sexta-feira, 31 de julho de 2009

Fim de expediente

Para fechar o mês de julho e esta semana de frio e muita chuva.

A nata da música brasileira: Paulinho da Viola, interpretando "Sinal Fechado", música que levou o prêmio de 1969 dos festivais da MPB. Um diálogo entre dois que se encontraram lado a lado num sinal (semáforo) que está por abrir.

Olá, como vai?
Eu vou indo e você, tudo bem?
Tudo bem eu vou indo correndo
Pegar meu lugar no futuro, e você?
Tudo bem, eu vou indo em busca
De um sono tranquilo, quem sabe ...
Quanto tempo... pois é...
Quanto tempo...
Me perdoe a pressa
É a alma dos nossos negócios
Oh! Não tem de quê
Eu também só ando a cem
Quando é que você telefona?
Precisamos nos ver por aí
Pra semana, prometo talvez nos vejamos
Quem sabe?
Quanto tempo... pois é... (pois é... quanto tempo...)
Tanta coisa que eu tinha a dizer
Mas eu sumi na poeira das ruas
Eu também tenho algo a dizer
Mas me foge a lembrança
Por favor, telefone, eu preciso
Beber alguma coisa, rapidamente
Pra semana
O sinal...
Eu espero você
Vai abrir...
Por favor, não esqueça,
Adeus...


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quinta-feira, 30 de julho de 2009

As expectativas do mercado

A melhor definição que encontrei sobre o que está ocorrendo com os preços das casas nos Estados Unidos foi de David Reilly, colunista da "Bloomberg News":

"Uma explosão da bolha imobiliária é como uma ressaca de tequila. Depois que os sinais mais agudos de agonia diminuem, ainda demora um bom tempo para as coisas voltarem ao normal"

A questão é a seguinte: Os preços das casas nos Estados Unidos, dizem os analistas do mercado, estão alcançando (ou já alcançaram) o fundo do poço. Segundo este pensamento, a partir de agora a tendência é subir. Ou seja, o mercado de hipotecas, origem dessa crise toda, está voltando a crescer.

Eles podem estar certos, como podem estar errados. Bancar uma ou outra hipótese, sem dados que comprovem, é tomar posição ideológica ou simplesmente crença metafísica.

Na realidade, a única coisa que pode ser dita é que esse "pensamento" não merece a alcunha em si, porque, antes de "análise", isso se trata de "expectativa". Afinal, quem disse que a tendência dos preços é subir? Os analistas de mercado. Eles são parte interessada no assunto! Se eles conseguirem gerar uma expectativa de que as coisas mudarão para melhor, ao menos influem na maneira como os negócios estão sendo feitos.

Essa expectativa pode ser verdadeira ou falsa, mas só comprovaremos depois. E isso é tudo o que importa para o mercado. Ele está preocupado em reaver os prejuízos que incorreu nos últimos dois anos e, se possível, levar um lucro em cima disso.

Aliás, eram os analistas de mercado que diziam que as coisas estavam bem, quando todos sabiam que estavam erradas. As bolhas, no sistema como temos hoje, são infladas por dinheiro e expectativa. Eles correm juntos, mas as expectativas sempre largam antes.

É justamente o que está acontecendo agora. Foi dada a largada.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

A (falta de) lógica das análises

Nas páginas de economia dos jornalões de ontem e hoje, as principais manchetes tem sido sobre as contas do governo brasileiro. Diante da queda na arrecadação de impostos e aumento nos gastos com funcionalismo, os resultados vieram ruins. Foram os piores indicadores desde o início do governo Lula, em 2003.

Isso é fato.

Uma análise recorrente, no entanto, dá conta de defender menores gastos com contratação de pessoal e aumento de salários para que, assim, sobre mais dinheiro para investimento.

É um pensamento nobre, mas absolutamente simplório. Investir é bom? Claro. O Estado investe pouco? Sim. Desde a explosão da crise dos anos 80, passando pelo neoliberalismo dos anos 90 e 00, o Estado diminuiu fortemente sua participação na economia. Isso certamente não foi bom, como qualquer indicador de distribuição de renda sobre o período deixa claro.

Agora não faz sentido algum o Estado investir em obras sem contratar funcionários. Ou pior ainda: até contrata, mas não reajusta salários. Gastos com funcionalismo são tão cruciais quanto com investimentos, com planejamento, com programas sociais, etc.

Sobre isso, aliás, meu amigo Sergio Leo acertou em cheio quando analisou esse argumento simplista que diz que "as contas com pessoal estão aumentando, e isso é ruim; bom seria se aumentassem os investimentos, que subiram menos do que se gostaria. Se for só por essa lógica, pagar melhor a professores e médicos é ruim; mas é positivo construir prédios de hospitais sem equipamento ou estradas do nada a lugar nenhum para gerar comissões de campanha".

É possível criticar, opinar, analisar e dizer o que for, mas, para isso, é preciso antes entender a dinâmica do Estado e o papel dele na economia. E percebam: não é preciso ideologia para opinar, apenas lógica econômica.

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Em tempo: os leitores do Blog levantaram um ótimo debate no post sobre a medida da Prefeitura de São Paulo de restringir o trânsito de ônibus fretados no centro expandido da capital. O debate em questão é mais amplo que o caso dos fretados: trata da gestão de Gilberto Kassab (DEM), à frente de São Paulo desde março de 2006. Taí uma análise que se faz pouco, em geral (e este Blog não foge à triste regra): não se presta atenção devida às administrações municipais.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A restrição aos fretados em São Paulo

A análise é de Alencar Izidoro, publicada na Folha de hoje:
A restrição aos ônibus fretados vai na contramão do que prega a maioria dos especialistas -- por desestimular uma forma de transporte coletivo e, na prática, criar incentivos ao transporte individual, mais prejudicial à sociedade.

Em qualquer lugar do mundo, a dificuldade é convencer as pessoas a deixar seus carros na garagem para usar ônibus, trens e até metrô. Aqui, ao restringir de forma severa os fretados, o prefeito Gilberto Kassab (DEM) passa mensagem inversa, principalmente quando usa como justificativa a melhoria da fluidez do trânsito.

A leitura inevitável para a população é: ficará mais difícil ir de ônibus
fretado, mas haverá menos trânsito para quem optar pelo automóvel (embora isso seja uma meia verdade, porque deve aumentar a quantidade de veículos no médio prazo, eliminando os eventuais ganhos da redução de fretados).

O problema é agravado pela crise por que passam as alternativas de
transporte público oferecidas a esses usuários.

A taxa de reprovação aos ônibus paulistanos foi a mais alta da década em 2008 -- somente 40% estão satisfeitos. A prefeitura freou gastos em pistas exclusivas para os coletivos. O metrô bate recordes de superlotação e chega a ter até nove pessoas por metro quadrado.

Os fretados se tornaram nos últimos anos um tipo de carona organizada para pessoas das classes média e baixa que descobriram um transporte coletivo mais barato do que andar de carro e não tão desconfortável como os ônibus convencionais.

Então, com tudo isso, como entender essa restrição aos fretados em São Paulo?
O próprio Izidoro dá uma pista:
Do jeito que está, quem está comemorando são algumas empresas de ônibus urbanos, tradicionais aliadas do prefeito. As viações sempre combateram aquilo que chamam de concorrência desleal dos ônibus fretados e sempre criticaram esse transporte por atrapalhar a velocidade das linhas convencionais -problema que, de acordo
com especialistas, poderia ser resolvido não só com uma melhor organização dos fretados, mas com medidas como a construção de novos corredores de ônibus e o combate à utilização dessas pistas exclusivas pelos carros.

****

Os fretados têm problemas? É claro que sim. Falta uma organização que centralize rotas e organize métodos e costumes. Poderia ser passado ao mercado essa "auto-organização" (o que agradaria setores ideológicos ligados ao DEM e ao PSDB), ou até criar uma agência municipal que dê diretrizes básicas aos operadores do setor (outra premissa do PSDB para o "papel do Estado").

Seja como for, não é preciso apelar para pensar formas sensatas de deixar as coisas melhores do que estão hoje.

O que fica claro e evidente para todos é que a medida é de um escapismo atroz: ao invés de organizar, vamos acabar, proibindo o trânsito de ônibus fretados no centro expandido de São Paulo. Claro que não é só escapismo e atrofiamento mental: é lobby das empresas privadas concessionárias de transporte público coletivo, que sempre se sentiram "ameaçadas" com os fretados.

Com um detalhe importante: o transporte público está cada vez pior. Não há investimentos em melhorias -- de equipamentos e funcionários -- e nem com manutenção. Ainda assim, vamos dar uma olhada no Orçamento do município de São Paulo e o que tem lá? Gastos enormes (da ordem de R$ 80 milhões por ano) para as concessionárias de transportes públicos. Não é o Estado que deixa de investir ou qualquer coisa. A Prefeitura se encarrega apenas de repassar dinheiro do caixa público para os cofres privados. E esse dinheiro vai para o transporte?

Lobby na veia, amigo.

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa

Para começo de conversa, peço que leiam com atenção a seguinte matéria, retirada da Folha de hoje. Ela está na íntegra na Folha Online, aqui.

Algumas informações preliminares:

O mais recente capítulo da série "Senado não presta, todos os políticos são corruptos e eu estou chateadinho com isso" é dos bons: interceptações telefônicas realizadas pela Polícia Federal indicam ligação muy amiga entre José Sarney (PMDB-AP), atualmente presidente do Senado, e o empreitero Zuleido Veras, da Gautama.

Zuleido Veras ganhou os holofotes policiais (e nacionais, quando estes se confundem, e isso é recorrente que dói) em 2007, quando foi preso e indiciado por formação de quadrilha, corrupção e tráfico de influência e denunciado pelo Ministério Público. Tratava-se da Operação Navalha, movida pela Polícia Federal.

Na mesma operação -- que tratei em posts publicados naquela época -- o então ministro das Minas e Energias, Silas Rondeau, caiu, diante de evidências de ligação promíscua entre ele e Zuleido.

Agora, vamos pensar um pouco:

Sobre a matéria em si, nada contra. Uma boa reportagem, que fica melhor ainda na internet, porque permite ao leitor interagir diretamente com a informação: os diálogos captados pela Polícia Federal durante a Operação Navalha, que pegam a ligação entre José Sarney e Zuleido, estão inseridos no texto, dando ao leitor a chance de ouvir para que ele mesmo tire suas conclusões sobre aquilo, conhecendo os personagens e as implicações dessa história toda.

Fica claro uma coisa: já era possível inferir uma certa ligação entre José Sarney e Zuleido Veras lá trás, em 2007, quando a Navalha explodiu. Por quê?

Primeiro que a Gautama foi useira e vezeira de contratos públicos, muitos dos quais sob comando de Sarney, seja quando presidente da República (1985-1990) seja como relator de projetos no Senado. E segundo que Silas Rondeau era ministro indicado por Sarney. Aliás, aquela vaga de ministro é cota exclusiva de José Sarney, não chega nem a ser do PMDB. Depois que Rondeau caiu, quem ocupou o espaço foi Edison Lobão, que, desde que nasceu, torce pro time do Sarney.

