quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Chávez e Larry King

Meu amigo Sérgio Leo já chamou a atenção para esta entrevista, mas não custa repetir:

A entrevista de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, à Larry King, um dos bastiões da televisão americana, está ótima.

Vale a pena assistir.

A oscilação das expectativas

Estive hoje com Aloizio Campelo, economista da FGV e coordenador de sondagens conjunturais do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia). Era a divulgação da pesquisa com industriais realizada em setembro.

Trata-se de uma pesquisa ampla, que cobre desde expectativas para produção e emprego, até os níveis constatados de fato. Foram ouvidos 1.125 empresários. O mapeamento, portanto, costuma captar bem o pensamento da indústria, além de antecipar movimentos. Por exemplo, no fim do ano passado, outubro e novembro, as expectativas eram péssimas. Resultado: queda forte em dezembro e janeiro.

Quais são as expectativas agora?

Ótimas, e, de certo modo, "surpreendentes", como marcou Campelo.

O índice de produção prevista para o curtíssimo prazo, quer dizer, para os próximos três meses incluindo setembro (setembro-outubro-novembro) marcou 139,2 pontos. É a melhor marca desde abril de 1991, quando o índice marcou 139,6. O maior índice da série histórica da FGV foi alcançado em outubro de 1986: 142,1.

Em 1986, estávamos no auge do Plano Cruzado, com consumo explodindo -- os salários tinham sido aumentados e os preços estavam congelados. Em 1991, situação contrária. Era auge da depressão (econômica e psicológica) do governo Collor e os industriais acreditavam, naquele momento, que nada poderia ser pior do que já tinha ocorrido. Ou seja, as expectativas estavam altas simplesmente porque depois do fundo do poço só dá para subir.

Pode ser o que está ocorrendo agora, com esse índice alto de 139,2 pontos, maior até que os registrados em 2007 e 2008, quando o Brasil crescia a taxas de 5% ao ano. Os industriais podem estar pensando que o pior já passou e, com isso, a tendência só pode ser subir.

Como o consumo está forte -- graças ao aumento continuado da renda e a melhora do crédito, graças aos bancos públicos -- e o Natal está na porta, as empresas começam a apostar em aumento da produção.

Se essa expectativa toda se realizar, teremos um choque de contratações na indústria. E um pós-recorde positivo, afinal, depois de 1986 o Brasil entrou em espiral inflacionária e calote da dívida, e depois de 1991 tivemos o impeachment e a recessão.

domingo, 27 de setembro de 2009

A entrevista de Quércia ao Estadão

Entendo que o político é aquele que detém a maleabilidade necessária para acochambrar as demandas da sociedade com as possibilidades orçamentárias e os quadros técnicos, tendo de lidar com diferentes camadas da opinião pública e visões de mundo distintas e por vezes opostas.

Claro, há muito mais em jogo, como interesses pessoais e financeiros, além de questões internacionais, como intromissão de empresas e nações estrangeiras. Tudo isso é trabalho da política, exercida por quadros mil.

Como sempre, na história humana, há aqueles que se destacam pelo mérito em mover sociedades para o novo, determinando rumos e cumprindo objetivos. Há aqueles populistas, que sabem lidar com as massas e com elas governar. Há aqueles discretos, técnicos, que se lançam em batalhas reservadas pelo interesse maior. Há aqueles mesquinhos que obtém ganhos em troca de favores. Há aqueles que dão e aqueles que recebem.

No Brasil, como todos sabemos, é costume ouvirmos e, por vezes repercutirmos, dois padrões de comportamentos: critica-se as massas pelos políticos que aprova; critica-se os políticos por sereme corruptos. Essa ignorância, especialmente a segunda, vez ou outra volta, toma a mídia como um todo e faz o cidadão comum acreditar que a corrupção só existe em Brasília ou nos políticos em geral.

Seja como for, a luta do dia-a-dia deve ser aquela que traça objetivos para o país, tendo em vista nossas possibilidades reais e nossas super estruturas, vinculadas ao processo histórico. Se enterdemos o Brasil, o momento histórico, tivermos um conhecimentozinho sobre o passado e soubermos aproveitar o que temos de melhor, políticos incluso, poderemos assim nos tornarmos sérios. É essa a lição que podemos tirar de grandes mestres, grandes interprétes do Brasil que já viveram e deixaram como legado algumas lições.

