam e distribuiam cultura (Embrafilme e Funarte, por exemplo). No processo, até o Ministério da Cultura foi extinta. Collor caiu, FHC entrou em campo com a equipe de intelectuais formados em universidades americanas e inglesas e, com o Real e a vitória em 1994, mantém e amplifica o projeto de "modernizar" o Brasil.

O Estado e a política cultural que ficou no pós-Collor é o tema de análise do sexto capítulo, onde a Lei Rouanet e a glorificação das empresas privadas aparecem. As manifestações culturais, agora nas mãos das empresas, passam a se concentrar nos grandes centros urbanos, onde o poder aquisitivo é maior (portanto, o lucro decorrendo de qualquer iniciativa cultural) e os ganhos de imagem (marketing) são mais relevantes. O Estado, sem qualquer interferência, assiste impassivo esse processo, que já se encontra consolidado hoje, início do século 21.

No sétimo e último capítulo, analisamos a mercantilização cultural da sociedade brasileira de uma perspectiva mais aproximada, verificando o caso da MTV no Brasil -- que estreou, coincidentemente, em 1990 -- como baluarte para a importação e reprodução de valores americanos de sociedade, comportamento e consumo.

O livro está escrito. Iniciado no fim de janeiro, um projeto de 09 meses (a piada infame de comparar com um parto já não tem mais graça para este blogueiro) está, no entanto, longe de ser concluído.

Precisa, ainda, ser revisado e diagramado. E o prazo, como disse, está aí a nos afogar.

Mas estamos muito bem assessorados para o que resta. Contamos com o fino da bossa, duas das melhores profissionais em suas funções. A Adriane Piscitelli cuida da revisão e a Mariana Metidieri do projeto gráfico.

Enquanto a loira ataca na revisão das quase 200 páginas, a Mari já trabalha em cima de um projeto gráfico maravilhoso, a começar pela capa e contracapa, que está de arrepiar.

Aguardem que no dia 23 de novembro, às 21 horas na PUC-SP teremos a banca.

Estão todos convidados.

domingo, 18 de outubro de 2009

Domingo

"Os rapazes brasileiros são muito diferentes dos americanos, sem dúvida -- amantes dos 14 anos em diante, mais ou menos. Eles sabem tudo de l'amour, mas não têm a menor ideia de como fazer a cama. Ou limpar os sapatos, ou de como ganhar dinheiro -- ou quanto custa viver -- ou como é a vida real da sua empregada. De fato, eles nem veem a classe pobre como gente, e ainda acham que são comunistas."

Elizabeth Bishop, poeta americana, em carta a Robert Lowell. Rio de Janeiro, terça-feira, 26 de maio de 1963.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Fim de expediente

Depois de tanto tempo sem um Fim de expediente aqui no Blog, nada melhor que mandar bala num "clássico da internet": Max Gonzaga e seu grupo Marginal, atacando de "Classe Média", música de 2005 que explodiu na internet.


Gonzaga apresenta crítica direta em composição fina, que trata dos vícios sociais da classe média urbana brasileira, isto é, moradores do Rio e São Paulo. Uma maravilha só, diga-se.


A música foi colocada no youtube em maio de 2006. De lá para cá, a música foi tema de posts em diferentes blogs, virando um clássico da internet. Ao todo, quase 2.5 milhões de page views no youtube.


Para fechar o expediente da semana, Max Gonzaga e a banda Marginal.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2009

O Brasil para os investidores estrangeiros

O país está ficando altamente atrativo: não somos mais viciados em juros altos -- embora eles continuem elevados e com tendência de alta (!) -- mas temos muito o que apresentar para os investidores estrangeiros. Temos pré-sal, Copa do Mundo, Olimpíada e todos os projetos do em torno dessas datas, quer dizer, infraestrutura, logística, habitação etc. Além disso, temos uma Bolsa de Valores sedenta por capital externo, como o IPO do Santander, na semana passada, deixou claro.

Mas alguns números deixam claro como estamos, na realidade.

De janeiro a setembro, o ingresso de recursos pela balança comercial (exportações menos importações) foi de US$ 8,2 bilhões. O investimento estrangeiro direto (IED) significou US$ 16 bilhões. E a aplicação em ações e títulos públicos bateu US$ 17 bilhões.