Abre parêntesis. Só para deixar clara essa ligação entre Lobão e os Sarney: Roseana Sarney, atualmente governadora do Maranhão, cogita não disputar as eleições do ano que vem. Prefere lançar Edison Lobão como candidato do governo. Viram? Fecha parêntesis.

Pode-se, no entanto, alegar que as investigações movidas pela PF contra a Gautama de Zuleido Veras não foram abertas à imprensa e, com isso, não passava de achismo ligar José Sarney à Zuleido Veras. É verdade.

Mas, com isso, fecha-se o cerco. Temos duas questões importantes para tratar. Vejam só.

1) As investigações da Operação Navalha, da Polícia Federal, em 2007, chegaram na Gautama e seu chefe, Zuleido Veras. Esse era o alvo, diante de denúncias de conluio com o poder público (tráfico de influência). Do outro lado da corda, como em qualquer máfia que se preze (porque ninguém faz cagada sozinho), tinha de ter alguém. Esse alguém, na época, era Silas Rondeau. Em pouco tempo, Zuleido foi preso e Rondeau caiu do Ministério.

Agora que o alvo é outro, estranhamente, surgem evidências -- já conhecidas desde 2006/2007 -- que Zuleido frequentava a casa de José Sarney. A própria matéria indica isso claramente, logo no lide, quando afirma: "Em diálogos até agora inéditos...". O alvo mudou, e com isso investigação antiga (e esquecida) ficou importante de novo e toda aquela conexão que falávamos acima (Zuleido-Rondeau-Sarney) fica evidente para todo mundo.

A Polícia Federal passa a ser fonte e amiga da notícia, uma vez que a informação "nova" veio de lá. Aliás, nada se falou contra -- na época e agora também não -- da Operação Navalha, ou seja, o pessoal considera que o trabalho da PF na Navalha foi exemplar. Vamos, então, ao segundo ponto.

2) A matéria inteira da Folha Online -- e o conjunto de reportagens até aqui publicados, além das que virão nos próximos dias -- é baseada em interceptações telefônicas, "captados pela Polícia Federal com autorização judicial", como diz o texto.

A Polícia Federal é, agora, uma instituição séria, que trabalha apenas com "interceptações sustentadas em autorizações judiciais". Ninguém discute os métodos da PF, os "excessos" do Ministério Público, os juízes "persecutórios" de primeira instância, nada. Nem mesmo os advogados de defesa da família Sarney apontam para abusos dos órgãos de investigação e julgamento.

Na matéria da Folha Online, inclusive, tem até uma menção honrosa aos equipamentos da Polícia Federal. Vejam: "A frase sobre Sarney foi obtida enquanto Zuleido iniciava uma ligação de seu celular. Pelo sistema Guardião da PF, usado para interceptações telefônicas, o som ambiente é captado antes mesmo de a chamada completar. Foi o que ocorreu nesse caso. Zuleido conversava com alguém ao seu lado quando falou estar chegando à casa de Sarney".

O sistema Guardião da PF demonstrou uma importante utilidade pública porque, não fosse ele, não seriam captados os diálogos de Zuleido indicando que ele estaria indo à casa de José Sarney.

Mas, pergunta uma voz meio afogada nessa história toda, "a Polícia Federal não era cheia de delegado desvairado, que se aproveitava de seus equipamentos para grampear Deus e o mundo com o intuito único e específico de instituir no Brasil um Estado Policial?"

Pois é, amigo. A Polícia Federal de 2008, aquela da Operação Satiagraha, era uma. A Polícia Federal de 2007, da requentada Operação Navalha, é outra.

A vida segue, é claro. Só não vale é se perder no meio do enredo, que é muito elaborado. Tem hora que um personagem é mocinho, depois ele é figurante, mais à frente pode ser vilão, dependendo da história. Mas o filme nunca acaba. E os personagens sempre voltam. Fiquem atentos.

domingo, 26 de julho de 2009

Domingo

"A lua é, no fim das contas, um bom lugar para o homem. Um sexto de gravidade deve ser muito divertido, e quando Armstrong e Aldrin se lançaram à sua animada dancinha, como duas crianças felizes, não foi apenas um momento de triunfo, mas também de alegria. A lua, em compensação, é um lugar ruim para as bandeiras. A nossa parecia dura e esquisita, tentando flutuar na brisa que não sopra. (Deve haver uma lição aí, em algum lugar). É claro que faz parte da tradição dos exploradores fincar uma bandeira no solo, porém, enquanto assistíamos com reverência, admirição e orgulho, percebemos que nossos dois amigos eram homens universais, e não de uma só pátria, e deviam ter se equipado de acordo. À maneira de todos os grandes rios e mares, a lua pertence a todos e a ninguém. Ainda traz o segredo da loucura, ainda controla as marés que banham as praias de todo o mundo, ainda vigia os amantes que se beijam por toda parte, debaixo de bandeira nenhuma, somente do céu. É uma pena que, em nosso momento de triunfo, não tenhamos renegado a famosa cena de Iwo Jima e, em vez disso, plantado um emblema comum a todos: um lenço branco e frouxo, talvez, símbolo do resfriado normal que, como a lua, afeta a todos nós."

E. B. White, New Yorker, 26 de julho de 1969.

Seis dias antes, em 20 de julho de 69, durante a missão Apolo 11, Neil Armstrong e Edwin "Buzz" Aldrin deram os primeiros passos na lua ("Um pequeno passo para o homem, um grande salto para a humanidade").

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Fim de expediente

Para começar a fechar a pauleira da semana.

Mestre John Coltrane no saxofone tenor, liderando seu quarteto, formado por McCoy Tyner no piano, Jimmy Garrison no contra-baixo e Elvin Jones na bateria. A gravação é de 1963, registrando a maravilhosa "Afro Blue", que Coltrane tinha apresentado ao mundo pela primeira vez alguns anos antes, numa apresentação histórica no Birdland, em Nova York.


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quinta-feira, 23 de julho de 2009

China e o espectro de César

Em seu caderno 19 (segundo a numeração original), o pensador político Antônio Gramsci disse o seguinte:

O desenvolvimento histórico que teve em César sua expressão assume na ‘península itálica’, ou seja, em Roma, a forma do ‘cesarismo’, mas tem como quadro todo o território imperial e, na realidade, consiste na ‘desnacionalização’ da Itália e em sua subordinação aos interesses do Império. [...] Roma se tornou uma cidade cosmopolita e a Itália inteira se tornou centro de uma cosmópole.

Gramsci discorria sobre o nacionalismo, territorialismo e cosmopolitismo, tendo como mote o Império Romano de Júlio César e a análise política da Itália contemporânea, isto é, dos anos 20 e 30 do século XX.

Nos últimos dias, algumas manifestações do governo chinês tem produzido um quebra-cabeça:

- Na semana passada, divulgou o PIB do segundo trimestre (abril-maio-junho) de 2009. Enquanto o mundo inteiro caí em recessão e alguns poucos (Brasil incluso) registram crescimento marginal, a China arrebata 8%.

- Na terça-feira, divulgou planos de gastar parte dos dólares acumulados em sua reserva internacional para ajudar empresas chinesas a adquirirem rivais estrangeiras espalhadas pelo mundo.

- Junto a isso, no primeiro semestre, lá para fevereiro ou março, o Banco Central chinês relatou seu interesse em trocar o dólar como moeda de reserva internacional.

- A China é a maior detentora de títulos públicos dos Estados Unidos do mundo. Tem quase 2,2 trilhões de dólares aplicados nos EUA. Foram os maiores financiadores dos americanos antes da crise e, até hoje, são uma das maiores forças por trás da sustentação financeira da maior economia do mundo.

- A China é um país pouquíssimo democrático. O Partido Comunista se vale do poder militar para manter a "ordem", ou seja, proíbe a existência de outros partidos ou movimentos populares. E já que estamos nos valendo do Gramsci, podemos dizer que essa história partidária é o que ele chamava de hegemonia dominante, aquela que se vale da força para se legitimar.

- Na China, boa parte das mega-empresas exportadoras (a principal força econômica do país) são ligadas ao Estado -- ou seja, só existem com o beneplácito do PC chinês.

Agora vamos refletir um pouco com isso.

O modelo chinês é exportável? Quer dizer, existe de fato um modelo chinês que possa ser implementado por outros países? A resposta é sim. Veja que, de comunista o país não tem nada, apenas a denominação partidária. Há enorme e crescente divisão social em classes.

Enquanto uma elite chinesa consome horrores nos shopping centers, assiste a TV à cabo, conversa pelo MSN e faz turismo pelo mundo, a extrema maioria se aglomera em bolsões nas cidades, trabalhando por qualquer dinheiro e sem ter qualquer assistência. Não há sistema de saúde universal e comunitário, ou sistema de previdência pública, por exemplo.

Não é à toa que tantos membros da intelligentsia capitalista mundial tenha depositado tanta esperança nos chineses: eles estão pouco se lixando para o tal "caráter comunista do regime", estão preocupados, isso sim, com outros fatores: o PIB cresce absurdos, não há praticamente manifestação social e o governo ajuda em tudo ao não cobrar impostos sobre contribuições trabalhistas (porque não existem por lá) e por não cobrar quase nada dos empresários. Quer mais capitalismo over the top que isso?

Isso é um modelo exportável sim. Especialmente em tempos de crise.

O fato da China querer diversificar o dólar é um fator importante e, se levado à cabo, altera radicalmente o modo como as coisas estão desde, pelo menos, 1945. Não é pouca coisa. Até por isso, não é de se esperar uma mudança no curto prazo. Pode ocorrer? Claro. Mas levará (algum) tempo.

Ao Brasil, conforme tinhamos abordado anteriormente, cabe definir que papel irá ocupar nos próximos tempos (segundo semestre de 2009 e o ano eleitoral de 2010), enquanto a China se arruma para enfrentar um mundo diferente, pós-crise ocidental, que deve emergir com mais evidência a partir de 2012, 2013.

Obama cumprirá papel central nessa história toda, é claro. Sua ação neste primeiro momento será crucial para, ao menos, exigir contra-partidas dos chineses caso eles tomem alguma medida que altere, ainda que sensivelmente, o status quo.

Estamos vendo o fim da hegemonia norte-americana, como prevê, entre outros, o sociólogo Immanuel Wallerstein? Pode ser, embora qualquer coisa dita hoje, 2009, é puro chute, por mais estudo ou análise histórica que se faça. Os EUA podem, por exemplo, se fortalecerem (os bancos já ganharam mais no primeiro semestre de 2009 do que em 2007, antes da crise toda).