Verdade é que algumas coisas, por mais batidas que são, ainda me causam uma surpresa quase inocente. Me fazem sentir um perfeito babaca que insiste em pensar grande.

A entrevista que o Estadão publica hoje com Orestes Quércia, presidente estadual (SP) do PMDB é um desses momentos.

Vejam só: são 28 perguntas. Nenhuma delas passa, nem tangencialmente, pelos interesses sociais, nacionais ou qualquer coisa do tipo. Não há nada sobre o Brasil e a crise econômica que explodiu nos Estados Unidos e leva junto os países da Europa e da Ásia. Nada sobre o Estado, os programas federais, os problemas, a relação entre União, Estados e municípios. Nada sobre os avanços nas pesquisas com etanol, biodiesel, pré-sal. Nada sobre o Supremo Tribunal Federal, a Polícia Federal, a taxa de juros, os conchavos, esquerda ou direita. Repito: nada.

Em 28 perguntas, tudo o que se fala é sobre intrigas e artimanhas políticas. Há uma disputa: o PMDB federal, de Sarney, Renan Calheiros, Romero Jucá, Geddel está com Lula e a candidata do PT para 2010, Dilma Rousseff. Já Quércia, presidente do PMDB paulista, propõe um racha para levar outra turminha supimpa, como Jarbas Vasconcellos, Ibsen Pinheiro etc. para subir em outra canoa, de José Serra, governador de São Paulo.

Dilma é melhor ou pior que Serra? PT é mais a esquerda que PSDB? Estado ou privatização? Gestão pública ou esvaziamento, planejamento ou internacionalização? Nadica. Tudo o que Quércia faz é falar sobre os acordos partidários em torno das eleições do ano que vem.

Se alguém interessado em saber o que une a parcela paulista do PMDB, o maior partido brasileiro, ao governador do estado, José Serra, do PSDB, tudo o que encontra é, na pergunta 08, o seguinte:

Orestes Quércia: Nossa posição [do PMDB paulista] é de apoio à campanha do PSDB para o governo e de Serra para presidente. Se não conseguirmos na convenção, em São Paulo temos o poder para fazer a aliança com o PSDB. Mesmo sem a aliança nacional.

Por que então Orestes Quércia, o homem que foi a causa da discórdia no PMDB em 1987 e 1988, o sujeito que efetivamente serviu de motivação para que um grupo peemedebista, formado por, entre outros, Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro e José Serra, saíssem do PMDB para criarem o PSDB. Os tucanos são uma dissidência do PSDB justamente graças a Quércia. E onde estão Quércia, Serra, PMDB e PSDB, 21 anos mais tarde?

Certo. Agora, se Quércia defende aliança com o PSDB e com Serra -- sem apresentar nenhum argumento para isso, apenas briguinha interna com grupos do PMDB -- então o que ele pensa do PT, o partido que rivaliza com o PSDB nacionalmente? Aí vem a grande joia da entrevista. Preparem-se.

Estadão: Por que não fazer aliança com o PT?
Orestes Quércia: Quando fui candidato a senador, havia um compromisso de me ajudar. E eles não cumpriram o compromisso.

Assim, direto ao ponto, Orestes Quércia, o presidente estadual do PMDB de São Paulo, afirma que não se liga ao PT porque o partido não cumpriu um acordo fechado com ele numa eleição para senador.

Você, caro leitor, que esperava uma discussão programática, partidária, com interesses nacionais, rumos e diferentes visões de mundo, encontra puro partidarismo.

E só.

Domingo

O antigo debate sobre o papel social dos intelectuais, mais vivo em países como a França, mais débil noutros como os Estados Unidos, onde a filosofia dominante do pragmatismo constitui por si mesma uma dificuldade, merece ganhar nova força com a emergência do fenômeno da globalização. Diante do papel político das empresas e do mercado global, frequentemente mais ativos que os Estados e os partidos na formação da opinião, as massas atônitas reclamam explicações mais consistentes. (...) Esses riscos, que já vinham se delineando havia algum tempo, agravaram-se com a globalização, momento da história que consagra o reino do efêmero e abre espaço, tornado excessivo, às demandas de um saber prático em detrimento do saber filosófico, daí a confusão cada vez maior entre ser letrado e ser intelectual.