A tendência é entrar cada vez menos pelo comércio, uma vez que nossas exportações se concentram em bens primários agrícolas e nossas importações explodem em volume e diversificação. Assim, restará ao IED, à Bolsa e aos juros segurar nossas contas.

Contas essas que, cada vez mais, vão ficando deficitárias. Neste ano, nosso déficit em transações correntes -- que soma todas nossas trocas internacionais -- será o equivalente a 1,2% do PIB. No ano que vem, deve passar de 2%. Para pagar essa conta, os dólares do IED, da Bolsa e dos juros terão de ser elevados.

Eles serão, garante o mercado. E, até certo ponto, eles estão certos. Apenas em 2009, ano de crise brava, devem entrar uns US$ 25 bilhões como investimento estrangeiro direto. No ano que vem, essa modalidade deve alcançar US$ 40 bilhões, aumentando ainda mais nos próximos anos. Ao mesmo tempo, a Bolsa deve puxar muito capital, uma vez que os emergentes estão "bombando" e, como o crédito bancário no Brasil é um absurdo, as empresas cada vez mais querem abrir capital na Bolsa para poderem se financiar.

E, como se não bastasse, o Banco Central -- impulsionado por analistas de mercado que veem risco de inflação em tudo que se move -- acena com elevação dos juros Selic já no primeiro semestre do ano que vem.

Será uma situação linda para os estrangeiros: projetos mil, Bolsa em alta e juros nas alturas.

Viva o Brasil, minha gente.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Considerações sobre o caso "MST-mídia"

Na última sexta-feira, finzinho de expediente pré-fim de semana prolongado, publiquei aqui no Blog a carta assinada pela direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Tratava-se da resposta do movimento social de luta pela reforma agrária mais famoso do mundo sobre o mais recente escândalo envolvendo suas atitudes: a destruição da fazenda da Cutrale, maior produtora de sucos de laranja do Brasil.

A direção do MST afirmava, na carta, que a destruição de plantações, de máquinas e tratores, além de saques na fazenda da empresa, no interior de São Paulo, não tinha sido feita por membros do movimento -- segundo o MST, a fazenda foi deixada praticamente intacta pelas famílias.

É um lado da história.

O outro, de que tudo que foi feito, foi feito por gente do MST, o lado da Cutrale, foi amplamente divulgado na mídia -- jornalões, rádios e TVs -- desde que o episódio veio à tona, no meio da semana.

É preciso investigação federal, com acompanhamento do Ministério Público federal, para chegarmos numa conclusão, seja ela qual for. Antes disso, escolher lado é definir ideologicamente o que pensa sobre um caso em aberto. Sem saber o que aconteceu, dizer que o MST é "criminoso" significa, claramente, ignorar qualquer prova ou justificativa. Significa operar políticamente.

O Blog, na sexta-feira, nada fez que o basilar exercício do jornalismo. Diante de fatos inconclusivos, dar os dois lados. Como o lado da Cutrale foi amplamente divulgado, restou ao Blog divulgar a resposta encaminhada pela direção nacional do MST. E com uma ressalva, no finzinho do post, para que os leitores deste espaço ficassem alertas para as revistas semanais.

O resultado, como se esperava, passou longe do jornalismo. Com todo o respeito.

A reportagem da revista Veja simplesmente ignora o outro lado -- a única exceção é uma frase (uma!) de um "líder local do MST". A história é apresentanda da pior maneira: a reportagem antes de reportar alguma coisa, está opinando sobre o caso. Apenas nas duas primeiras páginas, uma série de adjetivos podem ser encontrados: "pura malandragem", "vândalos", "repugnante", "organização criminosa".

Incorre no mesmo erro de uma reportagem que aceite acriticamente os argumentos do MST, que ataque a Cutrale sem provas de crimes supostamente praticados pela empresa.