Estamos vendo o início da hegemonia chinesa, como analisara o saudoso Giovanni Arrighi? Pode ser, a soma de indicadores que levantamos neste post leva a crer que os chineses ao menos tem um plano de ação. Mas também não quer dizer muito, uma vez que eles podem ser esmagados por eles mesmos, caso não encontrem uma resolução pacífica (leia-se: hegemonia dirigente) para seus poderes estratosféricos (hegemonia dominante) de opressão social e trabalhista.

Seja como for, a análise de Gramsci, lá trás, na década de 1930, pode acabar se realizando no mundo oriental, algo que, desde César e seu Império Romano, não se realizava. Pequim se torna uma cidade cosmopolita e a China inteira se tornou centro de uma cosmópole.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

A independência do Banco Central

Certa vez, o presidente do Banco da Inglaterra (o Banco Central inglês), sir Montagu Norman, disse o seguinte:

"A função de um banco central deve ser como a de uma boa esposa. Ela deve administrar sua casa com competência e serenidade; deve estar a postos para ajudar e aconselhar; ela pode adequadamente persuadir, lisonjear e de vez em quando até reclamar, mas, no final, deve reconhecer que o governo é o chefe".

sir Montagu Norman era o presidente do Banco da Inglaterra quando do crash de 1929. Ele permaneceu por lá até julho de 1931, quando teve de se afastar por problemas de saúde (estresse, muito provavelmente). Retornou pouco depois, completando mais alguns anos por lá.

Defendia o padrão-ouro, a Inglaterra imperial, a supremacia da libra-esterlina e o orçamento equilibrado, sem dívidas do governo. A história tratou de enterrar suas crenças e desqualificar sua tese de orçamento equilibrado -- afinal, foi apenas quando Franklin Delano Roosevelt assumiu a presidência americana e adotou as ideias de John Maynard Keynes que as coisas começaram a mudar e o mundo saiu da Grande Depressão.

Como vimos, na frase destacada acima, sir Montagu Norman, um dos homens mais respeitados do mundo, nas décadas de 20 e 30 do século XX, defendia a dependência do Banco Central ao governo de plantão.

Essa questão, de independência ou não do BC, era central no país durante o governo FHC, permanecendo no debate econômico no governo Lula, antes da crise financeira explodir nos EUA no ano passado.

Quem mais defendia a dependência do BC ao governo, durante os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso, era José Serra (PSDB), que foi ministro do Planejamento no primeiro (1995-1998) e ministro da Saúde no segundo (1999-2002).

Se Serra sair candidato no ano que vem, essa história de independência do Banco Central voltará à tona.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

A relação Brasil-China

Os presidentes Hu Jintao e Lula passam pelas tropas armadas chinesas, em 24/05/2004, diante do Grande Palácio do Povo, com foto de Mao Tse-Tung ao fundo. Foto de Antônio Milena – Abr)


Até mais ou menos 2001 e 2002, não era expressiva nossa corrente de comércio com a China. Não à toa, até aquele momento a China era ofuscada pelo período pós-Guerra Fria e a Pax Americana de Bill Clinton. Havia o euro, a Rússia capitalista e as crises econômicas (no México, nos Tigres Asiáticos, na Argentina, no Brasil). Muita coisa ocorria até o início da Idade Média (governo Bush) e sobrava pouca atenção para a China.

Que, diga-se, crescia a taxas de 15% ao ano.

Foi a partir de 2002 e, mais especificamente, 2003, que as coisas mudaram. E mudaram rapidamente. A China passou a fazer parte dos noticiários -- todos eles -- e boa parte dos órgãos de mídia tradicional enviaram correspondentes para Pequim e Xangai. Procuravam entender que país era aquele que surgia comprando ítens e bens primários e inundava os mercados mundiais com produtos industrializados baratíssimos.

Basta ver o tanto de livro que foi lançado nos Estados Unidos, entre 2003 e 2007 que trata dos chineses. Praticamente um por semana era lançado!

Na mesma época, o Brasil passava por uma mudança importante na economia. Graças a todos os ataques especulativos que os operadores do mercado financeiro promoveram contra o país durante 2002 ("temendo" um governo Lula), nossa taxa de câmbio explodiu (chegou a alcançar R$ 3,99 em outubro de 2002) e, com isso, impulsionou o setor exportador.

Pouco se fala, mas foi, em grande parte, essa estilingada no câmbio ocorrida durante a campanha presidencial de 2002 que deu o boom das exportações brasileiras a partir de 2003 (e o crescimento de 6% em 2004 é resultado direto disso). O chororô pelas "pressões inflacionárias" acabou recebendo mão pesada do Banco Central em 2004 e 2005, o que gerou crescimento pífio nos dois anos. Mas isso é outra história.

Ou seja, tivemos, a partir de 2003, uma ótima confluência de fatores para o comércio entre Brasil e China: o Brasil estava com taxa de câmbio apropriada ao setor exportador e a China sedenta pelos produtos brasileiros (basicamente: commodities).

Na outra ponta, o Brasil passou a importar muitos produtos chineses. De 2003 até o fim de 2008, as importações chinesas ao Brasil cresceram 833%. Em 2003, quando esse movimento começava a se acelerar, os chineses respondiam por 4,4% da pauta importadora brasileira. Esse percentual chegou a 11,6% no ano passado e no primeiro semestre de 2009 alcançou 12,1%.

Já as exportações para a China, em 2003, respondiam por 6,2% da pauta brasileira. Em 2008, passaram a 8,3%, e neste primeiro semestre chegaram a 14,9% do total exportado pelo Brasil.

O ponto chave desse crescimento todo são as commodities, agrícolas e minerais. O Brasil manteve, nesses anos, seu estigma há muito conquistado: somos um país eminentemente primário, ainda que com base industrial altamente desenvolvida e capital humano.

Vejam só. De toda essa explosão nas nossas exportações para os chineses famintos, nada menos que 77% eram referentes à commodities. Em 2008, os manufaturados responderam por apenas 7% das exportações.

Por outro lado, são as commodities que ajudam a manter nossa balança comercial positivo nesses tempos de vacas magras, pós-crise econômica.

Aí está o grande "x" da questão comercial do Brasil, que enfrentamos já neste momento e que se tornará ainda mais urgente no segundo semestre que começa (e especialmente no ano que vem, de eleições presidenciais). Diante da queda econômica de grandes mercados para produtos chineses, Estados Unidos e União Europeia, os países da América Latina e, mais especificamente, o Brasil, surge como saída estratégica e única. Isso já está ocorrendo na frente de todo mundo: a China vem realocando sua produção para seu mercado interno -- impulsionado por um programa de gastos públicos do governo -- mas ao mesmo tempo está focando o Brasil como alvo para sua produção excedente, como forma de manter a (enorme) entrada de dólares no país.

Os chineses estão às voltas dos problemas intrínsecos à absorção do capitalismo em sua forma mais megalomaníaca, isto é, com alta divisão de classes separadas por rendas (cada vez mais) distintas. É aí que mora o grande perigo chinês, mas isso é questão para os próximos dez anos ainda. Até lá, muita riqueza será concentrada sem qualquer contestação.

O dilema econômico da China de 2009 e 2010 é um só: onde colocar os dólares que entrarão – como vimos, procedentes do Brasil – uma vez que os títulos do Tesouro americano rendem tão pouco? A China é a principal mantenedora financeira dos Estados Unidos, mais que os petrodólares árabes ou o capital israelense (estes com maior poder político, diga-se): nada menos que 1,4 trilhão de dólares chineses estão aplicados no Tesouro americano. Mas eles estão rendendo merreca. Até 2007, esses papéis davam um retorno de 5,25% ao ano para a China; hoje não dão nem 0,25% ao ano.

Fazia sentido manter esse dinheiro com os americanos, que geravam crédito interno e aumentavam a demanda para os bens chineses, que alagavam os EUA. Hoje, com o aperto no crédito e na renda, esses dólares chineses não tem a mesma valia. O que fazer com o dinheiro que vai entrar daqui para a frente?

E o Brasil, diante da explosão do nosso mercado interno, ocorrida principalmente a partir de 2006, com programas do governo (habitacional, infraestrutura – PAC –, renda mínima, etc), como fará para não ver uma corrosão de sua produção interna? Como fazer o produto nacional competir igualmente com o importado chinês?

A discussão, quando entra nesses eixos, encontra sempre duas visões econômicas: a que sugere criar barreiras comerciais e a que sugere abertura irrestrita, ainda que promovendo competição desigual. É só isso mesmo?

Para não terminar o post com perguntas, ainda que elas sejam importantes para incitar reflexão sobre os temas, vai um aviso: a única coisa que temos de evitar é ver nos chineses um exemplo para mercado de trabalho. Eles não produzem bens mais baratos e em maior quantidade porque o sistema lá é mais "flexível". Trata-se de um sofisma primário, desatento e mal intencionado.

Os chineses estão no século XVIII no quesito social, trabalhista e político.
Atualização de quarta-feira, 22 de julho:
A edição de hoje do Estadão trouxe matéria que mostra uma das estratégias chinesas para esse segundo semestre: usar parte das reservas monstruosas para ajudar empresas chinesas a adquirirem concorrentes internacionais em outros países.
Coisa de louco, prática típica de conquista imperial -- literalmente, basta ver como agiam os ingleses nos séculos XVIII e XIX.
A China vai usar suas reservas internacionais, que já superam os US$ 2,132 trilhões, para expandir e apoiar aquisições de empresas no exterior pelas companhias chinesas, afirmou Wen Jiabao, o primeiro-ministro chinês. “Devemos acelerar a execução de 'estratégias de saída' e combinar o uso de reservas de divisas com a 'saída' das nossas empresas”, disse a diplomatas chineses, segundo informou o jornal britânico Finantial Times.

domingo, 19 de julho de 2009

Domingo

A psiquiatra não sabia se eu estava apenas brincando ou querendo deslumbrar a sua ingenuidade. Acabei afirmando, com o maior descaro: "Não há morte natural. Só se morre por suicídio". Por outras palavras: a chamada morte natural não é outra coisa senão a soma de tudo o que fazemos para antecipar o fim desejado. A partir de certo ponto da nossa conversa, ela ouvia só. Podia achar absurdo o que eu dizia, mas um absurdo extremamente persuasivo. Fosse como fosse, aquilo que eu afirmava podia ser uma verdade exagerada, violentada, mais ainda assim verdade. Fui peremptório: "o homem, individualmente e mais -- os povos, os Estados, os impérios -- só morrem pela autodestruição". Já de partida, a psiquiatra virou-se para mim e disse: "antes da nossa conversa, eu era como uma casa bem organizada, com todas as coisas em seus lugares. A mesa estava na sala de jantar, a geladeira na copa, a cama no quarto. Agora, a geladeira está no galinheiro, o galinheiro na sala de jantar" etc. etc. Despediu-se com estas palavras: "Muito desprazer em conhecê-lo". E eu, com um carinho não isento de remorso: "Deus te abençoe". E assim nos separamos.