Milton Santos, geógrafo, um dos maiores interpretes do Brasil. Falecido em junho de 2001.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Pré-sal e indústria tecnológica

"A idade da pedra não acabou por falta de pedra. A mesma coisa ocorrerá com o petróleo".

De Antônio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda (1967-1974) e do Planejamento (1979-1985), durante palestra no 6º Fórum de Economia, realizado pela FGV-SP na terça-feira.

Delfim, do alto de seus 81 anos, chama a atenção para algo muito importante, que costuma ser esquecido em tempos de glorificação: sem industrialização, a abundância de um produto básico não é dádiva, mas desastre.

A história da "doença holandesa" é exatamente isso: uma nação apresenta enormes reservas de um bem primário, que trazem grandes quantias de moeda (dólar) para seu mercado. O dólar chega em montanhas, graças a exportação dessa commodity. Resultado: valorização da taxa de câmbio, que derruba a produção de bens manufaturados e, ao mesmo tempo, torna o produto importado mais barato. O consumidor interno se acostuma com os importados baratos e termina por arrasar a indústria nacional.

O pré-sal pode acarretar o desenvolvimento de cadeias produtivas Brasil afora, agregando valor a um bem primário (o petróleo), industrializando-o de diferentes maneiras. Diante da imensidão de reservas oriundas de descobertas da Petrobras, é plenamente possível industrializar e ainda assim vender uma parte do produto primário, ajudando o balanço de pagamentos.

É preciso ter em mente outra coisa muito importante: o petróleo não precisa acabar para ser deixado de lado. O desenvolvimento tecnológico não precisa ocorrer apenas com o petróleo, mas também na pesquisa por diferentes fontes, mais sustentáveis e menos agressivas ao meio ambiente.

O presidente chinês, Hu Jintao, afirmou na última terça-feira que até 2020, o equivalente a 15% do consumo de energia da China será baseado em fontes renováveis. Tendo em vista o porte industrial chinês e seu histórico poluente, não deixa de ser um aviso relevante de novos rumos.

Finalmente, uma informação importante: no ano passado, o equivalente a dois terços do enorme déficit comercial americano foi oriundo da importação de petróleo. Não parece razoável apostar que um país tão preocupado com seus interesses nacionais e tão potente economicamente (PIB de US$ 14 trilhões contra PIB chinês de US$ 4 trilhões, o segundo colocado) continue tão dependente de um bem que precisa comprar dos outros.

Blog e blogueiro

Hoje, o blogueiro completa 22 anos de idade. E o Blog caminha para seu terceiro aniversário, em dezembro.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O Brasil é "grau de investimento"

O Brasil teve sua classificação de risco elevada para "grau de investimento" pela Moody's, a última -- e mais conservadora -- das três agências do tipo a conceder esse grau ao Brasil. O país é o primeiro a receber elevação de grau após a explosão da crise econômica mundial, no ano passado. De um ano para cá, as agências apenas rebaixaram notas.

Isso não quer dizer muito. E ao mesmo tempo, diz muito. Explico.

Os Estados Unidos sempre foram, por excelência, o modelo máximo das agências de “rating”. Tinham nota AAA e estavam mil léguas à frente de países emergentes, que disputavam notas como CC+ ou BBB-. No Brasil, em 2007, foi uma festa quando recebemos o primeiro BBB-. Éramos considerados “grau de investimento” pelos ricos, e isso era tudo que importava.

Mas não são apenas países. As agências também concedem notas a empresas e, principalmente, bancos e ativos financeiros. Boa parte dos bancos americanos, como sua nação, tinham notas elevadas: BB+, AA-, AA, AAA-, AAA.

Pois os ativos financeiros americanos se revelaram tóxicos, implodiram o sistema financeiro e, com ele, levaram os Estados Unidos para a mais grave crise econômica desde 1929.

E como então essas agências de classificação de risco davam notas máximas para bancos, ativos e países que estavam fazendo barbeiragens mil no sistema financeiro descontrolado? Já bati muito nessa tecla aqui no Blog, quando a crise estourou no fim do ano passado. Mas, grosso modo, as agências eram (e são) remuneradas por aqueles que recebem notas de classificação de risco. Conflito de interesse, alguém?