Atacar o MST ou a Cutrale, sem qualquer prova ou evidência do que aconteceu, e, ainda por cima, ignorar as justificativas de lado a lado não é jornalismo, mas política. Claro, jornalismo é também política e este blogueiro não é ingênuo. Mas não deixa de ser um acinte que o jornalismo de reportagem, que nada mais é do que o bom texto que amarra as impressões do(s) repórter(es) acerca de algo que ele viu, ouviu, checou e refletiu, seja jogado no lixo por um texto que poderia tranquilamente ser vendido por editorial.

domingo, 11 de outubro de 2009

Domingo

Quem tem dinheiro tem condições de mobilizar a imprensa, fazer propaganda para dizer que a população está sendo prejudicada, que o beneficiário é o prejudicado pela CPMF. Não existe opinião pública. O que existe é opinião publicada que forma a opinião pública.

Adib Jatene, médico, em entrevista recente.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Direito de resposta: caso MST-Cutrale

Durante a semana, as imagens da fazenda Santo Henrique, em São Paulo, destruída supostamente por integrantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) ocuparam espaços em telejornais (das TVs abertas e fechadas), páginas e mais páginas de jornais e, certamente, receberão uma atenção daquelas das revistas semanais, que chegam entre hoje e amanhã às bancas.

Todos sabemos como o MST é tratado na mídia, independentemente da opinião que se tenha sobre o movimento e suas práticas. Pouco, no entanto, é falado sobre as causas e lutas do MST. Claro, todos sabem que o movimento luta pela reforma agrária. Mas isso é um tanto abstrato, não?

Fato é que, sobre os acontecimentos dessa semana, a direção nacional do MST resolveu se pronunciar e enviou, por meio de seu boletim à imprensa, uma mensagem que responde às acusações ventiladas na mídia.

Reproduzo abaixo o documento, que deve ser lido com atenção. Repito: para fomentar um debate de alto nível é crucial ouvir os dois lados, independentemente de concordar ou não, é preciso conhecer as motivações e explicações de todos os envolvidos.

O Blog, então, abre espaço para a resposta do MST.

Diante dos últimos episódios que envolvem o MST e vêm repercutindo na mídia, a direção nacional do MST vem a público se pronunciar.

1. A nossa luta é pela democratização da propriedade da terra, cada vez mais concentrada em nosso país. O resultado do Censo de 2006, divulgado na semana passada, revelou que o Brasil é o país com a maior concentração da propriedade da terra do mundo. Menos de 15 mil latifundiários detêm fazendas acima de 2,5 mil hectares e possuem 98 milhões de hectares. Cerca de 1% de todos os proprietários controla 46% das terras.

2. Há uma lei de Reforma Agrária para corrigir essa distorção histórica. No entanto, as leis a favor do povo somente funcionam com pressão popular. Fazemos pressão por meio da ocupação de latifúndios improdutivos e grandes propriedades, que não cumprem a função social, como determina a Constituição de 1988.

A Constituição Federal estabelece que devem ser desapropriadas propriedades que estão abaixo da produtividade, não respeitam o ambiente, não respeitam os direitos trabalhistas e são usadas para contrabando ou cultivo de drogas.

3. Também ocupamos as fazendas que têm origem na grilagem de terras públicas, como acontece, por exemplo, no Pontal do Paranapanema e em Iaras (empresa Cutrale), no Pará (Banco Opportunity) e no sul da Bahia (Veracel/Stora Enso). São áreas que pertencem à União e estão indevidamente apropriadas por grandes empresas, enquanto se alega que há falta de terras para assentar trabalhadores rurais sem terras.

4. Os inimigos da Reforma Agrária querem transformar os episódios que aconteceram na fazenda grilada pela Cutrale para criminalizar o MST, os movimentos sociais, impedir a Reforma Agrária e proteger os interesses do agronegócio e dos que controlam a terra.

5. Somos contra a violência. Sabemos que a violência é a arma utilizada sempre pelos opressores para manter seus privilégios. E, principalmente, temos o maior respeito às famílias dos trabalhadores das grandes fazendas quando fazemos as ocupações. Os trabalhadores rurais são vítimas da violência. Nos últimos anos, já foram assassinados mais de 1,6 mil companheiros e companheiras, e apenas 80 assassinos e mandantes chegaram aos tribunais. São raros aqueles que tiveram alguma punição, reinando a impunidade, como no caso do Massacre de Eldorado de Carajás.