Nelson Rodrigues, dramaturgo, em artigo publicado n'O Globo de 31 de agosto de 1972.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

A casa da infância (ou como os tempos modernos levam o passado ao esquecimento)



A casa que o saudoso cineasta Ingmar Bergman viveu de 1960 até sua morte está em leilão na Christie's, famoso centro de (mega)leilões em Londres. A casa fica na ilha de Farö, na província de Gotland, distante 100 quilometros da costa sueca. No leilão, que aceita ofertas até 20 de agosto, estão à venda cinco lotes, que podem ser adquiridos conjuntamente.

Matéria publicada hoje no caderno "EU&FimdeSemana", do Valor, dá detalhes sobre a história.

A venda inclui a Hammars, o nome que Bergman dava a sua casa, construída sete anos após sua mudança para a ilha. Além da casa, com seus 300 m², uma fazenda de 1854, cuja sede foi adaptada para servir como cinema pessoal de Bergman, com 15 assentos; e uma pequena casa no meio de uma floresta de pinheiros, onde o diretor escrevia os roteiros de seus filmes.

A notícia do leilão provocou polêmica. Ingmar Bergman teve nove filhos, dos quais oito ainda vivem. Desde a morte do pai, não estavam certos sobre qual destino dar às propriedades e só decidiram pela venda no início do ano.

Essa história me lembra um belíssimo filme, "Horas de Verão", em cartaz atualmente. O filme não impressiona por uma técnica de linguagem, como, aliás, é característico do cinema francês contemporâneo, mais preocupado em contar histórias e convencer pelo enredo do que pela linguagem. "Horas de Verão", do diretor Olivier Assayas, conta uma história muito semelhante ao impasse colocado diante dos filhos de Ingmar Bergman após a morte do pai.

Em "Horas de Verão", são três filhos, Frédéric (Charles Berling), Jérémie (Jérémie Renier) e Adrienne (Juliette Binoche), que se veem diante de impasse após a morte da mãe, Hélène Berthier (Edith Scob). Ela morava sozinha, acompanhada apenas da empregada da família, numa casa de campo onde todos cresceram, a 30 km de Paris. A casa, além do sentido simbólico de pertencer à infância dos filhos (e primos, tios, a parentada toda), é um mausoléu de seu dono anterior, Paul Berthier, que era tio de Hélène, portanto tio-avô dos três irmãos. Paul Berthier é o grande artista da família, famoso por toda a França e ídolo de Hélène (há uma camada mais sensível por trás, que joga com a adoração de Hélène por Paul e o consequente esquecimento de seu marido).

A grande sacada de "Horas de Verão" não são os personagens, muito bem construídos e montados, diga-se. O grande personagem da história, por onde gira o enredo e remonta para reflexões é a casa da família.

Sem Paul Berthier e sem Hélène (a grande entusiasta de sua arte, que viveu na eterna saudade e rememoração dos "bons tempos"), toda aquela beleza -- a casa, os móveis, as pinturas, os livros, o campo -- fica sem sentido familiar, rústico mesmo. Os três filhos levam suas vidas descolada da infância, como quase todos fazemos. Um mora na China, outra nos EUA e apenas um deles fica em Paris, próximo à casa e à mãe, mas que tem também sua própria família e questões internas (casamento, escola das crianças, viagens de férias, trabalho, etc). Assim, a morte de Hélène deixa a casa orfã de sentido.

Há uma metáfora aí, além da representação simbólica da casa como derrota do coletivismo de outrem frente ao individualismo que move nossa rotina e conquistas. Mas isso é tema para outra hora.

A verdade é que, ao recontar a venda da casa da família Berthier, em "Horas de Verão", Olivier Assayas mostra o dilema do pertencimento e das mudanças que passamos todos, de tempos em tempos.

Quando li a reportagem do Diego Viana, escrevendo de Paris sobre o leilão da casa de Ingmar Bergman, um dos maiores diretores da história do cinema e, certamente, o artista da família Bergman, logo lembrei desse dilema: sem o artista e alguém que o represente, a casa da família se torna apenas isso, uma casa.

A diferença, entre a história ficcional e a real, é que os herdeiros de Berthier nem titubearam em colocar a casa da infância em leilão. Estavam muito mais preocupados com suas vidas.

Como anda a política

Vamos a um rápido ping-pong sobre o atual estágio da política brasileira para, em seguida, abrirmos um debate.

Governo federal:
Abaixo vai uma foto (tirada na terça-feira), acompanhada de comentário do amigo Sérgio Blum.


"Na esquerda, compungido, camisa imaculadamente branca como convém e cabeça baixa (embora, assim , enviesado, não distingamos se chora ou vomita), deve ser o “assim chamado” Povo Brasileiro. Já na direita, de camisa azul, já mais que 50% omitido da cena, seguramente é o Mefistófeles."

Oposição:
Agora vejam o que diz um dos principais nomes da oposição ao governo, o senador Jarbas Vasconcelos (PMDB-PE):

"Lula é pior do que o pior dos generais que exerceram a ditadura neste país, porque os outros ainda tinham um certo pudor, um certo cuidado ou com a opinião pública ou com o próprio Congresso"

Debate:
Não vou perder meu tempo -- até porque tenho tão pouco! -- analisando o que disse Jarbas Vasconcelos. Não é preciso ser partidário de A ou B para saber que o que ele diz é uma bobagem de mão-cheia.

A questão que se coloca aqui é outra.

1) Como entender Collor-Lula, vinte anos depois de tudo o que o primeiro fez com o segundo, em 1989?
--> O Miguel do Rosário fez uma boa análise dessa relação Collor-Lula 2009, partindo do registro que a mídia fez dessa história.
2) Como está a oposição brasileira, diante de declarações como essa de Jarbas Vasconcelos, um dos principais nomes da ala antigoverno?

E aí, o que vocês acham?

quinta-feira, 16 de julho de 2009

A questão de Honduras

Hoje, o presidente da Venezuela, Hugo Chávez, disse o seguinte:

“Zelaya está comprometido a voltar. Zelaya voltará. Este ‘Gorileti’ não tem outro caminho que não o da lixeira da história. ‘Gorileti’ vai para o lixo.”

Chávez afirmou, com todas as letras, que Manuel Zelaya, o presidente deposto por golpe de Estado em Honduras, retornará ao poder. “Gorileti” é a forma depreciativa com a qual Chávez se refere a Roberto Micheletti, o presidente golpista que assumiu a presidência de Honduras no lugar de Zelaya.

A situação política no país alcança seu momento de impasse dramático: se Zelaya não voltar, nas próximas semanas, a oposição golpista terá atingido seu objetivo: as eleições se realizarão sem o presidente, o plebiscito que Zelaya queria realizar não ocorrerá e o golpe terá sido um sucesso.

Estado-imprensa-internet

"A internet não pode ser regulada. A imprensa regula o Estado, e a internet se contrapõe à própria versão da imprensa sobre as coisas. A internet é o espaço da liberdade absoluta, para além da liberdade de imprensa."

De Carlos Ayres Britto, minitro do Supremo Tribunal Federal (STF) e presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Comentário meu:

Ayres Britto acabou extrapolando um pouco, não na análise em si, mas no fato de falar abertamente sobre o assunto. É importante lembrar que sua frase foi retirada de uma entrevista que ele concedeu ao jornal Folha de S.Paulo. Outro ponto é que ele é presidente do TSE. Sobre o que se pronunciava? Sobre projeto no Congresso que espera regular as manifestações na internet - sites, blogs, chats, twitter, etc. - nas eleições do ano que vem. Esse projeto, invariavelmente, será pauta no TSE e cairá nas mãos do ministro Ayres Britto.

Sua opinião, de que a "internet não pode ser regulada", embora indiscutivelmente correta em seu conteúdo (no mérito) extrapola suas funções: Ayres Britto incorre no mesmo erro que Gilmar Mendes, presidente do STF, deita e rola, ou seja, se pronunciar fora dos autos sobre assuntos que são de sua alçada profissional.

Ayres Britto acerta pela opinião aberta, democrática e interligada com um novo mundo que muitos se esforçam em não ver -- que a internet revoluciona a maneira como as informações são transmitidas e debatidas -- mas erra ao se posicionar sobre isso numa entrevista (justamente!) de jornal. Fica claro e evidente: é antecipação de julgamento.

Atualização das 16:55:
O leitor Hugo Albuquerque deixou um comentário primoroso na caixa de comentários do post, mas chamo a atenção para o texto que o mesmo Hugo escreveu no blog dele, O Descurvo, sobre a questão levantada pelo post: Estado-imprensa-internet.

Para ler o texto do Hugo, clique aqui.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

A morte de Giovanni Arrighi

No último dia 19, morreu o cientista social Giovanni Arrighi. Ele foi dos maiores pensadores de História Econômica e certamente, dos maiores de nosso tempo. Lançou recentemente um livro sensacional, chamado "Adam Smith em Pequim" que ficou na cabeceira dos principais estrategistas econômicos e políticos do mundo no ano passado.

Dava entrevistas belícissimas, sempre com muita calma -- ainda que sua teoria clamasse exasperação diante do tempo que vivemos -- com muita precisão em seus argumentos, explicando com paciência ponto por ponto ao repórter que o entrevistava. Sua teoria forjou as melhores análises do período que vivemos hoje. Escrevi alguns textos sobre sua teoria no Blog antigo (que estão na seção "Arquivos Antigos" do lado esquerdo desta página) e ainda mais textos tentando entender o quebra-cabeça que está colocado sobre nosso tempo.

Vivemos tempos de mudanças, com enormes janelas de oportunidade se abrindo diante de todos. Mas, por ignorância ou por interesse escuso, quase ninguém percebe esse movimento global. Arrighi era dos poucos que sacava.

Abaixo, reproduzo a coluna do José Luís Fiori, publicada na edição de hoje do Valor Econômico. Fiori é colunista do Valor e também da Agência Carta Maior, onde, certamente, este artigo também será publicado.

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Giovanni Arrighi

Por José Luís Fiori

Morreu nos Estados Unidos, na cidade de Baltimore, no dia 19 de junho de 2009, o economista italiano Giovanni Arrighi, que foi professor, nos últimos anos de sua vida, na Universidade Johns Hopkins. Arrighi nasceu em Milão, em 1937, estudou na Universidade de Bocconi, e na década de 1960, participou da geração de cientistas sociais europeus e americanos que trabalharam na África, e se dedicaram ao estudo do desenvolvimento econômico, em países da periferia capitalista. De volta à Itália, na década de 70, e depois nos Estados Unidos, a partir dos anos 80, Giovanni Arrighi dedicou quase três décadas de sua vida intelectual ao estudo da “crise da hegemonia americana” dos anos 70, e das transformações econômicas e políticas mundiais das décadas seguintes, que passaram pela expansão vertiginosa da China e de grande parte da Ásia, e chegaram até à crise
financeira de 2008.