Então, está ai. A Moody’s, agência “rating”, acaba de conferir nota BBB- ao Brasil, que, assim, passa a ser “grau de investimento”.

Pode parecer absolutamente irrelevante depois da crise, mas, justamente por isso, demonstra a fase que o país – e o mundo – passa.

Embora os efeitos da crise ainda serão sentidos por um bom tempo – afora os desdobramentos dos enormes aportes de capital promovidos pelos Estados – a crise arrefeceu e possibilita, hoje, um ressurgimento do crescimento. Não à toa, há certa euforia na Bovespa e em outras bolsas de valores.

Assim, o grande capital financeiro, recauchutado após a implosão de 2008 e início de 2009, já começa a montar posições em mercados de títulos, câmbio e juros. E o que ele vê, quando olha o globo terrestre?

Os emergentes se saírem melhor que os ricos. Estão se recuperando mais rápido e alguns até crescem forte, como China, Índia e Brasil. Dentre eles, o Brasil é o que apresenta melhor transparência de mercados, é o mais ocidentalizado e o mais amigo do capital financeiro internacional. Nossa taxa de juros, embora baixa para nossos padrões, é das maiores do mundo. Ao mesmo tempo, o real se valoriza e, na melhor das hipóteses, fica estável.

O campo fica aberto para ingressos de capital na BM&F Bovespa, ou seja, em títulos públicos, em derivativos de câmbio e juros, além de ações e até IPOs, quando retornarem. É por isso que a Bovespa volta a subir, a euforia entre os agentes aumenta e o Brasil ganha musculatura entre os investidores institucionais, especialmente internacionais. O câmbio reflete exatamente isso: no meio da crise, se valoriza, indo de R$ 2,30 para a beirada dos R$ 1,80.

E agora tem mais: somos “grau de investimento”.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

O conservadorismo dá suas voltas, mas cede

O boletim Focus divulgado hoje pela manhã apresenta expectativa de que o PIB brasileiro deste ano será de 0%. É a primeira vez no ano que o Focus apresenta um resultado não-negativo: até a semana passada, por exemplo, estava em -0,15%.

O boletim Focus é a pesquisa que os técnicos do Banco Central produzem com os agentes do mercado financeiro, toda semana, sobre suas expectativas para PIB, juros, câmbio etc.

Depois de quase 10 meses, o mercado finalmente apresenta expectativa favorável para o PIB. A tendência é essa taxa ficar rondando 0% e 0,5% até o início de dezembro, quando os indicadores de varejo e investimentos industriais mostrem recuperação mais nítida. Aí sim, o Focus vai espelhar um crescimento perto de 1% para o PIB.

O mercado é conservador. Não à toa, o Focus é um documento incrivelmente conservador. Demora dez meses para perceber que haverá crescimento. Ainda teremos mais três meses para sacarem que este crescimento chegará perto de 1%.

Seja como for, não deixa de ser significativo que mesmo o conservadorismo está cedendo. O Brasil passou bem pela crise e a expansão do mercado interno vai ser o foco do ano que vem.

domingo, 20 de setembro de 2009

Domingo

Todos os dias agora acordo com alegria e pena.
Antigamente acordava sem sensação nenhuma; acordava.
Tenho alegria e pena porque perco o que sonho
E posso estar na realidade onde está o que sonho.
Não sei o que hei-de fazer das minhas sensações,
Não sei o que hei-de ser comigo.
Quero que ela me diga qualquer coisa para eu acordar de novo.

Quem ama é diferente de quem é.
É a mesma pessoa sem ninguém.


Alberto Caeiro, heterônimo de Fernando Pessoa, poeta português.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

Petit, le fou. Ou como as coisas não são como deveriam ser.