6. As famílias acampadas recorreram à ação na Cutrale como última alternativa para chamar a atenção da sociedade para o absurdo fato de que umas das maiores empresas da agricultura -- que controla 30% de todo suco de laranja no mundo -- se dedique a grilar terras. Já havíamos ocupado a área diversas vezes nos últimos 10 anos, e a população não tinha conhecimento desse crime cometido pela Cutrale.

7. Nós lamentamos muito quando acontecem desvios de conduta em ocupações, que não representam a linha do movimento. Em geral, eles têm acontecido por causa da infiltração dos inimigos da Reforma Agrária, seja dos latifundiários ou da polícia.

8. Os companheiros e companheiras do MST de São Paulo reafirmam que não houve depredação nem furto por parte das famílias que ocuparam a fazenda da Cutrale. Quando as famílias saíram da fazenda, não havia ambiente de depredações, como foi apresentado na mídia. Representantes das famílias que fizeram a ocupação foram impedidos de acompanhar a entrada dos funcionários da fazenda e da PM, após a saída da área. O que aconteceu desde a saída das famílias e a entrada da imprensa na fazenda deve ser investigado.

9. Há uma clara articulação entre os latifundiários, setores conservadores do Poder Judiciário, serviços de inteligência, parlamentares ruralistas e setores reacionários da imprensa brasileira para atacar o MST e a Reforma Agrária. Não admitem o direito dos pobres se organizarem e lutarem.

Em períodos eleitorais, essas articulações ganham mais força política, como parte das táticas da direita para impedir as ações do governo a favor da Reforma Agrária e "enquadrar" as candidaturas dentro dos seus interesses de classe.

10. O MST luta há mais de 25 anos pela implantação de uma Reforma Agrária popular e verdadeira. Obtivemos muitas vitórias: mais de 500 mil famílias de trabalhadores pobres do campo foram assentados. Estamos acostumados a enfrentar as manipulações dos latifundiários e de seus representantes na imprensa.

À sociedade, pedimos que não nos julgue pela versão apresentada pela mídia. No Brasil, há um histórico de ruptura com a verdade e com a ética pela grande mídia, para manipular os fatos, prejudicar os trabalhadores e suas lutas e defender os interesses dos poderosos.

Apesar de todas as dificuldades, de nossos erros e acertos e, principalmente, das artimanhas da burguesia, a sociedade brasileira sabe que sem a Reforma Agrária será impossível corrigir as injustiças sociais e as desigualdades no campo. De nossa parte, temos o compromisso de seguir organizando os pobres do campo e fazendo mobilizações e lutas pela realização dos direitos do povo à terra, educação e dignidade.

São Paulo, 9 de outubro de 2009

DIREÇÃO NACIONAL DO MST



O presidente Lula já se posicionou sobre o assunto. Os jornais, rádios e TVs também, ao longo da semana. Agora, fiquem ligados quanto a cobertura das revistas semanais.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sinal dos tempos

A Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) divulgou hoje pela manhã os números de setembro da indústria. Estava tudo lá: vendas recordes devido ao fim do IPI reduzido, produção ainda em queda graças às exportações fraquíssimas, melhora do emprego etc.

Com a suave melhora de setembro, as montadoras brasileiras empregam hoje, ao todo, 121.240 mil trabalhadores. Ainda dez mil trabalhadores a menos que em outubro do ano passado (131 mil) quando a crise se instaurou.

Outro dia, conversando com Ricardo Antunes, ele lembrou que apenas a Volkswagen chegou a ter 144 mil funcionários no Brasil. Hoje, o conjunto das montadoras emprega menos que isso.

Os tempos mudaram.

As grandes fábricas estão ficando cada vez mais nos séculos XIX e XX, dando ao presente XXI uma nova cara para a indústria, mais mecanizada, tecnologicamente avançada e pulverizada pelo globo.

O modo industrial de produção está se deslocando para o setor de serviços. O sindicato do futuro precisa atentar para o call center, o telemarketing. O grande empregador do Brasil de hoje não é a indústria, mas os serviços.