Aos poucos, Arrighi deslocou sua preocupação teórica do tema do crescimento econômico dos países periféricos e atrasados, para o estudo mais amplo, do desenvolvimento histórico do capitalismo
e do “sistema mundial moderno”, que se formou, expandiu e consolidou a partir da Europa, desde o Século XVI. Marx teve uma presença decisiva na formação do pensamento de Giovanni Arrighi, mas sua longa pesquisa sobre os ciclos e as crises econômicas e políticas da história capitalista partiu de outro lado, de três teses “heterodoxas” do historiador francês Fernand Braudel.
Segundo Braudel, o capitalismo não é igual à economia de mercado, pelo contrário, é o “anti-mercado”, e o segredo do seu crescimento contínuo são os “lucros extraordinários” dos “grandes predadores” que não se comportam como o empresário típico-ideal da teoria econômica convencional. Em segundo lugar, para Braudel, a força originária do capitalismo não veio da extração da mais-valia
dos trabalhadores, mas da associação entre os “príncipes” e os “banqueiros” europeus, que se consolida bem antes do Século XVI. E finalmente, ainda segundo Braudel, todos os grandes ciclos de expansão do capitalismo chegam à uma fase “otonal”, onde as finanças substituem a atividade produtiva na liderança da produção da riqueza.

Giovanni Arrighi parte destas três ideias básicas e formula sua própria teoria, no seu admirável livro “O Longo Século Vinte”, publicado em 1994. Ali, ele desenvolve, de forma mais acabada, suas próprias teses sobre o papel da competição estatal, e da competição capitalista
no desenvolvimento da história moderna. Uma sucessão de ciclos de acumulação econômica, liderados por uma sucessão de potências hegemônicas que mantiveram a ordem política e o funcionamento da economia mundial, graças à sua capacidade crescente de projetar o seu poder nacional sobre um espaço cada vez mais global: a Holanda, no Século XVII; a Grã-Bretanha, no Século XIX e os Estados Unidos, no Século XX. Segundo Arrighi, entretanto, estas sucessivas “situações hegemônicas” não suspendem os processos de competição e centralização do capital e do poder responsáveis pela repetição periódica de grandes crises e longos períodos de transição e reorganização da base produtiva, assim como de mudança da liderança mundial do sistema.

Do ponto de vista estritamente econômico, cada um destes grandes ciclos de acumulação seguiu uma alternância regular de épocas de expansão material com épocas de grande expansão financeira. Nos períodos “produtivos”, o capital monetário põe em movimento uma
massa crescente de produtos; no segundo período, entretanto, o capital liberta-se do seu “compromisso” com a produção e acumula-se — predominantemente — sob a forma financeira. É durante esta segunda fase, segundo Arrighi, que se acelera a formação das estruturas e das estratégias dos Estados e dos capitais que deverão suceder o antigo hegemon e assumir o comando do processo da
acumulação econômica, dali para frente, dando curso ao movimento contínuo de internacionalização das estruturas e instituições capitalistas.

Para Giovanni Arrighi, o conceito de “hegemonia mundial” se refere à capacidade de um Estado liderar, mais do que dominar, o sistema político e econômico mundial formado pelos Estados soberanos e suas
economias nacionais. E as “crises de hegemonia” que se sucederam através da história são rupturas e mudanças de rumo e liderança, anunciadas pelas “expansões financeiras”, mas também, pela intensificação da competição estatal; pela escalada dos conflitos sociais e coloniais ou civilizatórios; e pela emergência de novas configurações de poder capazes de desafiar e superar o antigo Estado hegemônico.

São crises que não acontecem de repente, nem de uma só vez. Pelo contrário, aparecem separadas no tempo, primeiro na forma de uma “crise inicial”, e depois de algumas décadas, na forma de uma grande “crise terminal”, quando então já existiria o novo “bloco de poder e
capital”, capaz de reorganizar o sistema e liderar o seu novo ciclo
produtivo. Entre estas duas crises, é quando a expansão material dá lugar a "momentos maravilhosos” de acumulação da riqueza financeira, como aconteceu no final do Século XIX, e agora de novo, no fim do Século XX. Giovanni Arrighi conclui sua longa pesquisa histórica com a certeza de que a “crise inicial” da hegemonia americana começou na década de 1970, e que a sua “crise terminal” está em pleno curso, neste início do Século XXI, quando já se anuncia um novo ciclo da acumulação capitalista liderado por um ou por vários países asiáticos.

A teoria e as previsões históricas de Giovanni Arrighi podem ser criticadas, de vários pontos de vista. Mas existe uma virtude na sua obra que transcende todas as críticas: Arrighi foi um dos raros economistas da sua geração que resistiu a tendência dominante do pensamento acadêmico do final do Século XX, às pequenas narrativas e à construção de modelos formais inócuos. Do ponto de vista teórico, Giovanni Arrighi, foi um “heterodoxo”, que soube retomar com criatividade, a tradição da grande teoria social dos séculos XIX e
XX, de Marx, Weber, Schumpeter e Braudel, para estudar as “longas durações” econômicas e políticas do capitalismo. Sua ousadia intelectual merece reconhecimento e homenagem, num tempo de mesmice e de grande pobreza de ideias.

José Luís Fiori
é professor titular do Instituto de Economia da UFRJ e autor do livro “O Poder Global e a Nova Geopolítica das Nações” (Editora Boitempo, 2007).

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Hoje tem debate no Consenso, Só No Paredão. Mais informações, clique aqui.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Debate: Extinção

Ocorre amanhã, no blog Consenso, Só No Paredão, tocado pelo Alexandre Nodari, o debate sobre o livro Extinção, do filósofo Paulo Arantes.

Para participar, basta visitar o blog do Alexandre na quarta-feira 15 de julho para acompanhar e/ou interagir com a discussão.

Mais informações, clique aqui.

Frase

"Devo esclarecer que eu simplesmente não posso ser a favor da exigência de diploma em jornalismo, ou de qualquer diploma, para o exercício da profissão de jornalista. Simplesmente, porque sou jornalista profissional há 49 anos, tendo apenas o diploma do secundário, pois não terminei o curso de Ciências Sociais na USP."

De Renato Pompeu, mestre do Jornalismo, atualmente editor-especial da revista Caros Amigos.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Dia do Rock

video

The Faces --- Rod Stewart (vocal), Ronnie Wood (guitarrista), Keith Richards (guitarrista convidado), Testsu Yamauchi (baixo), Ian McLagan (teclados) e Kenney Jones (bateria) -- interpretando "Sweet Little Rock 'n Roller", do mestre Chuck Berry, no último show do grupo, tendo como convidado Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones. The Faces foi uma das maiores bandas da história do rock, com vida curtíssima (1969-1974). Rod Stewart partiu para carreira solo e Ronnie Wood se juntou ao amigo Keith Richards nos Rolling Stones, onde está até hoje.

Para não deixar o post pesado, aí vão duas maravilhas que não poderiam ficar de fora:

O mestre Chuck Berry, com Let it Rock, ao vivo em 1972.

Os australianos do AC/DC com Rock and Roll Ain't Noise Pollution, de 1980.

*Hoje é dia mundial do Rock

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Atualização do dia 15/07, às 00: 35

O André, do blog A Volta dos Que Não Foram, também celebrou o dia do rock, colocando onze vídeos maravilhosos da seleção dele. Embora discorde do nono colocado e da importância dada ao sétimo -- poderia ter ficado mais à trás ou, até, substituído pelo Motley Crue ;-)

A lista do André é ótima e vale assistir todos eles (especialmente os três primeiros e o bônus!)

A questão das Forças Armadas no Brasil

Nos comentários ao post sobre o causo Lott em Campinas, que escrevi acerca da "revolução" de 1932, uma bola foi levantada acerca do papel das Forças Armadas brasileiras no contexto atual.

O leitor Patrick deixou o seguinte comentário:
Antes [do golpe militar de 1964], tinhamos os nacionalistas e os entreguistas. Depois da ditadura militar, as escolas de formação passaram a preparar predominantemente entreguistas. Sim, do ponto de vista aparente, na forma, são profissionais extremamente nacionalistas e amantes do Brasil, mas tem suas mentes impregnadas com as mesmas idéias de vassalagem que imperam em Honduras: são anti-povo, anti-democracia, anti-estado e estão sempre na defesa dos interesses das transnacionais estrangeiras.

Sobre militares e ditadura, o leitor Hugo Albuquerque disse o seguinte:
O problema é que a partir do tenentismo até o Golpe de 64, passando pela entrada do pensamento comunista em suas fileiras ali pelos anos 30, houve uma profunda convulsão para decidir qual espécie de FFAA nós teríamos. O Golpe foi um indicativo de qual lado havia vencido a briga internamente e a ditadura militar acabou sendo um tiro no próprio pé; esses militares arcaram com o ônus do projeto que eles foram a face visível, mas que no qual, na verdade, eram coadjuvantes, meras marionetes nas mãos gente que passou incólume.

Há alguns pontos importantes aí. Os militares são, por convicção e por norma, amantes do território nacional. É preciso marcar bem isso: convicção e obrigação são coisas distintas; o militar que não têm convicção naquilo que faz não é como um profissional que pode se rebelar ou o que for contra aquilo que lhe impõe a hierarquia: o militar que não acredita no que faz, ainda assim, é sobrepujado pela disciplina e pelo respeito ao superior, o que cria uma instituição de pensamento homogêneo.

Claro, não há pensamento homogêneo em qualquer aglutinação humana. Isso acontece também no Exército, ainda que a disciplina à conduta exemplar torne tudo um pouco mais rígido. Desde o começo da ascenção militar no Brasil, nas décadas finais do século XIX (Guerra do Paraguai e República em 1889), a divisão no comando das tropas ficou evidente.

O golpe de 1964 e as políticas subsequentes deixaram isso bem claro: o primeiro presidente, Castelo Branco, era sabotado e menos privilegiado frente à "ala dura", que ganhou poder em seguida, com Costa e Silva e Médici.

Eles não são, no entanto, entreguistas, em sua maioria (claro que existem os entreguistas e, evidentemente, quando estes alcançam cargos de maior evidência eles criam políticas deste tipo). As atas recentemente liberadas das reuniões dos serviços de inteligência e mesmo as reuniões de ministros, dos primeiros anos da ditadura no Brasil, deixam escapar depoimentos francamente anti-EUA, anti-empresas estrangeiras. Fica transparente -- e o governo Geisel foi símbolo disso -- uma intransigência quanto à defesa do conteúdo nacional na produção econômica. Nas artes, foi outra história.

Passando a questão para o papel das Forças Armadas hoje, o debate entre o Hugo e o Raphael Tsavkko. Vamos ao bate-bola.

Hugo Albuquerque:
Hoje, eu diria, sem medo de errar, que as nossas FFAA estão falidas. Não é uma mera questão de reaparelhamento como muitas análises simplistas levam a crer. É caso de todo um redesenho estratégico mesmo, de se adequar ao que se espera de uma FFAA num regime democrático nessa nova conjuntura multipolar. Se isso não for possível, melhor fazer como a Costa Rica mesmo.