Ela entra e passa pelos seguranças. Eles olham esquisito, é a função deles, pensa ela. Olhando para trás, sente pena. Ela sempre sente pena depois de sentir raiva. A raiva, pensa ela, pode e deve ser compensada com a complacência. Às vezes, com vendedores de lojas, ela se envergonha de alguma resposta mais ríspida e se retrata comprando o que não quer. Em casa, ela é a boazinha. Com o namorado, quando namorou, era bobinha, preocupada com os outros. No trabalho, fala pouco, conhecem pouco, ela gosta pouco. Isso bate e rebate na cabeça, sempre que sente raiva e depois sente pena. Voltando os olhos dos seguranças, ela direciona o olhar para a mesa. Estava cheio e ela odiava ficar sozinha, na entrada, procurando seu espaço. Sente que todos estão olhando, que os cochichos são sobre seu cabelo, e as risadas, bem, estas obviamente referem-se a sua escolha de blusa. No fundo, gostaria de usar lentes, assim não precisava apertar os olhos para enxergar a mesa certa. Não é uma questão de estética – os óculos a irritam. Sente que tem algo que não lhe pertence, pendurado no nariz, que se arrasta pelas orelhas (as duas!) e encobre as sobrancelhas. É esquisito. Como o olhar do segurança.

Acenaram para mim, pensa ela, colocando a esquerda na frente da direita, iniciando a série de pequenos passinhos que a levarão à mesa desejada. Desajeitada, com bolsa pequena e salto alto, se ajeita entre corpulentos boysinhos, que ostentam suas correntes e camisetas justas, todos iguaizinhos. Cada vez mais as pessoas são iguais umas as outras. Os homens vestem as mesmas calças, as mesmas camisetas com desenhos e frases em inglês que denotam força, cabelos curtos penteados com gel, correntes no pescoço, pulseiras de prata, anéis no dedão, bonés e óculos escuros. Bonés e óculos de sol são usados com chuva, à noite, e mesmo dormindo. É mania e, para eles, isso é bem bonito. Do outro lado, as mulheres variam em cabelos com franjinha, tênis All Star e blusas multicoloridas, e jeans, sapatos caros e cabelos hiper-preparados.

Uma loucura.

[Pensa ela].

Abre os olhos bem arregalados quando topa na mesa desejada e percebe, não sem aparentar confusão, que a mesa não é dela. Os amigos não são estes e, provavelmente, não acenavam para ela. Na realidade, acenavam, imagina ela, mas para zombá-la, não para chamá-la. Zombavam, muito provavelmente, de seu cabelo, de seu sapato novo, que ela queria fazer velho, e também de sua escolha de bolsa. Muito pequena, esquisita para quem, com aquele tamanho pequeno, deveria ser alta. Queria ser alta, desde criança. Fosse ela alta, teria visto, de antemão, que não acenavam para ela. Que não eram seus amigos. Mas a altura não era o problema também. Tinha pequena miopia e, sem óculos irritantes e lentes, tinha que se esgueirar pela luz vacilante para poder enxergar com clareza. Era clareza o que ela queria. Com clareza, poderia ver que não eram seus amigos na sua mesa no seu bar.

Virou-se para trás. Fitou os seguranças. Lembrou do pai, dizendo, todos os dias, que se arrumasse em casa, porque no carro não dava mais. Que carro? O dele, e isso era algo que ele fazia questão de falar e lembrar. Falava sempre da mesma forma, enfatizando o “meu carro”, enquanto massageava a fronte de seus óculos, espessos e escuros, fazendo a cara do pai parecer maior do que era. Não que ele fosse irritado. Ele era difícil. Conviver não era fácil, especialmente para ela, a filha boazinha. Na realidade, como ela sempre gostava de lembrar, era a boazinha da casa, uma vez que, sendo filha única, não tinha como confiar num irmão ou irmã a chance de ser o filho maldoso. Por ser única, e ela gostava do som dessa frase, por ser única, restava a ela a soberania da bondade. Era a boazinha de todos, que falava com a família nos momentos das discussões e apartava os problemas, nos momentos dos problemas.