O novo papel do Brasil em Honduras

Na edição mais recente de CartaCapital, a reportagem de capa, assinada por Cynara Menezes, acerta em cheio nesse imbróglio Honduras-Brasil, que alcançou níveis absurdos na mídia nacional. Vejamos o que diz Cynara:

O azar do golpista Roberto Micheletti, instalado no governo de Honduras desde a deposição do presidente Manuel Zelaya, é que a mídia e os analistas conservadores brasileiros têm pouca expressão no mundo. Micheletti deveria ficar comovido com a defesa escancarada dos seus atos e dos da elite que representa vista nos últimos dias aqui. Jornais, rádios e tevês do Brasil beiraram o ridículo pelo contorcionismo verbal e pelo tempo dedicado a pontos secundários do problema. Pretendem justificar a tese de "deposição constitucional" de Zelaya ou prever um desfecho trágico do episódio -- que se mostra cada dia mais improvável. Apesar do esforço da turma que enxergou no refúgio do presidente deposto na embaixada do Brasil mais uma oportunidade para tentar desancar o Itamaraty, não existem eufemismos para golpes de Estado.

Parece claro, ao menos para este blogueiro, que a percepção mundial quanto ao Brasil mudou. A crise econômica -- que bateu forte nos EUA, União Europeia e Japão -- acelerou o processo de emergência de novas forças. Não dá para continuar analisando o Brasil e suas relações com vizinhos, rivais e estratégias nacionais com o mesmo foco que se fazia no passado.

***
O amigo Sérgio Blum tinha me emprestado a tempos, mas a desorganização e a correria do dia a dia me fizeram ouvir apenas recentemente esta maravilha: Oscar Peterson and Joe Pass, um jazz moderno de primeira.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Rio, Olímpiada. Brasil em 2016

Não tem como começar um texto sobre a escolha do Rio de Janeiro como cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016 sem fugir do clichê. Então vamos lá.

Muito se falou da definição do Rio como sede da Olímpiada em 2016. O tema se impôs no noticiário desde o fim da semana passada, tomando páginas e páginas de jornais e revistas, além das rádios, TVs, sites, blogs e a boa e velha conversa de botequim. Não há nada de novo neste texto, caro leitor. Nada do que você vai ler aqui é novo, apenas, digamos assim, é autoral. Direi o que penso e só. A caixa de comentários, como sempre, está aberta para quem discordar.

Achei a escolha do Rio algo extraordinário sobre qualquer ponto de vista. É a emancipação política e social pelo esporte, algo que algumas nações e regiões já vivenciaram e nós ainda não tivemos a chance de ter. Soa clichê, eu sei, mas é fora de série.

O Brasil teve um gostinho disso em 1950, quando, poucos anos antes, levantou toda uma infra-estrutura para receber uma Copa do Mundo. Praticamente não existiam estádios, informações, transporte, hoteis etc. para receber as diferentes comitivas. Tudo foi planejado e colocado em prática em pouquíssimo tempo. O Maracanã simplesmente não existia em 1949. E lá estava ele, um ano depois, recebendo 250 mil pessoas na final entre Brasil e Uruguai. Uma maravilha, que conta com um detalhe pouco lembrado: foi a primeira Copa em 12 anos. Após a competição de 1938, eclodiu a Segunda Guerra Mundial, paralisando as disputas que ocorreriam em 42 e 46.

O retorno da Copa em 1950 era importantíssimo para o futebol e o esporte de uma maneira geral. O Brasil foi exemplar e aquilo serviu para disseminar toda uma modernização político-cultural no país, que já tinha sido iniciada nos anos 20.

[Claro que ninguém aprendeu nada. Catorze anos depois, militares e políticos fascitazinhos descontentes com Jango, financiados pelos EUA e com medinho do comunismo fizeram um golpe de Estado, que fez o Brasil retroceder horrores, massificando a telinha que abstrai e a colonização cultural, assassinando o início da emancipação. Mas isso é outra história.]

O Brasil hoje, início da segunda década do século XXI, está com uma enorme janela de oportunidade aberta diante de si. Desde o fim do ano passado venho batendo nessa tecla aqui no Blog, especialmente na série que escrevi sobre O Brasil e a crise em abril e nos artigos analisando as eleições de 2010.