Raphael Tsavkko:
Costa Rica? É forçar um pouco (muito), não? O grande problema das FFAA's hoje é, além da falta de estrutura, o controle total da elite militar ativa na época do Golpe, saudosista,s linha-dura, que passam para as tropas exatamente este pensamento retrógrado e golpista. Precisamos, antes de qualquer reaparelhamento e melhorias físicas, uma reforma completa de cima para baixo nas lideranças e no modo de pensar.

***
Pois bem, vamos lá.

Desde o fim do SNI (o Sistema Nacional de Informação), boa parte do serviço militar de alta patente -- me refiro aos quadros com poder de interferir no debate nacional e nos rumos da República -- foi relegado ao último plano possível.

O SNI tinha importância e um fator simbólico crucial para as Forças Armadas. Foi criado logo em seguida ao golpe, em junho de 1964, para aparelhar o presidente e as três forças (Marinha, Exército e Aeronáutica) de informações e estratégia militar. O desmantelamento econômico, a partir de 80-81 e, o fim da ditadura formal, em março de 1985 ajudaram na decaída militar, mas o golpe final foi dado por Collor, que tão logo assumiu em 1990, terminou com o SNI.

*Coincidentemente, os arapongas demitidos e marginalizados por Collor, ex-funcionários do SNI, foram os que mais levantaram informações e documentos que ligavam o esquema de Paulo César Farias (o tesoureiro de Collor) ao presidente. Ajudaram a oposição e a mídia*

A partir dos anos 90, as Forças Armadas tiveram esvaziamento de poder em todos os sentidos: de fato, pelas realocações ministeriais promovidas por FHC e Lula (já nos anos 2000); e simbólico, pelas investigações e apurações dos desmandos e crimes praticados durante a ditadura militar no Brasil. A série de livros escritos por Elio Gaspari (ex-editor da Veja e atualmente colunista dos dois jornais de maior circulação no Brasil, Folha e O Globo), lançou todos os holofotes sobre o período. Àfora qualquer julgamento acerca dos livros, o fato de Gaspari ter pesquisado e escrito aquilo -- e, mais que isso, o fato dos livros venderem muito bem -- fez com que os militares fossem mal vistos.

Em seguida e/ou ao mesmo tempo, eles foram esquecidos.

A questão militar, no Brasil, hoje, é lembrada em questões de defesa de território - como durante o debate acerca da demarcação de terras indígenas em áreas de fronteira -- ou em escândalos de espionagens. Não ajuda nada que o atual ministro da Defesa seja um descontrolado que adora chamar a atenção.

Pouco se pensa sobre as Forças Armadas. Seu orçamento é pequeno e sua estratégia é mínima. Pouco interessam. Isso pode ser bom ou ruim, mas não é isso que analiso aqui.

A mudança estratégica, o papel que o Exército deve desempenhar na sociedade brasileira contemporânea é um grande debate. Certamente, a atuação militar não deve ficar restrita ao "apaziguamento" de ânimos em comunidades carentes (favelas), sempre que um governador do Rio de Janeiro demanda. As Forças Armadas são mais que isso.

Discutir isso, tendo em mente o poder e a importância do desenvolvimento de novas tecnologias informacionais, é ótimo. Mas pouco se faz. E pouco será feito, diga-se.

O castigo pode se repetir...

A edição deste domingo da Folha trouxe, em sua seção "Tendências & Debates", um artigo apaixonado do jurista Saulo Ramos defendendo o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP). Ramos foi ministro da Justiça do governo Sarney (1985-1990) e, durante o período, um dos grandes defensores do governo.

Como todos, teve seus pontos positivos e negativos, como aquele governo, como um todo. Está afastado do debate público há anos.

O que mais impressiona no artigo (que pode ser lido aqui) não é nem a defesa incondicional de Sarney, nem mesmo a piada (só pode ser piada) de dizer que "em 30 anos de serviços prestados à nação, Sarney nunca fora acusado de nada". O que impressiona, de fato, está no último parágrafo:

Nosso país precisa aprender com as lições do passado. Sarney já foi submetido a um linchamento igual, pelos mesmos políticos, os mesmos veículos de comunicação, com pequenas variações, o mesmo estilo de acusações destituídas de seriedade até pelo volume crescente e diário da campanha sistemática sem verdade alguma que se comprovasse. Tudo igual. O resultado daquela primeira vez levou o Brasil a ser governado por um Fernando Collor. O castigo pode repetir-se.

A análise de Saulo Ramos é verdadeira: o governo Sarney foi bombardeado por todos desde sua posse, em seguida ao falecimento de Tancredo (21/04/1985). Seu governo foi desacreditado desde o início. O único momento de virada foi durante o Plano Cruzado, lançado no finalzinho de fevereiro de 1986 e carregado até o limite do impossível, quando estourou em novembro daquele ano. Seu auge foi no meio disso aí, entre março e agosto de 1986, mais ou menos, quando alcançou popularidade similar à de Lula no fim do ano passado. Recorde mesmo.

Oportunamente lembrarei do Cruzado por aqui (tenho alguns textos publicados no Blog antigo - na seção "Arquivos Antigos").

Depois do fracasso do Cruzado -- muito pela incompetência e populismo de Sarney em alongar e barrar mudanças de curso -- o governo entrou em parafuso e o Estado foi decaindo. A partir de 88, com entrada de Maílson da Nóbrega na Fazenda, a coisa foi pro beleléu: Sarney era achincalhado por todos. Mídia, oposição, situação, estrategistas estrangeiros, sociedade, etc.

Quando o jogo eleitoral começou a engrossar, no começo de 1989, todos os principais candidatos eram críticos do governo: Brizola, Lula e Collor. A aposta unilateral e total dos meios de comunicação na candidatura do "Caçador de Marajás" e na "limpeza do Estado corrupto do senhor José Sarney" fez com que Collor, rapidamente, ultrapassasse Lula (então 2º nas pesquisas) e Brizola (líder). Mesmo diante da ascenção do candidato do PT entre o primeiro e o segundo turno, quando Collor e Lula batiam no governo Sarney em igual medida, o fato de Collor propagar a "reforma" e "limpeza" do Estado -- na mesma época Reagan e Bush pai (EUA) e Margaret Thatcher (Inglaterra) eram louvados no mundo inteiro pelo neoliberalismo -- e Lula, ao contrário, defender teses de ampliação da participação do Estado -- quando o modelo de Estado forte decaía com o muro de Berlin, as manifestações na China e a vitória do Solidariedade na Polônia -- fez com que a defesa (que envolveu táticas criminosas, sempre bom lembrar) de Collor fosse decisiva para sua vitória.

Deu no que deu. Pouco tempo depois, a mídia inteira atacava Collor, que renunciou e sofreu impeachment.

Em seu artigo, Saulo Ramos compara aqueles ataques (dos anos 80) aos ataques atuais e preconiza que daqui poderemos encontrar um novo Collor.

Faltou apontar quem.

Trata-se, é claro, de uma defesa de José Sarney sem um foco específico. Ao escrever as linhas finais de seu artigo, Saulo Ramos quis causar constrangimento dos meios de comunicação e da "sociedade esclarecida" quanto aos ataques à José Sarney. Já escrevi sobre a situação de Sarney e do Senado (para ler, clique aqui e aqui).

Fato é que, mesmo sem apontar alguém -- simplesmente porque não há -- Ramos levanta uma bola perigosa. Collor, quando surgiu entre 87 e 88, virando queridinho em 89, simplesmente pegou para si tudo que se dizia que era "moderno". Ele acabou virando o marketing perfeito: tudo que era bom, moderno e classudo, aquilo que todo brasileiro, cansado de Sarney e dos "marajás" do serviço público, queria era Collor.

Hoje, se você pegar todas as críticas feitas contra Sarney e os "corruptos" do Senado (e do Legislativo como um todo), é possível desenhar o candidato perfeito para a mídia e a opinião pública. É até simples, na realidade.

Nas eleições do ano que vem, dois terços do Senado serão renovados. Estamos na metade de 2009: há tempo hábil para surgir um candidato "do nada" que empunhe as bandeiras do "novo". E aí, amigo, quem diria, o velho Saulo Ramos estará certo.

domingo, 12 de julho de 2009

Domingo

"Era preciso estar juntos, e não falar da vida que é puta e cachorrenta, nem das mulheres que são ótimas mas cansam, nem de amor que termina por tirar tudo o que deu e nem dest avontade de aniquilamento da personalidade individual que como tantos chegou minha vez de experimentar. Que me importa este cansaço e este peito oprimido, se eu sei que minha trajetória terá que continuar com eles ou sem eles, se eu não sei de onde vem, não quero saber, ando farto de mim mesmo, tenho vontade de ser outro, ando farto desta tristeza, destes nervos, ando farto deste esforço de vontade feito para que deste gosto do abismo, da amputação, do nada, nasça ou fique alguma coisa."

Gustavo Dahl, cineasta, em carta escrita à Glauber Rocha, de Paris, 10 de outubro de 1963.

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Anotações & Dicas

Estou correndo com tanta coisa. Na próxima semana fecho matéria (que sairá na sexta) e resenha (que sai na quinta). Ao mesmo tempo, tenho o expediente normal e o Blog para alimentar. Claro, sem esquecer o livro que estou escrevendo. Como se não bastasse, na próxima quarta-feira ocorre o debate sobre Extinção, do Paulo Arantes.

Trabalho muito, mas não sou dois. (Clichê isso, admito, but it's true :-)

Vão cá algumas (poucas e apressadas) sugestões:

O Mauro Santayana, escreve, como sempre muito bem, um ótimo artigo sobre a instalação da CPI da Petrobras, que está marcada para a próxima semana. Mauro dá uma volta histórica -- que passa pela lembrança do querosene Jacaré, do qual as casas do interior dependiam, que era produzido, importado e distribuído pela Standar Oil -- para chegar na importância da independência do petróleo e do momento que vive a Petrobras.

O Alexandre Nodari destrincha nossa (brasileira) maneira de ver a coisa pública: todos são corruptos até que se prove o contrário.

Um ótimo (e divertido) texto que o Celso Rocha de Barros escreveu sobre a noite de autógrafos do novo livro do Fernando Henrique Cardoso na Livraria Cultura.

E para finalizar esta rápida edição do "Anotações & Dicas", fica a sugestão deste incrível programa da BBC, que investiga os azares de Billie Holiday, uma das vozes mais privilegiadas do Jazz. Para quem gosta de boa música, o programa é imperdível.

Quem tiver mais dicas, fique à vontade em mandar.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A "revolução" de 1932

Para lembrar esse feriado ridículo de São Paulo (quando se comemora uma "revolução" fracassada), tiro um causo de um dos personagens mais idiossincráticos da história nacional.

Direto do baú do amigo Paulo Totti, provavelmente a memória mais ativa do jornalismo brasileiro.