Os seguranças foram deselegantes outra vez. Mas já não fizeram quando entrei?, pensava ela aflita com a possibilidade de terem visto ela entrar e sair. Se seus amigos estivessem lá certamente teriam visto sua passagem repentina. Foi um problema, um problema na família, de saúde, pensava ela, nas possíveis desculpas que daria na segunda-feira quando encontrasse os amigos e estes a questionassem o que teria ocorrido naquele dia, no bar. Não vão perguntar, mas se perguntarem, será um problema de saúde na família. Mas ela não tinha celular. Como poderia dizer que era um problema de saúde na família que a tirou dali? Não era um problema repentino, pensou ela. Na realidade, o problema de saúde já existia, mas ela ainda assim insistiu em sair com os amigos. Bem que tentou, mas, ao entrar e procurar, lembrou que faria melhor se estivesse ao lado dos familiares num momento tão delicado. Foi por isso que ela saiu tão bruscamente. Foi isso, pensava ela, confiante, ao chegar no carro que o pai lhe emprestava para sair. O carro era dele, ela sabia, mas parecia dela. Não que ela quisesse que fosse, afinal, sabia muito bem que o carro era dele. O que ela queria era que pensassem que o carro não era um problema. Nem a pequena miopia ou a maldita bolsinha, que deveria ter ficado em casa.

É isso, pensava ela. Queria que os outros, por alguma razão, pensassem. Sobre ela, claro, mas podia ser sobre qualquer outra coisa também. Se pensassem já estaria bom.

domingo, 13 de setembro de 2009

Domingo

Eu acho o Carnaval uma coisa do cacete, é o tipo de coisa que me motiva, mexe comigo, eu quero pular junto e tal. Mas é um negócio tão seletivo... Quero dizer, de repente se junta um grupo de pessoas, que são as mesmas que gozam de uma série de privilégios, e começam a pular. Você nota que não há alegria. Só há Carnaval real quando o Brasil ganha no futebol, quando sai todo mundo pra rua sem nenhuma programação, sem ser nada seletivo; aí sai todo mundo numa grande alegria, mas todo mundo mesmo. O importante é todo mundo e não a grande alegria.

Henfil, cartunista, em entrevista à revista Playboy de maio de 1979.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

O salário mínimo e os gastos públicos no Brasil pós-2011

Fala-se muito, no noticiário econômico, do aumento do gasto público com salários do funcionalismo e com a correção dos benefícios previdenciários. A cantilena é: como o salário mínimo não para de aumentar, as despesas do governo não param de subir.

É verdade? Claro, isso é matemática básica.

Isso é grave? Depende da visão de mundo, mas, principalmente, de honestidade intelectual.

Defender menos gastos públicos, maior participação privada e tudo o mais é legítimo. O problema está na análise estreita, que apenas vê números, planilhas, metas, etc. Há ainda um resquício daquele pensamento que se dizia "moderno" nos anos 80 e 90 de que o Estado tem de dar lucro. Não é preciso defender Estado deficitário ou hiper endividado para dizer que esse pessoal está errado. Razão e inteligência econômica, além da boa e velha justiça (fim da corrupção e outros axiomas cool) são importantes e cruciais para o bom funcionamento do Estado. Mas daí para optar por cortes de despesas e apelar para o terrorismo econômico apenas para que o Estado dê lucro é ignorância pura.

O salário mínimo, além de funcionar como base para o pagamento de funcionários, corrige mais de dois terços dos benefícios previdenciários. Ou seja, sempre que o mínimo aumenta, as aposentadorias aumentam. Sempre que as aposentadorias aumentam, os gastos do Ministério da Previdência Pública aumentam. Sempre que os gastos da Previdência aumentam há chororô na mídia e nos "analistas" de mercado. Sempre que há chororô dos "analistas" na mídia, o governo se constrange e diminui o ímpeto.

Na ponta, os aposentados ficam sem saber se ganharão R$ 480 ou R$ 500 por mês.

Seja como for essa discussão interminável, ainda há um ponto pouco lembrado nessa história de "aumento explosivo dos gastos públicos" que transcende essa dicotomia ridícula estatismo x mercadismo.

Acompanhem.

O salário mínimo, desde 2008, é indexado a um índice: o aumento, ano a ano, deve respeitar o crescimento do PIB de dois anos antes. Isso quer dizer que, quando o mínimo aumentar em 2010, ele se baseará no PIB de 2008, que foi de 5,1%. Um PIB expressivo, um aumento expressivo. Mais chororô sobre o aumento dos gastos públicos virão.

No entanto, poucos param para pensar num pequeno detalhe: neste 2009, graças aos efeitos da crise econômica que explodiu no finzinho do ano passado nos EUA, o PIB brasileiro deve ficar entre 0,5% e 1%.