Das últimas vezes que tivemos janelas semelhantes, jogamos fora, seja por burrice extrema, seja por interesses internacionais, seja pelos dois. No fim do século XIX, entre as décadas de 1870 e 1890, o Brasil foi o principal receptor de imigrantes, que fugiam da Europa falida pela crise de 1873 (a primeira de muitas...). Além disso, passávamos por uma revolução interna, com disputas ideológicas e políticas, que respingavam na luta social -- ainda que incipiente. O Brasil era o segundo país que mais recebia investimentos estrangeiros no mundo, além de pagar bônus sobre dívida externa menores que boa parte dos países europeus. Perdemos a chance com a incrível falta de capacidade de revelarmos estadistas, especialmente a partir de Prudente de Moraes. O auge desse individualismo retrógrado basbaque foi o governo Campos Salles, campeão mundial de bobagens colonizadas.

Depois, com a reorganização de 1930 e toda a ebulição política, econômica, cultural, social e artística que vivemos entre as décadas de 1920 e 1960, tínhamos um país enorme, que se descobria e conquistava o mundo com futebol, samba, cinema novo, artes plásticas, literatura regional, teatro do oprimido, pensamento intelectual avançado, diplomacia de primeira etc. Tudo aquilo foi assassinado a partir de 1964, sendo o golpe fatal desferido durante os anos Costa e Silva (66-69) e Médici (69-74). Ali, um projeto de país foi imposto e a miopia política desfez nossa possibilidade para salto.

Tivemos, ainda, uma grande janela aberta entre o fim dos anos 80 e início dos anos 90. O Brasil dispunha de um avançado parque industrial, com organização sindical, experiência econômica e maturidade financeira para entrar de cabeça na fase mais aguda do desenvolvimento tecnológico e a competição entre empresas e países que o mundo viveria após o fim da URSS e o início da hegemonia incontestável dos EUA e do neoliberalismo.

Com Collor, jogamos fora qualquer alternativa de liderança política. Descartamos a política cultural, optando por um joguinho ridículo de "ganha ou ganha" para iniciativa privada nacional e internacional e "perde ou perde" para o Estado. Além disso, a abertura comercial e financeira, necessária, foi feita de qualquer maneira, facilitando o caminho para as empresas e nações desenvolvidas, mais capacitadas para operar num terreno desconhecido pelas nacionais. Com a valorização cambial e taxas de juros nas alturas, a partir do governo FHC -- que, no entanto, acabou com a hiperinflação -- não restava nada ao Brasil senão seguir a cartilha de Washington. Um papelão, mais uma vez.

Agora, pela primeira vez, temos a abertura de uma janela de oportunidade no espaço de uma geração. A mesma geração que viu o Brasil jogar no lixo a chance que se abriu nos anos 80 e início dos 90 vê o país com todas as possibilidades de alçar voos mais altos. Evidentemente, há uma série de fatores aí, o mais relevante deles sendo a grave crise econômica que explodiu nos Estados Unidos, o centro do mundo globalizado.

Os Jogos Olímpicos no Brasil, daqui a sete anos, terão um caráter de emancipação cultural por meio do esporte. Parece ambicioso isso, mas depende de nós -- e não apenas das autoridades -- para que aconteça. [Isso está soando livro de auto-ajuda, me desculpem, mas a mensagem é essa mesma].

Claro que, definido o Rio-2016, já vimos, na mídia e nos botequins, aquele velho discurso maneta de "vai ser uma roubalheira", "o Brasil não está preparado", "aqui não é a Europa" e bla bla bla. Esse pessoal está aí faz tempo. Se deixarem falar, vão querer um novo Campos Salles, uma marchinha ridícula pela famíla e Deus, e, na dúvida, vão ficar com os estrangeiros. O país não vai para frente com esse pensamento retrógrado.

A questão é simples: a Olimpíada será maravilhosa porque o Rio é maravilhoso e o Brasil é o país mais culturalmente rico e preparado para receber todos os gostos, costumes, credos, sexos e tipos. Se temos espaço para gente que vota em Collor e acredita que diploma é sinônimo de inteligência, temos espaço para qualquer tipo de gente.