Durante a campanha presidencial de 1960, o candidato governista, marechal Henrique Teixeira Lott, chegou a Campinas para discursar em palanque. A ideia, claro, era angariar votos e apoio popular à sua campanha.

Seu rival direto era Jânio Quadros, da UDN, que fazia sucesso com seu jeito malandro e sua campanha pela "limpeza pela ética", apoiando-se nas "vassourinhas do Jânio", que ajudariam a varrer a corrupção.

Lott era mais sisudo, militar austero e de fala desembestada. Figura típica do imaginário militar boa pinta, que fala sem pensar. Figura importante da República, foi o responsável por forçar a saída de Carlos Luz, depois que Café Filho (vice de Vargas, que cometera suicídio) adoeceu. Lott bancou Nereu Ramos, então presidente do Senado, e, assim, abriu caminho para que o resultado das eleições -- em que Juscelino fora eleito -- fosse respeitado. Fez um anti-golpe, portanto, ao tirar Carlos Luz.

Pois bem. Corria solta a campanha presidencial de 1960. Era ano auge do Brasil, que ganhara a boa vontade do mundo com o sorriso do presidente JK, as grandes obras rodoviárias e urbanísticas, a bossa nova e o futebol campeão de Copa. Ali, a democracia brasileira era testada, após a estréia de Brasília. Juscelino sairia e daria posse ao vencedor daquelas eleições.

Era com esses ares, institucionalmente falando, que Lott aportava em Campinas. Estava confiante, embora Jânio zarpasse com mais segurança no apoio popular.

Começou então seu discurso:

"É com grande satisfação que venho à Campinas. É minha segunda visita à esta importante cidade do Estado de São Paulo. A primeira vez que estive aqui foi em 1932, quando cerquei a cidade com tropas do Exército e mandei bombardear".

Não precisou falar mais nada, é claro.

***
Aos leitores que não moram em São Paulo, vale a memória. Por aqui, temos um dia de feriado em homenagem a uma "revolução" fracassada. Incrível.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Palin e os sinais dos tempos

Vivemos tempos difíceis na economia e na política. E não estou falando do Brasil.

Nos Estados Unidos, centro do mundo capitalista (essa frase soa anos 60, não?), a situação é terrível. Eles foram os criadores, formadores e sofredores de primeira instância da grave crise econômica que estourou no ano passado. Na mesma época, a Idade Média política (George W. Bush) foi finalmente expurgada do governo. Seu sucessor, Barack Obama, assumiu em janeiro último e, goste-se ou não, alterou o rumo diplomático (externo) e interno da política americana.

Neste primeiro momento, que vivemos hoje, a oposição fica como barata tonta. Primeiro pela simples perda do poder (Bush) e das eleições (McCain). Em seguida, porque todo seu discurso mais provinciano (Bush) foi assassinado por si mesmo. Afinal, mesmo com aquele horroroso primeiro governo (2001-2004), George Bush ainda foi reeleito. Foi preciso muita besteira, por muito tempo, todos os dias, para que eles perdessem tanta legitimidade. Foi suicídio, não exatamente méritos da oposição democrata.

Este é o estágio atual do Partido Republicano.

Não estou fazendo uma análise partidária, por favor. Isso é constatação diante de todos os sinais de membros e eleitores (maioria histórica nos EUA) dos republicanos.

O momento mais simbólico desse movimento de suicídio político ocorreu na última sexta-feira.

Lembram da Sarah Palin? Aquela governadora do Alasca que foi escolhida pelos homens fortes dos republicanos para ser vice-presidente na chapa de John McCain?

Pois então, na sexta ela anunciou sua renúncia ao governo do Alasca e, mais que isso, anunciou que não será candidata ao segundo governo (que têm direito). Segundo as primeiras manifestações, a saída de Palin “levantou especulações de que o objetivo dela é ser indicada em 2012 para ser candidata à Presidência do país pelo Partido Republicano”.

Que ótimo plano, não? Quer dizer, renuncia ao governo em 2009 como “estratégia” para a presidência em 2013. Não preciso denominar como ignorante e suspeita sobre qualquer ponto de vista esta decisão, preciso?

Vejam, agora, o editorial que o jornal Financial Times publicou na edição de segunda-feira (a tradução é deste blogueiro que vos escreve):

Apenas três anos atrás, o Partido Republicano gozava de maioria no Senado e na Casa dos Representante, além da Casa Branca. Agora, está sem os três. Mas o movimento conservador está sofrendo de problemas muito mais profundos que uma impopularidade passageira.

No último mês, uma leva de potenciais candidatos para a nomeação republicana para as eleições de 2012 se auto-destruíram. O caso mais recente é de Sarah Palin, governadora do Alasca e candidata à
vice-presidência dos republicanos nas eleições presidenciais de 2008, que anunciou que ela deixará o governo de seu estado.

Seu discurso não ofereceu qualquer racionalidade para essa estranha decisão. A falta de uma lógica coerente por trás de suas ações e palavras deu espaço para as suspeitas de que este movimento pode ser uma gambiarra para fugir de um escândalo. Neste momento, apenas uma coisa está clara: se este foi um primeiro passo calculado para a corrida presidencial de 2012, foi um erro retumbante.

Obama completará, no próximo dia 20 de julho, seus primeiros seis meses de governo. Ainda é muito cedo para fazer qualquer julgamento (ainda que muitos analistas já anunciam seu fracasso ou seu sucesso). É possível, apenas, sacar alguma tendência diante de atitudes e discursos, mas nada conclusivo.

A análise que faço aqui, abrindo o debate, é de caráter ideológico e conjuntural. Vivemos tempos curiosos (para não usar outro termo): enquanto a América Latina se reforçava (reforça?) num movimento de projetos nacionalistas integrados por políticas comuns de apoio à povos desprivilegiados, estoura um golpe militar francamente conservador em Honduras. Enquanto os EUA se abrem para o diálogo e vêm o ocaso do conservadorismo isolacionista, o Parlamento Europeu assiste a uma vitória esmagadora dos partidos da direita, que saíram fortalecidos das eleições gerais.

A lanterna fica acesa em busca de um foco. Parece difícil tirar uma explicação geral que dê conta de analisar e compatibilizar todos os movimentos e contra-ataques. Mas parece mais difícil ainda fazer com que todos percebam o momento que vivemos.

Ainda é mais gratificante ficar alheio da política, como se nada estivesse acontecendo.

A música brasileira nas novas mídias

Uma das melhores coisas, para quem gosta de música, é dar uma boa passeada pelo YouTube. Lá se encontra de tudo: se não tiver videoclipe, alguém gravou o show, se não, basta uma colagem de imagens que acompanhe a canção. Dá para ouvir -- e ver, claro -- de tudo.

Mas o melhor mesmo está em cavucar raridades. Trechos de filmes perdidos no tempo, gravações de programas de televisão, músicas esquecidas na memória ou mesmo descobrir interpretações raras. E nosso maior orgulho, nossa música, está em peso por lá.

Agora à noite, depois da correria do jornal e de um bom bar com os amigos, fico me deliciando com o que encontro no Youtube. Mas, melhor ainda, é casar as novas mídias: dei uma passada no Twitter (meu perfil é http://twitter.com/joaovillaverde) e topei com uma dica de matar do amigo Thiago Gonçalves, que toca o blog bratislava.

Eis que Thiago, com seu infalível codinome de Twitter (o @aldurin), saca Elis Regina interpretando Adoniran Barbosa, ao lado do próprio Adoniran, em gravação de 1978. O vídeo (assista clicando aqui) só tem coisa boa: "Iracema", "Um samba no Bexiga" e "Saudosa Maloca". Foi gravado no saudoso Bar do Carmela, no Bixiga. Um grande amigo meu, o Nikolas D'Orto, mora lá na Major, perto do Carmela.

Empolgado, devolvo com uma das minhas preferidas: Nara interpretando "Opinião", clássico máximo do Zé Kéti. A gravação da Nara Leão é de 1965 e foi feita justamente no Festival Opinião, a primeira grande manifestação cultural contra a ditadura.

Já na roda, o Thiago me vem com Chico e João do Vale na belíssima "Carcará", em 1982. Uma maravilha.

Resolvi apelar com uma joia rara: mestre Pixinguinha, acompanhado de ninguém menos que Baden Powell e um João da Baiana bem velhinho, interpretando "Lamento". A gravação faz parte do documentário Saravá, do Pierre Barouh, de 1969. (Aliás, quem tiver acesso à este documentário, me mande um e-mail, por favor).

Thiago respondeu com o grande Jackson do Pandeiro mandando bala na "Sebastiana", ao vivo em 1979 nos estúdios do canal estatal do Rio (a TVE). A música é ótima, mas o melhor está na interpretação, bem ao modo de Jackson: canta como se estivesse indo embora, se fazendo de jeitoso, mas que no fundo está querendo ficar e cantar mais.

Uma beleza só, dialogar com o melhor da música brasileira em atuações de deixar o queixo caído. O post, aqui no Blog, serve para lembrar que o caminho está aí: debate de ideias -- quaisquer que sejam -- com enorme interação entre o passado e o presente, apoiando-se nas plataformas das novas tecnologias.

Isso tem de ser ampliado.

terça-feira, 7 de julho de 2009

Obama, Lula e o golpe em Honduras

A análise é do cientista político Marcos Nobre, hoje, na Folha:

De maneiras diferentes, os governos de Bill Clinton e de George W. Bush foram extensões canhestras da Guerra Fria. O primeiro inventou a guerra humanitária. O segundo, a guerra preventiva. Obama veio para enterrar esses esqueletos e negociar uma nova "pax" americana. Mas o roteiro está sendo escrito à medida que o filme vai sendo rodado. E Honduras não estava no script. Só que o impasse está instalado e não vai se dissolver no ar. A estratégia protelatória e risível de "ultimatos" da OEA já se esgotou. O confronto é iminente. E o governo Obama simplesmente lavou as mãos. É justamente nesse momento de inação do governo norte-americano que o Brasil deveria aparecer e dizer a que veio. Brincar de líder regional quando o dono do pedaço tira férias é fácil.

Opus Dei recorrentemente no noticiário. Você sabia?

Sabem o Ives Gandra Martins? Aquele mesmo que é usado como fonte de 9 entre 10 reportagens "analíticas" quando o tema é legislação e tributos? O mesmo que, mês sim, outro também, assina artigos na seção Tendências & Debates da Folha de S.Paulo.

Pois então. Na pesquisa que estou fazendo para o livro, deparei com uma obra há tempos fora de catálogo do José Nêumanne, chamada A República na Lama. Trata da escalada de denúncias contra o governo Collor, tendo sido escrito em forma de diário e lançado em agosto de 1992, no olho do furacão e antes do impeachment.