Assim, a correção do salário mínimo que virá em 2011 será baseada neste PIB de 2009. Alguém vai falar alguma coisa?

Não. Mas certamente será uma bucha para o novo(a) presidente(a).

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Sobre o caso Battisti

Teremos nessa semana o julgamento final do caso que envolve a extradição ou refúgio de Cesare Battisti. O julgamento ocorrerá no Supremo Tribunal Federal (STF), instância jurídica máxima do país. Para os que defendem a extradição, Battisti é um terrorista italiano dos anos 70. Para os que defendem o refúgio, Battisti não é terrorista, mas ator de crimes políticos de uma Itália não tão democrática assim.

Fiz uma pesquisa, tempos atrás, que resultou num texto aqui no Blog sobre todo esse caso envolvendo Brasil, Itália, fantasmas do passado, mídia e ideologia.

Convido os leitores a lerem O caso Cesare Battisti -- publicado aqui no Blog em 13 de maio.

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Comentário do leitor Hugo Albuquerque:

Não há, juridicamente falando, polêmica. O que há aqui é uma contenda de cunho político que envolve a direita aluncinada da Itália - ora no poder - e a direita brasileira que não perde nada em incapacidade intelectual e deficiência moral - tirando honrosas e raras exceções. Isso também foi potencializado pela posição patética de pessoas como Mino Carta que acabou confundindo alhos com bugalhos e mesmo com tantos anos no Brasil não conseguiu superar os fantasmas italianos - pior, trazê-los para cá e mistura-los com a nossa já conturbada conjuntura política. Mesmo um Wálter Maierovitch teve uma atuação similar aplicando golpes abaixo da linha da cintura do Ministro Tarso Genro. Enfim, só pela reação desses cidadãos brasileiros com inequívocos laços com a Itália e posicionamentos políticos progressistas, dá para se medir o quanto aquele país não conseguiu resolver os seus problemas.

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Pelo Twitter, o Alexandre Nodari lembrou dois ótimos textos escritos por ele sobre esse imbróglio jurídico envolvendo Battisti. O primeiro aqui e o segundo, clicando aqui.

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Com ajuda do comentarista Luiz Henrique Mendes, podemos traçar o voto do relator do caso Battisti no Supremo Tribunal Federal. O ministro Cezar Peluso votou pela extradição do italiano condicionada pelo cumprimento de pena máxima, a ser realizada na Itália, de 30 anos de cárcere.
Peluso, como sempre no Supremo, opta por uma visão pouco progressista do Direito e das convenções internacionais. Entende que o processo italiano ocorreu normalmente e que não cabe ao Brasil manter o refúgio de um preso político. Quem acompanha as sessões do STF, como este blogueiro, sabe que Peluso divide visões de mundo com Gilmar Mendes. Não será supresa, portanto, se Mendes seguir o voto do colega.

A votação está apertada.

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O leitor Luiz Henrique Mendes passou uma boa dica na caixa de comentários: artigo de Giuseppe Cocco que analisa o caso Battisti e as opiniões radicais de dois analistas experientes, Mino Carta e Walter Maieróvitch, que ficaram meio zonzos nessa história. O artigo de Cocco foi publicado lá trás, em fevereiro, no Le Monde Diplomatique.

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Atualizado em 15/09:

A votação no STF, na semana passada, acabou com maioria favorável a extradição de Cesare Battisti. Estava 4 x 3 à favor da extradição quando o ministro Marco Aurélio Mello pediu vistas do caso. Assim, a votação entra em recesso e retoma em alguns dias, período em que o ministro se recolhe para melhor formular seu voto. Quando a sessão sobre o caso Battisti for reaberta no Supremo, faltarão dois votos: o de Marco Aurélio e, em seguida, o de Gilmar Mendes, presidente da Casa.

Segundo consta de suas diferentes opiniões ao longo dos últimos nove meses, Marco Aurélio Mello deve votar pela concessão de refúgio ao italiano, o que deixará a votação empatada em 4 x 4. Restará o voto final de Gilmar Mendes. Aqui, retomo a análise que Matheus Leitão, repórter da revista Época, fez na edição mais recente:

"Há pouco mistério aí. Mendes tem demonstrado ser a favor da extradição. Também não perde uma oportunidade para fazer críticas ao ministro da Justiça, Tarso Genro, que deu regúgio político a Battisti. Os dois mantém um histórico de litígios desde antes que o caso fosse ao Supremo."

