Para começo de conversa, peço que leiam com atenção a seguinte matéria, retirada da
Folha de hoje. Ela está na íntegra na
Folha Online,
aqui.
Algumas informações preliminares:
O mais recente capítulo da série "
Senado não presta, todos os políticos são corruptos e eu estou chateadinho com isso" é dos bons: interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal indicam ligação muy amiga entre José Sarney (PMDB-AP), atualmente presidente do Senado, e o empreitero Zuleido Veras, da Gautama.
Zuleido Veras ganhou os holofotes policiais (e nacionais, quando estes se confundem, e isso é recorrente que dói) em 2007, quando foi preso e indiciado por formação de quadrilha, corrupção e tráfico de influência e denunciado pelo Ministério Público. Tratava-se da Operação Navalha, movida pela Polícia Federal.
Na mesma operação -- que tratei em posts publicados naquela época -- o então ministro das Minas e Energias, Silas Rondeau, caiu, diante de evidências de ligação promíscua entre ele e Zuleido.
Agora, vamos pensar um pouco:
Sobre a matéria em si, nada contra. Uma boa reportagem, que fica melhor ainda na internet, porque permite ao leitor interagir diretamente com a informação: os diálogos captados pela Polícia Federal durante a Operação Navalha, que pegam a ligação entre José Sarney e Zuleido, estão inseridos no texto, dando ao leitor a chance de ouvir para que ele mesmo tire suas conclusões sobre aquilo, conhecendo os personagens e as implicações dessa história toda.
Fica claro uma coisa: já era possível inferir uma certa ligação entre José Sarney e Zuleido Veras lá trás, em 2007, quando a Navalha explodiu. Por quê?
Primeiro que a Gautama foi useira e vezeira de contratos públicos, muitos dos quais sob comando de Sarney, seja quando presidente da República (1985-1990) seja como relator de projetos no Senado. E segundo que Silas Rondeau era ministro indicado por Sarney. Aliás, aquela vaga de ministro é cota exclusiva de José Sarney, não chega nem a ser do PMDB. Depois que Rondeau caiu, quem ocupou o espaço foi Edison Lobão, que, desde que nasceu, torce pro time do Sarney.
Abre parêntesis. Só para deixar clara essa ligação entre Lobão e os Sarney: Roseana Sarney, atualmente governadora do Maranhão, cogita não disputar as eleições do ano que vem. Prefere lançar Edison Lobão como candidato do governo. Viram? Fecha parêntesis.
Pode-se, no entanto, alegar que as investigações movidas pela PF contra a Gautama de Zuleido Veras não foram abertas à imprensa e, com isso, não passava de achismo ligar José Sarney à Zuleido Veras. É verdade.
Mas, com isso, fecha-se o cerco. Temos duas questões importantes para tratar. Vejam só.
1) As investigações da Operação Navalha, da Polícia Federal, em 2007, chegaram na Gautama e seu chefe, Zuleido Veras. Esse era o alvo, diante de denúncias de conluio com o poder público (tráfico de influência). Do outro lado da corda, como em qualquer máfia que se preze (porque ninguém faz cagada sozinho), tinha de ter alguém. Esse alguém, na época, era Silas Rondeau. Em pouco tempo, Zuleido foi preso e Rondeau caiu do Ministério.
Agora que o alvo é outro, estranhamente, surgem evidências -- já conhecidas desde 2006/2007 -- que Zuleido frequentava a casa de José Sarney. A própria matéria indica isso claramente, logo no lide, quando afirma: "
Em diálogos até agora inéditos...". O alvo mudou, e com isso investigação antiga (e esquecida) ficou importante de novo e toda aquela conexão que falávamos acima (Zuleido-Rondeau-Sarney) fica evidente para todo mundo.
A Polícia Federal passa a ser fonte e amiga da notícia, uma vez que a informação "nova" veio de lá. Aliás, nada se falou contra -- na época e agora também não -- da Operação Navalha, ou seja, o pessoal considera que o trabalho da PF na Navalha foi exemplar. Vamos, então, ao segundo ponto.
2) A matéria inteira da
Folha Online -- e o conjunto de reportagens até aqui publicados, além das que virão nos próximos dias -- é baseada em interceptações telefônicas, "
captados pela Polícia Federal com autorização judicial", como diz o texto.
A Polícia Federal é, agora, uma instituição séria, que trabalha apenas com "interceptações sustentadas em autorizações judiciais". Ninguém discute os métodos da PF, os "excessos" do Ministério Público, os juízes "persecutórios" de primeira instância, nada. Nem mesmo os advogados de defesa da família Sarney apontam para abusos dos órgãos de investigação e julgamento.
Na matéria da Folha Online, inclusive, tem até uma menção honrosa aos equipamentos da Polícia Federal. Vejam: "
A frase sobre Sarney foi obtida enquanto Zuleido iniciava uma ligação de seu celular. Pelo sistema Guardião da PF, usado para interceptações telefônicas, o som ambiente é captado antes mesmo de a chamada completar. Foi o que ocorreu nesse caso. Zuleido conversava com alguém ao seu lado quando falou estar chegando à casa de Sarney".
O sistema Guardião da PF demonstrou uma importante utilidade pública porque, não fosse ele, não seriam captados os diálogos de Zuleido indicando que ele estaria indo à casa de José Sarney.
Mas, pergunta uma voz meio afogada nessa história toda, "a Polícia Federal não era cheia de delegado desvairado, que se aproveitava de seus equipamentos para grampear Deus e o mundo com o intuito único e específico de instituir no Brasil um Estado Policial?"
Pois é, amigo. A Polícia Federal de 2008, aquela da Operação Satiagraha, era uma. A Polícia Federal de 2007, da requentada Operação Navalha, é outra.
A vida segue, é claro. Só não vale é se perder no meio do enredo, que é muito elaborado. Tem hora que um personagem é mocinho, depois ele é figurante, mais à frente pode ser vilão, dependendo da história. Mas o filme nunca acaba. E os personagens sempre voltam. Fiquem atentos.