Na página 155, vejam como José Nêumanne apresenta nosso herói:

"Ives Gandra Martins, tributarista ligado ao grupo de direita católica da Opus Dei e irmão dos pianistas clássicos João Carlos e José Eduardo Martins, contou, numa reunião tradicional na Livraria Cultura, em São Paulo, um episódio interessante sobre a crise política provocada pela CPI do PC Farias."

Essa é surpreendente, não? Nosso herói, fonte básica de qualquer matéria que se preze e renomado autor de livros e artigos publicados na imprensa, é ligado "ao grupo de direita católica da Opus Dei". E quem disse isso foi o José Nêumanne, em 1992! Para quem não sabe, José Nêumanne é editorialista do Jornal da Tarde (que pertence ao Grupo Estado), colunista do Estadão e comentarista da rádio Jovem Pan. Não é, a julgar por suas opiniões, um cara de esquerda ou até de centro.

Não há nada de errado com o fato de José Nêumanne ser de direita (ou não, ele que sabe). Apenas imputa que, ao posicionar Ives Gandra Martins como pertencente "a direita católica da Opus Dei" Nêumanne não está, com isso, dando juízo de valor sobre o espectro ideológico a que nosso herói pertence. Não há dúvidas quanto a isso. José Nêumanne está, pura e simplesmente, colocando Ives Gandra Martins em seu devido lugar, ou seja, fazendo o trabalho concreto. Ives Gandra Martins vai dizer qualquer coisa sobre política, economia ou Judiciário? Ótimo, que diga. Mas que seja apresentado como "ligado ao grupo de direita católica da Opus Dei", assim, todos poderemos julgar suas opiniões pelo que são.

Também não há problema em Ives Gandra Martins ser ligado "ao grupo de direita católica da Opus Dei". A questão não é essa. Ser ligado a Opus Dei não é ilegal, ele -- e qualquer outra pessoa -- pode fazer o que quiser, não tenho nada a ver com isso. O que estou chamando a atenção aqui é outra coisa: este não é um fato pequeno da vida e do pensamento político e jurídico de Ives Gandra Martins, algo que pode ser deixado de lado. Não é não. Saber que ele é ligado à Opus Dei é crucial para poder dimensionar as eventuais críticas e sugestões que Ives Gandra Martins faça, sempre que assina um artigo publicado em jornal ou é entrevistado - em jornais, revistas, rádio e tv - sobre determinado assunto.

(Tá, ok, se ele for entrevistado para falar de futebol ele não precisa ser apresentado como pertencente à direita católica).

Mas já cansei de ler artigos e reportagens (quase toda semana, fiquem atentos!) citando nosso herói Ives Gandra Martins como "autoridade" em determinado assunto. Melhor seria que, da próxima vez, seja dito que Ives Gandra Martins é ligado "ao grupo de direita católica da Opus Dei".

E que a vida continue igual, apenas com mudanças aqui e acolá.

Amém. ;-)

segunda-feira, 6 de julho de 2009

O novo procurador-geral da República

Na semana passada, o presidente Lula (finalmente) definiu quem será o novo procurador-geral da República, substituindo Antonio Fernando de Souza, que pediu para deixar o cargo após dois mandatos consecutivos. Lula respeitou a votação dos membros do Ministério Público Federal, que escolheram Roberto Gurgel (sub de Antonio Fernando) por uma pequena margem sob Wagner Gonçalves.

Em 2005, Antonio Fernando de Souza foi eleito procurador-geral para exemplificar uma meta: republicanizar o trabalho de apuração, denúncia e julgamento no Brasil. Trata-se de um dos melhores quadros do Ministério Público brasileiro. O auge de seu trabalho foi durante as investigações do "mensalão", quando Souza formalizou a denúncia do Ministério Público contra membros influentes do governo. A denúncia chegou no Supremo e cumpre regimento interno.

Com sua decisão de deixar a função, a votação entre os procuradores abriu espaço para um grande debate dentro da instituição: um candidato mais moderado, semelhente ao perfil de Souza -- no caso, seu subprocurador, Roberto Gurgel -- ou um candidato mais direto -- no caso, Wagner Gonçalves.

A análise abaixo é do Fred Vasconcelos, em seu blog:


Questionado, por exemplo, se o STF extrapola ao adicionar regulamentações em suas decisões, Gurgel disse que "o ideal é que os Poderes da República funcionem na harmonia prescrita na Constituição, sem exorbitar suas atribuições".

Gonçalves já divergiu abertamente de Gilmar Mendes em alguns episódios, inclusive quando o presidente do STF decidiu pela liberação do banqueiro Daniel Dantas.

Diante da atuação dinâmica de Gilmar Mendes -- trazendo o Conselho Nacional de Justiça para o centro do noticiário -- o MPF ficou "apagado". Em parte, atribui-se esse clima à atuação discreta de Antonio Fernando. Para muitos, a opção Wagner Gonçalves poderia representar a recuperação de um espaço perdido pelo MPF.

A decisão de Lula foi acertada, embora tenha demorado tempo demais (quase 40 dias após o prazo determinado). Roberto Gurgel foi o mais votado na eleição para procurador feita pela ANPR (Associação Nacional dos Procuradores da República) e, embora parcela relevante da opinião pública tende a defender um perfil mais combativo para o cargo -- como forma de se contrapor aos excessos do presidente do Supremo --, é importante manter o preferido dos procuradores. Escolher o primeiro colocado, mesmo numa eleição apertada, denota respeito à toda a instituição e, mais que isso, dá legitimidade ao novo chefe da Procuradoria Geral da República.

Para assumir, Roberto Gurgel precisa agora ser sabatinado pelo Senado.

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Atualização das 16:10

Temos boas análies dos leitores sobre a Procuradoria-Geral da República. São dois pontos levantados: 1) o fato de existir a possibilidade do presidente não escolher o mais votado pelos procuradores e 2) o perfil do novo procurador-geral, mais moderado, tendo em vista a enorme notoriedade dada ao STF (especialmente ao seu presidente, Gilmar Mendes).

Concordo que o sistema é um tanto arcaico, por dar grande poder discricionário ao presidente. Não deixa de ser um tanto esquisito que os procuradores escolham aquele que julgam o melhor para ocupar o cargo máximo do Ministério Público Federal e que o presidente atravesse a escolha. O fato de Lula ter mantido o mais votado entre os membros do MPF é positivo para a democracia e segue o fortalecimento do republicanismo.

Entendo (e compartilho em parte) a defesa de um perfil mais pró-ativo do procurador-geral, menos permissivo ao excesso de poder e atenção que ganhou o presidente do Supremo Tribunal Federal. Embora Gilmar Mendes não seja o único com tendência à pavão (no sentido de atrair os holofotes ao se pronunciar sobre tudo), é preciso lembrar que sua posição lá é passageira. Ele deixará de ser presidente do STF. O Procurador-Geral perderia tempo entrando nas picuinhas de Gilmar Mendes.

domingo, 5 de julho de 2009

Domingo

"Quando comecei, nos anos 60, eu tocava em bandas pequenas e via ao meu redor uma gloriosa paisagem. Você olhava para a esquerda e lá estava Syd Barret, e você olhava pra frente e via o Kinks, e atrás, Chuck Berry e Bo Diddley, e no outro lado, Bob Dylan, e atrás dele, escritores como Ginsberg e Burroughs... Hoje você tem livros de auto-ajuda do Deepak Chopra! Você tem U2, Coldplay e novas bandas de neopunk que eu ouço e depois nem lembro os nomes. Sabe, eu não fico muito inspirado por isso."

Iggy Pop, músico e compositor.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Literatura de julho: A Última Estação



Estou lendo alguns livros ao mesmo tempo. Aliás, isso não é nem bom, nem ruim, mas uma característica pessoal que me persegue desde sempre (por mais que eu tente me desvencilhar dela). Além da pesquisa para formar o livro que estou escrevendo (e o prazo se esvaindo), estou com um pendurado para uma resenha e outro, um romance, que não guarda necessidade profissional ou acadêmica.

É sobre este último que quero falar.

Ler um romance, ainda que um romance histórico, é também uma necessidade. Em meio a teorias de formulação ideológica das elites dos países centrais, o papel da comunicação e da publicidade como canal de transmissão da hegemonia americana, teses sobre o neoliberalismo na América Latina durante os anos 80, ler alguma coisa que envolva um "plot", um argumento, ainda que calcado em fatos históricos, é uma necessidade para manter a mente sã. No meu caso, ao menos.

A Última Estação, de Jay Parini, reconta o último ano de Liev Tolstói (ou, em russo, Лев Николаевич Толстой), um dos maiores da literatura mundial. Qualquer pessoa que tenho lido Guerra e Paz sabe do que estou falando. O enredo é verdadeiro, ainda que nuances sejam criadas para sustentar certas ações e atitudes que, sem registro histórico, só podem ser traçadas com conhecimento da causa e um tanto de criatividade. É exatamente isso que transpira (para usar uma expressão clichê) do livro de Parini: ele demonstra total compreensão das personagens e sua criatividade é tão sutil que se perde -- no melhor sentido -- no meio da história.

É o seguinte: Parini partiu do diário de todos os participantes do último ano de Tolstói: ele próprio, Liev Nikolaievich Tolstói; sua esposa Sofia; seu assistente recém-contratado Bulgákov; Tchekhov (outro grande escritor russo); Sacha (a filha preferida) e outros, como o médico particular. Todos eles tinham diários ou anotações sobre aqueles tempos e Jay Parini pesquisou e cruzou informações de todos eles. Há muita pesquisa em biografias, evidentemente. Não apenas Tolstói e Tchehkov, mas também Sofia e Bulgákov tiveram ótimas biografias escritas nos anos 60 e 70, que dão embasamento pessoal e tornam o personagem mais amplo.

A história é contada em capítulos curtos, que são escritos pelas próprias personagens. Claro, quem escreve e dá voz à todos é Jay Parini -- exceção feita aos textos do próprio Tolstói, que são publicados na íntegra -- que (re)constrói as situações por meio das diferentes visões do mesmo fato (os diários individuais deram esta perspectiva a ele), mas sem se perder em fatos repetidos: o livro caminha como um todo, ainda que cada um tenha interesses, angústias e entendimentos distintos das mesmas situações, tudo isso é contado tendo o argumento como primeiro plano. Nada é mais importante em A Última Estação que a história que é contada pelos moradores da mansão de Liev Tolstói, em Iasnaia Poliana, na região de Tula.

Ainda não terminei o livro -- a pauleira do dia-a-dia não permite uma leitura voraz, qualquer que seja -- por isso a resenha se encerra na análise da forma, e não pode ser abrangente ao ponto de garantir boa leitura até o final (lembrem-se da lição: "o jogo só acaba quando termina", até lá, amigo, as coisas podem mudar).

Seja como for, fica aqui a dica e o sentimento: A Última Estação é ótimo.

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A imagem que ilustra o post é a pintura Lev Tolstoy at His Desk ("Liev Tolstói em sua Escrivaninha"), de Nikolai Nikolaevich Ge.
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