[Pronto, falei.]

domingo, 4 de outubro de 2009

Domingo

Nada morre jamais numa vida. Tudo sobrevive. Nós, ao mesmo tempo, vivemos e sobrevivemos. Assim também toda cultura é sempre entretecida de sobrevivências. No caso que estamos agora examinando, o que sobrevive são aqueles famosos 2 mil anos de imitatio Christi, aquele irracionalismo religioso. Eles não têm mais sentido, pertencem a um outro mundo, renegado, recusado, superado; e, no entanto, sobrevivem. São elementos historicamente mortos mas humanamente vivos que nos compõem. Penso que seria ingênuo, superficial, faccioso negar ou ignorar sua existência. Eu, pessoalmente, sou anticlerical (não tenho medo de afirmá-lo), mas sei que sobre mim pesam 2 mil anos de cristianismo: eu construí com meus antepassados as igrejas românicas, e depois as góticas, e as barrocas; elas são meu patrimônio, no conteúdo e no estilo. Seria um louco se negasse essa força poderosa que existe em mim; se deixasse para os padres o monopólio do Bem.

Pier Paolo Pasolini, cineasta italiano.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Nelson Jobim, a Infraero e o americano

O ministro da Defesa, Nelson Jobim, defende a privatização da Infraero. A estatal, como se sabe, é que cuida da administração, ampliação e modernização da malha aeroportuária brasileira. Quer dizer, é quem mantém funcionando, quem investe e quem levanta novos aeroportos.

Isso é teoria, claro. Na prática, o funcionamento não bem assim. Há tempos a Infraero tem falhas graves de gestão. E, como é do Estado, essas falhas acontecem com dinheiro público. Aí a coisa muda de perspectiva. Quem credita o desenvolvimento de um país ao enxugamento do Estado, encontra em exemplos do tipo um prato cheio para manipulação ideológica. Nesse jogo, mesmo quem tem bom senso acaba cedendo ante aos apelos de "privatizar para melhorar a gestão do dinheiro público".

Seja como for, a proposta de privatizar a Infraero é um erro. Um erro grave, diga-se.

Mas, se alguém chama a atenção para isso no debate público brasileiro, passa a ser chamado de "estatista", "antimercado" e todo aquele bla bla bla que, graças ao subprime, tem diminuído. Mas, como o Brasil é único -- em todos os sentidos -- esse pessoal resiste. A ideologia privatizante para tudo que se move continua aí.

Nesses casos, é preciso então que alguém que pertence ao mercado, ou seja, à iniciativa privada, fale alguma coisa do tipo. E se o sujeito for estrangeiro então, aí fica uma maravilha. Para mostrar erros no pensamento hegemônico tupiniquim, nada melhor que um empresário estrangeiro que dá pitaco em assuntos internos.

Foi o que aconteceu hoje, no caso da Infraero.

David Neeleman, presidente do conselho de administração da Azul Linhas Aéreas, disse, com todas as letras, que "a privatização da Infraero é um erro". Neeleman segue todos os pré-requisitos: é estrangeiro, empresário e dá pitaco sobre assunto interno. Maravilha, não?

Em reunião da empresa, Neeleman disse que os aeroportos são "especiais" para um país, e não devem ser entregues à empresas estrangeiras. Ele citou como exemplo os Estados Unidos (vejam que maravilha), onde os aeroportos mais importantes não são concedidos pelo governo. Neeleman ainda reforçou: lei americana determina que todos os recursos arrecadados em um aeroporto (taxas de embarque etc.) devem ser aplicados ali mesmo, no próprio aeroporto.

Segundo destacou matéria na Folha Online, vejam o que disse Neeleman: "Eles [a Infraero] têm dinheiro, estão recebendo bastante. Deixe o dinheiro dentro da Infraero. Se precisarem de ajuda, tem muito conhecimento fora do Brasil. Chama outros para ajudar no planejamento. E depois deixem os brasileiros fazer a construção, fazer tudo para criar mais empregos aqui".

Disso, nenhuma surpresa: Jobim, mais uma vez, dizendo coisas que, no mínimo, são absolutamente discutíveis.
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