Resta, a todos os lados, esperar que uma picuinha pessoal (ou ainda que seja profissional) não sirva de embasamento jurídico para o voto do ministro-presidente do STF.

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É preciso, no entanto, fazer uma última anotação: caso a votação no STF se desvende como as expectativas aqui expostas preveem, Cesare Battisti será extraditado para a Itália, após votação de 5 votos a 4 no Supremo Trbunal Federal do Brasil. Não é bem assim. Ainda resta um ponto.

De acordo com o artigo 84 da Constituição, o ato de entregar um preso para outro país é do Executivo. Assim, cabe ao chefe do Executivo, o presidente Lula, dar a decisão final.

domingo, 6 de setembro de 2009

Domingo

A máscara característica do vendedor mostra a gentileza e uma dedicação lisongeira com uma aparência de acordo com a moda. Os pontos fracos do comprador são o seu desconhecimento e a sua crença nos próprios méritos. O ato de admirar os pretensos méritos e de simular estar impressionado compõem respectivamente o gestual do vendedor. Ele impressiona ao representar a própria impressionabilidade. Sua técnica é reforçar o eco. Seu comportamento reflete incessantemente de volta ao comprador uma imagem submissa fortalecendo os estímulos funcionais dele, em relação ao seu ponto de vista. As duas máscaras características do vendedor de artigos de moda e de sua jovem cliente estão marcadas pela distância na esfera da produção. Ambos são não-produtores. Ele é um mero comerciante, a personificação consolidada da função de vender; ela é uma consumidora de luxo. Nessa relação de dois não-produtores, a assimetria da posição fortalece-se por meio da distância da produção e da divisão fixa de papéis. O diálogo no ato da venda entre dois produtores decorre com maior equilíbrio. Quando as máscaras características ainda não estão consolidadas desse modo pela divisão de trabalho, permanecendo coladas a vida inteira às pessoas como algo natural, o gestual de cada uma das pessoas é mais adequadamente contestável. Mas isso não significa que uma relação simétrica apresentaria uma aparência menos interessada.

Wolfgang Fritz Haug, filósofo alemão.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Fim de expediente

Para fechar essa semana que trouxe o calor e o sol de volta, e já ingressando em setembro, aí vai uma palhinha da inesquecível Nina Simone atacando de "House of the Rising Sun", clássico do The Animals, de 1965.

Para ouvir duas vezes. Uma, apreciando a voz incomparável de Nina. Em seguida, cantando junto.


video

Bom feriado a todos.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Prazos

Agora está marcado: a banca que analisará o livro que estou escrevendo (e terminando) ocorrerá no dia 23 de novembro, às 21hrs na PUC de São Paulo. Para isso, o livro -- texto e diagramação, incluindo arte da capa -- deve estar fechado até 20 de outubro.

Temos pouco mais de um mês para finalizar trabalho que foi iniciado ainda em dezembro do ano passado.

Está difícil desviar atenção para trabalhar no Blog, ainda que esteja acompanhando o noticiário de perto (e sim, tenho meus pitacos acerca dos planos do governo para o pré-sal). A maratona está acabando e, espero, com isso retornarei para cá com fôlego para tocar os debates diários com que todos estamos acostumados aqui no Blog.

Conto com a compreensão dos leitores durante essa fase final.

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Estão todos convidados para a banca que ocorrerá na segunda-feira, 23/11/2009, às 21hrs na PUC-SP.

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Para saber mais sobre o livro que estou escrevendo, clique aqui.

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Agosto foi cruel para a Blogosfera: No dia 10, Idelber Avelar avisou que deixaria seu Biscoito Fino e a Massa em estado de hibernação. Menos de uma semana depois, foi a vez do Pedro Dória despedir-se. Finalmente, no último dia do mês, foi a vez de José Saramago largar a pena sob seu Caderno. Avelar e Saramago escreverão livros. Dória toca o site do Estadão.

A Blogosfera entra no mês da primavera sem três dos seus melhores nomes.
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